quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, this week I introduce a wonderful ballad Into My Arms by the Australian artist Nick Cave. He seems to me a strange beast, capable one moment of being tenderly romantic, but never sentimental, and the next moment sounding brutal, violent, postpunk, apocalyptic. He reminds me of Neil Young, or the actor Christopher Plummer, or the two masks of Janus. Indeed, if you check his Murder Ballads songs, in particular Henry Lee and Where The Wild Roses Grow, the beautiful melodies and harmonies almost hide the dark violence at the heart of his stories.
His songs concern Love and Death and Religion, searching for something good to die for to make it beautiful to live.
This song is a prayer to love,

I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms

And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms

But I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candles burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms, O Lord
Into my arms



A proxima,
po

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Só mais um ano

Não consigo dormir, apesar de já ter tudo conforme o plano. A única coisa que falta é comprar o toucinho. Eu sei que todos eles adoram as tâmaras bem enroladinhas, numa trouxa de toucinho sem gordura nem plásticos, presa por um palito. Na mercearia garantiram que aquelas eram as melhores tâmaras de Lisboa, deram-mas a provar, sem desconfiarem que eu não sou de cerimónias, e o facto é que, confiando na minha memória, são as melhores que me passaram pelo palato.

Isto já foi no inicio da semana passada, porque como me disse o mais novo no ano passado, Talvez aí passe para o ano pai, este ano vamos para o sul de França, e o mais velho em Setembro, Sim pai, talvez aí passe no Natal, e eu queria ter tudo a jeito para os receber, tanto que resolvi não esperar pelo telefonema de confirmação e comecei a aprumar as coisas para a consoada.

Não foram só as tâmaras e o toucinho, fatiado com um milímetro. Perdi duas tardes inteiras à procura do melhor bacalhau, para o levar ao forno com cebola em redução de Porto Branco e umas batatinhas novas, que não é bem a tradição, mas é mais ao gosto da boca dos pequenos. Ainda ensaiei um arroz doce e umas rabanadas que, como doçaria, já não são bem do meu campeonato, mas que ao fim de duas tentativas me deixaram suficientemente orgulhoso e confiante para investir neles.

Ainda despertei para dia vinte e quatro com alguma esperança, sol de pouca dura. Afinal não vai dar este ano pai, ligou-me o mais novo à hora de almoço, Ouça pai, na passagem de ano não temos nada que fazer, eu e o mano até já conversámos isso, somos capazes de passar por aí para jantar.

Não quis ficar sentado a marinar tristezas, as tâmaras comi-as e o toucinho foi para o gato, que a minha saúde está bem mais velha e rabugenta que eu, e não perdoa nada. Hoje acabei a minha volta, facilitada pela experiência que ganhei na semana passada, fui buscar o bacalhau ao sítio certo, as melhores tâmaras de Lisboa à mercearia e, para tudo estar perfeito, só vou comprar o toucinho no dia trinta e um, que assim fatiado, com um milímetro, agarra os cheiros todos do frigorífico, inclusive o da comida do gato.

Ainda assim, não consigo dormir, apesar de ter tudo conforme o plano.

E eu tenho a certeza que eles vêm. Tenho a certeza.

ZdT

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

la princesa de hielo

na calle del principe, por entre tragos de ocasião,
entreolhando as chicas que serpenteiam,
esse rio esplendoroso que as cidades oferecem
em noites de folia e fim-de-semana à porta,
relembras as sublimes memórias de ruy belo,
polaroids que te estalam em brasa,
castanhas interiores devorando a chama
que lavra no teu peito - e por ela sendo devoradas.
fogo contra fogo, olho por olho, dente por dente.

na plaza mayor, gelada e fria geografia urbana,
contrarias o termómetro por um momento,
agarrando a mão da menina de nove anos,
de cabelos e sonhos ainda ao vento,
palacio de los reyes mas em mais bonito,
porque transbordantemente humano,
e esqueces o rosto que te inunda os dias
e o rasto desse rosto que te embriaga
uma e outra vez, uma e outra noite,
uma e toda (e outra que fora) a tua vida.

segues por entre ruas e ruelas, descobrindo
os mundos mil que sempre os barrios de las letras
para ti encerram. como nesse ateneo, pó e cinza,
banhado a dignidade que cheira à légua a coisas
caídas em desuso - amor às artes, amor ao mundo,
amor às causas, amor às coisas, amor a tudo.
páras, para recuperar o fôlego que sabes não ter,
e olhas para a tabuleta que nomeia a pequeña plaza
de santa ana - teu local de encontro e passagem,
feira e igreja, santuário madrileño e romaria.

até aqui - pensas - nesta espécie de casa,
se porventura um país novo em armas tomasses,
até aqui - sentes - nesta espécie de pátria emprestada,
onde o futuro pode ainda estar por acontecer,
até aqui - choras agora - nesta espécie de cidade nova, renovada,
paira a sombra e o salero (e o amor e a fúria e a raiva)
de saber para sempre teu esse excelso e único
- gravado na pele e na memória cerrada e gelada -
nome de santa, nome de ladra, nome da única

que nomeaste um dia como mulher.


gi.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Deixa-me rir...

É um privilégio poder postar na véspera do dia mais doce do ano. Do dia em que nasceu um Rei que se fez pequenino, pobre e humilde e que trouxe consigo a mensagem mais bonita do mundo: a mensagem do Amor. Viver em, para, com, por, através do Amor. Ama e faz o que quiseres, nas palavras de Santo Agostinho, é a síntese da liberdade, do horizonte e da expansão que o viver em Amor encerram. Esta é, para mim, a frase mais inspirada e arrebatadora que conheço. É tão forte e profunda que chego a perder-lhe o alcance…

Mas há descrições, a meu ver menos luminosas, que, de algum modo, também nos remetem para o Infinito que é Deus. Falo-vos de uma frase impressionante do nosso maior poeta, Fernando Pessoa: Deus é nós existirmos e isso não ser tudo. De uma forma mais filosófica do que religiosa, encontramos aqui a expressão do anseio mais profundo do coração humano: a Liberdade. O que aqui temos, não nos basta. Viver uma existência de 50, 60, 70 anos não faz sentido. Não pode ser só isto. Tem de haver mais. E esse mais é entender o significado do Amor (a liberdade de que nos fala Santo Agostinho) e aprender a aplicá-lo no dia-a-dia. O que gera a PAZ. Foi a possibilidade de encontrar esta PAZ - a mensagem mais verdadeira e universal que existe - que Jesus Cristo nos ofereceu.

Quanto à música …. a escolha da música foi um pouco mais difícil, porque não sou grande fã das canções pop/rock ligadas ao Natal. Mas descobri uma de que gosto. Talvez seja um pouco melancólica, mas não liguem à letra. Concentrem-se antes na melodia e na voz envolvente, sedutora, carregada de charme de um dos meus cantores preferidos. Have a very Merry Christmas.




pcp

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Explicações e desejos



Ele há tempos assim. Segue-se um modelo de vida profissional fruto das circunstâncias e da vontade. Num momento estamos folgados, noutro momento é a intempérie que se abate sobre nós. Foi o que me aconteceu nos últimos dois meses, talvez.

O blogue andou à (boa) mercê dos bloguistas residentes, que o editor e dono do estabelecimento andava com a mente noutros lados. Visitei pouco - muito pouco - os blogues do meu contentamento - e tive a criatividade de uma pedra da calçada para escrever no meu próprio.

Esse tempo amainou um bocado, mas até o Menino nascer vamos andar na ressaca da sobrecarga, tentando juntar alguns pedaços que foram mais afectados.

Aos bloguistas residentes que se mantêm, aos que já por cá passaram com regularidade e que decidiram fazer uma pausa, aos meus comentadores habituais, aos cronistas pontuais e a todos os visitantes desejo um Santo Natal (não me esqueço da minha condição de católico) esperando que o barulho das luzes não afaste o nosso coração do essencial desta festa.

Obrigado a todos.

JdB

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Natal dos Hospitais

Ainda não tenho idade suficiente para ter desconto sénior no cinema, por isso não sei até que ponto é indicado começar uma frase da maneira seguinte. Mas aqui segue o atrevimento...

Ainda sou do tempo em que ver o Natal dos Hospitais era uma actividade da quadra em questão que quase rivalizava com a ceia, ou até mesmo com o nascimento do Menino. Era uma tarde inteira passada à frente da televisão, em que as pausas para casa de banho ou para trincar uma bucha tinham obrigatoriamente de coincidir com os intervalos do programa. Eram cinco ou seis horas do melhor que o entretenimento nacional tinha para dar.

E, infelizmente, o Natal dos Hospitais continua a oferecer o melhor que o entretenimento nacional tem para dar. Mas este já não entretêm. Desde bailarinas com fatos 100% poliéster a abanar as ancas ao som de uma musica de Natal tocada em xilofone, à Ruth Marlene a dizer com um ar atrevido e maroto a crianças de oito e nove anos frases do calibre de ‘quando o rapaz quer mexer sem ter licença’, passando ainda por bandas com tão pouca qualidade que não conseguem coordenar os tempos e os instrumentos com os do playback, e acabando no triste número dos tristes palhaços tristes.

Isto para não referir que toda a emissão era um pingue-pongue entre o Hospital de São João no Porto e um outro qualquer na capital. Já não chega ser só um hospital, é preciso espalhar o mal pelas aldeias. E para isto funcionar, é preciso então procurar o dobro da falta de talento que seria preciso se continuássemos com o modelo mono-hospital. Isso no entanto tem a vantagem de dar o dobro da diversão que teríamos com esse sistema.

Na Invicta tínhamos o Jorge Gabriel e a Sónia Araújo, que ganhou um lugar no Guiness pelo sorriso aguentado durante mais tempo. Na capital tínhamos o João Baião, que apresenta qualquer coisa, desde que o possa fazer aos pulos. E todas as nove horas de emissão (sim porque agora este certame arranca logo depois das notícias da manhã) foram um demorado jogo do empurra com a emissão entre Porto e Lisboa.

A melhor coisa que saiu deste espectáculo foi o facto da economia portuguesa ter estagnado no último trimestre apenas devido ao boom da venda de gorros de Pai-Natal. Porque as pessoas só se divertem realmente quando põem um gorro que pisca na cabeça.

Tirem-me a ceia e o jantar de Natal, os sonhos e as rabanadas, a Família e o nascimento do Menino, o Presépio e a árvore de Natal, só peço que me devolvam o meu Natal dos Hospitais.

