sexta-feira, 31 de julho de 2015

Da beleza e da beleza

O que distingue um pôr-do-sol de um pôr-do-sol? O que distingue um quadro de um quadro? O que distingue um poema ou um música de um poema ou de uma música? O que distingue, no fundo, a beleza da beleza? A resposta está na diferença entre as duas frases: é bonito mas não me diz nada ou é bonito e diz-me tudo.

Toda a arte nos interpela; toda a natureza - nada mais do que arte viva - nos interpela. Um quadro, um soneto, uma música, um renque de flores verdes, um mar alteroso, o vento a soprar baixinho na planície, a lonjura do céu. Dentro daquilo que se convenciona chamar "belo", tudo nos provoca uma emoção. É bonito mas não me diz nada.

Uma fracção da arte agarra-nos pela mão: aquele poema, aquele quadro, o mar a perder de vista ou o silêncio que nos tranquiliza a alma. São objectos, momentos, imagens que nos encaminham para uma lembrança, uma perda, uma alegria, para pessoas que são da nossa história de ontem ou de hoje, ou que calcorrearam as nossas ruas. Nesse momento só há duas pessoas no mundo: quem canta, quem escreveu, quem esculpiu e nós, esses nós que se deixam levar pela mão, que sustentam o olhar com o artista, porque no fundo no fundo, no meio de uma multidão de espectadores, não há mais ninguém: nós e ele. É bonito e diz-me tudo.

JdB

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Das folgas

Hoje folgamos todos - o dono e editor do estabelecimento e os fiéis e surpreendentes leitores... Volto amanhã, em correndo tudo bem.

JdB


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Saudades de um tempo que não se viveu...

Praia de Vale de Lobo, ontem pelas 21.00h (tirada por mim, em fato de banho, com um iPhone...)
Aproximou-se de nós para vender bolas de Berlim com e sem creme. Deveria ter a minha idade, pois falou de uma filha com 23 anos, por aí, e de outro ainda a estudar. Pelo facto de termos pedido uma bola extra quis oferecê-la. Recusámos, dizendo: era só o que mais faltava! Este é o seu trabalho... Já agora, o que faz durante o inverno? 

Contou-nos a sua história. Que era de Serpa (o sotaque alentejano era óbvio) que tinha um negócio de construção civil que tinha corrido mal. Disse mal - muito mal - do Sócrates. Que esta maltosa só quer governar-se, não quer governar ninguém... E falou do Salazar que, mais do que bom homem e honesto, era um santo, que tinha morrido dono apenas de um chão de terra (expressão sua) e que tinha um Volkswagen. Conhece alguém que tenha um carro pior do que o do Salazar? perguntou-nos.

Já de pé ainda disse: há para aí uma excursões para ver a terra do Salazar. Estou e pensar inscrever-me numa....

JdB

terça-feira, 28 de julho de 2015

Duas Últimas

A convite de amigos generosos, estou no Algarve a banhos, mais precisamente Vale de Lobos. Da qualidade da companhia não falo, que ça va sans dire... Tempo magnífico (talvez um tudo-nada de calor a mais) praia bastante deserta, água fresca, propícia a queixas de quem gosta de águas mais quentes.

Ontem, depois de um magnífico jantar no Casa Vostra (pizzas e massas) demos uma volta pela noite de Vale de Lobos. O que se viu? Ingleses de um meio bastante mais médio do que o nosso (para usar uma expressão muito lá de casa) meios bêbedos; elas pelo mesmo caminho, mas com uma descompostura de comportamentos e vestimenta de bradar ao céu. Vimos, inclusivamente, raparigas cujo vestido seria difícil de descrever, considerando que estavámos para lá das 2 da manhã: era como se tivessem vindo da praia de biquini e colocassem um balandrau por cima. O biquini, óbvio, bastante visível. À hora a que nos atirávamos ao regresso, uma pequena escaramuça - ingleses contra seguranças / GNR. Semi-pacífica, sem facas nem pancadaria grave. Mas se todos os ingleses se tivessem voltado contra a GNR esta teria perdido...

Deixo-vos com o Dallas String Quartet, que conheci ontem, enquanto se esperava por um gaspacho e uma tortilha e com gente idêntica, mas de Berlim... 

JdB


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Vai um gin do Peter’s?

De uma povoação remota da Tanzânia, junto à fronteira com Moçambique, vem o talento vitamínico e elegante do pintor Edward Saidi Tingatinga (1932-1972), que transpõe a natureza pujante e colorida de África para a tela, numa harmonia e serenidade espantosas. Nos dois primeiros nomes tem as marcas da sua dupla herança: cristã do lado materno (Edward) e muçulmana do lado paterno (Saidi). Com uma vida atribulada, percorreu diferentes regiões da Tanzânia aproveitando as oportunidades de trabalho que surgiam. Acabou por ter uma carreira artística muito breve, de apenas 4 anos. Apesar disso, a sua obra marcou a arte do continente, parecendo inspirar-se nos murais africanos primitivos. Por isso, é simultaneamente tão nova e tão expectável.  
Nos anos 50, mudou-se para o Norte do país, para ir trabalhar numa fazenda agrícola, conseguindo depois tornar-se cozinheiro de um oficial britânico que acabou por o promover a jardineiro. Foi nessa altura que começou a explorar hobbies artísticos, na música e na pintura. Utilizando os resíduos domésticos, como fragmentos cerâmicos e ladrilhos variados, em telas de tamanho portátil, coloridas com tintas de fabrico caseiro, fazia composições naïves e bem humoradas, a representar a vida selvagem da savana. Entre os turistas ocidentais, rapidamente transformou-se num ícone da África dos safaris, ganhando suficiente para se dedicar em exclusivo à arte. Apesar da morte prematura em 1972, baleado pela polícia que o confundiu com um fugitivo, Tingatinga deixou inúmeros seguidores e até imitadores das suas telas, clonadas ad exaustum.  Esse o motivo por que algumas das aqui postadas suscitam dúvidas de autoria.
As paisagens lindas e orgânicas, pacíficas e funcionais caracterizam o seu legado, com um humor refrescante, que alguns críticos sustentam conter sarcasmo e mordacidade. É possível que também pese o olhar de quem observa a sua obra, incrédulo por provir do nativo de um continente dilacerado por guerras, fome e violência de toda a ordem. Até os predadores que habitam as suas telas sugerem bonomia, em poses tranquilas e garbosas, mas sem a fantasia infantil de se verem reduzidos a animaizinhos de estimação negando-lhes a evidente indomabilidade. Por isso, o pintor mantém-lhes o olhar faiscante de felinos, apenas depurando-os da agressividade mais primária e sanguinária. Aliás, não é pouco pousarem (quase sempre) sem herbívoros por perto, a salvo de possíveis tentações. Acima de tudo, adivinha-se-lhes nobreza de carácter. Neles e nas suas presas. Até as plantas verdejantes, que serpenteiam festivamente por toda a arte de Edward T., ajudam à animação.    
Atribuível a Tingatinga, apesar da multidão de imitadores do seu estilo.

