terça-feira, 26 de maio de 2020

Da felicidade e do Céu

Um dia destes falava com alguém sobre terceira pessoa, tendo eu afirmado: Deus queira que seja feliz. Do lado de lá do telefone a resposta veio rápida e assertiva: Deus queira que vá para o Céu; se conseguir ser feliz antes ainda melhor. Hoje, no meu passeio muito matinal no paredão (com muito mais gente do que é costume) dei por mim a pensar na afirmação e na resposta.

Usei muitas vezes o argumento do Céu como objectivo máximo na vida de um cristão. Afinal, ir para o Céu é ir para Céu - e isso é sempre bom; ser-se feliz, pelo contrário, pode ser um objectivo egoísta, porque podemos atingir a felicidade à custa da infelicidade dos outros. Nesse sentido, a resposta que me deram está correcta: Deus queira que vá para o Céu; se conseguir ser feliz antes ainda melhor. 

Ora, antes do mais falamos de momentos diferentes; se eu entendi correctamente a frase que me foi dita, ela contém uma espécie de contradição em termos. Vamos para o Céu quando morrermos, e só quando lá chegarmos é que sabemos que estamos no Céu. Também pode acontecer - como eu acredito que acontece - que para o Céu vão todos, menos aqueles que o rejeitam até ao fim, nunca se arrependendo de nada que possam ter feito de mal. Mesmo assim, se pensarmos que Deus não é senão Amor, não estou certo de que esses não vão também para o Céu. Então, se esta teoria assente na fé for válida, não vale a pena estar a desejar algo que sabemos que de facto nos vai acontecer. Na verdade, até o bom ladrão se arrependeu no último momento, chegando ao Paraíso nesse mesmo dia.

Por outro lado, se bem que o Céu se ganhe na Terra, não é na Terra que vamos para o Céu - e essa é uma decisão que não nos compete tomar, apenas podemos querer ser merecedores dela.  O que podemos então desejar para a caminhada terrena de alguém? Que vá para determinado sítio quando morrer? Devemos então estabelecer um objectivo terreno, que tenhamos a possibilidade de atingir e que nos garanta o Céu? A felicidade pode ser um deles? Ou talvez seja mais correcto pretendermos que alguém deseje o Céu, não que vá para o Céu?

Socorro-me de duas citações:

De Aristóteles (in Ética a Nicómaco):

Parece ainda que todas as características procuradas na felicidade existem de acordo com o sentido estabelecido. Para uns é a excelência, para outros a sensatez, para outros ainda parece ser uma certa sabedoria, para outros, finalmente, todas estas actividades ou algumas delas em conexão com o prazer ou então, pelo menos, não sem o prazer. 

(...) 

O sentido fixado por nós concorda com aqueles que dizem que a felicidade é a excelência ou uma certa excelência.

Agora de Santo Agostinho (in Confissões):

Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que desinteressadamente te servem, cuja alegria és tu mesmo. E a vida feliz consiste em sentir alegria junto de ti, vinda de ti, graças a ti: esta é a vida feliz e não há outra.

Para obviar discussões talvez pudéssemos desejar, então, que esta pessoa de quem estávamos a falar levasse uma vida boa, que é diferente de levar uma boa vida - a ordem dos factores não é, de facto arbitrária. Porém, lendo Aristóteles e Santo Agostinho - nascidos com um intervalo de 700 anos - acho que posso continuar a desejar que a dita pessoa seja feliz. Em bom rigor, se for esta a felicidade que ele procura, de certeza que vai para o Céu.

JdB

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Textos do dias que correm *

A Posteridade é uma Sobreposição de Minorias

Aquele que despreza o aplauso da multidão de hoje, é o que procura sobreviver em renovadas minorias, durante gerações. «A posteridade é uma sobreposição de minorias», dizia Gounod. Quer-se prolongar mais no tempo do que no espaço. Os ídolos das multidões são derrubados prontamente por elas mesmas, e a sua estátua desfaz-se ao pé do pedestal, sem que ninguém olhe para ela, enquanto que aqueles que conquistam o coração dos escolhidos receberão, por mais tempo, um culto fervoroso numa capela, ainda que recolhida e pequena, mas que salvará as avenidas do esquecimento. O artista sacrifica a grandeza da sua fama à sua duração; anseia mais por durar sempre num recôndito, do que que brilhar um segundo no universo todo; antes quer ser o átomo eterno e consciente de si mesmo, do que a momentânea consciência do universo todo; sacrifica a infinidade à eternidade.

Miguel de Unamuno, in 'Do Sentimento Trágico da Vida'

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A Verdadeira Religião

Nunca me esquecerei do dia em que, dizendo-lhe «Mas, senhor padre Manuel, a verdade, a verdade, acima de tudo», ele, a tremer, sussurrou-me ao ouvido - e isso apesar de estarmos sozinhos no meio do campo: - «A verdade? A verdade, Lázaro, é porventura uma coisa terrível, uma coisa intolerável, uma coisa mortal; as pessoas simples não conseguiriam viver com ela.»
«E porque é que ma deixa vislumbrar agora aqui, como confissão?», perguntei-lhe. E ele respondeu: «Porque se não atormentar-me-ia tanto, tanto, que eu acabaria por gritá-lo no meio da praça, e isso nunca, nunca, nunca. Eu estou cá para fazer viver as almas dos meus paroquianos, para os fazer felizes, para fazer com que se sonhem imortais e não para os matar.
O que aqui faz falta é que eles vivam sãmente, que vivam em unanimidade de sentido, e com a verdade, com a minha verdade, não viveriam. Que vivam. E é isto que a Igreja faz, fazer com que vivam. Religião verdadeira? Todas as religiões são verdadeiras enquanto fazem viver espiritualmente os povos que as professam, enquanto os consolam de terem tido de nascer para morrer, e para cada povo a religião mais verdadeira é a sua, a que ele fez. E a minha? A minha é consolar-me em consolar os outros, embora o consolo que eu lhes dê não seja o meu.»
Nunca esquecerei estas suas palavras.

Miguel de Unamuno, in 'São Manuel Bom, Mártir'

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* numa altura em que leio Do Sentimento Trágico da Vida.

domingo, 24 de maio de 2020

Solenidade da Ascensão

EVANGELHO - Mt 28,16-20

Conclusão do santo Evangelho segundo São Mateus.

Naquele tempo,
os onze discípulos partiram para a Galileia,
em direcção ao monte que Jesus lhes indicara.
Quando O viram, adoraram n'O;
mas alguns ainda duvidaram.
Jesus aproximou Se e disse lhes:
«Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra.
Ide e ensinai todas as nações,
baptizando as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo,
ensinando as a cumprir tudo o que vos mandei.
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Textos dos dias que correm

Redescobrir o sentido do limite

Começamos a entrever o fim da epidemia que transtornou profundamente os nossos estilos de vida diários. Aconteceu algo de imprevisível, de realmente impensável. Vivíamos num mundo doente, mas não nos aflorava a ideia de podermos adoecer tão rapidamente e desta maneira.

E eis a inesperada vinda de um mensageiro devastador, o coronavírus. Alguns virólogos colocavam remotas hipóteses sobre a possibilidade de uma tal irrupção. Só alguns, sentinelas capazes de discernir os passos da humanidade, denunciavam, quase profeticamente, ainda que de maneira confusa, que «corríamos em excesso, devíamos deter-nos». Sem uma mudança concreta – diziam – aceleraríamos uma crise de proporções desconhecidas e impensáveis.

É significativo que este flagelo se tenha abatido sobre uma sociedade treinada desde há décadas a pensar a “crise”, exercitada a combate-la sob diversas formas: a crise económica, a financeira, a do tecido social. Tudo isto no quadro dos nossos países ricos, que fazem parte do “primeiro mundo”, onde reinam o mercado, o desenvolvimento, o consumo, a vida opulenta, enquanto permanecem cada vez mais ocultos os débeis, os pobres, os “descartados”. E assim as porções de humanidade “alegres e vencedoras” tiveram de acertar contas com a fragilidade, o sofrimento, até a uma morte desesperante.

Neste tempo escutei muita gente, na solidão do meu eremitério pensei muito e procurei interpretar o que estava a acontecer. Na escuta percebi muito medo, até angústia, por este vírus que andava entre nós invisível e desconhecido; um vírus perante o qual não são possíveis as defesas típicas dos ricos, de quantos podem contar com o seu poder.

Em particular aqueles com mais de setenta anos, massacrados pelos boletins dos mortos e da exigência de se meterem “na cauda da fila” em relação aos mais jovens e fortes, passaram por momentos de abatimento. Quase todos pensaram na possibilidade concreta de serem contagiados e morrer. Nunca – diziam-me – tivemos a morte tão presente, nunca estivemos tão conscientes da nossa fragilidade. Desta maneira, a crise tornou-se uma pergunta sobre a fragilidade e sobre o limite da morte, a que ninguém pode fugir.

