sábado, 28 de fevereiro de 2015

Pensamentos Impensados

Quem pergunta quer resposta
O Dr. Araújo, advogado de Sócrates, faz-se de "mula" e não responde aos jornalistas.
Que tal uma jornalista a suplicar doutor, doutor, eu só queria que, por favor, me dissesse as horas pois tenho que dar de mamar à minha filha.

Florbela, sempre
Se Florbela Espanca tivesse conhecido Ricardo Salgado, dedicar-lhe-ia:
Eu quero gamar, gamar, perdidamente.

Soldados da paz
Em que é que se parecem os bombeiros com um vão de escada? Os bombeiros vão de escada.

Retorno
Aforradores pedem a devolução do seu dinheirinho, mas são recebidos a pontaBES.

Sem olhar a meios
Ponha-se no meio da rua!! Refere-se ao comprimento ou à largura?

Afinidades
As chitas africanas são parentes afastadas das chitas de Alcobaça.

Redondezas
Falando de esferas, nunca se pode dizer por outro lado.

Maçãs
Guilherme Tell é célebre, juntamente com o seu filho; tell pai, tell filho.

SdB (I)


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

As vantagens e o veneno de perdoar

"Todos temos razões para estar lixados com alguém. Quer tenha sido alguma crítica, discussão, mentira ou traição, o mais provável é que todos tenhamos um portfolio de pessoas que nos magoaram e nos causaram dor. Ficamos ressentidos e sinceramente não nos apetece particularmente perdoar quem nos fez sofrer. Mas o que será que torna tão difícil perdoar quem nos magoou? Muitas vezes achamos que ao perdoar estamos a deixar passar em branco uma injustiça. Estamos a deixar a outra pessoa sair incólume, mesmo quando nos causou tanto sofrimento. Contudo… que justiça é manter-nos agarrados à dor? Que espécie de castigo queremos infligir ao outro com a nossa intransigência? Outras vezes, achamos que é preciso acontecer alguma coisa extraordinária para perdoar outra pessoa. É preciso alguma inspiração ou intuição caridosa para avançar. Mas mais vale puxar uma cadeirinha para nos sentarmos, porque tais impulsos altruístas demoram a chegar. Temos ainda um gosto especial em desempenhar o papel de vítima. Tendo sido magoados, por vezes retiramos alguma espécie de gozo da autocomiseração e do sentimento de impotência. Preferimos o conforto de ter razão ao desconforto da reconciliação. Mas olhando objectivamente…a irritação, a dor e o ressentimento não alcançam nada. Só nos impedem de viver melhor. Ficar agarrado ao ressentimento é como comer um prato de veneno e esperar que faça mal à outra pessoa. Quem sofre não são as pessoas que nos magoaram, somos nós. A forma de nos libertarmos desse ressentimento é simplesmente – e difícilmente – perdoarmos quem nos magoou. Largar a dor, largar a culpa, largar o ressentimento, e perdoar. Para começar um ressentimento são precisas duas partes, para terminá-lo basta apenas uma. Ao perdoar outra pessoa, libertamo-nos. Ficamos livres do passado – do que nos magoou e fez sofrer – e ficamos abertos ao presente, a tudo o que pode acontecer de surpreendente e fascinante. É uma espécie de dieta imediata: perdemos quilos e quilos de sofrimento que trazíamos a mais. Perdoar também liberta a outra pessoa. Não só a outra pessoa pode sentir-se melhor ao estar connosco, como ela ganha capacidade de perdoar outros. Quem faz a experiência de ser perdoado tem mais facilidade em perdoar outras pessoas. Contudo perdoar não implica esquecer a dor que os outros nos provocaram, nem que seja porque o que esquecemos ou não, depende pouco da nossa vontade. O que depende de nós é deixar de lado as culpas e ressentimentos, e perdoar. Há quem ache que o perdão é uma coisa utópica ou infantil, mas não podia estar mais longe disto. O perdão não é para meninos nem para quem vive em mundos de fantasia. É para pessoas com maturidade e com coração magnânimo. É para quem quer uma vida melhor. É altura de largar o peso desnecessário que andamos a carregar. É altura de perdoar." 

Tirado de: Inesperado

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

As escolhas de gi

Outro poeta fora dos "cânones", LQ regressa a nossa casa, o seu local do crime, com um conjunto de sonetos de rigoroso apuro formal, ao mesmo tempo que nos fala de todos os dias, de todos nós, deste país que somos. Técnica ao serviço do sentido, numa osmose que demonstra, se dúvidas existissem, que somos um país não de poetas, mas de poetas extraordinários.

gi. 



O VIDRO, II, ECOLALIA

Como chegámos a este lugar? A guerra deflagrava em todas as regiões deste mapa que nos iria desenhar, a nós, ponto a ponto, semelhança a semelhança. Famílias reuniam bagagens, despediam criados, fugiam apavoradas por estradas tomadas de assalto pela vegetação densa. Impropriedade do medo, negras margens do remorso. Rompiam-se sacos placentários, criaturas atiradas para a rua do sem-regresso berravam a sua inviolável linguagem, precipitavam-se de encontro ao muro denso da história, exigiam um nome, um símbolo apodrecendo na eleição de um cacifo, uma caixa onde depositariam a sua fragmentada posse, o seu saque.
O vidro, Assírio & Alvim, p. 63

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Das banalidades

Convento da Arrábida, Fevereiro de 2015


No prefácio ao seu S. Paulo, Teixeira de Pascoaes escreve: As cousas da Natureza tiveram, para mim, grande encanto. Vivia-as, como se vive a dor ou o amor. Agora só me interessam as almas: a daquele campónio, a daquele mendigo, ou Napoleão em Santa Helena, Hamlet, diante de uma caveira, parodiando filosoficamente a atitude religiosa de S. Jerónimo; Lucrécio, o primeiro poeta da morte, ou Paulo de Tarso, o maior poeta da vida e da loucura, faminto de Deus, emagrecido até ao esqueleto -, esse fantasma que se apoderou da Humanidade. 

Nunca senti grande encanto pelas cousas da Natureza. Não tenho essa dimensão de bucolismo, não sou poeta do romantismo, não descortino no desabrochar da flor renovações de vida ou de existência, falha-me a atracção pela Primavera como época redentora. Às almas, se bem que de maior interesse, nem sempre consigo chegar, que me falta a profundidade da análise ou o apelo a biografias romanceadas. À pergunta então o que te interessa?, só me ocorre uma resposta: imaginar a vida das pessoas.