Um olhar tão confiante e entusiasmado sobre o Continente Verde é, só por si, um balão de oxigénio, tanto mais meritório quanto Tingatinga assistiu em directo ao dolorosíssimo processo de descolonização de inúmeros países da África austral, marcados por banhos de sangue e crueldades tremendas. De onde lhe veio então tamanha confiança, como se tivesse vivido num jardim paradisíaco onde reinasse a felicidade suprema? Terá estado no mesmo planeta problemático do século XX? É verdade que a figura humana rareia, o que não será destituído de significado. 
Ainda assim, a regra acaba por ser confirmada pela melhor excepção, com as silhuetas lindas das mulheres africanas, invulgarmente etéreas na perspectiva de Edward T. Bem em destaque, dispensam os adornos decorativos da vegetação, como se o céu fosse o único cenário à altura da sua passagem.

Na mesma linha, são raros, mas não menos bonitos, os vestígios da presença humana na paisagem alegre do continente, com habitações maravilhosamente integradas na natureza, dando espaço à fulgurância da flora circundante, sem se imporem minimamente.  

No estilo de Saidi

O belo é uma constante na sua obra, ilustrado através das múltiplas facetas da vida natural sempre em composições onde até os cardumes de peixes acinzentados brilham em movimentos coreográficos que lembram os passos de dança na natação sincronizada. Sim, tudo se torna estético depois de cruzar o olhar e o pincel do pintor apaixonado pelo reino vegetal e animal de África. Significativamente, os sites com as suas pinturas auto-intitulam-se  another-africa, inside-african-art, etc. 
Muito curiosa a paleta de cores híper comedida e imprevista num africano rodeado pelo colorido intenso dos trajes dos seus conterrâneos, que são verdadeiras explosões cromáticas, transpostas em versão bem menos garrida por Edward T. De facto, reduz o espalhafato mas não o efeito cénico, esse sempre ao rubro.

Uma das grandes ironias de Tingatinga ressalta numa natureza-morta à base de frutos, formando um conjunto bastante vistoso, apesar do espectro de tons ser pobre. Simplesmente, a escolha cirúrgica de tonalidades contrastantes surte o efeito oposto. Será possível aplicar à tela o nome técnico de natureza-morta? É um facto que a expressão inglesa still  live é bastante mais feliz para designar este tipo de composições, embora no caso de Edward T. também seja de difícil aplicação, de tal modo a sua arte está impregnada de vida. Só não tem violência nem carga negativa.

Mesmo a variedade que sobressai nas suas obras tem qualquer coisa de ilusório, pois o pintor recorre frequentemente à repetição de elementos, tendendo para uma padronização que confere harmonia ao todo. A partir de um jogo de formas hábil consegue sugerir uma diversidade e um movimento que estão longe de ser reais. A colocação certeira de cada elemento (em geral, bichos) forma uma trama coerente, deixando de se percepcionar individualmente cada parcela do todo. Por isso, a maioria dos quadros de Tingatinga é comparável à polifonia dos coros musicais, valendo o resultado pela pluralidade de vozes bem orquestradas, não fazendo qualquer sentido dissociá-las umas das outras. É o caso dos peixes ou até das girafas na tela em baixo à esquerda.

Outra invulgaridade deste artista é a superabundância de fundos escuros, parecendo esquivar-se ao sol abrasador daquelas paragens.

Parece antes preferir os poentes e o pousio nocturno da selva, embora a plena actividade animal que pinta não se coadune com o sossego das noites na savana. De facto, trata-se de um efeito decorativo, onde o cenário escuro proporciona maior realce e brilho ao que se exibe em primeiro plano. Aplicando a mesma lógica, noutros casos optou por fundos laranja fogo, a coincidir com os tons do entardecer, dando maior vivacidade aos animais de listas em preto-e-branco. E ainda lhes aguçou o olhar tingindo o branco leitoso da esclerótica ocular de laranja na tela à esquerda, ou de encarnado nos antílopes ao centro, ou de amarelos quentes na galinhola da direita.
Telas atribuíveis a Edward T.

Predomina no seu portfolio uma suavidade próxima do silêncio, como se espreitássemos os primeiros segundos da criação, quando as diferentes espécies se começaram a passear pela terra para se darem a conhecer uns aos outros, sem a rotina sobressaltada da sobrevivência que, posteriormente, se terá instalado. Estaria a vida animal a despontar no planeta, querendo cada qual confirmar presença no reino dos vivos, quase numa exibição cordata, de acordo com o relato do Génesis?   
Na tela da esquerda, surgem ao fundo as neves eternas do Kilimanjaro.

