terça-feira, 30 de junho de 2015

Duas Últimas

Escrevo esta breve crónica numa altura em que a evolução da situação na Grécia constitui um verdadeiro desafio de adivinhação.

No que me diz respeito, fraco como sou em previsões, resta-me desejar que o famigerado Grexit não se concretize, a bem dos gregos e da restante Europa. Se suceder, acho que se abrirá um perigoso alçapão que irá inevitavelmente sugar outros clientes pouco cumpridores.

Sei que a UE teve imensos erros no seu processo de construção. O maior talvez tenha sido o seu demasiado secretismo na tomada de decisões importantes, o medo de ouvir os seus destinatários. Mas apesar de tudo tratou-se de um processo de agregação, que se sabe ser sempre difícil quando lidamos com egos exacerbados. Agora, por oposto, lidamos com o possível início da sua desagregação, caixa de Pandora de consequências imprevisíveis.

E se a Europa arriscar fazer o caminho contrário, deixando para traz os mais fracos, acabará por pagar fatalmente muito caro por isso. Pois não está doente a sociedade que não trata convenientemente os seus membros mais desprotegidos?

Conheço alguns gregos, por razões profissionais. São parecidos connosco, mas têm um estado e políticos ainda piores. São fáceis de enganar, vide as últimas eleições. Mas estou certo que, em termos gerais, não merecem o que parece estar prestes a acontecer-lhes. Oxalá me engane, a bem do Mundo em que nos criámos e que queremos deixar aos que nos sucederem. Porque as alternativas serão por certo bem piores.

Vangelis Papathanassiu é um músico grego que dispensa apresentações. Porque é bom naquilo que faz.

Espero que concordem.


fq


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Vai um gin do Peter’s?

No MNAA(1), até 6 de Setembro, está em exposição boa parte da obra da primeira grande pintora portuguesa, revolucionária a vários títulos – Josefa de Óbidos (1630-1684). Chamava-se Josefa de Ayala (filha de espanhola) e assinava como “Josefa em Óbidos”, referindo a cidade onde funcionava o atelier. Viver longe da capital do império, quando a falta de meios de transporte aumentava muito a distância, não atrapalhou nada o seu enorme fluxo de encomendas e vendas.

Só o facto de fazer carreira como pintora em pleno século XVII já é uma raridade. Soube somar o talento artístico ao sucesso comercial, vivendo muito à frente do seu tempo embora numa versão sóbria e hábil. Aprendera o ofício com o pai, exímio a pintar paisagens mas um descalabro com os dinheiros. Acumulou dívidas e mais dívidas, que Josefa foi liquidando com eficiência, como tudo na sua vida profissional. A sua óptima gestão financeira permitiu-lhe adquirir inúmeros terrenos e gerar uma fortuna considerável, que legou às sobrinhas que, entretanto, adoptara, dando indicações precisas para a herança seguir pela descendência feminina, como que a desafiar o costume do morgadio. Tudo atípico e quase provocador.

O título da mostra acentua o contributo dado à história da arte nacional como precursora do estilo dominante na Europa seiscentista, ao qual deu um cunho muito original: «JOSEFA DE ÓBIDOS E A INVENÇÃO DO BARROCO PORTUGUÊS».
O zoom sobre o rosto primoroso da menina de uma das suas telas decora as ruas de Lisboa, exibida em moopies estrategicamente situados. Como se o Museu tivesse invadido a cidade, enchendo-a de lisboetas simpáticas e de uma beleza soft. Tudo bastante português.

Os seus rostos ovais, q.b. abonecados, com olhos enormes de expressão meiga e bocas pequenas marcou o barroco português, distinguindo-o do espanhol, segundo os comissários das Exposição. Os tons leves da sua paleta também se diferenciaram das tonalidades carregadas e exuberantes dos artistas espanhóis. A tranquilidade que imana dos seus óleos nada tem a ver com os contrastes fortes que são apanágio do barroco de outras latitudes. Até o jogo de claros-escuros assume na portuguesa um efeito cénico, alegre e ligeiro, de penumbras decorativas que nunca assustam nem intimidam. Antes sublinham as figuras iluminadas. À maneira do barroco, trabalha o detalhe ao limite, apesar de conseguir uma leveza imprevista. No fundo, replica a proeza da filigrana. De certo modo, a sua obra saboreia-se na aproximação, exigindo tempo e uma observação minuciosa.
O rigor e a beleza dos pormenores



Outra especificidade do seu barroco é a densidade interior das figuras, enxutas e sem puxar à emoção, mesmo quando vivem momentos dramáticos. Um pudor que se aproxima mais do Oriente que do salero da Europa do Sul. Talvez já se fizessem sentir as influência dos territórios do império, na Ásia. Como comentou um dos comissários desta exposição, Joaquim Caetano, sobre o rosto de Maria Madalena aos pés da cruz, no retábulo da Misericórdia de Peniche: «Está triste, mas é difícil que a gente chore com ela.». Perpassa ali uma afectividade que deriva de uma devoção mais recatada e doce, alheia aos arrebatamentos do barroco espanhol e italiano. Há quem lhe chame a pintora da doçura. Mas frisa um dos comissários que se prende com um atributo divino. Por isso se torna marcante na sua pintura sacra, que foge ao realismo ostensivo e perturbador das telas espanholas contemporâneas.

Adoração dos Pastores (Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)
Uma estética consciente e intencional, aliviada da carga emocional
característica do barroco. Note-se que para Sta. Teresa de Ávila,
a doçura era um atributo do divino

Pouco comum na sua abordagem suave e estilizada é o «Cristo flagelado» (1670), de uma violência explícita. Mesmo a posição, a mostrar as costas ensanguentadas, é invulgar. A frase latina no topo clarifica o propósito: «Sobre as minhas costas lavram os pecadores», enquadrando o crucificado com panejamentos ornamentais.
Vale a pena referir, em traços largos, a sua vida, de uma ousadia singular, embora sem sobressaltos nem espalhafato. Antes subtil, como o traço suave do seu pincel. Filha de pintor português e mãe andaluza, nasceu em Sevilha mas mudou-se para Portugal na tenra infância, instalando-se em Óbidos. Com enorme faro para o negócio, montou e geriu um atelier que se tornou famoso, emancipando-se do pai, desastroso nas finanças. Uma opção arriscada e nada fácil para um artista, menos ainda sendo mulher. Soube fidelizar clientes como poucos, tornando-se a pintora de palácios e conventos, designadamente de várias ordens religiosas femininas. 
De Espanha herdou o gosto pelas naturezas-mortas, nada cultivado em Portugal, fornecendo palácios e casas burguesas. Note-se que só começa a assiná-las depois de o pai morrer, em 1674.
Natureza Morta com Doces e Barros, na Biblioteca Municipal Braamcamp Freire, Santarém    