Na mesma sala universitária que eu sentam-se, com uma frequência semanal, pouco menos de duas dezenas de alunos - o mais velho com mais de 70 anos, o mais novo com vinte e poucos. Em bom rigor, a grande mancha geracional pende para a franja dos sub-trinta. Olho para quase todos com igual atenção. Não me interessam o que poderia chamar-se as almas dos meus colegas - não sei o que pensam da religião, da política, da ética, de S. Paulo. Não me desperta a curiosidade pelo que lêem, se o fazem para ser melhores pessoas, se para se educarem ou apenas como entretenimento. Interesso-me por cada um deles na dimensão mais comezinha, essa dimensão que estabelece com a elevação das ideias um conjunto vazio.

Olhar para eles é imaginar-lhes as vidas corriqueiras: como dormem, de que riem, quais são as rotinas, o que lhes encanta nas pessoas por quem se apaixonam, porque discutem, como se sentam nos cinemas ou o que gostam de comer, e outros pormenores de irrelevante importância para o concerto das nações. A minha mente, no que a isto diz respeito, não é perscrutante - é apenas criativa. 

Um dia, por motivos que têm pouco interesse, escrevi uma espécie de romance. Muito mais do que desenvolver os personagens principais para lhes dar corpo, peso específico, consistência, divertiu-me imaginar histórias para os elementos secundários. Como muito se passava num barco, quando dei por mim já redigira folhas imensas e entretidas sobre o armador, sobre uma filha que era feia mas que se apaixonava de forma correspondida pelo informático, sobre o anúncio de uma gravidez desejada com o meu menino é d'oiro em música de fundo, sobre a mãe que morria num repente ao som do Angelus, sobre tardes luxuosas na ilha de Ischia onde os ricos espraiam as suas depressões.

As cousas da Natureza têm pouco encanto. As almas interessam-me, desde que consiga juntar-lhes uma dimensão de banalidade. 

JdB      


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Duas Últimas

Um dos exercícios preferidos na actualidade pela generalidade dos “media” é fustigar os alemães o mais que podem e sabem. Tenho é constatado que, se por um lado podem alguma coisa, já que a Alemanha é longe e Portugal mais ou menos uma democracia, por outro sabem pouco, e a asneira é livre.

Exemplificando, temos que os duros teutões são culpados de terem originado 2 guerras mundiais que lançaram o caos na Europa e apressaram a definitiva ascensão dos EUA a potência mundial, de terem recuperado de forma extraordinária após a 2ª delas com a ajuda, conveniente para todos os envolvidos, de apoios financeiros dos vencedores, não tendo usado de medida idêntica na hora actual de penúria de outros (situações a meu ver não comparáveis!), ou de quererem esmagar o sul incumpridor e solarengo com uma austeridade sem fim à vista.

Como se adivinha, situações de gravidade muito diferente, mas que servem para baralhar e confundir o pessoal menos avisado ou mais útil, ao bom estilo leninista….

Quanto aos alemães, pressinto que por lá continuarão na vidinha deles, que passa por trabalhar bem, produzir melhor e marcar mais golos do que os parceiros. E, se não se importam e não for pedir muito, exigir em coro com outros que quem incumpre mude ou os maus hábitos ou as regras vigentes, se for capaz. Ou então…de parceiros. E porque no sul nem tudo é de descartar, continuam a surpreender-se com as coisas de qualidade que por cá se vão fazendo. Porque também as há, e felizmente bastantes.

Como o vídeo junto comprova.

Espero que concordem.


fq

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Vai um gin do Peter’s?

Até ao final de Fevereiro, corre na Cinemateca Portuguesa(1) um ciclo dedicado ao grande cineasta francês que atravessou o século XX: Robert Bresson (1901-1999), conhecido como o poeta do rigor. Figura de referência no meio intelectual parisiense, distinguindo-se na literatura, pintura e, mais tarde, na Sétima Arte, revelou-se também um exemplo de civismo e de coragem política, precisamente no período mais adverso do século XX francês: durante a ocupação nazi. De estilo sóbrio, mas íntegro e desassombrado, as suas posições claras contra as tiranias de Hitler valeram-lhe um ano num campo de prisioneiros, na Alemanha. 


Realizador do subtil, capaz de filmar a alma humana, Bresson tem filmes extraordinários que valem sobretudo pela sua perspectiva invulgarmente acutilante, profunda e original sobre a realidade. Apaixonado pela vida, procurava captá-la em estado puro e intocado, buscando a essência das coisas. Por isso, o ciclo se intitula «Robert Bresson: uma aventura interior». As suas experiências cinematográficas privilegiaram a expressão autêntica e primordial. A ponto de ter desistido dos actores profissionais, substituindo-os por amadores, completamente genuínos e ainda não formatados em academias. Chamou-lhes “modelos”, numa acepção que nada tem a ver com o termo, entretanto, vulgarizado pela alta costura. 

Um dos exemplos mais eloquentes da riqueza especialíssima do seu olhar corresponde também a uma das suas obras-primas: «O PROCESSO DE JOANA D’ARCO», rodado em 1962. É impressionante a forma isenta com que tentou repor o julgamento que condenou à fogueira uma das heroínas mais aclamadas da história de França. Lançando-se numa abordagem maximamente depurada, cinge-se aos diálogos que o tribunal da época registou. Só as palavras proferidas em 1431 são consentidas neste filme, onde não há um único excesso, nenhuma exaltação ou juízo pessoal sobre alguma das personagens, nem mesmo naqueles momentos mais tentadores, onde parece tão apetecível sugerir uma crítica. E se o heroísmo solitário de Joana se presta, injustamente acusada de heresia, ela que fora o expoente da fé, vivendo-a até às últimas consequências. Igual para a perversidade dos seus algozes, atolados em mentiras e calúnias, das mesquinhas às mais aberrantes e descaradas. A serenidade crua da câmara de Bresson em nada diminuem aquele episódio. Antes faz sobressair a autoridade dos factos, permitindo-nos viajar no tempo e ser testemunhas directas de um acontecimento que marcou a posteridade.  
   
