segunda-feira, 30 de junho de 2014

Na morte de Bobby Womack



porque as estrelas desaparecem, 
mas as luzes delas permanecem.

(falo de auto-estradas siderais
desenhando nos céus
vestígios desses teus olhos 
que um dia foram meus.)

gi.

domingo, 29 de junho de 2014

S. Pedro e S. Paulo, apóstolos

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 16, 13-19)

Naquele tempo,
Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe
e perguntou aos seus discípulos:
«Quem dizem os homens que é o Filho do homem?».
Eles responderam:
«Uns dizem que é João Baptista,
outros que é Elias,
outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
Jesus perguntou:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?».
Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse:
«Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».
Jesus respondeu-lhe:
«Feliz de ti, Simão, filho de Jonas,
porque não foram a carne e o sangue que to revelaram,
mas sim meu Pai que está nos Céus.
Também Eu te digo: Tu és Pedro;
sobre esta pedra edificarei a minha Igreja
e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus:
tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus,
e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».

***

São Pedro e São Paulo

“Agora é que vejo que isto é verdade. O Senhor livrou-me do poder de Herodes” (1ª leitura, v. 11). O que aconteceu a Pedro constitui uma ligação para todos os discípulos: Deus não abandona nunca quem arrisca a própria vida pelo Evangelho. Foi o que experimentaram Pedro e Paulo em Roma, durante a perseguição de Nero: não escaparam milagrosamente à morte, mas foram libertados do medo de oferecer a própria vida.
A fidelidade à vocação cristã coloca muitas vezes também em nós condições não fáceis: vamos ao encontro de sofrimento, solidão, incompreensão, marginalização. Quem está a sofrer por causa de Cristo deverá recordar-se que, mesmo se todos estão contra ele, do seu lado tem sempre o “anjo do Senhor”.
Pedro e Paulo mostraram-nos com qual dedicação, com qual desinteresse, com qual amor, com qual coragem deve ser desempenhado o ministério do anúncio do Evangelho. São um exemplo para os mensageiros da Palavra das nossas comunidades de hoje.
Na celebração desta festa, deveremos consciencializar a necessidade de abandonar tudo aquilo que não é evangélico no nosso modo de entender o ministério do Papa e a autoridade da Igreja. Devemos adequar-nos, sobretudo, àquilo que Jesus repetiu vezes sem conta e com tanta clareza: “Aquele que for o maior, proceda como se fosse o mais pequeno, e o que governar proceda como quem serve os outros” (Lc 22, 26). Deveremos então fazer com que desapareça toda a forma de privilégio e até a mínima semelhança entre quem preside a comunidade cristã e “os reis do mundo” (Lc 22, 25).

Provavelmente a melhor definição do ministério do Papa permanece aquela de um famoso bispo da igreja dos primeiros séculos, Ireneu de Lião, que chamava ao bispo de Roma “aquele que preside à caridade”.

sábado, 28 de junho de 2014

Pensamentos impensados

Bola
Já aqui escrevi que não gosto de futebol, pelo que não me faz a menor diferença que os futebolistas portugueses venham mais cedo para casa; sempre se poupa algum.
Ouvi a palavra Ronaldo até à exaustão; esteticamente não é agradável ver tipos a cuspir, com cabelinho à pele vermelha e barba por fazer.
No entanto, ouvi coisas engraçadas; os comentadores são uns criativos. Aqui vão algumas:
- Sofre-se muito nos dois bancos (BCP?, BES?).
- O canto vai ser marcado por um esquerdino; não, por um direitista. (CDS?).
- Oiço que um desafio ia ser jogado na Arena qualquer coisa. Julguei que tinha que ser relva; podia ter sido no Campo Pequeno.
- Havia programas com antevisão dos jogos; na minha ingenuidade pensei que dariam os resultados
 antes dos desafios.
 
Definições
Preciso urgentemente de um dicionário etimológico; na palavra analgésico não sei o significado de gésico.
 
Craques
Nos relatos da bola ouve-se muito falar de lances; para mim, o melhor lance foi o Armstrong, que durante 7 anos enganou tudo e todos.
 
Altos e baixos
Nunca se deve promover um combate de boxe entre um anão e um gigante.
O anão pode aleijar o gigante.
 