 A concluir esta exposição virtual a telas que alguns denominam, sardonicamente, por arte de aeroporto, uma nota de humor e boa disposição com feras em acrobacias improváveis e q.b. divertidas. Pelo menos, poderá ajudar quem ainda não está de férias a ganhar fôlego para o arranque, depois do fim-de-semana.


Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

domingo, 26 de julho de 2015

17º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 6,1-5

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia,
ou de Tiberíades.
Seguia-O numerosa multidão,
por ver os milagres que Ele realizava nos doentes.
Jesus subiu a um monte
e sentou-Se aí com os seus discípulos.
Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.
Erguendo os olhos
e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro,
Jesus disse a Filipe:
«Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?»
Dizia isto para o experimentar,
pois Ele bem sabia o que ia fazer.
Respondeu-Lhe Filipe:
«Duzentos denários de pão não chegam
para dar um bocadinho a cada um».
Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro:
«Está aqui um rapazito
que tem cinco pães de cevada e dois peixes.
Mas que é isso para tanta gente?»
Jesus respondeu: «Mandai sentar essa gente».
Havia muita erva naquele lugar
e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil.
Então, Jesus tomou os pães, deu graças
e distribuiu-os aos que estavam sentados,
fazendo o mesmo com os peixes;
E comeram quanto quiseram.
Quando ficaram saciados,
Jesus disse aos discípulos:
«Recolhei os bocados que sobraram,
para que nada se perca».
Recolheram-nos e encheram doze cestos
com os bocados dos cinco pães de cevada
que sobraram aos que tinham comido.
Quando viram o milagre que Jesus fizera,
aqueles homens começaram a dizer:
«Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo».
Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei,
retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.

sábado, 25 de julho de 2015

Pensamentos impensados

Brasil ressuscitado
No Brasil, assim que as minas de pedras preciosas se esgotaram, logo disseram isto foi chão que deu uvas. Hoje pode dizer-se que o Brasil é chão que dá luvas, sendo o maior produtor um tal Luva da Silva, que no Sertão é também criador de um animal chamado lula da selva.

Mais Lázaro
Quando Jesus Cristo ressuscitou Lázaro, houve gritos de espanto.
Diz um dos presentes: a morte tem os dias contados.
Diz outro: e sem desfibrilhador.

Dar música
Era um músico tão mau que só tocava socatas.

Seporte
O golfe é um desporto de rufias, tudo se resume à pancada.

Iguarias
Para se tornar notado, o pudim de gelatina faz um esforço, tremendo.

Felicidade
As baleias e o golfinhos sentem-se no mar como peixe na água.

Bebidas quentes
A polícia grega desconfia que os cocktail Molotov são lançados pelos fabricantes de gravatas.

Bebidas frescas
Fogo rescaldado de água fria tem medo.

SdB (I)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Da impontualidade

Declaração de interesses 1: sou profundamente pontual. Declaração de interesses 2: sou obsessivamente pontual. Conto uma história que elucida: um dia fui com amigos a Sevilha aos touros. Já lá vai muito tempo, numa altura em que uma chamada de telemóvel era cara, sobretudo se envolvesse roaming. Combinámos o encontro na cafetaria do Corte Inglés, pelas 13 horas. A essa hora eu estava na cave, no supermercado, com um atraso previsível de três minutos. Pois telefonei a um deles a informar do atraso e da dimensão de. A chamada saiu de Sevilha, veio a Portugal e voltou a Sevilha de novo, não subiu 7 andares directo. 

Por um destes dias, via este blogue que recomendo fortemente, li um artigo sobre pontualidade, que me parece já ter vindo traduzido num jornal online português. Basicamente diz que os impontuais são gente optimista, pois pensam poder fazer mais coisas num espaço de tempo limitado; têm um pensamento grande, pois não se prendem às minudências da vida; são pessoas do momento, que gostam de cheirar as rosas e gozar o momento.

O artigo é um perigo, pois transforma um característica potencialmente negativa numa outra garantidamente positiva: quem se atreve a dizer que não ao optimismo, ao cheiro das rosas, ao big picture? A impontualidade - digo eu, que sou profunda e obsessivamente pontual - não é uma qualidade. Não se divide, como diz o artigo, numa impontualidade ok (aquela que não afecta o próximo) e numa impontualidade não ok (aquela que afecta o próximo). Pode dividir-se na dimensão - 15 minutos ou 1 horas - ou no impacto (grau de irritação que habita quem fica à espera, seja numa praia, numa esplanada, no fim de uma escada). 

Por outro lado, o artigo abre uma gama forte de possibilidades para justificar defeitos próprios. Imaginemos que eu sou profundamente egoísta. Quem se atreverá a dizer que não é um defeito. Eu! Eu atrevo-me! O egoísta é um cuidador da sua saúde e do seu bem-estar, pois devota-lhe uma atenção desmesurada; toma atenção à dificuldade dos dias, gastando o menos possível com os outros, potenciais delinquentes ou esbanjadores de dinheiro que custou a ganhar; tem forçasamente auto-estima elevada, porque só quem gosta muito de si pode estar a olhar permanentemente para o seu umbigo.

O exercício pode repetir-se para quem tem mau génio (treino das cordas vocais), quem tem tendências adictas (o consumo que dinamiza a economia) ou é de uma infidelidade matrimonial chocante (a generosidade altruísta da satisfação do ser humano feminino).

Desculpem qualquer coisinha. Ando de volta da tese e estes últimos dias pensei muito em confissão. Talvez esteja perturbado.

JdB    

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Duas Últimas

A respeito de Tomar pode dizer-se muita coisa.

No que à sua rica história compete, lembro que foi sede da Ordem dos Templários, e mais tarde da Ordem de Cristo, após a dissolução da primeira pelo Papa no início do século XIV, na sequência da perda da Terra Santa pelos cristãos.

Ou que nela se realizaram, em 1581, as Cortes que aclamaram o primeiro Filipe Rei de Portugal.

