quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Vai um gin do Peter’s? 

Sem pretender ser um documentário rigoroso, o último filme de Christopher Nolan, «DUNKIRK»(1), transporta-nos para a realidade cruenta e incompreensível da guerra, na situação terrível do soldado comum. Atirado, à força, para uma espiral de violência insaciável, sente-se peça menor de um jogo de sobrevivência ilógico, onde parece valer tudo para salvar a pele. Nesse contexto feroz, onde a humanidade resvala para um estádio algo animalesco, rareiam os comportamentos nobres, que não cedem à tentação mais primitiva de sobreviver a qualquer preço.

No terreno, a guerra resulta horrivelmente assustadora e difícil de entender.

Em «DUNKIRK», a diversidade de matizes humanos desfila no ecrã sob a pressão crescente da portentosa ofensiva nazi, conferindo heroísmo aos gestos íntegros e generosos. Ora, o cerco inimigo adensa-se continuamente. No mar, em terra e no ar, os regimentos aliados dificilmente escapam aos ataques alemães, que aguardam a partida das embarcações, pejadas de soldados, para as alvejar selvaticamente. Estoiram pelos ares pedaços de corpos desfeitos e de material estilhaçado; morrem calcinados os que são devorados pelas chamas do combustível derramado pelos navios atingidos; outros afundam-se, aprisionados na carcaça do barco tornado mortalha de miúdos amedrontados e de voluntárias bondosas; alguns aviadores, mais bafejados pela sorte, sobrevivem à amaragem e ainda acabam resgatados por barcos ingleses. Por junto, o fundo do Atlântico e o areal francês transfiguraram-se em vala comum de gente nova assassinada à toa. 

Os sons específicos do palco de guerra dominam ao longo do filme, com parcos diálogos. As expressões faciais e as próprias circunstâncias prevalecem sobre as palavras. No fundo, a proximidade aflitiva de uma morte violenta é a presença mais gritante. 


Um massacre infligido aos aliados que, só não teve consequências mais funestas, por os alemães terem, a dada altura, abrandado os bombardeamentos, acredita-se que por acharem possível poder assim negociar melhor uma rendição serena com o Reino Unido, como vieram a conseguir com os franceses, ou a prioridade de Hitler tomar Paris para humilhar maximamente os aliados. 
Aquele cenário dantesco evoca, por aproximação, a histórica «Retirada de Dunquerque» (22 de Maio a 4 de Junho de 1940), na tentativa de fazer regressar ao Reino Unido o contingente aliado – composto por britânicos, franceses, belgas, canadianos e holandeses. No avanço triunfante dos panzers do Reich, no Norte de França, tinham ficado encurralados num pequeno enclave portuário, sofrendo baixas homéricas. Os números são clamorosos: 48 mil mortos do lado francês, 68 mil do lado britânico, um milhar de civis, 200 navios, 9 contratorpedeiros. Do lado nazi, os mortos oscilam entre 20 mil e 30 mil, mais 100 tanques e 132 aviões. Para conter a sangria, os aliados lançaram-se logo na organização da fuga das tropas para o lado seguro do Canal da Mancha, cognominada de «Operação Dynamo», num repatriamento sem precedentes.

No filme, os britânicos têm a exclusividade do embarque, deixando para trás os regimentos maioritariamente de França, heroicos a retardar a conquista de Dunquerque, esquina-a-esquina, para viabilizar a retirada. Alguns franceses ainda tentam embarcar mas, na obra de Nolan, vêem-se tratados como soldados de segunda e poucos resistem à discriminação grotesca do principal aliado. 

No extenso areal gaulês, as filas ordeiras de soldados imberbes estão expostas à caprichosa Luftwaffe, vagamente contrariada por os poucos caças da RAF autorizados a proteger as manobras de evacuação. A dificuldade dos que esperam o regresso é extrema, pois Churchill queria poupar o escol da marinha de guerra e da Royal Air Force para o iminente ataque de Hitler às ilhas Britânicas. Fora traumatizante ver mais um dos grandes contratorpedeiros ser destruído pelos nazis, minutos depois de levantar ferro, carregado de passageiros. Aqueles pobres soldados, além de estarem sujeitos a um repatriamento atribulado e incerto, não eram a prioridade, pois havia a noção de que se atravessava uma etapa incipiente da guerra. De facto, até 1945, o inferno experimentado na desastrosa Batalha de Dunquerque multiplicou-se dramaticamente. 

Em substituição da marinha do Império, mobilizou-se a frota naval civil para se aventurarem por um Canal da Mancha repleto de submarinos inimigos e céus controlados por aviões alemães. Pior era difícil. Em vésperas das filmagens, o próprio realizador quis replicar aquela travessia marítima, que durou umas penosas dezanove horas, mesmo sem o risco adicional dos bombardeamentos. Recuando a 1940, impressionou – na História e no filme – a excelente adesão dos pequenos iates de recreio, barcos de pesca e botes de todas as dimensões! Nem hesitaram em responder à temerária convocatória de Churchill, pelo que o número de repatriados excedeu largamente o esperado! Até o optimismo de Winston C. ficou aquém da realidade, atingindo-se uma discrepância comovente de 340 mil evacuados, quando as previsões situavam a fasquia em pouco mais de 45 mil. Era a única boa notícia de um massacre e recuo humilhantes, ao tentar conter o imparável exército do Führer. Por isso, os ingleses trataram de a festejar com pompa e circunstância, cientes do valoroso apoio dado e empenhados em manter alto o espírito patriótico, sempre útil para reforçar a combatividade geral. 