Título original: «LE PROCÈS DE JEANNE D’ARC».
Elenco: Florence Carrez, Jean-Claude Fourneau, Roger Honorat.
Realizado em França, em 1962; duração: 64 min. Filme também disponível em dvd.

É interessante ser um realizador nórdico, conhecido pela sua austeridade – Carl Dreyer (1889-1968) – a filmar de Joana d’Arco uma Paixão, assumidamente sacrificial e épica. Em contraponto, Bresson, admirador indefectível de Joana como qualquer francês, fica-se por dar voz aos depoimentos reais, percebendo que o rigor histórico era a melhor defesa de la Pucelle d’Orléans. Sobre ela, declarou: «Vejo-a como um ser superior. Mais do que os milagres, Joana convence-nos da existência desse mundo (espiritual) em que penetrava com prodigiosa facilidade».
   
É na estátua equestre dourada e vibrante, perto do Louvre à porta
do palácio real, que a corajosa guerreira-amazona continua a brilhar,
na pose de galhardia e bravura por que se celebrizou.

Segue o apontamento da Cinemateca sobre os filmes em cartaz, durante o ciclo em curso:

«O Ciclo (…) começa precisamente pelo último filme de Bresson, o décimo quarto que realizou, L'ARGENT (1983), em que Bresson manifesta o mais profundo desprezo pelo materialismo da sociedade contemporânea, para recuar até à sua primeira obra, curta-metragem de inspiração burlesca realizada em 1934, que caricaturava a Europa de então, mas que se afastava ainda das qualidades principais que viriam a caracterizar o seu cinema.
Com formação em filosofia e em línguas clássicas, a descoberta do cinema por Bresson é também posterior à prática da pintura, remontando ao final dos anos vinte. LES ANGES DU PÉCHÉ, a sua primeira longa-metragem, foi concluída em 1944, já depois de Bresson ter estado mais de um ano preso num campo alemão. LES DAMES DU BOIS DE BOULOGNE (1945), o trabalho seguinte, ainda envolveria atores profissionais, por contraposição aos famosos "modelos" a que Bresson iria recorrer daí em diante, numa procura de uma maior complexidade e de um movimento de interiorização. Nos anos seguintes, Bresson realizou várias das suas obras-primas, como JOURNAL D’UN CURÉ DE CAMPAGNE (1951), UN CONDAMNÉ À MORT S’EST ECHAPPÉ (1956), PICKPOCKET (1959). O primeiro foi o filme que o consagrou junto da crítica e é uma obra essencial na procura de um "realismo interior" e na colocação em prática da sua estética jansenista em que o progressivo despojamento surge associado a uma gravidade formal. UN CONDAMNÉ À MORT S’EST ECHAPPÉ prossegue a depuração de JOURNAL, bem como a sua abordagem minimalista que assenta na rarefação, na fragmentação e na recombinação de elementos através da montagem, procedimentos que atingiriam o seu máximo expoente em PICKPOCKET (1959), o belíssimo filme centrado nos gestos de um carteirista, que o cineasta regista e recompõe com o seu cinematógrafo, a câmara-bisturi com que disseca a realidade no sentido de uma progressiva abstração. Uma obra portentosa onde não há lugar a juízos morais, mas a acontecimentos e sensações que resultam da aproximação de diferentes sons e imagens, num processo em que, como diria o próprio Bresson, «surgem não apenas relações novas, mas uma nova forma de rearticular e ajustar». Um mesmo conjunto de procedimentos "analíticos" transparece em LE PROCÈS DE JEANNE D’ARC (1962), que centrando-se nas atas do referido processo, sucede à grandiosa «paixão» de Dreyer, outro grande mestre (a par de Bresson e de Ozu) do que que Paul Schrader caraterizou como um «estilo transcendental no cinema» e Susan Sontag classificaria como um «estilo espiritual». No sublime AU HASARD BALTHAZAR… (1966), a questão da «Graça», tema central em toda a obra de Bresson, bem como a sua exploração do carácter trágico da vida e da força do acaso, ganham contornos efabulatórios, uma vez que a "peregrinação exemplar" é protagonizada por um burro, submetido a um destino repleto de maldade humana. Destino igualmente triste terá Mouchette, num filme que em Portugal ficou conhecido por AMOR E MORTE (1967), ou as protagonistas de UNE FEMME DOUCE (1969) e QUATRE NUITS D’UN RÊVEUR (1971), duas das mais belas adaptações de Dostoievski ao cinema e os primeiros trabalhos de Bresson a cores. Todos eles, filmes belíssimos, ao mesmo tempo que profundamente desesperados. LANCELOT DU LAC (1974) recupera a dimensão histórica de LE PROCÈS DE JEANNE D’ARC, evitando todo o pitoresco medieval habitualmente associado às histórias dos Cavaleiros da Távola Redonda, em prol da construção de um universo em que permanece a fragmentação e a desarticulação dos corpos dos filmes anteriores. Dois anos depois Bresson realizaria LE DIABLE PROBABLEMENT, a sua penúltima obra, que é talvez o mais negro e explícito de todos os seus filmes na sua visão pessimista sobre a evolução da sociedade. Uma das mais incompreendidas obras de Bresson que assenta na força das elipses, onde tudo se passa nos intervalos entre as palavras e as coisas.
Como registava nas suas Notas sobre o Cinematógrafo, um dos livros mais fascinantes alguma vez escritos sobre cinema, «É necessário que uma imagem se transforme em contacto com outras imagens, como uma cor em contacto com outras cores. Um azul não é o mesmo azul ao lado de um verde, de um amarelo ou de um vermelho. Não há arte sem transformação". Ou, mais à frente, "Criar não é deformar ou inventar pessoas e coisas. É encontrar entre as pessoas e as coisas que existem, e enquanto existem, relações novas

Numa das poucas casas que ainda subsistem no centro de Lisboa, a Cinemateca reparte-se por dois andares: o térreo com as 2 salas de cinema, e o de cima onde está uma livraria com boa selecção de dvds e livros, salas para exposições temporárias e um restaurante revestido a madeiras quentes e a estender-se para um terraço fantástico, ideal para os dias de sol, que ainda são bastantes, no clima ameno da capital.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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Na rua Barata Salgueiro, em frente a Belas Artes.

