quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Vai um gin do Peter's?

O QUE TREME, QUANDO A ARTE INVADE A VIDA? "O QUADRADO" RESPONDE

O realizador sueco do filme "THE SQUARE"(1), Ruben Östlund (1974-  ) ganhou a Palma de Ouro em Cannes e a devida projecção internacional com esta sátira feroz e de emoções contidas ao estilo nórdico. Muita cerebralidade, muito civismo até se embater nos contratempos da vida. 

Quase não existe a emotividade carregada de sentimentalismo que superabunda na Europa solarenga do Sul, à parte de mini-surtos emocionais nas personagens que fazem de emigrantes radicados na bem programada sociedade sueca. São também os de maior lucidez por estarem menos presos às convenções. Coube-lhes, por exemplo, os risos incrédulos e irónicos às ideias estapafúrdias dos marketers vanguardistas para o spot publicitário da nova coqueluche do museu: a instalação de um quadrado marcado a luz no chão exterior do museu de arte contemporânea da Suécia. Esse imponente edifício em U corresponde ao palácio real sueco, onde o rei já não habita, pelo que Ruben O. decidiu chamar-lhe X-Royal Museum.    

O título inspirou-se numa instalação concebida por Ruben O. e a produtora Kalle Boman para o Museu Vandalorum, há anos atrás, para exaltar a invenção da passagem de peões. Umas meras riscas desenhadas no asfalto bastavam para activar um contrato público, onde os condutores davam prioridade aos peões. No filme, o quadrado assume um conteúdo humanista e a artista é conterrânea do actual Papa, pretendendo elevar aquele perímetro geométrico a "sanctuary of trust and caring. Within it we all share equal rights and obligations.

Christian, o curador, mostra às filhas a nova obra em exposição.

Um pequeno espaço de solidariedade, que em nada se parece com a metrópole de gente bonita e atarefada sem tempo para atender aos muitos pedintes imigrantes das ruas de Estocolmo.

No filme, tudo remete para as mensagens supostamente interpelativas das exposições exibidas no museu, cuja validade vai sendo testada no confronto com a realidade. O primeiro a servir como tubo de ensaio desse teste de verdade-e-consequência foi o curador cool do museu sueco. Bem sucedido, era a melhor encarnação de uma modernidade tranquila, bem intencionada e elegantemente blasée, a conciliar chiquismo com abertura à novidade. Arte oblige. Como ele gostava de repetir: aceitava levar a expressão artística ao limite. Onde ficaria a fronteira da arte? -  interrogava-se, sem se comprometer com respostas. 

Esse protagonista charmoso e competente representava uma sociedade em estádio civilizacional avançado, cujos comportamentos se aferiam pelo grau de racionalidade. Nesse termómetro da pura intelectualidade, o extremo negativo corresponderia ao recuo para o patamar mais animalesco da espécie humana. Nos valores intermédios, situavam-se as pequenas (de início) irracionalidades desses cidadãos exemplares, mal se confrontavam com os imponderáveis. 

Para mostrar quanto a realidade é incontrolável, desconcertando as mentes mais estruturadas do planeta, até primatas surgem no ecrã. Anedótico. Um deles é benigno - o chimpanzé que circula no apartamento da jornalista americana e se instala no sofá da sala a folhear um jornal. Cool e tranquilo como Christian. Mas intimidante. O realizador justificou esta bizarria para introduzir imprevisibilidade na narrativa. A partir dali, o espectador percebia que tudo se tornara possível.  

Bem mais assustador é o homem que faz a performance do orangotango. Não apenas pelo perigo de tanta animalidade, mas pelo horror de ver um humano regredir muito abaixo de homo sapiens, como só os humanos conseguem. Porém, são depois os convidados de smoking que fecham a espiral da violência sem limites, eles que tinham alinhado em brincar com o fogo.

Diz Ruben O. --  "Gosto de sociologia, porque olha para o ser humano quando falha, quando é mal sucedido (…); [faz] uma abordagem comportamental do que somos [e] permite aprender alguma coisa, a partir dos erros."

Estranho e medonho ter-se levado tão longe aquele jogo de abertura do jantar oferecido pelo museu aos mecenas e grandes investidores. Na prática, transpusera-se para a realidade uma das exposições, baseada num filme que corria em contínuo num mega-ecrã a mostrar o fácies raivoso daquele homem animalizado - o pior dos primatas. A charada ao jantar começara por uma voz-off sedutora, a anunciar o frisson de uns momentos no reino dos irracionais. Nesse faz-de-conta da selva, explicava-se que o truque consistia em manter a serenidade para passar despercebido e a fera mudar de presa! Deduzia-se, portanto, a inevitabilidade de haver uma presa. Mas nem isso fez vacilar os convidados em traje de cerimónia. Limitaram-se a embarcar passivamente naquela roleta russa, que só podia acabar mal.

Os smokings e os vestidos compridos são os primeiros visados no argumento de Östlund, que começa por pôr em cheque as elites intelectuais, sociais, artísticas, endinheiradas, os meninos prodígio do marketing viciados num provocatório amoral, os bem-pensantes que militam uma tolerância ilimitada e acéfala quando deixada à solta, além da ditadura do "politicamente correcto".

O jantar de gala será o episódio-clímax da proposta do realizador e argumentista, que aconselhou a ver o seu filme numa perspetiva sociológica para se perceber o que falha no ser humano e aprender com/a partir dos erros.

À ironia da perfeição geométrica do quadrado vai-se contrapondo a imperfeição humana, como observou o crítico de cinema Eurico de Barros. Paralelamente aos erros, Ruben O. vai revelando a possibilidade de irromper uma grandeza humana capaz de suplantar qualquer geometria - sempre hermética, pré-formatada, destituída de liberdade. É nessa tensão frágil da condição humana que a Arte joga a sua tripla cartada, enquanto alerta, memória histórica e incentivo à superação. Christian vê-se forçado a percorrer todas as etapas, aproveitando para lá do que lhe ocorrera as ideias-chave consagradas nas instalações artísticas do museu a que preside. De certo modo, a sua grandeza desponta quando começa a assumir as falhas, mesmo as involuntárias.

Em seguida, empenha-se em compensar uns e outros pelos estragos provocados.

Sobre Christian observa Östlund: "tem muitos fios a prenderem-no (…); quando perde o trabalho, acaba por se libertar e assumir as consequências dos seus actos."

Para cúmulo da ironia, é no ápice da sua humanidade que o curador enfrenta o teste mais duro: apresentar a demissão, porque reconhece os erros. Claro que não se furtaria à responsabilidade de não ter controlado, por falta de tempo, o escandaloso spot publicitário. De uma agressividade disparatada, mas do calibre dos jogos de computador. Indecoroso para um museu, mas consentido nos computadores lá de casa. Inaceitável ao serviço da arte, mas instrumental para os recordes de audiência que a arte quer atingir. Quanta incoerência. Quantos objectivos em rota de colisão. Quanta falha - na perspectiva de THE SQUARE.  

É na sessão pública, onde se declara demissionário, que sofre a derradeira humilhação, tornando-se alvo do politicamente correcto. Resulta no ataque mais próximo do jogo da selva, embora sob as roupagens traiçoeiras da alta cultura, que camuflam o agressor e desprotegem a vítima. Em nome da liberdade, impõem-se pensamentos e atitudes uniformizados, sem o menor respeito pela individualidade. Esta foi a denúncia do filme mais elogiada pelo presidente do júri, em Cannes - Pedro Almodovar. 

Na peregrinação interior de Christian, o sentido de humor nórdico é a pedra de toque para a viagem psicológica decorrer com subtileza e simplicidade. Aliás, o filme está classificado como comédia, naturalmente em registo sueco, ao estilo de um realizador em contraciclo, que escolheu a influência marxista na pátria da social-democracia. Sempre provocador e insatisfeito. 