Acuracia
A seguir a um eclipse solar é preciso acertar o relógio de Sol?
 
Patronímicos
Rodrigues, filho de Rodrigo; Gonçalves, filho de Gonçalo; ténis, filho de tene.

Mais bola
Portugal jogou com o Gana; Gana jogou com ganas, porque entretanto chegou a grana.
 
Posso? Mais bola?
Os comentadores, volta e meia, diziam que Paulo Bento se sentava no banco de Portugal. Irá ser nomeado administrador?
E se o Bento é "coach" por que não se senta num sofá em vez de se sentar num banco?

SdB (I)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Exposições dos dias que correm *

Diferentes gerações e técnicas artísticas diversificadas, desde o suporte tradicional de pintura, à fotografia, escultura, vídeo, cerâmica e instalação, compõem as 33 obras presentes na exposição "Do sagrado na arte - Evangelhos comentados por artistas", que decorre em Lisboa até 30 de agosto.

Dividida por três espaços da capital, a exposição organizada por Carlota Mantero e José Sousa Machado, também responsável pelo comissariado, conta com obras de Ana Pérez Quiroga, André Gomes, Ângela Dias, António Marques, António Poppe, Albuquerque Mendes, Bela Silva, Eurico Lino do Vale, Fernando Brizio, Francisca Couceiro da Costa, Gil Heitor Cortesão, Graça Costa Cabral e Graça Pereira Coutinho.

O elenco prossegue com Inês Teixeira, João Onofre, Jorge Nesbitt, Julião Sarmento, Manuel Costa Cabral, Manuel Gantes, Marta Wengorovious, Michael Biberstein, Miguel Branco, Nuno Afonso, Paulo Brighenti, Pedro Calapez, Pedro Casqueiro, Pedro Chorão, Rosa Carvalho, Rui Chafes, Rui Sanches, Teresa Pavão, Tomás Colaço e Vasco Araújo.

«Esta exposição não propõe nenhuma narrativa sequencial coerente; ela é um arco-íris, formado por 33 fragmentos artístico-espirituais muito diferentes entre si, mas convergentes nas indagações que suscitam», refere o comissário.

A mostra é apresentada em duas páginas do suplemento "Atual" do semanário "Expresso" de 13 de junho: A exposição «não tem a ambição ciclópica de refazer uma relação outrora umbilical [entre arte e religião] que se encontra em muito mau estado de conservação. Nem sequer a sua vocação é interpretativa em relação aos evangelhos, mas tão-só de colocar a arte contemporânea perante a contaminação da "palavra sagrada", fundadora de toda uma civilização».

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Pedro Calapez, Sozinho para o monte. 2014 (João 6, 41-51)

Celso Martins explica que «perto da esmagadora maioria das obras está reproduzido o versículo dos evangelhos que serviu de ponte de partida ou ligação entre a obra e uma ideia de transcendência ou espiritualidade. Não se esperem, porém, processos ilustrativos. Cada obra funda com o trecho bíblico escolhido pelo artista um território de sentido mas não é nunca uma sua qualquer materalização».

«Na maioria dos casos são trabalhos de pequenas dimensões que tendem a convocar a proximidade do espetador e às grandes declarações sobre a fé os artistas preferiram quase sempre a expressão de uma inquietação», acrescenta o crítico.

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Bela Silva, No meio das agulhas, 2014 (Marcos 10, 17-30)

Cada artista exprime «uma relação com um mistério e ao mesmo tempo com a existência literária de um texto milenar», fazendo da exposição «um périplo interessante onde transcendência, história e inquietação contemporânea podem, em conjunto, afluir e confluir», conclui Celso Martins.

A exposição, inaugurada a 30 de maio pelo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, está patente até 30 de agosto no mosteiro de S. Vicente de Fora, com 28 peças (terça a domingo, das 10h00 às 17h30, entrada paga: 5,00 €, estudantes e seniores: 2,50 €), na igreja de Santa Catarina, com quatro intervenções (Calçada do Combro, de segunda a sexta, das 10h00 às 17h30, entrada: 3,00 €) e Livraria Sá da Costa, na Rua Garrett, ao Chiado, com a maior das peças (entrada livre).