Terraço do restaurante 39 Degraus

domingo, 22 de fevereiro de 2015

I Domingo da Quaresma


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto.
Jesus esteve no deserto quarenta dias
e era tentado por Satanás.
Vivia com os animais selvagens
e os Anjos serviam-n’O.
Depois de João ter sido preso,
Jesus partiu para a Galileia
e começou a pregar o Evangelho, dizendo:
«Cumpriu-se o tempo
e está próximo o reino de Deus.
Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».



***

 Quaresma: um caminho de harmonia com a criação


Nesta passagem evangélica, encontramos uma alusão muito interessante que não consta dos outros evangelhos. Diz São Marcos que Jesus, enquanto estava no deserto, enquanto vencia as tentações, enquanto persistia na fidelidade absoluta ao Pai, dizendo que não a tudo o resto, “vivia com os animais selvagens e os anjos serviam-no”. Jesus é-nos apresentado no deserto onde vence as tentações, onde nos abre o caminho da libertação com o Pai, nesta comunhão absoluta com todos os seres e até, neste caso, com os seres angélicos…com todas as criaturas! Jesus é-nos apresentado no deserto onde vence as tentações, onde nos abre o caminho de libertação com o Pai, nesta comunhão absoluta de todos os seres – quer com os animais, quer com os próprios anjos que o servem. Há aqui uma inclusão da criação inteira que corresponde muito às aspirações mais profundas do nosso coração. É essa ecologia total, diríamos, que só em Deus se restaura: foi-nos prometida no princípio, é ferida gravemente pelo nosso pecado (que nos põe não só contra Deus, mas também contra todas as criaturas) e é recuperada em Jesus Cristo.
Escolhemos Deus e acabamos por estar bem com todas as criaturas. É um horizonte magnífico, rasgadíssimo! É um grande anúncio para o princípio da Quaresma e um grande programa.


D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 56-58.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Pensamentos Impensados

Deflação
Qual será o "petit nom" de Maria do Ó?

Crendices
Acredita no Pai Natal?
Acredito; no Pai e no Natal.

Por ares e ventos
Disseram-lhe és um cabeça de vento; comprou um barco à vela.

Calores
Para evitar que a temperatura suba, ponha o termómetro na horizontal.

Literaturas
No dia 25 de Abril de 1974 foi escrito um livro chamado Manhã Subversa.

Racismos
Preto que não gosta de brancos é racista; preto que não gosta de pretos é anti-racista.

Correios
Sócrates não se apercebeu que o motorista que contratou teria, mais dia menos dia, a polícia à perna. Poderia ter dito pernas para que te quero!

Fados
E agora, senhoras e senhores, com letra de Ricardo Salgado, que estranha forma de (dí)vida.

SdB (I)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Do controlo da imperfeição

Fiat lux. Depois disto, e ao longo de seis dias, tudo se criou: a separação da terra e das águas, a verdura, a erva com semente, as árvores de frutos; a tarde e a manhã, ao terceiro dia; os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem na água, e todas as aves aladas; depois os animais domésticos, os répteis e os animais ferozes. Por fim, o ser humano, a quem foi dado tudo o que havia sido criado nos dias antes. O Homem agarrou então naquilo que existia em seu redor e na inteligência com que tinha sido bafejado e criou as coisas científicas: a roda, as válvulas, a máquina a vapor, o pressóstato, a electricidade, o bico de bunsen, os computadores, a placa de petri, a gasolina, o óleo lubrificante, o viscosímetro e o jacto de tinta. 

Assim como Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, o homem criou a técnica à sua imagem e semelhança. No entanto, enquanto Um desejou a permanente perfeição, o outro contentou-se com a eterna imperfeição. A consciência da imperfeição é um princípio de sabedoria, talvez o ponto mental mais chegado ao absoluto primor de que o ser humano é capaz. E por isso tudo é inventado, não pelo esmero das coisas, mas por uma espécie de quase oposto. Não se inventa a perfeição, mas o controlo da imperfeição. Porque se inventou o pressóstato? Para manter constantes as pressões dos fluidos. O que motivou Petri a inventar a placa? A dominação do crescimento microbiano. Para que serve o óleo lubrificante? Para reduzir o atrito.

A imperfeição é o apelido pelo qual todos os homens se tornam iguais, membros de uma mesma congregação - que mais não é do que uma família que se entende pelo jargão. É por isto que o homem não consegue dominar uma certa vida própria dos fluidos, a assepsia nos ambientes, a fricção entre materiais que gemem e aquecem de dor. Dar como supérfluo a existência de alguns equipamentos, imaginar-lhes obsolescência face à perfeição que se deseja é ambicionar em cada rosto frágil o olhar de Deus sobre o mundo, é usurpar o trono onde Ele se senta com um amor que não o é senão. Só o inacabado é nosso, cabe nas nossas mãos, circula livremente pela nossa mente. Por isso a placa, o lubrificante, tudo o resto. A perfeição não nos pertence - apenas somos donos do caminho que a tem como destino nunca alcançado.

Só a guerra é nossa, que a paz é coisa do Céu. Talvez por isso o homem tenha inventado os acordos, que mais não são do que o pressóstato das pessoas que respiram.

JdB            

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

1988-2015

in memoriam dos meus rapazes

tínhamos todos aquela idade
em que podíamos ainda pensar
que o mundo se não iria
esquecer de nós.

em tua casa: o cheiro a granito,
a agulha do gira-discos,
bússola apontando 
para nortes cheios de haze 
e de eternos spleens,
a que, mais tarde, nos agarraríamos
na esperança - vã, sabemos agora - 
de irmos a tempo de agarrarmos
aquilo a que soe chamar-se
a nossa espécie de vez.

tantos anos depois,
é disso que me recordo,
aos domingos à tarde, 
enquanto, neste cortejo de fantasmas,
aguardo a dose de metadona 

e não me chega a super-realidade

da minha tão triste vez.

gi.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

4ªfeira de Cinzas

Hoje é 4ªfeira de cinzas. O mundo cristão inicia a caminhada que terminará na ressureição do Senhor, enquanto o mundo não cristão se divide pela indiferença ou pela tristeza de um carnaval que findou. Durante 40 dias (e só muito tarde percebi como se fazia a contagem deste tempo) falaremos de jejum e de abstinência, ouviremos uma liturgia própria, a expressão "renúncia" soar-nos-á nos ouvidos com uma frequência maior, o sacramento da reconciliação - ou a orientação espiritual para os que estão impedidos da absolvição - assume foros de importância.