Explica o realizador, que aprecia primatas: "O cinema, geralmente, tem tendência a descrever as personagens de uma maneira simplista: há o protagonista e o seu antagonista [herói vs vilão]; uma maneira simples e não verdadeira de abordar o modo como funcionamos."

As reflexões sobre a definição de arte parodiam com a cedência às instalações mais esdrúxulas. Para ilustrar o ponto, gozaram com o engano compreensível do staff de limpeza, que varreu uma das exposições, constituída por montes de terra desinteressantes. Em pânico, a assessora pergunta a Christian se devem accionar o seguro. Resposta pragmática do curador, cuja acumulação de contratempos o fizera ganhar simplicidade: Quais seguro! Recuperariam a terra do caixote do lixo e realinhariam os montículos inspirando-se nas fotografias deixadas pelo artista. No fundo, como bem indagara Christian na entrevista inicial à jornalista americana: se poisassem a carteira dela no museu, passaria a obra de arte? 

Intitulada "You Have Nothing", a instalação propõe-se oferecer uma metáfora da condição humana.  

A tolerância sem balizas também deu pretexto a muita chacota, como na conferência em que o artista vindo dos EUA foi boicotado pela corrente de palavrões do homem com síndrome de Tourette, que ninguém quis conter. Numa caricata benevolência. 

Noutra exposição temática à base de encruzilhadas, logo na primeira rotunda, as filhas de Christian preferiram o itinerário CONFIAR, rejeitando o NÃO CONFIAR. O circuito expositivo ia aumentando o grau de dificuldade ao exigir maior confiança e melhor interacção com o próximo. O que no museu soava a clichés inconsequentes, ganhou pleno sentido quando o curador arriscou aplicá-los, deixando à guarda de um sem-abrigo do metro, os seus sacos de boutique de marca. Queria confiar! Aliás, desde que a sua rotina fora perturbada por um roubo humilhante, ao tentar salvar uma rapariga em aflição que era uma armadilha ardilosa, Christian percebera quanto tinha de mudar para se reaproximar, verdadeiramente dos outros, passando à prática os conceitos miríficos das exposições que tão bem conhecia. 

De que valeria a Arte se fosse letra morta, exibida como troféu embalsamado, descolada da vida? Ao longo do filme, perpassa o constante desafio para o homo sapiens recuperar a humanidade, de forma consciente e livre. Bem na senda da interpelação do Papa polaco, que glosara o poeta grego da Antiguidade, Píndaro - Homem, torna-te naquilo que és. ou do apelo lúcido de Santo Agostinho: «Tu, homem, conhece que és homem; a tua humildade consiste simplesmente em conheceres-te.» Começar pelas falhas pode ser um bom arranque.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta) 
_____________
(1) FICHA TÉCNICA:
Título original: "THE SQUARE"
Título traduzido em Portugal: "O QUADRADO"
Realização: Ruben Östlund
Argumento: Ruben Östlund
Produtor: Erik Hemmendorff e Philippe Bober
Duração: 151 min.
Ano:        2017
Países: Suécia, França, Alemanha e Dinamarca
Elenco:   Claes Bang (o curador do Museu; dinamarquês)
                Elisabeth Moss (a jornalista americana)
                 Terry Notary (o homem primata) 
Local das filmagens: Estocolmo, Gotemburgo e Berlim 
Prémios: Palma de Ouro em Cannes para Melhor Realizador e Melhor Filme, 6 galardões da Academia Europeia de Cinema, prémios da Boston Society of FIlm Critics, do European Film Awards, do Toronto Film Critics Association e do British Independent Film Awards, entre outros. 

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Duas Últimas

À medida que vou estando mais atento ao que se faz por esse mundo, vou-me apercebendo das várias técnicas que têm um objectivo apenas: o de dar tranquilidade às pessoas, o de dar paz às pessoas, o de levar as pessoas a descobrirem as opções e os caminhos dentro de si. Oiço falar na programação neuro-linguística (PNL),  no reiki ou no magnetismo, no ioga ou na psicoterapia, no psiquiatra ou, numa versão já démodée, nos sacramentos, que o padre de ontem é o terapeuta de hoje - só que mais barato... 

Na generalidade dos casos acredito em tudo, porque sou pragmático: sei o que faz o reiki ou o magnetismo (já experimentei), imagino os frutos da PNL (conhece gente ligada ao tema) ou do divã de um psiquiatra, sei a libertação de uma confissão que se faz a Deus tendo um padre por ouvinte (porque sou católico). Algumas destas técnicas requerem silêncio ou não requerem palavras, outras assentam nas perguntas, outras num (quase) monólogo confessional. 

No meu caso, a terapia de que gosto mais é a conversa: gente que me ouve, que me fala, que me sugere, que me pergunta ou que me afirma. Gente que questiona comigo, que de mim discorda ou a inversa, que me conta a sua experiência. No que me diz respeito, uma boa conversa pode resolver muita coisa. 

Deixo-vos com um diálogo brasileiro - porto riquenho. Se foi uma boa conversa ou não não sei. Alguém que lhes pergunte.

JdB    


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Texto sobre filmes dos dias que correm

Churchill em “Darkest hour”: Forte porque imperfeito

No filme «Darkest hour», a «hora mais escura» (não a «mais negra», pois há alguma claridade, ínfima, precisamente a que está em causa no filme, que não é sobre a escuridão, mas sobre esse que luta contra ela, assim preservando alguma luz), a certa altura, diz Clementine Hozier, mulher de Churchill, ao velho "bulldog", que ele é forte porque é imperfeito.

Nada mais certo. Aliás, o filme dedica os primeiros minutos a mostrar as muitas imperfeições morais e políticas do filho mais velho de Lord Randolph Churchill e de Jennie Jerome. Churchill era um homem de pequenos vícios, era vaidoso, por vezes, era prepotente, egoísta, explorador da amizade dos que o amavam. Por seu lado, Hitler, em muitos destes aspetos era um homem muito melhor.

A grande diferença residia em que Churchill sempre foi um defensor da decência humana e por isso foi talvez o único verdadeiro democrata que o mundo jamais conheceu, ao passo que o velho Cabo Nazi se transformou no maior monstro tirânico que a história da humanidade já conheceu, empenhado em recosmicizar o mundo segundo o seu modo especial de conceber seres e atos, únicos dignos do seu Reich.

Mas outra diferença manteve Churchill afastado do comum dos seus universais concidadãos habitantes das altas esferas do poder: o velho soldado da guerra dos Boers e perdedor de Gallipoli, soube reconhecer Hitler como suprema besta humana assim que este chegou ao poder, tendo quase imediatamente iniciado uma campanha pública e privada contra o tirano Nazi e a favor da sua remoção do poder, bem como pressionando a preparação militar para o pior cenário esperável por parte das chamadas democracias ocidentais, de que se destacavam a Grã-Bretanha e a França. Infelizmente, os Estados Unidos da América do Norte viviam politicamente alienados numa estratégia isolacionista, como se fosse sensato pensar que ignorando o mal este ignorasse quem o ignora.

Por mais inconveniente que seja ler o que de seguida se afirma, tal é tristemente verdade e tem de ser encarado na dureza do mal que provocou: Hitler fez precisamente isso que quem poderia ter evitado o que fez lhe deixou fazer.

Este filme mostra resumidamente, mas bem, a responsabilidade de quem deveria ter agido para travar Hitler e não agiu, consubstanciando tal na medíocre e pusilânime figura de Neville Chamberlain, o que é injusto, porque, se bem que sua ação fraca junto de Hitler tenha constituído o derradeiro passo na capitulação do Ocidente perante o poder da besta Nazi, há que chamar a atenção para a ação não menos responsável de Stanley Baldwin bem como de sucessivos chefes políticos franceses, detentores durante muito tempo de uma superioridade militar esmagadora relativamente ao que a Alemanha possuía, nada tendo feito para depor pelos meios necessários esse que, desde Mein Kampf – meados da década de vinte –, tinha anunciado uma política de expansão do Reich alemão de índole nazi, com tudo o que tal implicava em termos de sofrimento, destruição e morte para os que fossem eleitos como «indesejáveis».

