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terça-feira, 20 de março de 2018

Porta 19 *

Era uma vez uma gaveta. Era de madeira, como todas as outras. Tinha puxadores trabalhados, bem presos e um forro de papel velho e desgastado com o uso.
Naquele mundo não havia justiça. Havia gavetas preferidas. Havia outras que se tentavam fechar para que nunca mais se abrissem. Mas era impossível.
As gavetas abriam, os seus moradores saltavam e gritavam, brincavam, choravam e até se zangavam uns com os outros.
Para melhor organização daquele mundo complexo a que os humanos chamavam cabeça, as gavetas tinham números.
Quando o mundo foi criado, algumas gavetas vinham incluídas no pacote, outras foram sendo adquiridas ao longo dos anos, outras nunca chegaram a abrir (provavelmente não seriam usadas para nada).
Havia uma gaveta em especial, que por fora era igual às outras. Madeira, puxador branco, mas com um habitante que moía o juízo aos outros. Lá dentro vivia a solidão. Como companheiro, uma dose enorme de pó, que chorava todos os dias, e de cotão, que gritava sem ninguém dar por isso.
Tentaram várias vezes fazer trocas. Esconder a solidão numa gaveta que não fosse aborrecer mais ninguém, fechá-la, calá-la mas... a solidão não se cala, as gavetas não têm chave e ela dali não saía.
Levaram a situação a um ponto tão grave que tentaram expulsar a solidão do mundo. Mas nada, nem os humanos conseguiam resolver o assunto.
Nem com talão, reclamação e justificação plausível a troca seria feita. Os moradores do mundo até discutiram com quem lhes impingiu aquilo. Disseram que não servia para nada, só para desarrumar as outras gavetas. Perceberam então que, quando se adquiriam os outros produtos, a solidão estava anexada, era um género de brincadeira de mau gosto.
A maioria das outras gavetas (conformadas com aquela presença estranha) pouco ou nada queria saber daquela que tinha a solidão. Ignoravam-na a maioria dos dias, iluminadas com a luz do sol, todas funcionavam bem. Entre o abrir e o fechar, os saltos e piruetas do que estava dentro das outras gavetas e armários, ninguém dava muito pela solidão.
A sabedoria e a inteligência brincavam uma com a outra. O sentido de humor, uma criatura pequenina e sorrateira, escondia-se e pregava sustos às convenções sociais e ao silêncio. O mau feitio era estranho, disfarçava-se e dava-se muito mal com o sentido de humor. Aparecia só de quando em vez, e quando não aparecia, fechava-se na sua gaveta com os amiguinhos: os gritos e a arrogância, e às vezes também se juntava a raiva.
Na minha cabeça tenho as gavetas do cérebro bem organizadas. Mas há uma vazia, forrada com um papel velho e gasto, entreaberta, com cotão, pó e um ser estranho a viver lá. Já pensei, mas ainda não sei o que fazer com ela.

All the lonely people, where do they all come from?
All the lonely people, where do they all belong?

TdB

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publicado originalmente em 2.12.2009

sábado, 4 de novembro de 2017

Carta a um anjo

Foi hoje, mas há dezasseis anos. 

Cedo a palavra, porque nunca foste minha, mas de todos os que te quiseram e que fizeram caminho connosco..

J

***

O anjo e as estrelas

- Não é não adormecer bem, mas está muito acordado durante a noite e às vezes conversa sozinho, é muito estranho.

- O ritual do meu filho antes de dormir, Doutora? Acha relevante? Então eu conto-lhe...

Tenho uma vida comum, vivo num terceiro andar, igual a qualquer outro. Tenho um marido, um filho e uma cadeira gasta no quarto do bebé, onde me sento.

O meu marido e o meu filho têm um ritual todas as noites desde que ele nasceu. Enquanto eu fico sentada a olhar, o meu marido passeia com o meu filho pelo quarto enquanto lhe afaga o cabelo, beija as bochechas encarnadas e lhe aperta os refegos como quem quer agarrar o amor com as mãos.

