sábado, 30 de novembro de 2013

Pensamentos impensados

7 Maravilhas
Há muita gente que gostava de ver o jardim suspenso; na Madeira.
 
Discurso político
… eu não queria dizer nada, antes pelo contrário.
 
Rais parta
Os trabalhadores da Antena 1 podem ser perigosos; têm rádio-actividade.
 
Anexim
Quem tem pressa não vai divagar.
 
Nascimentos vs. nada
Tem que fazer-se alguma coisa em prole da natalidade.
 
Novo acordo êsse aborto
Vou escrever segundo o novo acordo, mas será uma xéssão.
 
Prebendas
Mário Soares e os outros comparsas que estiveram na Aula Magna deveriam ser agraciados com a Ordem dos Jarretas.

SdB (I)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Textos dos dias que correm*

Pedir
É um verbo humaníssimo, este verbo pedir. Pedimos coisas diferentes e de formas absolutamente variáveis. Quando nascemos, começamos por pedir aos gritos que partam em nosso socorro, antes de termos as palavras. Quando aprendemos a usá-las, ganhamos talvez maior tranquilidade no pedir, mas nem sempre. Pedimos porque não nos bastamos a nós próprios. E isso, que seguramente é um elemento que nos redime, não deixa de ser igualmente uma ferida. O léxico do pedir é prolífero, mas também inconstante. Pedimos com simplicidade e com inúmeros rodeios. Mantemo-nos fluentes ou gaguejamos, mergulhados numa insegurança que nos tolhe.
Pedimos oralmente, por escrito, por entreposta pessoa, de forma ostensiva ou subtil, ou, até, com maior ou menor consciência de que um pedido está a ser formulado. Há mesmo momentos da vida (e não são poucos) em que faríamos tudo para não ter de pedir. Esta dificuldade nem sempre é má Precisamos de autonomia para maturarmos o nosso caminho pessoal, e todas as dependências de que a vida se tece só ganham em ser sacudidas e purificadas por um espírito de liberdade que se afirma. Pedir pode tornar-se um obstáculo a aprendizagens que estão perfeitamente ao nosso alcance. Mas o contrário também é verdade, pois crescemos no reconhecimento de que sem os outros nós não somos. De entre todos os pedidos, os que nos custam mais são os mais simples, aqueles imateriais, e que se prendem com a arquitetura (ou arquitextura, como ensinou Derrída) das relações: pedir amor, pedir desculpas, pedir presença, conversa, calor, compaixão. Aí é tão fácil ficar enredado em engulhos, coisas não-ditas ou mal-entendidas.
Penso muitas vezes num pedinte que conheci em Roma. Era (e é) impossível não dar com ele quando se visita a cidade. Eu estava sempre a esbarrar com uma das suas passagens: à saída da universidade, da biblioteca, do cinema, no Campo das Flores, em São Pedro, por todo o lado. De dia ou de noite. Um homem que andará hoje pelos sessenta anos de idade, com um porte discreto, delicado até. Abeira-se dos passantes com duas perguntas. «Fala italiano?» - atira primeiro. E, qualquer que seja a resposta, dá o passo seguinte. Pegando cuidadosamente numa moeda entre os dois dedos e colocando-a perto dos nossos olhos, roga: «Tem 100 liras?». Conheci-o assim, ainda antes do euro. Com a integração na moeda única, ele também se ajustou, passando a pedir 10 cêntimos.
A primeira vez que a sua interpelação nos é dirigida pensamos que se trata de alguém que precisa de completar a quantia necessária para um bilhete de metro ou para uma fatia de pizza. Depois de o encontrarmos centenas de vezes, ficamos sem saber exatamente o que pensar. Assisti, porém, a uma cena que porventura pode esclarecer parte do enigma.
Numa rua, à volta do Panteão, estava sentado um outro mendigo. Melhor seria dizer que estava prostrado. Com um vestuário andrajoso, um braço deformado por caroços, um ar que trazia misturado tudo: dor e exclusão. À distância, vejo o pedinte aproximar-se dele. E, para meu espanto, percebo que repete ao mendigo a cantilena que faz a todos os outros, mostrando-lhe insistentemente uma moeda. Talvez para afastá-lo, talvez vencido pela compaixão, vejo que o mendigo tira do seu prato uma moeda que lhe entrega. E foi neste momento que a cena se tornou inesquecível. O pedinte ajoelha-se ali diante de todos, agarra as mãos do mendigo e beija-as repetidamente, turbado pela emoção. Penso que finalmente o percebi. Ele não pedia moedas. Pedia um bem mais raro e vital: pedia o dom.