No filme, surge ainda tratada outra diferença, a que existiu entre os que tinham conduzido o mundo à situação em que se encontrava em 10 de maio de 1940, persistentes na sua cobardia perante o monstro, e Churchill, que mantinha a sua posição de não negociar com a besta, fossem quais fossem os custos.

A intuição é terrivelmente dura, mas terrivelmente verdadeira: negociar com um tirano significa sempre pôr-se sob o seu jugo, de que não há que esperar misericórdia.

A recusa de Churchill em se render perante a aparentemente invencível besta Nazi foi o primeiro passo para a derrota desta e do que representava.

A vitória dos seres humanos imperfeitos, mas minimamente decentes custou muito «sangue, trabalho penoso, suor e lágrimas». No fim, a decência mínima da humanidade venceu.

No entanto, numa altura em que os princípios pelos quais Churchill se bateu estão de novo em causa, perguntamo-nos se terá mesmo valido a pena a morte de tanta gente, para, mais de setenta anos volvidos, estarmos de novo à beira de uma convulsão provocada pela afirmação de renovadas forças tirânicas, ou, como diz o Papa Francisco, quando estamos já numa outra guerra mundial, se bem que ainda por porções.

Mas foi também por porções que a Segunda Guerra foi prenunciada durante os anos trinta.

Esperemos que estejamos errados e que o que se passa no mundo seja apenas uma escaramuça variegada entre formas várias da humana estupidez.

Mas esperemos sentados.

No entanto, se o momento «mais escuro» vier, convém que nos ergamos como o imperfeito Churchill e combatamos a falsa perfeição da tirania.

Ensinaram-me que «perfeito, só Deus».

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Poster (det.) | D.R.
Publicado em 16.01.2018


domingo, 28 de janeiro de 2018

4º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 1, 21-28

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Jesus chegou a Cafarnaum
e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga
e começou a ensinar,
todos se maravilhavam com a sua doutrina,
porque os ensinava com autoridade
e não como os escribas.
Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro,
que começou a gritar:
«Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno?
Vieste para nos perder?
Sei quem Tu és: o Santo de Deus».
Jesus repreendeu-o, dizendo:
«Cala-te e sai desse homem».
O espírito impuro, agitando-o violentamente,
soltou um forte grito e saiu dele.
Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros:
«Que vem a ser isto?
Uma nova doutrina, com tal autoridade,
que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!»
E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte,
em toda a região da Galileia.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Pensamentos Impensados

Ateletas
As pessoas que praticam triplo salto chamam-se tripulantes.

Porcarias
Sempre que as câmaras de televisão fixam um jogador de futebol, este cospe; terão alguma coisa contra a TV?

Ortografias
Por que é que Mayas se escreve com Y? Eles nem sequer sabiam da existência da Grécia.

Mistérios
Por que é que Eça escreveu sobre os Maias e não sobre os Aztecas?

Repoisos
Provavelmente Lula irá para o choco durante alguns anos.

Pescarias
A pesca foi de tal maneira milagrosa que ele teve de pendurar o peixe espada à cinta

Jornalismos
Nos anos 40 publicava-se um diário, O SÉCULO, tipo Correio da Manhã. Lembro-me de uma parangona: a adúltera propinava arsénico ao marido a instigação do amante que era garagista.

SdB (I)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Poemas dos dias que correm

Guimarães, Junho de 2012


De Amor os Raios Cobrindo

Se por dar lustre aos pesares
Vossas lágrimas teimosas
Correm por margens de rosas,
Porque não cabem nos mares,
A submergir esses ares
Subiam rios crescendo,
E certo o naufrágio sendo,
A fineza deslustrais,
Porque podendo amar mais,
Deixareis de amar morrendo.

Deixai que o mar se dilate,
Que o rio se precipite,
Que o vento se fortifique,
Que em água a nuvem desate,
Sem que vós neste combate
Balas de neve esgrimindo,
Que as estrelas vão ferindo,
De neve e fogo tomeis
As armas com que ofendeis,
De amor os raios cobrindo.

Soror Madalena da Glória, in 'Antologia Poética'

***

As Lágrimas

Exaltemos as lágrimas. Na pele das veias,
bom dia, águas. Gratidão ao rosto, às cores,
ao sulco nos olhos. Porquê este ardor, este
temor da erva pisada? Adormecem comigo,

meigas fábricas de quietude e solidão
no calmo azul branco da sua breve cor.
Que longe se vão no ar amargo, sob o ímpeto
delirante de as transformar em leis extintas,

ironias ou júbilos. Rolem ou finjam
incansáveis trabalhos ou dores, assim
conspiram em outras portas, outros mistérios.

Perco-as entre conversas, o sono, o amor.
Aos olhos desertos sua ausência os desgasta.
Louvemos nas lágrimas o seu fulgor vão.

Orlando Neves, in "Decomposição - o Corpo"

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Das fábricas

Por mais estranho que pareça, no mais íntimo do meu discernimento há uma grande semelhança entre um filme de guerra e o Prós e Contras (programa da RTP 1) desta 2ªfeira. O programa de debate tem de ser aquele. O filme pode ser de guerra, mas também pode ser sobre um assalto, um assassínio político, uma expedição ao Pólo Sul.  

Relativamente ao Prós e Contras desta 2ªfeira, que versou o conflito na Autoeuropa: como minimamente informado que pretendo estar, acompanho o problema laboral. Sei o que está em causa, não só ao nível das contas públicas, mas ao nível do desemprego, seja directo seja indirecto. O fim da empresa arrasta consigo muitas existências profissionais e, por isso, também sociais. O assunto é importante.

Ora, independentemente da minha posição pessoal, que é afectada por alguma informação de que não disponho, o que mais me interessa - e por isso, essencialmente, assisti ao programa - é a dinâmica fabril: a capacidade instalada, os turnos, o cálculo de uma nova linha de montagem, as eficiências, o trabalho aos sábados. Neste caso muito concreto, ver a Fátima Campos Ferreira e o responsável pela comissão de trabalhadores é ver a fábrica onde trabalhei 20 anos, é ver as discussões sobre necessidades do mercado vs disponibilidades de horas de trabalho, é ver a discussão sobre os investimentos, é relembrar a discussão sobre os processos, sobre simplificação, redução de pessoal, automatização. 

Neste caso concreto, não há diferença entre este programa e um filme sobre guerra. Tanto num caso como noutro, uma parte de mim não quer saber se o bandido é preso ou se os maus são castigados. O que me interessa é a organização, o planeamento, a definição de planos B ou o controlo dos riscos. Nesse sentido, e penso que j´sa o escrevi aqui, o filme sobre a captura e morte de Bin Laden foi uma total desilusão: por um motivo que me transcende (confidencialidade? Pouco interesse comercial?) a programação da operação foi totalmente irrelevante para o filme, tendo-se dado prioridade à fase de pesquisa.

Uma parte de mim, no âmbito deste raciocínio, é indiferente a quem tem razão no conflito da Autoeuropa; é indiferente, também, à fuga do assaltante, porque, de facto, o que me interessa é o planeamento. Dentro de mim há um gestor fabril frustrado. As minhas saudades da actividade fabril assentam, quase exclusivamente, na parte operacional. e talvez me lembre de muitas coisas, inclusivamente daquele ano, perdido no início deste século, em que fui protagonista da decisão de trabalharmos na véspera de Natal para abastecer o mercado.  Não me orgulho.

JdB  

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Duas Últimas

A música de hoje foi-me trazida por um dos meus filhos. Conhecedor dos meus gostos musicais, quis-ma dar de presente, pensando e bem que a apreciaria. Agradeço reconhecido.