Fotografia de arquivo: resgate de militares britânicos por barco pesqueiro, após o afundamento do navio atacado nas redondezas de Dunquerque.
No ecrã, vemos o mais graduado da marinha, na interpretação sempre elegante de Kenneth Branagh, emocionar-se ao vislumbrar pelos binóculos, as águas que banhavam Dunquerque pontuadas por minúsculas embarcações com a Union Jack. A esclarecer o outro oficial do exército, que se espantara com a sua interjeição emotiva, explica-lhe que, desta vez, não se tratava de nova ameaça nazi (como o outro temera), mas a «pátria a aproximar-se». Precisamente, na hora mais amarga de uma retirada precária e anti-épica, emergia o melhor de um país aguerrido, materializado numa mobilização fantástica dos civis para uma evacuação de alto risco. 

Na trama do filme entrelaçam-se três situações distintas, focadas nas forças britânicas. Os desfechos são convergentes e despidos de glória, para espelhar a força indomável de um povo anónimo disposto a lutar até ao último respiro, sem espalhafato nem vedetismos. Era o corolário perfeito de uma escolha consumada pessoa-a-pessoa. Nas três também se adivinham perdas incríveis e instantes de hesitação num ou noutro combatente. Uma das histórias decorre em terra, entre o local do embarque e as ruas da povoação portuária. Outra no Atlântico, a acompanhar a bravura de um pequeno iate, cujo skipper perdera um filho da RAF nos primeiros dias de guerra. O desgosto incentivara-o a enfrentar perigos maiores no agitado Canal, para dar continuidade à luta de que o filho fora brutalmente apartado. A terceira vive-se nos ares, no combate encarniçado com a Luftwaffe.    

Fotografia de arquivo publicada no Observador, a mostrar a organização primorosa dos militares, ao longo do areal. 
Bem à inglesa, o herói entronizado não provém dos líderes, nem das elites instituídas, porque se prefere o cidadão comum, crucial numa guerra total, que transfere os focos de batalha para as cidades, os campos e os mares do planeta. As homenagens principiaram no soldado raso, que voltava à pátria cabisbaixo pelo pouco que fizera numa praia deserta, onde se limitara a escapar às balas alemãs. Demasiado inglório. Por isso, estranharam serem aclamados, no desembarque, pois valorizava-se a sua resistência à carnificina nazi. Às incontáveis embarcações civis, que tinham multiplicado travessias arriscadas para salvar mais um, nem havia palavras para agradecer. Às tripulações de salvamento – a incluir mulheres civis, incumbidas da distribuição de cobertores, chá e sanduiches aos militares esgotados – também faltavam palavras de gratidão. Para a pequena equipa de oficiais, chamada a gerir a grande Retirada, voltavam a faltar palavras. Para a população que ficara em casa, a preparar a iminente Batalha de Inglaterra, importava celebrar a chegada dos militares e manter elevado o ânimo geral. A maioria respondera de modo exemplar, superando até as expectativas, individuais e comunitárias, como «DUNKIRK» se empenha em mostrar. Esse terá sido o maior «milagre», segundo a expressão enfática que Churchill quis atribuir a Dunquerque, apesar de não ser crente. 

Terminada a Operação Dynamo, coube ao talento oratório de Churchill condensar o espírito com que entraria para os anais uma retirada colossal que muitos teriam considerado mera derrota. No discurso de 4 de Junho, depois de reconhecer que as «Guerras não são vencidas com evacuações», confirmou o seu propósito de luta intrépida até à libertação da Europa ocupada pelo  jugo nazi: «We shall go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender (…)». São das últimas palavras de uma obra, que pretende homenagear o esforço de guerra britânico, incluindo pequenas notas críticas (menores) sobre a falta de solidariedade com o aliado francês. Num efeito compensatório, assistimos à declaração heroica do oficial encarnado por K.Brannagh, que declina a possibilidade de embarcar no último bote de repatriamento, explicando que ficaria em terra por causa dos franceses. Agora, ao serviço da Gália. Mas tratou-se de um acto isolado. 

Marcante nas cenas finais, em ritmo empolgante até à conclusão, é a multiplicidade de cambiantes da galhardia inglesa, que ressalta no meio de um revés tremendo, impregnando de um certo sentido vitorioso uma facção apenas derrotada em termos estritamente bélicos (talvez paradoxal, mas só na formulação). É nesta senda que surge o combate solitário do oficial da RAF contra toda a Luftwaffe que fustigava os sitiados britânicos, preferindo esgotar o combustível do caça na defesa dos seus compatriotas. Ser feito prisioneiro, à vista do espectador, depois da aterragem no areal que os nazis já controlavam, só realça o heroísmo silencioso do grande aviador, cabendo-nos lugar privilegiado entre as pouquíssimas testemunhas daquele feito. 

