segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Fórmula para o caos

"Em casa onde não há pão, todos falam e ninguém tem razão". Este ditado popular aplica-se na perfeição a todos os comentários que se lêem e ouvem acerca da despesa do Estado português. Já há muitos anos que se tem vindo a bramar contra os salários dos políticos em exercício e contra as pensões atribuídas aos ex-governantes. É evidente que, num país com recursos limitados, débil clima económico e finanças públicas descontroladas, os políticos poderiam dar o exemplo ao cortarem nos seus salários e abdicarem das pensões vitalícias, quando ainda exercem uma profissão no privado. Contudo, é perigosa a ideia que paira. O povo está convencido de que o grosso da despesa é gasta para o efeito que enunciei. Para que se saiba, são 396 os ex-políticos com direito a pensão. No OGE 2012 estão previstos 7,8 milhões de euros para pagar as ditas pensões. A despesa do Estado ascende a 48,8% do Produtos Interno Bruto. Quero com isto dizer que, se o propósito for moral, o corte nos benefícios à classe política é meritória. Mas se essa for feita com um objectivo economicista, passa a irrelevante.

Pedro Castelo Branco

domingo, 30 de outubro de 2011

31º Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

Todos os evangelhos têm o seu quê de desafiante, e o de hoje não foge à regra. Lê-lo e relê-lo faz-nos imensamente bem, não porque nos conforte ou nos dê alegrias imensas, mas porque nos impele a perceber o que é verdadeiramente importante, dá-nos a perspectiva certa para algumas coisas. 

Somo sum país pequeno do ponto de vista da mentalidade. Detestamos ver o sucesso nos outros, encontramos sempre uma potencial desonestidade na forma como ele terá sido atingido. Por outro lado, temos um ego por vezes demasiado grande, sentimos que precisamos de estatuto, de importância, de reconhecimento, de poder. Envaidecemo-nos com trivialidades e minudências, gostamos de mostrar aos outros o que fazemos - e como o fazemos bem.

A noção de serviço é uma ajuda preciosa para reposicionarmos as nossas prioridades e a nossa forma de actuar em sociedade. No outro dia, em representação da Acreditar numa reunião em que se falava de oncologia pediátrica, mencionei esta dimensão. De facto, um dos problemas das nossas instituições de solidariedade social é a necessidade de protagonismo que nos põe, tantas vezes, de costas voltadas uns para os outros. As associações fazem solidariedade, os cristãos caridade. A diferença das palavras é meramente política, porque no fundo dedicamos-nos todos ao mesmo: ajudar (servir) o próximo. Quando nos desviarmos desta perspectiva, desviamo-nos do essencial. 

É fundamental cultivar esta ideia do serviço (que arrasta consigo a obrigatoriedade de discrição e não-evidência). Gostava de achar que por trás há uma procura do caminho da santidade. Infelizmente talvez seja, apenas, uma manifestação de egoísmo, porque permite olhar para os escribas e para os fariseus, e também para aqueles que se arrogam o direito de serem tratados por doutor ou por mestre, com um olhar tranquilo e pacífico. No fundo no fundo, não querer saber quem alarga os filactérios e amplia as borlas. O que verdadeiramente nos importa é que não façamos nada para ser visto pelos homens.    

Bom Domingo para todos.

JdB 

EVANGELHO – Mt 23,1-12



Naquele tempo, Jesus falou à multidão e aos discípulos, dizendo:
«Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus.
Fazei e observai tudo quanto vos disserem,
mas não imiteis as suas obras,
porque eles dizem e não fazem.
Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens,
mas eles nem com o dedo os querem mover.
Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens:
alargam os filactérios e ampliam as borlas;
gostam do primeiro lugar nos banquetes
e dos primeiros assentos nas sinagogas,
das saudações nas praças públicas
e que os tratem por ‘Mestres’.
Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’,
porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos.
Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’,
porque um só é o vosso pai, o Pai celeste.
Nem vos deixeis tratar por ‘Doutores’,
porque um só é o vosso doutor, o Messias.
Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo.
Quem se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».

sábado, 29 de outubro de 2011

Pensamentos impensados


Há pessoas que perdem a cabeça com chocolate; em compensação ganham barriga.
 
Eu quero amar amar perdidamente nasceu de uma tentativa de slogan para um produto vindo de umas algas e que dizia assim: eu quero agar-agar perdidamente.
 
Portugal nunca será competitivo enquanto tiver como ministro da Economia o ÁLVARO; quando muito será competivo, palavra que já ouvi pelo menos duas vezes ao referido senhor. Será que também diz toxidade em vez de toxicidade?
 