Por sinal, já a tinha ouvido nas minhas longas paragens diárias no trânsito lisboeta, mas na altura não a retive e música e eu passámos adiante.

A compositora e intérprete, Carolina Deslandes, tem granjeado fama e nome no mercado. A voz, suave e fresca, lembra a de Luísa Sobral, embora menos repenicada. A letra aborda com clareza um tema actual mas de sempre, o amor para a vida toda, a música e o vídeo dispõem bem. Tudo somado, augurando à jovem Carolina uma carreira auspiciosa.

Quase por acaso, descobri entretanto que a cantora é neta de um advogado com quem trabalhei bastante há uns anos, José António Martinez, especialista sobretudo em direito do trabalho. Homem bravo e carismático, prematuramente desaparecido, um mestre a quem muito fiquei a dever.

Já sabemos que, cá pelo burgo, basta esgravatar um pouco, logo aparecem parentescos ou antiguidades...

Espero que gostem da escolha.

fq


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Textos dos dias que correm

Marraquexe, Abril 2017

Marraquexe, Abril 2017


Amor sem penitência e espírito de sacrifício é um corpo sem coluna vertebral

«Na ascese aprende-se a cobrir com um véu piedoso os defeitos dos outros e a cobrir com um véu de modéstia as nossas glórias. Aprende-se que o cristão tem um só inimigo que deve temer: ele próprio. E que o seu primeiro problema deve ser encerrado nestas cinco palavras: exame de consciência, dor, resolução, acusação, penitência.»

Escolho hoje estas linhas do P. Lorenzo Milani (1923-1967). O cardeal Silvano Piovanelli, seu companheiro de estudos, recordava muitas vezes um testemunho do sacerdote. A quem lhe perguntava por que não deixara a Igreja católica, que o tinha duramente provado, ele respondia: «E onde é que eu encontraria quem me perdoasse os pecados?».

As «cinco palavras» que o P. Milani anota no trecho citado descrevem precisamente o sacramento cristão da Confissão ou Reconciliação. É um itinerário interior que sofreu nos últimos tempos um desvanecimento na prática, apesar de a liturgia após o Concílio Vaticano II o ter tornado mais nítido através de uma celebração sugestiva.

O retorno a si mesmo depois de ter vagueado por fora, imergindo a consciência na superficialidade que descolora bem e mal, confundindo-os, é acompanhado da opção severa e exigente de uma mudança (a «conversão» no grego dos Evangelhos é “metánoia”, ou seja, “mudar mentalidade”) que incide na alma, fazendo com que ela sangre porque amputa vícios intimamente coesos connosco próprios.

Aliás, como escrevia um autor espiritual, Columba Marmion (1853-1923), «o amor sem penitência e espírito de sacrifício é um corpo sem coluna vertebral».


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 16.01.2018

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Da fé

Pessoa a quem só a juventude se perdoa o equívoco do elogio realça a minha enorme fé e amor à igreja. Desculpa-se, no fundo, o exagero que se profere em detrimento do gosto de se ouvir. Sou, de facto, um homem com fé e com amor à Igreja - esse amor, imperfeito pela imperfeição humana, que é a condição necessária, ainda que não suficiente, para se ser católico. Não vislumbro outra forma de o ser. 

Na mesma linha de pensamento, lembro um jantar com amigos na 6ªfeira e no decorrer do qual quem estava ao meu lado me falou de sofrimento - do dela, violento e físico, decorrente de um acidente de viação grave, e do de uma cunhada, atingida na vida pela dor de todas as dores. Dizia-me esta amiga duas coisas: uma, que nenhuma dor física, por mais forte que seja (e as dela foi) se compara à dor emocional; em segundo, que nestas grandes dores, de um ou outro tipo, não há fé que nos valha. E falamos de gente com fé, com educação e prática religiosas.

Não tenho, confesso, uma opinião clara. E, a dizê-la, pensando no momento imediato, temo estar em contradição com tanto do que disse e repeti em anos muito passados. Ou talvez esta aparente contradição entre dois discursos intervalados por 16 anos faça parte desse mistério indizível e indecifrável de Deus na nossa vida, da roupa que nos dá em função do frio que faz ou, num raciocínio mais desafiante, do frio que nos dá em função da roupa que temos.

Recuo, portanto, dezasseis anos e avanço cronologicamente. Como se enfrenta a dor injusta num ser indefeso? Como se enquadra o desaparecimento tão afectivamente prematuro e brutal desse mesmo ser indefeso? Onde está a fé, onde está Deus, onde está a oração. Acima de tudo, o que fazem por nós estes três elementos quando confrontados com o pior dos piores? A resposta, passados dezasseis anos é esta: não sei.

O céu em que acreditamos é uma construção, é uma ideia, é um bálsamo - pode mesmo ser uma certeza. No entanto, é uma dimensão de tal maneira diferente que não conseguimos afirmar que é melhor. Medir é comparar, e como comparamos o conhecido com o absolutamente desconhecido? A oração tem um poder curativo, ainda que ao nível emocional ou psicológico? Deus ajudou-me? A serenidade que consegui reter ou ganhar após o acontecimento é uma obra divina? E os que não conseguiram? Não foram bafejados por isso? Foram votados a uma indiferença celeste?

Talvez a fé não me tenha salvo, como disse tantas e tantas vezes; talvez a oração não tenha feito nada por mim ou por todos aqueles que constroem memórias mansas de acontecimentos dolorosos. Talvez Deus se mantivesse sentado numa nuvem, rodeado de querubins e serafins, olhando sufocado para o meu sufoco, aliviado com o meu alívio, sossegado com o meu sossego. Talvez a fé se chame resilência, vontade, instinto de sobrevivência, sorte, olhar derramado no momento certo para o sítio certo. 

Em momentos de dor nada nos consola muito. A fé não é inquebrantável, porque de bom grado a largaríamos para ter connosco os que desaparecem ou para que se fossem embora as dores dos ossos e dos músculos. Contudo, alguma coisa faz, com certeza. Talvez, como disse acima, seja esse o mistério: a presença intangível cujos efeitos são (quase) tangíveis. Se me perguntarem o que fez por mim a fé nessa ano de todos os anos, direi seguramente: salvou-me. 

A solução pode estar nesta frase antiga como as coisas antigas: Deus ajuda os que se ajudam. Pode parecer pretensiosa, dado o texto. Mas não deixa de ser assim.

JdB      

domingo, 21 de janeiro de 2018

3º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 1,14-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Depois de João ter sido preso,
Jesus partiu para a Galileia
e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo:
«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus.
Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
Caminhando junto ao mar da Galileia,
viu Simão e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores.
Disse-lhes Jesus:
«Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante,
viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco a consertar as redes;
e chamou-os.
Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados
e seguiram Jesus.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Pensamentos Impensados

Camonice
As armas e os barões assinalados é uma frase feita.

Se houver dinheiro
Dão-se alvíssaras a quem disser para onde foram as fugas de informação.

Similitudes
Não há vagas faz lembrar mar chão.

Labéus
Se eu escrever a negrito poderei ser acusado de racismo?

Atletas
Lázaro, o da Bíblia, nunca consegui dar o triplo salto; ficou-se pelo duplo salto mortal.

Castigos
Hoje sabe-se quem foi a primeira vítima de violência doméstica da História. Alguém acha que Adão chegou à nova casinha em Massamá todo satisfeito por ter sido expulso? Como já era obrigatário o uso de roupa, ao passar por uma loja de chineses aproveitou os bons preços. Já em casa, Adão encontrou Eva e chegou-lhe a roupa ao pêlo.

SdB (I)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Dos sonetos

SONNET 116

Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O no; it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests, and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
   If this be error and upon me proved,
   I never writ, nor no man ever loved.