Toda a trama de «DUNKIRK» conta connosco para guardar memória da pequena história urdida na zona cega e muda dos grandes feitos da História, fazendo jus a gestos extraordinários de uma maioria sem possibilidade de figurar nos manuais, mas que contribuiu decisivamente para o derrube do Terceiro Reich.    
      
      
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)

(1) FICHA TÉCNICA
Título original: DUNKIRK
Título traduzido em Portugal: DUNKIRK
Realização: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan
Fotografia: Hoyte van Hoytema
Banda Sonora: Hans Zimmer
Duração: 106  min.
Ano: 2017
Países: Reino Unido, EUA, França e Holanda
Elenco: Kenneth Branagh (Comandante Bolton), Mark Rylance (Mr.Dawson, skipper de barco de recreio), Fionn Whitehead (soldado Tommy), Damien Bonnard (soldado francês), Harry Styles (Alex), Tom Hardy (Farrier), etc. 

Local das filmagens: Norte de França
Trailer:

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Textos dos dias que correm

A Renúncia ao Poder

O único factor material indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens. Estes só retêm poder quando vivem tão próximos uns dos outros que as potencialidades da acção estão sempre presentes; e, portanto, a fundação de cidades que, como as cidades-estado, se converteram em paradigmas para toda a organização política ocidental, foi na verdade a condição prévia material mais importante do poder. 

O que mantém unidas as pessoas depois de ter passado o momento fugaz da acção (aquilo que hoje chamamos «organização») e o que elas, por sua vez, mantêm vivo ao permanecerem unidas é o poder. Todo aquele que, por algum motivo, se isola e não participa dessa convivência renuncia ao poder e torna-se impotente, por maior que seja a sua força e por mais válidas que sejam as suas razões. 

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'

***

O Homem não Foge da Dor

Não é verdade que o homem procure o prazer e fuja da dor. São de tomar em conta os preconceitos contra os quais invisto. O prazer e a dor são consequências, fenómenos concomitantes. O que o homem quer, o que a menor partícula de um organismo vivo quer, é o aumento de poder: é em consequência do esforço em consegui-lo que o prazer e a dor se efectivam; é por causa dessa mesma vontade que a resistência a ela é procurada, o que indica a busca de alguma coisa que manifeste oposição. 
A dor, sendo entrave à vontade de poder do homem, é portanto um acontecimento normal - a componente normal de qualquer fenómeno orgânico. E o homem não procura evitá-la, pois tem necessidade dela, já que qualquer vitória implica uma resistência vencida. 
Tome-se como exemplo o mais simples dos casos, o da nutrição de um organismo primário; quando o protoplasma estende os pseudópodes para encontrar resistências, não é impulsionado pela fome, mas pela vontade de poder; acima de tudo, ele intenta vencer, apropriar-se do vencido, incorporá-lo a si. O que se designa por nutrição é pois um fenómeno consecutivo, uma aplicação da vontade original de devir mais forte. 
Em tudo isto, a dor não só tem por consequência necessária a diminuição da sensação de poder, como até serve, na maioria dos casos, como excitante da mesma sensação de poder, sendo o obstáculo um stimulus dessa vontade de poder. 

Friedrich Nietzsche, in 'A Vontade de Poder'

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Duas Últimas

Se a chuva ocasional de ontem, forte e intensa, foi para uns momento de neurastenia, a mim-me deixou prenúncios benfazejos, ainda que prematuros, de Outono.  De janela aberta, a meio da manhã, cheirei o cheiro da terra molhada e imaginei, ingenuamente, o mercúrio do termómetro a descer, os dias a encurtar, a necessidade de resguardo. Sei que será chuva de pouca dura, que Setembro pode ser um bom mês para quem ainda ambiciona praia e dias ao sol.

Ontem, numa conversa breve, uma amiga dizia-me que gostava do Outono porque os dias curtos demoravam menos tempo a passar. São motivos diferentes os que me levam a apreciar esta época do ano: o Outono, tal como a música mais triste (e já aqui falei sobre isto) é centrípeto, convida ao recolhimento, à interiorização das ideias, à descoberta do sentido das coisas, à protecção que se encontra em locais familiares. Talvez, num certo sentido, seja uma estação do ano mais segura (importante?), porque mais propícia a decisões sérias. Para quem faz do regresso a casa um tema fulcral nas suas deambulações metafísicas, o Outono tem de ser uma presença - talvez mesmo uma dominância. 

Deixo-vos com um conjunto bonito de aspectos estéticos: Monserrate, a viola de Pedro Jóia, a voz de Ricardo Ribeiro e, não menos importante, uns belíssimos versos de Pedro Homem de Mello. 

Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

JdB  




Entrega

Descalço venho dos confins da infância
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu
Vê trago as mãos vazias dos poetas.
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas
Menino irmão dos que erram pelas ruas
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu

Quem te ignorar ignora os que são tristes
Ó meu irmão Jesus, triste como eu
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!