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Gil Heitor Cortesão, O palácio abre às cinco, 2012

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Eurico Lino do Vale, [sem título], 2013 (Marcos 8, 27-35)

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André Gomes, Efatah - Abre-te, 2014 (Marcos 7, 31-37)

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Manuel Costa Cabral, De divina proportione, 1992-2014 (Mateus 28, 16-20)

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Vasco Araújo, O percurso (vídeo), 2009 (Mateus 1, 12-15)

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António Poppe, Livro, 2000-2014

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Albuquerque Mendes, Passagem, 2012 (João 6, 51-58)

Vale a pena ver a exposição e, com isso, visitar S. Vicente de Fora, com tudo o que se passa lá dentro.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Do amor (ou ainda crónicas de um mestrando tardio)

Luz, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

O que tiramos de um livro (sendo que me reporto a uma conversa de há bastantes anos com um amigo ausente da escrita)? A história, o estilo, a mensagem. Tirar tudo isto de um livro único é fazer o pleno, levar a banca à glória. A minha deambulação pelas leituras - como a de muitos outros, estou certo - obedeceu a critérios de calendarização interior: tempos houve para a história, tempos houve para o estilo. Tempos houve para a mensagem - e as minhas reduzidas estantes estão cheias de evidências objectivas desse tempo específico.

Santo Agostinho - como muitos outros que tenho vindo a ler nos últimos anos - suscita-me a mensagem. O estilo - leia-se a retórica irrepreensível, a construção da frase, a utilização dos ritmos e das figuras de estilo - é um meio para atingir um fim, o de interiorizar o essencial da mensagem do bispo de Hipona. Foi nesse âmbito que me cruzei com dois textos relacionados entre si: Imagens do Amor em Santo Agostinho (uma dissertação proferida pelo Prof. Arnaldo Espírito Santo) e Arendt and Augustine: More Than One Kind Of Love (Lucy Tatman). Daí saiu a compra do livro de Hannah Arendt (ainda não lido) O Conceito de Amor em Santo Agostinho. Acredito que os textos não me caíram no colo por acaso; fui eu que os procurei, ainda que nessa procura houvesse algo de subconsciente. No fundo, o meu objectivo é - de uma forma inconsequente, trôpega, presunçosa - passar de uma dimensão mais lúdica (leio para me entreter) para uma dimensão mais prática (leio para agir).  

***

Cito o Prof. Arnaldo Espírito Santo: Não será exagerado dizer que Agostinho, ao empregar 6864 vezes as palavras amor, charitas, dilectio, contra 227 ocorrências de amicitia, numa proporção de 100 para 3, tinha plena consciência de que estava a mexer nos fundamentos da cultura e da sociedade antiga, já em vias de cristianização acelerada. E continua: Numa sociedade fundada no relacionamento horizontal entre os indivíduos, regido por códigos morais exclusivamente humanos, sem um apelo à divindade, ética e ontologicamente fundamentado, a relação entre os indivíduos assenta na amizade.

Não me parece que o pensamento seja desprovido de sentido se for transposto para os dias de hoje. Eu sei que o raciocínio é ínvio e caricatural, mas também por isso, por essa falta de divindade, talvez tenhamos deixado que as novelas aculturassem a expressão "amor". Os brasileiros amam tudo: a mulher, os filhos, a irmã, o gato, as colecções de selos, o bacalhau com broa, a voz da Ágata, a poesia de Cecília Meireles. A palavra amor está gasta, exaurida no apreço pela açorda, pela cultura de orquídeas, pelo windsurf em Tarifa. O amor pelo próximo é uma expressão que se entaramela na boca, tem dificuldade em ser formulada, quanto mais vivida.

Há algumas semanas, no Domingo da Ascensão, quem pregava do alto do ambão dizia que temos de olhar para cima para depois olharmos para o lado. E volto a citar o Prof. AES: [...] o principal dessas fundamentações consistiu em acentuar o sentido da verticalidade no relacionamento horizontal. O padre e o professor poderiam ter combinado dizer-me isto, que a coincidência seria significativa. A este respeito recorro agora a Santo Agostinho, nas Confissões:

O nosso repouso é o nosso lugar. Para lá nos eleva o teu amor, e o teu espírito de bondade arranca a nossa baixeza das portas da morte. Na tua boa vontade está a nossa paz. O corpo, com o seu peso, tende para o lugar que lhe é próprio. O peso não tende apenas para baixo, mas para o lugar que lhe é próprio. O fogo tende para cima, a pedra para baixo. Levados pelos seus pesos, procuram os lugares que lhes são próprios. O azeite deitado na água sobe ao de cimo da água, a água deitada no azeite desce para debaixo do azeite: levados pelos seus pesos, procuram os lugares que lhe são próprios. As coisas menos ordenadas não estão em repouso: ordenam-se e ficam em repouso. O meu peso é o meu amor; sou levado por ele para onde quer que seja levado.

