segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Textos dos dias que correm

O triplo filtro de Sócrates

Temos abundante consciência de que nas nossas conversas, muitas vezes, introduzimos temas que afetam outras pessoas: «Sabes o que é que aconteceu a fulano? Sabes o que me disseram de beltrano?». E começamos a fazer comentários sem estar seguros do que dizemos e na ausência da pessoa afetada. Fazemos em cacos a fama dessa pessoa e incorremos contra o oitavo mandamento, que nos diz: «Não levantarás falsos testemunhos nem mentirás».

Tão bem nos faria a todos cuidar mais da nossa língua e não falar mais do que a conta. E seria muito bom, o que nem sempre é fácil de fazer, comentar mais as coisas boas dos outros e felicitá-los por isso.

Vede que conselho tão sábio deu, no seu tempo, o filósofo grego Sócrates a um amigo que o abordou um dia, dizendo-lhe: «Sabes o que ouvi sobre o teu amigo?». «Espera um momento - replicou Sócrates -, antes de me falares sobre o meu amigo, pode ser uma boa ideia filtrar três vezes o que vais dizer. Por isso chamo-o o exame do triplo filtro.

«O primeiro filtro é a verdade: estás absolutamente seguro de que o que vais dizer-me é certo?» «Não - disse o homem -, na realidade ouvir falar sobre isso e...» «Bem - disse Sócrates -, então não sabes se é certo ou não. Permite-me agora aplicar o segundo filtro, a bondade: é algo bom o que me vais dizer sobre o meu amigo?» «Não - disse o homem -, pelo contrário.» «Então - respondeu Sócrates - desejas dizer-me algo de mal sobre ele, mas não estás seguro de que esteja certo. Mas ainda assim poderia querer ouvi-lo... Só que me falta o terceiro filtro, o da utilidade: serve-me de alguma coisa saber o que vais dizer-me do meu amigo?» «Não - disse o homem -, a verdade é que não.»

«Bem - concluiu Sócrates -, se o que desejas dizer-me não sabes se é certo, nem é algo de bom e inclusivamente não é algo útil para mim, para que quero sabê-lo?» Desta forma Sócrates cortou o comentário que pretendiam dizer-lhe sobre o seu amigo. Bonita maneira de cortar essa corrente tão perniciosa de comentários, de questiúnculas sobre os outros.

Que bom é saber vencer o escárnio sobre as coisas más dos outros! Que bom é não ouvir esses comentários nem os propagar! Se o praticássemos, seguramente a convivência entre famílias e entre vizinhos seria muito mais bela e harmoniosa. O papa Francisco recorda-nos muitas vezes que temos de evitar as críticas e as murmurações, pois são o caruncho da convivência.

Tomemos esse compromisso de não ouvir, de não propagar tudo aquilo que não sabemos se é certo, se não é algo bom nem útil para nós. Recordemos as palavras de Jesus: «Não julgueis e não sereis julgados, não condeneis e não sereis condenados».



D. Juan José Omella 
Arcebispo de Barcelona, Espanha 
Servicio de Información Católica 
Trad.: Rui Jorge Martins 
Publicado em 27.02.2016 e tirado daqui

domingo, 28 de fevereiro de 2016

3º Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Lc 13,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
vieram contar a Jesus
que Pilatos mandara derramar o sangue de certos galileus,
juntamente com o das vítimas que imolavam.
Jesus respondeu-lhes:
«Julgais que, por terem sofrido tal castigo,
esses galileus eram mais pecadores
do que todos os outros galileus?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos do mesmo modo.
E aqueles dezoito homens,
que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou?
Julgais que eram mais culpados
do que todos os outros habitantes de Jerusalém?
Eu digo-vos que não.
E se não vos arrependerdes,
morrereis todos de modo semelhante.
Jesus disse então a seguinte parábola:
«Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha.
Foi procurar os frutos que nela houvesse,
mas não os encontrou.
Disse então ao vinhateiro:
‘Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira
e não os encontro.
Deves cortá-la.
Porque há-de estar ela a ocupar inutilmente a terra?’
Mas o vinhateiro respondeu-lhe:
‘Senhor, deixa-a ficar ainda este ano,
que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo.
Talvez venha a dar frutos.
Se não der, mandá-la-ás cortar no próximo ano».

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Pensamentos Impensados

Câmbios
Quem conta um conto...pensa em 5 euros.

Mais aborto
Um casal em que o homem veste os fatos da mulher e vice-versa, chama-se união de fato.

Não metas o nariz...
Deus proibiu Adão de comer o fruto da árvore do conhecimento.
Foi um incitamento à ignorância.

Pede pedicuro
Em casa, pé de meia; no restaurante, pede meia.

Votos de silêncio
Nas eleições nunca há vencidos, há convencidos.

Tez vez
A TV do Correio da Manhã deveria informar no fim do noticiário: "este programa foi patrocinado
por horror, tragédia, pânico".

Traduções
Study case será uma caixa de escritório?

Nem manto diáfano da fantasia
À entrada de um campo de nudistas pode ler-se: Proibida a entrada a funcionários púdicos. 
Nota: usei a palavra púdico com assento, para fazer a piada. Correcto é pudico, embora não lembre ao careca.

SdB (I)


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Textos dos dias que correm

Fotografia de Robert Doisneau


Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. 
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar;
tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;
tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

(Livro do Eclesiastes)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O dactilógrafo honesto

Não havia sido preciso mais nada para que a sua atenção se focasse naquele anúncio. Bastava o título: "cego precisa de dactilógrafo honesto". Não falava em invisuais, em técnicos disto ou daquilo, numa clima de confiança que sempre deve estabelecer-se entre parceiros do mesmo negócio, em contratos ou em evolução da carreira; nem sequer usava a terminologia politicamente correcta do dactilógrafo/a.  As palavras eram claras, curtas e concisas: cego, dactilógrafo, honesto. 

Vítor apresentou-se ao serviço numa segunda-feira em que o calor estalava as pedras da calçada e tudo, mesmo aquilo que seria um oásis, tinha uma vaga aparência de deserto. O calor era de facto brutal, naquela manhã de Agosto. Ao subir as escadas de um prédio velho da Avenida Almirante Reis (e pensou na tristeza de um homem da república - em bom rigor, no limbo entre um regime e outro - de quem não se sabe o nome próprio, apenas que é "almirante" e "reis") imaginou a Deolinda, namorada recente, em topless na costa alentejana, saltitando na arrebentação das vagas mansas. Mais do que imaginar-lhe uma nudez inquietante e uns seios diabólicos, tinha a certeza do olhar devorador do Mário, amigo de sempre que cobiçava a Deolinda como uma criança cobiça um rebuçado - guloso e sem pudor. Amigo - o Mário - que a acompanhara de férias, guiando o seat ibiza verde-claro em direcção ao parque de campismo. Tudo corria mal naquela segunda feira calorenta e enervada. 

- Bom dia, senhor Augusto, como vai hoje? 
- Olhe Vítor, é como vê...
- Está muito calor, senhor Augusto
- Pois está, Vítor; até se vê o sol a fritar as pedras da calçada...