SdB (III)

domingo, 20 de dezembro de 2009

4º Domingo do Tempo do Advento

Hoje é Domingo e eu não esqueço a minha condição de Católico.
Há a riqueza desmesurada da Igreja; as violências imperdoáveis de alguns religiosos sobre crianças indefesas; a incoerência do clero; a maledicência de quem vai à igreja dominical e desanca a vida alheia; a discutível prioridade dos responsáveis pelas paróquias; a necessidade de protagonismo dos leigos que obscurece a virtude do serviço; o olhar permanente e crítico de alguns sobre as opções do próximo; a culpa judaico-cristã; a visão tantas vezes desactualizada e injusta do que é o pecado; a intolerância de quem reza todos os dias e se sente melhor do que os outros; há a prática que se baseia no "jeito"; há a crítica de quem não vai mas que quer escolher o confortável. Há a imperfeição de todos.
A minha oração de hoje, último Domingo antes do Natal, vai para a igreja que somos todos nós, leigos e consagrados. Para esta igreja que temos de amar, porque é humana, porque faz um caminho que terminará no fim dos tempos. Para esta igreja que é imperfeita. Mas que é a nossa, e sem a qual a nossa Fé fica incompleta.


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».

sábado, 19 de dezembro de 2009

Pensamentos impensados

O santo protetor das ovelhas é o Santo mééééé.

Os portugueses deixam tudo para a última hora; eu, para não fugir à regra, vou deixar a minha morte para os últimos momentos.

Os micróbios têm doenças?

Fez operação `garganta e o médico só lhe tirou uma amígdala; quis saber a razão e o médico só lhe disse: amígdala não empata amígdala.

As pessoas que fazem parte do "jet set" são, de uma maneira geral, profundamente superficiais.

La manzana es buena para la salud; por eso se dice: manzana in corpore sano;

A clonagem é tão velha como a humanidade; Eva era um clone do Adão.

Tenho espondilose, artrose, exostose e escoliose; serei o feiticeiro de ose?

SdB (I)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

my brightest star

uma estrela brilhante
irrompendo no horizonte,
azuis flores polares,
um crepúsculo invertido,
subversiva ideia
contra a circunstância
em seu redor.

juntemos keats,
poeta nada menor,
mai-la sua (muito nossa)
girl next door:
e eis uma forma - ou fome -
de superlativo amor.

quem nos dera ser borboletas,
três dias de esplendor,
a eternidade fintando a morte,
e nós próprios enganando a dor.
(a eternidade breve como sorte,
e a sorte como uma espécie de favor).

ousar teu nome mil vezes
- gastá-lo -
e ao pé de ti dizer flor.

usar teu corpo mil meses
- incendiá-lo -
e de ti dizer estrela maior.


gi.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, this week I have chosen one of my favourite 'pop' songs created for the Christmas season. It is almost an anti-Christmas song because the lyric recalls first the wonder and amazement of a young child's perspective but then follows the wiser child's discovery that everything does not happen according to scripture, is not really what we were told, that it does not always snow, that Father Christmas is only a disguise, that there is not peace on earth.

And yet there still remains the sentiment that despite the disappointments and realities this is a time for optimism and hope , a time to wish peace and harmony and good things for everyone.

I remember something Peter Ustinov, a great actor and raconteur and UNICEF ambassador, once said: an optimist instinctively always knew exactly how sad the world can be, but the pessimist discovers this and consequently feels this every day. Pessimism is an outdated romantic indulgence which we can no longer afford. There is so much that can go wrong, so optimism is the only possible way forward, it is an obligation.




I wish you all a hopeful Christmas, a brave New Year, may all anguish pain and sadness leave your heart and let your road be clear.

A proxima.

po

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

58 para o Rato

- Sente-se aqui!
- Não se preocupe, eu estou habituada a ficar de pé. Sabe, o meu paizinho era uma pessoa muito ontoritária.

Para a próxima já sei: Vou de ontomóvel. Continuo a achas que o mundo está virado oncontrário.

E porquê?

Não sei. Pergunta-me outra vez... Continuo sem saber. Espera, foi a areia do Guincho! Não... foi o vento desordenado que mexe as ondas e nos baralhou as ideias? Pois, eu não sei.

Só sei só que me encheste o coração numa altura em que o via como uma bóia velha a esvaziar a cada segundo. Não sei qual foi a razão para me desarmares, me despires a alma e os sentimentos. Mas baralhaste-me. Baralhas-me, confundes-me e desnorteias o meu Norte tão regrado e sempre tão composto.

Não sei, mas fazes-me chorar sem ser por ti, fazes-me rir sem razão aparente e fazes-me sentir que existo, mesmo quando me ignoras.

Não sei qual é o poder que tens sobre mim e às vezes nem sei se existes. Não sei se é possível a barriga doer de tanta dor, morrer de tanto rir ou sofrer de tanto amor.

Eu não sei. Falta-me saber tanta coisa. Não sei se deva, se quero ou se posso. Não sei se quero para sempre ou se quero nunca mais. Sei que o mundo está virado ao contrário. Eu não sei.

TdB

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Arrepio de vida

Calças de ganga primeiro, ou jeans, como dizem por cá, coisas da cidade, não contando com a roupa interior que, ceroula ou boxer, peúgo ou meia, já se encontrava a uso. Camisola de manga curta a seguir, ou t-shirt, expressão inglesa alusiva à forma da vestimenta, a fazer lembrar um tê, e que, por originalidade ou falta dela, deixou que o tempo a promovesse a substantivo transversal às línguas do mundo, não todas, mas as bastantes para que aqui se mencione o fenómeno. Camisola por cima, peça que as pessoas da cidade também gostam de apelidar com estrangeirismos vários, mas que por aqui é simples, escura e quente. Botas, a do pé direito a seguir à do pé canhoto, num ritual mecânico com contornos de mistério, envolvendo uma dança entre os dedos e os laços, um momento de compenetração, condensado num silêncio. Feito o baile, enrola-se o cachecol de lã, oferta da avó para quem o pescoço comprido do menino não é elegância nenhuma, mas sim uma boa maneira de arranjar uma constipação e, com essa falta de cuidado que é a juventude, uma gripe por consequência. Música nos ouvidos, não interessa especificar, mas ninguém duvidará do bom gosto de quem nunca se esquece de aconchegar as orelhas como se subisse o fecho do casaco antes de sair para a rua, gesto que, curiosamente, teve lugar imediatamente a seguir. Arrumam-se as ideias dentro do gorro, não vá o frio deixá-las trémulas e, finda a batalha, sai-se para a rua.

É sempre assim, principalmente desde que estou na cidade, quando a televisão anuncia fenómenos meteorológicos importados de outros lugares, mais a norte, arranjo um intervalo e, sem pressa, sem atentar demais às costuras, sem atilar uma roupa para dentro da outra, sem me lembrar, ou antes, esquecendo-me propositadamente dos buracos por onde, como se quer, o frio vai acabar por entrar, visto-me para sair, para ir lá fora sentir que estou vivo.

ZdT

domingo, 13 de dezembro de 2009

3º Domingo do Tempo do Advento

Hoje é Domingo e eu não esqueço a minha condição de católico.
Ontem foi dia de ir a Coimbra assistir à festa de Natal da Acreditar.
O auditório do Polo II da Universidade estava cheio: crianças doentes e saudáveis, dirigentes, funcionários, voluntários, amigos, pais, artistas, prendas, lanche, gargalhadas, palmas, adolescentes que sobreviveram a esta luta. Isto era o que se via e ouvia.
Por trás destas evidências há outras, igualmente importantes e que formam, com as primeiras, a massa de que é feita esta associação de pais e amigos de crianças com cancro: a dor, o desalento, o sorriso e as lágrimas, a mão do próximo que se aperta para que haja uma corrente de esperança, a luta, a certeza de dias melhores, as memórias e a saudade, o sentido que teimamos em dar à vida.
A minha oração de hoje vai para as crianças da Acreditar e para os seus Pais. Para que, no presépio, ou árvore de Natal, ou lareira para onde olharem no dia em que o Menino nasceu encontrem o que não se compra na fúria consumista das lojas: a fé dos crentes, a força dos Homens, a coragem de quem é pequeno demais para passar por isto.
Deus, que não é senão amor, há-de olhar por todos eles.

***

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
as multidões perguntavam a João Baptista:
«Que devemos fazer?»
Ele respondia-lhes:
«Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma;
e quem tiver mantimentos faça o mesmo».
Vieram também alguns publicanos para serem baptizados
e disseram:
«Mestre, que devemos fazer?»
João respondeu-lhes:
«Não pratiqueis violência com ninguém
nem denuncieis injustamente;
e contentai-vos com o vosso soldo».
Como o povo estava na expectativa
e todos pensavam em seus corações
se João não seria o Messias,
ele tomou a palavra e disse a todos:
«Eu baptizo-vos com água,
mas está a chegar quem é mais forte do que eu,
e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias.
Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo.
Tem na mão a pá para limpar a sua eira
e recolherá o trigo no seu celeiro;
a palha, porém, queimá-la-á num fogo que não se apaga».
Assim, com estas e muitas outras exortações,
João anunciava ao povo a Boa Nova».

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

outra vez, a alegria

um amigo de paz e de bar
a gente basta olhar
(que às vezes
falar só atrapalha:
a gente estendendo a toalha
e só cai essa migalha.)

com um amigo de paz e de bar
isso não acontece não,
a gente basta olhar
e o dia, até aí sujo (imundo?),
vai de mansinho ao fundo
e volta p'ra gente,
branquinho como nunca
de tanto clarear.

amigo de bar e de paz
é coisa fina, preciosa,
jóia rara, milagre,
a única coisa do mundo,
para não mudar de assunto,
que apetece guardar.

sabe, rapariga,
me escute, seu rapaz,
eu quando vejo
um amigo de paz e de bar
fico doce de emoção,
(mas, sabe, sem sofreguidão,
sabe, sem me magoar.)

desejo até a eternidade,
veja só, pode isso ser?,
e assim a morte,
o desamor,
a falta de talento
ou de sorte,
tudo isso inteirinho
fica bem lá para trás,
longe do coração meu
e da cidade.

é assim, me escute com atenção
(um polaroid para recordar):
e eu e o meu amigo
olhando o mundo,
através da vidraça de um bar,
somos como esses meninos do rio
mirando longe o casario.
e o olhar límpido volta,
reflectido no copo,
e puro estala o coração,
cá dentro, a crepitar.

eterna constelação:
amigo, paz, bar
uma espécie de redenção
que faz a gente lutar,
e outra vez acreditar
no amanhecer
de um novo dia.
que faz a gente ousar
(e usar e abusar)

outra vez, a alegria.


gi.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Deixa-me rir...