Também descobrimos os limites da ciência, da medicina, de muitas realidades que antes nos pareciam garantias tranquilizadoras, a nível pessoal e social. Muitos dizem: «Livrámo-nos dela. Depressa festejaremos!». Tal reação vital é justificada, mas não deve obscurecer em nós o sentido do limite que (re)descobrimos, nem o acontecimento da morte, que aguarda cada um e pode chegar imprevistamente.

Não creio que nesta crise nos tornámos automaticamente melhores, mais solidários, mais capazes de atenção ao outro. Issto depende da nossa vontade e das nossas opções, a serem renovadas a cada dia. Mas se hoje estamos mais conscientes do limite e da morte, então – como afirma o filósofo humanista Salvatore Natoli – «tendo presente a morte, seremos menos propensos a prevaricar sobre os outros». Só isto já não seria pouco!

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 21.05.2020

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

ELVIS e TONY BENNETT EM SERENATA À SENHORA DE FÁTIMA 

Recuando à juventude de Elvis (1935-1977), em 1948, a família muda-se para Memphis e torna-se próxima de Lee Denson, que acabou por ser professor de guitarra do adolescente de 13 anos. Embora as duas famílias fossem evangélicas, o professor de música começou a aproximar-se do catolicismo e da mensagem da Serra d’Aire através da mulher, que era a excepção como católica e logo calhava conhecer e ser devota da mensagem de Fátima. 

No início da década de 60, Lee compôs uma canção às Aparições da Cova de Iria, a que chamou «THE MIRACLE OF THE ROSARY». Pediu, depois, a Elvis para lhe dar voz. A 15 de Maio de 1971, Presley gravou-a na sua batida calorosa e integrou-a no álbum «Elvis Now!», publicado no ano seguinte, a 20 de Fevereiro. O rei do rock manteve intacta a letra, que desfia a Avé-Maria, enquanto agradece o milagre dessa oração de simplicidade cristalina, repescada pela ‘Senhora mais brilhante do que o sol’ para se tornar na companhia mais assídua dos Pastorinhos. 

Na década de 80, já Elvis tinha morrido, a canção foi entoada no Santuário de Fátima por Lee Denson, que também a cantou no Carmelo de Coimbra para a única vidente viva – a já velhinha irmã Lúcia.



A letra: 

«Oh Blessed Mother we pray to Thee
Thanks for the miracle of Your Rosary
Only You can hold back
Your Holy Son's hand
Long enough for the whole world to understand
Hail Mary full of grace
The Lord is with Thee
Blessed are thou among women
And blessed is the fruit of Thy womb, Jesus
Oh Holy Mary dear Mother of God
Please pray for us sinners
Now and at the hour of our death
And give thanks once again
For the miracle of Your Rosary.»

Nova homenagem da cultura pop americana às Aparições de 1917 emergiu a seguir à Segunda Guerra Mundial, com outra música focada na história misteriosa acontecida a três miúdos do Portugal profundo, mensageiros improváveis e sem credenciais mínimas para uma comunicação urbi et orbi. Intitulou-se «OUR LADY OF FATIMA» e foi comprada pela editora Robbins, em 1950, que a gravou com as vozes conhecidas da época: Red Foley, Kitty Kallen e Ricard Hayes, Andy Williams, Bill Kenny. Mas o intérprete mais famoso, de longe, foi o artista que continua a somar fãs em várias gerações e ser aclamado por encarnar os melhores valores norte-americanos – Tony Bennett. As Nações Unidas atribuíram-lhe o título de «Cidadão do Mundo» e são incontáveis os galardões nacionais e internacionais que já recebeu. Só Grammys foram 19.  Na sua gravação de Our Lady, decorrida em Julho de 1950, Bennett introduziu uma espontaneidade na ária-oração, declarando que acreditava em milagres. Na autobiografia «The Good Life: The Autobiography Of Tony Bennett» classificou esta peça musical de «melodramática» e associou-lhe o facto de ter correspondido à sua estreia com o orquestrador Percy Faith.

Além de serem atípicas as incursões da música pop e do rock norte-americanos na religião, ainda mais as devoções marianas (pouco a ver com a confissão maioritária protestante), «Our Lady of Fatima» chegou ao sexto lugar na hit parade – o ranking musical da revista de referência Billboard.


A letra:

«OUR LADY OF FATIMA
(Ave Maria!
Ave Maria)

Dear Lady of Fatima,
We come on bended knee
To beg your intercession,
For peace and unity.
Dear Mary, won't you show us
The right and shining way?
We pledge our love and offer you
A rosary each day!

You promised at Fatima,
Each time that you appear,
To help us, if we pray to you,
To banish war and fear.
Dear lady, on first Saturdays,
We ask your guiding hand,
For grace and guidance here on earth,
And protection for our land.

(You promised at Fatima,
Each time that you appear,
To help us, if we pray to you,
To banish war and fear.)
Dear lady, on first Saturdays,
We ask your guiding hand,
For grace and guidance here on earth,
And protection for our land.
(Ave Maria!)»
   
Versão de Gladys Gollahon / Samuel Lewis


Nas voltas surpreendentes da vida, calha bem revisitar momentos que podem dar ânimo ao nosso tempo e a boa música é especialmente vitamínica. Revisitá-los vale, ao menos, como tributo a um passado que soube fugir ao comum, com talento. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 19 de maio de 2020

Pensamentos dos dias que correm *



Há dias aziagos.

Há ideias e decisões que nos povoam a mente durante alguns dias: um pensamento que se quer partilhar, um propósito que é preciso fazer, algo que é necessário dizer.

Medita-se sobre a melhor forma, o timing correcto, as palavras certas. Tudo em nome da eficácia e dos princípios que nos norteiam.

All of a sudden, diriam os ingleses, há um ligeiríssimo desalinhamento dos astros materializado em algo imprevisível, como se o meio-dia chegasse alguns minutos antes, como se o sol desaparecesse, não por trás da linha do horizonte, mas na vertical do nosso lugar, como se a água fervesse a 51º.

De repente, um minúsculo grão de areia deita por terra os pensamentos, as decisões, os propósitos, a noção de tempo exacto.

De repente, tudo em nós se desarticula, range num esforço de máquina forçada, estrebucha como criança que luta contra a sesta benfazeja.

De repente, já não somos nós, mas alguém que, cá dentro, revela o pior que todos temos: a escuridão, o frio, o mal. Elementos que não existem por si, mas pela ausência do seu inverso.

Alguns dos que me lêem sabem do que falo. Assim como sabem que há duas coisas que me pacificam interiormente. Uma é a música clássica bonita, aqui expressa nesta belíssima ária de Puccini. A outra...

Adeus, até ao meu regresso...

JdB

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* publicado originalmente a 10 de Maio de 2009

domingo, 17 de maio de 2020

6º Domingo da Páscoa

EVANGELHO - João 14,15-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos.
E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Defensor,
para estar sempre convosco:
o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber,
porque não O vê nem O conhece,
mas que vós conheceis,
porque habita convosco e está em vós.
Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós.
Daqui a pouco o mundo já não Me verá,
mas vós ver Me eis, porque Eu vivo e vós vivereis.
Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai
e que vós estais em Mim e Eu em vós.
Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre,
esse realmente Me ama.
E quem Me ama será amado por meu Pai
e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Poemas dos dias que correm (sugerido por mão amiga)

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos  E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites   não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Dos sítios onde actuaríamos ou não

Tenho 62 anos, pelo que no 25 de Abril tinha 16. Durante meia dúzia de anos fiz militância no CDS: colei cartazes sem saber se iríamos ser atacados por partidos de esquerda, defendi bancas no liceu contra a investida da UEC, envolvi-me num ou noutro encontrão; nunca deixei de votar nesse partido. Não sou filho de industriais ou de bancários, mas acompanhei de perto nacionalizações, emigrações forçadas para o Brasil, gente que soube ter estado presa sem culpa formada ou porque pertencia a determinada família. Sendo que uma parte da minha família estava ligada à agricultura, segui ocupações, comícios da CAP, entregas de terras, violências e perseguições. A minha jornada política era muito marcada pela bipolarização: os comunistas estavam do outro lado da barricada; entre nós e eles havia um muro intransponível; sabíamos que, com eles no governo, as nossas vidas corriam algum perigo.