Naturalmente que na época, a arte sacra predominava sobre as temáticas laicas. Além disso, até recentemente, tendia-se a menorizar as naturezas-mortas, até pela ausência das figuras humanas. Tudo junto, resultou num caldo muito desfavorável ao seu legado artístico.
Sabendo da torrente de equívocos que pairam sobre Josefa de Óbidos, a exposição propõe-se alterar a impressão de que se ficou por naturezas-mortas a lembrar o chá das cinco ou por uma arte sacra igualmente adocicada. A maioria desconhece a obra prolífica e eclética que deixou, realçando as figuras e demais elementos do primeiro plano sobre fundos hiper simplificados. Era o pai que trabalhava os cenários envolventes, enquanto houve parceria. Nas palavras de um dos comissários (Joaquim Caetano): «Pretendemos mostrar que, ao contrário do que se pensa, ela não é (apenas) uma pintora de naturezas-mortas. Não é uma rapariga que está fechada em casa a pintar bolinhos
O testemunho de Miguel Torga exemplifica a desilusão de muitos intelectuais que viram a exposição do MNAA, em 1949, taxando a artista de provinciana monótona e pouco dotada, desmerecendo que era invulgarmente culta e emancipada. Claro que também conta a maior ou menor empatia com a sua estética. Bem desagradado, arrasou-a no seu Diário: «A senhora faz renda com os pincéis. Que falta de imaginação, que miséria de desenho, que geleia aquilo tudo! Enquanto um baboso se extasiava diante de um Menino Jesus rechonchudo, que parecia uma trouxa-de-ovos, raspei-me. Raça de portugueses que não dão um pintor que se aproveite!»
A exposição privilegia a lógica temática, começando por uma síntese onde se acompanha a fase de aprendizagem e se exibem também as telas do pai e mestre – Baltazar Gomes Figueira, permitindo a comparação. Segue-se o grupo de naturezas-mortas, que era uma temática comum em Espanha, mas rara em Portugal. A última sala reproduz o ambiente de uma igreja barroca com 3 retábulos da sua autoria: o da Misericórdia de Peniche, sendo a primeira vez que os vários painéis voltam a estar reunidos, desde que foram separados no século XVIII; o da vida de Santa Teresa de Ávila proveniente da Igreja Matriz de Cascais; e duas santas de um retábulo que existiria na sacristia da Igreja Matriz da Lourinhã.
 O texto de apresentação no Museu realça o valor da pintura de Josefa de Óbidos:

Mais de 130 obras (pintura, escultura e artes decorativas) vindas de várias instituições nacionais e internacionais, como os museus do Prado e de Bellas Artes de Sevilha, o Mosteiro do Escorial e de inúmeras coleções privadas, portuguesas e estrangeiras, compõem uma mostra inovadora, que o Museu Nacional de Arte Antiga, em parceria com a Ritmos, preparou para o verão de 2015.

Josefa de Ayala nasceu em Sevilha em 1630. Filha do pintor Baltazar Gomes Figueira (Óbidos, 1604-1674) e de uma andaluza, Catarina de Ayala, veio para Portugal em 1634, quando o pai regressou com a família à sua terra natal, Óbidos. Na pequena vila, Baltazar continuou a sua carreira de artista, introduzindo entre nós a pintura de naturezas-mortas, à maneira do bodegón sevilhano, que a filha também veio a cultivar.

A fama e estima que rodearam a obra de Josefa atravessaram o tempo, sendo ainda hoje vasto o volume de trabalhos preservados. Caso ímpar de mulher artista, confinada ao espaço limitado de Óbidos, onde permaneceu quase toda a vida, converteu-se, não obstante, no mais eficaz e reputado expoente do Barroco português, no ciclo que se seguiu à Restauração.

Mais do que as naturezas-mortas que a celebrizaram, distingue-a, de facto, a criação de um imaginário piedoso, com que soube responder às aspirações de um Barroco que Portugal modelou no seu próprio modo, inserindo, no seu decorativismo exacerbado e festivo, uma forte componente teatral.

Corrigir a ideia de uma pintora curiosa mas provinciana, e apresentar Josefa de Óbidos como uma artista culta e como um evidente reflexo da espiritualidade da época, é um dos objetivos desta exposição.


Apreciar a originalidade do legado de uma mulher única no panorama cultural português do século XVII vale bem a visita ao MNAA que, além disso, tem um jardim fantástico, de onde se avista o Tejo. Muito desintoxicante. 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________

domingo, 28 de junho de 2015

XIII Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
depois de Jesus ter atravessado de barco
para a outra margem do lago,
reuniu-se grande multidão à sua volta,
e Ele deteve-se à beira-mar.
Chegou então um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo.
Ao ver Jesus, caiu a seus pés
e suplicou-Lhe com insistência:
«A minha filha está a morrer.
Vem impor-lhe as mãos,
para que se salve e viva».
Jesus foi com ele,
seguido por grande multidão,
que O apertava de todos os lados.
Ora, certa mulher
que tinha um fluxo de sangue havia doze anos,
que sofrera muito nas mãos de vários médicos
e gastara todos os seus bens,
sem ter obtido qualquer resultado,
antes piorava cada vez mais,
tendo ouvido falar de Jesus,
veio por entre a multidão
e tocou-Lhe por detrás no manto,
dizendo consigo:
«Se eu, ao menos, tocar nas suas vestes, ficarei curada».
No mesmo instante estancou o fluxo de sangue
e sentiu no seu corpo que estava curada da doença.
Jesus notou logo que saíra uma força de Si mesmo.
Voltou-Se para a multidão e perguntou:
«Quem tocou nas minhas vestes?»
Os discípulos responderam-Lhe:
«Vês a multidão que Te aperta
e perguntas: ‘Quem Me tocou?’»
Mas Jesus olhou em volta,
para ver quem O tinha tocado.
A mulher, assustada e a tremer,
por saber o que lhe tinha acontecido,
veio prostrar-se diante de Jesus e disse-Lhe a verdade.
Jesus respondeu-lhe:
«Minha filha, a tua fé te salvou».
Ainda Ele falava,
quando vieram dizer da casa do chefe da sinagoga:
«A tua filha morreu.
Porque estás ainda a importunar o Mestre?»
Mas Jesus, ouvindo estas palavras,
disse ao chefe da sinagoga:
«Não temas; basta que tenhas fé».
E não deixou que ninguém O acompanhasse,
a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago.
Quando chegaram a casa do chefe da sinagoga,
Jesus encontrou grande alvoroço,
com gente que chorava e gritava.
Ao entrar, perguntou-lhes:
«Porquê todo este alarido e tantas lamentações?
A menina não morreu; está a dormir».
Riram-se d’Ele.
Jesus, depois de os ter mandado sair a todos,
levando consigo apenas o pai da menina
e os que vinham com Ele,
entrou no local onde jazia a menina,
pegou-lhe na mão e disse:
«Talitha Kum»,
que significa: «Menina, Eu te ordeno: levanta-te».
Ela ergueu-se imediatamente e começou a andar,
pois já tinha doze anos.
Ficaram todos muito maravilhados.
Jesus recomendou-lhes insistentemente
que ninguém soubesse do caso
e mandou dar de comer à menina.