Passar do pensamento à acção é o desafio que nos é colocado quando, num livro, procuramos a mensagem. Talvez isto seja visto como vaidadezinha pateta, como afectação, como ridicularia. E, no entanto, acredito que o equilíbrio interior, a paz com o nosso mundo - e estar em paz talvez seja melhor do que ser feliz - faz-se também assim, a ler, a ouvir, a procurar inspiração. É uma tarefa diária, porque os recuos ultrapassam, tantas e tantas vezes, os avanços.

Assim como um corpo é arrastado pelo seu peso, assim o espírito pelo seu amor.

JdB

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Crónicas de um mestrando tardio

L' arbre, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão, uma de várias sugeridas para estes poemas

Embolismo

Livra-nos, Senhor, da violência das palavras
Quando não vêem rostos
E semeiam lágrimas

Livra-nos da violência surda,
Do silêncio mútico, perverso,
Das tradições do corpo que inundou a erva

Livra-nos da violência das coisas
Que nos afogam, de excessivas

Livra-nos da violência harmoniosa,
DEUS que nos prometes a paz
E que esperamos na fronteira do fogo e da alegria.

(José Augusto Mourão In O Nome e a Forma, ed. Pedra Angular)

***

Senhor

Senhor,
Perdoa os meus pecados,
Lava,
Com a água dos teus rios sagrados,
A mácula do meu corpo quebrado,
Agora que ninguém nos ouve,
Agora que a erva secou nos prados,

Traz-me
as varas que medem o sol e a minha idade,

diz-me
que ainda escrevo por devoção e bondade,
que nos pátios da noite há uma candeia que
desde cedo
assinala o rumo dos navegantes de outras eras,
de outra saudade,

diz-me que hoje
ainda me espera um milagre,
uma luz intensa do outro lado do mar,
uma estranha divindade que segue os meus passos,
que me conduz aos templos onde o incenso arde,

procura-me
com grinaldas de sangue quando os sinos
tocam em Santa Maria e São Gonçalo,
anunciando a hora da oração,
da última ceia,
sem os discípulos a meu lado,
sem os filhos que esperam o pão,
as laranjas
o brilho das facas que atravessam a dor dos
animais sacrificados

perdoa-me, Senhor,
este ofício da palavra que apenas revela a
iminência dos túmulos

(José Agostinho Baptista, in Esta Voz é Quase o Vento, Ed. Assírio e Alvim)

***

Os dois exemplos acima são reveladores de uma poesia onde está patente o estilo confessional que se cruza com, e tem influências de, Santo Agostinho. São uma forte hipótese para suportar a minha tese de mestrado.

A língua e os costumes conduziram as palavras para um reduto por vezes minimalista. Hoje, confessar pouco mais será, no nosso léxico vulgar, do que reconhecer uma culpa, admitir uma falha. Mas confessar é também dar a conhecer, revelar, manifestar. É por isso que os latinos usavam as expressões confessio culpae e confessio laudis. Uma mão confessa a culpa, a outra mão manifesta o louvor.

Ler Santo Agostinho é isso. Ler as Confissões (ou outras obras suas) não é tomar conhecimento das inúmeras falhas do doutor da Igreja, mas sentir o amor do santo por Deus.

Segunda-feira falei sobre estes temas com quem sabe, e manifestei a minha ignorância em termos de poesia - conheço pouco e sei ler mal. Do lado de lá a resposta foi clara: estes poemas são como os salmos; devem ler-se altos.

Façam-no, se quiserem. Pode ser uma experiência interessante.

