sábado, 31 de outubro de 2009

Obrigada rapazes!

Sou sem ter querido. Sou o que vocês me ensinaram. Nas vossas entrelinhas faço-me. Nos vossos dias cresço. Tento adivinhar o que querem de mim. Sois os meus irmãos, os que nunca tive. Os amigos de infância, que o tempo levou. Sois dias a fio de festança. Tomo-me de medo que a vida vos finte. Vou acreditar que chegais para ela. Dou-vos pouca coisa, tenho quase nada.

DaLheGas

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Uma espécie de trela

agustina, ao que dizem, não gosta de poetas.
enfastia-se com a mediocridade,
a grandiloquência serôdia,
o pendor falsamente trágico,
o anacronismo cheio de pretensão,
de quem vive em tabernas
afinal inundadas de alegria
e regadas por boa-disposição.

que a boa (mas boa!) poesia
é cinzelada e pungente!,
gravada na pedra e no cimento!,
cheia de gravitas e de pathos!,
ou então prenhe de vida em cascata!,
mas sem efeitos estilísticos fáceis!,
antes sublimação do próprio momento!.

holderlin, blake, byron,
ovídio, rilke, são joão da cruz.
como cotejar a poesia moderna
com tão absolutos cânones?
ai credo, ai Jesus..

entendo-a, minha senhora, como a entendo.
mas deixe-me dizer-lhe uma coisa ao ouvido:
quando num dia de inverno, frio mas bem frio,
precisei de agasalho (e não de um livro),
não me saltou ao caminho um único general das letras,
nem me acudiu nenhum poeta místico,
não me deu a mão nenhum dos insígnes rafaelitas,
nem mesmo o mais romântico dos ultra-românticos.

quem falou comigo, lembro-me com ternura,
foram esses poetas da fealdade e do concreto,
aqueles que rasgam a noite mais escura,
aqueles que iluminam o nosso deserto.

(eu gosto da senhora dona agustina, palavra.
um dia destes até estou a pensar ler um livrito dela.
zomba da poesia, mas acho-lhe imensa graça,
é que certa prosa parece mesmo poesia
mas como que presa por uma espécie de trela.)

gi

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Deixa-me rir...

Ainda rabisquei um texto para acompanhar a minha escolha desta semana. Imaginei uma carta escrita por uma mãe totalmente desesperada que tenta, pela 57ª vez (seria a 57ª carta), recuperar uma filha da inevitável degradação provocada pelo consumo das drogas. Imaginei uma carta pungente, um amor derramado em palavras feitas de dor e de coragem, de perdão e de desespero, de apelo à razoabilidade e de orgulho desmedido por um talento e um carisma inegáveis. Imaginei-me a mãe da Amy Winehouse, a minha escolha desta semana. Mas depois pensei: uma carta desesperada? Mas quem é que quer ler isso? Uma carta duma mãe? Mas eu nem sou mãe! E que sei eu da vida da Amy, para dar algum substrato, alguma consistência a um texto que se pretende minimamente interessante? Pouco ou nada, só as patetices da imprensa sensacionalista ou da televisão … não! Decididamente não escrevo nenhuma carta. Ia ficar uma coisa muito lamechas, muito parvinha…

Não quero nada disso para a minha “convidada”, passo a presunção da expressão, desta semana. De quem sou fã absoluta. Lamento profundamente o caminho que tem seguido. Não acredito que seja feliz e que faça feliz quem a rodeia. Mas a vida tem destas coisas e que sei eu, ou quem sou eu, para a julgar, condenar, criticar, apontar o dedo? Gostava muito que se recuperasse, isso gostava. Sei que o mundo ficava a ganhar. Não acham?






PS1: como hoje escrevi pouco, resolvi incluir dois vídeos. Um mais clássico, mais puro, mais jazz, que exemplifica na perfeição, a meu ver, o tremendo talento da minha “convidada”. No outro, vemos uma Amy mais motown/blues/soul (não sei se estou a definir bem…), com um look muito mais cool, a interpretar um famoso original do Marvin Gaye. De realçar o belíssimo acompanhamento musical da Jools & His Rhythm and Blues Orchestra.

PS2: para me decidir por estes dois vídeos, tive de ver vários (no YouTube), como é óbvio. E tive a MAIOR dificuldade em escolher os que vos queria apresentar. Aconselho-vos a fazer uma pesquisa para a conhecerem melhor…

Confesso que a acho o fim do mundo!

pcp

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O banco de jardim

O cenário sugeria romance. Mãos dadas, palavras suspiradas, olhos apaixonados e a cabeça adormecida tombada no ombro.


Era um banco de jardim, daqueles verde-garrafa, posto no meio da relva, de frente para o lago onde alguns patos pediam umas migalhas de pão. Com quatro pés e corações esculpidos a canivete, igual a tantos outros por esses jardins fora.


Serviu de esconderijo a primeiros beijos nervosos e atrapalhados. Recebeu casais apaixonados que ali passavam tardes em silêncio. Testemunhou juras de amor eterno, que para uns não durou mais que meia dúzia de dias, mas que para outros durou uma vida inteira. Ajudou gestos românticos grandes e sonoros que envolviam um anel de vários quilates e um trio de violinos, ou gestos pequenos como uma flor apanhada num canteiro vizinho. Co-compôs um sem-número de baladas de isqueiro e co-escreveu poemas sobre o azul do céu, o brilho dos olhos e todos esses assuntos importantes para uma alma em estado de graça.


Mas a cena a que assistia agora tinha, ao invés do habitual, pouco de romântico. Ela chegou mas ele não. No seu lugar estava uma carta fechada com o destinatário rabiscado à pressa. Ela abriu-a e leu em voz alta, para o banco também ouvir.


Conta lá onde os escondeste? Fechaste-os a sete chaves no peito, ou largaste-os ao vento para o alguém os apanhar? Em que gaveta da memória ficaram eles trancados? Podes ficar com as noites em branco, com as mágoas afogadas em gelo e limão, com os minutos que gastámos em silêncio, mas os beijos quero-os de volta. Esses são meus.


E foi assim que o banco de jardim, habituado a finais felizes, conheceu o amargo sabor de um fim de romance.


SdB (III)


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A dactilógrafa

Há quem chore de tristeza, há quem chore de alegria. Por vezes é a visão de algo superiormente bonito que nos provoca lágrimas corridas; outras vezes é uma ternura, um encantamento muito próprio, sei lá eu, que nos embacia os olhos. Foi este enternecimento, inexplicável à luz de uma lógica impessoal, que fez Gonçalo chorar, com a boca muito aberta para que lhe entrasse o ar que faltava. Porque Filomena, no quarto ao lado, se despia para ele com um vagar perturbador.

É normal o desejo carnal perante uma nudez que se revela gradualmente – e pela primeira vez - numa proximidade inquietante. Mas o homem, professor de filosofia num liceu dos arredores, não o sentiu em exclusivo. O amor que devotava a Filomena, administrativa no mesmo estabelecimento de ensino, era de uma intensidade tão própria, que chorou. Muitos não perceberiam esta sensação de exaltação que esmaga um coração que teima em bater a descompasso.

Filomena sentia-se observada através de espelhos de portas, algo que não a incomodava. Devagar, como se o mundo dependesse disso, desapertou os botões da camisa. A lentidão era devoradora, mas ela acreditava no cerimonial, no tempo próprio, na habituação dos sentidos à transcendência de uma mulher, jovem e bonita, despojada dos artefactos que cobrem o seu corpo nu.

Gonçalo espiava, sufocado, a mulher por quem se apaixonara. E via mais uma peça de roupa que tombava no chão. E Filomena desnudava-se, rodando o corpo num misto de pudor e provocação para atrasar a revelação total. O professor passara a fase da lágrima de ternura, explodindo por dentro num vulcão de desejos ardentes. Fechou os olhos, no desespero da criança que tem de esperar pela guloseima longínqua. Quando os abriu, Filomena tinha um cabelo longo e ruivo que lhe tapava o peito, e sentara-se de lado numa cadeira, revelando umas costas tentadoras.

Passados alguns minutos, a rapariga levantou-se de forma calculada e ergueu os braços para apanhar o cabelo. Olhou para o namorado, que lhe revelara Platão e Espinosa, e numa voz…

Podemos ficar por aqui, D. Odete? Estou cansado.

Vítor Guilherme olhou para as mãos, deformadas por artroses que o impediam, há anos, de exercer autonomamente o seu trabalho de escritor, e recostou-se. Ao seu lado, Odete Ramires, que casara como costureira para enviuvar como dactilógrafa, cobriu a máquina de escrever eléctrica com um oleado acinzentado. Arrumou a cadeira com cuidado e silêncio e despediu-se numa voz que revelava educação e ódio:

Até amanhã, Sr. Guilherme. Estimo as suas melhoras.