sábado, 27 de junho de 2015

Pensamentos Impensados

É só saúde
Os Alcoólicos Anónimos raramente estão doentes; têm muitos anti-copos.

O resto são cantigas
Piodão, grande vila morena.

Bom apetite
Sócrates toma as refeições na cadeia alimentar.

Adivinhos
Os meteorologistas são os vendilhões do tempo.

Uniões sem fato
Adão e Eva - Matrimónio Mundial da Humanidade.

Velocidades
Mais depressa se apanha um mentiroso e um coxo do que um político subornado.

Mais aborto
Vi na TV Memória um programa chamado Factos de Banho.
Com o novo acordo vai-se o trocadilho e fica só a estupidez.

Não préstimos
Fui a uma casa de penhores para ver se aceitavam as minhas dores nas costas. 
Disseram não estar previsto.

SdB (I)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Das novelas e da vida real


Há seguramente estudos sociológicos sobre o efeito das novelas nas pessoas ou porque motivo as pessoas seguem as novelas. Há quem siga uma, duas, três, deste ou daquele canal. Queixam-se de que já não vêem há uns dias, interessam-se pela trama e discutem-nas. Só por isso a Alexandra Lencastre terá sido insultada na rua. Ao que parece (desconheço em bom rigor, porque vi cinco episódios, se tanto) desempenha um papel de mulher racista. 

Não sei se é suposto que as casas e as vidas que surgem nas novelas representem tanto quanto possível as vidas reais. Vou presumir que não, se acham que toda a gente - mesmo os mais ricos e chiques - têm um bolo diferente todos os dias ao pequeno almoço acompanhado por sumos das proveniências mais exóticas. Vou presumir que não, se acham que as casas não têm entradas... Isto para me manter ao nível de algum frivolidade.

A imagem acima é o paradigma da promiscuidade entre novelas e vidas reais. Tirei-a de uma aplicação do Sapo que tem capas de revistas e de jornais (para além das últimas notícias). Para cima há ainda um renque de capas de revistas cor de rosa. Ora, para uma pessoa leiga como eu, que não segue as novelas e não vai suficientemente a consultórios para ver revistas da socialite, tudo é uma confusão. Percebo que Bárbara Guimarães se recuse a por fim à guerra; percebo o ano de dor e angústia de Judite de Sousa; já o mesmo não acontece com Nuno Eiró, ou mesmo com Sofia Sousa que afirma "não dava mais". São artistas de telenovela? E se André marca casamento com Beatriz, o que fazia ele, numa revista mais acima, com os filhos e a mulher, que se chama, parece-me, Francisca? E a queda fatal? É novela ou vida real?

Só vejo as capas, pois não tenho acesso, via ipad ou iphone, aos conteúdos. Há uma organização aparentemente errática destes frontispícios, pelo que um leitor descuidado não perceberá muito bem o que é isto tudo. É por esse motivo que querem bater na Alexandra Lencastre e têm pena do Chico, o pai a quem a Cláudia recusa dar o filho. A Alexandra é um megera snob e racista, mas há algumas semanas sonhara com uma casa cheia. O Chico é um desgraçado mas já terá sido filmado junto ao amor da sua vida, com quem ainda não desenvolveu prole. A Beatriz tem um ar sorridente, e na novela posa para uma marca de lingerie. Ou não? Mas espera lá, ela não era casada não sei com quem que agora anda não sei com quem? Ah, não está certo, isso é na novela, porque na vida real ela vai casar com o André. E então a Francisca?

Os heróis das novelas são, para algumas pessoas, os heróis do mundo real, das suas vidas mais ou menos tristes, das suas casas mais ou menos acanhadas. A culpa, afinal, não é da televisão, mas das capas das revistas. Sem elas tudo seria mais claro... 

JdB  

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Bem-aventurados os que têm fome...*

Fulano provinha de tudo: nascera numa terra que ficava entre os polos norte e sul, onde o sol se levantava e punha a desoras, onde as estações do ano se não regiam por critérios previstos, onde as rotinas mansas das marés se alteravam ao sabor de um capricho.

Fulano fazia de tudo: era dono de um companhia que se dedicava a tudo e a nada, que vivia de expedientes lucrativos, onde se vendia e comprava sem a regra lógica aprendida nos livros da especialidade, que era uma espécie de negócio branco, porque era o somatório de todos os negócios. Tinha dois sócios, Beltrano e Sicrano, contribuindo cada um com a sua área de competência para o engrandecimento da empresa.

Fulano tinha tudo: anéis de rubis e colares de diamantes que distribuía amiúde pelas namoradas; mordomos que circulavam com uma leveza de fantasma pela casa de duzentas e cinquenta e sete assoalhadas e que lhe ofereciam surpresa à mesa das refeições: faisões recheados com ervas raras, codornizes no seu ninho, peixes invisíveis pescados a horas certas em luas novas de Inverno, ovos de galinha alimentadas a estudos de Chopin e cantatas de Bach, crustáceos com cascas brilhantes e cores raras, sopas de legumes extintos aromatizadas com especiarias longínquas.