Esta nota autobiográfica deriva de uma conversa que tive ontem: se eu fosse artista e fosse contratado para actuar na festa do Avante, iria? A minha resposta óbvia e imediata seria não, não iria.  Porquê? Porque tenho memória do que foi o Partido Comunista em Portugal, do que fizeram e do que fariam se tivessem podido. Naquela altura, os fascistas no Campo Pequeno não eram uma metáfora. Por isso, pela memória que tenho, a minha resposta seria não.  

Tenho dois filhos, de 33 e 31 anos, com ideias políticas próximas das minhas. Se eles fossem artistas iriam actuar na festa do Avante, não tendo a memória que eu tenho do que foi o pós 25 de Abril? Não sei. Perguntei a uma pessoa (que por acaso é artista) e que tem 40 anos. A resposta foi que não iria. Quando lhe perguntei porquê, falou no facto do comunismo ter morto mais de 100 milhões de pessoas. A minha recusa assenta numa dimensão mais pequena: a memória de anos que eu vivi com intensidade; tempos perigosos, de alguma violência e grande combate político.

É curioso pensarmos onde traçamos a linha que separa o sim, iria, do não, não iria. Actuaríamos num festival da IURD? Ou da Iniciativa Liberal que, segundo me parece, tem no seu programa o apoio à eutanásia? E se fosse o PS? Ou a maçonaria como ela é hoje?

JdB 


quarta-feira, 13 de maio de 2020

Duas Últimas

Nunca se usou tanto a palavra separação como agora: pais separados de filhos, avós separados de netos, namorados separados entre si, alunos separados dos professores, sonhos separados da realidade. Foi tudo muito súbito, muito rápido. Foi tudo de repente, não mais que de repente, dirá Vinicius, o poeta.

JdB

terça-feira, 12 de maio de 2020

Textos dos dias que correm

A fé não nos separa, nem nos confunde

Bebemos a fé a partir da situação em que a recebemos. É diferente ser crente desde a nascença ou experimentar a conversão na vida adulta. Quando a fé surge à nascença, recebemo-la como um dom encarnado naquilo que já tínhamos começado a ser ainda antes de vermos a luz. Quando a chegada à Fé implica uma exigente experiência de conversão pode trazer consigo a necessidade de romper com formas e hábitos antigos.

A fé é por isso transmitida entrelaçada com uma experiência concreta, seja da família a que pertencemos, seja de valores e normas sociais ou de diferentes visões do mundo.  Por isso, muitas vezes é difícil distingui-la de tudo isso. E, no entanto, a fé não se confunde com as diferentes esferas e heranças da nossa vida. Pode, no nosso entretanto, ser o suporte de cada uma delas e a liberdade que nos impede de absolutizá-las porque o Deus, no qual nos apoiamos, é sempre maior.

Em diferentes momentos da história, as diferentes tradições religiosas deixaram-se apreender pelo poder ou pelas ideologias, manipularam e foram manipuladas. E isso também faz parte da nossa herança católica e, eventualmente, da nossa herança pessoal da fé. É bom aprender a viver em paz com isto, mas é também importante aprender a viver com liberdade esta herança.

Só um catolicismo manietado por ideologias desfocadas, por alguma ideia de superioridade ou privilégio,  pode em algum momento achar que confinamentos seletivos têm alguma semelhança com o Evangelho. Jesus morreu por ter rasgado o véu que alimentava uma visão religiosa sustentada por confinamentos que separavam puros de impuros, trouxe a Salvação como oferta universal sem exclusivos ou privilégios.

Ora isto convida-nos a recusar formas sectárias de nos situarmos diante da realidade seja ela a realidade familiar, social, política, cultural ou natural. Somos criados em cada dia à imagem de Deus. E Jesus é o nosso ícone, a referência a que aspiramos. Só podemos ser reflexo dessa imagem em abertura e acolhimento. Fechados, superiores ou privilegiados não somos como Jesus.

Esta abertura faz-se não como fuga da realidade ou do mundo mas como pertença assumida a essa realidade. A fé vive-se na contingência social e corporal que nos toca, precisa de uma dimensão material. Não se opõe nem à sociedade, nem à natureza. A comunidade constitui-se como corpo concreto de gestos e práticas. Alimenta-se de sinais visíveis que precisam da água, do trigo e da uva amadurecida pelo sol.

Para permanecer livre, apoiada em Deus, a fé não pode confundir-se nem com os outros, nem com a cultura, nem com a natureza. Tornar-se-ia idolatria ou panteísmo.  Por outro lado, uma fé sectária, separada dos outros, da cultura e da natureza é fundamentalismo sem transcendência é a ideia de um deus desligado da realidade. Em ambos os casos seria uma fé sem Jesus e sem o Evangelho.


P. José Maria Brito, sj
Diretor do "Ponto SJ"
Publicado pelo SNPC em 11.05.2020

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Da pintura e dos alienados

Num texto intitulado Questões de Estética (Da Pintura, Gradiva, 2017) diz Eduardo Lourenço:

No asilo de alienados de Verona há mil e quinhentas pessoas em vias de cura. Entre essas 1500 encontram-se uma vintena com disposições reais para a pintura. Esta disposição é um dos maiores mistérios. Os pintores dos hospitais psiquiátricos antes de serem enterrados não eram artistas, mas artífices, simples cidadãos. 

E mais à frente:

A vista destas telas [a dos alienados] põe algumas questões inquietantes. Por exemplo: no tempo de Rafael, os doentes mentais, se tivessem tido a possibilidade de pintar, teriam pintado à maneira de Veronese ou à maneira de Rafael? Não estou muito seguro disso, mas penso que ela teria sido abstracta como a dos dementes de hoje. E isto porque a loucura se encontra fora do tempo e da História, e porque é sempre igual a si mesma. 

Esta percepção de Eduardo Lourenço suscita devaneios interessantes. Como seria vista a pintura abstracta no início do século XV? Provavelmente como a obra de um alienado. Como é vista a pintura abstracta no século XX? Como um estilo, aqui e ali como uma genialidade. Entre a abstracção daquele tempo e a deste existem cinco séculos. Se a percepção de Eduardo Lourenço estiver certa, foram precisos 500 anos para dar um carácter de sanidade a um estilo. Ou, numa visão mais arrojada e provocadora, os alienados do século XV são os lúcidos do século XX: ambos pintam o que conseguem, não forçosamente o que querem.

JdB 

domingo, 10 de maio de 2020

5º Domingo da Páscoa

EVANGELHO - Jo 14,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Não se perturbe o vosso coração.
Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim.
Em casa de meu Pai há muitas moradas;
se assim não fosse, Eu vo lo teria dito.
Vou preparar vos um lugar
e virei novamente para vos levar comigo,
para que, onde Eu estou, estejais vós também.
Para onde Eu vou, conheceis o caminho».
Disse Lhe Tomé:
«Senhor, não sabemos para onde vais:
como podemos conhecer o caminho?»
Respondeu lhe Jesus:
«Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Ninguém vai ao Pai senão por Mim.
Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai.
Mas desde agora já O conheceis e já O vistes».
Disse Lhe Filipe:
«Senhor, mostra nos o Pai e isto nos basta».
Respondeu lhe Jesus:
«Há tanto tempo que estou convosco
e não Me conheces, Filipe?
Quem Me vê, vê o Pai.
Como podes tu dizer: 'Mostra nos o Pai'?
Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim?
As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim próprio;
mas é o Pai, permanecendo em Mim, que faz as obras.
Acreditai Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim;
acreditai ao menos pelas minhas obras.
Em verdade, em verdade vos digo:
quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço
e fará ainda maiores que estas,
porque Eu vou para o Pai».

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Poemas dos dias que correm

Antes do Nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o «de», o «aliás»,
o «o», o «porém» e o «que», esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Adélia Prado, in 'Bagagem'

***

Os Lugares-Comuns

Quando o homem que ia casar comigo
chegou a primeira vez na minha casa,
eu estava saindo do banheiro, devastada
de angelismo e carência. Mesmo assim,
ele me olhou com olhos admirados
e segurou minha mão mais que
um tempo normal a pessoas
acabando de se conhecer.
Nunca mencionei o facto.
Até hoje me ama com amor
de vagarezas, súbitos chegares.
Quando eu sei que ele vem,
eu fecho a porta para a grata surpresa.
Vou abri-la como o fazem as noivas
e as amantes. Seu nome é:
Salvador do meu corpo.

Adélia Prado, in 'Bagagem'

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

DIÁLOGO INSÓLITO COM O SANTO DO HUMOR – PIPPO O BOM  

S.Felipe Néri (1515-1595) é conhecido por ser o Santo da Alegria mas, como bem observava a actriz Maria Rueff, especialmente devota daquele inspirador da boa comédia, deveria ser antes reconhecido por uma boa disposição a extravasar de humor e audácia, sempre com lealdade. Nem o Papa foi poupado à sua ironia benigna e lúcida, para se perceber até que ponto ultrapassou a alegria comum nos santos. É, compreensivelmente, o padroeiro dos comediantes e também dos educadores, porque ensinou catequese pelas ruas de Roma, no tempo dos cismas protestantes, indignados (e não só) com a falta de fé generalizada, corrupção e frivolidade que grassavam na Cidade Eterna. Século de contraste é o menos que se pode dizer daquela época conturbada. 