Já na rua, enfrentando um fim de tarde tristemente frio, Odete Ramires, reformada de emoções, sentou-se numa pastelaria para um bolo seco e um galão escuro. A artrose do autor debilitado era-lhe indiferente; os dedos carcomidos pela dor, também; invejou-lhe, com raiva, a imaginação e o facto de o escritor ter outra vida dentro da própria vida. Quando pensou no Gonçalo e na Filomena, em corpos desnudos amando-se no remanso de uma meia-luz, levou a mão ao pescoço, escondendo um camafeu e sufocando um desejo.

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

domingo, 25 de outubro de 2009

É possível cuidar

O fenómeno das multidões é uma realidade bastante estudada e, também, frequentemente surpreendente. Sabemos como são facilmente manipuláveis, como passam da exaltação ao repúdio muito rapidamente. Por isso, é um pouco estranha esta multidão que acompanha Jesus a caminho de Jerusalém, a não ser por ir também celebrar a Páscoa, mais do que para O acompanharem. Depois de várias explicações de que a sua missão irá ter um desfecho trágico e de que o seu objectivo não é o triunfo ou a vitória à maneira dos senhores da guerra, é uma multidão que parece um pouco cega. E também um pouco surda!

De surdo é que o cego Bartimeu não tem nada. Ouve dizer que é Jesus que vai a passar e começa a gritar por Ele. E o seu grito é uma espantosa afirmação de fé: “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim!” Parece que o cego é o único que vê verdadeiramente! Mas o seu grito incomoda a surdez dos que caminham, “estraga” aquela “bonita procissão”. Mas Jesus pára. A multidão não é mais importante do que um cego sentado à beira do caminho. Nenhum grito lhe é indiferente. Veio para escutar todos os gritos, os de quem não vive plenamente livre, dos esquecidos e marginalizados, os gritos até de quem não têm voz. Mais importante do que o caminho e a meta, a eficácia ou o sucesso, é a pessoa concreta que é preciso atender. E cada pessoa tem um nome, uma história, um desejo, um sonho. Mesmo no últimos momentos desta vida, como dizia uma amiga enfermeira, “quando já não se pode curar, é sempre possível cuidar; tratar com dignidade aquela pessoa que não é um objecto nem uma máquina.” Ficar surdo a um grito não é desistir de alguém?

Talvez uma grande tentação seja a de querermos ser “pequenos deuses”. Sofremos quando já não podemos curar (e imagino tantos profissionais de saúde que olham para a morte como uma derrota), gostaríamos de ter a solução para um problema grave, e acabamos por passar ao lado, ou fugir daquilo que nos parece irresolúvel. Será que podemos aprender com Jesus? Quando manda chamar o cego vemos como este já estava iluminado por dentro: deu um salto, largou a capa e correu para Jesus. Não se tinha resignado à situação, e até via mais do que os outros. A pergunta de Jesus é um método: “Que queres que Eu te faça?” Podemos não fazer nenhum milagre mas é preciso escutar e dialogar com quem grita. Quantas vezes o milagre não acontece já dentro de quem sente que afinal tem valor e merece cuidado? O que vale mais para nós: a embriaguez da multidão ou o cuidado de uma pessoa?

Nota: texto do Pe. Vitor Gonçalves enviado por mão amiga.

Mestre, que eu veja

EVANGELHO – Mc 10,46-52

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
quando Jesus ia a sair de Jericó
com os discípulos e uma grande multidão,
estava um cego, chamado Bartimeu, fiho de Timeu,
a pedir esmola à beira do caminho.
Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava,
começou a gritar:
«Jesus, Filho de David, tem piedade de mim».
Muitos repreendiam-no para que se calasse.
Mas ele gritava cada vez mais:
«Filho de David, tem piedade de mim».
Jesus parou e disse: «Chamai-O».
Chamaram então o cego e disseram-lhe:
«Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te».
O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus.
Jesus perguntou-lhe:
«Que queres que Eu te faça?»
O cego respondeu-Lhe:
«Mestre, que eu veja».
Jesus disse-lhe:
«Vai: a tua fé te salvou».
Logo ele recuperou a vista
e seguiu Jesus pelo caminho.

sábado, 24 de outubro de 2009

É Hora Homens


“Passei a beijar os meus amigos”, “é bom beijar homens”, foram mais ou menos palavras de Lobo Antunes, que ressuscitaram o pensamento que tivera poucos dias antes, nem sei a troco de quê, e que voara. As coisas que se esquecem. Mas calhou, Lobo Antunes tirou-me dos fundilhos o que pensara: nesta coisa de as mulheres se beijarem, dos homens e das mulheres se beijarem, de nos cumprimentarmos com beijos, de pais beijarem filhos, os filhos os pais, os tios e os sobrinhos, os avós, os netos, sempre aos beijos... e eles não. Os amigos não, os irmãos também não. Os homens não dão beijos uns aos outros. Pelam-se por beijos, mas não dão. Impõem-lhes rejeitar os beijos masculinos, porquê?

DaLheGas

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

desculpa-me a ternura*

digo-te:
desculpa-me a ternura em que tropeço
a cada instante.
desculpa-me o laços que ato e desato
e assim por diante.
desculpa-me a total falta de esqueleto
a todo o tempo.
desculpa-me a lentidão da alma, de resto,
mais a falha no fermento.
desculpa-me a raiva emudecida e trôpega
em qualquer estação.
desculpa-me a inutilidade doce e sôfrega
ah, meu animal de estimação.
desculpa o versejar melancólico e triste
hábito de criança.
desculpa-me o trovejar intenso e febril
esta falta de esperança.
desculpa-me tudo, melhor, desculpa-me todo

só não me desculpes, nenhuma vez nem mil,
a sobriedade do azul-rosa e do preto-anil,
epigramas infames sob a capa quase dócil,
uma forma de dizer sim com um 'a com til'.

e tu dizes:
s-i-m-o-u-n-ã-o-afinal-então?

e rematas com gelado gelo
este episódio de coroação,
majestosa tristeza soberba,
minha fiel ave de arribação.

gi

* título de poema da por nós mui amada ana luísa amaral.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, this week I have chosen a recent song by an Irish/Canadian band called Vega4. I heard Life is Beautiful during one of my two favourite films so far this year, My Sister's Keeper. The film focuses on two sisters, the youngest specifically born to provide bone marrow and matching organs for her sick older sister. Now aged 10, the younger sister decides to stop being a donor in order to live her own life, and so she takes her parents to court. It is deliberately very sentimental but very moving and very well acted especially by the two sisters.

The song's lyrics can be understood in the context of the ups and downs of our personal relationships but also as a commentary on our planet and the way we abuse our environment. The title says everything; but how often we forget that we live only one life, we take people and the things around for granted, in our busy lives we forget to look up and around us, to take a moment to breathe and notice the things around us; maybe sometimes we see something on the usual route to work which we have never noticed before even though it has always been there...sometimes it is good to choose a different route for a day just to break out of our habits and to perceive something new...

And so I propose two videos, one personal and one environmental. In any case, the song is great!





Life is beautiful
We love until we die

When you run into my arms,
We steal a perfect moment.
Let the monsters see you smile,
Let them see you smiling.

Do I hold you too tightly?
When will the hurt kick in?

Life is beautiful, but it's complicated.
We barely make it.
We don't need to understand,
There are miracles, miracles.

Yeah, life is beautiful.
Our hearts, they beat and break.

When you run away from harm,
Will you run back into my arms,
Like you did when you were young?
Will you come back to me?

I will hold you tightly
When the hurting kicks in.

Life is beautiful, but it's complicated,
We barely make it.
We don't need to understand,
There are miracles, miracles.

Stand where you are.
We let all these moments pass us by.

It's amazing where I'm standing,
There's a lot that we can give.
This is ours just for the moment,
There's a lot that we can give.

A proxima,

po

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pensamentos impensados

Era tão peneirento que quando ia a uma "mesa redonda" queria ficar à cabeceira.

A virgem adúltera era filha de um pai estéril? A confirmar-se é um caso de esterilidade hereditária; já o avô e o bisavô tinham sido estéreis.

Aperto mitral: diz-se de todo aquele que devido ao medo não lhe entra um feijão na "mitra".

A minha canária tentou durante semanas chocar ovos que não estavam "galados"; foi uma cena eventualmente chocante.