JdB  



terça-feira, 24 de junho de 2014

Duas Últimas

Há muitos anos - quase cinquenta, por aí - havia quem fizesse colecção de autógrafos. Uns juntavam-nos nas folhas de papel mais diversas - bilhetes de espectáculos, recortes, etc. - outros em livros criados especialmente para o efeito, como os álbuns de selos. Eu nunca fui dado a qualquer tipo de coleccionismo (sou mais ajuntador de um ou outro artigo), mas tenho a ideia desse tempo. Íamos a uma corrida de touros e queríamos uma assinaturazinha do cavaleiro ou do forcado, porque o peão de brega não nos pareceria relevante.  Era um tempo, talvez, em que havia uma espécie de mito dos artistas. Os actores de cinema, os cantores, os desportistas ou outra gente quejanda pareciam-nos ser de acesso difícil por viverem num plano (e numa idade) superior ao nosso. Era por isso que lhes pedíamos autógrafos - para termos uma evidência objectiva, se não da sua existência, pelo menos da sua passagem pelo nosso horizonte visual ou extensão de um braço. 

Hoje, estou em crer, tudo isso acabou, pelo menos em Portugal. Os actores de novelas pululam por aí nas festas e na noite roçando-se pelo comum dos mortais, os actores de cinema são os actores de novelas a quem foi dada uma oportunidade melhor, os escritores são gente moderadamente comum e com os cavaleiros tauromáquicos (de quem só uma minoria se interessa em Portugal) podemos cruzar-nos num linear do Continente que vende duas gelatina pelo preço de uma. Os nossos melhores desportistas estão lá fora, e os verdadeiros fãs desinteressam-se do autógrafo do Ronaldo, preferindo levantar alto uma cartolina A2 onde se escreve uma frase simples, sem hipótese de erros ortográficos: "Cristiano, faz-me um filho!"

Lembrei-me deste raciocínio pateta num fim de tarde outonal. É que Domingo estive largos minutos à conversa com o Rui Veloso, encostados ambos à barra de um bar com vista sobre alguma cidade. Apresentaram-nos e eu disse-lhe o meu nome. Ele disse simpaticamente olá, porque não carecia de mais nada. Falámos do Tony Carreira, sobretudo, e um pouco de futebol. Abordámos o piquenicão gigante de Lisboa e alguém lhe perguntou pelos filhos. Gostei de o conhecer e de o ver, quanto mais não seja porque numa festa de 30 pessoas, talvez, ele era o mais velho. Logo a seguir vinha eu, a seis meses de distância. Há cinquenta anos ter-lhe-ia pedido um autógrafo, assim como ao outro cantor e duas actrizes com quem, no mesmo coktail, podia ter roçado um braço na luta por um camarão panado. Perdeu-se o fascínio ou é da minha idade?

Deixo-vos, algo nostalgicamente, com Rui Veloso, a quem não pedi um autógrafo, talvez por eu já ser demasiado velho para ter ídolos da canção.

JdB

  



segunda-feira, 23 de junho de 2014

Vai um gin do Peter’s?

Portugal como destino turístico está na moda, segundo têm repetido os media da especialidade. Em concreto, Lisboa está no top 3 das metrópoles ocidentais mais procuradas por e mais recomendadas aos turistas.

Quem conhece a cidade do Tejo, sabe bem que por muito que se dominem os recantos mais recônditos da capital, há inúmeros lugares por desvendar, até porque vários deles não estão abertos ao público(1). Aqui vai um mini-guia a espaços lindos e cheios de história, que pouquíssimos terão visto, como antigos palacetes, hoje propriedade de embaixadas, serviços do Estado ou privados. A escolha desdobra-se em 2 gins, começando pelos mais acessíveis:

ARCO DA RUA AUGUSTA, junto ao Terreiro do Paço (aberto ao público, com elevador e lance de escadas até ao topo)



Designado por Arco do Triunfo, Arco Triunfal ou Arco do Triunfo da Rua Augusta conheceu a primeira versão logo após o terramoto de 1775. Em 1873 foi reedificado segundo o projecto do arquitecto Veríssimo José da Costa.
Na parte superior do arco, há esculturas de Célestin Anatole Calmels a representar a Glória, coroando o Génio e o Valor. No plano inferior encontram-se esculturas de Vítor Bastos, a representar Nuno Álvares Pereira, Viriato, Vasco da Gama e o Marquês de Pombal. Nas laterais estão representados os rios que delimitavam a região dos Lusitanos: o Douro e o Tejo. O texto inscrito no topo do arco alude à grande gesta da descoberta de novos povos e culturas: Às Virtudes dos Maiores, para que sirva a todos de ensinamento. (VIRTVTIBVS MAIORVM VT SIT OMNIBVS DOCVMENTO.PPD).