* José Tolentino Mendonça
 In Expresso, 23.11.2013

Contos dos dias que correm*

José

José adormeceu. À sua volta, mesmo antes de fechar os olhos, viu um ror de gente: a mulher, a filha e o genro, o neto Ismael com dezoito mesinhos; viu os óculos grossos do seu chefe, momentos antes de o ver a ele. Curiosamente, vislumbrou também os seios generosos de D. Márcia, a empregada do supermercado, antes de a ver a ela, como se nestas duas pessoas os adereços fossem mais importantes que o personagem. Depois não se lembra de mais nada. Caiu num torpor incerto, com tempo ainda para perceber um fio de saliva que lhe escorria pela comissura dos lábios.
Durante um tempo que lhe foi indeterminado sonhou, sentindo que o seu rosto revelaria a natureza das sensações: sorriu a pensar nos seios fartos e ofegantes da empregada do supermercado; comoveu-se com a ideia do netinho, a quem ele levaria à pesca do achigã; franziu o sobrolho ao genro, um mecânico de automóveis com uma relação difícil com a honestidade; fechou as mãos numa violência contida ao recordar o chefe, e os seus horrorosos aros grossos, a impedir-lhe a promoção. Estendeu uma mão metafórica à filha e uma indiferença real à mulher. O seu mundo era este.
José acordou. À sua volta, inexplicavelmente, um ror de gente: uma criança que chorava, um homem com uns óculos feios, uma velha de cabelos mal pintados e seios deficientemente tapados numa alegria que comovia a própria, uma rapariga bonita de mão dada com um rapaz com cara de gatuno, uma mulher que segurava uma imagem de Santa Senhorinha e uma estátua de Nossa Senhora de Fátima numa fluorescência plástica. Mas quem é este gente?, pensava o Sr. José. O que estão aqui a fazer?
Antes ainda de cair numa espécie de catalepsia, ouviu o médico dizer com a voz forte que caracteriza a superioridade científica: 
Correu tudo bem; removemos do cérebro a causa da eructação persistente do Sr. José. Temos, no entanto, um efeito secundário, já estudado internacionalmente. Durante alguns meses o Sr. José sofrerá de amnésia absoluta, não se lembrando de nada, tendo que reaprender a conviver convosco. Durante esses meses será uma pessoa diferente. 
Nesse preciso momento, todo aquele grupo (menos a criança, que persistia no choro) irrompeu numa alegria esfusiante, sorrindo e abraçando-o, como se toda a informação clínica fosse motivo de júbilo, e os efeitos secundários tivessem, só inexplicavelmente para alguns, o mesmo sinal.

JdB

*enviado para um concurso de escrita criativa em que decidi participar. É-nos apresentado, semanalmente, um tema/ideia, para desenvolver em menos de 400 palavras.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Textos dos dias que correm

reflexA, fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

Éramos inseparáveis. Eu, o Hubert, o Karim. Jogávamos futebol durante o dia, tomávamos banho no rio no Verão. À noite saíamos para o cinema ou para os bares para jogar bilhar, envoltos em fumo e ruído. Bebíamos mais do que devíamos, naquele desequilíbrio adolescente cujo futuro é incerto. O que seria de nós, o que seria do mundo, se em jovens prevíssemos o preço que pagaríamos em adulto pelos nossos excessos? 

Bebíamos muito. Ao fim da noite o Hubert já ria quase descontroladamente, com os cabelos num desalinho de louco e metade da camisa fora das calças, aproximando-se ousadamente das raparigas locais que, gargalhando com gosto, fugiam dele. Foi para ele uma época que durou pouco, quase como se cumprisse um calendário ou fizesse um intervalo na sua verdadeira natureza. Encontrou-se na sobriedade da vida e vive feliz. O Karim mantinha-se sempre sossegado, encostado ao balcão ou a uma mesa de bilhar, de garrafa constante na mão. Era um sossego enervante, pois não emitia sinais do seu estado. Atravessou a vida assim: casou, separou-se; casou, separou-se. Vai voltar a casar e a separar-se, sempre silenciosamente, um pouco como se a vida não fosse mais do que um sucessão de cervejas bebidas no estabelecimento local.

E eu? Eu colava-me aos outros quando o corpo acusava excesso de álcool. Uns riam, outros contavam piadas, outros ainda mantinham uma calma quase incomodativa. Eu colava-me nos bancos, encostava-me a uma parede, e maçava quem ali estava com uma conversa desajustada. Era assim que eu me dava ao fim da noite. Não voltei a embebedar-me desde que fui para Paris estudar veterinária. Mais do que dos excessos, quem sabe não fugia de uma natureza que não entretinha ninguém. Talvez continue a ser assim, a viver um desajuste momentâneo como se estivesse ébrio. Às vezes parece que fujo dos outros, que me afasto dos outros. É possível que só queira, com falta de jeito, reconheço, proteger os outros de mim. Como se a vida fosse um bar forrado de mesas de bilhar e as minhas conversas não fossem as conversas de mais ninguém. Como se as minhas conversas não fossem mais do que as minhas conversas.

Marcel Larque (Lettres aux amies disparus,  Éditions Maison Jaune, 2010, tradução minha deste excerto)         

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Duas últimas

Quisera ser passarinho, mas Deus fez-me apenas imperador.

Esta frase, cuja sintaxe me oferece dúvidas e cujo autor não descobri (parece ser de um imperador romano) acompanha-me há décadas, porque a minha memória percorre caminhos bizarros. Na frase leio um desejo de liberdade, talvez de simplicidade, mas, e sobretudo, uma clara noção da importância relativa das coisas. O advérbio apenas é uma prova determinante, não fosse eu ter-me explicado mal.  

A simplicidade é uma conquista muito difícil, eventualmente superior à conquista do Annapurna. Talvez seja mesmo - e ironicamente - algo de muito complexo. Quando falamos de simplicidade falamos exactamente de quê? De ausência de requinte ou de luxo? De despojamento ou de frugalidade? De ascetismo? De sem-cerimónia? E o que é a simplicidade nas relações entre as pessoas, na aproximação aos outros? 