Vítor sentou-se ao computador. Enquanto o windows fazia actualizações (algo que lhe parecia repetido e moroso) esticou e lançou um olhar à casa. Não viu nada, havia de confessar, porque só imaginava os saltos da Deolinda, o peito ofegante e perlado de suor, a toalha a correr aquela pele macia. E o Mário, esse malandro, a cobiçar-lhe tudo - os lábios, o corpo, a infidelidade, os cabelos pintados na Cátia, salão de cabeleireiro do Pragal.

- Podemos começar, Vítor?
- Claro, Sr. Augusto...

O sol punha-se no fio do horizonte: grande, alaranjado, lento, inspirador. Miriam recostou-se a uma duna e fechou os olhos para sentir a sua vida a correr-lhe pela frente. O pai autoritário, a mãe doce, a criada fiel, o primo namoradeiro. O mar, na suave rotina das marés, enchia o fim de tarde com um aroma de maresia e saudade. Miriam deixou-se ir e estava certo de sonhar algo igualmente perturbador e censurável: Charles, o maior amigo do seu marido, acariciava-lhe os pés e subia por aquela geografia humana como quem ascende aos céus, feito pecador com ambições de santidade. Oh não! Charles, o que dirá o meu marido? Mas Charles não parava, enchia-lhe a boca de beijos e o corpo de mãos ávidas e sedentas, afagando, desapertando, tocando. Oh Charles, oh Charles...  

Para Vítor, recém despedido de um stand de automóveis em segunda mão, tudo isto era de mais. Miriam era a Deolinda, Charles o Mário, esse malandro de olhos desvairados e mãos descontroladas a cobiçar-lhe a namorada, a espreitar-lhe as pernas bronzeadas ao ritmo de uma janela aberta na planície alentejana. E a sussurrar-lhe, estava certo, frases tentadoras: o Vítor não é para ti, não tem mão que abarque esse corpo... Em rapaz já o gozavam, e à pequenez dos atributos...  E o sacana do cego, que raio de romance havia ele de estar a escrever, um decalque da vida dele. 

Trabalharam mais 1 hora.

- Leva-me o texto ao editor, Vítor? Vê se fica tudo bem?
- Claro, Sr. Augusto. Pode ficar descansado...

À medida que o editor lia o texto o semblante carregava-se. Foi isto que ele ditou? E o dactilógrafo honesto, mirando com desinteresse uma ligeiríssima sujidade numa unha. Pois pode crer... Ele não está bem. E o editor entristecido, a ver-lhe fugir um novo concurso de uma câmara nortenha que incentivava escritores de mobilidade reduzida (e um cego não tem mobilidade reduzida?, gritava à administrativa camarária).

A piscina está suja. Boiam cocós e seringas sujas. Ao lado da cadeira partida um cão mija de perna alçada. Há uma criança que grita e que leva porrada, uma mulher que grita e que também leva porrada. Há um bêbado que prega rasteiras a um cego, um mudo que chama palavrões ao primeiro ministro. Há a Deolinda nua e o porco do Mário que lhe espreita a borboleta tatuada numa bochecha do rabo. Se os apanhasse agora dava-lhes um enxerto de porrada que os virava. Rai's parta tudo, mais o sacana do cego.

Cego precisa de dactilógrafo honesto.

JdB    

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Poemas dos dias que correm

Fotografia tirada da net


Sou

Sou o que sabe não ser menos vão 
Que o vão observador que frente ao mudo 
Vidro do espelho segue o mais agudo 
Reflexo ou o corpo do irmão. 
Sou, tácitos amigos, o que sabe 
Que a única vingança ou o perdão 
É o esquecimento. Um deus quis dar então 
Ao ódio humano essa curiosa chave. 
Sou o que, apesar de tão ilustres modos 
De errar, não decifrou o labirinto 
Singular e plural, árduo e distinto, 
Do tempo, que é de um só e é de todos. 
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada 
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada. 

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda" 


***

Livro de Horas

Aqui, diante de mim, 
Eu, pecador, me confesso 
De ser assim como sou. 
Me confesso o bom e o mau 
Que vão ao leme da nau 
Nesta deriva em que vou. 

Me confesso 
Possesso 
De virtudes teologais, 
Que são três, 
E dos pecados mortais, 
Que são sete, 
Quando a terra não repete 
Que são mais. 

Me confesso 
O dono das minhas horas. 
O das facadas cegas e raivosas, 
E o das ternuras lúcidas e mansas. 
E de ser de qualquer modo 
Andanças 
Do mesmo todo. 

Me confesso de ser charco 
E luar de charco, à mistura. 
De ser a corda do arco 
Que atira setas acima 
E abaixo da minha altura. 

Me confesso de ser tudo 
Que possa nascer em mim. 
De ter raízes no chão 
Desta minha condição. 
Me confesso de Abel e de Caim. 

Me confesso de ser Homem. 
De ser um anjo caído 
Do tal Céu que Deus governa; 
De ser um monstro saído 
Do buraco mais fundo da caverna. 

Me confesso de ser eu. 
Eu, tal e qual como vim 
Para dizer que sou eu 
Aqui, diante de mim! 

Miguel Torga, in 'O Outro Livro de Job' 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Duas Últimas

Willie Nelson homenageou, e bem, o Dia de S. Valentim. Que, diga-se já agora, deve o seu nome a um padre romano condenado à morte no século III, por desobediência ao imperador. 

Não só continuou a casar contra as ordens deste como, no final da vida e na prisão, se terá rendido ele próprio ao encanto duma jovem, a quem miraculou. Acabou decapitado num 14 de Fevereiro.

Espero que também apreciem o magnífico tributo para a causa deste velho texano de voz nasalada.


fq


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Aqui vai um mini-noticiário para estimular iniciativas, que são urgentes. A criatividade ajudará cada um a descobrir o seu espaço de intervenção possível:
Na Europa, entranha-se o medo pela avalanche de incertezas e até ameaças que assolam o continente, a crescer descontroladamente e a adensar-se numa teia caótica, à beira da sobrecarga. Uma hora de lusco-fusco, adivinhando-se turbulência e empobrecimento.  
Mas há bem pior: noutras partes do planeta, as nossas incertezas, os nossos medos são um luxo. Entre o Médio Oriente e África, a morte alastra-se com requintes de crueldade. Os sons, os cheiros, as imagens, tudo vem contaminado por um rastro de destruição. Seguem-se-lhe as pilhagens, a fome, os raptos e a escravidão dos pobres sobreviventes, num ciclo demasiado familiar para os sírios e os povos limítrofes, para o Ruanda, o Iémen, o Burundi, o Quénia; mesmo no novo mundo, a situação é crítica na Venezuela, na Bolívia, em províncias extensas do México, etc.
O sofrimento da Pietá replicado, no séc.XXI, com crianças!
Na misteriosa promessa de Cristo: «Felizes os que choram, porque serão consolados

É sempre dantesca a experiência de guerra e na Síria que já se arrasta há 5 anos, com ingredientes sádicos. Há quem considere aquela alegada guerra civil como sendo a Terceira Guerra Mundial, por enquanto delimitada ao território sírio e a mais alguns países do Médio Oriente e de África. Os combates mais encarniçados decorrem nas cidades, atingindo os civis desprotegidos e inocentes. Metrópoles antes coloridas e prósperas estão a ser selvaticamente reduzidas a amontoados de pó de cimento intoxicante e cadáveres calcinados. Ao zumbido infernal das balas e das bombas segue-se um silêncio sepulcral, apenas entrecortado pelos gemidos dos moribundos e dos órfãos. À devastação humana soma-se a erradicação das raízes históricas de civilizações milenares, cometendo-se o duplo crime de tentar apagar a sua memória da face da terra.
Gandhi: «A não-violência não existe se apenas amamos aqueles que nos amam. Só há não-violência quando amamos aqueles que nos odeiam. Sei como é difícil assumir essa grande lei do amor. Mas todas as coisas grandes e boas não são difíceis de realizar? (…)
Creio que a não-violência é infinitamente superior à violência,
o perdão é mais nobre que a punição. O perdão enobrece um soldado