Que nela encontramos o soberbo (e infelizmente mal mantido) Convento de Cristo, com construção iniciada no século XII, exemplar único combinando de forma admirável diferentes estilos arquitectónicos, do românico ao maneirismo filipino. Realçando-se naturalmente o seu esplendoroso manuelino.

Que por ela passa o Nabão, sub afluente do Tejo, atravessado na cidade por uma muito antiga e magnífica ponte cujas origens se perdem no tempo.

Que nela se realiza de 4 em 4 anos a famosa Festa dos Tabuleiros – representando as freguesias do concelho – , instituída em honra do Espírito Santo e que lança a confusão na cidade desde o reinado de D. Dinis.

Que nela viu a luz do dia alguém que foi e é para mim deveras importante, primeiro em termos profissionais, depois acrescentando outros termos à equação.

Que Tomar é a terra de origem da Quinta do Bill, grupo de rock que começou a ser conhecido com “Filhos da Nação” (1994), música com um refrão que lança dúvida pouco católica.

Deles escolhi estas 3 músicas. Espero que as apreciem.


fq






quarta-feira, 22 de julho de 2015

Crer tudo ou negar tudo

S. Miguel, Açores, Maio de 2015


(...) 

O seu interesse fixou-se quando Paneloux disse vigorosamente que havia coisas que se podiam explicar em relação a Deus e outras que não se podiam. Havia, decerto, o bem e o mal e, geralmente, as pessoas sabiam explicar facilmente o que os distinguia. Porém, a dificuldade começava no interior do mal. Havia, por exemplo, o mal aparentemente necessário e o mal aparentemente inútil. Havia Don Juan enterrado nos infernos e a morte de uma criança. Pois que, se é justo que um libertino seja fulminado, não se compreende o sofrimento de uma criança. E, na verdade, nada havia de mais importante na Terra que o sofrimento de uma criança e o horror que esse sofrimento arrasta com ele e as razões que é preciso encontrar-lhe. No resto da vida, Deus facilitava-nos tudo e, até então, a religião não tinha méritos. Aqui, pelo contrário, ele punha-nos entre a espada e a parede. Nós estávamos, assim, sob as muralhas da peste, e era à sua sombra mortal que nos era necessário encontrar o nosso benefício. O padre Paneloux recusava até as oportunidades que lhe permitissem escalar a muralha. Ter-lhe-ia sido fácil dizer que a eternidade das delícias que esperavam a criança podiam compensar o seu sofrimento, mas, na verdade, ele nada sabia. Com efeito, quem podia afirmar que a eternidade de uma alegria podia compensar um instante de dor humana? Não seria um cristão, certamente, cujo Mestre conheceu a dor na Sua carne e na Sua alma. Não, o padre ficaria ao pé da muralha, fiel a esse esquartejamento de que a Cruz era o símbolo, frente a frente com o sofrimento de uma criança. E diria sem temor aos que o escutavam nesse dia: 'Meus irmãos, chegou o instante. É preciso crer tudo ou negar tudo. E quem de entre vós, ousaria negar tudo?'

(...)

Nesse instante dizia o padre que a virtude da aceitação total de que falava não podia ser compreendida no sentido restrito que se lhe dava habitualmente, que não se tratava da banal resignação, nem sequer da difícil humildade. Tratava-se de humilhação, mas de uma humilhação consentida pelo humilhado. Sem dúvida o sofrimento de uma criança era humilhante para o espírito e para o coração. Mas era por isso que era necessário passar por essa prova. Era por isso - e Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iam ouvir não era fácil de dizer - que era preciso contemplá-lo, porque Deus assim o queria. Só assim o cristão não se pouparia a nada e, fechadas todas as saídas, iria ao fundo da escolha essencial. Escolheria crer em tudo, para não ficar reduzido a negar tudo.

Albert Camus, A Peste

***

Desenganem-se os que lendo dois dias de posts sobre a morte me descortinam debilidades interiores, ainda que momentâneas. Não é o caso, felizmente. O post de ontem era datado, face ao desaparecimento de uma amiga da juventude. O de hoje tem uma história vagamente desinteressante. Há dois anos, talvez, peguei no livro do Camus porque estava fora de casa e não tinha levado leitura. Li-o de um fôlego. Quando cheguei às páginas de onde retiro dois excertos, já me faltava o ar. Reli-as ontem - impelido por nada de especial - para reforçar a certeza de que temos de escolher crer em tudo. Talvez, mais do que páginas duras, que também as são, sejam páginas inspiradoras. E a inspiração pode ser o sopro de Deus na nossa alma.

JdB  

terça-feira, 21 de julho de 2015

Pensamentos Impensados

Vozes do além
Alfredo Marceneiro - Super boca, super rouca.

SdB (I)

"O Fado, Canção de Vencidos"

O raciocínio é demasiado ligeiro para ser tomado excessivamente à séria, mas não deixa de ser curioso: num site com inúmeras informações sobre fado - letras, músicas, repertórios, etc., há 100 fados que têm saudade no título, 51 fados que têm triste e 2 que têm alegria. O fado é nosso, e é isto que somos... 

"Francisco Radamanto é o nome pelo qual ficou conhecido Francisco Duarte Ferreira [1908 - 1972], talentoso poeta popular, jornalista e, especialmente, temível polemista em defesa do fado. Teve na mocidade uma vida atribulada, com passagem, até, pelas cadeias de Monsanto e do Limoeiro, facto que nunca ocultou, pois nos versos que enviava para a Guitarra de Portugal, jornal em que sempre colaborou, indicava constantemente o estabelecimento prisional onde se encontrava." (Poetas Populares do Fado Tradicional, Daniel Gouveia e Francisco Mendes, 2014).