ACADEMIA DAS CIÊNCIAS, junto à rua do Século, ao Bairro Alto (visitável mediante marcação prévia)


As actuais instalações da Academia correspondem ao antigo Convento de Jesus. Criada em pleno Iluminismo (1779), durante o reinado de D.Maria I, começou por ser designada de Academia Real das Ciências, demarcando-se do regime do Marquês de Pombal e do estudo das humanidades, ao pretender valorizar o estudo das Ciências e das Belas Letras. Depois da implantação da República, passou a denominar-se Academia das Ciências de Lisboa.
No seu interior, salienta-se o magnífico Salão Nobre no espaço que antes albergara a biblioteca conventual. O salão vale pela decoração com pinturas no tecto assinadas por Pedro Alexandrino de Carvalho, o revestimento das paredes com estantes de talha dourada e a galeria que contorna a balaustrada. Vale também pelo valioso espólio, com cerca de 3000 manuscritos portugueses, árabes, espanhóis e hebraicos, uma colecção de livros desde o século XIV até seiscentos, além de possuir das mais completas séries de periódicos das áreas de Ciências e Humanidades.

 

PALÁCIO FOZ, nos Restauradores (permite visitas parciais, em concreto durante eventos abertos ao público)



Propriedade do Marquês de Castelo Melhor, a construção teve início em 1777 para substituir o palácio velho arrasado pelo terramoto. Ao longo do tempo acumulou diversas remodelações e mudanças de propriedade, que favoreceram a variedade de estilos, desde o rococó ao neo-gótico e neo-manuelino.
Nomeadamente a zona designada por abadia foi local de reuniões secretas da elite maçónica. Aliás, parte da decoração do palácio exibe símbolos esotéricos e figuras mitológicas, tendo servido de cenário a episódios do filme «Mistérios de Lisboa».

PALÁCIO RIBEIRO DA CUNHA, no Príncipe Real (aberto ao público, com zona comercial e restaurante no interior)



O seu estilo neo-mourisco, do período do Romantismo, tornam-no num dos edifícios mais emblemáticos do Príncipe Real. 
Actualmente, a sua fachada tão característica está encoberta por um taipal que esconde as obras de remodelação em curso. Datado de 1877, começou por ser residência privada, com jardim no lado nascente.
  

CAPELA DE SANTO AMARO, na colina em Alcântara (permite visitas, quando abre ao culto)



Fundada em 1549, foi dedicada a Santo Amaro, por lhe ser atribuído o milagre de salvamento de um barco em vias de naufragar, que ali conseguiu aportar.
Dotada de uma arquitectura rara, em forma circular, tem as paredes forradas de magníficos azulejos policromados, do século XVII, que aludem ao episódio do naufrágio iminente, assim como às curas de pernas e braços partidos atribuídas a este Santo. No remate exterior sobressaem as portas num rendilhado assombroso em ferro forjado, de onde se tem uma vista panorâmica sobre o Tejo.

 

IGREJA DAS MERCÊS, no Largo de Jesus, entre S.Bento e o Chiado (visitável logo após a missa dominical do meio-dia)



Num largo que se avista durante o percurso do eléctrico 28, na base da colina do Chiado, o monumento data do século XVII. Ligado ao Convento de Nossa Senhora das Mercês, é especialmente notável o seu conjunto azulejar na Sala da Irmandade (hoje chamada Sala de Passagem), de 1714. A abóbada está integralmente forrada de azulejos, inspirados na temática das Litanias da Virgem, pintados por um dos mestres do barroco – António de Oliveira Bernardes.