Sim, estes tempos pedem-nos mais abertura e imaginação para desencantar soluções à altura das dificuldades incríveis dos nossos concidadãos, sobretudo dos mais necessitados. Muitos universitários portugueses (conheço vários) têm feito voluntariado em ilhas gregas para ajudar no resgaste aos refugiados da guerra e da miséria. Um grupo de casais amigos fretou carrinhas e fez-se à estrada para ir recolher refugiados ao ponto de desembarque, nas margens europeus do Mediterrâneo, e os convidar a recomeçarem vida neste recanto solarengo da Europa. 
Gandhi: «Uma civilização é julgada pelo tratamento que dispensa às minorias. (…) Acredito na essencial unidade do homem, e portanto na unidade de todo o que vive. Desse modo, se um homem progredir espiritualmente, o mundo inteiro progride com ele, e se um homem cai, o mundo inteiro cai em igual medida

Em 1985, Maria Helena Vieira da Silva pintou uma tela profética intitulada «Caminhos da Paz» (no original: «Chemins de la paix», óleo s/ tela 73 x 100 cm), relevando-os difíceis, misteriosos, mas com possibilidade de intercepção positiva, no horizonte mais profundo. Talvez longínquo. Muito eloquente o título, aberto a vários trilhos mas com destino a uma Paz única, universal –  aquela que faz ressoar ecos inconfundíveis na alma humana:

Gandhi: «Deus responde à prece à sua própria maneira, não à nossa. (…)
Orar não é pedir. Orar é a respiração da alma.»

Do Vaticano, o Papa tem convidado todos os homens de boa vontade a lutar pela Paz com as armas da Paz, que são a Justiça, a Verdade e o Amor. Instiga-nos também ao perdão e à entreajuda. Aos crentes pede ainda que rezem. Que rezem com maior entrega e Esperança, confiando que deste mal horrendo algum bem poderá irromper (só aparentemente impossível), ainda que não vislumbremos desfechos simples, menos ainda rápidos. Felizmente que a realidade não precisa da nossa imaginação para chegar mais longe, ainda que goste de contar com o nosso contributo simbólico.
Gandhi: «Quem venceu o medo da morte venceu todos os outros medos
Imagem de mártires anónimos antes de serem fuzilados pelos fanáticos do Daesh;
o filme do massacre só circulou na net durante um par de dias.

Gandhi: «A única revolução possível é a de dentro de nós
Imagem de Narciso Contrera /Associated Press. 

Mensagens claras podem ajudar a inspirar o nosso esforço, seja na oração, seja por gestos concretos de solidariedade, sendo tudo preciso e urgentíssimo:   

«Queria fazer-me intérprete do grito que se eleva, com crescente angústia, em todos os cantos da terra, em todos os povos, em cada coração, na única grande família que é a humanidade: o grito da paz! É um grito que diz com força: queremos um mundo de paz, queremos ser homens e mulheres de paz, queremos que nesta nossa sociedade, dilacerada por divisões e conflitos, possa irromper a paz! Nunca mais a guerra! Nunca mais a guerra! A paz é um dom demasiado precioso, que deve ser promovido e tutelado (…)
Quando o homem pensa apenas em si próprio, nos próprios interesses e se põe no centro, quando se deixa fascinar pelos ídolos do domínio e do poder, quando se coloca no lugar de Deus, então rompe todas as relações, destrói tudo, e abre a porta à violência, à indiferença ao conflito. (…)
Aperfeiçoámos as nossas armas, a nossa consciência adormeceu, tornámos mais subtis as nossas razões para nos justificarmos. Como se fosse uma coisa normal, continuamos a semear destruição, dor, morte. A violência, a guerra só trazem morte, falam da morte. A violência e a guerra têm a linguagem da morte. (…) Na verdade, gostaria que cada um de nós, desde o mais pequeno ao maior, até aqueles que são chamados a governar as nações, respondessem: Sim, queremos (a Paz). (…)  É possível percorrer outro caminho? Podemos sair desta espiral de dor e morte? Podemos aprender novamente a caminhar e a percorrer os caminhos da paz? (...) Sim, é possível para todos! (…)
Que cada um se anime a olhar para o interior profundo da própria consciência e escute aquela palavra que diz: sai dos teus interesses que atrofiam o coração, supera a indiferença para com o outro que torna o coração insensível, vence as tuas razões de morte e abre-te ao diálogo, à reconciliação. (…)
Olha para a dor do teu irmão... penso nas crianças... e não acrescentes mais dor, fecha a tua mão, reconstrói a harmonia que se rompeu; faz isto não com o confronto, mas com o encontro. Termine o rumor das armas! A guerra marca sempre o fracasso da paz, é sempre uma derrota da humanidade. (…)
A paz só se afirma com a paz. Perdão, diálogo, reconciliação são as palavras de paz: na amada nação síria, no Médio Oriente, em todo o mundo! Rezemos pela reconciliação e pela paz, trabalhemos pela reconciliação e pela paz (…)
                                                                                                                              Papa Francisco – 01-09-2013
«Oração pela paz
 (…)
Senhor da paz e da vida,
Pai de todos,
Tu tens projetos de paz e não de aflição,
condenas as guerras
e abates o orgulho dos violentos. (…)
Escuta o grito unânime dos teus filhos,
a súplica cheia de tristeza de toda a humanidade;
jamais a guerra, espiral de luto e de violência;
ameaça para as tuas criaturas
no céu, na terra e no mar (…)
Suplicamos ainda:
fala ao coração dos responsáveis dos destinos dos povos,
cessa a lógica das represálias e da vingança,
sugere com o teu Espírito novas soluções,
gestos generosos e respeitosos,
espaços de diálogo e de paciência.
Dá ao nosso tempo dias de paz.
Jamais a guerra
                                                                                                                                                                  Papa João Paulo II


Vale a pena munirmo-nos de todos os meios ao nosso alcance para não perdermos este combate em favor da Paz. Nem nós nem as gerações futuras merecem derrotas por comodismo ou cobardia ou mera falta de comparência! Seria bom dispormo-nos, hoje, a atender ao grito de socorro dos milhões de seres humanos afectados pela guerra. Até coincide com o período quaresmal, para os cristãos, recomendando-se maior atenção aos outros. Já é um avanço ainda não estarmos na linha de frente da luta armada. Convém aproveitarmos bem o tempo que nos resta, porque o futuro decide-se agora e pode não haver uma segunda oportunidade.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)


domingo, 21 de fevereiro de 2016

II Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Lc 9,28b-36

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago
e subiu ao monte, para orar.
Enquanto orava,
alterou-se o aspecto do seu rosto
e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente.
Dois homens falavam com Ele:
eram Moisés e Elias,
que, tendo aparecido em glória,
falavam da morte de Jesus,
que ia consumar-se em Jerusalém.
Pedro e os companheiros estavam a cair de sono;
mas, despertando, viram a glória de Jesus
e os dois homens que estavam com Ele.
Quando estes se iam afastando,
Pedro disse a Jesus:
«Mestre, como é bom estarmos aqui!
Façamos três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Não sabia o que estava a dizer.
Enquanto assim falava,
veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra;
e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem.
Da nuvem saiu uma voz, que dizia:
«Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O».
Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho.
Os discípulos guardaram silêncio
e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Pensamentos impensados

Magreza é beleza
Em tempo de vacas magras crie-se o leite meio-magro.