Néri dava-se com gente de todas as origens e idades, que o chamavam de Pippo o Bom. Também acolhia animais abandonados, entre gatos, pássaros e um cão malhado a que chamou de «Capriccio» (qual pizza!). Nunca os tinha presos, nem mesmo aos pássaros que, de dia, voavam pelos céus de Itália.  Espantoso era voltarem todas as noites ao quarto de Felipe, para os alimentar e lhes dar guarida.    

Das suas frases incisivas, que o tornaram famoso, estão: «A batalha contra o mal (pecado) é a única batalha na qual vence aquele que foge»; É melhor pensarem que sou louco do que santo. É mais divertido e menos comprometedor (citado por aproximação); «Longe de mim o pecado e a tristeza»; «Prefiro o paraíso»; rezava «Deixem-me terminar hoje, e não terei medo amanhã». 

Entre os seus múltiplos talentos, conta-se que confessava especialmente bem, até porque conseguia ler a mente dos penitentes e ser, em simultâneo, muito paciente e divertido a incitá-los a melhorarem. Até nas penitências jogava uma cartada de surpresa e originalidade. A uma mulher viciada em intrigas e insinuações, disse-lhe para espalhar por toda a cidade as penas de uma galinha já morta, antes de a cozinhar. Entusiasmada com a bizarria, a mulher cumpriu a tarefa num ápice e voltou a Felipe, que lhe deu nova incumbência: agora vem o principal -- vais recolher cada uma das penas e trazer-mas todas aqui. A mulher, sem perceber o sentido daquilo, explicou-lhe que já não seria possível, porque tinham sido levadas pelo vento. Então o santo mostrou-lhe que equivalia ao efeito devastador da sua maledicência, cujos danos também não poderiam ser revertidos, deixando pelo caminho vidas irremediavelmente estragadas. Parece que a senhora ficou impressionada com a imagem e largou o péssimo vício. 

De outra vez, um médico veio ter com ele deprimido e acabrunhado com preocupações. Felipe fez logo tantas palhaçadas, que pôs o médico a rir, quebrando a onda negativa que submergira aquele infeliz.  

Também previa o futuro, tendo antecipado a data da sua morte. Porém, nem tudo na sua vida foram facilidades e paródia. Ficou órfão em tenra idade e sofreu perseguições dentro da própria Igreja, pois as suas excentricidades escandalizavam uns quantos. Alguns biógrafos referem também invejas, por causa da sua enorme popularidade junto da população romana, com amigos em todos os quadrantes. A ponto de merecer diminutivo e cognome ao jeito dos monarcas – Pippo o Bom.  O que nunca lhe faltou foi a boa disposição e as picardias bem humoradas! Até os seus acusadores concordavam nisso, muitos aliás para o apoucarem. Só que Felipe não desarmava: Quer dizer que, se chegarem alegres à porta do Paraíso, não os deixam entrar?

Um dos seus diálogos mais insólitos tem a ver com mais um dos seus dons – o da cura – e foi travado com o filho do seu amigo o príncipe Fabrizio Massimo, numa hora dramática. Está muito bem narrado num artigo que o autor, gentilmente, me autorizou a citar, com a vantagem de encontrar na mensagem de Néri afinidades com esta Primavera de 2020, um tanto inquinada por uma pandemia: 

«A estranha pergunta

Ao reler por estes dias uma biografia de S. Filipe Neri («Filipe Neri, o Sorriso de Deus», de Guilherme Sanches Ximenes, Ed. Quadrante), reparei na quase coincidência de datas de um estranho episódio, ocorrido há aproximadamente 5 séculos num dia 16 de Março.

O protagonista viveu os anos duros da Renascença, que dilaceraram a cristandade com as revoltas protestantes (de Lutero, de Zwinglio, de Calvino, de Henrique VIII, de Melanchthon) e fustigaram a Europa com guerras generalizadas, incluindo violências contra a cidade de Roma por parte de imperadores ditos católicos. Estes tempos difíceis foram também uma época de grandes santos, que sacudiram a tibieza e a corrupção da sociedade com propostas exigentes de renovação espiritual. Conviveram com S. Filipe Neri muitas figuras deste calibre, como Santo Inácio de Loyola, S. Pio V, S. Carlos Borromeo e são contemporâneos dele Santa Teresa de Ávila, S. João da Cruz e S. Pedro de Alcântara. Mas Filipe não foi herege nem reformador austero, foi um santo brincalhão, desconcertante, ao mesmo tempo que um grande santo.

Era um homem de profunda oração, mas até nisso não perdeu o humor, por vezes atrevido com o próprio Deus. Até nos milagres, S. Filipe Neri foi original.

O episódio que me chamou a atenção começou de forma dramática quando a Sra. Lavinia, mulher de Fabrizio Massimo, amigo de S. Filipe, estava para dar novamente à luz. O casal já tinha cinco filhas, mas o sexto parto ia muito mal encaminhado. Fabrizio recorreu a S. Filipe e este, depois de rezar, tranquilizou-o com toda a segurança: tudo ia correr bem, iam ter um rapaz saudável e deveriam dar-lhe o nome de Paolo. Realmente, tudo aconteceu como previsto.

Catorze anos depois, já a mãe do rapaz tinha morrido e também uma das irmãs, Paolo adoece gravemente. A doença arrasta-se por vários meses e Filipe visita-o todos os dias. Finalmente, o jovem entra em agonia. Filipe foi chamado à pressa mas, como estava a celebrar a Missa, demorou algum tempo e só chegou quando o rapaz já tinha morrido.

A cena é fácil de imaginar: o cadáver inerte sobre a cama, rodeado pelo pai, as irmãs e os vizinhos, a chorar e a prepararem o enterro.

Filipe ajoelhou-se perto da cama em oração. Rigoroso silêncio. A seguir, pegou num frasco de água benta, aspergiu o corpo e chamou com força: «Paolo! Paolo!». Paolo abriu os olhos e disse «Padre». Filipe e Paolo ficaram a conversar um quarto de hora, como se nada fosse, rodeados pelos circunstantes, boquiabertos. A certa altura, Filipe pergunta a Paolo se queria continuar vivo ou se preferia ir para junto da mãe e da irmã, no Céu. Paolo escolheu a segunda alternativa. No processo de canonização, o próprio pai testemunhou o acontecido: «Então, Filipe, na minha presença, deu-lhe a bênção e, impondo-lhe a mão sobre a fronte, disse-lhe –e eu o ouvi–: “Vai, sê abençoado e reza a Deus por mim”. E tendo Filipe dito estas palavras, Paolo, com o semblante sereno, sem fazer nenhum gesto, nas mãos desse bem-aventurado sacerdote, na minha presença..., voltou subitamente a morrer».

No castelo da família Massimo celebra-se todos os anos, no dia 16 de Março, data do milagre, uma Missa em recordação deste episódio.

Nestes dias, em que talvez morram conhecidos nossos vítimas do coronavírus, nestes dias que abalam o nosso sonho de vir a celebrar 100 anos, em que o espectro da morte nos espreita do lado de lá da porta da casa, Deus pergunta-nos o que preferimos. Um grande amigo meu respondeu-Lhe: «Senhor, deixo a minha vida nas tuas mãos. Sei que escolhereis o que for melhor para mim».

José Maria C.S. André
(5-IV-2020)

Fazendo jus a S.Felipe Néri, segue um sketch com uma das suas seguidoras mais fiéis da actualidade – Maria Rueff – num directo a partir do céu, gravado num pacato serão de Sábado de 2011, em que calhou juntar-se a dupla mais improvável: a Amy Winehouse e a Beatriz Costa… Daqueles acasos que só acontecem para lá das nuvens:



Ainda outro diálogo insólito e maravilhoso é protagonizado por uma irlandesa de 9 anos, hiper convicta no pedido e na argumentação, pondo à gargalhada os adultos no outro lado da linha. Nem conseguem disfarçar, limitando-se a distribuir auscultadores pelo maior número de colegas da empresa:


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 5 de maio de 2020

Do sexo e de tudo o resto

Vejo um episódio de uma série inglesa que acompanho erraticamente. A mulher, uma advogada casada, diz a um colega com quem se percebe que teve um caso - ou com quem está sempre na iminência de ter um caso: o sexo contigo era melhor; e eu disse-lhe isso [ao marido]. Percebe-se (porque não vi o episódio anterior) que entre o casal houve uma discussão, e que ele sai de casa. 