Fulano conhecia tudo: os desertos profundos da Mongólia, as praias raras da Polinésia, os vulcões da Islândia, a estepes russas, os museus do mundo onde os artistas plásticos expunham as obras que eram filhas de criatividade e da loucura, os escritores das academias, os pintores das belas artes, os músicos das emoções, os poetas dos sentimentos.

Fulano, no fundo, vivia tudo - e de tudo - numa imensa felicidade.

Um dia, a uma hora imprecisa - e num dia ainda mais incerto - os telexes, os faxes, os sms, as mensagens de correio electrónico, os telefonemas, as vídeo conferências, os sinais de fumo ou batuques, convergiram para um ponto específico do universo, que era onde estava Fulano, onde vivia Fulano, onde respirava Fulano. As notícias eram certas: um tsunami num país do interior, um vulcão numa planície desértica, uma chuvada onde se desconhecia a expressão água, um vendaval onde nunca uma brisa soprara.

No dia seguinte, Fulano não tinha nada: nem rubis, nem faisões, nem polinésias, nem museus, nem poetas, nem mordomos a flutuarem por cima do mármore raro, nem peixes pescados com linha de seda fina. Tudo se esvaíra num sopro, num golpe de asa, numa gota de água, numa cinza vulcânica que tombara na demonstração de resultados.

No dia seguinte ao seguinte - ou talvez fosse ao outro seguinte -, Fulano viu-se em frente à imensidão do nada, à totalidade do vazio, à vastidão da coisa nenhuma. Rodopiou pela única sala que lhe sobrava fechando os braços, a mente formatada ainda para a assoalhada que estivera cheia de tapetes raros, quadros imortais, fotografias do sucesso e do mundo. Foi abrindo os braços temendo a angústia do embate, até perceber que os seus membros fendiam o ar onde só existia uma mistura em doses alquimistas de gases raros e outras poeiras.

Fulano, o homem que provinha de tudo, tinha de tudo, fazia de tudo e tudo conhecia fechou os olhos e imobilizou-se no eixo da terra, segurando nas mãos o relógio que cronometrava o mundo, afagando o motor que permitia a rotação e a translação numa ordem austera. Sentia-se finalmente saciado.

JdB

(* publicado inicialmente em 30.05.2010)

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Duas últimas

É muito raro tomar atenção às letras das músicas anglo-saxónicas que vou ouvindo. Com excepção de uma ou outra, não me dou a esse trabalho. Apanho frases, uma ou outra ideia. A esse propósito (e penso que aqui o escrevi) é sempre curioso ver, numa pista de dança, as pessoas felizes a cantarem músicas cujas letras, estou certo, não perceberão na totalidade. Como eu. Ou talvez percebam um sentido geral. 

O meu querido amigo gi. mandou-me este youtube. Nunca tinha ouvido falar deste cavalheiro, o que não surpreende... No entanto, à medida que o ia ouvindo, fui buscar a letra que reproduzo abaixo. Cornerstone é pedra angular, conceito que me é muito familiar da bíblia (a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular). Confesso que não entendi totalmente a letra, apesar de perceber todas as palavras. O único comentário rezava assim:

I believe this is a song about someone talking from the grave describing how disappointing that now that they are dead and gone, friends, lovers seem to have appeared to have forgotten about him. Left in a box of stone.

Olhem. Interpretem como quiserem, mas oiçam o cavalheiro.

JdB 



***

I am alone in a box of stone
When all is said and done 
As the wind blows to the east from the west 
Unto this bed, my tears have their solemn rest

I am lonely, alone in a box of stone
They claim they loved me but they all lieing 
I am lonely alone in a box of my own 
And this is the place, I now belong 

Its my home, home, home, home home home home home 

It wasnt easy getting used to this
I use to scream
Its not true, that its only when the door is locked
That nobody enters 
Cuz mine has been open till your demise
But none had come, well who am I, 
What have i done wrong?

Ive been lonely, alone in a box of my stone
They claim to be near me but they were all lying, its not true
Ive been lonely, alone in a box of my stone 
This is the place I know I now belong 

Its my home, home, home, home home home home home x2

Friends, I have met
Lovers have slept and wept
Promises to stay had never been kept
This bare truth of which most wont share 
I hope you share, I hope you share 

Cuz I have been lonely 
Alone in a box of my own 
They claim to love me and be near me 
But they are all lieing 
I have been lonely, alone in a box of my stone 
And this is the place I now know I belong 

Its my home, home, home, home home home home home 



terça-feira, 23 de junho de 2015

Laudato Sí

Com uma periodicidade errática, sempre por sugestão do meu querido amigo ATM, irei publicando partes da Carta Encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum


47. A isto vêm juntar-se as dinâmicas dos mass-media e do mundo digital, que, quando se tornam omnipresentes, não favorecem o desenvolvimento duma capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. Neste contexto, os grandes sábios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua sabedoria no meio do ruído dispersivo da informação. Isto exige de nós um esforço para que esses meios se traduzam num novo desenvolvimento cultural da humanidade, e não numa deterioração da sua riqueza mais profunda. A verdadeira sabedoria, fruto da reflexão, do diálogo e do encontro generoso entre as pessoas, não se adquire com uma mera acumulação de dados, que, numa espécie de poluição mental, acabam por saturar e confundir. Ao mesmo tempo tendem a substituir as relações reais com os outros, com todos os desafios que implicam, por um tipo de comunicação mediada pela internet. Isto permite seleccionar ou eliminar a nosso arbítrio as relações e, deste modo, frequentemente gera-se um novo tipo de emoções artificiais, que têm a ver mais com dispositivos e monitores do que com as pessoas e a natureza. Os meios actuais permitem-nos comunicar e partilhar conhecimentos e afectos. Mas, às vezes, também nos impedem de tomar contacto directo com a angústia, a trepidação, a alegria do outro e com a complexidade da sua experiência pessoal. Por isso, não deveria surpreender-nos o facto de, a par da oferta sufocante destes produtos, ir crescendo uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou um nocivo isolamento.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Da Escola Prática de Infantaria, 35 anos depois


À semelhança de muita gente, mas também ao contrário de muita gente, o serviço militar obrigatório - vulgo tropa - não me trouxe gratas recordações. Tenho memórias, boas e más, mas o cômputo geral não é positivo. Entrei na então Escola Prática de Infantaria, em Mafra, a 17 de Março de 1980. Voltei lá sábado passado - 35 anos depois, portanto.