SdB (I)

Pensamentos dos dias que correm

Não precisamos de ler, estudar ou conhecer ninguém, quando produzimos nós próprios. Pois não basta que produzamos nós próprios? E gostemos de nós próprios? Que nos pode dar o espírito alheio, quando sobre o próprio nosso desceu em línguas de fogo a sabedoria de tudo? Melhor: A verdade é que nem precisamos nós próprios de produzir (toda a produção é uma limitação), ou mal precisamos de produzir, para usufruirmos as vantagens do criador e produtor. (...) Aprende a contar uma anedota; duas anedotas; três anedotas; quatro anedotas... uma anedota diverte muita gente; quatro anedotas divertem muito mais... aprende a polvilhar de blague todas essas ideias sérias, pesadas, profundas, obscuras, - ao cabo simplesmente maçadoras - com que pretendes sufocar (...); aprende a cultivar aquele subtil espírito de futilidade que ligeiramente embriaga como um champanhe, e a toda a gente agrada, lisonjeia todos, por a todos nos dar a reconfortante impressão de pertencermos ao mesmo meio... estarmos ao mesmo nível; não queiras ser nem sobretudo sejas mais inteligente ou mais sensível, mais honesto ou mais sincero, mais trabalhador ou mais culto, mais profundo ou mais agudo... numa palavra: superior. Sim, homem! aprende a ser como os outros, dizendo bem ou mal de tudo e todos - conforme - sem os excederes nem te comprometeres demasiado; e deixa-me lá esses Proustes e esses Gides e esses Dostoievskis e esses Tolstois (vem aí o tempo em que todos esses jarrões serão levados para o sótão!), deixa-me essa estética e essa mística e essa metafísica e essa ética (já o tempo chegou de se ver a inutilidade e o ridículo dessa pretensiosa decoração), deixa-me lá esses estrangeiros, e essas estrangeirices.

José Régio, in 'Presença, Folha de Arte e Crítica, 1927-1940'

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Trancas à Porta


Subi ao quinto andar do número seis do Largo da Fonte, que é estreito demais para lhe chamarem largo e ainda por cima não tem nenhuma fonte, nem sequer um chafariz, ainda que avariado, como os do jardim do meu bairro, que não matam a sede mas apaziguam a vista a quem gosta de ver a rua arranjada. É importante embelezar a nossa freguesia, diz sempre o Aníbal presidente, com a cabeça tão inchada que ameaça explodir o colarinho e, sem abusar da sorte, tudo o que mais se encontre perto dele. É um idiota.

Quando eu era rapazola subia estes degraus duma corrida só, carregado de recados, no tempo em que tu não existias aqui. Quando a Fátinha costureira morreu, uns dias a seguir à minha mãe, fiquei de vir cá recolher os trapos que, além de já não poderem ser remendados, não tinham para quem voltar. O Aníbal amolgou-me as costas nessa semana, Tentar perceber essas coisas vai deixar-te idiota, proclamou ele quando me apanhou a dois terços de uma garrafa de Famous Grouse e de razão entalada entre as aleatoriedades da vida. Penso que, de maneiras diferentes, somos iguais aos olhos um do outro, eu e o Aníbal.

Foi com o fim do whisky e, por coincidência, da comida do gato, que decidi ir até ao quinto andar, que entretanto já era teu, não por querer recolher o resto dos pedaços da mãe que ainda estavam espalhados pela vizinhança, mas principalmente porque, se queria voltar a sair à rua, precisava das Levis 501.

Não toquei à campainha porque, como tentei explicar-te entre objectos voadores de dimensões diversas e arestas ameaçadoras, não esperava que estivesse alguém para me abrir a porta. Tinhas as minhas calças vestidas e os teus pés espreitavam dos dois pares de dobras que tinhas feito para não tropeçar. Nunca tinha visto uma rapariga andar descalça como eu, foi uma agradável surpresa, apesar do estardalhaço. Disseste-me que sorri quando olhei para ti, e que só reparaste que não tinhas parado de lançar coisas quando eu me encolhi no chão. Não te queria acertar, dizias aflita, Mas também, porque é que entraste assim aqui em casa, continuavas, Mas espera lá, quem és tu?, não esperavas pelas respostas que eu não conseguia dar, que a dor era daquelas que vêm de onde só os homens sabem.

Acabaste por me oferecer um lugar no sofá, onde acabei por perder o tino às horas.

Subi ao quinto andar e, pela primeira vez ao fim de oito meses, não tens a porta entreaberta. Dei a volta à fechadura, como fiz da primeira vez que aqui vim, e não houve nenhum tipo de recepção, nem objectos voadores nem braços leves à volta do pescoço, nem sequer o, Estou aqui, que costumavas cantar quando estavas na varanda. Chamei por ti e fiquei à espera de ouvir o segredo dos teus pés descalços, num passo leve e feliz de quem esteve à espera, fiquei parado durante um tempo que não sei dizer. Estas fechaduras já não se usam, disse o Jorge da polícia, Qualquer artolas podia ter entrado, e com a maldade que anda praí...

Tentar perceber essas coisas vai deixar-te idiota, disse o Aníbal da última vez que o vi. Resolvi continuar por aqui, mas não sei se tenho coragem de ir buscar as minhas Levis 501 outra vez.

ZdT

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Prémios imerecidos


GJ, num exercício de consideração actualmente sub-equatoriana, mimoseia-me com o prémio supra. Para poder ser fidelíssimo depositário deste galardão devo cumprir algumas regras, nomeadamente três, sendo que a do meio consiste em referir três (sempre este número bíblico) situações de conflito que me levaram ao divã (o de casa, porque os outros, mais especializados, nunca frequentei). Ora, são eles:
- quando percebi que os desaparecimentos não obedeciam a uma regra lógica (ou pelo menos desejável) e que eles iam, por vezes, antes de nós.
- quando senti que o provérbio que termina em nem mal que nunca acabe me soava a disparate por duas vezes no espaço de dois anos;
- quando me confrontei com a possibilidade de ter criado um deserto de entusiasmos dentro de mim, arriscando-me a não vislumbrar os vários oásis que a vida me ia oferecendo.
Quanto à terceira regra... Posso pensar mais um bocadinho?

JdB

O inteligente

Sim, sim. Inteligência, claro. Olha…

Era de madrugada, e Gaspar ouvira este princípio de frase que se imobilizara no cérebro como uma folha teimosa num remoinho de Outono.

Gaspar, o nosso protagonista, tinha-se formado com seriedade no Instituto Superior Técnico. Como sempre acontecera ao longo daqueles cinco anos, corria para enxergar, em duas pautas, em dois pavilhões, as notas dos dois cursos que tirara em simultâneo. Como costumava dizer

temos dois olhos, dois hemisférios cerebrais, dois ouvidos, duas mãos, duas pernas…

e isso era, para si, argumento bastante para a empreitada. Dupla, diga-se de passagem.

Considerado um homem superiormente inteligente, discorria com propriedade sobre qualquer assunto, vivendo nesse limbo que separa, por vezes, a cultura da informação. Ria pouco e o sorriso, quando se abria, era mais um esgar de espanto por ver amigos e colegas gargalhando com uma série cómica, um filme ligeiro, uma anedota. Mas Gaspar, na sua seriedade, tinha a mente noutro lado. Enquanto os camaradas de curso se afadigavam a ver de onde partia a bola (eufemismo para ilustrar a vida em geral, com as suas tendências científicas, propensões literárias, pendores médicos) Gaspar contraía os olhos que todos temos na mente e sabia para onde seguia o esférico cuja partida os outros descortinavam.

O mundo girava e Gaspar, com um bilhete comprado no carrossel da vida profissional, sentia que tudo era uma espiral ascendente. De estagiário passara a contratado a prazo; num feliz Natal fora presenteado com o ingresso nos quadros; quando o conheci em casa de amigos comuns (moramos todos num raio de mil e quinhentos metros) Gaspar era director-geral da empresa. Continuava a não sorrir, mas talvez achasse isso dispensável face a um carro fabricado ontem, a um cartão do ouro mais fino, a férias em lugares impossíveis, a contactos internacionais ao nível da excelência.

Solicitei-o várias vezes para me resolver pequenos problemas domésticos: uma torneira irrequieta, um gás natural sem chama, uma disfunção num reóstato. Sempre prestável e solícito, percebia-se que observava a dificuldade com um duplo olhar (dois cursos, duas mãos): o olhar do cientista que pré-examina o problema à luz do conhecimento teórico e o do homem que não ri, porque aqueles que riem não sabem o que é um reóstato.

Sim, sim. Inteligência, claro. Olha…

Gaspar atentou na nudez de Marília quando ela se levantou da cama. Uma nudez alva num corpo vagamente franzino mas proporcionado, que o acompanhava em noites lentas de há alguns meses para cá. A rapariga fascinara-se por uma inteligência superior e séria que não se perdia em miudezas quotidianas, porque havia o futuro da humanidade, o aquecimento global, a escassez da água, as radiações nocivas, o trânsito caótico.