Bondade
O Padre Américo defendia as águias dizendo não há rapaces maus.

Desvanecimentos
Sampaio da Nódoa desapareceu; terá sido com benzina?

Dualidade
Tino de Rãs candidatou-se a Presidente da República e passado pouco tempo era rei do Carnaval.
Tino tem que definir-se: ou é monárquico ou republicano.

Sorve-te
Comi um gelado que me parou a digestão; o gelado agiu com frieza.

Normas anormais
A Lei Sálica proíbe o uso imoderado de sal.

Espalhansos
A diáspora iraniana está muito dis...persa.

OE, OE OE OE (será grito clubista?)
A propósito da rectificação à rectificação do Orçamento, como é que se chama o Ministro das Finanças?
Sem tino.

Ah!

SdB (I)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Textos dos dias que correm

Papa Francisco abraça reclusa | Ciudad Juárez, México
«Quem experimentou o inferno, pode tornar-se profeta», diz papa Francisco

É o encontro que não poderia faltar, com os presos. Pouco depois de chegar a Ciudad Juarez, o papa visitou o Centro de Readaptação Social Estatal n.º 3, onde cumprem pena cerca de três mil reclusos.

A prisão situada no norte do país, junto à fronteira com os EUA, faz parte de um projeto de requalificação das instituições penais do estado de Chihuahua que obteve uma acreditação pelo respeito das normas internacionais em matéria prisional.

A acolher Francisco estavam famílias dos detidos. Uma mulher, quando o papa se aproxima dela, separado pela barreira de segurança, abençoa-o, fazendo o sinal da cruz sobre a fronte e o coração do papa, como normalmente se faz com as crianças. Francisco abraça-a e também a abençoa.

O papa encontra depois os agentes e capelães da Pastoral das Prisões, e oferece um crucifixo de cristal: «Obrigado pelo bem que fazeis aqui, um bem que muitas vezes não se vê». «Encontram-se aqui situações de grande fragilidade. Quis levar a imagem do mais frágil, Cristo na cruz. Todavia, com ela Ele salva-nos, ajuda-nos, abre-nos a porta da esperança. Gostaria que cada um de vós, contemplando a fragilidade de Cristo, possa semear esperança e ressurreição».

Na capela do instituto 700 detidos assistem ao seu discurso. O papa saúda pessoalmente 50, mulheres e homens que se distinguiram pelo bom comportamento.

«Aqui é posta à prova a nossa fé, a nossa força interior», diz uma reclusa escolhida como representante para saudar o pontífice. «Partilhando este espaço somos todos iguais, assim somos iguais diante dos olhos de Deus.« «A sua presença, santidade, é um chamamento a todos aqueles que perderam a esperança da nossa reabilitação e àqueles que esqueceram que aqui estão seres humanos».

«Quando recebemos o veredito» - continuou -, «o que fazemos é chorar. Sentimo-nos angustiados e desesperados. E fazemo-nos perguntas para as quais não queremos ter resposta: quando sairei? A minha família quer-me bem? Ter-me-ão esquecido? Sentimo-nos expostos, vulneráveis e sós.» «Devemos agir de maneira a que os nossos filhos não repitam a nossa história. O sorriso de minha filha» - e aqui a mulher comove-se - dá-me força para enfrentar os dias que tenho de passar na prisão. Mas nem tudo termina aqui. Há a presença de Deus na nossa vida. Vós, santidade, podeis contar com a oração de todos estes detidos».

O tema central da intervenção do papa é a misericórdia no ano jubilar, mas também uma «reinserção social» com início fora da prisão: «Quem sofreu profundamente a dor e, poderemos dizer, "experimentou o inferno", pode tornar-se um profeta na sociedade. Trabalhai para que esta sociedade que usa e deita fora não continue a fazer vítimas».

Francisco recorda que na sua viagem a África, na cidade de Bangui, abriu «a primeira Porta da Miseridórdia para o mundo inteiro» deste Jubileu, «porque a primeira porta da misericórdia abriu-a o nosso Pai com o seu filho Jesus».

«Hoje, junto a vós e convosco desejo reafirmar uma vez mais a confiança à qual Jesus nos encoraja: a misericórdia que abraça todos e em todos os cantos da Terra. Não há lugar onde a misericórdia» de Deus «não possa chegar, não há espaço nem pessoa que ela não possa tocar.»

O papa critica o sistema atual: «Já perdemos várias décadas pensando e acreditando que tudo se resolve isolando, separando, encarcerando, acreditando que estes meios resolvem verdadeiramente os problemas. Esquecemo-nos de nos concentrar naquela que realmente deve ser a nossa preocupação: a vida das pessoas, a vida das suas famílias, a vida daqueles que também sofreram por causa deste círculo vicioso da violência».

Eis porque «as prisões são um sintoma de como estamos como sociedade, em muitos casos são um sintoma de silêncios e omissões causados pela cultura do descarte. São um sintoma de uma cultura que deixou de apostar na vida; de uma sociedade que avançou abandonando os seus filhos».

A reinserção ou a reabilitação, afirma Francisco, «criando um sistema que poderemos chamar de saúde social, ou seja, uma sociedade que procura não ficar doente inquinando as relações nos bairros, nas escolas, nas praças, nas ruas, nas habitações, em todo o espetro social. Um sistema de saúde social que faça de modo a gerar uma cultura que seja eficaz e que procure prevenir aquelas situações, aqueles caminhos que acabam por ferir e deteriorar o tecido social».

Em vez disso, por vezes tem-se a sensação de que «as prisões propõem-se colocar as pessoas em condições de continuar a cometer delitos, mais do que a promover processos de reabilitação que permitam fazer frente aos problemas sociais, psicológicos e familiares que conduziram uma pessoa a um determinado comportamento. O problema da segurança não se resolve apenas encarcerando, mas é um apelo a intervir para enfrentar as causas estruturais e culturais da insegurança que atingem todo o tecido social».

A reinserção social, afirma o papa, «começa com a frequência da escola de todos os nossos filhos e com um trabalho digno para as suas famílias, criando espaços públicos para o tempo livre e a recriação, habilitando as instâncias de participação cívica, os serviços de saúde, o acesso aos serviços de base».

«Celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco significa aprender a não permanecer prisioneiros do passado, do ontem. É aprender a abrir a porta ao futuro, ao amanhã: é acreditar que as coisas podem ser diferentes. Celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco é convidar-vos a levantar a cabeça e a trabalhar para obter esse espaço de liberdade», sublinhou.

E de improviso, acrescentou: «Celebrar o Jubileu da Misericórdia convosco é repetir aquela frase que ouvimos recentemente e que eu disse com tanta força: "não te perguntes porque estás aqui, mas para quê"».