A tropa cortou-me uma entrada já tardia no curso de Engenharia; por outro lado, obrigou de mim um exercício físico a que não estava habituado; mesmo sendo um "fundista" em termos de caminhadas a pé, sempre fui lento nas marchas, pelo que esta actividade, tão presente, me era penosa. Como vinha muitas vezes a casa - era camarada do famoso basquetebolista Carlos Lisboa, que vivia em S. Pedro do Estoril - estudava menos do que devia. Enfim, entre apreciação de instrutores, testes psicotécnicos e outras coisas positivas, lá fui à escola de oficiais...

A fotografia acima constitui uma das minhas memórias marcantes. No dia seguinte a ter entrado, olhei para o lado e vi talvez 500 ou 600 recrutas todos fardados por igual, com a mesma roupa vincada e nova, um bivaque (chama-se assim?) posto à parva. A imagem, com 35 anos, é-me muito forte. A sensação foi desconfortável e está mais presente do que o frio, a pouca higiene ou a má comida.     

A fotografia abaixo é do refeitório dos frades, onde almocei e jantei durante alguns meses. A recordação mais "curiosa"? O facto de, à altura, haver uns pacotes de Flora, redondos, que eram literalmente cortados ao meio, pelo que cada mesa, de 16 recrutas, tinha direito a 2 meios pacotes, cortados com precisão de faca afiada...



Mandei a fotografia de cima ao ATM, que percebe estas idiossincrasias de um homem sempre voltada para o que já foi (como escreveria o Alberto Janes, para a Amália cantar, tenho a janela do peito / aberta para o passado).  Não correrei o risco de maçar ninguém com histórias, mas quem nunca foi à tropa, quem nunca sentiu o significado da frase "soldado instruendo bragança, tem uma carta" (porque não viveu em 1980) tem mais dificuldade em perceber do que falo. 

Não fiz uma romagem de saudade, mas a visita teve o seu impacto...

JdB

domingo, 21 de junho de 2015

XII Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele dia, ao cair da tarde,
Jesus disse aos seus discípulos:
«Passemos à outra margem do lago».
Eles deixaram a multidão
e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado.
Iam com Ele outras embarcações.
Levantou-se então uma grande tormenta
e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água.
Jesus, à popa, dormia com a cabeça numa almofada.
Eles acordaram-n’O e disseram:
«Mestre, não Te importas que pereçamos?»
Jesus levantou-Se,
falou ao vento imperiosamente e disse ao mar:
«Cala-te e está quieto».
O vento cessou e fez-se grande bonança.
Depois disse aos discípulos:
«Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?»
Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros:
«Quem é este homem,
que até o vento e o mar Lhe obedecem?»



***


Uma noite de tempestade e medo no lago, e Jesus dorme. Também o nosso mundo está em plena tempestade, geme de dores com as veias abertas, e Deus parece dormir.
Nenhuma existência foge ao absurdo e ao sofrimento, e Deus não fala, permanece mudo. E na noite que nascem as grandes perguntas: não te importa nada de nós? Porque dormes? Acorda e vem ajudar-nos!
Os salmos transbordam deste grito, enche a boca de Job, repetem-no profetas e apóstolos. Poucas coisas são tão bíblicas como este grito a contestar o silêncio de Deus, poucas experiências são tão humanas como este medo de morrer ou viver no abandono.
Porque tendes assim tanto medo? Deus não está noutro lugar e não dorme. Está já aqui, está nos braços dos homens, fortes a remar; está no timoneiro que se agarra ao leme; está nas mãos que lançam fora a água que alaga a barca; nos olhos que perscrutam a margem, na ânsia que antecipa a luz da aurora.
Deus está presente, mas ao seu modo; quer salvar-me, mas fá-lo pedindo-me que meta em jogo todas as minhas capacidades, todas as forças do coração e da inteligência. Não intervém no meu lugar, mas ao meu lado; não me livra da travessia, mas acompanha-me na escuridão. Não me guarda do medo, mas no medo. Assim como não salvou Jesus da cruz, mas na cruz.
Toda a nossa existência pode ser descrita como uma travessia perigosa, uma passagem para a outra margem, da vida adulta, responsável, boa. Uma travessia é iniciar um matrimónio; uma travessia é o futuro que se abre diante da criança; uma travessia tormentosa é tentar recompor feridas, reencontrar pessoas, vencer medos, acolher pobres e estrangeiros.
Há tanto medo ao longo da travessia, ainda que legítimo. Mas as barcas não foram construídas para ficar ancoradas na segurança dos portos.
Gostaria que o Senhor gritasse já ao furacão: cala-te; e às ondas: acalmem-se; e à minha angústia repetisse: acabou. Gostaria de ficar livre da luta, mas Deus responde chamando-me à perseverança, multiplicando-me as energias; a sua resposta é força para a primeira remada. E a cada uma, Ele a renovará.
Não te importa que morramos? A resposta, sem palavras, é dita pelos gestos: importo-me de ti, importa-me a tua vida, tu és importante. Importam-me os pássaros do céu, e tu vales mais que muitos pássaros, importam-me os lírios do campo, e tu és mais belo que eles.
Tu importas-me ao ponto de ter contados os cabelos da tua cabeça e todo o medo que trazes no coração. E estou aqui. A fazer-me baluarte e fronteira para o teu medo. Estou aqui no reflexo mais profundo das tuas lágrimas, como mão forte sobre a tua, entrada em porto seguro.
Ermes Ronchi 
In "Avvenire" 
Trad.: Rui Jorge Martins 

sábado, 20 de junho de 2015

Pensamentos Impensados

Jogadas
A Grécia, berço dos Jogos Olímpicos, inventou mais uma modalidade: salto em incumprimento.

Frio de rachar
A Idade do Gelo caracteriza-se, principalmente, pelo aparecimento da caipirinha.

Língua de trapos
Fernando Pessoa disse: a minha Pátria é a língua portuguesa.
Hoje seria um apátrida.

Fute-bolo
Blatter é bom, cumpre o que promete, satisfaz os amigos, não o deixem envelhecer.
Estou a falar de blatter tarte.

Ameaças antigas
Levas com uma alcaparra num olho que ficas 4 dias a arrotar a azedo.

Detenções
Sócrates está em prisão preventiva ou presuntiva?