Advogada e presumível (ou potencial) amante encontram-se numa festa. Ela diz-lhe: o sexo contigo era melhor. Mas tudo o resto era melhor com ele [o marido]. Na última cena do episódio o casal participa a separação aos filhos.

Diz-se que aquilo que leva um homem ao desespero por saber que a mulher teve um caso não é o sentimento de traição, mas o pavor da comparação. Percebe-se, por isso, que o marido enganado sinta que só tem uma saída, que é uma mala com uma muda de roupa e um hotel. Não só se sentiu brutalmente comparado, como ficou a perder. Percebe-se, pois, que ele tenha saído de casa depois de ter constatado a traição, para além de que, na competição com o amante da mulher, ficou em segundo lugar. E percebe-se também que o facto de ser melhor em tudo o resto não é suficiente para regressar a casa. 

Todos conhecemos casos de pessoas que põem os seus cônjuges na rua depois de saberem de um caso extra-conjugal. O mundo está cheio disso. Porém, talvez não se conheçam tantos casos de pessoas que puseram os cônjuges na rua depois de saberem de corrupções, tráficos de influências, aldrabices nos negócios ou faltas de ética nas relações profissionais. Nem sei se os casamentos suspensos por motivo de prisão de um dos cônjuges se retoma com a liberdade da pessoa em questão. 

Esta duplicidade de valores sempre me fez confusão, mas talvez tudo isto se deva a uma importância demasiadamente negativa que se dá ao corpo, ao sexo, ao prazer. A infidelidade pode não ser (como também pode ser) uma falha de carácter, mas uma fraqueza, tantas vezes momentânea ou localizada num espaço de tempo. Há sempre desrespeito pelo outro, mas poderá haver atenuantes. Ora, um aldrabão (no masculino ou no feminino) que persiste é um aldrabão por natureza - e isso é uma falha de carácter. Conhecemos affaires pontuais, não conhecemos cheques carecas pontuais. Aparentemente, a honestidade nos negócios é menos importante do que os prazeres da carne na manutenção de uma relação.

Na longa lista de que se reveste uma relação conjugal, há sexo e há tudo o resto. Para o homem que deixou a aliança e as chaves em casa e saiu com uma muda de roupa para um hotel, o primeiro tem um peso superior ao do segundo. Sexo vale mais que tudo o resto.  Isto quer dizer alguma coisa.

JdB        

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Duas Últimas

Este comboio espanhol faz mais do que uma simples viagem entre Guadalquivir e a Velha Sevilha. Lá dentro, disputando as almas, duas forças em combate – o Bem e o Mal; a vida e o vírus, a doença e a saúde. And far away in some recess / The Lord and the Devil are now playing chess / The Devil still cheats and wins more souls / And as for the Lord, well, he's just doing his best. Deus ganha sempre, mas ainda não é hoje…

JdB




domingo, 3 de maio de 2020

4º Domingo da Páscoa

EVANGELHO - Jo 10,1-10

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta,
mas entra por outro lado,
é ladrão e salteador.
Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas.
0 porteiro abre lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz.
Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva as para fora.
Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem,
caminha à sua frente
e as ovelhas seguem no, porque conhecem a sua voz.
Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele,
porque não conhecem a voz dos estranhos».
Jesus apresentou lhes esta comparação,
mas eles não compreenderam o que queria dizer.
Jesus continuo: «Em verdade, em verdade vos digo:
Eu sou a porta das ovelhas.
Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores,
mas as ovelhas não os escutaram.
Eu sou a porta.
Quem entrar por Mim será salvo:
é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem.
O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir.
Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida
e a tenham em abundância».

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Poemas dos dias que correm

Poeminha sobre o Trabalho

Chego sempre à hora certa,
contam comigo, não falho,
pois adoro o meu emprego:
o que detesto é o trabalho.

Millôr Fernandes, in "Pif-Paf"

***

Fábrica

Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto liso e frio dos metais,
a segura confiança

do saber-se que é assim e assim exactamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura,
como na cabeça do engenheiro.
Os operários têm nos músculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:

é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento;

como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das máquinas.

Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;

as articulações subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
a fábrica, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necessários.

Joaquim Namorado, in 'Antologia Poética'

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Das histórias inverosímeis

Ontem publicou-se neste estabelecimento um texto encimado por um título: bem-aventurados os mansos. Neste vendaval que por vezes me assola comecei a associar muitas coisas, todas elas derivadas do título: KGB, música triste ou alegre, sinais gráficos de exclamação ou de interrogação, Outono ou Verão, gente irada ou gente triste.

Um dia contaram-me uma história (totalmente verídica) que penso já ter revelado neste estabelecimento: dois elementos do KGB foram a uma casa de fado; não percebendo português fixaram-se na melodia, na entoação, nos sons da voz ou da guitarra, no ambiente. E, afiançam-me, comoveram-se ao ponto das lágrimas. Ora, esta história é uma contradição em termos e há nela, por isso, algo de potencialmente falso. Eu explico, recorrendo a um silogismo:

1ª premissa: o fado é uma música triste; 
2ª premissa: a música triste é uma música centrípeta; 
Conclusão: o fado é uma música centrípeta.

Ora, um agente da KGB, habituado à tortura, à eliminação dos homens, à violência verbal e física, à ausência de remorso, é um homem com um potencial de fúria grande, com um tom de voz todo projectado para fora, para a defesa do Estado; é um ponto de exclamação, uma afirmação. A ira, pela sua própria natureza (tal como a alegria) é centrífuga. Assim sendo, um homem da KGB não pode gostar de fado porque é protagonista de uma força para dentro em simultâneo com outra para fora. A história tem de ser, por isso, mentira. Ou o fado é uma música alegre, o que não se afigura correcto.

Gostamos da música que revela o nosso íntimo. Gente pessimista (o pessimismo é, na sua versão mais arrojada, um ponto de interrogação, embora na maioria das vezes seja apenas uma reticência) gosta de Outono, de música triste. Podem até ter um pendor para a nostalgia, para a mansidão que não é a mencionada nas bem-aventuranças, mas a que se refere ao desequilíbrio de fluidos, a uma certa hidropisia, ao curvar-se sobre si mesmo que sugere o sinal gráfico já referido. A pessoa alegre é hirta, exclama, pontua, enche o peito de ar com vista ao esvaziamento assertivo, deseja a alegria que provoca a centrifugação da tristeza e a desfaz contra as paredes escuras do destino.

Desconfiem de gente irada, alegre ou que tortura, mas que gosta de música triste. Há uma contradição dentro delas que pode ser altamente perigosa, como se no interior dessa gente não houvesse equilíbrio, mas um estraçalhar de forças contrárias, um rasgamento violento.

É isto, no fundo.

JdB      

terça-feira, 28 de abril de 2020

Bem-aventurados os mansos... *

Neste pequeno texto há dois personagens, Vítor e Rafael, ambos gémeos. São tão gémeos que, para efeitos de narrativa, não só não se distinguem um do outro como dizem exactamente o mesmo, e encontram-se nos mesmos locais com uma simultaneidade sem explicação científica. O que diz um diz o outro – sendo que a inversa também é verdadeira. Onde está Rafael pode ler-se Vítor. Diria ainda, correndo o risco da repetição, que a inversa também é verdadeira.

***

Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.

Rafael – como poderia ser Vítor – de há muito que sorria ao ouvir esta frase do sermão da montanha. Apanhara o hábito de seu pai, um homem sério, austero e grave que se vira precocemente viúvo quando a esposa tombara no chão, silenciosa e discreta, num desgraçado e chuvoso domingo de Ramos.

Vítor – como poderia ser Rafael – voltara a ouvir o texto sagrado, já sem sorriso. Franzira-se-lhe um sobrolho e correra-lhe uma lágrima furtiva derivada de uma orfandade paterna recente. De facto, o pai dos gémeos – entre si, e inversamente falando – finara-se com um sorriso segurando entre as mãos fortes e grandes um diário. Foram encontrá-lo com os olhos abertos, um fio de saliva a escorrer-lhe pelo canto da boca fina e séria e um estetoscópio – totalmente desenquadrado da decoração envolvente – numa banqueta ao lado.

Rafael – como poderia ser Vítor – fechara-lhe os olhos, arrumara o instrumento médico com um misto de espanto e temor de que sempre se reveste o inexplicável, e sentara-se a ler o diário. Um dos gémeos – ou seria o outro? – sugerira que se começasse pela página aberta, que talvez se derramasse uma luz sobre o funesto evento.