Pedro Homem de Mello

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Moleskine

Livros

Não só é raro, como não representa nenhuma capacidade intelectual superior: leio quatro livros em simultâneo. Nunca me aconteceu, mesmo que os livros tenham particularidades que, para mim, permitem esta simultaneidade. Leio Contos, de Clarice Lispector, O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse, Da Pintura, uma colectânea de escritos de Eduardo Lourenço, e, por indicação e empréstimo do meu querido amigo ATM, Acta Est Fabula, o quinto e último livro de memórias de Eugénio Lisboa, correspondendo ao período que vai de 1995 a 2015. Como pode depreender-se pelo tipo, todos os livros, com excepção do escrito por Hermann Hesse, permitem uma leitura fragmentada.

Os livros correspondem a sugestões que me foram feitas, ou porque fariam sentido para a minha tese de doutoramento (o caso da colectânea de Eduardo Lourenço), ou porque teriam interesse para perceber estes meandros, onde me agito vagamente, das universidades e dos escritores com as suas manias, embirrações de estimação, ódios e paixões, expectativas de Nobel ou desejos insatisfeitos de comendas (no caso do diário de Eugénio Lisboa). Sobre o primeiro, reconheço a minha incapacidade intelectual para, não só tirar ideias como, em muitos casos, para o perceber. O filósofo é, neste caso específico, demasiadamente hermético para o meu gosto. Quanto ao Diário, é demasiado cedo para me pronunciar mas é, talvez, excessivamente factual para o meu gosto: fui aqui, jantei ali, li isto e fiz aquilo. É clara a embirração por Saramago (um ponto a favor), a admiração por Mourão Ferreira (percebo) uma certa acrimónia por Vergílio Ferreira (hmmmm...). 


Boxe

Os jornais, ou pelo menos o Observador, deliciam-se até à exaustão com o que chamaram o Combate do Século, que opôs Mayweather a McGregor, sendo que o primeiro venceu por KO técnico (os últimos segundos que vi do combate).

Tenho dificuldade em achar que o boxe é um desporto. Fala-se muito nas célebres regras do Marquês de Queensberry (que poderão consultar aqui) que deram origem ao boxe moderno. No entanto, nenhuma das doze regras elimina o fundamental: o desejo de vencer o oponente por KO, isto é, zurzir o oponente da maneira mais feroz possível (ainda que dentro das regras) para que este caia estendido no chão, inanimado. Podem as luvas ter de ser isto ou aquilo (regra nº 8); pode ser proibido golpear o adversário abaixo da cintura (não consta das regras...); pode mais isto e mais aquilo que o facto é este: o maior número de murros, nos sítios legalmente mais debilitantes, para que alguém desmaie e se estenda ao comprido. Desporto? Para mim não...


Textos

Por motivos que não vêm ao caso, leio manuscritos de alguém que desapareceu há meia dúzia de anos e que se entreteve, numa letra nem sempre fácil de decifrar, a fazer poesia. Não percebo o que leio e, sobretudo - e esse é que era o desafio - não interpreto o que leio, de nada consigo tirar uma ideia sobre as motivações da escrita, os dramas ou alegrias interiores, os conflitos consigo próprio ou com os outros. 

Este exercício, mais lúdico do que de investigação, faz-me lembrar uma entrevista que ouvi há um bom par de anos. Um estudioso (ou editor?) contava que Kafka perdeu a voz nos últimos tempos de vida, pelo que escrevia as respostas num caderninho. Não se conhecem as perguntas que lhe seriam feitas oralmente, mas conhecem-se as respostas que estão escritas. E agora invento: se sabemos (ou intuímos fortemente) que pergunta teria sido feita se o escritor dissesse bife com batatas fritas, uma resposta que não suscita nenhum pensamento interessante sobre Kafka, talvez (como referia o entrevistado) haja lugar para um devaneio se lêssemos dois pombos em silêncio ao por-do-sol.  Que pergunta lhe fizeram?

Continuarei na investigação, certo de que não interpretarei nada que valha a pena um sorriso de mistério decifrado. Somos, obviamente, muito mais do que aquilo que escrevemos.

JdB

domingo, 27 de agosto de 2017

21º Domingo do Tempo Comum

Evangelho: Mt 16,13-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe
e perguntou aos seus discípulos:
«Quem dizem os homens que é o Filho do homem?»
Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista,
outros que é Elias,
outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse:
«Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».
Jesus respondeu-lhe:
«Feliz de ti, Simão, filho de Jonas,
porque não foram a carne e o sangue que to revelaram,
mas sim meu Pai que está nos Céus.
Também Eu te digo: Tu és Pedro;
sobre esta pedra edificarei a minha Igreja
e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus:
tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus,
e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».
Então, Jesus ordenou aos discípulos
que não dissessem a ninguém
que Ele era o Messias.

sábado, 26 de agosto de 2017

Pensamentos Impensados

Modas
Isto das pessoas já não terem sexo e terem género, não faz meu género.

Geometrias
A superfície dos círculos não devia ser expressas em metros quadrados mas sim em metros redondos.

Lamentos
A Eva disse: que raio de Paraíso é este que não tem lojas de chineses nem nada.

Bok-se
Dizia um pugilista para o seu adversário: vê lá como é que bates que estás a aleijar-me.

Sabedorias
Passou a prova de doutoramento com 19 valores; diríamos que foi uma passagem de nível.