Pontos de vista
É melhor morar em Lisboa ou em Cacilhas?
Em Cacilhas: tem vista para Lisboa.

Sondagens
Segundo cálculos recentes, Adão e Eva tiveram 9 filhos: Caim, Abel e Set..

SdB (I)

sexta-feira, 19 de junho de 2015

“People who love to eat are always the best people.”

Salada em frascos, faço ao domingo para o resto da semana. 

Agora é possível fazer saladas, temperadas e tudo, e guardá-las durante uma semana no frigorífico. A moda pegou nos Estado Unidos e espalhou-se por tudo quanto é blog de culinária à mesma velocidade a que um coxo foge de um leão. Não é brincadeirinha, é mesmo uma grande ideia. Dá para fazer as saladas para a semana toda ou dá para preparar uma salada de véspera e levá-la para o seu almoço no escritório sem ficar com a alface mole e preta.
O segredo para este enorme salto para a humanidade é um frasco de vidro. É dentro deste recipiente que pode guardar a salada em camadas sem que os ingredientes se misturem uns com os outros.

Tudo isto tem uma técnica e o segredo são as camadas. First of all, o molho e os ingredientes húmidos como o tomate ou os pepinos. Na camada seguinte é a vez do ingredientes resistentes à humidade como a cenoura.Só depois as proteínas e ingredientes secos como verduras, massa e crocantes.


Para mais ideias sobre o assunto: www.casalmisterio.com/a-maneira-mais-pratica-de-guardar-uma-132249



quinta-feira, 18 de junho de 2015

Dos beijos - os nossos, que são de outro



Leio algures que o primeiro beijo de Elizabeth Taylor foi como actriz. Vou presumir que não foi o primeiro primeiro beijo, no sentido de duas bocas que se juntam e permanecem juntas, como o primeiro beijo que se dá a uma namoradinha de muita infância nas traseiras de um prédio com o barulho dos comboios ao fundo, e cuja memória perdura porque sim. Falo do primeiro beijo carregado de sensualidade e, quiçá, de desejo. Do primeiro beijo carnal, quase pecaminoso, quase convidativo, quase desafiante - todo ele perturbador.

Imaginemos que Elizabeth Taylor beijou o actor com quem contracenou - Mr. Smith - ao fazer de enfermeira num hospital para loucos. Ela, chamada Christine Ford, apaixona-se pelo médico - John Smith - e beijam-se apaixonadamente no canto de uma enfermaria, enquanto um esquizofrénico, um deficiente mental, um psicopata preso e um toxicodependente com tendências depressivas deambulam pelos corredores de olhos esbugalhados, batas de doente e mãos agitando-se freneticamente.

A experiência do primeiro beijo não pertence, então, a Elizabeth Taylor, mas a Christine Ford. O primeiro beijo  - o da carne, do desejo, da volúpia, todo ele carregado de uma sexualidade da época - não é dela, Elizabeth, que foi Taylor mas muito Burton. Foi ela que o deu, mas o beijo é de Christine, que para o efeito é uma enfermeira, mas podia ser uma advogada chamada Pamela, uma pedinte chamada Mary, uma prostituta chamada Antoinette ou uma condessa russa chamada Natalia. O beijo não é dela, mas foi ela que o deu. A boca é dela, mas está vinculada a um contrato, a um guião, a uma direcção de actores que manda beijar mais assim e menos assim, ao trabalho de encarnar uma enfermeira (ou uma condessa russa) de quem vestiu a pele durante semanas.

De quem é o desejo? Que memórias guardamos de uma primeira experiência forte em que não somos nós que lá estamos, mas o personagem para o qual fomos contratados? E para que serve pensar nisso?

JdB 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Do medo

A expressão nada me mete mais medo do que... é de utilização limitada. Poderão alegar que Deus me acuda também, ou mesmo valha-me Nossa Senhora da Agrela. Não sei se Agrela existe e, para um conjunto alargado de pessoas - muito alargado, mesmo - não existe nenhum deus, menos ainda um que se escreva com um 'd' maiúsculo. No fundo, ambas as expressões se incluem numa espécie de jargão técnico, como dizer sem ónus nem encargos ou volume de líquido por unidade de tempo. Para além de uma crença que tudo justifica, apelar à intervenção do divino ou de uma variante de Nossa Senhora é tão válido como usar expressões jurídicas ou do ramo das engenharias. Talvez mais válido, sobretudo para aqueles para quem o Ancião da Eternidade é bem mais inócuo do que um causídico.

Nada me mete mais medo do que as pessoas que afirmam não ter medo de nada. E são estas a quem o início da frase está vedada, porque lhes surge como uma impossibilidade formal. Não se pode ter medo se não se tem medo. Logo, as pessoas que afirmam não temer nada falarão do ónus e encargo, do valha-me não sei quem. Mas não usarão a frase, pois seriam imediatamente expulsas desta confraria de gente destemida que, perante o desconhecido, uma granada ofensiva, uma auditoria fiscal ou um olhar para dentro de si afirmam com a mesma sobranceria inquietante: não tenho medo de nada.

No video abaixo seis forcados pegam seis touros. Espero que todos tenham tido medo, porque eu não quero ter medo dos forcados de Santarém. Espero que todos tenham tremido um pouco, se tenham assustado um avo de segundo com uma besta de 500 Kg a correr na sua direcção, com a possibilidade de uma cornada que os atira contra uma trincheira, uma cama de hospital ou um sufoco de namorada de mão angustiada na boca.

Ter medo é bom, porque é a evidência da nossa condição de humanos. A arte não está em não ter, mas em vencer. Treinar, ser corajoso, ter força de braços ou de pernas, ter fé num céu que previne o pior ou nuns colegas que previnem o pior, ter uma superstição que ajuda e não ofende, ouvir barbela como representativo de uma força interior, não de uma bazófia exterior. 

Tenho medo daqueles que não o têm. E por isso espero que os forcados, um gente toda valente que enfrenta uma besta feita de peso, velocidade e imprevisibilidade, tenha medo. Detestaria ter medo deles, pois já me chega aquilo que receio. Não preciso de mais.