A renúncia é um desafio, embora tenha uma dimensão mais proveitosa se for bem comunicada, bem interiorizada, bem entendida. Não renunciamos gratuitamente. Não abdicamos do que quer que seja em nome de uma penitência gratuita ou de uma mortificação do corpo. Prescindimos de algo para que outros recebam o equivalente. Este despojamento configura uma espécie de vasos comunicantes. Isto é, o que deixamos de consumir tem um destino, não fica num limbo que ninguém sabe o que é, onde é e para que serve. Nem mesmo nós. Por isso agarramos no que deixou de ser nosso para o entregar a alguém que com isso viverá melhor.

Estes 40 dias são uma caminhada que a igreja nos disponibiliza para replicarmos para o ano inteiro. O tempo parecer-nos-á pesado, porque tudo nesta época moderna apela à alegria, ao contentamento, ao consumo. A quaresma parece excessivamente mortificante para pertencer a uma era que quer ser o oposto. Este tempo ensina-nos vários verbos: rezar mais, rezar melhor, renunciar com alegria, purificar a alma através dos verbos anteriores. 

Uma Santa Quaresma para todos.

JdB


***


Evangelho: Mateus 6, 1-6.16-18

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos. 1 *«Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu. 2*Quando, pois, deres esmola, não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: Já receberam a sua recompensa. 3Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, 4a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e teu Pai, que vê o oculto, há-de premiar-te.» 5«Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: Já receberam a sua recompensa. 6Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te.

16*«E, quando jejuardes, não mostreis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto para que os outros vejam que eles jejuam. Em verdade vos digo: Já receberam a sua recompensa. 17Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, 18para que o teu jejum não seja conhecido dos homens, mas apenas do teu Pai que está presente no oculto; e o teu Pai, que vê no oculto, há-de recompensar-te.»  


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Duas últimas *

O Carnaval começou há pouco e eu já torço para que tenha acabado. Penso que a minha opinião sobre a quadra em questão é bastante transparente...

Tenho do Carnaval imagens longínquas e desinteressantes. A memória mais antiga (não teria eu 10 anos) é a de querer mascarar-me de cóbói e a minha mãe achar pouco engraçado, tendo-me disfarçado de palhaço. O desinteresse profundo que eu voto a esses profissionais circenses deve provir desse episódio. Uns anos mais tarde, já adolescente, fui a uma festa à outra banda (também de uma amiga desaparecida prematuramente). No carro íamos três rapazes, todos aproximadamente da mesma altura, e uma rapariga - alta para os standards portugueses. Tapámo-nos integralmente e mesmo assim, à medida que eu entrava nos salões nobres da fidalguia, equipado com uma espécie de burka prematura, os convivas iam palmatoando as minhas costas e sorrindo: estás bom, João? Dizem-me que fui identificado pela forma de andar... 

Numa noite semelhante (ou seria a mesma?) fui a casa do meu amigo fq. A única memória que tenho é a de ter-me encostado a uma lareira com um ar infeliz, como se tivesse de pagar o IVA e não tivesse como... Não voltei a mascarar-me, e a simples ideia de me travestir de qualquer coisa arruina-me os nervos e convida-me ao suicídio. Por mim, serei franco, riscava-se a quadra do calendário. No Carnaval de dantes - e coloquemos décadas nesse dantes - havia assaltos. Agora tudo é mais democrático, e os assaltos são todo o ano, disfarçados de leis, necessidades fiscais, equilíbrio orçamental, balança de pagamentos, distúrbios ministeriais. 

Termino com uma nota paternal. Há evidências fotográficas dos meus filhos mascarados, de cóbói ou de espanhola. Estão sorridentes, numa evidência revoltada contra os genes do pai, vivendo na doce ilusão do Carnaval ser uma altura de folia e divertimento.

Deixo-vos com música adequada para a época: brasileiros cantando. Enganem-se os que esperavam ouvir sambas pedindo requebros, agitação do corpo, suores libertadores, nudezes tropicais. São coisas tristes, melancólicas, porque só com esse estado de espírito se pode ultrapassar incólume estes quatro terríveis dias.

JdB

* publicado inicialmente, com uma ligeiríssima alteração devido a calendários, no dia 6 de fevereiro de 2013. Nada há de mais actual... 
     



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Das crianças com cancro

Ontem foi dia internacional da criança com cancro. Para assinalar a efeméride, a Acreditar lançou simbolicamente a primeira pedra da sua casa no Porto. Estará pronta no final de 2016, está orçamentada em cerca de 1,5 milhões de euros e tentaremos que o seu custo seja totalmente suportado por mecenato e um ou outro fundo comunitário aplicável. A casa de Lisboa foi assim (mecenato + fundos) a casa de Coimbra foi paga na totalidade por particulares e empresas.



Repito aqui, sem ser ipsis verbis, algumas das ideias que partilhei ontem, no final da cerimónia. 

Na semana que passou, ao pensar no que iria dizer no Porto, veio-me imediatamente à ideia a parábola do semeador que lança sementes à terra. Umas são comidas pelas aves, outras caem em chão pedregoso e ressecam, outras caiem em boa terra e dão fruto. Semear é um acto de confiança no futuro. Quem semeia acredita. Talvez por isso nos chamemos Acreditar desde o início. Por outro lado, o simbolismo da primeira pedra tem também uma dimensão de sonho, a acrescer à dimensão da confiança. Daquela primeira pedra, como da semente que se lança à terra, nasce um projecto que foi sonhado. Nasce uma árvore, nasce uma planta - ou nasce uma casa. 

No final do ano que vem, 16 famílias entrarão naquela casa à qual chamarão sua. Virão de todo o norte do País, impelidos pelo sonho e pela esperança (acreditando, no fundo) de que o filho pequeno - às vezes com meses - a quem foi diagnosticado um cancro se cure. Depois destas 16 famílias entrarão outras 16 e depois outras 16 e ainda mais 16 e 16 outras. Falarão a mesma linguagem, perceberão melhor do que ninguém o que faz sorrir ou chorar cada um dos Pais que partilha uma sala, um fogão de cozinha, uma certeza. O destino de cada uma das crianças que por ali se quedar uma semana ou um mês ou um ano é o destino de todas as crianças: alegramo-nos com as que voltam para o recreio da escola, lembramos as que se transformam em anjo, em estrela, em saudade.