Cada um de nós terá ideias próprias sobre o tema em apreço. Uns apreciarão o assunto, outros terão sérias e fundadas dúvidas sobre a universalidade da definição, muitos terão ideias próprias relativamente ao conceito. O que é para uns não é para outros. Aí, nessa heterogeneidade de concepções, reside o encanto, e tantas vezes o seu inverso. Mas a vida é o que é.

***

Deixo-vos com os Dead Can Dance em duas músicas improváveis na minhas discografia, com as quais me cruzei derivado às tropelias do destino.

JdB  



terça-feira, 26 de novembro de 2013

Dos fragmentos

Era 1981, talvez, e eu fumava Português Suave sem filtro. 
Por duas vezes, em fins de semana com amigos, partilhei um exercício com quem estava ao meu lado, que podia ser companhia certa ou ocasional de restaurantes modestos: escrever na toalha de papel - nos interstícios dos cigarros, das nódoas de vinho tinto ou de gordura das viandas - palavras soltas, excertos de frases igualmente soltas que se iam proferindo durante aquela refeição. No fim, dividida a conta, levantada a loiça e sacudidos os despojos, dobrava-se a toalha escrevinhada e fazia-se a oferta, como se fosse um recuerdo, um agradecimento, um rendilhado em forma de nada para memória futura. 

***

Mencionam-me uma dissertação filosófica sobre um álbum de fotografias. Pós-segunda guerra mundial, talvez; nos Alpes, parece. Uma fotografia de um homem parcialmente de costas, outra de uma mulher a sorrir. Depois, tudo o resto é paisagem - a neve, os montes, um carro ao longe, uma casa bucólica, uma vaca sem passado nem futuro. Invento eu, que só as duas primeiras fotos, a data e o local foram citados. O resto fica em aberto, ao devaneio de cada um. Paisagem, sempre. O homem não aparece mais, a mulher, se sorri, já não é para a câmara. 

***

O que distingue os dois "acontecimentos"? Nada. Falo de duas coisas talvez iguais, e contudo diferentes. Uma toalha de mesa ornada com semi-frases soltas e anónimas é igual a um álbum de fotografias onde não se identifica mais do que uma época, um local, um retalho de costas ou um sorriso quiçá ingénuo. São fragmentos de vida que dizem tudo ou não dizem nada, consoante os olhos de quem os vê. Para os mais afortunados talvez digam o suficiente, e esse "suficiente" seja uma infinidade de hipóteses, um centro vital pejado de saídas para a interrogação. 

Não saber é o caminho mais feliz, porque é o caminho de todas as hipóteses. O que distingue o personagem fictício mais fascinante do ser humano mais baço? A vida do primeiro resume-se ao conteúdo do livro - fora dele não existe. Tudo o que há para saber está vertido nas duzentas páginas do romance. A vida do segundo, pelo contrário, é um jogo de cartas que pode deduzir-se, adivinhar-se, supor-se. É uma toalha de papel para onde se transcreveram frases soltas e incompletas; é um álbum onde se vêem um pedaço de costas e um sorriso quiçá ingénuo. Parece pouco, mas esse aparente pouco é quase tudo.

JdB    

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Vai um gin do Peter’s?

Num gin anterior (9.Set.), houve oportunidade de falar do mais polémico e talvez carismático líder britânico dos últimos dois séculos, a propósito de uma biografia de Churchill, informativa e sintética.

Winston C. soma tantas facetas interessantes, que até as suas tiradas antológicas, carregadas de humor, entraram para a história. Se há dom que lhe assistia – quantas vezes para compensar os interlocutores pelos seus caprichos e exageros – era o da resposta rápida e certeira. As trocas de galhardetes com Bernard Shaw ou com a célebre deputada da oposição (a primeira mulher deputada, no Reino Unido), na Câmara dos Comuns, são das mais conhecidas. Mas tantas outras se poderiam citar, algumas ocorridas nos bastidores da política. Outras ditas em entrevistas públicas e discursos. Aqui vão um par delas, para animar o início da semana: 

«Sucesso é ir de fracasso em fracasso, sem perder entusiasmo.»

Diálogo com De Gaulle, durante a Guerra, quando o General reagiu mal à falta de apoio de Churchill a uma operação sugerida pelo francês, invocando restrições de orçamento: «Os ingleses lutam por dinheiro. Deveriam seguir o exemplo dos franceses, que lutam pela honra e por dignidade.» Réplica mordaz do britânico: «General, cada um luta pelo que não tem 


Palavras de Montgomery ao ser homenageado pelo Governo britânico, depois de uma vitória retumbante contra Rommel, na frente africana, durante a Segunda Guerra: «Não fumo, não bebo, não prevarico e sou herói». Reacção de Churchill, provavelmente sentindo-se atingido, até porque se davam bastante mal: «Bom, eu fumo, bebo, prevarico e sou o chefe dele.»

Sobre um dos líderes da oposição (Strafford Crips), que também não foi poupado: «Tem as virtudes que desaprecio e nenhum dos vícios que gosto

O que a democracia ensina, mesmo a homens difíceis e q.b. autoritários como Churchill: «A maior lição, na vida, é perceber que até os ‘parvos’ e os loucos, por vezes, têm razão




«Tacto (político) é ter a habilidade de mandar alguém para o inferno com tal jeito que o outro fica jeito de vontade de partir

«Tenho gostos simples: contento-me com o melhor

«A história será benévola comigo, porque faço tenção de a escrever


«Não basta darmos o nosso melhor. Por vezes, também temos de fazer o que é suposto

«Coragem é o que o faz levantar-se e falar abertamente; mas também pode ser aquilo que o faz sentar-se e ouvir

Típicas expressões da sua coragem e combatividade: «Tem inimigos? Ainda bem. Significa que, alguma vez na vida, se bateu por alguma coisa


Equivalentes a um auto-retrato: «Atitude é aquela pequena parcela que faz toda a diferença (na vida).» Ou: «O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o optimista vê oportunidade em cada dificuldade.»

Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

domingo, 24 de novembro de 2013

34º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO Lc 23, 35-43
«Lembra-Te de mim, Senhor, quando estiveres no teu reino»

@ Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo:
«Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo,
se é o Messias de Deus, o Eleito».
Também os soldados troçavam d’Ele;
aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:
«Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo».
Por cima d’Ele havia um letreiro:
«Este é o Rei dos judeus».
Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados
insultava-O, dizendo:
«Não és Tu o Messias?
Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».
Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:
«Não temes a Deus,
tu que sofres o mesmo suplício?
Quanto a nós, fez-se justiça,
pois recebemos o castigo das nossas más acções.
Mas Ele nada praticou de condenável».
E acrescentou:
«Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza».
Jesus respondeu-lhe:

«Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

sábado, 23 de novembro de 2013

Conferências dos dias que correm


Pensamentos impensados

Santidade
S. Nuno de Santa Maria é fruto do "incontestável" Álvares Pereira.

Jogos
Play-off, quer dizer jogar fora.
Se fôr jogar "em casa", será play-in ou play-on? 

Receitas extraordinárias
O Estado não paga aos grevistas.
O Estado devia fomentar as greves.

Mezinhas
Se eu precisar de uma pastilha para deixar de sofrer, dás-ma?

Dietas
Os judeus não podem comer caldo verde com tora.

Filosofias
Não penso no Sócrates, logo existo.

Esquerdas
Os canhotos são descriminados; só podem exercer um direito nunca um esquerdo.

Saúde
Eu não inspiro cuidados, expiro preocupações.


SdB (I)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Do perdão


Red Series Purple 1, de JMAC, o homem de Azeitão

De entre os vários temas que me vêm requerendo labor nos últimos dez ou doze anos - o silêncio, a morte, o despojamento, a santidade, a sabedoria -, o perdão ombreia com os demais. Não me motivam interesses intelectuais ou apenas de concepção. Afinal, o perdão ocupa um lugar importante em todas as nossas relações humanas.

O que é perdoar? Perdoamos quando esquecemos ou perdoamos detentores ainda da lembrança? Depois da ofensa recebida, é-nos lícito exigir um período de tempo para digerir o ataque imerecido? Onde entra a compreensão das circunstâncias, a generosidade afectiva, o desejo de seguir em frente? O que nos é mais custoso: perdoar ou pedir perdão? A magnanimidade ou a humildade (amiúde confundida com humilhação)? Que sinceridade pomos num e noutro acto, para que neles não haja vulgarização? Como discernimos amor-próprio de orgulho? Que vontade temos para responder à radicalidade de Cristo que nos desafia a perdoar quem nos ofendeu, mesmo que não tenhamos sido beneficiários de nenhum pedido? Achamos nós que faz sentido esse perdão incondicional, ou descortinamos necessidades 'pedagógicas' cuja oportunidade não deve perder-se?

Poucas dúvidas me restam sobre os malefícios do orgulho numa relação, seja ela conjugal, entre amigos, profissional ou familiar. Mas não estou certo onde, como, e em que medida entra uma espécie de dignidade própria que nos faz assumir uma posição de ponto de exclamação e exigir um tempo interno para  reparação da pretensa dor infligida. Será então que quem pede perdão tem de aceitar esse tempo e atrasar o pedido, submetendo-se a um período de carência cuja duração desconhece? Que sinais damos nós de que esse tempo decorreu e é tempo de armistício?

Pedir perdão será muito raramente (não direi nunca) a assunção exclusiva de uma culpa, porque o trabalho de equipa até nos males se vê. Às vezes é uma contribuição de um dos lados para a paz. O que faz sentido fazermos, se nos pedem perdão? Manifestamos uma superioridade, aceitando o pedido com uma magnanimidade que apouca o próximo, ou estendemos uma mão para que nos levantemos ambos do fosso para onde nos atirámos? Com que cara avançamos para pedir a paz?

O perdão que se pede ou que se dá é mais do que uma humildade ou uma magnanimidade, para usar a ideia cristã. O perdão é deixar a luz vencer a escuridão; o perdão é libertador, pressupondo uma transparência e um acolhimento; o perdão é o passo seguinte à inevitabilidade do atrito; o perdão é a certeza da fragilidade humana, dos desencontros, das palavras irreflectidas, das escolhas incertas. O perdão é o reconhecimento elevado de um erro que pede misericórdia. O perdão é uma nudez que não se compadece de vaidades, que ambiciona aquilo que verdadeiramente nos salva: o Amor.

JdB       

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Crónicas de um mestrando tardio



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O enunciado do 4ª ensaio era este. A minha contribuição fica abaixo, para os que mantêm uma paciência estranha em seguir-me os escritos.