«Sabemos que não se pode voltar atrás, sabemos que o que foi feito está feito» - concluiu Francisco -; «por isso quis celebrar convosco o Jubileu da Misericórdia, pois aquilo não significa que não haja a possibilidade de escrever uma nova história de agora em diante. Vós sofreis a dor da queda (e mesmo todos nós» - acrescenta de improviso -«sofremos pelas quedas escondidas), sentis o arrependimento pelos vossos atos e eu sei que em muitos casos, entre grandes limitações, procurais reconstruir a vossa vida a partir da solidão.»

«Não esqueçais que tendes à disposição a força da ressurreição, a força da misericórdia divina que faz novas todas as coisas. Empenhai-vos desde aqui de dentro a dar a volta às situações que geram posteriores exclusões.»

Francisco acrescenta, sem olhar para o texto escrito: «Jesus disse: quem não tem pecados que atire a primeira pedra, e agora eu tenho de ir embora. Ao dizer-vos estas coisas não o faço do alto de uma cátedra, com o dedo apontado, mas na base dos meus próprios erros, dos meus pecados que o Senhor quis perdoar. Faço-o na consciência de que sem a sua graça e a minha vigilância poderei voltar a repeti-los. De cada vez que entro numa prisão, pergunto-me sempre: porquê eles e não eu? Este é o mistério da misericórdia divina».

Dirigindo-se aos funcionários, dirigentes, capelães e voluntários, o papa apelou: «Todos vós, não o esqueceis, podeis ser sinais das entranhas do Pai».

Antes da bênção, disse às pessoas detidas: «Peço-vos que esta oração possa ampliar o vosso coração e possa fazer-vos perdoar a sociedade que não soube ajudar-vos e muitas vezes vos impeliu a cometer erros».

Alguns reclusos prepararam, como presente para Francisco, um báculo de madeira de 190 cm de altura coroado por um crucifixo no topo, que pode ser dividido em quatro partes. Outros detidos organizaram uma pequena orquestra denominada "Livres na Música" para oferecer a Francisco um pequeno apontamento musical.

Após a visita à prisão, o papa teve um encontro com «o mundo do trabalho», e à tarde preside à missa em Ciudad Juárez. A cerimónia de despedida, no aeroporto da cidade, está apontada para as 19h00 (2h00 da madrugada em Portugal continental). A agenda prevê para as 13h45 (hora de Portugal continental) de quinta-feira a chegada a Roma.



Andrea Tornielli/Vatican Insider; Rádio Vaticano 
Trad. / edição: Rui Jorge Martins, tirado daqui

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Dos processos de canonização

Night Time Streets (fotografia tirada da net)


Ad honorem Sanctae et Individuae Trinitatis, ad exaltationem fidei catholicae et vitae christianae incrementum, auctoritate Domini nostri Iesu Christi, beatorum Apostolorum Petri et Pauli ac Nostra, matura deliberatione praehabita et divina ope saepius implorata, ac de plurimorum Fratrum Nostrorum consilio, Beatum N. Sanctum esse decernimos et definimos, et Sanctorum Catalogo adscribimus, statuentes eum in universa Ecclesia inter Sanctos pia devotione recoli debere.

É esta a fórmula que o Papa usa ao proclamar um santo. Em português dir-se-ia assim:

Em honra da Santíssima Trindade, para exaltação da fé católica e incremento da vida cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, e com a Nossa autoridade, depois de ter meditado detidamente, de ter invocado repetidamente a ajuda divina e de ter escutado o parecer de muitos Irmãos nossos no Episcopado, declaramos e definimos Santo o Beato N., incluímos o seu nome no Catálogo dos Santos e prescrevemos que em toda a Igreja seja honrado como Santo.

Este texto vem na sequência de uma notícia que apanhei por aí, que dava conta de ter sido identificado um milagre atribuível a Madre Teresa de Calcutá. Havia um vídeo anexo ao qual, confesso, não prestei a menor atenção. Ainda tenho na memória outros milagres atribuíveis a João Paulo II ou aos pastorinhos de Fátima: gente que se cura não sei de quê, ou que não fica cega (ou recupera a vista) depois de observar uma notícia na TV ou se atirar a uma oração mais devota.

Não sei o que está por trás desta regra da Igreja para a proclamação de beatos e santos. Tenho ideia de me terem dito que data da Revolução Francesa, e da necessidade da igreja dar uma nota de sobrenatural / inexplicável / divino a alguns acontecimentos. 

Não tenho, confesso também, devoção por santos. Tenho admiração por eles – pelas suas virtudes heróicas, pelo seu martírio em nome da fé, por uma vida inteira dedicada ao próximo. Para isso, no entanto, os santos têm de ser-me razoavelmente contemporâneos. As bondades do Santo Condestável dizem-me pouco, talvez mesmo nada. Frei Bartolomeu dos Mártires goza de um estatuto privilegiado para ascender aos altares. Viveu no início dos séc. XVI... Na outra ponta do espectro, Madre Teresa de Calcutá viveu na minha época, assim como João Paulo II. Maximiliano Kolbe, que dirá pouco ao conjunto dos portugueses, morreu num campo de concentração, oferecendo-se para que um companheiro de caserna não tivesse esse destino. São gente do séc. XX, cujas vidas são contadas (quase) em directo, de quem tiramos virtudes actuais, modernas, dos dias de hoje e requeridas pelas realidades de hoje.

Não consigo rezar aos pastorinhos de Fátima nem a S. Judas Tadeu que me foi sugerido em 2001, ano de todos os acontecimentos. No dia dos meus anos a Igreja lembra S. Higino, papa e mártir. Fixo a efeméride por graça, porque o santo está tão longe no tempo que não constitui um exemplo a imitar.

Discordo do processo de canonização seguido pela Igreja. O grande milagre da Madre Teresa não foi uma feliz mortal que, nos confins não sei de onde, foi beneficiada por uma luz que só ela viu e que a ciência ainda não explica. O milagre de Madre Teresa é a vida dela entre os pobres dos mais pobres; o milagre da vida dela são os milhares de abandonados que recolheu, a fome que ela passou para que os outros não a passassem; o milagre da vida dela são as vocações que gerou, a multidão de raparigas e mulheres que, por esse mundo fora, deixaram tudo (e eu conheço uma, amiga da juventude) porque foram tocadas por ela, pela sua obra e Amor ao próximo.

JdB

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

"A felicidade é uma escolha"

A felicidade é uma escolha. A frase, dita por um guru qualquer ou por um desses especialistas em coaching ou orientação para a vida, parecer-me-ia um fortíssimo lugar-comum.  Mas a frase foi dita pelo António, que tem 23 anos e que aos 12 era praticante assíduo de ténis, natação e equitação. Os cavalos numa base diária - e tudo o resto, aliás - ficariam cortados quando lhe foi diagnosticada uma Atrofia Muscular Espinhal Tipo III, uma doença neuromuscular rara e progressiva que provoca a degeneração dos músculos. O António deu-nos o seu testemunho esta 2ª feira no Porto, no seminário da Acreditar sobre cancro infantil. Riu-se, fez-nos rir e comover, contou com voz alegre e despreocupada porque frequentara três cursos em dois meses - ou não havia tempo para tudo ou, para o tempo que lhe restava, já tanto faziam as opções. Fixou-se em Agronomia, onde frequenta o Mestrado. Circula com dificuldade e faz o curso, disse-nos, graças aos amigos que o ajudam a levantar-se da cadeira ou a subir escadas, que o levam às cavalitas se for preciso. E foi com eles, que eu conheci, que se deslocou ao Porto. Acompanhado de uma cadeira de rodas a quem chama Inácia II, que a primeira já foi.