Hergé, o criador de Tintin, pode vir a ser processado por plágio; em Portugal, há muito que temos o tim tim por tim tim.
 
Chamar à colação será o mesmo que dizer venham jantar?
 
D. Afonso Henriques fundou Portugal. A política afundou Portugal.

SdB (I)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

anna karina


talvez seja óbvia
a luminosa beleza
do teu rosto.

já desses olhos que beijam
e desses lábios que olham
ninguém fala.

ou quase.

gi.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Moleskine

Televisão. Anteontem, em representação da Acreditar, fui à televisão fazer um directo, como se costuma dizer. A vida é assim, e o pouco que dou à Acreditar é isto: 40 minutos de carro para lá, três minutos de intervenção após 20 de espera, 40 minutos de carro para cá. À saída, uma rapariga nova, da  Produção, e que me acompanhou, pergunta-me o que tinha achado. Respondi: não gostei. Aliás, nunca gosto. O enervamento, sabe, e acho que estive mal... Retorquiu-me ela, sempre simpática e educada: pois, eu percebo. Mas diga-me uma coisa: vocês na faculdade não aprendem estas coisas? Não me feneceu a educação nem a simpatia, mas não deixei de lhe dizer: sabe, formei-me em engenharia em 1984. Acha que nessa altura alguém, no ISEL, se preocupava com técnicas de comunicação?    

Livro (I). Janto com amigos onde é referido o último livro de José Rodrigues dos Santos, cujo título não tenho presente. Alguém refere as qualidades de investigador do jornalista escritor. Dois dias depois recebo um artigo demolidor, publicado no Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, que pode ser lido aqui. Transcrevo o último ponto, sabendo que haverá algo a alegar em defesa de JRdS: Resumindo: é lamentável que José Rodrigues dos Santos interrogue (e se interrogue) tão pouco. É lamentável que escreva centenas de páginas sobre um assunto tão complexo sem fazer ideia do que fala. O resultado é bastante penoso e desinteressante, como só podia ser: uma imitação requentada,  superficial e  maçuda. O que a verdadeira literatura faz é agredir a imitação para repropor a inteligência. O que José Rodrigues dos Santos faz é agredir a inteligência para que triunfe o pastiche. E assim vamos.

Livro (II). Leio, entremeado com outro, Pai-Nosso que estais na Terra (José Tolentino Mendonça, Ed. Paulinas, 2011). Partilho convosco um excerto que me tocou por motivos óbvios: um dos textos mais impressionantes sobre o valor da escuta é o conto “Tristeza” de Tchékov. Conta a história de um cocheiro, Iona, que perdeu um filho e não encontra, entre os humanos, ninguém disponível para o amparar. «Precisa contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu... Precisa descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... Precisa falar sobre ela também...», mas ninguém o ouve. O cocheiro volta-se então para o seu cavalo e enquanto lhe dá aveia começa a expor-lhe, num longo e dorido monólogo, tudo o que viveu. E as últimas palavras do conto são estas: «O cavalo foi mastigando, enquanto parecia escutar, pois soprava na mão do seu dono... Então Iona, o cocheiro, animou-se e contou-lhe tudo». E nós, a quem nos vamos contar?

Músicas dos dias que correm, enviado por mão amiga:

JdB


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Diário de uma astróloga – [11] - 26 de Outubro de 2011



O que fazem os astrólogos?

Através da etimologia grega da palavra os astrólogos são as pessoas que mantêm um dialogo (logos = falar, pensar, perceber) com as estrelas (astros). Estudamos símbolos planetários que depois traduzimos em linguagem corrente para um maior entendimento do que se passa na nossa vida e na dos nossos clientes e no mundo em geral.

Na prática do dia-a-dia durante as consultas e sempre com o objectivo dar mais escolhas aos meus clientes:

  • ·      Confirmo pontos fortes e fracos da personalidade
  • ·      Ajudo a descobrir um propósito de vida
  • ·      Sugiro o significado de períodos de crise, a melhor maneira de os viver, e sobretudo quando esses períodos têm tendência para acabar
  • ·      Indico as épocas mais apropriadas para fazer mudanças de carácter profissional e pessoal
  • ·      Esclareço padrões de relacionamento, blocos psicológicos, reacções emocionais que provocam problemas repetidos


De vez em quando surgem clientes que me fazem duvidar das minhas capacidades de lhes melhorar a vida.