Parecenças
Eva, quando viu o Adão pela primeira vez só disse: és mesmo a carinha da tua mãe.

Geografias
Astrolábio deve ser um aparelho para medir os beiços das estrelas de Hollywood.

Insistências
Lázaro, o da Bíblia, foi um refinado: morreu duas vezes.

SdB (I)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Pensamento Impensado

Bola
Jorge Jesus vai ser proibido de qualquer actividade no difícil campo de Alvalade.

SdB (I)

Preguiças dos dias que correm

O youtube abaixo podia ser apenas a partilha de Chico Buarque, para quem gosta. E também seria uma defesa para a minha enorme preguiça criativa, fruto do calor do Verão, do vento danado que não dá tréguas, de uma falta de rotina académica. Podia ser tudo isso mas não é. Pela leitura da crónica de José Manuel Fernandes ontem no Observador percebi que a letra desta música tinha provocado engulhos, dado o seu carácter aparentemente machista. E por isso a partilho - pelo ridículo da indignação.

(Já agora, vale a pena seguir a história dos livros que uma qualquer comissão recomendou fossem retirados do mercado por os livros acentuarem "estereótipos de género". O mundo tornou-se um lugar perigoso... Talvez o problema desta comissão não seja o carácter censório da decisão, mas a dimensão ridícula da argumentação).

JdB  



Tua cantiga

Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E estrada afora te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

Quando teu coração suplicar
Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir

Na nossa casa
Serás rainha
Serás cruel, talvez
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre mais feliz

Silentemente
Vou te deitar
Na cama que arrumei
Pisando em plumas
Toda manhã
Eu te despertarei

Quando te der saudade de mim
Quando tua garganta apertar
Basta dar um suspiro
Que eu vou ligeiro
Te consolar

Se o teu vigia se alvoroçar
E estrada afora te conduzir
Basta soprar meu nome
Com teu perfume
Pra me atrair

Entre suspiros
Pode outro nome
Dos lábios te escapar
Terei ciúme
Até de mim
No espelho a te abraçar

Mas teu amante
Sempre serei
Mais do que hoje sou
Ou estas rimas
Não escrevi
Nem ninguém nunca amou

Se as tuas noites não têm mais fim
Se um desalmado te faz chorar
Deixa cair um lenço
Que eu te alcanço
Em qualquer lugar

E quando o nosso tempo passar
Quando eu não estiver mais aqui
Lembra-te, minha nega
Desta cantiga
Que fiz pra ti

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Whispering Grass *

Por Harare inteiro, sobretudo nos subúrbios, onde há vegetação, se sente o cheiro da terra queimada. Adormeço, muitas vezes com esse odor que me entra suavemente pelo quarto adentro. Traz-me à memória vaga o encanto de uma lareira, onde as chamas são sempre diferentes, onde os nossos olhos se perdem horas infindas enquanto a mente devaneia por outros lugares. É um cheiro que não me cansa, não me sufoca, se entranha mansamente nas minhas rotinas diárias.

Um dia, movido pela curiosidade que sempre entusiasma alguns ignorantes, perguntei a uma rapariga de cá o verdadeiro motivo das queimadas. Respondeu-me mencionando a renovação da terra, a necessidade de a tornar mais fértil, o carácter purificador e regenerador do fogo. No fundo, disse-me, to make a new green grass grow.

Há uma ou duas semanas troquei mensagens assertivas com pessoas de quem me sinto muito amigo. Algumas palavras tiveram contornos de dureza – não aquela que se serve de objectos de arremesso, mas a que nos faz olhar o outro nos olhos e verbalizar a franqueza, a diferença, o desacordo, a vontade de reparação, a certeza do seguir viagem. No fundo, fizemos uma queimada, porque a terra se regenerou, esfumando-se os vestígios do desalinhamento de pensamentos na cinza que a brisa levou. Cresceu uma nova green grass na maneira como nos relacionamos.

Lembrei-me então de uma toada lindíssima, chamada Whispering Grass, interpretada pela voz não menos bonita da Sandy Denny.


Why do you whisper, green grass
Why tell the trees what ain't so?
Whispering grass
The trees don't have to know
Why tell them all your secrets
Who kissed there long ago?
Whispering grass
The trees don't need to know



Numa cena de uma versão do filme Orgulho e Preconceito, que também  "usa" esta música, há olhares que se cruzam, que se perdem, mãos que se entrelaçam e se afastam, encontros e desencontros de duas pessoas entre varandas, salões, danças inacabadas, beijos interrompidos. O verdadeiro encanto das coisas está na possibilidade que nos oferece de uma visão muito única, muito nossa. Uma cena que é uma bonita metáfora para a vida.

JdB

* Repescado de um texto escrito originalmente em 21.08.2008

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Filmes dos dias que correm


Duas Últimas

Falo-vos hoje de um tema futebolístico que não tenho dúvidas de que incomodará pouca gente, ou não fosse mais de 90% da população portuguesa adepta dos chamados 3 "grandes" (cá, porque lá fora não passam de remediados...).