O seminário foi atravessado por testemunhos semelhantes ao do António. Gente com leucemia ou tumores cerebrais, com maiores ou menores hipóteses de cura, que sobreviveram, fizeram-se à estrada, cresceram, voltaram à Acreditar para fazer voluntariado ou para encontrar um sentido para a vida, tiraram cursos para ser alguém, para retribuir o bem que lhes foi feito ou, num caso falado, para, como médico, estudar o tumor que o atacou. Engenheiros, enfermeiros e médicos (muitos, muitos) psicólogos. Mas gente que, apesar das possíveis e fortes sequelas, cresceu, se apaixonou (um caso surpreendente, mencionado com alegria) ou que casou com quem padeceu do mesmo mal. Gente que se confronta com seguros de vida mais difíceis, com dificuldades na crédito às casas, com um passado oncológico cujos efeitos no presente são incertos, porque a história de cada um se perdeu nos arquivos de um hospital.

Em todos eles há uma nota de alegria normal. Afinal sobreviveram a uma doença que arrasava no tempo em que a tiveram. No entanto, a alegria não é um contentamento bacoco de quem está vivo. A alegria vem de dentro, não de órgãos saudáveis, mas de corações repletos de esperança, de vontade de ajudar, de segurar a mão das crianças a quem é diagnosticado uma leucemia ou coisa semelhante: olha para mim! Passei o mesmo que tu e estou vivo. Tu também vais conseguir!  Gente animada, apesar de uma dor de cabeça persistente ser um sufoco de angústia, uma dor na perna um presságio de internamento, a história de uma recidiva passados 15 anos um condenação inesperada. Gente - e aconteceu a alguns - a quem foram previstos meses de vida para estarem cá passados tantos anos, e que desafiam esta ideia das mortes certas encurtadas por via legislativa.

Termino com um lugar-comum, que o estabelecimento é meu, afinal. Ir ao Porto para falar de oncologia pediátrica é sempre um desafio interior. Dinamizar uma mesa onde estavam três sobreviventes (expressão detestada por toda a gente porque a vida deles foi inteira, lutada, vivida, cheia) é sermos confrontado com a necessidade do pudor nalgumas queixas que sempre nos saem; é sermos confrontados com o desafio de aproveitarmos o que a vida nos dá de bom, porque a muitos a vida foi madrasta que custou vencer.

Se o António, de mãos inseguras e passos incertos, consegue dizer a sorrir que a felicidade é uma escolha de cada um, por que raio nós, com vidas fagueiras e simples, confortáveis e esperançosas, havemos de dizer que não é bem assim, que temos tantas chatices...

***

Deixo-vos com um video lançado a 15 de Fevereiro, dia Internacional da Criança com Cancro. Cerca de 900 000 crianças colaboraram, em todo o mundo, para que o resultado final fosse este. No youtube encontram-se muitas contribuições individuais, nomeadamente de Portugal

JdB

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

As escolhas musicais do gi

# 8 Junior Boys, Big Black Coat

Anos depois, eis que os nossos adorados rapazes estão de volta. Blips e bleeps, romantismo anacrónico, experimentalismos elegantes, sempre ao serviço do formato canção, como se um "crooner" do século passado encarnasse num avatar equipado com inteligência artística virtual. Música indefinível, de infalível apelo rítmico e de um bom-gosto inexpugnável. Líderes dos "Novos Românticos do Século XXI", se porventura tal movimento existisse. 



***

# 9 Benjamin Clementine, Cornerstone

Talvez a revelação do ano, em palcos, e em muito do "airplay", nacionais, o rapaz Benjamin é dono de um voz que é, como dizia o outro, colossal. Sofrida, vivida, apesar da juventude biográfica, arrancou pedaços de si que nos arrancaram pedaços de nós. Não somos dos que ficaram rendidos, mas sabemos reconhecer que canções como esta "Cornerstone" estão muito para além da espuma dos dias.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Dia Internacional da Criança com Cancro



Esta manhã estou no Porto, no sábado estarei em Lisboa. Há pouco mais de uma semana (a convite do núcleo local da Liga Portuguesa Contra o Cancro) estive numa escola em Abrantes. O tema é o mesmo - o cancro infantil. Em Lisboa e Porto estarão presentes médicos, jovens recuperados, voluntários, profissionais, enfermeiros e psicólogos, Pais e assistentes sociais. 

Hoje, mais de 80% das crianças ultrapassam os cinco anos de sobrevivência; na década de 70 eram apenas 58%. Só descansaremos quando atingirmos o número mítico dos 100% e quando a Acreditar  - Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro - desaparecer por falta de utilidade. 

JdB

domingo, 14 de fevereiro de 2016

1º Domingo da Quaresma

EVANGELHO – Lc 4,1-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus, cheio do Espírito Santo,
retirou-Se das margens do Jordão.
Durante quarenta dias,
esteve no deserto, conduzido pelo Espírito,
e foi tentado pelo diabo.
Nesses dias não comeu nada
e, passado esse tempo, sentiu fome.
O diabo disse-lhe:
«Se és Filho de Deus,
manda a esta pedra que se transforme em pão».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Nem só de pão vive o homem’».
O diabo levou-O a um lugar alto
e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra
e disse-Lhe:
«Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos,
porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser.
Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Ao Senhor teu Deus adorarás,
só a Ele prestarás culto’».
Então o demónio levou-O a Jerusalém,
colocou-O sobre o pináculo do Templo
e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus,
atira-te daqui abaixo,
porque está escrito:
‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito,
para que te guardem’;
e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão,
para que não tropeces em alguma pedra’».
Jesus respondeu-lhe:
«Está mandado:
‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação,
retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Pensamentos Impensados

Importações
Governo alicia para o país das maravilhas.

Exportações
Portugal há séculos que exporta casca de árvore e carne humana.

Horóscopo medicamentoso
Sagitário antes de usário.

Capilosidades
A carapinha é um conjunto de micro-ondas.

Mini-férias
Enquanto o Paulo vai e vem, folga o Costa.

Deputados e o melhor amigo do homem
Nos cães, sarna.
Nos deputados, sorna.

Sentença
Juiz condenou o réu a ver todos os filmes de Manoel Oliveira dizendo: se não tiver paciência... paciência.

Lavar mais branco
Branqueamento de capitais, é crime.

Branqueamento da capital, é virtude.