JdB 

***

Orfãzita

Ficara triste a orfãzita
Triste sete anos de vida
Tão airosa e tão bonita
Toda de luto vestida

Mas disse-lhe um dia o pai
Vives aqui tão sózinha
E o teu paizinho vai
Dar-te uma outra mãezinha

Outra mãe não pode ser
Nós temos uma só mãe
Morreu e se outra vier
Eu quero morrer também

Um dia, a outra chegou
Toda a gente em festa linda
Só a pequena chorou
Sózinha, mais orfã ainda

E triste, devagarinho
Sem dizer nada a ninguém
Foi procurar um cantinho
Na sepultura da mãe




***

Praga

Por ter no peito uma chaga
E na alma a cicatriz
Dum amor desventurado
Vou-te rogar uma praga
Deus te faça tão feliz
Quanto eu sou de desgraçado

Foste má, foste ruim
Não se perdoa, portanto
Tão ingrato proceder
Vocês são todas assim
Desprezam quem lhes quer tanto
Amam quem as faz sofrer

Mas se alguma vez na vida
Te sentires arrependida
Entregue à tua saudade
Vem, que eu faço o que puder
Não por amor, podes crer
Apenas por caridade.


segunda-feira, 20 de julho de 2015

Da morte

Sábado estive num casamento. Na minha ronda social conversei com uma amiga antiga cujo marido passou por um delicado momento de saúde há alguns meses. Ambos são rapaziada da minha idade. Percebi que quis conversar sobre o tema - os pormenores, o impacto na família, a confidencialidade que quiseram manter, a recuperação, a forma como todos se uniram para dar a volta à situação, a sorte de terem encontrado a gente certa no momento certo. Falámos também da fragilidade da vida - a diferença entre estar vivo e morto (e a frase pode ser metafórica) que pode ser uma fracção de instante. Falámos da relativização das coisas e também da minha própria história de vida. A dado instante, no seguimento de uma ideia expressa, perguntou-me: tem menos medo da morte? 

Ontem de tarde, no remanso do meu domingo, telefona-me um amigo próximo: era para te dizer que morreu a AR. A pessoa em questão era muito minha amiga na fase dos 18 anos, por aí. Nascêramos no mesmo ano e socializávamos no mesmo grupo de amigos, alguns dos quais ainda mantenho, outros que encontro menos mas gosto sempre de rever. A vida da AR e das pessoas mais próximas tem contornos de menor felicidade. A saúde degradou-se, e talvez ela tenha contribuído para isso. O que quer que seja, foi minha amiga e era do meu ano. Desaparece a alguns meses de cumprir os 57.

Não sei qual a idade certa para se morrer, nem sequer sei discutir esta hipótese aparentemente absurda. Há quem diga que não quer viver sem autonomia, dependente dos outros para se vestir, andar, cumprir as necessidades mais básicas. A AR, por aquilo que ia sabendo, que não a via há uns bons anos, talvez não fosse dependente, mas talvez não fosse totalmente autónoma. O que é que isso nos diz? À distância nada. Apenas que morreu antes de tempo para as pessoas que gostavam dela.

Um escritor russo dizia que os Homens não receiam a morte, mas o instante antes dela. O que nos faz ter menos medo da morte (ou do instante prévio)? Uma experiência difícil? A ideia de relativização das coisas? Uma fé enorme? Para mim, e escrevi-o, pelo que não revelo nada de confidencial, é saber quem tenho à minha espera: alguém em que penso todos os dias, a todos os momentos. É essa certeza.

JdB 

domingo, 19 de julho de 2015

16º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 6,30-34

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
os Apóstolos voltaram para junto de Jesus
e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado.
Então Jesus disse-lhes:
«Vinde comigo para um lugar isolado
e descansai um pouco».
De facto, havia sempre tanta gente a chegar e a partir
que eles nem tinham tempo de comer.
Partiram, então, de barco
para um lugar isolado, sem mais ninguém.
Vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam;
e, de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar
e chegaram lá primeiro que eles.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e compadeceu-Se de toda aquela gente,
que eram como ovelhas sem pastor.
E começou a ensinar-lhes muitas coisas.

sábado, 18 de julho de 2015

Pensamentos Impensados

Medidas de coação
Não percebo porque é que o grande compositor Bach nunca esteve em casa com pulseira electrónica; houve sempre perigo de fuga.

Lutas
Ouvi na TV: CDS aprova combate à pobreza e ao ensino.
Deve ser o maior combate de século.

Aragens
O leque pode ser considerado um terno ventilador.

Bruxos
Meteorologista lança-se nas Letras ao escrever Amor de Previsão.

Fim
Expirar é deixar de expirar.

Gordas
As rotundas não são uma invenção portuguesa; já Rubens pintava mulheres rotundas.

Alma até Almeida
Os gregos não têm um tostão furado mas patrocinam todos os noticiários da televisão,

Dietas
Os gregos são especialistas em iogurtes magros.

SdB (I)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Poesia dos dias que correm

Tenho a Certeza de que Entre Nós Tudo Acabou

Tenho a certeza
De que entre nós tudo acabou.
Deixal-o!
Bemdita seja a tristesa!
- Não ha bem que sempre dure
E o meu bem pouco durou.

Não levantes os teus braços,
Para de novo cingir
A minha carne de seda;
- Vou deixar-te... vou partir.

E se um dia te lembrares,
Dos meus olhos côr de bronze
E do meu corpo franzino,
Acalma
A tua sensualidade,
Bebendo vinho e cantando
Os versos que te mandei
N'aquella tarde cinzenta...

Adeus!

Quem fica soffre bem sei;
Mas soffre mais quem se ausenta!...

António Botto, in 'Canções'

***

Não Sei se Isto é Amor

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.


Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Histórias dos dias que correm *

Bernardo Maria despedira-se do último convidado. Cinco minutos depois, encostado à ombreira da porta da sua casa do Restelo, olhara com uma ternura indisfarçada para a sua filha Carmo, vendo-a a afastar-se de braço dado com Tiago, o seu marido. A festa do 10º aniversário do casamento de ambos fora um sucesso.