JdB

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1. Sobre Bouwsma
Para Bouwsma, os poemas estão para as asserções como as baleias estão para os peixes. Existem semelhanças mas, de facto, a baleia não é um peixe. Assim...
Para o filósofo, “um poema são palavras, palavras, palavras. Os poemas são lidos, não asseverados, não negados, não obedecidos, não concordados, não respondidos, não informam, não dizem nada.“
E diz ainda: “Afirmei anteriormente que uma palavra tem significado num jogo de linguagem. Mas o poema não é um jogo de linguagem. Poderia por isso concluir-se que a palavra, num poema, não tem sentido. E no entanto, a palavra num poema só tem vida na medida em que é parasitária em relação a uma palavra hospedeira usada no movimento normal da vida.”
A linguagem da poesia é, para Bouwsma, uma linguagem num dia isento de trabalho. Está de férias e nada de prático se faz com ela – não se aspira uma carpete, não dá azo a uma queixa sobre a meteorologia ou a uma descompostura por causa de lama nos sapatos. Nada.
De facto, Bouwsma entende que nenhum poema faz sentido. E revê-se na frase do finalista universitário que afirmava que “a poesia não mente, pois não afirma”.
***
2. Sobre Isenberg
O seu ensaio (A Poem by Frost and Some Principles of Criticism) está dividido em duas partes, como o seu autor refere logo no primeiro parágrafo: na primeira parte, o filósofo tenta uma leitura crítica do poema A Star in a Stoneboat de David Frost. Na 2ª parte, ‘repensa’ a sua posição, revendo algum do conteúdo do seu criticismo.
***
Isenberg refere-se ao poema como sendo “essencialmente um encadeado de imagens, todas iguais e paralelas, desenvolvendo a única ideia. O desenvolvimento não é progressivo mas iterativo; é como um conjunto de variações comparadas com a estrutura da sonata. Não é suposto chegar a lado algum; é suposto acrescentar, deliciar-nos com um fio de pensamentos semelhantes e diferentes.”
E termina a primeira parte do seu ensaio: “não posso fugir da convicção de que o poema está mergulhado num filme meditativo que colapsa quando tocado por um alfinete; e isto impede-me de assumir a sua inocência.” 
Durante as primeiras páginas, Isenberg percorre as várias estrofes do poema escalpelizando e identificando o sentido das palavras e a consonância das imagens à luz de uma linguagem comummente utilizada. Com esse chapéu na cabeça, é-lhe quase impossível não tropeçar em inúmeras incoerências, como, por exemplo, na frase the one thing palpable besides the soul, considerando que, convencionalmente a alma é, por definição, impalpável.
Chega a perguntar várias vezes ‘porquê?’, para se questionar – ou questionar ficticiamente o poeta – quanto à utilização de uma subjectividade que considera “incomodativa”: porquê poetas, porquê Pégaso, porquê o carro voador, porquê isto mais prático do que aquilo? O filósofo, como refere no início da segunda parte, exerce o seu criticismo assente em regras (standards, no original) da lógica e da ética.
***
“Uma vez que os versos não são maus, e uma vez que a lógica diria que são maus (isto é, falsos,  não comprovados), o veredicto crítico não pode ser o lógico (...)”
Isenberg, na sequência, aliás, do que já tinha afirmado na abertura do ensaio, de alguma forma ‘repensa’ (poderia usar-se a expressão ‘inverter’?) o sentido do seu olhar sobre o poema – agora à luz de uma não-lógica, mais do que de uma ilógica, expressões utilizadas na sua referência à décima estrofe.  
Isenberg refere-se então especificamente à oitava estrofe, argumentando que, da sua análise anterior, poderia inferir-se que a figura de estilo utilizada seria contrafactual. Mas, uma vez que o filósofo considera utterly fantastic a ideia de dois dos versos desta estrofe (os melhores do poema, segundo ele), uma tal apreciação teria de estar errada.
Parte significativa do vocabulário utilizado nos poemas refere-se a coisas que existem. Têm um significado genericamente aceite por todos.
(...)
Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!
(...)
‘Ruas’, ‘estradas’, ‘gente’, nesta estrofe do poema Impressão Digital, de António Gedeão, remetem-nos para objectos reais. Uma rua é uma rua, uma estrada é uma estrada, que todos vemos e por onde passamos todos os dias. Ora, no penúltimo verso, o poeta fala em gnomos e fadas. Estes seres não existem,  mas fazem parte do nosso imaginário, remetem-nos para um mundo de fantasia. O significado, o sentido, na expressão de Isenberg, permanecem além da realidade, do facto. 
“Este sentido da palavra é transportado com ela, por meio de uma espécie de inércia, para as estruturas da frase, onde se combina com os sentidos de outras palavras para conferir um significado todo novo.  Este significado é a ideia ou a percepção do poeta;(...)”
É por isso que a leitura desta estrofe  de Gedeão – e, afinal, de todos os poemas - deve ser lida à luz de uma certa não-lógica, como se lêssemos com o coração, citando uma famosa raposa. E nesse sentido, não nos ocorre questionar se alguém pode ver gnomos e fadas em halos resplandecentes, ou o que vê Sancho e D. Quixote, porque são tudo seres e personagens irreais ou fictícios, saídos de imaginações férteis. Quando lemos esta estrofe podemos, como refere Isenberg, criticar a ideia, não devemos comparar o que quer que seja com a realidade, muito embora estas palavras que referem inexistências  - fadas, gnomos, D. Quixote – tenham conotações de valor, se não de facto.
Refiro, por último, as últimas quatro linhas do ensaio, que talvez dêm um contributo importante para a resposta ao enunciado: “a nossa resposta estética não é moralista; e no entanto, não é por ignorarmos valores morais que compreendemos e julgamos a poesia, pois estes valores desempenham um papel de significados experimentados, chamando-se para a frente e para trás, na textura do verso”.