SdB (I)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Largo da Boa-Hora *

Estou sentado e reparo num grupo de Juízes que se encaminha para uma tarde de julgamentos.
Penosa condição a deles, que condenam e absolvem pelo único critério da lei, não podendo decidir pelo juízo do sentimento, e nem sequer temperar o rigor das normas com os ditames do coração.
Não importa aqui sustentar que a administração da justiça não se poderia fazer de outra forma, sob risco de arbitrariedade, discriminação, desproporção, erro e outras perversões.
Importa-me sim, o sentimento de liberdade que me trespassa por não me sentir agrilhoado a nenhum critério para julgar os outros, quando as circunstâncias da vida me impõem esse acto de avaliação.
Não vale a pena negar: vivemos a julgar outros e a ser julgados por esses mesmos outros. Não há como fugir. Os relacionamentos são feitos de valorações e conclusões, só Pilatos se eximiu, e ainda não é certo…
Julgo, julgamos, constante e repetidamente: amante, família, amigos, conhecidos, colegas, desconhecidos, e todos os outros que não catalogo, de nada valendo dizer que o remédio é não julgar, porque seria o mesmo que dizer que o remédio é não viver. Não sou cínico.
Portanto - e retomando - por contraste com os condenados juízes, estou absolutamente a salvo de ter de ser um mero aplicador das normas, sejam essas éticas, morais, religiosas ou outros cânones que ao caso que esteja em apreço sejam aplicáveis.
Gozo, pois, da liberdade, do direito de em cada julgamento do meu próximo recorrer a esses preceitos, mas, também, de modo cumulativo, alternativo, ou ainda misturando tudo, socorrer-me de outros critérios como o dos sentimentos, os quais, como sabemos, formam um universo cheio de constelações várias, brilhantes: umas, como a compreensão, a compaixão, o perdão, e outras de negrume breu, como o rancor, o ódio, a indiferença e o esquecimento, senão mesmo o apagamento dos vivos – tema a que voltarei.
Em suma, em matéria de julgamento dos outros, somos monarcas absolutos, autocráticos, soberanos, fazemos lei a sentença, e não sentença a lei.
Ilustro para melhor me entenderem: perante uma ofensa, um desamor de que seja objecto, eu posso julgá-lo e proferir sentença como bem me aprouver, ou valorando o acto objectivo e as respectivas incidências e consequências efectivas na minha vida, honra ou aparência, ou, pelo contrário, ater-me no agente, interpretá-lo, senti-lo, reduzir-me a ele ou, ao invés, alcandorar-me a ele, compreender, desvalorizar e, consoante a minha atitude e disposição, consequentemente condená-lo ou absolvê-lo.
Tudo é pois relativo e subjectivo, dependendo casuisticamente da perspectiva que eu mais e melhor valorar no acto de julgar: o acto em si, o agente, o efeito em mim, a opinião dos outros, testemunhas ou presuntivos sabedores do sucedido, os sentimentos que tudo ligam ou nada importam e, sobretudo, o desfecho que eu quero, desejo e gostava para esse julgamento.
Tanta relatividade e tanto poder - que beca imensa – é um máximo, mas constituem também uma responsabilidade, têm um reverso limitativo, como sempre sucede quando há poder.
Esse reverso merece meditação, importa realmente. É crucial que a minha sentença não me desmoralize, que seja pacificadora de mim, segura, justa e oportuna, além de sapiente e digna.
Ora, para tanto, existem crivos a passar, certificações de qualidade, normas ISO.
Em primeiro, estão sempre como crivo os valores que a minha consciência, o meu eu mais profundo, erige em pilares do meu pensamento e do meu sentir, criando uma propensão para a prevalência do justo sobre o injusto, que sempre se aplica a tudo e a todos, e que tem na sua base a teoria do espelho. Tão simples de enunciar como de intuir e, sobretudo, de adoptar como princípio de avaliação: e eu…, já fiz o mesmo, faria o mesmo, poderei vir a fazer o mesmo? E se a resposta for sim… como não ser benevolente?
Por outro lado lado, há sempre uma limitação decorrente da proporção, da equidade, da justeza entre a minha sentença privativa e a sentença que o senso comum, a comunidade, os meus pares de valores e projectos, de “criação”, teriam proferido em iguais circunstâncias. Há, assim, um limite exógeno em que a normalidade impede a bestialidade, o radicalismo, a destemperança, refreando ímpetos justiceiros despropositados que a serem assumidos me colocariam fora da órbita da consideração, respeito e afecto dos pares, merecendo um regicídio – figurado, naturalmente.
Há ainda, e não é despiciendo, uma real e objectiva valoração do comportamento do outro (do réu), confrontando esse com aquele comportamento que lhe seria exigível ou expectável nas circunstâncias concretas de personalidade, tempo, modo e lugar próprios, as quais, quando consideradas, sempre determinam uma medida de julgamento em que as condições reais, concretas desse outro, não são neutras, não fazem dele um elemento abstracto que suporte qualquer sentença. É a prudente pergunta: e eu, se fosse ele, como teria agido, como faria?
Mas, e é aqui que eu hoje quero chegar, o mais importante da minha (das nossas) sentenças privativas é o saber em que medida é que o conteúdo da minha decisão influi no sentenciado e, consequentemente, porque não dizê-lo egoisticamente, também em mim.
Condenação, castigo, ruptura, abandono, desprezo, opróbrio, estigma, esmagam, destroem, encurralam, empurram o sentenciado para o ponto de não retorno, para o irreversível, para o absoluto, para o perdido, para a história do que for que seja. Mesmo a temperada censura tem o inevitável efeito de originar a reacção, a qual defensiva, culpabilizada, sofrida tem, invariavelmente, a desproporção da defesa da “fera ferida”, com as consequências de gerar crescendos, dolorosamente recíprocos, e não apaziguamentos.
Compaixão, perdão, esquecimento, partilha da dor e do erro, abrem uma janela de oportunidade à redenção, ao arrependimento, ao retomar de um desvio, ao relançar de um projecto, à redescoberta de um sentimento, à fé numa possibilidade, à crença numa hipótese de felicidade, de êxito de conjugação, ao sublime conhecimento da maior intimidade do outro, ao revelar, partilhar e sofrer o recíproco “dark side of the moon”.
Este caminho é o mais difícil, duro e até por vezes inatingível, porque exige desprendimento de si próprio, humildade e, sobretudo, verdade no perdão, no esquecimento, no arquivamento definitivo como história de ambos, e não como pena suspensa do outro.
Nãos sejamos tolos, e em nome de uma justiça meramente justiceira, não esqueçamos que ao condenar o outro, a maior parte das vezes estamos a condenar-nos a nós próprios, tanto a ver aflitivamente o outro em suplício e condenado por nós, como a perdê-lo pela condenação que lhe infligimos.
Afinal, só queríamos mesmo que tudo fosse realmente apagado, e está no nosso critério, ao contrário dos desditosos magistrados, absolver como nos aprouver, ainda que mais não seja por Amor, que é um infalível critério.
Julguemos pois com Amor e pelo Amor.

ATM

* publicado inicialmente a 3.12.2008

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2016

1. Maria, ícone duma Igreja que evangeliza porque evangelizada
Na Bula de proclamação do Jubileu, fiz o convite para que «a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus» (Misericordi? Vultus, 17). Com o apelo à escuta da Palavra de Deus e à iniciativa «24 horas para o Senhor», quis sublinhar a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética. Com efeito, a misericórdia de Deus é um anúncio ao mundo; mas cada cristão é chamado a fazer pessoalmente experiência de tal anúncio. Por isso, no tempo da Quaresma, enviarei os Missionários da Misericórdia a fim de serem, para todos, um sinal concreto da proximidade e do perdão de Deus.
Maria, por ter acolhido a Boa Notícia que Lhe fora dada pelo arcanjo Gabriel, canta profeticamente, noMagnificat, a misericórdia com que Deus A predestinou. Deste modo a Virgem de Nazaré, prometida esposa de José, torna-se o ícone perfeito da Igreja que evangeliza porque foi e continua a ser evangelizada por obra do Espírito Santo, que fecundou o seu ventre virginal. Com efeito, na tradição profética, a misericórdia aparece estreitamente ligada – mesmo etimologicamente – com as vísceras maternas (rahamim) e com uma bondade generosa, fiel e compassiva (hesed) que se vive no âmbito das relações conjugais e parentais.