No quarto do primeiro andar, Carlota, a sua mulher de há mais de 30 anos, sentara-se ao toucador frente a um espelho, a uma fotografia emoldurada do Pai com o Prof. Marcello Caetano e a uma saudade de um tempo fagueiro que não voltaria. Quedou-se com um boião de creme na mão, enquanto a mente deambulava pelo dia em que recebera a notícia do casamento da filha.

Oh minha querida! Fico tão satisfeita.

Enquanto isso, no seu escritório, Bernardo Maria escutava o ruído decrescente de uma casa que se vai arrumando aos poucos. A empatia pelo genro nascera com o primeiro aperto de mão entre ambos, talvez há 20 anos.

Olá Tia, olá Tio. Entrem, se faz favor, que os pais estão lá dentro.

As relações entre as pessoas nem sempre são classificáveis por palavras certas, disponíveis nos manuais da especialidade. Bernardo Maria tinha-se-lhe afeiçoado, se bem que não soubesse caracterizar como. Afinal, enquanto Tiago saía com a sua própria filha, ele alimentava uma clandestinidade com a mãe do rapaz, que fora votada a um abandono sexualmente injusto e financeiramente confortável, por um marido empresário e passageiro frequente.

Um dia, escrevera no seu livrinho de capa preta que o acompanhava há alguns anos:

Ana Sofia, 15 de Janeiro. Casa bonita, cama larga, música suave. Sexo óptimo; mulher experiente e ágil; criativa e com iniciativa. A repetir e a manter.

Bernardo Maria sorrira ao deambular pelo livro, um verdadeiro who’s who da sua vida paralela.

Irene, 18 de Agosto. Mulher poderosa e esgotante. Pouco versátil, agarrada a fórmulas certas. A espaçar devido à exaustão física que me provoca.
Anabela, 1 de Novembro, dia de Todos os Santos. Mulher pequena mas proporcionada, obediente. Sugeri-lhe operação estética aos seios. Dava-lhe outro impacto. Casa pequena, com um cheiro permanente e adocicado que é estranho mas agradável.
Dulce, véspera de Natal…
Andreia, 1 de Fevereiro, dia do regicídio…
Ana Sofia, 2ªfeira de Carnaval. Tiago muito simpático, enternecido pela companhia quinzenal que faço à mãe na ausência do pai. Sexo extraordinário de arrojo, resistência e inovação. Este dia, então, foi de ir às nuvens. Pateta do António, que deixa aquela mulher sem dono.


Bernardo Maria voltou a sorrir, cheio de um encantamento por uma vida secreta e estimulante, repleta de aromas, de posições, de certezas, ausente de remorsos. O sorriso ainda não se desvanecera quando viu, a um canto do escritório, um caderno igual ao seu, mas onde vislumbrou a caligrafia do genro.

Miss X. 15 de Janeiro. Indescritível de ternura, sofreguidão e desejo. Terminou a chorar.
Irene, 20 de Agosto. Já vi mais criatividade, mas é um género. Se não fosse a minha preparação física, talvez não aguentasse.
Anabela, 3 de Novembro. Gosto daqueles seios pequenos . Quer ser operada e discordei. Casa com cheiro enjoativo.
Dulce, 26 de Dezembro…
Andreia, 3 de Fevereiro…
Miss X. 2ªfeira de Carnaval. Como se descrevem duas horas de pleno gozo? O riso final foi o de um sorriso que findara. Chorou.


Bernardo Maria sentiu que ficava sem sangue. Olhou em frente, para uma árvore genealógica onde os seus antepassados se cruzavam com as elites merecidas ou nascidas e não viu orgulho de gente antiga, presunção de mais valor, sangue medieval. Só conseguiu ver uma filha atraiçoada vezes sem conta, um genro que o seguia nas capelinhas do desejo, parando com uma exactidão de complô nas mesmas estações e apeadeiros. Antes de se deixar cair num sofá ainda teve forças para uma última pergunta, gritada para o andar de cima:

Carlota! Lembras-te do que fizeste na 2ªfeira de Carnaval?


JdB


* publicado originalmente a 8 de Fevereiro de 2010

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Pensamentos Impensados

Cirurgias
Sempre pensei que a Operação Marquês era o espectáculo folclórico/exótico montado pelo Benfica no Marquês de Pombal quando ganham o campeonato de futebol. 
Afinal, parece que também inclui salto com vara.

SdB (I)

Duas últimas

Já aqui postei uma definição de tango: un pensamiento triste que se baila. Nada me parece mais esteticamente verdadeiro. Gosto de tango e a tristeza não me provoca urticária. Faz parte da vida, como a alegria. Fugir com horror daquela, para só pensarmos nesta, parece-me descuidado. Afinal, precisamos da tristeza para apreciar a alegria, como precisamos da escuridão para apreciar a luz ou o silêncio para apreciar alguns sons. Por isso precisamos de una tarde gris para apreciar a outra que vier a cores.

Diego el Cigala já foi visitante deste estabelecimento, seja sozinho ou acompanhado por Bebo (ou Chucho) Valdes. Neste caso específico, a fazer algo que faz bem - cantar tango. Para os mais arrojados, segue também uma versão bem mais antiga, cantada por Julio Sosa.