Lançar uma semente, lançar uma primeira pedra é olhar para o destino e agarrá-lo com a força dos que acreditam. É ter a certeza ou a fé ou a convicção. É relembrar o sentido das coisas na senhora de quem me despedi - e que não conhecia - que me disse mais ou menos isto: perdi o meu filho único há mais de 30 anos. Dói todos os dias.

JdB

domingo, 15 de fevereiro de 2015

VI Domingo do Tempo Comum

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 1, 40-45)

Naquele tempo, veio ter com Jesus um leproso. Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe: «Se quiseres, podes curar-me». Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero: fica limpo». No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo. Advertindo-o severamente, despediu-o com esta ordem: «Não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou, para lhes servir de testemunho». Ele, porém, logo que partiu, começou a apregoar e a divulgar o que acontecera, e assim, Jesus já não podia entrar abertamente em nenhuma cidade. Ficava fora, em lugares desertos, e vinham ter com Ele de toda a parte.

***

A verdadeira Cura

A exclusão absoluta era, provavelmente, o maior estigma da lepra. Jesus compadece-se e toca o leproso. Não se trata de uma terapia física, mas, digamos, de uma terapia total, em que acontece a salvação, isto é, a recuperação da pessoa! A salvação de Jesus não é uma coisa meramente corpórea, nem meramente espiritual ou espiritualista, nem uma realidade meramente individual. É uma recuperação física, mental, espiritual e comunitária.
Só quem é tocado por Jesus experimenta a sua compaixão. Quem O procura e não se deixa isolar no seu sofrimento e na sua tristeza, mas é capaz de vencer esse autoisolamento, para, apesar de tudo, recorrer a Jesus Cristo como Ele pode ser encontrado em tantos sinais, na comunidade cristã. Nós não somos capazes de anunciar verdadeiramente aquilo que não nos tocou! A cura que Jesus Cristo realiza em nós é uma reintegração na comunidade cristã que, no seu todo e na vivência comunitária, na sua partilha, na sua fé, na sua esperança, na sua caridade, é o lugar da salvação. Jesus Cristo reintegra-nos na comunidade, com Deus e com os outros.


D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 174-177.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Pensamentos impensados

Teorias da conspiração
Estava num sítio quente e fui para o frio; saí da banheira e pus os pés no azulejo; não me agasalhei convenientemente, etc,
O que é que isto tem a ver com o título? Nada, são teorias da constipação.

Bancos? Escabelos
Alguns bancos (poucos) têm uma sólida liquidez.

Educação
Faça o favor de passar, minha senhora.
Quem fala assim não é gajo.

Não se preocupem com os HH
Não à paciência; sim, há violência.
Não há paciência; sim à violência.

Abluções
Os anjos não têm costas.
Assim deve ser mais fácil tomar banho.

Esse aborto
O novo acordo manda poupar nas letras peluc ac poupar em tuduc fôr xecivo.

SdB (I)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Textos dos dias que correm

São Paulo, por Teixeira de Pascoaes

A desilusão é um movimento no sentido da matéria, como a ilusão é um movimento no sentido espiritual. O Cosmos é Deus desiludido, em pleno Vácuo. A transição da ilusão para a desilusão marca a origem mortal das cousas: formas e formas tumulares. Por isso, o sentimento religioso é sempre uma tentativa de regresso à Ilusão divina originária, a antemanhã da Vida, em que se ouve apenas um canto de ave, no silêncio; o único silêncio que nos mostra o oiro de que é feito.

Os dois apóstolos continuam a marcha, pela via egnaciana, colando entre as ondas do Strimon e as ondulações do Pangeu, igualmente azuis, mas paradas no seu recorte inalterável. Paulo, como Silas, vai a pé, curvado, com os olhos inflamados de luz, e o fantasma de Estêvão, ao seu lado. Leva um fruto na mão, para o comer. Oferece-o ao primeiro mendigo. Nada lhe pertence da terra, porque a terra não lhe interessa. E só o que nos interessa nos pertence. A Terra é dos bichos, como a Lua é dos lunáticos. todos os tolos reinam naquelas planícies desertas, onde cai a sombra de altíssimas pirâmides, sem a mais leve mistura de claridade, dum negro absoluto e recortado, Lembra a sombra de Caronte, sobre a desvairada Antioquia. Também o céu é uma propriedade dos místicos; aquele céu azul em que certas almas se desdobram indefinidamente, numa ansiedade que é um bater de asas brancas, ascendendo para Deus.

Paulo é deste mundo interior que envolve o mundo e os outros mundos, e ninguém sabe onde ele acaba. Vê para dentro, ouve para dentro, pois, dentro de si, é que ele descobre tudo, - o Infinito. A nossa memória é universal, e excede o próprio Universo, quando aliada à fantasia criadora.

(...)

Mas há também os que sonham por natura. Felizes, é como se fossem desgraçados; fartos de tudo, é como se tudo lhes faltasse. E há os que morrem de fome, num banquete. E só estes conheceram a fome, na verdade.

(...)

Paulo não desanima. Oprimem-no, mas não o vencem. Ferem-no, mas não o matam. É um ser fantástico, inatingível, um ser nocturno, que possue o poder nocturno de criar a luz. Sofre, para alumiar.

A vida de Paulo, como a vida das mães, é um perpétuo drama, para que existam novas almas. A nossa alma é gerada em outra, que nos ame e sofra por nossa causa. Paulo, amando os seus semelhantes e por eles padecendo, transfigura-os idealmente, converte-os em novas almas. A dor é que gera as almas, integrando-as na existência. É sob uma força angustiosa, condensadora, que um sonho se transforma num objecto dos sentidos, como este penedo ou aquela árvore. Paulo sofre, para que o seu sonho seja realidade. Sofre, resplandece! Mas há pessoas que não suportam a luz alheia e atiram pedras ao sol.