Gosto imenso de duetos. Hoje trago-vos um que descobri recentemente e que reúne alguns ingredientes que me agradam particularmente. É melódico, tem um ritmo que me encanta, é maravilhosamente interpretado e transmite genuína alegria e prazer no fazer/cantar música. Tem como figuras centrais Zucchero, um italiano com uma voz inconfundível, e Cheb Mami, um músico de origem argelina que, entre outros, colaborou também com o Sting (ver vídeo do Desert Rose). A meu ver, formam um dueto muito conseguido e harmonioso, particularmente interessante pelo facto de possuírem vozes tão marcadamente “nacionais”. Com “nacionais” quero dizer típicas dos respectivos países. Os italianos tendem a cantar com vozes baixas, roucas, muitas vezes anasaladas, sempre envolventes e sensuais. É o típico caso do Zucchero. Os árabes, do pouco ou nada que conheço, parecem-me ter vozes de timbre mais fino, por vezes pouco masculinas (espero que não haja argelinos, sauditas, iranianos e por aí fora a lerem-me!), adequadas a canções (contemporâneas) ainda muito enraizadas na tradição musical destes países. É claro que estou a fazer uma generalização quando caracterizo as vozes dos italianos e dos árabes. É um pouco como dizer que todas as escandinavas são longilíneas e loiras, que os alemães são todos avantajados e corados e os italianos, na sua maioria, lindos de morrer. Não é assim, claro! Mas pronto, as generalizações também têm o seu papel …

Não consigo deixar de fazer referência, também, ao prazer óbvio que emana destas interpretações. Aliás, como de milhares e milhares e milhares de outras. A música tem, a meu ver, esse atractivo incomparável quando colocada ao lado das outras grandes Artes: a sua incorporalidade toca a alma como nenhuma outra, transmitindo-lhe alegria, raiva, sofrimento, amor, sentido do divino numa questão de acordes. E tem qualquer coisa de gratuito, no sentido de generoso, de dádiva. A sua existência transforma a nossa própria Existência, conferindo-lhe dimensões, cores, se quiserem, que nos fazem “voar” para além da própria realidade. Neste momento, atravessou-me o espírito a imagem da Pietá do Michelangelo … a Escultura (a meu ver mais do que a Pintura), talvez pelo aspecto oposto, ou seja pela sua corporalidade, tem também esta capacidade de nos “transportar” … mas não é a mesma coisa …

É essa alegria, esse gozo espontâneo de que falava, que se encontram estampados neste vídeo. Os sorrisos, a linguagem corporal, os olhares cúmplices dizem tudo. E o acompanhamento das duas lindíssimas e pujantes back vocals? É impossível olhar para elas e não admirar a força da sua presença, a confiança que emanam, o poder da sua voz, o seu extraordinário cabelo afro e generosas proporções que, neste contexto, resultam quase que magnéticas …

Reúnem-se, nesta canção, 3 tradições, 3 línguas e 3 formas de estar completamente distintas: a italiana, a árabe e a negra/americana. Querem combinação mais exótica e estimulante?




pcp

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

58 para o Rato


- Sim, eu estudo aqui no Príncipe Real. Estou no último ano de Comunicação.
- Ahh, sei muito bem. É aquele curso de línguas, o 'Cambrix'. Eu também tirei, depois fui lá professora.
- É essencial um curso!
- O meu filho também é quase doutor. Faltam-lhe três anos para acabar arquitectura. E tem média de 7.

Não interessa para onde vais, interessa como lá chegas. As pessoas mudam, o autocarro é sempre o mesmo.




TdB

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria


Consagração a Nossa Senhora

Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia e para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.
E porque assim sou Vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como propriedade vossa.
Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa.
Ah, guardai-me e defendei-me como coisa própria Vossa.

Insónia

Tic. Tic. Tic.

Oiço a torneira pingar desde que fechei os olhos. Viro-me para um lado, viro-me para o outro, e ainda me viro para um terceiro, porque nenhum dos outros dois serviu. O tempo vai brincando com o meu sono. Como eu, não tem para onde ir.

Tic. Tic. Tic.

Continuo a ouvir o pingar, lá ao fundo. Fecho os olhos, e acompanho o compasso das gotas com o indicador da mão direita. Tento fazer um padrão, um ritmo, uma música. Já tenho o indicador da mão esquerda em contraponto, a encher os espaços vazios. Respondo ao tic da água com um toc surdo, numa qualquer dança estranha. Não me parece que isto vá dar em nada. A dança, o sono muito menos.

Tic. Tic. Tic.

Fecho os olhos, mas hoje não é o meu dia. Tento esvaziar as ideias, enrolá-las todas numa bola entre os dedos, e atirá-las para o canto do quarto. Acerto num vulto de contorno suspeitos. Na luz é um tão prosaico candeeiro de pé, mas no escuro tem uma vontade própria. Mas, ainda assim, o sono não chega. Vou continuar nesta dança até o sol chegar.

Tic. Tic. Tic.

Não há nada mais solitário do que uma insónia...

SdB (III)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A gestora do hipermercado

Chamava-se Maria Helena e era responsável pela secção de peixe do hipermercado. Sabia tudo sobre sargos, besugos, guelras, escamas, época da desova, pesca do safio, extinção das espécies, funcionamento das lotas, necessidade de remunerar o accionista, receitas minuciosas de ir ao céu.

Se comparássemos a vida da gestora a um carro, dir-se-ia que seria algo de discreto, com um historial desinteressante em termos de picos de velocidade, iminências de desastre, curvas apertadas, ultrapassagens no limiar da segurança. Maria Helena tinha conhecido amores, solidões chorosas em madrugadas frias a compor a sardinha ao lado do salmão, noites sensuais cuja torridez do sexo envolvido se encerrava dentro de intervalos apertados. A rapariga era, de facto, uma montra de peixe que não se destacava pelo contraste ou pelo arrojo.

Um dia, uma colega – Aldina, natural do Cartaxo, baixa e entroncada como uma levantadora de pesos -, desafiou-a a consultar alguém que lia cartas e fazia mapas astrais.

O que tens a perder? Olha que já lá fui e saí toda arrepiada com o que ouvi. Posso garantir-te que não é um charlatão de turbante por trás de uma bola de cristal. Vai e depois conta-me. Já viste que fresquinhas que estão as douradas?

E a Maria Helena foi, num fim de tarde chuvoso e triste, com uma humidade que lhe estragava o cabelo e um vento que lhe partia o chapéu-de-chuva.

Posso dizer-lhe, Dr. Garcez,

diria ela ao astrólogo, um homem alto e magro como um ramo de salgueiro, e uma melena branca penteada para trás com um esmero de artista,

que a minha mãe garantiu que eu nasci às 12.45h.

No dia seguinte, no trabalho, foi confrontada com a franqueza campesina da colega.

Olha, digo-te, se fosses uma chaputa não ias para o linear. Estás cá com uns olhos…

E a Maria Helena contou o que ouvira, a quantidade de pistas que o Dr. Garcez lançara sobre o seu passado, o seu presente e o seu futuro. É claro que não soubera nada de concreto, mas a gestora encaixara pedaços de informação com histórias que só ela sabia.

Digo-te, Aldina, cheguei cá fora e sentei-me com as pernas a tremer… E o que será o meu futuro, com tudo aquilo que eu ouvi? Quem serão estas pessoas, estes sítios, estes acontecimentos?

Ao fim da noite, já em casa, agarrou-se a um chá calmante. Recusou um convite do Amadeu, chefe de secção de bebidas espirituosas, porque não lhe percebeu o enquadramento no que o astrólogo dissera. O futuro que o Dr. Garcez lhe apontara era nebuloso e desfocado, mas quanto ao passado…

Foi despertada pelo telemóvel que reproduzia a Beyonce, na batida forte do Single Ladies.

Está lá, Lenita?

Diz, mamã.

Olha, estou tão arreliada.

O que foi, mamã?

Então não é que te disse uma coisa errada? 12.45 foi a hora a que o teu pai e eu casámos. Tu nasceste eram quase dez da noite. Esta cabeça…

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

domingo, 6 de dezembro de 2009

2º Domingo do Tempo do Advento


EVANGELHO – Lc 3,1-6

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério,
quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia,
Herodes tetrarca da Galileia,
seu irmão Filipe tetrarca da região da Itureia e Traconítide
e Lisânias tetrarca de Abilene,
no pontificado de Anás e Caifás,
foi dirigida a palavra de Deus
a João, filho de Zacarias, no deserto.
E ele percorreu toda a zona do rio Jordão,
pregando um baptismo de penitência
para a remissão dos pecados,
como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías:
«Uma voz clama no deserto:
‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.
Sejam alteados todos os vales
e abatidos os montes e as colinas;
endireitem-se os caminhos tortuosos
e aplanem-se as veredas escarpadas;
e toda a criatura verá a salvação de Deus’».


Revi há dias o filme “Paris, Texas” de Win Wenders. E impressionaram-me, de novo, as imagens daquele homem a caminhar no deserto, sem um destino certo nem um plano de viagem. Não é fácil abrirem-se caminhos no deserto. A dureza do solo, o vento que move a areia, a falta de referências impedem essas marcas que possam servir a outros. Mas, ainda no filme, o caminhar daquele homem é interrompido por uma missão: voltar a conduzir o coração de uma mãe ao seu filho. E nos desertos que se instalam por dentro das pessoas, mais difícil é endireitar caminhos. Difícil, mas não impossível!

Não sei que filósofo chamava ao homem, “Homo viator”. Mas gosto muito desta expressão. Somos homens e mulheres em caminho. Abrimos caminhos que podem ser referência para outros, traçamos mapas e procuramos novas metas, e descobrimos também como o interior de cada um é um imenso mundo a percorrer. Quantas vezes a vida parece-nos um emaranhado de linhas, curvas e contra-curvas, avanços e recuos? E o tempo e energias que perdemos a pensar: “se tivesse ido por ali…”! Gostaríamos que nos apresentassem os caminhos já feitos e um mapa que bastaria seguir? Eliminaríamos assim o risco, a hipótese de um fracasso, alguns becos sem saída. Creio que foi Gabriel Marcel, um filósofo do século XX que dizia: “o desejo primordial de milhões de homens já não é a felicidade, mas a segurança”. O pior obstáculo a qualquer caminhada é o medo de sair de casa. E a “casa” pode ser a própria mente ou o coração de cada um!