Vão à janela, e ele ensina ao filho o nome das estrelas, as constelações, os caminhos misteriosos da ursa maior, que o sol é a única estrela que não pertence a uma constelação - eu vou-me rindo, em parte pelo amor infinito que sinto ao ver aqueles momentos, e em parte porque ele não acerta o nome de nenhuma constelação, nem percebe nada de estrelas. Nunca o corrigi, não interessa, na verdade. O momento que eles têm os dois é muito mais importante do que o rigor das informações.

Sempre fui excluída daqueles momentos; não que me tivessem excluído, mas sempre me soube melhor ver aquele filme ternurento passar à minha frente...sinto uma paz que não consigo descrever, acho que ultrapassa o conceito da ciência, Doutora. Sentava-me na cadeira gasta, e via-os, dia após dia. O meu filho ia crescendo e o meu marido continuava sem acertar o nome das constelações.

Antes de dormir e no meio das explicações nas estrelas, vão dizendo boa noite aos objectos que enfeitam o quarto do meu filho: ao Santo António pendurado em cima da cómoda desarrumada, à estrela azul que ilumina o quarto, à girafa do quadro e a um anjo a que chamaram Madalena, com uma cara sorridente e com um grande laço em cima de uma nuvem. Todos os dias é igual, doutora, repetem as mesmas frases, o nome errado das estrelas, dizem boa noite aos mesmos objectos.

- Boa noite Santo António, boa noite girafa, boa noite estrela, boa noite anjo Madalena.

Os meses foram passando e há certas noites em que o meu filho fala sozinho a a horas tardias; fala, fala, fala. Uns dias melhor, outros dias pior. Uns dias fala mais, outros fala menos. A doutora acredita que até já ouvi o meu filho a rir às gargalhadas, ainda o sol não tinha nascido?

Desde há uns tempos para cá, tem piorado - cada vez está mais acordado a meio da noite e cada vez fala mais. 

Tentei ignorar mas já não tive força - e confesso que tinha alguma curiosidade. Um dia destes, eram quatro da manhã, lá estava ele na sua conversa habitual. 

Devagarinho fui ao quarto dele e encontrei-o sentado a gesticular com as suas mãozinhas sapudas. Deitei-o e ele adormeceu.

No dia a seguir, a mesma história repetiu-se. Dei com ele a apontar para a janela e a rir entre palavras entremeladas. 

Já estava angustiada por não dormir e por não saber o que eram aquelas conversas incompreensíveis, entrei outra vez no quarto dele e disse:

- Vai dormir, é tarde. Os meninos a esta hora estão todos a dormir. 

Ele abanou a cabeça: Não quero dormir, mãe.

- Tens de dormir, bebé - com quem falas tu a esta hora da noite e por que razão te ris tanto?

- Com o anjo Madalena - acho que ela também não quer dormir hoje. Agora está a ensinar-me os nome certo das estrelas, o pai engana-se sempre e faz-nos rir. Vai dormir mãe, está tudo bem.

T(dB)

em nome de todos os que te lembram, de ti têm saudades, que te deram a mão à chegada ou à partida, para ti sorriram ou por ti choraram.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

sexta-feira, 27 de maio de 2016

sexta-feira, 19 de junho de 2015

“People who love to eat are always the best people.”

Salada em frascos, faço ao domingo para o resto da semana. 

Agora é possível fazer saladas, temperadas e tudo, e guardá-las durante uma semana no frigorífico. A moda pegou nos Estado Unidos e espalhou-se por tudo quanto é blog de culinária à mesma velocidade a que um coxo foge de um leão. Não é brincadeirinha, é mesmo uma grande ideia. Dá para fazer as saladas para a semana toda ou dá para preparar uma salada de véspera e levá-la para o seu almoço no escritório sem ficar com a alface mole e preta.
O segredo para este enorme salto para a humanidade é um frasco de vidro. É dentro deste recipiente que pode guardar a salada em camadas sem que os ingredientes se misturem uns com os outros.

Tudo isto tem uma técnica e o segredo são as camadas. First of all, o molho e os ingredientes húmidos como o tomate ou os pepinos. Na camada seguinte é a vez do ingredientes resistentes à humidade como a cenoura.Só depois as proteínas e ingredientes secos como verduras, massa e crocantes.


Para mais ideias sobre o assunto: www.casalmisterio.com/a-maneira-mais-pratica-de-guardar-uma-132249



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