Há umas semanas uma amiga, daqui para a frente designada por S, resolveu oferecer a uma sua colega uma consulta astrológica. S, por experiência própria, tem confiança na minha capacidade de conselheira e nos meus conhecimentos de astrologia. Quando me telefonou contou-me que a pessoa a quem gostaria de oferecer a consulta, daqui em diante designada por V, tem tido uma vida difícil a vários níveis e está com dificuldade em ver que caminho seguir.

Não sendo bruxa, nem tendo bola de cristal peço aos futuros clientes que me escrevam um texto contanto um pouco da sua vida e as suas preocupações de momento. Assim, posso antes da consulta debruçar-me com calma sobre o seu tema e os seus trânsitos. Durante a consulta concentro-me mais no diálogo, em ouvir,  em ligar-me emocionalmente ao cliente.

O texto de V deixou-me perplexa…  inúmeros e difíceis problemas a nível familiar e sentimental. Acontecimentos perturbantes como uma queda com consequências graves e ter sido assaltada na rua. E por fim, no último parágrafo conta-me que lhe foi diagnosticado um tumor (benigno) no cérebro.

Perguntei a mim própria se estaria a altura do que me era pedido… Como sei que há uma lei divina que só nos manda aquilo de que somos capazes e lá fiz o meu melhor. Durante a consulta achei que V talvez tinha ficado a sentir-se com mais controle sobre o seu destino mas como era anglo-saxónica e pouco expansiva, fiquei com dúvidas.

Poucos dias depois da consulta S telefonou para regularizar o pagamento e contou-me que V lhe disse que depois da consulta foi para a cama com um sorriso coisa que não acontecia há muito tempo.

Proporcionar sorrisos não esta na lista habitual do que fazem os astrólogos mas fiquei muito feliz por ser mais uma das atribuições desta minha profissão… 

Luiza Azancot, que estará em Cascais/Lisboa de 5 a 10 de Novembro

astrocape@gmail.com

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Duas últimas



Não só não conheço o Pablo Alborán como nunca lhe tinha ouvido o nome. Tenho uma ideia menos do que vaga da nacionalidade do cavalheiro e não sei onde se enquadra musicalmente, embora reconheça que este desconhecimento é totalmente irrelevante para a riqueza das nações. 
Acompanho de forma vaga a carreira da Carminho, se bem que o único disco que ela terá gravado esteja incluído no meu iPod. Como fadista não a coloco no pódio dos meus favoritos, mas, não obstante, oiço-a com prazer.
Até ontem desconhecia este dueto que vos apresento hoje. Mão amiga fez-mo chegar às mãos e, dado que me parece ser recente no ciberespaço (expressão interessante mas, quiçá, tecnicamente desajustada), decidi partilhá-lo convosco, multidão anónima de bons samaritanos que fazem a infinita caridade de me ler. 
Os que me conhecem melhor sabem deste meu desabafo: felizmente não sou especialista de nada, pelo que divido a generalidade dos temas entre o gosto e o não gosto. Gostei do dueto e gostei das imagens de Lisboa. No fundo é isto...
Sintam-se à vontade para desancar tudo, encher de críticas acesas a caixinha dos comentários, derramar a vossa irritação musical (ou outra, em havendo...) sobre estes 4'24'' de sonoridade semi-fadista com a capital do império pelo fundo. Acima de tudo respeitem o editor e dono deste estabelecimento. Acho que é o mínimo.

JdB
    

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Vai um gin do Peter’s?


Woody Allen está de volta com tudo o que lhe é próprio, desde a paixão pela Cidade das Luzes, a uma ideia muito original e figurativa, que se desdobra num argumento poderoso: «MEIA NOITE EM PARIS»(1). Ali sobrevoamos os monumentos da capital francesa e exploramos os seus recantos de charme, na perspectiva de um parisiense boémio ou de um estrangeiro totalmente aculturado. Um passeio que mergulha na história riquíssima do que já foi o epicentro da cultura ocidental (até à Segunda Guerra Mundial).


O filme abre com uma visita panorâmica pela cidade, sob o azul grisalho do céu de Paris, terminando numa noite gloriosa, com milhentas luzes a fervilhar na escuridão. Lindo. Depois, em ecrã escuro, ouvimos um diálogo carregado de humor e ironia, que só podia ter sido escrito por W.Allen. Reunidos numa cidade apaixonante para ultimarem os preparativos do seu casamento, o desencontro de ideias entre os noivos não nos deixam quaisquer dúvidas sobre a distância imensa que os separa. Transcorridas aquelas primeiras deixas, já nenhum espectador partilha do equívoco que ainda se arrasta na cabeça dos noivos, habituados a uma proximidade superficial e ilusória. Tudo típico das sociedades ricas, em concreto da americana, onde a gente nova costuma ter liquidez suficiente para projectar uma vida a dois. Só que a vida contenta-se pouco com contas bancárias folgadas, como nos mostra o realizador. 