William Shakespeare
***

De entre as minhas embirrações inexplicáveis (se fossem explicáveis seriam embirrações?) estão os sonetos. Há qualquer coisa num soneto que me desagrada, o que é estranho, porque tem métrica, tem rima e, embora a estrutura seja peculiar - duas quadras e dois tercetos - não é bizarra. E no entanto, o que me fasta de Florbela Espanca não é um furor moral onde entra o seu irmão, Apeles Demóstenes, numa relação incestuosa que parece não ter existido, mas o soneto. Num âmbito ainda mais estranho, e porventura mais intelectualmente insultuoso, o que me pacifica com a lírica camoniana é a Amália e o Alain Oulman.

Vasco Graça Moura - dizem-me que com superior mestria - traduziu uma quantidade imensa (todos?) de sonetos de Shakespeare. Dizem-me ainda que há, apesar dessa inegável mestria, uma estranheza: uma rima e uma métrica que nos levam a pensar, excessivamente, que estamos a ler Camões. Daí que seja preferível ler os sonetos na língua original - 14 versos com rima mas sem a "nossa" métrica, com um remate de dois versos (tem um nome, mas esqueci-me).

Este soneto, que partilhei, foi-me apresentado como sendo um dos mais bonitos do escritor - ou pelo menos o mais apreciado por quem me falou dele. Li-o acompanhado, explicado, pensado, relido, interpretado. É um soneto bonito, muito bonito apenas, de onde se tiram lições importantes para a vida de hoje em dia (e que maior fascínio pode haver do que ler uma coisa muito antiga e encontrar-lhe uma actualidade?): a constância do amor, a maturidade do amor, a fidelidade do amor. E ,pormenor a reter, este verso: That looks on tempests, and is never shaken. Para Shakespeare e, dizem-me, para os adeptos do mindfullness, hoje em dia tanto em voga, no amor as tempestades vêem-se, não se vivem.  Isto é, olhamos para elas como algo que passa à nossa frente, não estamos embrenhados nela.

JdB    

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Duas Últimas

Falar de música pode ser falar de gostos bizarros - ou simplesmente desenquadrados do que são as nossa referências em termos de épocas e hábitos. Para os outros, os que gravitam à minha volta e me dão o conforto da sua presença, gostar de música clássica - e com isso recuar 200 anos - é relativamente aceitável. Há uma certa intemporalidade neste género musical, já que daqui a 100 anos haverá gente a ouvir uma obra-prima com 300 anos, ou quiçá mais. Ora, se é aceitável eu ouvir música clássica tão antiga, já não é aceitável eu ouvir e gostar de música ligeira com 60 anos. 200 anos é aceitável, 60 anos sou um velho.

A bem dizer, este raciocínio não tem o menor rigor científico nem um átomo de valor dialético. No limite, o primeiro parágrafo é um verdadeiro disparate. Acontece que o estabelecimento é meu, são dez da noite, estou cansado e sem energia criativa. Lembrei-me que esta semana morreu Madalena Iglésias, a canconetista que o mundo português conheceu do célebre Ele e Ela, e eu quis lembrá-la neste modesto espaço.

Retomo o primeiro parágrafo - gostos bizarros. Talvez o Freud explicasse os motivos pelos quais gosto tanto de música sul-americana: tangos, boleros, milongas, cha-cha-cha... Onde fui eu buscar este gosto vitalício? E donde me vem este toque que alguns considerarão mais kitsch, de gostar da época de outro da música portuguesa? Donde me vem isto tudo, esta bizarria?

Deixo-vos com Madalena Iglésias, uma voz de sempre e para sempre. Não a cantar o que todos lhe conhecem - o que ele era para ela e o seu contrário - mas a interrogar-se sobre o paradeiro da felicidade...

JdB


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Vai um gin do Peter’s?

A RIQUEZA DA MADEIRA EM LISBOA (séc.s XV-XVI)

O ano de 2018 é um marco importante da descoberta de Porto Santo por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira. Há 600 anos, aportaram acidentalmente – reza a história – no areal paradisíaco da ilha, provavelmente desviados por ventos fortes, da missão de patrulhar a costa africana, infestada de piratas. No ano seguinte, descobriram a Madeira. 

Estava lançado o grande movimento da globalização de que Portugal fora precursor, apostando na expansão marítima pela exploração intensa das rotas atlânticas. Os grandes feitos sucederam-se em catadupa, de modo que todos os anos há novas efemérides para comemorar.

Deslumbrados com a beleza tropical de Porto Santo, os navegadores convenceram o Infante D.Henrique a povoar a terra virgem, pelo que houve nova expedição, integrada por Bartolomeu Perestrelo. Levaram nos mantimentos cereais e coelhos, de criação fácil. Só não contavam que estes se tornariam numa praga. De facto, tudo se misturou na aventura dos Descobrimentos: entre a surpresa de novas civilizações e espécies desconhecidas, o esforço hercúleo nos mares e em terra, a missionação de povos distantes, ou os episódios anedóticos como o contratempo da multiplicação dos pequenos mamíferos. 

Para inaugurar os festejos da descoberta do arquipélago, o MNAA tem exposta, até 18 de Março, uma mostra significativa do acervo artístico da Madeira, com 86 peças oriundas das melhores oficinas da Flandres, da metrópole e do Oriente. Intitulada «As Ilhas do Ouro Branco. Encomenda Artística na Madeira (séculos XV - XVI)»(1), contém óleos e retábulos, escultura e baixos relevos, ourivesaria e incunábulos preciosos, arte decorativa, marfins, lacas e porcelanas. 



Quem mal conheça a Madeira, ficará surpreendido pela qualidade da exposição, a fazer jus à alcunha por que o arquipélago é conhecido: «jóia do Atlântico». 

Num país com poucos recursos, estranhar-se-á a riqueza da colecção reunida pelos colonos madeirenses, ao longo de dois séculos, a ponto de se lhes referir como a um Estado dentro do Estado ou a experiência do Reino a partir de uma latitude mais africana que europeia. 

O motivo de tal florescimento, a partir da segunda metade do século XV, deveu-se ao comércio do açúcar cultivado nas ilhas – o «ouro branco» – e trocado pelos madeirenses nos portos de Antuérpia e Bruges. Percebe-se quanto a aquisição de arte flamenga (na fase inicial) tem lugar maior no povoamento de um território desabitado. Quando, em 1425, o Infante incumbiu Zarco da colonização oficial do arquipélago, abrira a possibilidade de ser edificada uma nova sociedade. E logo um intercâmbio entre povos e culturas começou a fluir, acrescentando à biodiversidade natural da Madeira, a componente artística. 

Desde cedo, a acumulação de património converteu-se em troféu económico, sinal de status e de refinamento cultural. A par das peças para uso doméstico, proliferaram as doações às igrejas e conventos recém-construídos. Assim se elevavam a patronos dos templos cristãos. Por junto, eram muitos a rivalizar em devoção e exibição de riqueza, entre nobres, capitães donatários do Funchal e de Machico, famílias estrangeiras abastadas (sobretudo de origem italiana; ex: Acciaioli e Lomelino), a burguesia rural enriquecida pelo canavial açucareiro, além do clero (destacando-se a ordem franciscana). Na corte lisboeta, nobres e soberanos foram pródigos em presentear o novo arquipélago. De D.Manuel I vieram 3 dezenas, só chegadas ao destino após a morte do rei. O generoso presente incluía uma cruz processional dourada, especialmente bonita e de dimensões expressivas, em estilo manuelino:   

A proximidade dos visitantes permite perceber o tamanho invulgar desta cruz manuelina, do Museu de Arte Sacra do Funchal.