17 de Fevereiro. Voltei a casa de AT. Recebeu-me linda e deslumbrante, com um sorriso convidativo e pecaminoso. Estava vestida de enfermeira, o meu fetiche mais recorrente. A farda justa realçava-lhe as formas volumosas e, junto a um peito que a cirurgia estética tinha retocado, um relógio pequeno marcava as 15 horas. Estendeu-me uma mão forte e profissional, lamentando o meu ar macilento. Instou-me à posição horizontal na marquesa, alegando a necessidade de um exame completo. Na hora que se seguiu observou-me de norte a sul, de nascente a poente, de A a Z. Usou todos os seus sentidos, justificando a necessidade de um diagnóstico perfeito. Quando a possuí – e foi ela, AT, quem explicitamente me pôs o verbo nos lábios – revesti-me de uma felicidade imensa, como o doente a quem o médico transmite palavras de cura. A enfermeira levou-me à porta, solícita, confiante, amável – e desnuda. Mantivera sempre um estetoscópio ao pescoço, como quem mostra ao paciente que todos somos serviço e prazer. Estendeu-me a mão profissional e forte e pediu que lhe devolvesse o instrumento médico aquando da próxima visita. Detectou-me um corpo pouco ginasticado, mencionando que talvez fosse bom convidar uma acrobata da vez seguinte. Amo-te, AT, e não vejo o dia de te possuir de novo.

Vítor – como poderia ser Rafael – interrompera a leitura do diário para aplicar de novo o verbo abrir – já abrira a boca, faltava abrir a porta. Na soleira da dita encontrava-se uma senhora muito bonita, fardada de enfermeira, com um relógio pequeno a compor um decote displicente onde saltitava um peito retocado pela cirurgia.

Muito boa tarde. Estou a falar com os donos da empresa Irmãos Mansos e Herdeiros? Talvez tenham ouvido falar na minhas iniciais – AT... O meu nome é Andreia Terra, e conheci bem o vosso pai...

Bem-aventurados...

JdB

---
* publicado inicialmente a 21 de Junho de 2010 

segunda-feira, 27 de abril de 2020

domingo, 26 de abril de 2020

3º Domingo da Páscoa

EVANGELHO - Lc 24,13-35

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Dois dos discípulos de Emaús
iam a caminho duma povoação chamada Emaús,
que ficava a sessenta estádios de Jerusalém.
Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido.
Enquanto falavam e discutiam,
Jesus aproximou Se deles e pôs Se com eles a caminho.
Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.
Ele perguntou lhes.
«Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?»
Pararam entristecidos.
E um deles, chamado Cléofas, respondeu:
«Tu és o único habitante de Jerusalém
a ignorar o que lá se passou estes dias».
E Ele perguntou: «Que foi?»
Responderam Lhe:
«O que se refere a Jesus de Nazaré,
profeta poderoso em obras e palavras
diante de Deus e de todo o povo;
e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes
O entregaram para ser condenado à morte e crucificado.
Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel.
Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu.
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram:
foram de madrugada ao sepulcro,
não encontraram o corpo de Jesus
e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos
a anunciar que Ele estava vivo.
Mas a Ele não O viram».
Então Jesus disse lhes:
«Homens sem inteligência e lentos de espírito
para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram!
Não tinha o Messias de sofrer tudo isso
para entrar na Sua glória?»
Depois, começando por Moisés
e passando por todos os Profetas,
explicou lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito.
Ao chegarem perto da povoação para onde iam,
Jesus fez menção de ir para diante.
Mas eles convenceram n'O a ficar, dizendo:
«Ficai connosco, Senhor, porque o dia está a terminar
e vem caindo a noite».
Jesus entrou e ficou com eles.
E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção,
partiu-o e entregou-lho.
Nesse momento abriram se lhes os olhos e reconheceram n'O.
Mas Ele desapareceu da sua presença.
Disseram então um para o outro:
«Não ardia cá dentro o nosso coração,
quando Ele nos falava pelo caminho
e nos explicava as Escrituras?»
Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém
e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com ele,
que diziam:
«Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão».
E eles contaram o que tinha acontecido no caminho
e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Da oração (resposta a um comentário)

Visitante assíduo e assertivo, "ao" (assim se assina) escreveu o seguinte comentário ao meu post sobre pandemia e fé:

Ninguém é seguramente um cristão. Um cristão tem sempre dúvidas muito importantes acerca da sua Fé.
JdB, neste escrito Vexa não foi feliz. O que perdoo, porque é natural, tal afirmação é humana. Não será verdadeira, mas é natural.
Depois, o escrever que não acredita na oração é grave. A oração nada mais é do que nós conversarmos com Deus [como Adão fazia no Éden]. Escolhemos a intimidade.
Deus que disse que não lhe interessavam os sacrifícios; antes as obras.
Deus que tem um plano [divino] para o Universo.
Se reler os 10 Mandamentos, verá que são para um 'povo' reles, que colocava o seu conforto acima de tudo. Que sempre desprezou os seus irmãos das outras tribos. Repare o que se passou nos anos de 1930: os ricos foram para os EUA e o pobres, nos guetos, que se tramassem.
Mateus, um descendente de Levy, tribo encarregue de fazer as outras cumprir as regras religiosas, era desprezado por ser cobrador de impostos: num povo que venerava o dinheiro.
Levita sustentado, por lei, pelos outros judeus, trabalhando para os romanos? Mas que grande pecador.
Os fariseus, antes de se cruzarem com um publicano tinham, como regra, de se afastarem 9 passos, em semi-círculo, para não se contaminarem...
Tendo eu muitas costelas farisaicas, não o condeno porque sei que eu serei condenado.

***

Sobre o comentário - que agradeço pelo valor que acrescenta ao meu próprio pensamento - gostaria de dizer:

1) O dicionário (se fosse necessário recorrer-lhe) reforça o meu argumento: cristão é aquele que crê em Jesus Cristo, que segue os princípios do cristianismo. Assim sendo, não tenho uma dúvida quanto ao meu cristianismo: leio o que Cristo disse (ou aquilo que me dizem que Cristo disse, em que acredito) e é aquilo que faz sentido eu seguir. Talvez fizesse um esforço tremendo para procurar qualquer coisa sobre a qual pudesse dizer "eh pá! isto não! Com isto não concordo."

(Podia usar uma expressão engraçada que ouvi há uns tempos, "tal como disse Jesus Cristo, e com o qual estou de acordo...")

Assim, procuro ser cristão: o amor ao próximo, a justiça, a atenção aos desfavoráveis, as obras antes dos sacrifícios, as bem-aventuranças. Não é (só) fé, é uma prática de vida, um manual de procedimentos, o que dificulta a coisa....

2) Acredito na oração, mas não como forma de pedir a chuva e a interrupção da chuva, a cura de uma criança doente, a vitória num jogo de futebol, a descoberta de uma vacina. Acredito na oração para mudanças de comportamentos próprios ou alheios, para a tomada de consciência, para que tenhamos discernimento e força em doses suficientes para fazer deste mundo (ou do nosso pequeno mundo) um lugar melhor, para que cada um suporte a cruz que o destino lhe deu ou saiba dar sentido à sua vida. Acredito na oração para pedir milagres - mas os milagres da transformação humana, não os da cura do pé de atleta ou da artrose persistente.

3) Já fora da resposta ao comentário: apesar de todas as minhas críticas (que nem serão muitas...) não concebo a minha vida fora da Igreja Católica. Apesar de todos os defeitos que lhe encontro (e serão alguns) não concebo a minha vida fora da Igreja Católica. Acredito que haja salvação fora da Igreja Católica, mas eu quero salvar-me lá dentro.

JdB   

Da quarentena inversa

Não posso dizer que seja um sonho com a dimensão daquele que levou Martin Luther King ao martírio por uma causa. Não posso dizer que seja uma vontade, porque vontade talvez seja outra coisa. Talvez seja, então, um desejo, não como aqueles que levam as grávidas a comer feijoada com uma rodela de ananás mas, mesmo assim, um desejo. Qual é ele? Ligar a televisão pelas oito da noite e não estranhar que ninguém fale de COVID-19. Não ver o competente José Alberto Carvalho agarrado diligentemente aos gráficos dos mortos, dos infectados, dos concelhos e dos grupos de risco; não ver o competente Rodrigo Guedes de Carvalho a dizer frases acertadas e conselhos válidos sobre o afastamento das pessoas e sobre a necessidade de ficar em casa por amor; não ver, por último, o competente José Rodrigues dos Santos com calça afunilada e olhar dramático a agitar os braços com sabedoria de orador, a inflectir a voz para realçar a dimensão da tragédia, a piscar o olho (ainda pisca?) para transmitir confiança, para passar a mensagem que a vitória é nossa e que o vírus (dava mais jeito ser plural, para colar à citação) não passará.