Sim, sim. Inteligência, claro. Olha… Mas és capaz de me fazer rir?

Gaspar foi desgraçadamente clarividente. Os outros veriam de onde saía a Marília. Gaspar – com os seus dois hemisférios – já percebia para onde ia a ex-fascinada. Quando lhe viu as costas desnudas por onde gostava de passar uns lábios sérios percebeu que, pela primeira vez, tinha chumbado no exame.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto que devia ter sido publicado sábado no Porta do Vento mas que não foi devido a obras de restauro no dito.

domingo, 18 de outubro de 2009

O "ranking" da Felicidade

A expressão já é conhecida. Existe mesmo um organismo chamado “World Database of Happiness”, cujo objectivo é desenvolver estudos que possam medir o grau de felicidade das nações. Naturalmente que os países com melhores condições de vida, nomeadamente países do norte da Europa, ocupam os lugares cimeiros da tabela. Não se podem absolutizar estes estudos porque inúmeras são as situações humanas que geram felicidade ou infelicidade. Mas eles ajudam a perceber que as atitudes individuais, e em especial a capacidade de viver em equilíbrio e de estabelecer objectivos, contribuem para a transformação de cada um e de todo um grupo social. O que torna mais verdadeira ainda a frase atribuída a Santo Agostinho: “uma alma que se eleva, eleva o mundo”.

Ainda nos rescaldos dos conflitos em torno da educação foram conhecidos os “rankings” das escolas. A exigência é uma tónica constante dos melhores resultados. Mas não deixaram de me interpelar dois tipos de afirmações, recolhidas por um jornal, em duas escolas católicas. Numa delas, uma aluna afirma: “Os nossos professores ensinam-nos a ser as melhores em tudo”, e outra diz: “Ficar em primeiro é mais um orgulho do que responsabilidade.” “Ser as melhores em tudo” terá certamente um sentido de exigência e de trabalho, mas traduzirá uma sã competição e uma correcta visão da realidade? Mas a afirmação que me inspirou foi a do director de outra escola: “Eu quero que os meus alunos sejam os primeiros no ranking da felicidade.” Gosto mais desta perspectiva, feita também de exigência, mas que tem em conta a totalidade da vida.

É de admirar a coragem do pedido de Tiago e de João. E, para além da tentação primeira de os julgarmos soberbos e desejosos de poder, gostaria de pensar que pode traduzir o desejo de estarem próximos de Jesus e de, com Ele, exercerem também uma função de serviço. Como se fossem “primeiros-ministros” (que, na realidade, quer dizer “primeiros a servir”)! Mas o que me encanta é o modo como Jesus acolhe este pedido e faz dele ocasião para um compromisso com a sua vida e missão. “Beber o cálice” e “ser baptizado” tem o sabor da Páscoa, o sabor de uma vida entregue para a felicidade de todos. E será essa a lição para todos os discípulos: se queremos um “ranking” do seguimento de Jesus e da sua amizade, “servir e dar a vida” é o termo de avaliação. “Sentar-se” e acomodar-se a práticas vazias, ou correr para “ser os melhores” (talvez sem olhar aos meios e aos outros!) tem pouco a ver com isso. Que felicidade procuramos?

Nota: texto do P. Vítor Gonçalves tirado daqui.

XXIX Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 10,35-45

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Tiago e João, filhos de Zebedeu,
aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
«Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir».
Jesus respondeu-lhes:
«Que quereis que vos faça?»
Eles responderam:
«Concede-nos que, na tua glória,
nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda».
Disse-lhes Jesus:
«Não sabeis o que pedis.
Podeis beber o cálice que Eu vou beber
e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?»
Eles responderam-Lhe: «Podemos».
Então Jesus disse-lhes:
«Bebereis o cálice que Eu vou beber
e sereis baptizados com o baptismo
com que Eu vou ser baptizado.
Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda
não Me pertence a Mim concedê-lo;
é para aqueles a quem está reservado».
Os outros dez, ouvindo isto,
começaram a indignar-se contra Tiago e João.
Jesus chamou-os e disse-lhes:
«Sabeis que os que são considerados como chefes das nações
exercem domínio sobre elas
e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder.
Não deve ser assim entre vós:
Quem entre vós quiser tornar-se grande,
será vosso servo,
e quem quiser entre vós ser o primeiro,
será escravo de todos;
porque o Filho do homem não veio para ser servido,
mas para servir
e dar a vida pela redenção de todos».

sábado, 17 de outubro de 2009

Ide Bloyeurs, espairecer


Toma-se a estrada da Beira e onde o Alva e o Alvoco se misturam, sobe-se à Aldeia das Dez. É lá que se encosta essa quinta. Sete hectares viçosos.

É já crescido na vida de hotel rural. Fez onze anos que a Quinta da Geia abriu ao turismo. Uma história diferente, gente de fora, um outro jeito de receber. Holandeses, são holandeses os proprietários que adquiriram o que restava desta casa agrícola beirã e a dotaram a este fim. Homens, são homens, esses holandeses que em anos idos escolhiam Portugal para férias e a cada vinda sentiam-no um “país intrigante”.
- Intrigante Fir?!
- Sim. Não em Lisboa ou no Porto… as cidades são todas iguais. Entre Lisboa e Amesterdão, não há grandes diferenças. No meio rural, claro.
Acabei sem informações exactas sobre que “intrigas rurais” inspiraram Fir a escrever aquela frase.
A Aldeia das Dez é património qualificado de histórico, fixou 10 famílias na sua origem, e viveu na dependência desta casa agrícola da Geia desde o século XVIII. Era a fruticultura a grande aposta e, em 1974, a fama tinha sabor a morango. Vinham daqui os primeiros que apareciam no mercado. Assim se garantiu a aldeia de pão e trabalho, mas a democracia inverteu a vida das gentes, porque a quinta se viu sem rei nem roque. Quando Fir e Frenkel a encontraram, pouco havia. Terra em socalcos, vista para o vale, uma quinta de velho, uma casa em ruína. Era Primavera, a de 1994. Feita a escritura, colabora a tutela na aprovação do projecto de reconstrução e na concessão de um subsídio, e adjudica-se a obra a um empreiteiro local. “Em apenas dois anos o senhor José Ramiro de Alvôco das Várzeas, foi capaz de nos entregar um fantástico hotel. Até os mais pequenos detalhes e acabamentos se encontram perfeitos. E também agora, após anos, não demonstra nenhuma falha.”
… de Alvôco das Várzeas. Dos campos férteis da margem do rio. Intrigante de facto.
Nem falha, nem fuga, nem erro. Por dentro, o hotel é uma beleza. Muito português, muitas vezes imperial europeu, holandês, pois claro, em belos móveis. Rústico e clássico. Aqui velho, ali contemporâneo. Acolá uma época, ao lado outra. Agnóstico e religioso. Fir compra, compra, compra. Carrega, traz, restaura e põe no sítio certo. Encheu a sua planta, inteligentemente traçada e indecifrável numa só corrida, de objectos magníficos, uns de grande valor artístico, outros vivendo só da alma. Fir não despreza uma peça, entende-se com muitos canais do sentir. E consegue levar o conforto à alma.
Sempre gostei da gente da Beira. Sempre me pareceu o povo mais anfitrião da nossa terra. E dão-no aqui à Geia. Genuína e intensamente. Os holandeses captaram-no.
Falei de Fir, o advogado. Ele é mais do hotel, do jardim, da piscina, das relações públicas. Frenkel é o chef e à ementa dispensa o tempo. O seu restaurante “João Brandão” (um fidalgo que deu brado) reúne fregueses vindos de todo o lado. Frenkel tem parança quando a noite cai, entre “submarinos”, cerveja e aguardente directa no estômago. O restaurante é a alegria. Tem hóspedes serenos que jantam, amigos da aldeia que vêm para café, empregados que ainda não se lhes deu a vontade de seguir a casa, tem conversas fáceis e eruditas, pipas de vinho, rótulos de prestígio, e sempre este tráfico de vida sobre digníssimos registos musicais. Cesária, Callas, Piaf, Amália, Marisa, Pavarotti, Boccelli, Glenn Gould, Nat King Cole, Rod Stewart, Brian Ferry...