2. A aliança de Deus com os homens: uma história de misericórdia
O mistério da misericórdia divina desvenda-se no decurso da história da aliança entre Deus e o seu povo Israel. Na realidade, Deus mostra-Se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos quando a infidelidade quebra o vínculo do Pacto e se requer que a aliança seja ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade. Encontramo?nos aqui perante um verdadeiro e próprio drama de amor, no qual Deus desempenha o papel de pai e marido traído, enquanto Israel desempenha o de filho/filha e esposa infiéis. São precisamente as imagens familiares – como no caso de Oseias (cf. Os 1-2) – que melhor exprimem até que ponto Deus quer ligar-Se ao seu povo.
Este drama de amor alcança o seu ápice no Filho feito homem. N’Ele, Deus derrama a sua misericórdia sem limites até ao ponto de fazer d’Ele a Misericórdia encarnada (cf. Misericordi? Vultus, 8). Na realidade, Jesus de Nazaré enquanto homem é, para todos os efeitos, filho de Israel. E é?o ao ponto de encarnar aquela escuta perfeita de Deus que se exige a cada judeu pelo Shemà, fulcro ainda hoje da aliança de Deus com Israel: «Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6, 4-5). O Filho de Deus é o Esposo que tudo faz para ganhar o amor da sua Esposa, à qual O liga o seu amor incondicional que se torna visível nas núpcias eternas com ela.
Este é o coração pulsante do querigma apostólico, no qual ocupa um lugar central e fundamental a misericórdia divina. Nele sobressai «a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado» (Evangelii gaudium, 36), aquele primeiro anúncio que «sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese» (Ibid., 164). Então a Misericórdia «exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar» (Misericordi? Vultus, 21), restabelecendo precisamente assim a relação com Ele. E, em Jesus crucificado, Deus chega ao ponto de querer alcançar o pecador no seu afastamento mais extremo, precisamente lá onde ele se perdeu e afastou d'Ele. E faz isto na esperança de assim poder finalmente comover o coração endurecido da sua Esposa.

3. As obras de misericórdia
A misericórdia de Deus transforma o coração do homem e faz-lhe experimentar um amor fiel, tornando-o assim, por sua vez, capaz de misericórdia. É um milagre sempre novo que a misericórdia divina possa irradiar-se na vida de cada um de nós, estimulando-nos ao amor do próximo e animando aquilo que a tradição da Igreja chama as obras de misericórdia corporal e espiritual. Estas recordam?nos que a nossa fé se traduz em atos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no espírito e sobre os quais havemos de ser julgados: alimentá-lo, visitá-lo, confortá-lo, educá?lo. Por isso, expressei o desejo de que «o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina» (Ibid., 15). Realmente, no pobre, a carne de Cristo «torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga... a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós» (Ibid., 15). É o mistério inaudito e escandaloso do prolongamento na história do sofrimento do Cordeiro Inocente, sarça ardente de amor gratuito na presença da qual podemos apenas, como Moisés, tirar as sandálias (cf. Ex 3, 5); e mais ainda, quando o pobre é o irmão ou a irmã em Cristo que sofre por causa da sua fé.
Diante deste amor forte como a morte (cf. Ct 8, 6), fica patente como o pobre mais miserável seja aquele que não aceita reconhecer-se como tal. Pensa que é rico, mas na realidade é o mais pobre dos pobres. E isto porque é escravo do pecado, que o leva a utilizar riqueza e poder, não para servir a Deus e aos outros, mas para sufocar em si mesmo a consciência profunda de ser, ele também, nada mais que um pobre mendigo. E quanto maior for o poder e a riqueza à sua disposição, tanto maior pode tornar-se esta cegueira mentirosa. Chega ao ponto de não querer ver sequer o pobre Lázaro que mendiga à porta da sua casa (cf. Lc 16, 20-21), sendo este figura de Cristo que, nos pobres, mendiga a nossa conversão. Lázaro é a possibilidade de conversão que Deus nos oferece e talvez não vejamos. E esta cegueira está acompanhada por um soberbo delírio de omnipotência, no qual ressoa sinistramente aquele demoníaco «sereis como Deus» (Gn 3, 5) que é a raiz de qualquer pecado. Tal delírio pode assumir também formas sociais e políticas, como mostraram os totalitarismos do século XX e mostram hoje as ideologias do pensamento único e da tecnociência que pretendem tornar Deus irrelevante e reduzir o homem a massa possível de instrumentalizar. E podem atualmente mostrá-lo também as estruturas de pecado ligadas a um modelo de falso desenvolvimento fundado na idolatria do dinheiro, que torna indiferentes ao destino dos pobres as pessoas e as sociedades mais ricas, que lhes fecham as portas recusando-se até mesmo a vê-los.
Portanto a Quaresma deste Ano Jubilar é um tempo favorável para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia. Se, por meio das obras corporais, tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs necessitados de ser nutridos, vestidos, alojados, visitados, as obras espirituais tocam mais diretamente o nosso ser de pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar, rezar. Por isso, as obras corporais e as espirituais nunca devem ser separadas. Com efeito, é precisamente tocando, no miserável, a carne de Jesus crucificado que o pecador pode receber, em dom, a consciência de ser ele próprio um pobre mendigo. Por esta estrada, também os «soberbos», os «poderosos» e os «ricos», de que fala o Magnificat, têm a possibilidade de aperceber-se que são, imerecidamente, amados pelo crucificado, morto e ressuscitado também por eles. Somente neste amor temos a resposta àquela sede de felicidade e amor infinitos que o homem se ilude de poder colmar mediante os ídolos do saber, do poder e do possuir. Mas permanece sempre o perigo de que os soberbos, os ricos e os poderosos – por causa de um fechamento cada vez mais hermético a Cristo, que, no pobre, continua a bater à porta do seu coração – acabem por se condenar precipitando-se eles mesmos naquele abismo eterno de solidão que é o inferno. Por isso, eis que ressoam de novo para eles, como para todos nós, as palavras veementes de Abraão: «Têm Moisés e o Profetas; que os oiçam!» (Lc 16, 29). Esta escuta ativa preparar-nos-á da melhor maneira para festejar a vitória definitiva sobre o pecado e a morte conquistada pelo Esposo já ressuscitado, que deseja purificar a sua prometida Esposa, na expectativa da sua vinda.
Não percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão! Pedimo-lo pela intercessão materna da Virgem Maria, a primeira que, diante da grandeza da misericórdia divina que Lhe foi concedida gratuitamente, reconheceu a sua pequenez (cf. Lc 1, 48), confessando-Se a humilde serva do Senhor (cf. Lc 1, 38).

Vaticano, 4 de Outubro de 2015
Festa de S. Francisco de Assis
FRANCISCUS

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