Na altura em que começa mais um campeonato, com 3 jornadas decorridas, aí estão eles já bem à frente de mais uma corrida que se adivinha desinteressante e viciada como as anteriores, resfolegando quais cavalos na fúria da carreira, na passada aplicando grandes cabazadas aos desgraçados que se lhes atravessam no caminho. Para mais estando estes carregados de jogadores emprestados pelos 3, contra os quais não podem jogar.

Tomar medidas que minorem as diferenças e as brutais desigualdades orçamentais entre esses mauzões e os outros, desde logo através da limitação dos jogadores que cada clube pode inscrever e da centralização dos direitos televisivos e sua posterior distribuição de forma equitativa, como fez a Inglaterra, são coisas que não ocorrem às entidades que gerem o nosso futebol. Ou, se por acaso ocorrem, logo dela desistem, que o respeitinho é coisa muito bonita.

Tudo isto é tolerado quase sem um pio. Os 3 gerem a coisa a seu bel-prazer. Como dizia um treinador, "em Portugal há 6 clubes, os 3 grandes e os 3 que cada semana jogam contra eles". Mas terá de ser sempre assim, e cada vez pior? Eu, se mandasse num dos outros, passava a mensagem de que ou as coisas mudam, ou não há disponibilidade para participar neste circuito viciado. Sem eles/outros, não há circo. Que joguem então os 3 galifões sozinhos entre eles, num mini campeonato a vinte voltas, ou que vão para Espanha apanhar de nuestros hermanos, no campeonato da "Ibéria" que se prefigura após a falência do nosso.

Espero que apreciem a música.

fq

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Textos dos dias que correm

A Lamentação é Completamente Inútil

Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza.
Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada.
Basta, portanto.

Cesare Pavese, in "O Ofício de Viver"

***

O Amor é o Caminho que nos Leva à Esperança

O amor é o caminho que nos leva à esperança. E esta não é uma espécie de consolação, enquanto se esperam dias melhores. Nem é sobretudo expectativa do que virá. Esperar não significa projetar-se num futuro hipotético, mas saber colher o invisível no visível, o inaudível no audível, e por aí fora. Descobrir uma dimensão outra dentro e além desta realidade concreta que nos é dada como presente. Todos os nossos sentidos são implicados para acolher, com espanto e sobressalto, a promessa que vem, não apenas num tempo indefinido futuro, mas já hoje, a cada momento. A esperança mantém-nos vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, derrubados pelas forças da morte. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do eterno.

José Tolentino Mendonça, in 'A Mística do Instante'

domingo, 20 de agosto de 2017

20º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 15,21-28

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia.
Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores,
começou a gritar:
«Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim.
Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».
Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra.
Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe:
«Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós».
Jesus respondeu:
«Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel».
Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo:
«Socorre-me, Senhor».
Ele respondeu:
«Não é justo que se tome o pão dos filhos
para o lançar aos cachorrinhos».
Mas ela replicou:
«É verdade, Senhor;
mas também os cachorrinhos
comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».
Então Jesus respondeu-lhe:
«Mulher, e grande a tua fé.
Faça-se como desejas».
E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.

sábado, 19 de agosto de 2017

Pensamentos Impensados

Cangalheiros
Leio na Internet, na 4ª feira passada, os cabeçalhos do Correio da Manhã, e vejo 17 vezes a palavra morte e seus derivados. O Correio da Manhã patrocina ou é patrocinado por alguma agência funerária?

Celibato is in the air
A propósito da queda da árvore no Funchal, é tal o jogo do empurra que não me espanta se a culpa morrer solteira.

Nem só na praia
Nelson Évora ganhou bronze; é uma espécie de chover no molhado.

Capilares
Estar empenhado em descobrir um remédio para a queda do cabelo não é o mesmo que estar empenhado até a raiz dos cabelos.

Dislexia tauromáquica
Jueves, formidable corrida de rotos.

Alcunhas
Caso este governo caia, propõe-se para o próximo, jiga-joga, salsifré ou olarilolé.

Ao relento
Os botões das mangas dos meus casacos são considerados sem abrigo; não têm casas

Bicho carpinteiro
Marcelo estava de férias no Algarve e, eis senão quando aparece no Funchal. Veio-me a ideia o hino do Benfica: são papoilas saltitantes.

SdB (I)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Poema dos dias que correm

Toronto, Outubro de 2014


O Album

Minha Júlia, um conselho de amigo;
Deixa em branco este livro gentil:
Uma só das memórias da vida
Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silêncio gravada
Pelas mãos do mistério há-de ser;
Que não tem língua humana palavras,
Não tem letra que a possa escrever.

Por mais belo e variado que seja
De uma vida o tecido matiz ,
Um só fio da tela bordada,
Um só fio há-de ser o feliz.

Tudo o mais é ilusão, é mentira,
Brilho falso que um tempo seduz,
Que se apaga, que morre, que é nada
Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos
Dos enganos que a esp’rança forjou?
Vãos reflexos de um sol que tardava
Ou vãs sombras de um sol que passou!

Crê-me, Júlia: mil vezes na vida
Eu coa minha ventura sonhei;
E uma só, dentre tantas, o juro,
Uma só com verdade a encontrei.