Hotel Rural Quinta da Geia
Aldeia das Dez, Oliveira do Hospital
http://www.quintadageia.com/

DaLheGas

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

royal straight bluff

estas semanas
têm saído
nem melhores nem piores
nem diferentes
do que
outras semanas.
o tio charlie, o tio philip, e eu próprio,
a jogar às cartas.

razão tinha aquela vizinha de minha mãe:
- cuidado com as futuras companhias
desse rapaz, minha senhora.
saberia ela porventura
qualquer coisa verdadeira,
algo verdadeiramente importante?
ou seria apenas mais uma
simples velhinha,
por circunstâncias da vida
e por mero acaso,
nossa banal vizinha?

estas semanas, dizia,
têm sido
nem melhores nem piores
nem diferentes
do que
outras semanas.
como os poetas, aliás,
e as companhias futuras,
as semanas
escolhem-nos a nós bem mais
do que nós as escolhemos a elas.

bukowski (o tio charlie),
larkin (o tio philip),
e blake (eu próprio):
os três estarolas,
uns irmãos marx desoptimizados,
para deleite
de saraus literários
transbordantes de mentecaptos.

tudo isto são factos.

a velhinha da vizinha é que,
do fundo do seu mundo,
sabia afinal das coisas:
poetas, companhias, semanas.
todos, todas, tudo

patranhas.


gi

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Deixa-me rir...

Like a Rolling Stone é uma canção de Bob Dylan, de 1965, do seu álbum Highway 61 Revisited. Marco importante e revolucionário da música pop mundial, constou do repertório musical de mega artistas como os próprios Rolling Stones, Jimi Hendrix, BB King, Bob Marley, Lenny Kravitz e Noel Gallagher.

Escolhi, no entanto, uma interpretação "diferente" e que me agrada muito. Não será a melhor, sobretudo para os puristas de Bob Dylan, mas eu gosto muito dela. Adoro a suavidade da melodia e chega a comover-me a forma como é cantada. Tão sentida, tão pungente, tão delicada também .... Acho-a particularmente interessante porque é cantada por uma mulher (Barb Jungr) a quem uma vez ouvi dizer, no palco do Almeida Theatre, em Londres, que iria cantar Bob Dylan até morrer. Tirassem-lhe tudo e todos, mas não o Bob Dylan.

Agrada-me seguir, devagarinho, a história de alguém que é abandonado à sua triste sorte, tal qual uma pequenina pedra rolante num qualquer caminho, depois de ter estado nas alturas, bebido champanhe e rido alto das misérias alheias. Gosto de canções com letras fortes e interpelativas, que falam da condição humana e das "quedas" que abrem caminhos para a descoberta da fragilidade que nos torna irmãos.

E adoro o acompanhamento musical, a simplicidade do arranjo, e a vibração teatral e intensamente sentida da intérprete.



Acrescento também a versão original do Bob Dylan para que me digam se a Barb Jungr a assassinou. Em meu entender, acrescentou-lhe dramatismo e novos picos de emoção…. mas isso sou eu!



Ah, é verdade, tudo se passou no Barbican Hall, em Londres … e o PO, meu partner no Deixa-me Rir, odeia a Barb Jungr! Acha que ela não sabe cantar Bob Dylan. Pois eu acho que sabe. E muito bem. Ouçam o álbum “Every Grain of Sand” e depois digam-me …

pcp

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O caubói

Puxou as rédeas e o cavalo parou de imediato. Tinha sido um dia cansativo, para ele e para o cavalo. Mas este nunca abrandou o passo, seguiu sempre a galope em direcção a Oeste. O dono saltou para o chão, passou-lhe a mão pelo focinho e encheu o balde com água. Era um Mustang castanho, daqueles nascidos e criados debaixo do sol abrasador do deserto que leva muitos homens à loucura de verem o que não existe.

Depois de lhe dar de comer e de beber, o caubói encostou-se a uma pedra. O sol já se punha, e o calor que ferve durante o dia dá lugar a um vento mais frio que vem de Norte. Mas, muito desse calor é agarrado pelas pedras que pouco a pouco o vão deitando cá para fora durante a noite. Era por isso que ele procurava sempre um sítio rochoso para dormir e fugir ao frio.

Estava a meio caminho do seu destino, uma cidade de que tinha ouvido falar. Não sabia o nome, apenas que, andando para Oeste, era a primeira no mapa. Prometeram-lhe que lá encontraria facilmente trabalho e uma cama. Ouviu também dos bordéis com as mulheres mais bonitas de todo o Oeste, e dos saloons com o melhor whisky da América. Por isso ia para lá o mais rápido que conseguia. Se dependesse dele, continuaria a cavalgar durante toda a noite, mas, no escuro, a orientação tornava-se mais difícil. Decidiu então parar e esperar que o sol nascesse.

Tirou o chapéu da cabeça e pousou-o no chão virado para baixo. Com o lenço que levava ao pescoço limpou o resto de suor da testa e pendurou-o num ramo seco. Tirou o revólver do coldre, um .38 tipicamente americano, abriu o tambor e deixou cair as balas no chão. Soprou para tirar a poeira que durante o dia fica presa nos cantos mais apertados, e limpou o cano por dentro e por fora. Nunca tivera de o usar, mas não queria arriscar a que no dia em que o chamassem a um duelo a arma encravasse nas mãos. Não seria uma pedra ou poeira teimosa que lhe assinariam a sentença de morte.

Puxou do cachimbo e do tabaco. Encheu um copo com Jack Daniels, o seu amigo mais fiel, e bebeu tudo de um trago. Pensava nos saloons, com um piano desafinado em que qualquer um se sentava para tocar, e nos balcões compridos do bar onde canecas de cerveja iam deslizando de um lado para o outro. Imaginava-se a conhecer a mulher mais bonita da cidade, presa contra vontade por um bandido sem sentimentos. E esse, derrotá-lo-ia num duelo, ganhando a donzela. E assim ia enganando o tempo até adormecer, entre whisky, sonhos e nuvens de fumo.

Uma buzina estridente tocou, e tanto o caubói como eu acordámos. Ainda com os olhos meios fechados olhei pela janela e percebi que tinha chegado ao Cais do Sodré. Dormira durante a viagem toda. No comboio das 07:07 da manhã o melhor a fazer é sonhar. Tirei o iPod do bolso para ver o que estava a tocar. Não só tinha sonho, como banda sonora.

SdB (III)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A garagista

Começara com o Meccano dos irmãos mais velhos depois de ter sentido a magia do Lego, não para a construção de casas, mas para a concepção de espaços industriais – “fábricas para fazer coisas”, como dizia - numa idade em que a normalidade estatística recomendaria o desejo do sexo oposto.

Passara, então, para os electrodomésticos. Numa primeira fase, com a perspectiva da autópsia e, numa segunda, com uma dimensão de curandeiro. Acabaria, se é que a expressão se pode utilizar em quem está no início da vida, a esmiuçar carros, numa dissecação cientista dos vários órgãos.

O curso de engenharia mecânica veio como corolário lógico de uma mente e de umas mãos voltadas para as máquinas e equipamentos, electrónica e circuitos afins. Quando se instalou no bairro provocou aquela estranheza que por vezes antecede o respeito ou o sorriso. De facto, não era costume ver uma mulher – ainda para mais relativamente nova – à frente de uma oficina de automóveis.

Mas Andreia, com uma cara bonita num corpo equilibrado, impôs-se num mundo quase exclusivamente masculino. Se fosse preciso gritava, descompunha um empregado, falava-lhe de igual para igual – em termos de conhecimento, é claro, porque a hierarquia nunca foi questionada. Este convívio indiferente só com homens, totalmente imune a olhares concupiscentes de clientes e mecânicos (porque a relação profissional não inviabiliza o desejo) acabou por sujeitá-la a algumas suspeitas de orientação de vida íntima menos ortodoxas… Tornara-se, acima de tudo, numa mulher dura e intransigente.

Duas vezes por mês, no recato de sua casa, Andreia recebe Madame Odille, uma francesa que tem o privilégio de umas mãos de fada e de uma sensibilidade de artista. Durante uma hora e meia a garagista aprende tudo o que é possível sobre pintura: os estilos, a história, a aguarela, o pastel, o lápis. Tem uma única exigência: os últimos trinta minutos são dedicados em exclusivo ao retrato, mesmo sem a presença de um modelo. Nos olhos de Madame Odille há um cintilar de desconfiança sempre que olha para um esboço ou uma obra acabada. É como se houvesse uma qualquer nota dissonante, ainda que essa dissonância esteja numa constância a que alguns chamarão monotonia. A mestra pressente, mais do que evidencia. Talvez seja dos seus 70 anos, de uma visão menos boa, de uma mão mais incerta, de uma memória que já tem dias.