Quando foi encerrada a feitoria portuguesa da Flandres, a mando de D.João III (15 de Fevereiro de 1549), as encomendas transferiram-se para os ateliers da metrópole, em especial para Lisboa, onde já trabalhavam artistas de outras nacionalidades. À data, a capital era uma cidade cosmopolita e mega hub do circuito comercial dos bens mais exóticos. Por isso, vários madeirenses fizeram fortuna com as preciosidades indianas que desembarcavam à beira Tejo, levando depois para as ilhas: lacas, marfins e porcelanas. Destacou-se o mercador e capitão da viagem a Macau - Tristão Vaz da Veiga - referido pelo cronista Gaspar Frutuoso em «As Saudades da Terra». Outros escritores, como Gomes Eanes de Zurara, encarregaram-se de narrar para a posteridade esses primeiros tempos, onde não faltou o fascínio pela natureza luxuriante no Porto Santo, majestosa e indomável na Madeira.

Nas obras trazidas para o MNAA sobressaem: a Virgem e o Menino (séc. XV); o Retábulo dos Reis Magos originário de Antuérpia (séc. XVI); ou o Tríptico de Nossa Senhora da Misericórdia (1529) ladeada pelos santos Cristóvão, Paulo, Pedro e Sebastião, da autoria do flamengo Jan Provost, postados abaixo para servir de aperitivo: 

Fotogr. de Pedro Clode.

O segundo e terceiro retábulos constaram do gin anterior, postado a 3 de Janeiro.


As peças de ourivesaria dão especial brilho à exposição, colocadas em vitrinas que permitem desfrutá-las em 360º . 


Como sublinha o Director do MNAA, este espólio é invulgar na natureza e na escala, merecendo lugar de honra no Museu que é vitrina mundial do escol da arte portuguesa. A não perder.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)

___________________________
(1)   Horário: Ter-Dom 10.00-18.00.  Entrada gratuita aos clientes da CGD que façam prova mediante apresentação de cartão da Caixa.  http://www.museudearteantiga.pt/.  Ciclo de conferências sobre esta mostra: 11 janeiro 2018 | 25 janeiro 2018 | 8 fevereiro 2018 | 1 março 2018. 


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Dos elogios fúnebres

Índia, Janeiro de 2017


Admito o meu erro e admito que o elogio que agora faço seja extensível a outras nações. Admito ainda  a minha (quase) total ignorância sobre o assunto. Vamos lá, então, passada a introdução curta e inútil. Todo eu sou anglófilo. Não me vou alongar sobre o que aprecio no Império Britânico porque tenho um amigo que se abespinha com o tema. E como ele é visitante do estabelecimento não o quero afugentar. Ser anglófilo não inibe o meu olhar crítico. Gosto de tudo - mesmo das coisas de que gosto menos.

Parece-me que os ingleses têm uma forte tradição no elogio fúnebre. Morre alguém, mesmo gente que não se celebrizou por nada em especial, apenas por cultivar rosas na sua pequena casa no campo e outro alguém, lembrando o seu passamento, lhe redige umas linhas, lembrando quem era e o que fez. É uma tradição bonita, que promove o exercício da memória e que dá aos amigos e familiares sobrevivos um olhar talvez diferente sobre o finado.

Gostaria de ler mais elogios fúnebres. Não porque seja um lado macabro que me assalta, mas porque me interessa ver o que retemos dos outros. O que contamos da senhora idosa que fazia caridade e cultivava rosas na sua pequena aldeia do norte de Inglaterra? Retemos uma história que nos faz rir? Uma fisionomia bonita ou agreste? Um traço de carácter ou uma mania? Um modo de vida em casa? O que fixamos nos outros? O que nos outros é importante para nós? Ler o que dizemos de terceiros diz muito, não só desses terceiros, obviamente, mas também de nós. Porque revela o que valorizamos, o que vemos, o que fixamos: umas mãos, um apetite voraz, uma frase a meio de um jantar, uma intersecção com a nossa vida, um toque com impacto numa existência, uma peculiaridade de feitio. 

JdB

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Textos dos dias que correm

Purificar a escuta

«Todos se calaram para que a primeira palavra, a primeira frase a chegar ao cérebro virgem do bebé fosse uma poesia, um verso antigo e melodioso. Não uma palavra da parteira ou o grito de uma tia, não uma palavra banal saída da boca de uma vizinha.»

Segundo a tradição muçulmana, mal o bebé sai do ventre da mãe deve-se sussurrar ao ouvido a profissão de fé e o convite à oração. Nenhum outro som humano ou natural deve entrar primeiro no terreno virgem da escuta, que é também símbolo de obediência.

Análogo é o que acontece na Pérsia, na narrativa de Kader Abdolah, escritor nascido no Irão em 1954, refugiado na Holanda em 1988 e que desde então escreve em neerlandês. O evento é narrado no seu delicioso romance “Escritura cuneiforme”.

A ideia é verdadeiramente sugestiva. Infelizmente temos os ouvidos sujos de demasiadas palavras más e inúteis; a escuta é obstruída por uma avalanche de sons ordinários, ditos vãos, expressões tantas vezes vulgares. É necessária uma purificação que devia iniciar-se idealmente com os bebés, cujo cérebro ainda virgem é bem depressa semeado de urtigas e erva daninha.

O pensamento corre para uma poesia de uma escritora judaica alemã, Nelly Sachs (1891-1970), também ela obrigada ao exílio, no seu caso a Suécia, por causa do nazismo.

Na poesia “Os profetas” há este refrão, que nos interpela: «Se os profetas irrompessem pelas portas da noite e procurassem um ouvido como pátria, ouvidos dos homens obstruídos de urtigas, saberíeis escutar?».


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 13.01.2018

domingo, 14 de janeiro de 2018

2º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 1,35-42

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
estava João Baptista com dois dos seus discípulos
e, vendo Jesus que passava, disse:
«Eis o Cordeiro de Deus».
Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras
e seguiram Jesus.
Entretanto, Jesus voltou-Se;
e, ao ver que O seguiam, disse-lhes:
«Que procurais?»
Eles responderam:
«Rabi – que quer dizer ‘Mestre’ – onde moras?»
Disse-lhes Jesus: «Vinde ver».
Eles foram ver onde morava
e ficaram com Ele nesse dia.
Era por volta das quatro horas da tarde.
André, irmão de Simão Pedro,
foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus.
Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe:
«Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’ –;
e levou-o a Jesus.
Fitando os olhos nele, Jesus disse-lhe:
«Tu és Simão, filho de João.
Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Pensamentoa Impensados

Corpos
A figura que representa Adão, pintada por Miguel Angelo e que está na Capela Sixtina, está anatomicamente errada: Adão não tinha umbigo.

Trânsitos
Qual será mais difícil? A Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, ou o Rali Dakar?

Palavras Cruzadas
As Cruzadas foram uma santa causa sem misericórdia.

Nova gramática
Competitivo é o Particípio Anacrónico do verbo competitir.

Acordos
Os portugueses introduziram-se se no Brasil graças ao Tratado de Introduzi-las.

Haja saúde
Governo prepara-se para proibir que se deite sal na neve.

SdB (I)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Textos dos dias que correm

Olhos abertos ou fechados?

«Toda a iconografia cristã representa os santos com os olhos abertos para o mundo, enquanto que a iconografia budista representa cada ser com os olhos fechados» (Gilbert K. Chesterton, 1874-1936). Esta nota é interessante porque coloca em confronto duas atitudes diferentes, para não dizer opostas, no confronto com a realidade.

De um lado há a visão cristã “incarnada” na história, pronta a lançar uma semente de eternidade no mundo, a lutar contra o mal e a injustiça, a criar uma nova ordem de relações sociais e interpessoais.

Do outro lado há uma espiritualidade mais “introvertida”, inclinada a encerrar-se no mistério que cada criatura tem dentro de si, considerando-o como o microcosmo no qual se descobre Deus.

É fácil observar que ambas as perspetivas podem degenerar na prática. Não é raro, com efeito, ver a redução do cristianismo a puro compromisso caritativo, espoliando-o da sua dimensão mística e transcendente.

Como é frequente também no Ocidente a tentação de retirar-se em si mesmo, ignorando o mundo com as suas misérias, descolando da realidade quotidiana em direção a céus míticos e místicos.