Lá vai, sozinho, batido da tempestade, perseguido por espectros: o ódio, o remorso e um vulto de mulher em delírio, que é a sua paixão por Jesus Cristo ou por todos os padecentes, outras tantas imagens dele mesmo. Ouve palavras que o injuriam, vê figuras de pesadelo que lhe mostram os dentes e as unhas, e sente inefável alegria. Sente-se viver em Jesus Cristo. É o amante nos seios da bem amada, que a sombra deste homem projecta-se nos caminhos da Grécia antiga e nas ruelas da Ávila medieva. Sofre, resplandece. Saltam-lhe as lágrimas dos olhos, abrasadas de alegria! A alegria alvora da sua angústia, dos últimos cumes da sua angústia, atormentados de subir. Mas deles, cresce um alvor espiritualizado, aurora espiritualizada, a graça de Deus, precursora do sol de Deus.

Caminha, sozinho, alegre e triste, envolto na sombra doirada do anjo negro, que lhe crava um espinho, na carne, em certas horas. Ele mesmo é o anjo do crepúsculo, voando entre a noite e o dia, nesse clarão da distância a arder. Este anjo é talvez a nossa fantasia, a repetir o nosso ser, em outro plano da existência, apenas pressentido. Somos nós, á nossa frente, livres, em demanda do futuro.

(...)

Ei-lo, de pé, perante gente culta que estranha a sua figura miserável e sublime, ridícula e sublime. Se o ridículo está perto do sublime, é natural que se misturem e formem um rosto caprichoso e inverosímil, como o deste pobre judeu, que lembra o alforge dum mendigo, cheio de estrelas. É um rosto encovado e amarelo, - incandescente, - de místico espanhol. A Ibéria é outra Judeia, outro deserto febril, onde o esqueleto do Rocinante, feito de pedra do Sinai, domina toda a planura solitária. Dom Quixote é apenas um sonho do Rocinante, que a fome transformou em pesadelo ou fardo pesado.

(...)

Se a presença de Deus se revela, de algum modo, é no sentimento da Esperança. É de todos os nossos sentimentos, o mais exterior a nós, o que de mais longe vem. E nada perde da sua frescura e limpidez, na infinita distância percorrida. Parece que o bebemos na própria fonte.

(...)

Teixeira de Pascoaes

in São Paulo (cap. IX), Assírio & Alvim

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Da confissão

A obrigatoriedade da confissão anual para os católicos tem cerca de 800 anos. Não sendo historiador, vou presumir que o hábito perdeu força com a minha geração. Olho para trás e, até há dez anos, talvez, não tenho gratas memórias deste sacramento: eu a querer despachar, os padres nem sempre pedagógicos, igrejas frias, uma correnteza de gente à espera e a cronometrar os tempos de permanência alheia no confessionário, uma ergonomia má, porque os joelhos sofrem apesar do estofo almofadado. A confissão era uma obrigação mas talvez fosse, acima de tudo, um imperativo de consciência. Entrava-se sofrido, saía-se aliviado. Entre uma coisa e outra pouco ficava, porque tudo era muito impessoal - menti, roubei, fui orgulhoso, toma lá uma penitência. Próximo. 

Talvez a confissão passasse a ter, a partir de uma certa altura, uma dimensão excessivamente humilhante. Não o sendo, em bom rigor, seria isso que as pessoas sentiam, acrescido do facto de haver alguma desconfiança quanto à autoridade do padre (quando os havia para nos ouvirem, numa certa altura) em dar-nos a absolvição. A consciência individual, o diálogo directo do pecador com o seu Deus passou a ser um argumento forte, com todos os riscos que isso comporta. A confissão - ou sacramento da reconciliação, para ser mais correcto - caiu em desuso, embora talvez recupere alguma força com a habilidade dos confessores.

Ora, a confissão tem uma dimensão terapêutica que merece alguma atenção. Confessamos as nossas faltas, o que nos é desconfortável e incómodo - o orgulho, a inveja, a falta de caridade, as obsessões e fragilidades que dificultam a vida aos nossos mais próximos, os rancores. A absolvição é um sinal - porque todo o sacramento é um sinal da presença de Deus. Mas o efeito benéfico de referirmos o que nos corrói por dentro tem uma dimensão terrena, humana. Confessarmos é procurarmos o equilíbrio: na nossa relação vertical, mas na nossa relação horizontal. Quando numa reunião de adictos alguém profere a célebre frase boa noite, eu sou fulano e sou..., está aparentemente a confessar uma fraqueza. Na verdade, muito mais do que a fragilidade da sua dependência, está a afirmar o seu propósito de cura. Pela primeira vez, esse fulano trouxe à luz do dia uma debilidade e, nesse preciso instante, a fraqueza fica iluminada, perde o seu carácter de habitante das trevas e ganha um protagonismo para cujo combate ninguém caminha só.

Confessamo-nos numa igreja a um padre. Mas também nos confessamos por escrito a um amigo, no escuro de um quarto a quem connosco vive, num almoço onde o prato principal é, tantas e tantas vezes, o que nos aflige por dentro, aquilo que em nós mata a luz dos outros. Dizermos metaforicamente boa noite, eu sou fulano e sou... pode ser o princípio de uma caminhada redentora. É uma espécie de desnudamento da alma para que ela se revista de outra roupagem. É a evidência da nossa humanidade tantas vezes débil, que procura a perfeição. Não é um momento de fraqueza, mas de força. 

Como me dizia ontem alguém cuja amizade prezo e cuja inteligência invejo, somos mais de socorrer ao grito do que gritar por socorro. O mundo atira-nos para um ideal de força e poder que é incompatível com o reconhecimento da fragilidade própria. Talvez por isso nos confessemos tão pouco. E talvez por isso percamos a oportunidade de um enriquecimento interior. 

JdB          

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Texto para o dia de hoje

Mensagem do Santo Padre para o XXIII dia mundial do doente 2015

 "Eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo" (Job 29, 15)»


Queridos irmãos e irmãs,

Por ocasião do XXIII Dia Mundial do Doente, instituído por São João Paulo II, dirijo-me a todos vós que carregais o peso da doença, encontrando-vos de várias maneiras unidos à carne de Cristo sofredor, bem como a vós, profissionais e voluntários no campo da saúde.

O tema deste ano convida-nos a meditar uma frase do livro de Job: «Eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo» (29, 15). Gostaria de o fazer na perspectiva da «sapientia cordis», da sabedoria do coração.