Uma das maravilhas da Bíblia é revelar-nos um Deus a caminho. Ao encontro dos homens e propondo-se caminhar com eles. No oráculo de Baruc é Deus que conduz a Jerusalém os filhos e filhas reunidos desde o poente ao nascente. É Ele que abate os montes e as colinas e enche os vales para aplanar a terra, e Israel possa caminhar em segurança. A experiência da fé é um caminho, um “caminho que se faz ao andar”, como dizia o poeta António Machado. Caminho na terra e na alma. E como poderemos andar sem olhar para o que nos rodeia? E como podemos passar pela injustiça, a opressão, o homem caído, e nada fazer? O caminho do Senhor entrelaça-se com os caminhos dos homens. Vemos montes de orgulho e vales de indiferença? Encontramos caminhos tortuosos e veredas escarpadas? É um risco trabalhar nestes caminhos, mas pior não será ficar parado por medo de que andar seja doloroso? E julgamos que caminhamos sozinhos?


Texto do Pe. Vitor Gonçalves, enviado por mão amiga.


sábado, 5 de dezembro de 2009

A vida traz, leva, traz...

Da varanda eu via-o passar. Muito branco, muito loiro, cabelo à escovinha, duas pernitas a sair dos calções, ténis rotos, e sempre a garrafa na mão. Nem sei se chegava a um metro de altura. Para baixo, ia como um foguete, para cima, o peso do vinho dificultava-lhe a marcha. Um dia desci e entrei na tasca e espiei o miúdo. Com o tempo percebi que além dele havia mais. Eram uns cinco irmãos, com as mínimas diferenças de idade, abaixo dele. Meninas, meninos, todos trigueirinhos. Só ele saíra com aquele ar soviético, a mostrar as veias debaixo da pele e do sarro, olhos acentuadamente em bico.
Quando entrou em minha casa pela primeira vez, já os de leite tinham caído. Daí em diante esperava-me todos os fins da tarde na esquina, subia comigo, descia para avisar a avó, voltava, e só se pirava quando sentia a “carroça”, como ele dizia. Era a camioneta do lixo que passava pelas onze e meia da noite.
Depois conheci a avó, os irmãos, a prima, o tio. Viviam na mesma rua que eu, fazia-se um corredor estreito entre prédios, subia-se umas escaditas velhas e lá se dava com o covil. Nem as cortes de gado na minha aldeia eram aquela enxovia. Uma só divisão sem janelas, uma lâmpada fraca pendurada do tecto, uma torneira de cobre ao pé da porta. Mas nunca passei da soleira, de onde o Miguel chamava a avó, a mulher que sustentava o rancho, com os mesmos olhos de chinês, a mesma pele alvíssima, mas enrugada, a quem dizia, está aqui a senhora! Posso levar o Miguel de fim-de-semana? Queres ir? Ele decidia.
Quando saí de Alcântara a Segurança Social já tinha convencido a avó. Mesmo contra a vontade dos miúdos. A mãe vivia nos Olivais, tinha um companheiro, casa com condições, tinham que ir. Saíram eles, sairia eu meses mais tarde. Ficou a avó vendedeira de hortaliça na praça, o filho ganzado e a neta graúda de uma outra filha que vivia “muito bem”, em Espanha.
A última recordação é a de um sábado em que nos cruzámos por acaso, lá na nossa Alcântara, teria já 10 ou 11 anos. Correu até mim, corou de vergonha com a festa que fiz, com o abraço, e meteu no bolso a nota que lhe dei. É só para ti, ouviste? Os olhos eram estrelas.
Há dias, estacionei, e saía do carro quando um homem me interpelou. Você não morou em Alcântara? Morei. Você gostava muito lá de um miúdo... Talvez. Havia vários. Era o Miguel. O Miguelito? Sim, o russinho. Sou tio dele. Ah, homem, você sabe lá as vezes que penso nesse menino.
Tem telemóvel, 17 anos, a mesma voz vagarosa e risonha com que falava comigo enquanto eu fazia o jantar e partes gagas para eles se rirem. Com que ternura assumia tomar conta do meu filho Zé, uma meia dúzia de meses insaciável na paródia. Fomos tão felizes. E éramos tão pobres e a vida tão difícil de levar. Amanhã, meus amigos, vou ver o Miguel! Amanhã, meus amigos, vou ver o Miguel!

DaLheGas

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

i sing my electric heart

para o al berto.
porque somos tão poucos a cantar.


i dream of electric dreams
i dream of electric daydreams
i dream of electric ladies
i sing the body electric.

just as some people grow gardens
in the backyard
each morning i wake up
and water my flowers gently.

i carry a garden inside myself:
each flower growing from an electric seed,
each seed growing from a kind of pain.

some people wear flowers in their hair
just like in the song, decades ago.
i wear electric flowers, instead,
and ladies,
and dreams.
a different kind of skin
i didn't ask anybody for.

each flower, each pain, each dream, each bone:
a gigantic
and electric
dreamland
in which i rest from the pains of the world,
only
to better dive into
my own pains.

this garden where i feel secure,
as virginia astley once said.

i sing the world's pain away
by mastering
my own.

a job? you ask.
a mission? you mock.

a flower. i say.
'cause
each one grows the garden that suits him the most.


gi.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, this week I have chosen a song which will be very familiar to everyone. It has become a timeless classic, but actually it was written in 1968 during a time of great social and political violence in the USA with the racial struggles for equal civil rights, the assassinations of Martin Luther King and Robert Kennedy, the student riots and the growing criticism against the Vietnam war (there is always a war). And not just in America. Think of the student riots in Paris, the invasion of Czechoslovakia...oh, and Caetano.

Our song speaks simply of a better world.

Our artist is one of the Jazz Greats. Louis Armstrong was born into poverty in New Orleans, his father abandoned the family, his mother was forced into prostitution, he left school aged only 11, A typical story. He found work with a Jewish immigrant family who treated him as a son, He discovered that Jewish people also were discriminated against and they taught him a lesson of "how to live - real life and determination". In tribute he wore a Star of David for the rest of his life.

I am not a Jazz afficionado and I do not pretend to comprehend Louis' huge influence in his musical world. You can discover for yourself how he created and developed Jazz styles, both with his trumpet playing and with his distinctive 'scat' singing. What I remember of him is his charisma and his big smile and of course his deep gravel voice. He was always smiling. And I am sure that it was this warm personality and optimism that allowed him to overcome his poor beginnings and to transcend racial discrimination to become a much-loved global superstar far beyond his jazz world.

The video I have found shows Louis singing live, capturing his charisma and expressiveness beautifully. The song is not of course typical of his work but that such a man with such a life can sing with such faith and optimism in mankind, there must be hope for all.



As a bonus, and inspired by the title of Gi's poem on Nov 27, "those thin lines between light and shadows", I offer another video of this same song:



I hope you enjoy!

A proxima.

po

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Porta 19

Era uma vez uma gaveta. Era de madeira, como todas as outras. Tinha puxadores trabalhados, bem presos e um forro de papel velho e desgastado com o uso.
Naquele mundo não havia justiça. Havia gavetas preferidas. Havia outras que se tentavam fechar para que nunca mais se abrissem. Mas era impossível.
As gavetas abriam, os seus moradores saltavam e gritavam, brincavam, choravam e até se zangavam uns com os outros.
Para melhor organização daquele mundo complexo a que os humanos chamavam cabeça, as gavetas tinham números.
Quando o mundo foi criado, algumas gavetas vinham incluídas no pacote, outras foram sendo adquiridas ao longo dos anos, outras nunca chegaram a abrir (provavelmente não seriam usadas para nada).
Havia uma gaveta em especial, que por fora era igual às outras. Madeira, puxador branco, mas com um habitante que moía o juízo aos outros. Lá dentro vivia a solidão. Como companheiro, uma dose enorme de pó, que chorava todos os dias, e de cotão, que gritava sem ninguém dar por isso.
Tentaram várias vezes fazer trocas. Esconder a solidão numa gaveta que não fosse aborrecer mais ninguém, fechá-la, calá-la mas... a solidão não se cala, as gavetas não têm chave e ela dali não saía.
Levaram a situação a um ponto tão grave que tentaram expulsar a solidão do mundo. Mas nada, nem os humanos conseguiam resolver o assunto.
Nem com talão, reclamação e justificação plausível a troca seria feita. Os moradores do mundo até discutiram com quem lhes impingiu aquilo. Disseram que não servia para nada, só para desarrumar as outras gavetas. Perceberam então que, quando se adquiriam os outros produtos, a solidão estava anexada, era um género de brincadeira de mau gosto.
A maioria das outras gavetas (conformadas com aquela presença estranha) pouco ou nada queria saber daquela que tinha a solidão. Ignoravam-na a maioria dos dias, iluminadas com a luz do sol, todas funcionavam bem. Entre o abrir e o fechar, os saltos e piruetas do que estava dentro das outras gavetas e armários, ninguém dava muito pela solidão.
A sabedoria e a inteligência brincavam uma com a outra. O sentido de humor, uma criatura pequenina e sorrateira, escondia-se e pregava sustos às convenções sociais e ao silêncio. O mau feitio era estranho, disfarçava-se e dava-se muito mal com o sentido de humor. Aparecia só de quando em vez, e quando não aparecia, fechava-se na sua gaveta com os amiguinhos: os gritos e a arrogância, e às vezes também se juntava a raiva.
Na minha cabeça tenho as gavetas do cérebro bem organizadas. Mas há uma vazia, forrada com um papel velho e gasto, entreaberta, com cotão, pó e um ser estranho a viver lá. Já pensei, mas ainda não sei o que fazer com ela.

All the lonely people, where do they all come from?
All the lonely people, where do they all belong?

TdB

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Meu Amor

Dóis-me cá dentro, por baixo da pele. Empilhámos dias iguais em cima das memórias e eu esqueci-me de como era quando ainda te conhecia, quando ainda te sentia como um sopro quente, um aconchego. Odeio as horas e repugno quem as impôs como condição soberana da vida, afinal, foram elas que te levaram para longe de nós. Agora, quando não és só ar frio com o dom a inconveniência, dóis-me cá dentro, debaixo da pele.

Sabes a amargo. Descobrimos no beijo a celebração natural do amor e aprendemos a levitar por necessidade directa da fraqueza que nos dava nas pernas. Abomino o tempo e revolto-me contra quem inventou a rotina e ensinou aos sentidos que a repetição é o caminho mais directo para a habituação. Habituaste-te a mim, as pernas já não te tremem e agora sabes a amargo.

Ficámos dormentes, sentados para sempre. Criámos sozinhos uma força nova, de duas carcaças nasceu vontade suficiente para mudar o mundo, a mesma que deixámos esfumar sem pressa, numa dormência que nos recusámos a admitir. Ufanos os que, ao contrário de nós, reconhecem a apatia a tempo de remediar a desgraça eminente da dormência. Ficámos dormentes, sentados para sempre.