É por isso necessário reencontrar a força do testemunho que arrasta, ter olhos bem abertos para lutar contra o mal, e ao mesmo tempo é indispensável reentrar em si mesmo na oração, para se alimentar na fonte da intimidade divina.

É só através deste equilíbrio entre o olhar exterior, vigilante e capaz de julgar, e o olhar contemplativo da alma que se tem a verdadeira espiritualidade.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 11.01.2018

***

Procurar a chave do coração, que também abre a porta do Reino

«Naquele tempo, estava João Batista com dois dos seus discípulos e, vendo Jesus que passava, disse: “Eis o Cordeiro de Deus”. Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras e seguiram Jesus. Entretanto, Jesus voltou-se; e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: “Que procurais?” (Do Evangelho do II Domingo do Tempo Comum, João 1, 35-42)

«Que procurais?» As primeiras palavras de Jesus que o Evangelho segundo João regista são sob a forma de pergunta. Também na aurora da Páscoa, no jardim perto de Jerusalém, Jesus dirigir-se-á a Maria de Magdala com as mesmas palavras: «Mulher, que procurais?»

As primeiras palavras do Jesus histórico e as primeiras do Cristo ressuscitado, duas perguntas iguais, revelam que o Mestre da existência não se quer impor, não lhe interessa impressionar ou deslumbrar ou doutrinar, mas a sua paixão é fazer-se próximo, pôr-se ao lado, abrandar o passo para fazer-se companheiro de caminho de cada coração que procura.

Que procurais? Com esta pergunta Jesus não se dirige à inteligência, à cultura ou às competências dos dois discípulos que deixam João Batista, não interroga a teologia de Madalena, mas a sua humanidade.

Trata-se de uma interrogação a que todos são capazes de responder, cultos e ignorantes, laicos e religiosos, justos e pecadores. Porque Ele, o mestre do coração, faz as perguntas verdadeiras, aquelas que fazem viver: dirige-se antes de tudo ao desejo profundo, ao tecido secreto do ser.

Que procurais? Significa: qual é o vosso desejo mais forte? O que é que mais desejais acima de tudo da vida? Jesus, que é o verdadeiro mestre e exegeta do desejo, ensina-nos a não nos contentarmos, ensina fome de céu, salva a grandeza do desejo, salva-o da depressão, do apequenamento, da banalização.

Com esta simples pergunta – que procurais? – Jesus dá-nos a entender que a nossa identidade mais humana é ser criatura de procura e de desejo. Porque a todos falta alguma coisa: com efeito, a procura nasce de uma ausência, de um vazio que pede para ser preenchido. O que é que me falta? De que coisa me sinto pobre?

Jesus não pede em primeiro lugar renúncias ou penitências, não impõe sacrifícios sobre o altar do dever ou do esforço, pede acima de tudo que voltes a entrar no teu coração, que o compreendas, que conheças aquilo que mais desejas, aquilo que te faz feliz, o que acontece no teu íntimo. Pede-te que escutes o coração. E depois que o abraces, «encostar os lábios à fonte do coração e beber» (S. Bernardo).

Os padres antigos definiam este movimento como o regresso ao coração: «Encontra a chave do coração. Esta chave, verás, abre também a porta do Reino» (S. João Crisóstomo). Que procurais? Para quem caminhais? Eu sei: caminho para aquele que faz feliz o coração.


Ermes Ronchi 
In Avvenire 
Trad. / edição: SNPC 
Imagem: /Bigstock.com 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Da velhice

De um ponto de vista da mais absoluta seriedade, posso afirmar que tive sorte na vida: em primeiro lugar, porque parte substantiva da minha existência foi fagueira, rodeado de gente que queria fazer-me feliz e rodeado de acontecimentos que me deram um gozo imenso; em segundo lugar, não obstante os momentos difíceis que vivi, senti sempre uma forte rede social a impedir-me de soçobrar: amigos que me falaram, me ouviram, de mim discordaram, me fizeram companhia ou me desafiaram.

De um ponto de vista da mais discutível seriedade, posso ainda continuar a dizer que tive sorte na vida porque nunca fui jovem. Eu explico a frase críptica. Este domingo, jantando com amigos, ouvi alguém lamentar-se, com um quase soluço de alma, que ia fazer 61 anos durante 2018. A mim, que sou de um ano diferente, ocorreu-me aquela frase que tem tanto de verdade como de calista: a idade é mental. Se nos sentimos novos estamos novos; se não, não. A frase não deu alento a ninguém: nem a quem a proferiu (poucas frases há mais enervantes do que esta) nem a quem a ouviu, porque 61 anos são 61 anos...

Ora, a minha sorte não reside no facto de dizer frases patetas - e reconhecer - mas no facto de nunca ter sido novo. Tenho a sensação de que nasci, fui criança, jovem adolescente e jovem adulto com o anátema de uma certa velhice a cobrir-me as costas. E explico: enquanto a minha geração se agitava furiosamente ao som do pop ou do rock (não sei bem a diferença) eu já preferia a música clássica; não era grande frequentador de boites, preferindo o remanso de uma casa de amigos; nunca fui folião nem tenho corpo para ter um ar contente, não me assenta bem; viajei sozinho com prazer e sem incómodos; rio-me e divirto-me com gente que tem graça, não com gente que faz graças; nunca gostei do Carnaval, da passagem do ano ou de lançar serpentinas; não prego partidas, detesto que mas preguem; sou nostálgico, olho permanentemente para o meu passado, mesmo que o passado tenha mais de 40 anos; acho literariamente brilhante a ideia do no meu tempo é que... Por último, desde há muito tempo que gente diferente, em tempos diferentes, me diz, num misto de ternura, gozo e horror, que eu pareço um velho.

A frase, repetida desde há muito, de que pareço um velho, é salvífica. Pareço um velho agora e parecia um velho aos 20 anos. Talvez parecesse um velho aos 10, embora ninguém mo referisse, porque os alemães com quem estudava estavam afadigados a ensinar o aparelho digestivo da vaca e a dentição do coelho na sua bonita língua - e só isso se revestia de uma seriedade esgotante. Então, para me apressar na conclusão do raciocínio temente da debandada geral, posso responder a quem me pergunta como me sinto no momento da mudança de década: estou como se tivesse 18 anos; melhor, como se tivesse 15, ou talvez 7. No fundo, no fundo, estou como sempre estive - não envelheci. Os anos não parecem passar porque não sinto qualquer mudança. Sou o que sempre fui.

***

Sábado fui ao casamento de um amigo. Vi, e revi, gente que faz parte da minha vida desde que eu tinha 13 anos. Fui inundado por uma torrente, que em mim é inesgotável, de nostalgia de velho. Até nisso tenho sorte: não me mexo para fazer mais amigos; mas, não obstante, vou fazendo amizades e vou sempre olhando para trás, para os ciclos da vida onde eles se encaixam - e alguns muito bem, apesar de relativamente recentes. A construção da amizade é sempre um olhar sobre o passado; a constatação da amizade é sempre uma análise retrospectiva, porque o passado é certo, e no futuro talvez haja traições, afastamentos, palavras amargas ou injustas. Temos amigos porque temos passado em comum, não porque temos futuro em comum. O raciocínio é imbatível - ainda que de velho.

Sejam felizes.

JdB

      

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Poemas dos dias que correm

S. Miguel, Açores, Maio de 2015


Requiem por Mim

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Miguel Torga, in 'Diário (1993)'

***

Já Velho e Doente

«Seja a terra da Terceira 
A minha coberta de alma», 
Disse eu na idade fagueira, 
Em que tudo é força e calma. 

Mas hoje, já velho e doente, 
Em que as almas não se cobrem, 
Hoje sim, peço seriamente 
Que os sinos por mim lá dobrem. 

Até já me aconselharam 
Um quarto lá no Hospital, 
Tanto caipora me acharam, 
Escaveirado, mal, mal... 