Na sala onde há muito só entra a professora, Andreia, já sozinha, abre a gaveta da cómoda e espalha os retratos que tem vindo a pintar ao longo do último ano. A evolução é visível: as sombras, a perspectiva, a firmeza e a agilidade, o amor ao preto e branco. Estão lá, se calhar, 20 esboços, uns mais acabados do que outros. São todos do mesmo homem, e quase todos na mesma atitude: uma boca bem desenhada ainda que não especialmente bonita, um cabelo grisalho e ondulado, uns olhos infelizes que se fixam no vago, uma mão que se adivinha abandonada. Andreia vê-os com nostalgia. Põe uma música triste e chora sozinha, abandonada numa ilusão de dureza que ficou à porta da oficina.

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no
Porta do Vento

domingo, 11 de outubro de 2009

Milagres

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Tal como referi em dois posts publicados esta semana, participei numa reunião mundial de vários dias onde se falou - do ponto de vista dos profissionais de saúde e do ponto de vista dos pais - de oncologia pediátrica.

5ªfeira de manhã, à margem do programa delineado, uma islandesa ainda nova propôs-nos uma apresentação sobre um caso que lhe tocava de perto. Não foram mais, seguramente, de cinco minutos: 47 slides, acompanhados apenas de música, sobre a história de um dos seus filhos a quem foi diagnosticada uma leucemia quando tinha nove meses. Poupo quem me lê aos pormenores dos tratamentos, dos revezes, dos avanços. Quando chegou ao fim havia muitos lenços molhados, muitos olhos embaciados, muitos narizes a fungar. Eu era um deles.

Em muitos crentes, um caso destes abate a Fé mais sólida. Questionamo-nos sobre a justiça de Deus que permite o sofrimento de inocentes, duvidamos da bondade de Deus que não poupa a dor de bebés. Não me arrogando o privilégio do esclarecimento, resta-me sorte de acreditar, com toda a minha força, que Deus não é senão amor, e que não está por detrás de doenças nem de curas. A minha opinião sobre os milagres talvez seja pouco ortodoxa, prefirindo pensar que, na generalidade dos casos, muito do que hoje é inexplicável se explicará.

Há alguns anos, no nosso livro Deus pregou-me uma partida, a Rita Jonet e eu escrevíamos:

Os milagres existem, Inês? E como os caracterizamos? Um dicionário diria que milagre é um acontecimento contrário às leis estabelecidas da natureza e atribuído a uma causa sobrenatural. Mas diz também que é um acontecimento que espanta (e a origem latina da palavra vem desta expressão) ou maravilha. A vitória do Homem sobre uma doença que parece incurável é um milagre? A capacidade que nós temos de mudar a nossa vida e de a encararmos de outra forma também é? A predisposição que passamos a ter para ajudar os outros ou a consciência que adquirimos de que a nossa felicidade tem de ser em função do próximo é um acontecimento que maravilha?

Deus não é senão amor. Foi esta certeza, ganha tantas e tantas vezes da maneira mais sofrida, que muitos Pais crentes seguiram em frente na sua luta e na sua esperança. Conheci, esta semana, Pais de crianças que morreram, que sobreviveram, que passam tempos muito difíceis. Todos eles, com ou sem fé, são beneficiários de um milagre - acreditar que nem tudo se esgota no nosso desgosto.

JdB


Os "ricos" e o reino de Deus

EVANGELHO – Mc 10,17-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
ia Jesus pôr-Se a caminho,
quando um homem se aproximou correndo,
ajoelhou diante d’Ele e Lhe perguntou:
«Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?»
Jesus respondeu:
«Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus.
Tu sabes os mandamentos:
‘Não mates; não cometas adultério;
não roubes; não levantes falso testemunho;
não cometas fraudes; honra pai e mãe’».
O homem disse a Jesus:
«Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude».
Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu:
«Falta-te uma coisa: vai vender o que tens,
dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu.
Depois, vem e segue-Me».
Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante
e retirou-se pesaroso,
porque era muito rico.
Então Jesus, olhando à volta, disse aos discípulos:
«Como será difícil para os que têm riquezas
entrar no reino de Deus!»
Os discípulos ficaram admirados com estas palavras.
Mas Jesus afirmou-lhes de novo:
«Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus!
É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha
do que um rico entrar no reino de Deus».
Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros:
«Quem pode então salvar-se?»
Fitando neles os olhos, Jesus respondeu:
«Aos homens é impossível, mas não a Deus,
porque a Deus tudo é possível».
Pedro começou a dizer-Lhe:
«Vê como nós deixámos tudo para Te seguir».
Jesus respondeu:
«Em verdade vos digo:
Todo aquele que tenha deixado casa,
irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras,
por minha causa e por causa do Evangelho,
receberá cem vezes mais, já neste mundo,
em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras,
juntamente com perseguições,
e, no mundo futuro, a vida eterna».

sábado, 10 de outubro de 2009

Qual Par?

não chore menina, não chore. seus olhos se enxugarão, assim que ele torne a vir. torna a vir menina, tudo torna a vir. desde que não chame por nada, enquanto se distrai das coisas, nos dias em que é seu ser. deixe menina, deixe assim. a vida tem seu sentido. ainda que se interrogue, ainda que se pergunte. há-de vir sua resposta.
ri agora, quem a viu. quanto não valeu o pranto. acendeu a sua luz. chega a iluminá-la. sem se fincar para trás. muito bem. há sempre além menina. porque havia de acabar, se este mundo não tem fim? dizem que é só abrir as asas. que cada um tem o seu par. cada um tem o seu par! dizem isso menina. dizem.


DaLheGas

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

da dúvida metódica enquanto bela arte


e de repente vemos o quão frágil é o fio da vida,
o quanto de maravilhoso ela tem, estrela-e-imensa,
contendo em si a pungência mais destemida que
faz do sonhador o próprio sonho, chama-e-intensa.
- numa palavra sem medo e sem dono: desmedida..

--

..ou tudo revelando, por entre grelhados de ocasião,
já dizia o famoso fadista, debicando tremoços estivais.
afinal vida de artista é vida sempre em combustão:
umas vezes, espelhos partidos; outras, esbeltos vitrais.
que digo eu?, e surge a imponente interrogação:
- digo feiras decadentes? ou digo antes.. catedrais?

gi

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Deixa-me rir...

Estimados audiophiles, anglo-philes and -phobes, this week I offer you a contemporary song, to gently wake up the pharaohs (see comentarios for Deixa-me rir, 24 Setembro), with a charming video and a simple universal message of friendship which, I think, may also resonate for some bloguistas who correspond but never actually meet:

I don't know what you smoke or what countries you've been to
if you speak any other languages other than your own
I'd like to meet you
I don't know if you drive, if you love the ground beneath you
I don't know if you write letters or you panic on the phone
I'd like to call you all the same, if you want to, I am game.

I don't know if you can swim or if the sea has any draw for you
if you're better in the morning or when the sun goes down
I'd like to call you
I don't know if you can dance, if the thought ever occurred to you
if you eat what you've been given or you push it round your plate
I'd like to cook for you all the same, I would want to, I am game,


If you walk my way and I could keep my head
we could creep away in the dark or maybe not,
we could shoot it down anyway.


I don't know if you read novels or the magazines
if you love the hand that feeds you
I assume that your heart's been bruised
I'd like to know you
you don't know if I can draw at all or what records I am into
if I sleep like a spoon or rarely at all
or maybe you would do? maybe you would do


if you walk my way I will keep my head
we will feel our way through the dark
though I don't know you I think that I would do
I don't fall easily at all

http://www.youtube.com/watch?v=WSaPbVjcrp4

If you think you recognise Lisa Hannigan's voice, well, she used to sing with another Irish songwriter Damien Rice a few years ago.
The video brings a memory of my very early childhood, during a summer holiday in Magoito (near Ericeira), sitting on my Portuguese great-grandmother's knee while she cut out paper objects, usually sailing boats...

A próxima...

po

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ainda S. Paulo e a Acreditar

Ontem era a gala de abertura dos trabalhos do SIOP - Societé Internacionale de Oncologie Pediatrique -, organismo a que o ICCCPO se junta para as suas reuniões anuais. De um lado os médicos, do outro os pais. No fundo, no fundo, as partes interessadas (para usar uma expressão mais corrente do que afectiva) quando se trata de uma criança com cancro.
O programa social passava por um espectáculo na Sala São Paulo, um belíssimo recinto recuperado a partir de uma antiga estação de caminhos-de-ferro, onde se ouviria música de Tom Jobim, Villa-Lobos, Nepomuceno, Francisca Gonzaga, Ary Barroso. Antes do show, uma multidão afadigando-se de volta de petit riens que se comem, se bebem, se conversam, se riem. Encontrões, apertos, dificuldades em chegar às vitualhas, gente que defende a sua travessa como se não houvesse amanhã. 1200 pessoas, talvez mais, na sua esmagadora maioria médicos da área da oncologia pediátrica. Eu conversava com a sumidade portuguesa, de quase 80 anos, fundador do serviço de pediatria do IPO. E os encontrões, e as sumidades, e os apertos, e os cercos, e a boca seca. E um empregado que, no meio daquele mar de gente, se dirige a mim (sim, a mim e não a quem estava comigo, a quem trato respeitosamente por Senhor Professor) e me diz com um sorriso genuíno:
- Dôtô João! Ali ao lado tem uma sala com menos gente.
Olhei para ele e retribuí o sorriso que acompanhei com um agradecimento. Lembrei-me do Eça, no Conde de Abranhos:
- Bom rapaz, este António...