Essa entrou-me pela alma tão firme,
Tão segura por dentro a fechou,
Que o passado fugiu da memória,
Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Júlia bela, o conselho:
Deixa em branco este livro gentil,
Que as memórias da vida são nada,
E uma só se conserva entre mil.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Pensamentos dos dias que correm

A Coragem da Resignação

A palavra «resignação» não tem boa reputação. Lembra atitude devota, passividade, lágrima ao canto do olho. E todavia, não é isso. Em face dos limites de uma condição, da morte e do nada que vem nela, que outro nome dar à aceitação calma, à fria impassibili­dade? A revolta em tal caso pode falar ao nosso orgulho, à imagem de grandeza que queiramos se tenha de nós. Mas é uma imagem ridícula. Ela responde ainda, não ao reconhecimento do que nos espera, mas a uma notícia recente e não assimilada que disso nos dessem. A coragem não está na atitude espectacular, mas na serena e recolhida e modesta aceitação. Temos assim tendência a julgar herói o que enfrenta a morte com atitudes de grandiosidade, não o que a enfrenta no seu recanto, em silêncio e discrição. Mas o espec­táculo é ainda uma forma de compensar o desastre da morte — é ainda uma forma de uma parcela de nós se recusar a morrer. Quem morre resignado morre todo por inteiro, nada ele assim recusa do que a morte lhe exige. 

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 2"

***

A Culpa é Sempre Nossa


Sempre admirei aqueles que nos fazem sentir culpados do que dantes nos julgáramos inocentes. A culpa é uma riqueza, à qual se vai acrescentando. O resultado oscila entre a lista telefónica e as Obras Completas mas pesa sempre. 

Os grandes mestres são os nossos pais e os nossos filhos - ambos mostram de onde veio a inspiração para o pecado original. Ora se é culpado por ter nascido e interrompido, ora se é culpado por ter dado a nascer e não se ter interrompido tanto quanto precisariam os nascidos. A culpa não é uma coisa que se tenha, como um pescoço. É uma coisa que se transmite, como uma gripe. Tanto faz ser-se inocente ou culpado «à partida», que tem aspas porque não existe. Os malvados constipam-se tanto como os bonzinhos. Mas ambos são vulneráveis à ideia que até fizeram por isso e merecem pagar. Até com as lâmpadas de casa de banho acontece. Não há domínio de banalidade que a culpa não contamine. Tenho passado, nos últimos anos, várias semanas, dispersas no tempo, sem luz na casa de banho. Uso pilhas e a luz da lua, quando é oferecida. Depois aparece o electricista que é afoito e resolve tudo num segundo. Não desaparece, contudo, sem bafejar-me primeiro com o ónus da culpa. «Usa muito a casa de banho de noite?», pergunta, como se fosse uma perversão ou uma coisa má. Eu caio na asneira de responder que não. Ele dá-me o olhar culpabilizante: «Andas a cagar muito e a más horas, a ler o Proust...» Santa culpa, que é sempre nossa. 


Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (19 Jan 2012)'

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Vai um gin do Peter’s? 

Há gente nova fantástica! Falar em “geração rasca” é das maiores heresias, além de rematado mau gosto. Claro que serve de atenuante, o facto de estar tão desfasada da realidade.

Quantos universitários e recém-licenciados têm aproveitado as férias para ajudar outros da sua idade a sair da espiral de carência em que nasceram. Oferecem, assim, boa parte do tempo de descanso (alguns, um ano sabático) para ser úteis a quem passa fome, dispondo-se a inventar oportunidades capazes de conferir rumo a vidas aparentemente perdidas. 

É neste espírito que a organização «Leigos para o Desenvolvimento» lança, há décadas, programas de voluntariado para a antiga África portuguesa. No início foram os pais. Agora, parte a geração dos filhos. 


Santomeneses e «Leigos» formam equipa para desenvolver S.Tomé, começando pelos mais novos.


Um dos primeiros destinos foi S.Tomé, onde as jazidas de petróleo não conseguiram reverter o estado de subdesenvolvimento extremo em que o país se arrasta. Forrados de imaginação, este ano, um grupo de «Leigos» desencantou uma alternativa para proporcionar à juventude santomense um hobby saudável e exequível, pois mar não lhes falta: o surf. 


Pranchas alinhadas para dar esperança à geração mais nova. A alegria serena da criança de feições redondas e meigas, é o melhor argumento em favor do projecto.


Como tudo o mais escasseia na ilha, a começar por pranchas e equipamento náutico adequado, iniciaram um crowfunding (https://novobancocrowdfunding.ppl.pt/surf-alegre) para aquisição do material necessário à prática daquele desporto. O custo exorbitante do transporte tem inviabilizado os donativos em género, motivo por que são preferidos os contributos financeiros, através do tal crowdfunding, activo até 11 de Setembro. Se, até lá, não forem atingidos os dois mil euros, a campanha fica sem efeito e o dinheiro recolhido será devolvido aos doadores. 


É visível o entusiasmo com o novo brinquedo, que pode ser o motor
de desenvolvimento da economia local. 


Com humor, chamaram à iniciativa «Surf Alegre», jogando com o nome do povoado marítimo que serve de sede ao programa – Porto Alegre – a replicar a toponímia brasileira, talvez por virem desta margem os navios de escravos que povoaram o outro lado do Atlântico… Perguntamo-nos, sem encontrar resposta à altura: porque se acumulou tanto sofrimento naquela pequena ilha africana, fadada para ser um paraíso, pois até a comida nasce nas árvores, pejadas de fruta suculenta? 