Ali visitas teria 
Por obra de misericórdia, 
Embora comida fria, 
Alguma vez, que mixórdia! 

Mas sempre era doce ao peito 
Ir acabar os meus dias 
Na Praia, de qualquer jeito, 
Perto da casa das tias. 

Tive o exemplo resignado 
Que me deu a prima Alzira 
Num lençolinho lavado 
Com rendas limpas na vira. 

Ali matámos saudades, 
Ela alegre e penteadinha, 
Mal pensando eu que as idades 
Não perdoam. Hoje é a minha. 

Também cheguei a pensar 
No Asilo, talvez com um biombo. 
Sou biqueiro. Mas jantar? 
Todos ali, lombo a lombo. 

Como outrora o Tintaleis, 
Três-Quinze, Manuel de Deus 
Eram duas vezes seis, 
Lava-Pés, e Pão-por-Deus. 

Mas já sei que nem no hotel! 
(A família não consente). 
Tenho que amargar o fel 
Mortal como toda a gente 

Morrer num navio, à proa, 
Numa aldeia ou num porão, 
Provavelmente em Lisboa 
Prò Alto de S. João. 

Se acaso em Ponta Delgada 
Me fosse dado ter fim: 
Queria a última morada 
Com Antero, em S. Joaquim. 

O melhor é não pensar. 
É seja onde Deus quiser. 
Bem me podem sepultar 
Ao pé de minha mulher. 

Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga" 

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Dos fragmentos *

Era 1981, talvez, e eu fumava Português Suave sem filtro.

Por duas vezes, em fins de semana com amigos, partilhei um exercício com quem estava ao meu lado, que podia ser companhia certa ou ocasional de restaurantes modestos: escrever na toalha de papel - nos interstícios dos cigarros, das nódoas de vinho tinto ou de gordura das viandas - palavras soltas, excertos de frases igualmente soltas que se iam proferindo durante aquela refeição. No fim, dividida a conta, levantada a loiça e sacudidos os despojos, dobrava-se a toalha escrevinhada e fazia-se a oferta, como se fosse um recuerdo, um agradecimento, um rendilhado em forma de nada para memória futura. 

***

Mencionam-me uma dissertação filosófica sobre um álbum de fotografias. Pós-segunda guerra mundial, talvez; nos Alpes, parece. Uma fotografia de um homem parcialmente de costas, outra de uma mulher a sorrir. Depois, tudo o resto é paisagem - a neve, os montes, um carro ao longe, uma casa bucólica, uma vaca sem passado nem futuro. Invento eu, que só as duas primeiras fotos, a data e o local foram citados. O resto fica em aberto, ao devaneio de cada um. Paisagem, sempre. O homem não aparece mais, a mulher, se sorri, já não é para a câmara. 

***

O que distingue os dois "acontecimentos"? Nada. Falo de duas coisas talvez iguais, e contudo diferentes. Uma toalha de mesa ornada com semi-frases soltas e anónimas é igual a um álbum de fotografias onde não se identifica mais do que uma época, um local, um retalho de costas ou um sorriso quiçá ingénuo. São fragmentos de vida que dizem tudo ou não dizem nada, consoante os olhos de quem os vê. Para os mais afortunados talvez digam o suficiente, e esse "suficiente" seja uma infinidade de hipóteses, um centro vital pejado de saídas para a interrogação. 

Não saber é o caminho mais feliz, porque é o caminho de todas as hipóteses. O que distingue o personagem fictício mais fascinante do ser humano mais baço? A vida do primeiro resume-se ao conteúdo do livro - fora dele não existe. Tudo o que há para saber está vertido nas duzentas páginas do romance. A vida do segundo, pelo contrário, é um jogo de cartas que pode deduzir-se, adivinhar-se, supor-se. É uma toalha de papel para onde se transcreveram frases soltas e incompletas; é um álbum onde se vêem um pedaço de costas e um sorriso quiçá ingénuo. Parece pouco, mas esse aparente pouco é quase tudo.

JdB 

*   publicado originalmente em 26 de Novembro de 2013

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Duas Últimas

Ano novo, música velha.

2018, que desejo corra pelo melhor a todos os que de forma menos ou mais ligeira interagem com este blogue.

A portuguesa Viviane, já aqui postada, nos primeiros anos da carreira dando voz aos Entre Aspas, projecto entretanto terminado, e recentemente, ousando e bem cantar a grande Piaf.

Espero que apreciem

fq


domingo, 7 de janeiro de 2018

Solenidade da Epifania do Senhor

EVANGELHO – Mt 2,1-12

Leitura de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam: «Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
‘Tu, Belém, terra de Jusá,
não és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, prostrando-se diante d’Ele,
adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros,
ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Pensamentos Impensados

Boa educação
Adão, quando foi expulso do Paraíso, portou-se com toda a dignidade e nem um lamento, nem uma providência cautelar, nem nada.
 
Maus fornecedores
Deus criou o Universo apenas deste tamanho porque lhe faltaram os fornecedores à última hora.

Filosofias
Eu hesito, logo penso.

Tábua rasa
Os fundamentalistas deveriam ser todos mortos ou será que não há fundamento?

Filosofias baratas
O futuro é o prolongamento do presente, mas se se prolongar nunca mais se chega ao futuro.

Tradusom
Lá estarei, em inglês, diz-se ail bidé.

Bons feitios
Se quem cala consente, os surdos-mudos consentem tudo.

SdB (I)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Poemas dos dias que correm

Dublin, Outubro de 2016


De Amor nada Mais Resta que um Outubro

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia, in “Poesia Completa”

***

Balada para um Homem na Multidão

Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no japão
a diferença é ele ignorar.

Muitos mortos foram necessários
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a árvore que dá dinheiro.

Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
não tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Textos dos dias que correm

ADragan/Bigstock.com

«Um dia o rei foi ter com o grande místico Farid. Inclinou-se e ofereceu-lhe um par de tesouras incrustadas de diamantes. Farid admirou-as mas restituiu-as ao visitante: “Obrigado pelo magnífico presente, mas eu não faço uso delas. Dá-me antes uma agulha.”

“Mas se precisas de uma agulha, as tesouras também te serão úteis”, replicou o rei. “Não – explicou Farid –, as tesouras cortam e separam. Uma agulha, ao contrário, coze e une o que estava separado. O meu ensinamento é fundado no amor e na comunhão. Preciso de uma agulha para voltar a cozer a unidade, e não de tesouras para cortar e dividir”.»

Este apólogo da tradução muçulmana sufi, extraído das “Parábolas do Oriente e do Ocidente”, de Jean Vernette, é ao mesmo tempo um desejo e um compromisso.

É, antes de tudo, um desejo para o ano que está para nascer, para que os seres humanos usem menos as tesouras da divisão: já rasgaram suficientemente o tecido da humanidade comum, estilhaçando-o em muitas sobras dispersas. E é também um compromisso a tomar a agulha entre os dedos, inserindo-lhe a linha do diálogo.

As nossas palavras têm procurado precisamente usar o mais possível esta agulha, fazendo encontrar vozes diversas, culturas distantes, experiências variadas. Sabemos que pode estar sempre à espreita o risco do sincretismo, da “homogeneização” espiritual, inofensiva mas insípida.

É por causa deste perigo que nunca escondemos o ângulo de visão onde nos situamos, deixando quase sempre aflorar uma referência à Bíblia, que é a nossa carta de identidade espiritual e cultural.

Todavia consideramos – no rasto do empenho incessante pela paz e pelo diálogo entre os povos promovido por João Paulo II [e Bento XVI e Francisco] – conceder o primado àquilo que “coze” a civilização, o amor e a comunhão, aliás centrais na mensagem evangélica.

O fio a usar nessa agulha é um só: «O início do amor pelo próximo está em aprender a escutar as suas razões» (Dietrich Bonhoeffer).


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire (31.12.2003)
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 30.12.2017

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