Concordaria Isenberg com a afirmação de Bouwsma, segundo a qual there are no poems that mean?. Inclino-me a dizer que não, não concordaria.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Diário de uma astróloga – [65] – 20 de Novembro de 2013

Os Globonautas

O Sol entra em Sagitário daqui a dois dias. Ainda bem, porque as últimas semanas têm sido pesadas com muitos planetas em Escorpião, eclipses e quadraturas várias. Se Escorpião é crise, Sagitário é a luz ao fundo do túnel. Se Plutão (regente de Escorpião) é intensidade e obsessão, Júpiter (regente de Sagitário) é optimismo, é acreditar nas próprias possibilidades e por isso representa a capacidade de ir mais longe. Mais longe pode ser visitando países longínquos, ultrapassando barreiras de energia física e/ou avançar intelectualmente. 

No ano passado, por esta altura, escrevi sobre Dervla Murphy, sagitária fortíssima, cuja primeira grande aventura consistiu em ir sozinha de bicicleta da Irlanda à India e nos anos 60. 

Hoje presto homenagem a dois portugueses, Joana Oliveira e Nuno Pedrosa, viajantes extraordinários que, ao atravessarem múltiplas fronteiras, desafiam os seus limites e satisfazem o seu desejo de liberdade e a sua curiosidade. Chamaram ao seu blog de viagem “Os globonautas”  http://globonautas.net/,  porque de facto navegam pelo globo dispensando o barco em favor da bicicleta. Mas não são “ciclonómadas” (palavra roubada à Joana) têm um destino, um objectivo. Regressar a casa em Leiria partindo do ponto mais distante: a Nova Zelândia!


Com calor ou frio Nuno e a Joana pedalam (fotos retiradas do blog)
O Nuno, experiente em fazer “coisas doidas” (palavras da Joana),  já tinha ido em bicicleta do Alasca à Terra do Fogo, atravessando 20 países em 960 dias de viagem pedalando 42.024 km. Foi durante essa viagem (2006-2009) que começaram a pedalar juntos.

Com curiosidade de astróloga contactei-os e, com a ajuda das suas mães, fiz os seus temas natais. Pertencem à geração de Neptuno (sonhos) em Sagitário (viagens). Mas o que distingue a Joana e o Nuno dos milhões nascidos entre 1970 e 1984 que também têm Neptuno em Sagitário?

Um planeta torna-se mais forte quando está conjunto aos ângulos (Ascendente, Descendente, Meio do Céu e Fundo do Céu) e verdadeiramente pessoal quando conjunto aos dois primeiros. “Para nós o sonho é viajar, andarilhar o mundo para sentir na primeira pessoa o que ainda aqui existe de tão fantástico e único”. Joana tem Neptuno conjunto ao Ascendente e o do Nuno está conjunto ao Descendente.  

Ambos têm uma boa dose de energia Peixes (signo regido por Neptuno): Joana a Lua e Nuno o Sol.

Os aspectos angulares entre Lua e Úrano significam necessidade de liberdade, de espaço quer emocional quer físico, incluindo desprender-se da família. Ambos têm este aspecto, mas o Nuno tem uma quadratura em signos cardinais sentida de forma muito dinâmica que o levou aos 15 anos a fugir de casa com ideias de ir para a Madeira”. A Joana tem um trígono entre Lua e Úrano, aspecto mais harmonioso, não precisou de fugir, saiu naturalmente.

Ambos têm quadraturas em signos cardinais entre Júpiter (regente de Sagitário) e Plutão (regente de Escorpião). Ambiciosos (no bom sentido) porque acreditam (Júpiter) no seu poder (Plutão), porque vão apaixonadamente (Plutão) mais longe (Júpiter).

Têm diferenças, claro! O Nuno com a Lua em Capricórnio dispositada por Saturno em Gémeos tem uma excelente capacidade prática e logística e talvez por isso considera a Joana “uma cicloturista muito pouco convencional porque gosta de pedalar de saia…e a sua peça de equipamento indispensável? Uma botija de água quente.” Vejo aqui a ligação ao conforto do lar tão necessário a uma pessoa com o Sol em Caranguejo. A Joana com o Mercúrio (comunicação) em Leão (criatividade) relata no blog “Os globonautas” as aventuras do casal com humor, alegria e sensibilidade cultural e humana. Um verdadeiro prazer lê-la e ver fotos como esta que nos transportam a lugares onde a maior parte de nós nunca irá.


Descrevi as suas características comuns. E a astrologia do casal?




As características comuns aqui mencionadas ainda ficam mais fortes, mais completas e mais harmoniosas na carta combinada.
·   Assinalado a azul Neptuno está agora no Meio do Céu (os seu sonhos de viagem são realidade, tem um lugar no mundo) sem perder nada de pessoal pois rege o Ascendente. 
·   Júpiter e Plutão assinalados a castanho estão agora em conjunção. Um clássico de astrologia “The Astrologers Handbook“ de Frances Sakoian e Louis Acker descreve esta combinação como a capacidade de mover montanhas. A Joana e o Nuno movem montanhas metafóricas ao transformar os sonhos em realidade mas sobem-nas á custa dos seus músculos.
·    Assinalada a amarelo a Lua deste casal fica em Aquário signo regido por Úrano e na casa 11 naturalmente regida por Úrano. Além de lhes dar uma boa dose de altruísmo, dá-lhes empatia pelos ideais e aspirações da humanidade (que eles estão a conhecer de perto). Também lhes permite fazer declarações como esta “Deixar que cada dia seja diferente e imprevisível, não por acaso, mas porque conscientemente querem expor-nos a essa imprevisibilidade, à surpresa que é a vida.” (Região de Leiria, 15 de Fevereiro de 2013)

Boa viagem Joana e Nuno, no Turquemenistão, na Pérsia, na Europa, na Vida!