JdB  


Forcados Amadores de Santarem - As pegas da corrida do centenario from Faenas TV on Vimeo.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Duas Últimas

Tivesse eu uma namorada chamada paloma e era isto que lhe oferecia. Nada de flores, nem joias, nem perfumes de frança, nem viagens aos trópicos. Era isto, cucurucucu e lalala, e esquecíamos os jantares finos, os champanhes de fim de tarde, os caviares ao anoitecer com vista sobre a cidade, os casacos de peles falsas de animais que são mortos. Falava-me alguém na arte tão humana que é a lentidão. Sim, sim, não me falava a mim directamente, que li num jornal. Mas se quem lá escreve, ou escreve um livro, ou canta um fado, não o faz sobretudo para mim, a quem é que se confessa? E era isso, paloma que não te conheço, que nunca te conheci, que te cruzarás comigo com uma improbabilidade matemática quase absoluta. Primeiro uma emoção, um frenesim - sempre sem joias, nem perfumes de frança, nem ovos fabergé. Um ardor na alma, um formigueiro no coração, um desvario nos olhos. Cucurucucu e lalala. E depois, paloma, paloma, a tal arte da lentidão, da elegância sem casacos de peles, do vagar sem belugas, da ausência de caxemiras. Nunca conheci nenhuma paloma, mas se a conhecesse era isto que lhe dava. A emoção e o comedimento. O kitsch e o fino. Uma mão firme que agarra uma mão, outra que ondula por cima do tempo finito. O riso e o sorriso. O beijo apaixonado, de boca toda aberta para receber o coração alheio, e uns lábios que roçam uma pele ardente de desejo silencioso, elegante mas não menos ardente. Tivesse eu uma namorada paloma e era isto que lhe oferecia. E ela havia de gostar, estou certo, porque vinha de mim e ninguém resiste a esta lenteza fina, educada, sonhadora. E a paloma, que eu não conheço nem conhecerei, não resistiria quando eu lhe cantasse ao ouvido de pasión mortal moria

JdB

  

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Vai um gin do Peter’s?

O comovido filme em versão documentário «O SAL DA TERRA»(1) sobre a obra de Sebastião Salgado constitui, logo no título, um hino à criação, começando pelo ser humano, que um amigo do fotógrafo elevou à categoria de sal da terra, neste planeta cheio de contradições. É conhecida a origem da expressão, proferida por um outro Amigo, que a formulou como pedido aos seus condiscípulos para ajudarem a devolver aos homens o gosto pela vida. A versão completa desse pedido abrange a dupla dimensão de dar tempero ao dia-a-dia e ser luz do mundo. Embora não esteja ao alcance de todos trazer salero à existência, é indiscutível o contributo maior dado à humanidade pelo artista brasileiro.

Na fazenda dos Salgados, onde aprendeu com o pai a observar
minuciosamente o horizonte. No fundo, começou aí a paixão por captar imagens    

 A história da sua arte emerge e confunde-se com a sua biografia, sustentada pela mulher Leila, também ela  artista. Aqui desfiada através da câmara de outro poeta – o grande realizador alemão Wim Wenders –  num mano-a-mano com o filho de Salgado, Juliano, sente-se a omnipresença de Leila. Talvez por isso não se estranhe o resultado de um filme que mais se aproxima de uma sinfonia composta a várias mãos, apesar da banda sonora ser tão sóbria, à maneira de Manoel de Oliveira, sem nunca ser um mero adereço para entreter. Antes sublinha ou assume por inteiro a mensagem que passa na tela, nos poucos trechos musicados.

Avançando em espiral, o documentário retorna ciclicamente ao ponto de partida – a enorme propriedade dos Salgados, onde Sebastião nasceu e viveu com os pais e 6 ou 7 irmãs, até partir para o liceu e a universidade, na cidade. Depois de uma infância alegre e descomprometida, passada na enorme fazenda familiar (600 ha) coberta pela frondosa mata atlântica, apanhou-se desprevenido quando se viu entregue a si próprio, no burgo. Nem sabia o que fazer com o dinheiro que o pai lhe dera. A ponto de passar fome, nas primeiras semanas, desconhecendo as mais elementares regras de sobrevivência urbana. Salvou-o uma estudante gira e pragmática, por quem se apaixonou à primeira vista: Leila, a mulher da sua vida desde o minuto em que entrou no seu horizonte visual.

Terminado o curso de economia, esperava-o o exílio, em França, para fugir às perseguições políticas da ditadura brasileira (de 1964 a 1985), a apertar o cerco às contestações estudantis, activamente participadas por Sebastião e Leila. A necessidade da mulher fazer uma reportagem fotográfica para uma das cadeiras da universidade resultou no primeiro contacto de Sebastião com a fotografia. Enquanto ela se enfastiou com o TPC, ele descobriu um hobby apaixonante. A ponto de concordarem que valia a pena arriscar o sustento do casal naquela paixão, profissionalizando-a. Investiram, então, as suas poupanças em bom equipamento fotográfico, programaram ao pormenor os temas a explorar e partiram para os locais mais recônditos, fiéis à sua veia reivindicativa e de intervenção social. A teleobjectiva de Sebastião converteu-se em verdadeira arma de arremesso, denunciando as injustiças que se perpetuavam na clandestinidade. Tencionava trazer à luz aquele universo de trevas escravizantes para os deserdados da terra, atrevendo-se a ser a luz do mundo e a beliscar os poderosos.

Nas minas, nas povoações paupérrimas e subnutridas, nos circuitos de guerra que cruzam as apetecíveis rotas de matérias-primas valiosas, nos campos de refugiados, nos êxodos maciços de multidões à mercê de guerrilheiros ou de catástrofes, nos desastres naturais e nos crimes ecológicos de multinacionais predadoras ou de déspotas insensíveis, a máquina fotográfica de Salgado revelou ao mundo a dor dos impotentes. Sempre a apontar para o alvo menos atractivo e anónimo: os rostos sofridos e sem voz. E são tantos!


 Entremeando as imagens, maravilhosamente orquestradas pela câmara de W.Wenders, com o testemunho de Salgado num francês fluente, percorremos os maiores projectos da sua carreira.

Até ao fim do século XX, dominam as reportagens de cariz social, com forte componente solidária e até intimista, mas zero de voyeurismo. Tornando sublime tudo o que vê, o fotógrafo nem precisa de nos confirmar o relacionamento próximo que estabeleceu com todos os que fotografou, ouvindo muito, criando fortes empatias e deixando amigos por todo o lado. A perspectiva artística permite-lhe registar facetas mais íntimas sem invadir nem desfear a realidade. Antes elevando-a ao patamar de Arte, no sentido mais puro e clássico, de transmitir através do Belo. Um belo capaz de salvar o mundo, como acreditava Dostoievski. Só Salgado para nos mostrar o rosto de uma criança no esquife, de olhos escancarados, sem chocar nem desrespeitar, antes convidando-nos a partilhar a dor daquela família enlutada. E são tantas.