1. Esta sabedoria não é um conhecimento teórico, abstracto, fruto de raciocínios; antes, como a descreve São Tiago na sua Carta, é «pura (…), pacífica, indulgente, dócil, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem hipocrisia» (3, 17). Trata-se, por conseguinte, de uma disposição infundida pelo Espírito Santo na mente e no coração de quem sabe abrir-se ao sofrimento dos irmãos e neles reconhece a imagem de Deus. Por isso, façamos nossa esta invocação do Salmo: «Ensina-nos a contar assim os nossos dias, / para podermos chegar à sabedoria do coração» (Sal 90/89, 12). Nesta sapientia cordis, que é dom de Deus, podemos resumir os frutos do Dia Mundial do Doente.

2. Sabedoria do coração é servir o irmão. No discurso de Job que contém as palavras «eu era os olhos do cego e servia de pés para o coxo», evidencia-se a dimensão de serviço aos necessitados por parte deste homem justo, que goza duma certa autoridade e ocupa um lugar de destaque entre os anciãos da cidade. A sua estatura moral manifesta-se no serviço ao pobre que pede ajuda, bem como no cuidado do órfão e da viúva (cf. 29, 12-13).

Também hoje quantos cristãos dão testemunho – não com as palavras mas com a sua vida radicada numa fé genuína – de ser «os olhos do cego» e «os pés para o coxo»! Pessoas que permanecem junto dos doentes que precisam de assistência contínua, de ajuda para se lavar, vestir e alimentar. Este serviço, especialmente quando se prolonga no tempo, pode tornar-se cansativo e pesado; é relativamente fácil servir alguns dias, mas torna-se difícil cuidar de uma pessoa durante meses ou até anos, inclusive quando ela já não é capaz de agradecer. E, no entanto, que grande caminho de santificação é este! Em tais momentos, pode-se contar de modo particular com a proximidade do Senhor, sendo também de especial apoio à missão da Igreja.

3. Sabedoria do coração é estar com o irmão. O tempo gasto junto do doente é um tempo santo. É louvor a Deus, que nos configura à imagem do seu Filho, que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão» (Mt20, 28). Foi o próprio Jesus que o disse: «Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22, 27).

Com fé viva, peçamos ao Espírito Santo que nos conceda a graça de compreender o valor do acompanhamento, muitas vezes silencioso, que nos leva a dedicar tempo a estas irmãs e a estes irmãos que, graças à nossa proximidade e ao nosso afecto, se sentem mais amados e confortados. E, ao invés, que grande mentira se esconde por trás de certas expressões que insistem muito sobre a «qualidade da vida» para fazer crer que as vidas gravemente afectadas pela doença não mereceriam ser vividas!

4. Sabedoria do coração é sair de si ao encontro do irmão. Às vezes, o nosso mundo esquece o valor especial que tem o tempo gasto à cabeceira do doente, porque, obcecados pela rapidez, pelo frenesim do fazer e do produzir, esquece-se a dimensão da gratuidade, do prestar cuidados, do encarregar-se do outro. No fundo, por detrás desta atitude, há muitas vezes uma fé morna, que esqueceu a palavra do Senhor que diz: «a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).

Por isso, gostaria de recordar uma vez mais a «absoluta prioridade da "saída de si próprio para o irmão", como um dos dois mandamentos principais que fundamentam toda a norma moral e como o sinal mais claro para discernir sobre o caminho de crescimento espiritual em resposta à doação absolutamente gratuita de Deus» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 179). É da própria natureza missionária da Igreja que brotam «a caridade efectiva para com o próximo, a compaixão que compreende, assiste e promove» (Ibid., 179).

5. Sabedoria do coração é ser solidário com o irmão, sem o julgar. A caridade precisa de tempo. Tempo para cuidar dos doentes e tempo para os visitar. Tempo para estar junto deles, como fizeram os amigos de Job: «Ficaram sentados no chão, ao lado dele, sete dias e sete noites, sem lhe dizer palavra, pois viram que a sua dor era demasiado grande» (Job 2, 13). Mas, dentro de si mesmos, os amigos de Job escondiam um juízo negativo acerca dele: pensavam que a sua infelicidade fosse o castigo de Deus por alguma culpa dele. Pelo contrário, a verdadeira caridade é partilha que não julga, que não tem a pretensão de converter o outro; está livre daquela falsa humildade que, fundamentalmente, busca aprovação e se compraz com o bem realizado.

A experiência de Job só encontra a sua resposta autêntica na Cruz de Jesus, acto supremo de solidariedade de Deus para connosco, totalmente gratuito, totalmente misericordioso. E esta resposta de amor ao drama do sofrimento humano, especialmente do sofrimento inocente, permanece para sempre gravada no corpo de Cristo ressuscitado, naquelas suas chagas gloriosas que são escândalo para a fé, mas também verificação da fé (cf. Homilia na canonização de João XXIII e João Paulo II, 27 de Abril de 2014).

Mesmo quando a doença, a solidão e a incapacidade levam a melhor sobre a nossa vida de doação, a experiência do sofrimento pode tornar-se lugar privilegiado da transmissão da graça e fonte para adquirir e fortalecer a sapientia cordis. Por isso se compreende como Job, no fim da sua experiência, pôde afirmar dirigindo-se a Deus: «Os meus ouvidos tinham ouvido falar de Ti, mas agora vêem-Te os meus próprios olhos»(42, 5). Também as pessoas imersas no mistério do sofrimento e da dor, se acolhido na fé, podem tornar-se testemunhas vivas duma fé que permite abraçar o próprio sofrimento, ainda que o homem não seja capaz, pela própria inteligência, de o compreender até ao fundo.

6. Confio este Dia Mundial do Doente à protecção materna de Maria, que acolheu no ventre e gerou a Sabedoria encarnada, Jesus Cristo, nosso Senhor.

Ó Maria, Sede da Sabedoria, intercedei como nossa Mãe por todos os doentes e quantos cuidam deles. Fazei que possamos, no serviço ao próximo sofredor e através da própria experiência do sofrimento, acolher e fazer crescer em nós a verdadeira sabedoria do coração.

Acompanho esta súplica por todos vós com a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 3 de Dezembro – Memória de São Francisco Xavier – do ano 2014.

Franciscus


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