Adeus, até sempre. Inventámos sem hesitar um futuro risonho, estendido diante de nós como uma estrada de aguarela viva, ladeada de árvores à mercê das estações, uma perfeição. Danado quem, caprichoso, idealizou que todas as estradas, eventualmente, se bifurcariam, e tristes de nós que, cegos de dor, não soubemos escolher, os dois, o mesmo destino, portanto, ou por tão pouco, adeus, até sempre.

Teu Amor


ZdT

domingo, 29 de novembro de 2009

1º Domingo do Tempo do Advento

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.
A inevitabilidade feliz de não vivemos numa redoma, de não sermos uma ilha, de não sofrermos de uma cegueira egoísta faz-nos olhar à volta, atentar no mundo em nosso redor, ouvir histórias e ser protagonista de histórias.
Para alguns dos nossos amigos, familiares, vizinhos, colegas de trabalho, este tempo que se adivinha é um tempo de dor. Não obstante as luzes, a alegria ingénua das crianças, a paz na terra aos homens de boa vontade, há quem seque lágrimas por aqueles que partiram das suas vidas.
Há quem passe esta quadra na saudade de uma ausência sem remédio, no sufoco de uma doença difícil, no vislumbrar de uma porta que se não abre nunca mais.
Há quem passe esta quadra na angústia de uma árvore de Natal vazia ou de uns presentes que só existem nas mãos dos Reis Magos, porque é a dificuldade, é a crise, é o desemprego.
Há quem passe esta quadra na lembrança de tempos felizes, de casas cheias, de vidas fagueiras, de estradas que não tinham curvas.
Neste primeiro Domingo do Advento peço por todos eles, para que não lhes falte a fé, a força e a esperança.
Neste primeiro Domingo do Advento peço para que todos saibamos erguer o facho das nossas vidas compostas para iluminar a estrada sofrida do nosso próximo.
***
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas
e, na terra, angústia entre as nações,
aterradas com o rugido e a agitação do mar.
Os homens morrerão de pavor,
na expectativa do que vai suceder ao universo,
pois as forças celestes serão abaladas.
Então, hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem,
com grande poder e glória.
Quando estas coisas começarem a acontecer,
erguei-vos e levantai a cabeça,
porque a vossa libertação está próxima.
Tende cuidado convosco,
não suceda que os vossos corações se tornem pesados
pela devassidão, a embriaguês e as preocupações da vida,
e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha,
pois ele sobrevirá sobre todos os que habitam a terra inteira.
Portanto, vigiai e orai em todo o tempo,
para terdes a força de vos livrar de tudo o que vai acontecer
e poderdes estar firmes na presença do Filho do homem».

sábado, 28 de novembro de 2009

Fatal é o destino?

Deixa-me viver. Não te entrances nos meus dias, estou-te a pedir. Não vês que não consigo carregar-te? É muito peso, é longa a história, e duro lamber as chagas. Na verdade, nem sei se sou capaz de te enfrentar, de te olhar nos olhos, de te ver de frente. Fazes-me pena, trazes-me raiva, mostras-me coisas que eu não quero, lembras-me o que eu gostava de esquecer. Lembras-me, eu já sei. Deixa-me lá continuar a disfarçar que sou mais um, igual a tantos outros da manada. Que gosto de andar aqui na multidão, de ser um cidadão progenitor, um empregado disciplinado e cumpridor. Larga-me, rogo-te. Fecha-te a sete chaves em sossego, esconde-te, não me forces a fazer-te a vontade. Não posso, sinto isso, não consigo. Tem dó alma perdida, pára de segredar constantemente a mesma coisa, que nada querias com esta vida. Não vês que eu era fraco e nem te ouvia? Como hei-de consolar-te, já não sei. Como hei-de dominar-te, ainda talvez... um dia, se lá chegar, vou procurar-te. E tentar saber ao que chegaste, o porquê, a razão de tanta urgência. Prometo, juro e quem sabe, firmamos um acordo. Que eu viva inteiramente ao teu jeito, que te ame loucamente como anseias, sem as reservas desta mente maltrapilha, carregada de obtusos pensamentos, que adiam e adiam os tormentos. Aguenta-te alma, mais um pouco. Espera que chegue o tempo que nos junte. Que haja coragem para termos esse encontro. Fatal, eu sei, como o destino.

DaLheGas

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

those thin lines between light and shadows

escrever palavras sem fundo,
loucas como o mundo,
feitas de um sonho imenso,
ardendo agora como incenso.
(espécie de verbo afirmativo,
negado em definitivo?)

aqui
jazem
todas
as flores
e outros perpétuos amores.

stop. restart.

aqui
nascem
novos
amores
e outras pungentes flores.

inscrever palavras no mundo,
sedentas lá no fundo.
vida e luz e fermento,
assim por extenso.
(espécie de verbo negativo,
esconjurado em definitivo?.)

oh..
those thin lines between light and shadows.

gi.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Deixa-me rir...

Hoje a minha proposta é ligeiramente diferente. Gostava de mandar os parabéns aos muitos Sagitários (o signo mais giro do Zodíaco!) que conheço. É, a meu ver, um signo de gente com brilho, gente divertida, animada, expansiva, de bem com a vida. Positivos, inteligentes, muito criativos, generosos, meigos, distraídos, algo voláteis, fazem-me lembrar borboletas multicolores esvoaçando sobre flores num imenso prado a cheirar a Primavera (as flores são os projectos, as ideias, as paixões).

Os Sagitários que conheço são, graças a Deus, muitos. Começam logo no dia 23 de Novembro, continuam pelo dia 25 (o meu afilhado fez ontem 18 anos!), hoje, 26, faz anos uma amiga minha originária da Tasmânia ... e ainda 28, 30, 1 de Dezembro, 2, 3, 6, 11 (conheço 7 pessoas neste dia!), 16 e 21 de Dezembro … mas não vos canso mais com a minha memória para datas de anos …

Assim sendo, a todos os Sagitários que conheço, aqui vão os Happy Birthday’s mais famosos do planeta. Enjoy.



pcp

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Coimbra tem mais encanto...

Hoje, mas há uma semana, a Acreditar inaugurava a sua Casa de Coimbra. Ficam algumas das palavras ouvidas durante essa cerimónia.


Vista de fora, esta casa não é mais do que uma casa: tem quartos, salas, cozinhas; vista de fora, com a ligeireza e imediatismo com que vemos algumas coisas, esta casa não é mais do que um conjunto harmonioso de divisórias, servida por um conjunto funcional de equipamentos. Uma casa, apenas.

Mas esta casa tem de ser vista com outros olhos, com os olhos do coração, talvez; quando o fizermos, veremos mais do que chão, parede, tectos. Veremos 20 crianças que farão desta casa a sua casa. Veremos 20 Pais que, apesar de toda a diversidade de origem geográfica ou social, falarão a mesma língua e revelarão, nuns olhos que choram ou numa cara que ri, aquilo que os junta a todos: a doença de um filho e a esperança de uma cura. Para estas famílias, que aqui viverão o tempo que for necessário, sem qualquer preocupação financeira, este espaço será, na expressão feliz de alguém, uma casa longe de casa.

Esta Casa é um desafio novo para a Acreditar. Não só porque exigirá um esforço económico, laboral e logístico maior, mas porque receberemos aqui crianças com outras patologias para além do cancro. Em Lisboa estamos em frente ao IPO; em Coimbra estamos ao lado do futuro Hospital Pediátrico, e não faria sentido ser de outra forma. O convívio de todas estas realidades será, no mínimo, interessante e, seguramente um espaço de aprendizagem da diferença, da tolerância, da entreajuda. O caminho será novo, mas, no rosto de cada um que se cruza connosco, veremos essencialmente o mesmo: crianças doentes, Pais que sofrem, a esperança que nunca os abandona.

A Acreditar patrocinou, em tempos, um livro que tocava o tema das Obras de Misericórdia, algo que é caro à tradição cristã, e que inspirou a Rainha D. Leonor quando, em 15 de Agosto de 1498, fundou a primeira misericórdia de Lisboa. Uma das obras consiste, precisamente, em dar pousada aos peregrinos. Neste olhar cristão que gosto de derramar sobre as coisas, sinto que, entre muitos outros serviços, é isso que aqui faremos: dar pousada a quem se aproxima de nós, albergar aqueles que percorrem os campos da doença, da recuperação e da confiança no futuro.

À semelhança, talvez, de todas as instituições de solidariedade social, a Acreditar encerra em si uma quantidade inevitável de paradoxos. Há 16 anos, um conjunto de Pais juntava esforços e, sob o lema tratar a criança com cancro e não só o cancro na criança, fundava a Associação; hoje, como ontem e como amanhã, profissionais e voluntários entregam-se, de alma e coração, a uma luta esforçada e dedicada para encontrar formas de melhorar a qualidade de vida das nossas crianças, seja através da angariação de fundos, de campos de férias, de publicações; hoje, 18 de Novembro, reunimos uma quantidade imensa de amigos e celebramos a abertura desta Casa. Estou certo de que ninguém se surpreenderá com esta afirmação: reside, no mais fundo dos nossos corações, a secreta esperança – talvez mesmo a certeza – de que um dia assinaremos todos a declaração de cessação de actividade da Acreditar. No fundo, no fundo, aquilo que todos desejamos é poder fechar a Associação, dedicar Casas e pessoas a outros fins. Celebraremos esse dia com uma alegria redobrada, porque a expressão oncologia pediátrica terá sido atirada para o baú das doenças extintas.

Até lá continuaremos o nosso trabalho com o mesmo entusiasmo de sempre. Pensaremos numa futura casa, adaptada às necessidades e às tendências dos tratamentos; continuaremos a lutar por uma legislação que proteja os Pais; manteremos a publicação de livros que ajudem todos os intervenientes a lidar com o problema; faremos campos de férias, excursões, encontros, reuniões; estaremos presentes nos fóruns indicados para aprender e influenciar; seremos a linha da frente de tudo o que for importante para as nossas crianças. Acreditar é isto.

(...)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Musiquitas

No quarto de esquina fazia casa, há já algum tempo, um homem a quem tinham posto a alcunha de Musiquitas. Era um personagem despenteado, com o cabelo sempre em desalinho e diferente de dia para dia. Passeava-se, de mãos atrás das costas, pelos corredores dessa casa de gente estranha.

Essa casa de gente estranha era um manicómio. Para muitos dos que lá moravam, era a única casa que alguma vez tinham conhecido. E era, realmente, um universo feito de pessoas excêntricas, e de outras que esticavam tanto esse adjectivo, que para esses só mesmo o estranho se adequava. O Musiquitas era um dos que saltitava de um lado para o outro nessa fronteira. Dependia dos dias.