O protagonista, que no início apenas conhecemos pela voz, tem o timbre inconfundível de W.Allen, quase numa clonagem do omnipresente realizador-argumentista, mas com bastante menos idade. Até nisso, W.Allen se mantém igual, não prescindindo de marcar presença nos filmes que assina.

Voltando a Paris: de um lado, um talentoso argumentista de Hollywood a querer ser escritor (Gil, o noivo), do outro uma família (da noiva) endinheirada da classe média americana, da ala republicana mais radical, tea party ao vivo. Genericamente provinciana e incapaz de alterar um milímetro o seu comportamento consumista e de gosto duvidoso. Sempre deslumbrada pela cultura que não tem, nem consegue interiorizar. Sempre vidrada num património histórico que lhe é e será sempre estrangeiro (na acepção pura e dura de Camus). Por isso, confunde, facilmente, erudição a metro com o saber profundo, normalmente menos extrovertido. O «Monsieur pedante» – na alcunha cirúrgica atribuída a Paul pela personagem encarnada por Carla Bruni – personifica esse novo-rico intelectual que, como em todas as derivações do novo-riquismo, transborda de exibicionismo oco e auto-suficiente. Já o simpático clono de W.Allen (o tal Gil) pretende ser a encarnação do artista genuíno, muito conhecedor de História, apaixonado pela Cultura e pelos grandes fazedores de Arte. Só que é tudo menos simples do que isto, ou o realizador não fosse quem é!

Os quatro norte-americanos em Versailles, com Monsieur Pedante ao comando

Afinal, Gil até será o mais enredado em equívocos e preconceitos, agravados por uma atitude falaciosa, que lhe pode comprometer o futuro. Aqui, W.Allen revela-se no seu melhor, acutilante na auto-avaliação. Sem poupar críticas ao seu alter-ego, nem a ninguém, embora a exploração do ridículo se concentre nas personagens mais pretensiosas e arrogantes. Para essas, tolerância zero. Mas ninguém está isento de erros. Só que a cada qual o desafio que lhe é devido, à medida da sua personalidade e dos objectivos mais profundos…

Às badaladas da meia-noite, qual conto de fadas do avesso, a realidade transfigura-se e, numa antiga ruela parisiense, surge um calhambeque reluzente. Recuamos, animadamente, para os anos 20, a época adorada por Gil. O sonho sobrepõem-se à realidade e os desejos irrealizáveis de Gil rolam pela calçada húmida, ao seu encontro, sob a sonoridade mágica do mesmo sino que, aos outros, anuncia um novo dia. Mas para o insatisfeito Gil um novo dia seria pouco… Pelo que lhe é oferecida uma segunda vida. Mas será?...


Gil junto ao Sena, sob o céu da tela de Van Gogh - «Starry Night» (1889),
que foi pintada no hospício de Saint-Remy. As 11 estrelas evocam a criação da abóboda celeste, referida nos Génesis (37, 9)


Como sempre, W.Allen joga maravilhosamente com os exageros das suas metáforas, conseguindo pelo humor alimentar hipóteses que roçam o estapafúrdio. Só que carregam tanto sonho comum, tanta miragem partilhada por multidões, que as reconhecemos quase como familiares, apesar da inverosimilhança. Acabam por compensar em nexo psicológico o que lhes falta em factualidade. Quem não conhece gente revivalista, sobretudo à medida que se vai envelhecendo? Mas é tão raro esses apaixonados por outros tempos perceberem o irrealismo da sua posição, que tende a subestimar as omissões e fraquezas desse outro período, dramaticamente desfalcado de realidade, desde que foi banido do presente! Até nos aspectos mais comezinhos, redunda em ilusão escapista. Quem, por exemplo, abriria mão das possibilidades tecnológicas dos nossos dias –da saúde, às telecomunicações, passando pela facilidade em viajar – para apenas nomear o menos importante da vida? Aliás, uma blague à volta da falta de medicamentos (note-se que W.Allen é hipocondríaco) nesse passado maravilhoso, ajuda o jovem escritor a cair na real, decepcionando-se com um século onde morrer novo de tuberculose era a regra. A ironia lembra aquele provérbio chinês: Pensa bem em tudo o que pedes na oração, porque pode vir a acontecer-te.