JdB (lamentavelmente com pouca inspiração...)




terça-feira, 14 de julho de 2015

Dos clubes ingleses e dos estatutos

Um clube ao estilo inglês - isto é, só de homens - é uma agremiação que permite, entre uma infinidade de outras, três coisas: (i) dizer mal das esposas, (ii) contar anedotas ordinárias e (iii) falar brejeiramente sobre mulheres, esses seres sem os quais, dizia o Herculano, o mundo seria um ermo melancólico. Talvez não se usem nunca essas prerrogativas e, no entanto, elas estão disponíveis, o que faz toda a diferença. A satisfação do clube - mas também pode ser um trio de cavalheiros (atenção à potencial entropia dos quartetos) que se juntam para repastos regulares - está na possibilidade do benefício, não na utilização do benefício. Até porque, em bom rigor, o limite aceitável para uma anedota ordinária - para qualquer anedota, aliás - deveria ser 1. Tudo o resto é uma ameaça à riqueza das nações, ao frágil equilíbrio de humores internos, ao são convívio entre seres da mesma espécie.

Perdi-me, sigo por outro caminho.

Há anos, perante uma constatação lamentosa, um amigo proferiu uma frase certeira: as mulheres estão programadas para nos ver sair de lancheira de manhã para o trabalho. A expressão "lancheira" era uma alusão datada, mas veio a ser estranhamente premonitória dada a profusão de trabalhadores que, face à exiguidade dos recursos e aos 23% de IVA sobre a vitela à Lafões, acomodam uma costeleta da véspera num recipiente de plástico com paredes adiabáticas. O homem sai de lancheira, como já saiu de mala de cabedal, como saiu com uma lança ou uma arma de fogo para prover o sustento da família. O homem sempre saiu, é isso que se espera dele. É isso que ele espera de si próprio. Homens e cães fora de casa, diz a sabedoria popular.

O estatuto profissional dos homens veio-lhes via empresa onde se tornaram gestores, chefes de departamento, líderes de topo com ambições a reuniões regulares em salas almofadadas e de madeiras exóticas. O estatuto caseiro veio-lhes via tradição, alcandorando-os a chefes de família com autoridade para decidir os caminhos (eles é que sabiam onde andava a caça...). Os outros estatutos chegaram-lhes via agremiações, igrejas, jogos de golfe, carros com motores ronronantes e carroçarias aerodinâmicas. O estatuto, sempre o estatuto.

A crise (e outras circunstâncias) alterou esta realidade. Muitos homens viram-se remetidos ao desemprego, às falências, às ausências de promoção, aos trabalhos menos vistosos. O estatuto profissional evaporou-se, o caseiro seguiu o mesmo caminho, os outros idem idem aspas aspas. Muitos homens combateram simultaneamente em várias frentes: o descaminho dos gozos mundanos, as carências financeiras, as opções de vida que fecham portas, as perdas disto e daquilo. Acima de tudo tiveram de lutar contra o desaparecimento (inconsciente, por vezes) de estatuto, algo que pode ser mais mortificante do que uma redução de 50% no vencimento. O estatuto é uma gaita. Podemos já não o querer porque existe a idade, outras satisfações ou prioridades, blábláblá. Mas ele - o estatuto - martiriza-nos, leva-nos a pensar que somos olhados de uma forma especial, conduz-nos ao embaraço, ao incómodo, às refeições tensas feitas de assunções erradas, às explicações exaustivas que nunca ninguém pediu. 

A vida moderna fez incidir um peso demasiado sobre o sucesso: o carro, os fringe benefits, o ordenado, as reuniões de alto nível. Ninguém nos pergunta - a nós, homens - se somos felizes, se a nossa existência toca a vida dos outros, se é fonte de gozo, de paz, de  exemplo. Talvez o estatuto que advém da imaterialidade, da intangibilidade (porque a paz e a felicidade nossa ou dos outros não se palpa) devesse ser mais valorizado. Talvez muitos homens merecessem esse descanso, para seu bem e das famílias que os rodeiam.

Comecei a falar de clubes ao estilo inglês e já não me lembro porquê...

JdB    

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Vai um gin do Peter’s?

Num artigo recente, um professor do Técnico trouxe a lume o caso insólito de um negativo muito anterior à invenção da fotografia que data de meados do século XIX. Ora este negativo conta com 2000 anos. Como se fosse pouco, ainda soma a proeza de continuar a sobreviver ao tempo, incólume, o que não acontece com muitos dos que têm perto de 100 anos.
Sabemos que há casos por desvendar no património histórico e artístico da humanidade, como as gigantescas estátuas da Ilha de Páscoa ou os geoglifos do deserto de Nazca no Peru, igualmente desmesurados. Só que o tal negativo com vinte séculos mantém uma estranha actualidade, interferindo com o dia-a-dia de muita gente, como atesta o testemunho postado no final deste gin, de uma iraquiana de apenas 10 anos, acolhida num campo de refugiados.  
Começando pelo artigo, gentilmente cedido pelo autor, José Maria André recorda um fenómeno com características únicas e algo insólitas:

Uma fotografia com 2000 anos


Existe na cidade de Turim um grande lençol com uma imagem em negativo. Há 20 anos atrás, ninguém se admiraria com isso, porque era comum as máquinas fotográficas tirarem a fotografia em negativo e depois esse negativo ser passado para papel, produzindo o negativo-do-negativo, ou seja, a fotografia positiva, a preto e branco. Hoje em dia, só os idosos se lembram dos negativos. As fotografias digitais já não passam por essa etapa intermédia e os mais novos só conhecem imagens negativas obtidas no computador. Na história da humanidade, a época dos negativos fotográficos durou apenas uns cem anos. Até há pouco mais de um século, ninguém tinha visto um negativo e, actualmente, os negativos voltaram a ser raridades.

O curioso é que o grande lençol de Turim tem muitos séculos. A maior parte dos especialistas atribui-lhe 20 séculos e o mínimo de idade que lhe atribuem é 10 séculos. Como é que alguém se lembrou de fabricar uma imagem em negativo há tantos séculos atrás?
Outra característica pouco vulgar do lençol é ser uma imagem a preto e branco. Tirando os painéis de azulejo, as pinturas são quase sempre coloridas. Porque é que alguém fez uma pintura em tons de cinzento, em vez de um quadro a cores?