Certo dia, vindo de um dos passeios diários pelo exterior, trouxe um pedaço comprido de cartolina. Tinha desenhado em cima as teclas de um piano. 84 teclas, pretas e brancas, 7 oitavas, de Dó a Dó. A partir desse dia a casa silenciosa tinha concertos diários. Na sala comum, pelas oito horas, quando os enfermeiros começavam a recolher as tigelas sujas de gelatina ou de mousse de chocolate (conforme o dia), substituindo-as por copinhos com comprimidos de várias cores e feitios, o Musiquitas desdobrava o seu teclado por cima da mesa encostada à janela. Desligava-se a televisão e calava-se todo o burburinho de fundo.

E a essa hora o silêncio instalava-se, grave e solene, na sala. Os enfermeiros, habituados a demonstrações de loucura de todos os tipos, não ligavam. Mas os pacientes estavam absortos, quase que hipnotizados pela música que saía das teclas de cartolina.

O concertista anunciava o que ia tocar antes de cada música, esperava que as palmas, os uivos e os assobios se calassem, e agradecia sempre de pé, curvando-se várias vezes perante o peculiar público.

Isto repetia-se quase todos os dias. O Musiquitas tocava com um ar tão compenetrado e tão envolvido, que as notas pareciam fugir dos dedos que passeavam na cartolina. E o público parecia também realmente ouvi-las, pois alguns, de olhos fechados, abanavam a cabeça a ritmo. Havia mesmo quem, nas músicas de ritmos mais solarengos, assobiasse a melodia.

Os enfermeiros, intrigados por este espectáculo que parecia ter cada vez mais fãs, decidiram preparar uma surpresa ao Musiquitas. Trouxeram-lhe um teclado verdadeiro. Conseguiram-no convencer a trocar a habitual cartolina por esse. Mas ele não gostava nada destas teclas novas. Eram frias e moles. Não tinham sentimento quando as empurrava para baixo. Mas mesmo contrafeito deu o concerto habitual.

O mesmo silêncio dos outros dias se instalou, e os enfermeiros, mal ecoou a primeira nota no ar, abriram todos os olhos de espanto. Saía do piano uma música tão leve como a noite lá fora. O pianista, concentrado no seu ofício, fechava os olhos. E desse piano as harmonias ficavam, por instantes, suspensas no ar, como o fumo dos cigarros, até se dissolverem.

Perplexos, os enfermeiros foram dar os parabéns ao Musiquitas no fim do seu concerto. Tinham gostado muito, e insistiram para que ele tocasse habitualmente. Ele olhava-os, naquele ar desalinhado e vago. Não percebia o porquê desta conversa só agora, quando já há tanto tempo que ali tocava. O teclado era diferente, mas a música era a mesma.

SdB (III)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O diálogo

(...)
- Sabe que mais?
- Diga…
- Há muito tempo que vivo do sexo. E, como deve calcular, não é com o meu marido…
- Quer especificar?
- Sim.
- Diga, então.
- Desde há um ano que trabalho na Lanterna Vermelha…
- Lanterna Vermelha? O que é isso?
- Como posso explicar-lhe… é aquilo que se chamaria uma casa de senhoras.
- Sim, já percebo. Continue.
- Fui contratado para lá trabalhar, como lhe disse.
- E gosta?
- Podemos falar de várias dimensões.
- Quais?
- A financeira, a sociológica.
- Fale-me da segunda.
- Pois muito bem. Sabe, durante muitos meses fui mais do que a pessoa que está aqui a falar consigo, e isso já é, só por si, um aspecto interessante.
- Como assim?
- Olhe, durante vários meses fui a Honória, uma moçambicana que recebera o pai crivado de balas e sem uso para o afecto de que precisava; fui a Joana, cuja simetria física perfeita excitava alguns clientes e a Georgette, que tinha das cartas de amor uma visão própria e carregada de mentira. Fui ainda Esperanza Morales que, vinda de Pipinas, na Argentina, dançava nua ao som de tangos dolentes, e Carmelinda, natural de Bencatel, cujo sotaque cerrado provocava desvairos e olhos revirados num conde falido. Fui ainda a Gervásia, uma beirã que tirava o palhaço do sério, assim como fui a Solange e a Rosário, encantando jogadores de futebol falhados ou homens sombrios de uma qualquer repartição de Finanças. Fui ainda, entre outras, a Yuni Siyu, uma chinesa que fazia do trapézio uma volúpia circense.
- Estou impressionado.
- E pode ficar que não é para menos.
- Quer continuar?
- Claro, porque não quero ficar na explicação de quem fui ao longo destes meses; quero falar-lhe, também, da visão sociológica dos clientes.
- Diga então.
- Podia falar-lhe do tal conde falido que só queria ouvir alentejano cerrado enquanto revirava saudosamente um bocado de cortiça no bolso do casaco; podia falar-lhe no Sr. Marcolino, um anão com desejos de alpinismo e que escalou uma escultura em forma de mulher; talvez valesse a pena referir o Martim Moniz, Miranda da parte da mãe, que se iniciou nas artes do prazer trazido pela mão de um avô; gostava que lhe falasse no Dr. Guimarães e Costa que se encantou, não pelas curvas sensuais de uma rapariga, mas pela sua arte no jogo do crapaud? Ai, havia tanto para lhe contar…
- E diga-me: na verdade, o que a traz por cá?
- A bem dizer não sei. Uma vontade imensa de falar deste assunto, sei lá eu. Foi uma vida muito intensa, sabe? Muitos personagens, muitos clientes, muito erotismo, muito afecto, muito asco, talvez... Muitas vidas dentro da mesma vida. Como será que aguentamos tanto personagem a conviver no mais íntimo de nós?
- Eu percebo.
- Dá-me a absolvição, senhor Padre?
- Está arrependida?

(...)

Conheço-os bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

domingo, 22 de novembro de 2009

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Pilatos a Jesus:
«Tu és o Rei dos judeus?»
Jesus respondeu-lhe:
«É por ti que o dizes,
ou foram outros que to disseram de Mim?»
Disseram-Lhe Pilatos:
«Porventura eu sou judeu?
O teu povo e os sumos sacerdotes é que Te entregaram a mim.
Que fizeste?»
Jesus respondeu:
«O meu reino não é deste mundo.
Se o meu reino fosse deste mundo,
os meus guardas lutariam
para que Eu não fosse entregue aos judeus.
Mas o meu reino não é daqui».
Disse-Lhe Pilatos:
«Então, Tu és Rei?»
Jesus respondeu-lhe:
«É como dizes: sou Rei.
Para isso nasci e vim ao mundo,
a fim de dar testemunho da verdade.
Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».


***

É um dos encontros mais espantosos do Evangelho: Pilatos e Jesus. O representante do império mais poderoso e o profeta do reino de Deus, o primeiro na sede onde dita as sentenças, Jesus preso como um delinquente. Que realeza é essa que Jesus reclama? Sem trono, sem poder, sem ambição de dinheiro, sem nenhum sistema injusto que o sustente, sem legionários que lutem por ele? “O meu reino não é deste mundo”! Porquê então a sua condenação? “Sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo a fim de dar testemunho da verdade.”
Toda a vida de Jesus é uma interpelação: “aquele que é da verdade escuta a minha voz”! E isto incomoda os grandes poderes em todos os tempos. Porque a sua maior ânsia é possuir a verdade. E em nome dela justificar, tantas vezes, o injustificável. Quem segue Jesus não é dono nem guarda da verdade, serve-a testemunhando-a. Por isso não pretende derrotar os adversários, nem impor uma doutrina, nem controlar a fé de outros ou ter razão em tudo. Porque vive em união a Jesus procura converter-se a Ele, quer transbordar o amor que sente por Ele, olhando tudo com os olhos do Evangelho, em tudo semeando a verdade de Jesus. Fazendo seu o programa das bem-aventuranças.
Jesus fala de um reino novo. Que não tem fronteiras porque o seu terreno é o coração dos homens. Que tem uma linguagem que todos entendem, a do amor. Um amor que radica no “amor das entranhas”, a “hesed” bíblica, traduzida depois por ágape e caridade. Assim se referia o P. Peter Stilwell à “compaixão”, a propósito da “Carta pela Compaixão”, uma iniciativa de várias confissões religiosas e não-crentes: “Trata-se de uma emoção delicada: um transbordar do coração perante as alegrias e sofrimentos dos outros. É um movimento profundo que arranca das raízes do nosso ser, antecedendo a reflexão da razão e a inclinação da vontade. Mais do que uma atracção "química" pelo outro, ou sequer um sentimento psicológico de afinidade, é uma virtude ou força espiritual. Os cristãos lêem-na como brotando do próprio Deus, e por isso lhe chamam "virtude teologal"
Se queremos viver neste reino, talvez seja necessário um primeiro exercício: destronizarmo-nos a nós próprios, deixar de ser o centro das preocupações e colocar aí Deus e os outros. Valorizar os sentimentos, as atitudes, as palavras, o sofrimento e a alegria, que generosamente partilham. Despojarmo-nos dos mantos e vestes que aparentam auto-suficiência e olhar os outros nos olhos. Gostando mais de quem vemos. Escutando a verdade que também testemunham.

(Texto do Pe. Vitor Gonçalves, enviado por mão amiga)

sábado, 21 de novembro de 2009

Gostas do cheiro a capim?


Hoje acordei, tratei da minha prole e como sempre seguimos às respectivas escolas, esses depósitos de miúdos cheios de gente adulta a quem nunca poderei agradecer na totalidade o bem que me fazem, nem apontar a mediocridade, a falta de imaginação e até de responsabilidade. Sim, uma mãe não consegue revolucionar o sistema. Nem um professor, quanto mais uma mãe. Em quase todas as profissões somos paus mandados e a cobardia é a alternativa ao desemprego.

De volta a casa, sabendo que tinha de apagar um fogo editorial, percebi que o meu poço estava praticamente seco. E agora? Posso bater a porta e fugir, meter-me na cama e fingir-me doente. Ficar frente ao ecrã a debitar frases batidas, ou pôr a inteligência a cavar até sentir a água fresca das entranhas da terra. Mas a minha inteligência é estuporada. Lúcida demais para se distrair com ilusões, insensível ao prestígio e à novidade, e a terra, ohh, a terra anda tudo menos repleta de nascentes. Resta o valor da solidariedade, e o tema, a merecer um digno destaque.

Há dias assim, em que a secura trava a palavra, a boa vontade não chega, e a obra meritória não inspira. Até que o telefone toca e o inesperado acontece. O plano modifica-se, a carga alivia-se e a correria abranda. A correria, o tempo contado, tanto para tão poucas horas. Afinal, talvez sejas capaz. Respira. Pensa na água. Lembra-te do fogo. Abre um documento, dá-lhe um nome, salva-o, põe título, faz a entrada ou deixa-a para o fim, mas regala-te, vá, regala-te a descrever esse cortiço virado ao vale. Anda. Imagina-te nele. Tu, ele, o cheiro a capim...