SALÃO POMPEIA NO PALÁCIO DOS CONDES DA EGA, na Calçada da Boa hora /Ajuda (visitável com marcação prévia)



Datado do século XVI, alberga o Arquivo Histórico Ultramarino, desde 1931. No século XVIII foi remodelado, incluindo a construção do Salão Pompeia, enriquecido com frescos, magníficas colunas e 8 painéis de azulejos holandeses onde figuram os principais portos europeus. Inclui ainda uma estátua de Apolo, o deus da música, pois era a sala destinada aos concertos de câmara.
Durantes as Guerras Napoleónicas, foi a morada do General Junot, amante da Condessa da Ega. Mais tarde, a condessa casou-se com o conde Stroganov e mudou-se definitivamente para S.Petesburgo. Nos seus domínios de Lisboa descobriu a receita do cozinheiro do conde russo, que se celebrizou como estrogonofe.
  
Percebe-se que uma cidade com perto dois milénios de vida intensa guarde muitos e bons segredos. As próximas sugestões vão daqui a 15 dias.

Maria Zarco
_____________
 (1)  Levantamento feito a partir das escolhas de www.lisbonlux.com/magazine/lisbon-behind-closed-doors-10-secret-interiors/

domingo, 22 de junho de 2014

Corpo e Sangue de Cristo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 6, 51-58)

Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo descido do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne,
que Eu darei pela vida do mundo».
Os judeus discutiam entre si:
«Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?».
Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a carne do Filho do homem
e não beberdes o seu Sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha carne é verdadeira comida
e o meu sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
permanece em mim e Eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai,
também aquele que Me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram;
quem comer deste pão viverá eternamente».

***

Sentido de Jesus Eucaristia
                                                                                          
Jesus oferece-Se a Si próprio como alimento “pela vida do mundo”! Não são coisas o que nos oferece – é Ele próprio! E isto, que é tão bonito, na verdade é muito difícil de aceitar para nós; porque aquilo que que nós estamos mais propensos a pedir a Deus não é Deus – são coisas! Cada um ponha a mão na consciência… Nós somos imediatistas, materialistas até, e o mais habitual é pedirmos a Deus coisas. Somos pobres no pedir, é verdade, essa é a nossa condição, mas a maior parte das vezes não pedimos o essencial… pedimos coisas importantes para nós, para os nossos, para os outros; o próprio Jesus manda-nos pedir tudo aquillo que vem no “Pai Nosso”, “o pão da cada dia”, mas o que Deus nos quer oferecer é sobretudo Ele próprio: “o pão que Eu hei de dar”, diz Jesus no Evangelho, “é a minha Carne” – é a sua pesssoa – “para a vida do mundo”. Ora, eu não sei se estamos realmente propensos a pedir e a acolher o Salvador, porque Ele oferece-se, mas vai ocupar algum espaço. Ele nasce muito pequenino, como Menino Jesus, que não teve sequer lugar para nascer na hospedaria de Belém, mas depois cresceu e oferece-Se também na cruz e, por aí, na sua ressurreição – na sua presença continuada no meio de nós e vitoriosa sobre a morte. Oferece-Se inteiramente.
Se O acolhermos no nosso coração, na casa interior de cada um de nós, Ele vai ocupar espaço! Vai dizer-nos muitas coisas, aquelas que diz no Evangelho e em toda a Bíblia e que temos de ter presentes depois, porque Ele vai dizê-las e repeti-las. Ele vai fazer exigências proprias da amizade, porque os nossos verdadeiros amigos são aqueles que puxam por nós; não são aqueles que dizem que está tudo certo, mesmo aquilo que não está.

D. Manuel Clemente (2013), O Evangelho e a vida. Conversas na rádio no dia do Senhor

sábado, 21 de junho de 2014

Pensamentos impensados

Divisão
O lema dos cangurus é a bolsa ou a vida
 
Premonição?
Disseram a Lázaro, o da Bíblia que só a morte não tem remédio.
Lázaro riu-se.
 
Libações
Aquecer o Cognac é um acto requintado ou requentado?
 
Geometrias
Os cientistas desistiram de pôr uma esfera de perfil; agora tentam colocar duas esferas lado a lado.
 
Portugal-Alemanha
Bento disse que até ao primeiro golo, o jogo foi equilibrado.
Quereria dizer até ao apito do começo do jogo?
 
Fados
Ouvi algém cantar tenho o destino traçado.
Falta de naftalina?
 
Ouvido por aí
Alguém disse após o jogo Portugal-Alemanha: antes perder um jogo, que duas guerras mundiais.

SdB (I)


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