Luiza Azancot

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Duas últimas

O aforismo romano mens sana in corpore sano revela um desejo de consonância entre o corpo e a mente. Neste desejo está subjacente um equilíbrio entre aquilo que em nós é palpável e o que não é. Talvez possamos, por isso, ler esta frase como algo de intrinsecamente egoísta: o meu corpo está são se a minha mente estiver sã; ou, inversamente, a minha mente está sã se o meu corpo o estiver também.   

O que aconteceria se levássemos este aforismo a uma certa descentralização de nós próprios e o recitássemos de outra forma: o meu corpo está são se a tua mente estiver; ou, de uma forma talvez mais correcta, a minha mente está sã se o teu corpo estiver. A mudança de pronome possessivo - ou a conjugação de dois pronomes possessivos, meu/minha, teu/tua - abre uma perspectiva diferente, estende o próprio corpo para além dos nosso limites físicos. A nossa saúde mental ou física já não depende exclusivamente do nosso corpo/mente, mas do corpo/mente de outros. A um ideal individualista conseguiremos opor, com este novo fraseado, um ideal mais gregário?

Sejamos mais audazes e alarguemos este conceito a um universo (quase) ilimitado. Se entendermos que a condição de saúde do nosso corpo/mente está dependente da existência (aparentemente saudável) de algo que nos é extrínseco, conseguiremos então deduzir que nem tudo depende do que está dentro de nós. Logo, construímos relações de inseparabilidade óbvias que derivam de uma semântica livre: não consigo viver sem oxigénio; talvez mesmo não consigo viver sem ti. Ou ainda, não conseguiria viver sem os meus filhos, mas, também, ser-me-ia impossível viver sem os meus cachimbos ou sem a proximidade do mar. Esta condição de inseparabilidade estende-se em possibilidades imensas e permite que estabeleçamos famílias artificiais construídas por pessoas, famílias, lugares, coisas. De que não conseguiríamos abdicar? O que nos é imprescindível para viver? Que famílias artificias são as nossas?

***

Deixo-vos com dois fados, em cujas letras é forçoso atentar-se. Não chega ouvir, apreciar a voz ou a música. É preciso entender as palavras que são colocadas umas atrás das outras, como se a sequência certa fosse aquela, muito embora as combinações fossem quase infinitas.

JdB



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Pensamentos impensados

Benção do Espírito Santo?
Pazes inter primus.

SdB (I) 

Fórmula para o caos

Na semana em que se assinalam os 50 anos do assassinato de John Kennedy, deixo-vos um dos seus discursos mais emblemáticos. Não tendo sido as suas medidas domésticas consensuais entre os americanos, nada poderá ser apontado à política externa. JFK foi um audaz combatente de todo o tipo de totalitarismo.

Pedro Castelo Branco


domingo, 17 de novembro de 2013

Documentos dos dias que correm

III Assembleia-geral extraordinária do Sínodo dos Bispos
Desafios pastorais da família no contexto da evangelização

Documento preparatório - Vaticano 2013

(Documento completo aqui)

III – QUESTIONÁRIO
As seguintes perguntas permitem às Igrejas particulares participar ativamente na preparação do Sínodo Extraordinário que tem a finalidade de anunciar o Evangelho nos atuais desafios pastorais a respeito da família.

1. Sobre a difusão da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja a propósito da família
a)    Qual é o conhecimento real dos ensinamentos da Bíblia, da “Gaudium et spes”, da “Familiaris consortio” e de outros documentos do Magistério pós-conciliar sobre o valor da família segundo a Igreja católica? Como os nossos fieis são formados para a vida familiar, em conformidade com o ensinamento da Igreja?
b)   Onde é conhecido, o ensinamento da Igreja é aceite integralmente. Verificam-se dificuldades na hora de o pôr em prática? Se sim, quais?
c)    Como o ensinamento da Igreja é difundido no contexto dos programas pastorais nos planos nacional, diocesano e paroquial? Que tipo de catequese sobre a família é promovida?
d)   Em que medida – e em particular sob que aspetos – este ensinamento é realmente conhecido, aceite, rejeitado e/ou criticado nos ambientes extraeclesiais? Quais são os fatores culturais que impedem a plena aceitação do ensinamento da Igreja sobre a família?

2. Sobre o matrimónio segundo a lei natural
a)    Que lugar ocupa o conceito de lei natural na cultura civil, quer nos planos institucional, educativo e académico, quer a nível popular? Que visões da antropologia estão subjacentes a este debate sobre o fundamento natural da família?
b)   O conceito de lei natural em relação à união entre o homem e a mulher é geralmente aceite, enquanto tal, por parte dos batizados?
c)    Como é contestada, na prática e na teoria, a lei natural sobre a união entre o homem e a mulher, em vista da formação de uma família? Como é proposta e aprofundada nos organismos civis e eclesiais?
d)   Quando a celebração do matrimónio é pedida por batizados não praticantes, ou que se declaram não-crentes, como enfrentar os desafios pastorais que daí derivam?