DaLheGas

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

lovely theresa

pediu desculpa ao mundo, a todos, aos que amara acima de tudo,
pelo modo deselegante que escolhera como porta de embarque,
rumo a esse imenso vazio / devir (riscar o que não interessa)
que pode ser o infinito, especialmente se projectado no tempo,
isso a que se chama também eternidade, como bem sabemos.

pediu desculpa a todos, a tudo, ao mundo, às lovely girls que amara,
pelo modo que escolhera para sair do mundo, do espaço, do tempo.
ensaiara as últimas linhas com a serenidade do artesão que sabe, e sente,
que um dia a jóia nas suas mãos será a última, a derradeira saída
dessa linha de desmontagem que foi a sua vida (qualquer uma).

i love(d) you all, lera um dia numa sofisticada revista de upper manhattan,
era a mais terna e sincera das frases de despedida. ainda hoje, anos depois,
sabia que a lovely theresa que, ainda viva, assinara o bilhetinho seria decerto
inultrapassável, nesse desesperado e radical campeonato (ou arte suprema?)
dos que, em surdina, escolheram escolher a morte, em plena vida.

porém algo nele resistia. influência de obscuros filósofos lidos na juventude,
gritando ao seu ouvido: nenhuma negação pode ser uma opção livre.
e ele queria acreditar, tal como queria acreditar que não se morre de amor,
nem por delicadeza, nem por generosidade, nem por qualquer acto de grandeza.
morre-se, tão-só, quando não se aguenta a dor, a vida tornada intolerável.

por isso mesmo, por ser uma contradição extrema, algo nele resistia
a aceitar que da livre escolha possa resultar a aniquilação auto-infligida.
mas se o que se mata, não é a vida, afinal - o que se mata é antes a dor -
demonstrado está, e adormeceu veramente contente, o axioma maior:
não se morre por somenos, morre-se para matar para sempre essa dor,

que, às vezes, é vida,
outras vezes, medo.
que, às vezes, é vertigem,
outras vezes, ferrugem.
que, às vezes, é nervo,
outras vezes, tudo o que fica

depois de esgotada e finda a derradeira possibilidade do amor.


gi

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, this week I present something light-hearted, some will perhaps say superficial, frivolous...but I think quintessentially British.

The Ukulele Orchestra of Great Britain sound very grand but they are a group of friends who came together in 1985 through a shared love of an instrument neglected since the George Formby era of the 1940s and since the dawn of rock n roll. They discovered, however, that many other people still 'secretly' loved the ukulele (it was a favourite of George Harrison who owned a large collection). And so from small clubs they now travel on "world tours with only hand luggage".

I experienced them joyously for the first time, but definitely not the last, this summer during the popular Promenade Concerts at the London Royal Albert Hall.

It was a late-night concert, normally not so well attended, but the Hall was completely full, an audience of 6000 enthusiastic music fans. And in what has apparently become a tradition, about 1000 had brought their own ukuleles, a riot of technicolour pink and green and blue and red instruments, in order to play along during one piece of music. Anarchy in the UK-ulele!

The UOGB play every kind of musical style. Classical of course, but also folk, pop, disco, rock, jazz, blues, They play Bach, Tchaikovsky, Ennio Morricone, Cat Stevens, Led Zeppelin, Nirvana... they are very good musicians, they are not-so-good singers, but they perform always with a sense of fun.

This video is taken from a tv show. The serious intention was to illustrate how classical music has influenced other musical genres, how certain motifs repeat themselves in unexpected places. In this case, the Orchestra start with a melody composed by George Freidrich Handel which metamorphoses into...well, you will see.



I hope you are entertained! And I hope you will investigate other videos and their website to hear better examples of their virtuoso musicianship.

A proxima,
po

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Jardim Interior

O segundo andar das traseiras foi, na altura em que me mudei para cá por causa do emprego, uma novidade extravagante. Tinha ouvido falar dos esquerdos e dos direitos, mas nunca dos de trás.

Não fiquei triste, a sério que não, duas tardes de equilibrista foram suficientes para me livrar de todo o verdete da marquise e, no fim da trabalheira, fiquei com vista para duas laranjeiras, mirradas pela sombra daquele poço esquecido entre prédios anónimos. Concluí sem pressa que ninguém, de entre todos os vizinhos anónimos empilhados à minha volta, se virava para aquele buraco e assumi, com assinalável alegria, que a escada de incêndio tinha sido ali colocada pela mão de alguém raro, com olho para o encanto das pequenas coisas.

Não fiquei triste, a sério que não, quando uma das janelas mortas dos segundos andares, a do prédio a norte, o único com acesso à escada que, todos os dias, me leva ao meu jardim bafiento, se acendeu num desassossego. Gosto de pessoas e sei fazer o meu silêncio mesmo em lugares onde o barulho não descansa. Para ser franco, não percebi ao certo quando é que as laranjeiras deixaram de ser exclusivamente minhas e passaram a ser um bem comum e, se não fosse o Carlos enroscar-se na cadeira com almofadas floridas que surgiu ao lado da minha, eu nem teria reparado nela.

Não fiquei triste, a sério que não, quando na semana passada o Carlos miou num sobressalto, acordando-me da minha leitura, porque o assustaste com a tua acesa discussão sobre coisas pesadas e dores entaladas, enquanto descias as escadas, numa distracção que quase te custou um tornozelo magoado, não fosse eu ter-me levantado para te receber, acabando por facilitar o amparo improvisado à pequena queda que deste. Agradeceste-me com os olhos e eu resolvi deixar o jardim para ti. Quando cheguei à marquise tentei não escutar, eu que sou tão bom a fazer silêncios, mas uma sensação que, a ser arrumada numa gaveta, iria para a mesma que a dos apartamentos das traseiras, a das novidades extravagantes, segurou-me a atenção.

Não fiquei triste, a sério que não, quando tive a certeza que choravas, enroscada na minha cadeira de pau, porque o Carlos havia ficado pela tua cadeira de primavera, num novelo de compaixão e tu, ou por indiferença ou por bondade, não o quiseste enxotar. Fiquei apertado por dentro, desconcertado e desvalido, conseguia ouvir cada soluço engasgado, e estremecia sem saber o que fazer, mas não fiquei triste.

Desculpa aquilo de ontem, disseste de olhos vermelhos, a meio da tarde de sábado, Não tinha reparado que estavas aqui. Sorri um Não há problema enquanto te sentavas ao meu lado. Ficámos muito tempo sem dizer nada. Não te preocupes, está tudo bem, já passou, começaste a dizer sem eu ter perguntado nada. Tinha um mundo de emoções estrangeiras atadas num nó, à porta da boca, e suponho que uma expressão interrogativa, porque continuaste, Adoptei este jardim sem saber que era teu, precisava de um lugar, agora que fiquei sozinha, Sabias que eu tinha escutado tudo e não estavas zangada, Não te importas? Sorri, não estava capaz de sequenciar palavras de forma lógica.

Hoje desceste com lanche para mim, Como haveria de me importar, vizinha? É uma alegria ter movimento por aqui, atirei-te eu, num descompasso do coração que até um tolo alienado conseguiria notar. Tinha-te espreitado a roubar laranjas, descalça, de manhã, mas nem os meu delírios mais ousados impediram que ficasse desarmado, Andei a roubar laranjas para te fazer um sumo! A conversa perdeu-se nas horas e eu dei por mim num remorso incontrolável, Não fiquei triste, a sério que não, expliquei-te eu. O teu silêncio fez-me cair dez vezes a altura daquele poço estreito e escuro onde, ainda há momentos, levitávamos contentes e só sosseguei quando me abraçaste. Não disseste mais nada até ires para casa e eu não consigo sair cá de baixo, com medo que me falhem as pernas.

ZdT

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O consultor (Cont.)

O calendário religioso avançava a um ritmo certo e previsível, como o alinhamento dos astros, os eclipses e as marés, ou a inevitabilidade dos impostos e da morte, estes dois últimos acontecimentos constituindo, ao que dizem, a única certeza da vida. Tal como numa célebre viagem de comboio entre a velha Sevilha e Guadalquivir, o Bem e o Mal, Deus e Satanás disputavam as almas com argumentos fortes: o céu, o prazer, o momento presente, o futuro, a construção, a facilidade, o imediato. E a contabilidade era uma guerra feita dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, sendo que o resultado final só se saberia no fim dos tempos, no apocalipse da vida, no estertor da existência.

O Rúben continuava a aparecer, a disponibilizar-se, a colaborar, a ouvir, a opinar, a olhar, a sorrir, a comover-se, a discordar. Entrava-se na Igreja, fosse em que dia ou hora fosse, e olhava-se à volta para descortinar onde andaria o Rúben, o que estaria a fazer, o que pensaria disto ou daquilo. E o homem da gaforina loira atirada para trás surgia do nada, de uma penumbra, de uma discreção. E cumprimentava, sorria, ajudava, olhava à volta de forma perscrutadora.

Um dia o Rúben desapareceu.

---------------

Ok. A história fica por aqui. Porquê?, perguntarão os meus leitores mais fiéis, aqueles que aqui vêm semanalmente para deixar uma palavra simpática ou um olhar curioso. Por uma razão muito simples: não faço a mais leve ideia de como a acabar. Já quando a comecei, tarde e a más horas, não tinha um fim suficientemente interessante para lhe apor nos últimos parágrafos. Criei o subterfúgio do continua na próxima semana na ilusão de mais um tempinho, uma folga, um adiar da execução; na expectativa vã, talvez, de um golpe de asa com o qual me cruzasse nas minhas rotinas diárias. O facto é que nada surgiu. Nada de nada de nada. Ideias vagas, fins previsíveis, desenlaces sem brilho. Optei por esta confissão…

Alimentar uma coluna semanal com uma história ficcionada minimamente interessante tem sido obra. Herdei, do MTS, a 2ªfeira neste Adeus, até ao meu regresso… Também ele terá fechado o Lanterna Vermelha (depois de algumas dezenas de episódios) pelos mesmos motivos: falta de imaginação, o terror do dia fixo, a angústia do prazo a cumprir, o enjoo pontual de um teclado que é, oito horas por dia, uma ferramenta de trabalho.