Penso que nada ficará como dantes quando vencermos o vírus - embora não se saiba se esse "quando" é este ano, em 2023 ou nunca. Porém, enquanto esse "quando" não chegar, gostava de fazer uma quarentena (nem que fosse uma quarentena de minutos) ao vírus, às tendências, aos dramas, ao morcego, à OMS, à incompetência deste ou daquele, ao flagelo previsível do desemprego e da desestruturação de tantas famílias. Gostava que um dia todos os canais se unissem para abrir os telejornais com histórias triviais, com receitas de cozinha, com a leitura de poemas, com a passagem de playlists de pessoas anónimas, com entrevistas a gente desconhecida que, num descampado nos confins de Portugal, não consegue dizer COVID-19 ou não sabe o que é o pangolim, confundindo o animal com um instrumento musical. Gostava que houvesse um certo deus das pequenas coisas nas aberturas do horário nobre e que, durante uma quarentena de minutos, fizéssemos uma desintoxicação daquilo que nos intoxica há semanas. Não porque os temas aflorados pelos competentes jornalistas não sejam importantes; apenas porque precisamos de um jejum, de comer maçãs durante uma semana para limpar o organismo, de ouvir frases diferentes, gráficos diferentes, tragédias diferentes. 

Quarenta minutos, vá. Depois voltamos ao mesmo, juro.

JdB

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

LIXO RECICLADO A DESAGUAR EM ARTE & ALERTA DOS MAIS NOVOS

O norte-americano Thomas Deininger (1) é um apaixonado na arte ocidental clássica, pura e dura. Já o lixo surgiu como desafio para reutilizar os trapos e as velharias que perdem validade num prazo  curtíssimo, segundo o ritmo frenético e insaciável de uma sociedade viciada em consumir-e-deitar-fora. A colecção de brinquedos fora de uso é só uma das montanhas de desperdícios que o artista apanha na rua. Porque as ruas e avenidas das grandes cidades transbordam de matéria-prima para as suas obras. Pudesse ele aproveitar tudo…

A segunda paixão da sua infância, logo depois do desenho, era o surf. E só não enveredou pelo desporto para não desgostar os pais, que lhe queriam proporcionar estudos universitários. Tinham poupado para isso, pois as propinas das universidades americanas são altíssimas, pelo que exigem poupanças acumuladas desde que a criança nasce, para uma família da classe média. Concluídos os estudos, Tom optou pelas artes plásticas. E, em 1994, já tinha lugar nos museus de arte moderna e em colecções privadas:



Outros artistas, com semelhantes preocupações ambientais, lançaram mão da mesma ideia, produzindo peças interessantes a partir dos sobejos de botões, tecidos, utensílios domésticos, bibelots, etc. A norte-americana Angela Pozzi (2) recriou um zoo paralelo com o lixo resgatado aos oceanos, num alerta claro contra a poluição marítima crescente nas águas do planeta. A quantidade gigantesca de detritos que apanhou permitiu-lhe construir feras aquáticas (a maioria) colossais, que fazem as delícias das crianças:






Retratistas exímios não se furtaram ao esforço de reproduzir rostos expressivos, recorrendo a materiais sumamente pobres, daqueles em que mais ninguém repara:



Até jornais velhos puderam ganhar sentido decorativo e artístico. Dificilmente algum jornalista se teria atrevido a antecipar o resultado final:


Há dois anos, precisamente no mês de Abril, abriu na capital checa o primeiro museu de arte ilusionista, junto ao celebérrimo relógio astronómico – o «Orloj» -- situado na icónica Old Town Square de Praga. Nesse «Illusion Art Museum Prague» (IAM Prague) muitas das ilusões ópticas provêm de obras feitas com sobras, numa aplicação oportuna e original da badalada ‘economia-circular’. Percebe-se por que Deininger tem lugar de honra no acervo do divertido jogo de aparências exibido no IAM, com possibilidade de visita virtual:




Num aviso também com ressonâncias ecológicas, Michael Jackson dedicou às crianças do mundo a sua célebre composição «Heal the World». Calha que uma das melhores interpretações da música é feita por crianças, que cantam com a autoridade de serem a geração que será mais afectada pelo que for hoje decidido e feito. Somam ainda a ternura da sua pouca idade e um incrível talento musical, como ressalta na curta-metragem montada pelo indiano Maati-Baani, onde desfilam pequenos cantores e mini-instrumentistas, desde os 5 anos de idade e de diferentes pontos do planeta! Verdadeiros prodígios:


As potencialidades incríveis da mente humana também contam com esta capacidade apaixonante de devolver interesse a realidades descartáveis para a maioria. Quando se junta sentido artístico recriam uma nova realidade, revalorizada e linda, ainda por cima!  Mas não tenhamos ilusões de que qualquer recauchutagem ao lado menos atraente da vida parte sempre e depende sempre do interior de cada um. Madeleine Albright (braço direito de Bill Clinton na Casa Branca, de origem judia, nascida na Checoslováquia) deu uma dica gira, numa entrevista a Fareed Zakaria no programa da CNN «GPS». Estava a explicar o que aprendera em situação limite -- durante os bombardeamentos de Londres, onde viveu durante a Segunda Guerra, depois de deixar o seu país para fugir aos nazis— não hesitou numa saída simples, mas exigentíssima: Bom, como estava à mercê da pontaria da Luftwaffe, só estava ao meu alcance ter controle sobre o que pensava e fazia. Descobri que isso era, afinal, o mais importante e serviu-me para a vida!… Poderá ser uma pista para encarar este tempo estranho sob o efeito de um surto pandémico, inédito para quase todos os habitantes do planeta.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
 (1) http://www.tomdeiningerart.com/works.html.
 (2) https://washedashore.org/


terça-feira, 21 de abril de 2020

Da pandemia e da fé

Sou seguramente um cristão; sou-o sem dúvidas quanto à convicção, com muitas dúvidas quanto à qualidade. Não sei se serei sempre um católico convicto, isto é, se me reverei sempre na forma como a Igreja Católica aborda / abordou alguns problemas ou sobre o modo como, até no meu tempo (e tenho 62 anos...) formatou muitas mentes. Este meu pensamento manifesta-se muito no desagrado com que recebo a ideia de que Deus está por trás de tudo o que acontece, e que temos de rezar a Deus para que venha a chuva, ou para que pare a chuva, ou para que se elimine o COVID-19 ou se salvem algumas vidas. Talvez por isso me tenha sabido bem ler uma citação de Jean-Miguel Garrigues que o Padre Pedro Quintela usou num texto que mão amiga me enviou (e que poderão ler na íntegra aqui): "falando adequadamente Deus não permite o mal. Permite a liberdade que o pode colocar no mundo."

Não sou teólogo, sou fraco pensador. Mas não gosto de ideia de que Deus está por trás das coisas boas e que, por trás das tragédias, está um desígnio que é imperscrutável. A pandemia não é obra de Deus, mas dos Homens; a cura de tanta gente não é obra de Deus, mas dos Homens. Aquilo que nos dias de hoje parece um milagre é obra dos Homens, não de Deus. Porquê? Porque eu concebo um Deus que não é senão amor, e que não optaria por deixar morrer milhares de pessoas por via de um vírus para salvar uma senhora de ficar cega quando lhe saltou óleo quente para os olhos. Esta pandemia obriga a uma escolha: ou se acredita que é um castigo (ou uma obra) de Deus ou não se acredita. Eu sou dos últimos, porque não quero crer num Deus que permite ou que promove esta tragédia.  

Não consigo rezar para que a pandemia desapareça ou a vacina venha já amanhã; só conseguiria rezar (se fosse pessoa mais decente do que sou) pela iluminação das pessoas que decidem, pela resistência física dos profissionais de saúde, pela estabilidade emocional das famílias confrontadas com o confinamento, a perda de rendimentos ou a ameaça do desemprego. Talvez gostasse de rezar por cada um deles individualmente, mesmo que não conheça mais de vinte nomes: que cada um deles, médicos, enfermeiros, pessoal do lixo, políticos, caixas de supermercado, gestores, professores, empregadas domésticas, encontrem a sua fonte de inspiração que não os deixe soçobrar, que lhes permita tomar decisões certas pelo bem comum, que sejam um exemplo para quem têm de ser um exemplo. Que rezem a Deus se forem crentes; que se inspirem em outra coisa qualquer. 

Por último, rezar pelo fim de qualquer coisa apresenta um problema de eficácia: quando é que Deus ouve? E quando é que sabemos que Deus ouve? Rezar por nós é mais egoísta mas talvez mais fácil: Santo Agostinho sabia que Deus o escutava pela medida das transformações na sua própria vida.  