O post abaixo fala de cancro, de cancro, de cancro. O tema está subjacente em todas as palestras ou trabalhos de grupos, porque é por isso que esta gente se reúne. Quando falamos entre pais imginamos as histórias, as saudades, as expectativas, os desgostos, as pequenas melhoras, os exemplos, os casos de sucesso, a lágrima fácil e sentida. Ontem, ao ver aquelas mais de mil pessoas, entre pais e profissionais de saúde, na sala S. Paulo, imaginei, metaforicamente, o recinto totalmente vazio e a oncologia pediátrica remetida a uma história de memórias antigas, de sorrisos com que brindamos algumas efemérides e lembranças. Ontem vi a vitória à minha frente. E disse três vezes, tantas quantas as que usei para a palavra cancro: esperança, esperança, esperança.
Acreditar é, sobretudo, isto.

S. Paulo (Brasil) e a Acreditar

Cheguei 6ªfeira de madrugada a S. Paulo. Lembro, sem saudade e como primeiro impacto, uma espera de duas horas para sair do aeroporto: filas para a Polícia Federal, para passar a alfândega, para olhar com uma desmoralização ensonada a ausência da minha mala, levada por engano pela Vivian Leite (não, não conheço) que diminuiu a importância das identificações apostas na pega.

Durante o fim-de-semana andei por aí com uma amiga local que me foi apresentando parte das suas rotinas de diversão. Na solitude, também, do viajante que já conheceu mundo acompanhado apenas pelos seus pensamentos, vi arte, lojas, ruas movimentadas, trânsito caótico, esplanadas à beira da Avenida Paulista, gente simpática e afável, preocupações com a segurança, carros trancados e vidros fechados, livrarias que apetece arrematar. S. Paulo será melhor para se viver durante algum tempo do que para veranear por poucos dias.

A partir de ontem o caso mudou de figura. Até ao final da semana represento a Acreditar na reunião anual do ICCCPO, a organização mundial das associações de crianças com cancro.

Na mesma semana almoço regionalmente no cosmopolita e ruidoso Consulado Mineiro, entregando o meu palato (salvo seja) a um rabo de boi estufado com agriões e arroz; passeio pelo parque Ibirapuera onde visito uma exposição afro-americana e o museu de arte moderna; no Astor, lá para a Vila Madalena, provo uma caipirinha de caju e um bolinho de bacalhau; conheço gente local, que me presenteia com um sorriso e um sem-cerimónia.

Na mesma semana, repito, assisto a apresentações de survivors (continuo a não gostar da tradução sobreviventes), oiço falar de tumores cerebrais, de cuidados paliativos, de partilha, de fim de vida de crianças, de cancro, de cancro, e de cancro naqueles que deviam brincar, não ser tratados.

Uma semana de luz e de sombra, de escuridão e de claridade, de esperança e recordações dolorosas. No fundo, no fundo, uma semana que reflecte a vida de muitos de nós, balanceados entre os dois lados de uma mesma moeda. Usando a fórmula com que termino alguns escritos, Acreditar é também isto...

Porque a vida é também música, oiçamos Caetano Veloso explicar como vê S. Paulo.

Adeus, até ao meu regresso...



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Lar doce lar

Antes de começar, quero fazer notar a estratégica cronologia com que inauguro este novo espaço, tão próximo das autárquicas quanto se quer, que o povo tem memória curta. Posto isto, vamos ao que me trouxe aqui.

Já é Quarta-feira, dia da Edite vir cá a casa espalhar o pó com criatividade renovada, redistribuindo com mestria as bolas de cotão pelo chão das diferentes assoalhadas, a seis euros à hora, Que é mais barato que o que por aí se encontra, recordo ter ouvido de alguém entendido.

Uma hora e nove minutos da manhã, o nosso novo e oriental coleguinha, e não estranhem o diminutivo, que o rapaz é uma pessoa de diminuta figura, como todos os seus amiguinhos amarelos, está a cantar com afinco uma qualquer pimbalhada em mandarim, sem nenhum pudor e, ao que parece, com uma maldade desprovida de qualquer remorso, visto já não ser a primeira vez que, com agradável amabilidade, lhe bato à parede, Está calado chinês.

Em toda a sua orientalidade, o educado rapazito diz chamar-se Zé, que é a tradução de Chin Pau Tai, ou Pim Pam Pum, ou uma outra composição trissilábica aleatória, e canta cada vez mais alto, o danado, espero que seja de felicidade, que a ser de tristeza, não havia compaixão que lhe valesse.

Curiosamente, e nem de propósito, hoje, pela hora a que a Edite, com o seu porte de lutador de sumo e a sua dislexia cognitiva aguda, chegar a casa, a única pessoa que vai estar presente para lhe abrir a porta vai ser o Zé Chinês, do alto do seu metro e meio e com o seu raquítico vocabulário lusitano, que se resume facilmente a Sim sim, Tábem, Desculpa e Obrigado. Ninguém, de entre a infinita multidão que constitui o nosso círculo de leitores, será possuidor de uma imaginação tão explosivamente fértil que, assim de umas linhas, consiga criar uma imagem mental capaz de fazer justiça à epicidade de semelhante situação. Mas fica o desafio.

É este o primeiro episódio da nossa nova rubrica, marcada para as terças-feiras, que desta vez assinala o dia em que duas das mais bizarras personagens da cidade se encontram em minha casa, e eu não vou estar presente para ver.


Ora, roubando o término a que o Chefe nos acostumou, Adeus, e até terça que vem.
(Este texto em particular foi publicado, como episódio piloto, num blogue aqui perto.)

ZdT

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O administrativo do rent-a-car

Talvez a farda do dia-a-dia – uma camisa branca, umas calças azuis escuras e uma gravata com o logótipo da empresa - fosse, de facto, o seu salvo-conduto para a pergunta demolidora:

Queres falar sobre essa camisola? E tens a certeza de que gostas dessas meias?

Mas ele não se importava, ou importava-se e sentia a impotência – ou, quiçá, falta de vontade -, para enveredar por um caminho diferente no tocante ao seu guarda-roupa pessoal. E continuava a cruzar riscas com bolas, castanho com verde-claro, azul celeste com cores indefinidas, padrões modernos com tecidos improváveis. Tudo em nome de uma indiferença – ou de uma ignorância.

Os amigos riam-se – sendo que o riso era a sensação que se seguia ao espanto - e sugeriam que ele adoptasse a farda como vestimenta permanente.

Mantém o pijama, se quiseres, por desconhecimento nosso e pouco entusiasmo pela atracção do abismo.

Carlos, o administrativo do rent-a-car de maior sucesso nas redondezas, volta a sorrir com bonomia salpicada com uma indiferença que caracteriza a inteligência de algumas pessoas. Durante a semana usa a sua farda clássica; de noite, ou aos fins-de-semana, dá asas à sua criatividade mais louca - ou mais errada, porque loucura e erro nem sempre caminham juntos.

Para efeitos desta crónica não interessa o resto do calendário. Importa reter todas as últimas quintas-feiras do mês, momento em que o rapaz da visão desgovernada das cores e padrões convida a Cristina para jantar em sua casa. Nesse exacto dia, que se repete com a certeza da lua cheia e das marés, Carlos veste a sua melhor farpela: um fato completo cinzento-escuro, uma camisa azul e uma gravata com um motivo que não passa de moda. Era clássica no tempo do seu pai, será clássica no tempo hipotético do seu filho – imaginando que possa vir a ter descendência. Uns botões de punho discretos dão um toque de classe ao conjunto.

Socorramo-nos, agora, do lugar-comum: há frases que se repetem e que não perdem o seu encanto. Citemos o amo-te, mas, também, o que seria da minha vida sem ti e, nalguns casos, o que seria da tua vida sem mim. Cristina não fugirá à regra. Entra e beija-o numa sala que, embora modesta, está repleta de flores propositadas para aquela noite. Ardem velas aqui e ali, baixou-se a luz aos candeeiros existentes para que a penumbra inebrie os sentidos e convide ao erotismo. Cristina aloja dentro de si sensores que disparam na última quinta-feira do mês em casa do Carlos, empregado no ramo do aluguer de automóveis.