Lamento desiludir os meus queridos e fiéis leitores. Eu, cronista, me confesso, poderia ser o tema deste post. Mas ele há dias, sabem? Talvez me surja uma ideia num repente; talvez a minha imaginação continue um deserto a perder de vista, talvez algum visitante tire um coelho da cartola e mo presenteie num repente generoso. Para já é isto... Ainda hesitei na continuação da novela O Consultor, escrevendo frases interessantes e que me entretinham, envolviam o freguês do blogue numa trama com final misterioso. O facto é que o Rúben estava condenado, porque tudo o que me ocorria tinha o triste odor do lugar-comum ou do déjá vu...

Olho para o MTS, para o JdB, para outros que sei terem sentido, aqui e ali, o mesmo cansaço criativo e só me ocorre uma frase:

Conheço-os bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

domingo, 15 de novembro de 2009

33º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 13,24-32

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Naqueles dias, depois de uma grande aflição,
o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade;
as estrelas cairão do céu
e as forças que há nos céus serão abaladas.
Então, hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens,
com grande poder e glória.
Ele mandará os Anjos,
para reunir os seus eleitos dos quatro pontos cardeais,
da extremidade da terra à extremidade do céu.
Aprendei a parábola da figueira:
quando os seus ramos ficam tenros e brotam as folhas,
sabeis que o Verão está próximo.
Assim também, quando virdes acontecer estas coisas,
sabei que o Filho do homem está perto, está mesmo à porta.
Em verdade vos digo:
Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.
Passará o céu e a terra,
mas as minhas palavras não passarão.
Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém os conhece:
nem os Anjos do Céu, nem o Filho;
só o Pai».

sábado, 14 de novembro de 2009

Sobe a montanha, vê a vista

Traz-me outra, que não seja essa. Dignifica a tua luta. Ou vai com as ondas, vai com os ventos. Descobrir onde te dói. A vida dir-te-á quanto. Do que sente, nunca mente. Ganhei, parece-te, como foi? Deitar fora a amargura? Oh, é o tempo que o consegue. Já nem a saudade a cura. Nem ela, a saudade, vem. Íngreme caminho esse. Remédio de toda a ferida.

DaLheGas

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

on certain things

some things must be spoken
in order to better be silenced.

some things must be murdered
in order to become truly loveable.

some things are equal to some other things
in the very same way
as love and hate
are simply a question of
8 interchangeable letters.

some things shall remain silent
to better become alive
whilst
some other things shall remain in language
only to better be buried.

i murder speechless words,
i bury boneless bodies,
just for the sake
of feeling some love
nurtured
within hate.

that's my one and only faith.
much better than no faith at all.


gi

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Deixa-me rir...

Uma sala, duas grandes janelas paralelas e uma árvore lá fora. Um céu permanentemente acinzentado, luz a entrar dum lado e doutro e um sofá às riscas com almofadas espalmadas de tanto uso. Dobrada, a um canto, uma manta de pelo falso, muito quentinha, para os dias passados em frente a uma televisão velha e temperamental. Um espelho de moldura dourada e livros, muitos livros. Em estantes, em pilhas pelo chão e espalhados em cima duma mesinha de café. Fotografias desbotadas, uma mesa de casa de jantar coberta com um pano indiano acastanhado, e muitos recortes de jornais e livros de palavras cruzadas. Em cima dum aparador com algumas garrafas de whisky vazias, encontra-se um rinoceronte-candeeiro em terracota pintada. Do outro lado da parede, uma gravura de Lisboa antiga. Alcatifa esverdeada, alguns tapetes semeados por cima das peladas e toneladas de sabor.

Nessa sala, a música é rainha. O DVD, que passou a funcionar como aparelhagem a partir do momento que esta se avariou, emite sem cessar, a partir das 7 da tarde, e de acordo com o apetite do dono da casa, todo o género de música anglo-saxónica a partir da década de 50. Percebe-se que o dono da casa tem um gosto educado e sabe bem o que ouve. Há nessa escolha musical uma certa tendência para a boa pop, para os velhos blues, algum rock n’ roll menos estridente, muitas baladas com letras cheias de poesia e, esporadicamente, um fado, um Javan, uma Rita Lee ou alguns clássicos franceses.

Mas nessa tarde, nessa mesma sala, aproveitando a ausência do dono da casa, uma mulher chora. Sentada no chão, de pernas cruzadas e a cabeça enterrada nas mãos, chora ao ouvir a Sade: “… you think I’d leave your side, baby, you know me better than that; you think I’d leave you when you are down on your knees, I wouldn’t do that …”.

Mas porque chora esta mulher? Pode-se chorar por tantos motivos .... será que está perdidamente apaixonada e a suavidade, a doçura, do By your Side a invade até à alma? Terá perdido um amigo especialíssimo, daqueles que deixam um vazio insubstituível para o resto da vida? Terá sido despedida e não tem dinheiro para pagar o quarto em que vive, sendo obrigada a voltar à sua Ucrânia natal? Estará feliz porque acaba de entrar em Harvard concretizando assim um sonho de toda a vida? … Nunca o saberemos. Do sítio onde estamos, não lhe podemos ver a expressão…



pcp

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Pensamentos impensados

Tinha uma colecção de CD's, com música clássica, a todos os títulos notável; até se gabava de ter as obras completas de Schubert.

Quase toda a gente sabe que Fernando Pessoa foi contactado para escrever um "slogan" para a Coca Cola, mas muito poucas pessoas sabem que Alexandre Herculano também foi contactado para fazer uma frase publicitária para o Quitoso, que não foi publicado pois só lhe saiu Lendeas e Narrativas.

Se quiser comprar um avental será que posso fazê-lo na Loja do Grande Oriente Lusitano?

O Dr. Watson passava a vida aboletado em casa do Sherlock Holmes; para agradecer dizia: Holmes sweet Holmes, there is no place like Holmes.

Seccionista é o sexo dos judeus.

Para se abrir a gruta de Ali Babá devia dizer-se "abre-te sésamo". Já para a morgue é ABRACADAVER.

SdB (I)

Livros dos dias que correm...

O último livro de Rita Ferro. Para divulgarem como quiserem e puderem.

Anúncios dos dias que correm...

Tem de ser visto até ao fim...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O baile dos sem-ninguém

Toda a gente sabia o que lá acontecia, mas ninguém falava sobre isso. Alguns já lá tinham ido, mas não comentavam. Quem por ali passava sem conhecer, via mais uma porta fechada no meio de prédios deixados ao abandono, quem passava conhecendo, via os sonhos que se abriam para lá dessa porta.

Chamavam-lhe o baile dos sem-ninguém. E não era nem mais nem menos que isso. Uma banda debitava ritmos que apelavam à dança, e quem lá estava dava-lhes uso. Tango, para os mais arrojados, gavotte para os mais conservadores. Samba, para os animados, valsa para os cabisbaixos. Foxtrot, para os americanos, paso doble para os europeus.

Havia de tudo para todos os gostos. Ali, cada um podia ser quem quisesse, não havia olhares julgadores nem segredos sussurrados entre dentes.

Iam lá para fugir do ingrato de uma busca que parece não ter fim, ou apenas para tentar encontrar alguém igual. Alguns, por sua vez, iam lá arejar o coração e tirar o pó a algumas vergonhas.

As portas estavam sempre abertas e todos eram bem-vindos ao baile. Não era preciso convite ou cartão de sócio, só conhecer alguém que já lá tivesse ido e estivesse disposto a partilhar a morada. Não vinha anunciado nas páginas amarelas. Não por vergonha, apenas como tentativa de tentar manter o local como uma espécie de segredo bem guardado que só se revela em confissões ciciadas, e que começam por ‘o que vou dizer-te não podes repetir a ninguém’.

E porque nesse baile nem tudo é ciúme ou desencontro, foram muitos os que de lá saíram com alguém pela mão. Havia noites em que uma estrela brilhava para alguns e, entre os passos de dança e os compassos da banda iam-se juntando, até que a certa altura deixavam de pertencer ao baile dos sem-ninguém. Porque essa era a única condição de entrada.

SdB (III)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O consultor

O nome dele surgiu por puro acaso num jantar social. Há instantes que são marcantes, porque determinam o fluxo de uma conversa que parece inexistir na mente dos interlocutores. Num minuto, o Rúben era alguém que não fazia parte das probabilidades de conversa; num repente, alguém menciona o seu nome a propósito de uma ninharia e já toda a gente o conhecia, afadigando-se em comentários que gravitam entre a curiosidade e o elogio.

Ninguém sabe exactamente de onde veio este homem dos seus quarenta anos, engenheiro de formação, com uma cabeleira longa e loira toda penteada para trás. Olhando para ele, poderia sugerir-se um encontro fortuito num espectáculo de música alternativa, numa peça de teatro levada à cena por um grupo rebelde, numa exposição de pintura que olha para o abstracto com um ar de ligeiro enfado, porque a entende demasiado conservadora.

Mas o Rúben, por mais estranho que possa parecer, surgiu na Igreja. Ao princípio sentava-se na penumbra de um lugar discreto, tendo avançado posteriormente para o centro do palco, se assim se pode dizer sem que o desrespeito atinja foros de exagero. Ao fim de algumas semanas, este homem das ciências, a trabalhar numa empresa de consultoria, oferecia-se para a segunda leitura dominical, cujas características próprias casam melhor com uma voz masculina.

Um fiel novo na casa de Deus é sempre motivos de alegria. Ninguém conhecia o passado do Rúben, e ninguém falava nisso, como se fosse um tema de conversa que devesse ficar na meia-luz de uma qualquer reserva. Há vidas que não queremos esmiuçar, e essa decisão é uma entremeada composta pelo respeito da privacidade alheia e pelo temor da caixa de Pandora.

O Rúben tornou-se conhecido pela disponibilidade para ajudar, pela farta gaforina e, também, pela presença repetida nos vários serviços dominicais. Era visto na missa das nove e das dez, ou do meio-dia e meia e das seis da tarde, ou das onze e das treze. O Rúben era visto, e esta expressão não é apenas o arrumar livre de palavras singelas. Ele era, de facto, visto, porque não passava despercebido. Para completar este ramalhete de características, o Rúben era simpático, conversador, discreto mas presente, exaustivamente democrático nos seus contactos, pois falava com toda a gente por igual, fossem ricos e pobres, condes e operários, padres e leigos, cultos e ignorantes. Como se tivesse o gene da abertura humana no seu esplendor, ou como se lhe faltasse a enzima que, em todos nós, faz marcar a diferença com que olhamos os outros e materializamos a abordagem.

Toda a gente gostava do Rúben, e não hesitavam em lhe manifestar esse apreço. Apreciavam-lhe a educação e a disponibilidade, a afabilidade e a prontidão, a generosidade e o sorriso. E o Rúben sorria numa humildade contida, como se todos os elogios fossem um exercício de um exagero de generosidade imerecida e embaraçante.

Nota: Continua na semana que vem

JdB

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