Termino com uma citação que me é cara e repetida neste estabelecimento: Albert Camus, n'A Peste, um livro particularmente actual nestes tempos de pandemia:

Nesse instante dizia o padre que a virtude da aceitação total de que falava não podia ser compreendida no sentido restrito que se lhe dava habitualmente, que não se tratava da banal resignação, nem sequer da difícil humildade. Tratava-se de humilhação, mas de uma humilhação consentida pelo humilhado. Sem dúvida o sofrimento de uma criança era humilhante para o espírito e para o coração. Mas era por isso que era necessário passar por essa prova. Era por isso - e Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iam ouvir não era fácil de dizer - que era preciso contemplá-lo, porque Deus assim o queria. Só assim o cristão não se pouparia a nada e, fechadas todas as saídas, iria ao fundo da escolha essencial. Escolheria crer em tudo, para não ficar reduzido a negar tudo.

JdB

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Texto e campanhas dos dias que correm

"Carta aberta de um grupo de filhos ao Sr. Presidente Portugal,

17de Abril de 2020

Exmo. Sr Presidente da República,

As nossas mães estão furiosas!

Estiveram durante o último mês a ensinar-nos sobre esse terrível vírus que salta de pessoa para pessoa. A ensinar-nos a importância de lavarmos as mãos, ficarmos em casa em quarentena para proteger os nossos avós e os portugueses considerados de risco.

Disseram elas que estávamos em guerra e que as nossas rotinas iam ser diferentes durante os próximos tempos! Que não íamos poder ir à escola, ou ir a praia quando ficar sol, que não íamos poder fazer festa de anos no nosso aniversário, ou ir à missa no dia de Páscoa.

Isto porque o Sr Presidente declarou estado de emergência para evitar a propagação ainda mais rápida do virus, evitando assim que as pessoas ficassem todas doentes ao mesmo tempo, ao ponto de não haver camas no hospital para tratar a todos.

E depois ouviram o Sr Presidente a falar sobre os planos para as comemorações do 25 Abril e bem, depois de semanas de cansaço acumulado entre terem que trabalhar à distância e serem também donas de casa, professoras, amigas, mulheres, mães, cabeleireiras, costureiras, tudo ao mesmo tempo, digamos que a mensagem do Sr Presidente não lhes caiu nada bem!

Não que elas sejam contra as comemorações! Pelo contrário! O simbolismo que a data representa é sem dúvida para não ser esquecida! Mas dizem elas, devem ser adequadas ao contexto que estamos a viver neste momento: um bater de palmas em conjunto à porta de casa, fazer um minuto de silêncio ou até mesmo um gesto simbólico pela televisão.

E por isso resolvemos escrever ao Sr. Presidente a pedir ajuda, porque quando as mães ficam chateadas, a nossa quarentena fica difícil e desta vez nem sequer tivemos culpa de nada! E depois lá se vai a roupa passada a ferro, os deveres de casa, as nossas bolachas preferidas, horas a ver televisão e a jogar no computador!

Sendo assim gostaríamos de sublinhar as condições impostas por elas para o Sr Presidente poder celebrar o 25 Abril do modo que gostaria!
(Nós também queríamos!)

1) Enquanto houver pessoas a morrer sozinhas no hospital ou em lares, sem poderem dizer adeus aos seus familiares mais queridos, não!

2) Enquanto não se puder fazer funerais dignos, é que não mesmo!

3) Enquanto não pudermos dar um beijinho aos nossos avós, nem pensar!

4) Enquanto os pais que trabalham na linha da frente contra o vírus não poderem ir dormir a casa e estar com os seus filhos e família para os proteger, nunca!

5) Enquanto estiverem a libertar presos para evitar o contágio em massa nas prisões, achamos que é melhor não!

6) Enquanto não podermos ir ver o glorioso a jogar, dançar no NOS ALIVE, ir ao casamento da prima Joana, na-na-na-na-na!

7) Enquanto tivermos que estudar em casa através da telescola, nahh!

8) Enquanto houver doentes oncológicos ou com doenças crónicas com tratamentos e cirurgias suspensas devido à pandemia, também não é boa ideia!

9) Enquanto as mães tiverem que estar sozinhas durante o parto sem o apoio do pai e sem poder receber visitas, não!

10) Finalmente, enquanto as nossas mães tiverem que ficar em quarentena, é claro que não!!!
 
Isto porque se estamos em estado de emergência devemos adiar datas importantes ou celebrar as mesmas de outra forma! Todos sabemos a importância que o 25 de Abril representa para a nossa democracia. Mas de momento temos que ter todos sentido de responsabilidade e disciplina, sermos fortes e ficar em casa!
 
Espero que o Sr Presidente tome em atenção o pedido destes pequenos miúdos com idades entre os 2 dias de vida e os 11 anos.

Um conselho que aprendemos lá em casa: as mães têm sempre razão!

Atentamente,

Matias Tomás, Maria Clara, Maria Teresa, Vitória, Teresa, Tomé, Maria Francisca, Vera, Zé Maria, Luís, Duarte, Zé Maria, Xavier, Gonçalo, Martim, Nuno, Francisco, Bartolomeu, Assunção, Maria do Carmo, José Maria, Rosário, Luísa, Manel, Francisco, António, Madalena, Xico e Mariana.

#FICAREMCASAÉPARATODOS"

***


domingo, 19 de abril de 2020

2º Domingo da Páscoa

EVANGELHO - Jo 20,19-31

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,
não estava com eles quando veio Jesus.
Disseram lhe os outros discípulos:
«Vimos o Senhor».
Mas ele respondeu lhes:
«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado,
não acreditarei».
Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa
e Tomé com eles.
Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou Se no meio deles e disse:
«A paz esteja convosco».
Depois disse a Tomé:
«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete a no meu lado;
e não sejas incrédulo, mas crente».
Tomé respondeu Lhe:
«Meu Senhor e meu Deus!»
Disse lhe Jesus:
«Porque Me viste acreditaste:
felizes os que acreditam sem terem visto».
Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos
para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,
e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Duas Últimas (ou músicas para os dias que correm)

Moustaki diz que vive sozinho com a sua solidão. Gainsbourg fala de um tédio mortal. Talvez sejam as músicas de muitas pessoas nos dias de hoje.

JdB



quinta-feira, 16 de abril de 2020

Poemas dos dias que correm

Aos Vindouros, se os Houver...

Vós, que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;

que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;

computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;

que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.

Alexandre O'Neill, in 'Poemas com Endereço'

***

O Futuro

Aos domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos domingos iremos ao jardim.
Diremos, nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais,
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos
Na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses -,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários.

Reinaldo Ferreira, in 'Um Voo Cego a Nada'

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Do que fazem uns olhos tapados


O julgamento de Friné (ou Friné diante do areópago), de Jean-Léon Gérôme (1861), Kunsthalle, Hamburgo

Diz-se que Friné, cuja vida remonta ao século IV a.C., fora acusada de impiedade perante o tribunal dos heliastas, e que Hiperides, o orador responsável pela sua defesa, temeu pela sua condenação; assim, desnudou-a, tendo desta forma convencido os juízes. Também se diz que foi ela que se desnudou, ou que foi absolvida porque a beleza estava associada ao bem. Também se diz, por fim, que nada disto aconteceu, o que é irrelevante para o caso.

Um homem nu, por pudor, tapa as partes baixas. Uma mulher nua, por pudor, tapará partes altas e baixas, ou só umas - não sei e não sei quais, que não fui perguntar a quem poderia perguntar. Friné, desnudada perante o areópago, tapou os olhos, e esse gesto é mais uma prova do que alguma civilização ocidental deve à Grécia antiga.

Quem brinca com crianças (se for com gosto é devoção, se for com convicção é amor) conhece as brincadeiras mais vulgares. Tapam-se os olhos e dizemos à criança: o pai / mãe / tio / avó, etc., não estão cá.  Depois tiramos as mãos dos olhos e dizemos já cá está. Faz-se isto repetidamente, porque as crianças não se cansam. De olhos tapados não estamos, de olhos destapados já estamos. 

Foi isso que Friné fez, no quadro de Gérôme: não tapou os seios ou o sexo; nunca conseguiria tapar tudo e, mesmo que tivesse mãos grandes, seria sempre Friné desnuda perante a areópago. O que Friné fez foi desaparecer. Tapou os olhos e disse àqueles homens que miravam a sua nudez: Friné não está cá. Só posso adivinhar o fim deste episódio: Hiperides voltou a tapar-lhe a nudez forte da verdade e Friné destapou os olhos, gritando, já cá estou! Depois, foi só ouvir a absolvição e ir à sua vidinha.

JdB

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