Apesar de tudo, quem duvida que seria fascinante receber dicas de Hemingway, conhecer Fitzgerald e o seu círculo de amigos, frequentar festas animadas pela voz de Cole Porter, ao piano? Chegar ao cúmulo de ouvir conselhos de Gertrude Stein e esbarrar com E.M.Foster? Ou numa noite da neura ser consolado pelo esfusiante Salvador Dali e dar sugestões proféticas a Buñuel? Percebe-se que o primeiro embate nos Vintes tenha sido inebriante: lustres, flutes de champanhe, boquilhas arrastadas, lamés faiscantes, longos colares de pérola, diademas coloridos. Sobretudo, ritmo contagiante ao piano...  

Rodeado de miúdas da geração das nossas avós!


Uma constante nesta comédia mordaz dá que pensar: raros são os que apreciam a sua época, isto descontando os ignorantes e insensíveis que se satisfazem com dólares e existências padronizadas. Todos, a começar pelos grandes artistas, mitificam outro período do passado. Esse sim, memorável! Os dos Anos 20, a Belle Époque; os da Belle Époque, o Renascimento… Difícil é aceitar o presente. Lidar com a realidade que nos toca, aqui e agora. Quando Gil consciencializa essa tentação vã, de algum modo reconcilia-se com o presente ou, ao menos, cede-lhe. Mas nem todos conseguem dar esse passo de coragem, pelo que regridem para a fantasia da sua Idade d’Ouro. Nada mais etéreo. E por isso tão tentador! Paradoxalmente, coube a Ms.Pedante diagnosticar a atitude de fuga contida na obsessão de Gil pelos 20s. E disse-lho taxativamente: «Nostalgia is denial - denial of the painful present... the name for this denial is golden age thinking - the erroneous notion that a different time period is better than the one ones living in - its a flaw in the romantic imagination of those people who find it difficult to cope with the present.»


Para completar a narrativa, ao jeito circular que W.Allen aprecia, não são só os contemporâneos a interagir com o passado. Também os antigos se intrometem, aliás com acerto, no séc. XXI. Assim acontece com Hemingway, que dá um alerta ao jovem escritor, demasiado enlevado nas suas viagens aos cofres da história para enxergar a vida real. Tocava-lhe um dia-a-dia desengraçado, numa suite do Hotel Bristol, com uma loira que, em Paris, torrava os dólares do papá como se estivesse na sua terra. Apenas com a diferença de mais trânsito cá do que lá (cito a loira), uns antiquários, uns palácios, umas telas e umas estátuas hiper badaladas… Quanto ao mais: piscinas de hotel e room service iguais aos dos States.

Outra intromissão divertida vem descrita num calhamaço bolorento, que Gil desencantou nas margens do Sena. Quem decifra a blague – ao protagonista e aos espectadores– é a guia do Museu Rodin (Carla Bruni), traduzindo ao norte-americano a passagem onde entra o seu nome, referido por uma musa de Picasso.



Outras constantes em W. Allen: só por coincidência, o que parece, é. Só por casualidade, as relações fáceis e confortáveis resultam. Só por sorte, as pessoas muito controladoras conseguem agarrar a realidade fugidia e indomável. Lembrando Camões: «Todo o mundo é composto de mudança», mas em W.Allen a vida esvai-se à velocidade dos F16. Um aviso que nos pode ser muito útil, se nos despacharmos.




Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA

Título original:
MIDNIGHT IN PARIS
Título traduzido em Portugal:

MEIA-NOITE EM PARIS
Realização:
Woody Allen
Argumento:
Woody Allen
Produzido por:
Gravior Productions, Televisió de Catalunya, Mediapro
Duração:
94 min.
Ano:      
2011
País:
EUA, Espanha
        Elenco:

Owen Wilson      (Gil, o noivo e candidato a escritor)
Rachel  McAdams (Inez, a noiva)
Kurt Fuller           (pai de Inez)
Mimi Kennedy    (mãe de Inez)
Marion Cotillard (diva dos Anos 20) 
Carla Bruni          (guia no Museu Rodin)
Yves Heck             (Cole Porter)
Alison Pill              (Zelda Fitzgerald)
Corey Stoll             (Ernest Hemingway)
Principais locais
das filmagens:

 

Paris e Versailles

Site oficial:

http://www.sonyclassics.com/midnightinparis/


Filme de abertura do Festival de Cannes em 2011




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