Oriental cega, que aceitou posar para Salgado, tornando-se porta-voz
dos proscritos. O fotógrafo mostra a imagem com uma ternura especial    

O filho tinha toda a razão em considerá-lo um aventureiro e até um super-homem, quando via o pai desaparecer em longas ausências para desbravar destinos longínquos e pouco conhecidos. Não tinha ainda idade para perceber o alcance do serviço que os pais prestavam à humanidade por não excluírem ninguém. Nada óbvio, nem comum.
 
O silêncio maravilhoso do seu repertório a preto-e-branco, ou melhor, das milhares de gradações entre o prateado e o antracite, foi bem explicado por Salgado, quando lhe perguntaram por que recusava fotografar as cores da realidade (questão que não se colocou a W.Wenders). Como o horizonte visual é incomensuravelmente maior do que o registo fotográfico, a cor pode facilmente perturbar o conjunto ao impor elementos mais vistosos no microuniverso captável pela fotografia. Isso aconteceu-lhe quando fotografou as colinas arborizadas da propriedade dos pais e uma flor campestre se salientou com o seu colorido intenso, desequilibrando completamente o conjunto. A olho nu nem sequer sobressaía. A partir de então, preferiu o preto-e-branco, que somava a vantagem de permitir relevações mais baratas e fáceis de manusear em casa.  


Nos idos anos 90, a reportagem no Ruanda, onde se atreveu a calcorrear os caminhos pejados de fugitivos que avançavam em sentido oposto, deixou Salgado destroçado. Nas suas palavras, viu literalmente 150km de cadáveres brutalizados, que tingiam a paisagem de sangue. Sangue de inocentes.

De regresso a casa, esperava-o a responsabilidade de gerir a fazenda dos Salgados, após a morte do pai. Leila percebeu, como ninguém, a que ponto o marido ficara bloqueado pela overdose de atrocidades que vira. Teve, então, a ideia genial de suspenderem as reportagens e lançaram-se na reflorestação da herdade que, entretanto, se desertificara. O contacto com a natureza operou milagres na família e no solo, que antes parecia estéril. Diferentemente das imagens de denúncia a horrores já cometidos, neste projecto agrícola Salgado experimentou a alegria de conter e reverter uma paisagem devastada. Fez bem a todos assistir ao renascimento fulgurante da natureza. No espaço de uma década, o horizonte voltou a ser verde. Milhões de espécies da mata atlântica voltaram a cobrir o solo árido de outros tempos e até os jaguares regressaram. Generosamente, o casal decidiu fundar ali o Instituto Terra e oferecer Estado brasileiro para que todos pudessem gozar daquele espaço luxuriante.

Quem diria que depois de se achar ferido de morte para a sua profissão, o melhor ainda estava para vir. Novamente, a clarividência de Lélia franqueou-lhe uma alternativa, mudando o foco para a grandiosidade da natureza: “Genesis” seria a nova aposta, enveredando pelo mundo natural. Vários amigos desaconselharam-no, pois não seria aos 50 que se poderia reinventar, ainda por cima num segmento de concorrência feroz entre veteranos da fotografia paisagística. Mas já recuperado pela paragem sabática no território da sua infância, Salgado seguiu o feeling de Leila e lançou-se na descoberta dos seres mais antigos do planeta. Recuando aos primórdios da criação, plantas, animais e tribos milenares desfilam pela sua teleobjectiva, com a elegância e beleza únicas das suas fotografias! Um sucesso rotundo, que presta homenagem ao planeta azul.

Nos Galápagos, a pata de um lagarto lembrou
a Salgado a mão de um cavaleiro medieval    

A facilidade com que apanha perspectivas demasiado próximas do que pensávamos serem animais perigosos, percebemos não ser truque de zooms híper potentes, mas a proximidade real de um aventureiro que nos conta como ficou enternecido pela confiança do leão-marinho que se veio estender ao seu lado, à beira-mar, ou da baleia que vinha acostar à sua embarcação para receber umas festas, divertindo-se depois a saltar nas ondas a uma boa distância do barco do amigo para não correr o risco de o abalroar! Uma delicadeza incrível. Lembra S.Francisco que conseguia ser próximo de todas as criaturas, entre a irmã raposa e o irmão lobo ou o irmão fogo... a voltar àquele primeiro tempo em que o leão convivia fraternalmente com o cordeiro. Um dom raríssimo.

Expedição ao Polo Sul

Compaixão podia ser o título do documentário. Entre os momentos festivos de uma natureza esplendorosa e os efeitos nefastos de actos perversos, é evidente o respeito imenso que a vida inspira a Salgado. Da mesma forma que não precisa de confirmar que as fotografias com as agressões contra a humanidade foram regadas a lágrimas! O rosto sulcado de linhas fundas e o olhar faiscante e límpido com que nos encara do outro lado do ecrã têm as marcas inconfundíveis de quem chorou ao lado e em nome de todos os que deixaram de poder chorar. Talvez por isso, uma boa percentagem do seu álbum penetra-nos na alma, provocando uma comoção que não irrompe só do assombro pela Beleza maior que contêm. Aquelas imagens das gentes anónimas que povoam a Terra surgem envoltas numa aura sagrada, que suscita uma reverência infinda. No final, apetece cantar com Louis Armstrong what a wonderful world.


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
LE SEL DE LA TERRE (The salt of the earth)
Título traduzido em Portugal:
O SAL DA TERRA
Realização:
Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado
Argumento:
Wim Wenders, Juliano Ribeiro Salgado e David Rosier
Produzido por:
David Rosier, Lélia Wanick Salgado e Andrea Gambetta
Produção:
Amazonas Images, Decia Films, Fondazione Solares Delle Arti
Directores de Fotografia:
Hugo Barbier e Juliano Salgado
Música original:
Laurent Petitgand
Duração:
110 min.
Ano:      
2014
País:
Brasil e França
        Elenco:

Sebastião Salgado
Leila Salgado
Juliano Ribeiro
Wim Wenders
Local das filmagens:

o mundo


 


                     Premiado em Cannes na mostra “Un Certain Regard”, 2014.

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