O lençol de Turim tem ainda outras complexidades. É quase uma pintura abstracta, não uma pintura decorativa, mas um amontoado de manchas que não se percebe bem à primeira vista. Arte semi-abstracta há 20 séculos?

A imagem do lençol de Turim não tem sinais de pincel ou de tinta, é um conjunto suave de manchas, como as fotografias. Que técnica de pintura tão estranha, há 20 séculos, que hoje ainda não se consegue imitar!

Além disso, o lençol está sujo de sangue. Alguém usou o lençol para limpar o sangue de uma pessoa ferida? Se é uma imagem tão valiosa, guardada com tanto cuidado, durante tantos séculos, porque é que nunca lavaram o lençol?

As investigações sobre este lençol destacaram muitas outras particularidades. As fibras de linho são típicas da Palestina de há 20 séculos e o entrançado do tecido é característico dessa região. Por entre as fibras, encontraram-se poeiras e grãos de pólen sobretudo de plantas típicas da Palestina e de algumas outras terras por onde o lençol andou.

Há documentos muito antigos que contam que aquele lençol envolveu o corpo morto de Jesus Cristo e por essa razão, embora não seja um tecido rico, foi guardado com tanto cuidado até hoje. Ao longo destes séculos, o lençol passou por diversas mãos e atravessou o Mediterrâneo até se fixar em Turim: uma sequência de peripécias, que poderiam ter arruinado aquela mortalha, se não tivesse havido um empenho tão grande em a preservar.

Pouco mais havia a dizer, durante muitos séculos. As pessoas continuavam a guardar aquele pano com grande devoção, porque os documentos asseguravam que tinha estado em contacto com o corpo morto de Jesus Cristo, mas não sabiam mais dessa relíquia. É certo que a guardavam num estojo muito rico, lhe construíram uma capela valiosa, numa igreja deslumbrante, mas apenas por causa destas notícias, transmitidas de geração em geração. Aquele pano sujo de sangue não parecia acrescentar mais informação.

No último século, a técnica fotográfica revelou o que ninguém tinha imaginado antes. Ao tirar uma fotografia (em negativo), verificou-se que o negativo aparecia como um positivo. Isto é, o lençol era uma imagem negativa! A imagem quase abstracta tornou-se perfeitamente clara, na fotografia. O interesse cresceu, multiplicaram-se as investigações e, agora que a imagem fazia mais sentido, empregaram-na para reconstruir as feridas e as feições de Jesus. Por todos os sinais, conseguiu-se perceber como é que tinham decorrido a flagelação, a coroação de espinhos e a crucifixão. Quando os especialistas em medicina legal reconstituíram estes factos, os historiadores ficaram assombrados, porque os pormenores coincidiam exactamente com os hábitos romanos de crucifixão da época de Jesus.

Regularmente, este lençol de Turim, conhecido como «Sudário», é exposto para ser visto de perto pelos fiéis (sobretudo fotografado, porque é na fotografia que a imagem se revela melhor). Neste momento, está acessível na catedral de Turim, que o Papa Francisco irá visitar no próximo Domingo 21 de Junho.

Um dos secretários do Papa, o padre egípcio Yoannis Lahzi Gaid, publicou recentemente um livro(1) contemplando a Paixão de Jesus com base na imagem do Sudário. Como o Pe. Gaid tem o Papa à mão (privilégios de secretário), conseguiu que ele lhe escrevesse o prefácio do livro. O texto do Papa Francisco é uma meditação maravilhosa sobre Jesus, em tom de oração: «Faz, Senhor, que eu Te possa ver hoje nos rostos desfigurados, nos corpos sofredores de todos os tempos, nas pessoas descartadas, marginalizadas e esmagadas pelo peso das suas cruzes (…) Faz, Senhor, que eu seja uma imagem de Ti, o teu Sudário, para testemunhar aos homens do nosso tempo o abraço do teu amor inefável!»
Pormenor do Sudário: a imagem negativa aparece como positiva.

José Maria André
 7-VI-2015
Publicado nos jornais «Correio dos Açores»,
«ABC Portuguese Canadian Newspaper» e «Verdadeiro Olhar»

Vem a propósito deste misterioso negativo, demasiado antigo para os conhecimentos humanos, a entrevista(2) a Miriam, uma criança do Iraque que teve de fugir ao ataque devastador dos fanáticos do Daesh, aqui a falar com  uma serenidade e sabedoria de vida extraordinárias, muito para lá das possibilidades de um QE fabuloso! Tudo com um sorriso meigo, como se a condição de refugiada fosse fácil. Só a resposta que dá ao entrevistador sobre a forma como encara os seus cruéis perseguidores por quem reza a Deus para que lhes perdoe, já se percebe que está noutro campeonato! Claro que ela lhes perdoou, como diz tranquilamente, a dada altura. Até o entrevistador fica atordoado, insistindo com a miúda, para perceber se teria bem a noção do que estava a afirmar. O olhar lúcido e a escolha certeira das palavras não deixam margem para dúvidas, transmitindo uma paz imensa, que rasa o inexplicável. Sim, é ela que nos pacifica. Poderíamos ficar-nos por lhe reconhecer uma maturidade muito acima dos 10 anos. Mas haverá alguma idade em que uma reacção desta grandeza e fé seja comum? Convenhamos que tudo o que Miriam diz e é, suplanta a escala da maturidade.

https://m.youtube.com/watch?v=_ige6CcXuMg

Fica-se sem palavras depois do testemunho desta criança inspirada e de uma bondade transparente.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
 (1)  Título do livro de meditações do padre egípcio de rito copta: "Via Crucis dalla Bibbia alla Sindone" (Via Sacra, da Bíblia ao Sudário)

 (2)  Postado a 26 de Fevereiro de 2015 no Youtube, remetendo para o site http://www.wazala.org/2014-02-letters-from-egypt/ com relatos e entrevistas a vítimas do DAESH (ISIS). 


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