Depois do beijo longo e apaixonado, do aspirar do aroma das flores e das velas de cheiro que ardem romanticamente, a rapariga ajeita-lhe o nó da gravata e sacode-lhe a impressão de uma poeira nos ombros. E repete a frase, porque descobre encanto na rotina de algumas expressões.

Estás muito bem vestido.

Carlos sabe que Cristina é cega de nascença. Mas, mesmo que a inconsciência do mal não configure um pecado, não gosta de imaginar que ela está mentir.

Muito bem vestido, mesmo.

Conheço-o bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

Nota: texto publicado sábado no Porta do Vento

domingo, 4 de outubro de 2009

Orações dos dias que correm







Deixai vir a mim as criancinhas...

EVANGELHO – Mc 10,2-16

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Aproximaram-se de Jesus uns fariseus para O porem à prova
e perguntaram-Lhe:«Pode um homem repudiar a sua mulher?»
Jesus disse-lhes:
«Que vos ordenou Moisés?»
Eles responderam:
«Moisés permitiu que se passasse um certificado de divórcio,
para se repudiar a mulher».
Jesus disse-lhes:
«Foi por causa da dureza do vosso coração
que ele vos deixou essa lei.
Mas, no princípio da criação, ‘Deus fê-los homem e mulher.
Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa,
e os dois serão uma só carne’.
Deste modo, já não são dois, mas uma só carne.
Portanto, não separe o homem o que Deus uniu».
Em casa, os discípulos interrogaram-n’O de novo
sobre este assunto.
Jesus disse-lhes então:
«Quem repudiar a sua mulher e casar com outra,
comete adultério contra a primeira.
E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro,
comete adultério».

Apresentaram a Jesus umas crianças
para que Ele lhes tocasse,
mas os discípulos afastavam-nas.
Jesus, ao ver isto, indignou-Se e disse-lhes:
«Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis:
dos que são como elas é o reino de Deus.
Em verdade vos digo:
Quem não acolher o reino de Deus como uma criança,
não entrará nele».
E, abraçando-as, começou a abençoá-las,
impondo a mão sobre elas.

sábado, 3 de outubro de 2009

Y Uno Aprende

 

Después de un tiempo,

uno aprende la sutil diferencia

entre sostener una mano

y encadenar un alma,

y uno aprende

que el amor no significa acostarse

y una compañía no significa seguridad

y uno empieza a aprender...

Que los besos no son contratos

y los regalos no son promesas

y uno empieza a aceptar sus derrotas

con la cabeza alta y los ojos abiertos

y uno aprende a construir

todos sus caminos en el hoy,

porque el terreno del mañana

es demasiado inseguro para planes...

y los futuros tienen una forma de caerse

en la mitad.

Y después de un tiempo

uno aprende que si es demasiado,

hasta el calorcito del sol quema.

Así que uno planta su propio jardín

y decora su propia alma,

en lugar de esperar a que alguien le traiga flores.

Y uno aprende que realmente puede aguantar,

que uno realmente es fuerte,

que uno realmente vale,

y uno aprende y aprende...

y con cada día uno aprende 

 

(Jorge Luis Borges)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

quando te falo de amor

[ao senhor charles bukowski]

hoje ao almoço, atravessei o bairro
naquele passo de sempre.
quero dizer: o bairro que atravessei
é uma metáfora. por isso dizem: triste pândego,
usa a linguagem a seu jeito,
é um lesa-linguística!, uma lesma do pântano!
pobres literais, pobres literatos.
não sabeis vós por acaso como se escreve
o raio de um poema?
não sabeis vós como é que
um homem atravessa o bairro
e ainda assim sobrevive?
pois eu digo-vos:
esqueçam o terço, a arte sacra,
esqueçam o basketball e a soap opera.
misturem, e sejam generosos,
meia amarguinha portuguesa
com toda a vossa amargura.
puxem-lhe um fósforo - bum!!
depois metam conversa com todas as miúdas.
eu disse: todas. essa também.
façam a estatística trabalhar para vós.
aproveitem todas as manhãs,
tardes,
noites,
perdidos na cama delas.
quando acabar, comecem de novo.
e, de súbito, tudo terá passado.
sereis apenas memória largada ao vento,
sugestão num rodapé sem brilho,
um nome longínquo.

esta manhã, ao atravessar o bairro,
pensei em ti com toda a força que não tinha
e, o diabo me leve, se não foi, se não foste,
a melhor coisa que não tive em anos.

gi

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Deixa-me rir...

Era meia-noite de uma noite deliciosamente perfumada de Julho. As janelas, abertas de par em par sobre uma varanda de pedra que se prolongava para o jardim de buxo, convidavam os mais velhos a descansarem do barulho que se fazia sentir dentro do palácio, e os mais enamorados a momentos de maior intimidade, longe dos olhares curiosos. “Mas que calor que está lá dentro”… dizia uma rapariga, empoleirada nuns extraordinários Manolo Blatnik, ao descer os degraus de pedra a caminho das sombras e da frescura dos bancos de jardim.

Dentro do velho palácio, espelhos antigos, de vidros manchados e molduras sumptuosamente douradas, decoravam as paredes de um verde jade um pouco fanné da extensa sala de baile. Tecto pintado com frescos e três enormes candelabros venezianos iluminavam a sala, roubando reflexos dourados aos belos e trabalhados cabelos das convidadas. A música tinha sido pensada ao pormenor e o DJ de serviço marcava o ritmo das músicas com a cabeça, satisfeito por ver tantos corpos dançando e rodopiando livremente ao som de canções de décadas em que o ritmo era espontâneo, descontraído e alegre. Tinha sido uma ideia engraçada da dona da casa pensava ele, enquanto mudava o vinyl no seu gira-discos de estimação, esta de organizar uma festa com músicas dos anos 50 e 60, décadas que ainda por cima lhe eram particularmente queridas. Gira também a ideia de pedir aos convidados para se vestirem à época, incorporando o espírito do swing, do rock & roll, do boogie woogie, da pop … e giríssima a ideia de ter pegado na lista telefónica e de, aleatoriamente, ter convidado 200 desconhecidos… semelhante ideia, semi extravagante no enquadramento de um grupo muito agarrado às convenções sociais, estava a revelar-se o maior sucesso!

A dona da casa estava feliz com o que via. A casa, já um pouco decadente, parecia ter voltado aos seus tempos áureos … os risos, o tilintar dos copos, o brilho dos tecidos, o menear alegre dos corpos, a brisa carregada do aroma do jasmim, e a música … sempre a música … faziam-na vibrar e pensar que tinha de organizar mais festas como aquela. Dinheiro não lhe faltava, sendo única herdeira de uma grande fortuna. Para além disso tinha tempo, dezenas de amigos, criatividade, ousadia qb e um gosto sem fim por dançar. Era tempo de enterrar o passado e o profundo luto interior que sentia há muitos e muitos anos. Desde que os pais tinham morrido e que o marido, ao fim de 2 anos de um matrimónio feliz (assim o pensara ela), a abandonara com requintes de malvadez e uma insensibilidade absoluta. Tinha, desde então, mergulhado no mais profundo desespero e numa total ausência de gosto pela vida que nem os inúmeros convites dos amigos e a presença doce e calmante da Emília, que a vira nascer, conseguiam alterar. Não que os outros avaliassem o seu verdadeiro grau de devastação interior. Nunca fora particularmente comunicativa e, nos últimos anos, tinha vindo a aperfeiçoar o seu gosto pela arte da representação. Sabia que os outros a sabiam triste, mas daí até suspeitarem que tinha um buraco negro no lugar do coração ia uma grande distância ….

Foi então que o seu olhar se cruzou com um outro que, pela expressão, já devia estar a olhar para si há algum tempo. Numa fracção de segundos inexplicável, ou só explicável por quem passou pelo mesmo, apercebeu-se que havia um homem alto, moreno, esguio, com uma camisola de gola alta azul escura e um copo de whisky na mão que a olhava com a intensidade com que a tinham olhado noutros tempos, quando ela era uma jovem mulher cheia de vida e curvas exuberantes. De repente, tudo à sua volta se transformou numa espécie de espiral faíscante de luz, cor, música e confusão. E a música, sempre a música … parecia cada vez mais alta…

Sem forças, suores frios a percorrerem-lhe as costas, sentia as pernas a cederem e uma tontura gigantesca a formar-se … até que uma mão forte e os acordes de uma canção infinitamente melódica e romântica a salvaram de cair, desamparada, no xadrez de mármore brilhante do seu salão de baile: “Au premier temps de la valse, je te voi et tu m’aperçois …


PCP

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