3. A pastoral da família no contexto da evangelização
a)    Quais foram as experiências que surgiram nas últimas décadas em ordem à preparação para o matrimónio? Como se procurou estimular a tarefa de evangelização dos esposos e da família? De que modo promover a consciência da família como “Igreja doméstica”?
b)   Conseguiu-se propor estilos de oração em família, capazes de resistir à complexidade da vida e da cultural contemporânea?
c)    Na atual situação de crise entre as gerações, como as famílias cristãs souberam realizar a própria vocação de transmissão da fé?
d)   De que modo as Igrejas locais e os movimentos de espiritualidade familiar souberam criar percursos exemplares?
e)    Qual é a contribuição específica que casais e famílias conseguiram oferecer, em ordem à difusão de uma visão integral do casal e da família cristã, hoje credível?
f)     Que atenção pastoral a Igreja mostrou para sustentar o caminho dos casais em formação e dos casais em crise?

4. Sobre a pastoral para enfrentar algumas situações matrimoniais difíceis
a)    A convivência ad experimentum é uma realidade pastoral relevante na Igreja particular? Em que percentagem se poderia calculá-la numericamente?
b)   Existem uniões livres de facto, sem o reconhecimento religioso nem civil? Dispõem-se de dados estatísticos confiáveis?
c)    Os separados e os divorciados recasados constituem uma realidade pastoral relevante na Igreja particular? Em que percentagem se poderia calculá-los numericamente? Como se enfrenta esta realidade, através de programas pastorais adequados?
d)   Em todos estes casos: como vivem os batizados a sua irregularidade? Estão conscientes da mesma? Simplesmente manifestam indiferença? Sentem-se marginalizados e vivem com sofrimento a impossibilidade de receber os sacramentos?
e)    Quais são os pedidos que as pessoas separadas e divorciadas dirigem à Igreja, a propósito dos sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação? Entre as pessoas que se encontram em tais situações, quantas pedem estes sacramentos?
f)     A simplificação da práxis canónica em ordem ao reconhecimento da declaração de nulidade do vínculo matrimonial poderia oferecer uma contribuição positiva real para a solução das problemáticas das pessoas interessadas? Se sim, de que forma?
g)    Existe uma pastoral para ir ao encontro destes casos? Como se realiza esta atividade pastoral? Existem programas a este propósito, nos planos nacional e diocesano? Como a misericórdia de Deus é anunciada a separados e divorciados recasados e como se põe em prática a ajuda da Igreja para o seu caminho de fé?

5. Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo
a)    Existe no vosso país uma lei civil de reconhecimento das uniões de pessoas do mesmo sexo, equiparadas de alguma forma ao matrimónio?
b)   Qual é a atitude das Igrejas particulares e locais, quer diante do Estado civil promotor de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, quer perante as pessoas envolvidas neste tipo de união?
c)    Que atenção pastoral é possível prestar às pessoas que escolheram viver em conformidade com este tipo de união?
d)   No caso de uniões de pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças, como é necessário comportar-se pastoralmente, em vista da transmissão da fé?

6. Sobre a educação dos filhos no contexto das situações de matrimónios irregulares
a)    Qual é nestes casos a proporção aproximativa de crianças e adolescentes, em relação às crianças nascidas e educadas em famílias regularmente constituídas?
b)   Com que atitude os pais se dirigem à Igreja? O que pedem? Somente os sacramentos, ou inclusive a catequese e o ensino da religião em geral?
c)    Como as Igrejas particulares vão ao encontro da necessidade dos pais destas crianças, de oferecer uma educação cristã aos próprios filhos?
d)   Como se realiza a prática sacramental em tais casos: a preparação, a administração do sacramento e o acompanhamento?

7. Sobre a abertura dos esposos à vida
a)    Qual é o conhecimento real que os cristãos têm da doutrina da Humanae vitae a respeito da paternidade responsável? Que consciência têm da avaliação moral dos diferentes métodos de regulação dos nascimentos? Que aprofundamentos poderiam ser sugeridos a respeito desta matéria, sob o ponto de vista pastoral?
b)   Esta doutrina moral é aceite? Quais são os aspetos mais problemáticos que tornam difícil a sua aceitação para a grande maioria dos casais?
c)    Que métodos naturais são promovidos por parte das Igrejas particulares, para ajudar os cônjuges a pôr em prática a doutrina da Humanae vitae?
d)   Qual é a experiência relativa a este tema na prática do sacramento da penitência e na participação na Eucaristia?
e)    Quais são, a este propósito, os contrastes que se salientam entre a doutrina da Igreja e a educação civil?
f)     Como promover uma mentalidade mais aberta à natalidade? Como favorecer o aumento dos nascimentos?

8. Sobre a relação entre a família e a pessoa
a)    Jesus Cristo revela o mistério e a vocação do homem: a família é um lugar privilegiado para que isto aconteça?
b)   Que situações críticas da família no mundo contemporâneo podem tornar-se um obstáculo para o encontro da pessoa com Cristo?
c)    Em que medida as crises de fé, pelas quais as pessoas podem atravessar, incidem sobre a vida familiar?

9. Outros desafios e propostas

Existem outros desafios e propostas a respeito dos temas abordados neste questionário, sentidos como urgentes ou úteis por parte dos destinatários?

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