De facto, há sítios e vidas que descaem para o torto com demasiada facilidade. Mas, felizmente, que os «Leigos» persistem em tentar quebrar o ciclo da marginalidade. Desta vez, pretendem ajudar os santomenses a apanhar a onda certa, na mais pura acepção, sonhando-a ainda como embrião de uma oferta turística extensível a toda a região. O facto é que não se têm poupado a trabalhos, chegando a montar o primeiro torneio de surf, que querem internacionalizar para atrair campeões de todo o mundo. Depois, uns chamarão outros, convertendo a ilha num chamariz náutico imparável. 


Os efeitos da iniciativa já se fazem sentir, com miúdos a levar
 a sério um desporto recém-descoberto


Se o crowdfunding “borregar”, todo este projecto de realização
pessoal e profissional fica comprometido. 


Tudo planeado ao milímetro, os «Leigos» estão já a desdobrar-se numa multiplicidade de workshops, desde os surfistas, aos logísticos para reparação e reciclagem de pranchas, ginástica preparatória e todo o conjunto de actividades lúdicas em torno do surf, onde a disciplina e o entusiasmo se aprendem com subtileza e muito divertimento. 

Depois da generosidade infinda destes pequenos missionários da actualidade, resta-nos a parte mais fácil: viabilizar um crowdfunding que poderá resgatar a geração mais promissora da ilha de S.Tomé. Compensará inclusive parte do que, ao longo da História, correu mal por aquelas paragens tropicais. Já é um privilégio podermos também apanhar tão boa onda, graças a estudantes «Leigos» inspirados!... 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta-feira)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

Hoje, mas há 23 anos, baptizava-se na Igreja de Santo António do Estoril uma criança que, estou certo, já nascera consagrada a Nossa Senhora.

JdB

***

Consagração a Nossa Senhora

Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia e para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.
E porque assim sou Vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como propriedade vossa.
Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa.
Ah, guardai-me e defendei-me como coisa própria Vossa.


***

EVANGELHO – Lc 1,39-56


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».
Maria disse então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre».
Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses
e depois regressou a sua casa.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Livros dos dias que correm

A crer como certo o que consta da badana, li o livro com 40 anos de atraso. De facto, se "[n]unca perdendo a actualidade, continua a fascinar o público jovem sendo livro de cabeceira há já várias gerações", está correcto, Siddharta, de Hermann Hesse, chegou às minhas mãos quatro décadas depois do que devia. Não decidi perseguir tardiamente a juventude - isso seria ridículo em mim, muito em particular, que nunca fui jovem e que vive relativamente bem com a sua idade.  Na realidade, o livro foi-me sugerido por via da minha tese de doutoramento. 



Não sei se Siddartha é um livro para o "público jovem". Não sei, sequer, a que faixa etária pertence este público: 16? 18? 25? E são os jovens em 1978 (quando eu tinha vinte anos), ou são os jovens de agora, com todas as diferenças de uma geração para outra? Siddartha fala de despojamento, da pobreza que, por ser opção, não implica dificuldades, da felicidade de viver sem nada a não ser de uma banana por dia e de um rio que diz coisas sábias. 

- Muito bem, E o que tens tu para dar? O que aprendeste, o que sabes fazer?
- Sei pensar. Sei esperar. Sei jejuar.
- Isso é tudo?
- Penso que é tudo.  

Talvez, como no filme e, penso, numa música, a vida esteja ao contrário, e os rios devessem correr do mar, não para ele. Talvez fosse mais proveitoso ler Siddartha aos 20 anos - mas com o entendimento dos 60. Não estou certo do impacto perene da leitura deste livro numa juventude que, muito naturalmente, não sabe o que é despojamento, não sabe o que é querer viver com pouco, porque com muito pouco se pode viver muito bem; uma juventude que não quer prescindir da tecnologia, dos carros, da carreira ou das roupas ou das viagens de puro lazer.

Pensar, esperar, jejuar. Um bom programa, mas um programa difícil, qualquer que seja a idade. 

JdB


domingo, 13 de agosto de 2017

19º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 14,22-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Depois de ter saciado a fome à multidão,
Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco
e a esperá-l’O na outra margem,
enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu,
subiu a um monte, para orar a sós.
Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar,
açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite,
Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar,
assustaram-se, pensando que fosse um fantasma.
E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo:
«Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor,
manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!» – disse Jesus.
Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas,
para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se,
gritou: «Salva-me, Senhor!»
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o.
Depois disse-lhe:
«Homem de pouca fé, porque duvidaste?»
Logo que saíram para o barco, o ventou amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus,
e disseram-Lhe:
«Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».

sábado, 12 de agosto de 2017

Pensamentos Impensados

No restaurante 
Cliente: Sugira-me uma boa entrada.
Empregado: As portas do Céu, mas aqui não temos.

Desportos
Há um desporto que altera o filismo; não sei o que é, mas pelo sim pelo não não vou praticar.

Pratos tradicionais
Parece-me que o Governo pede dinheiro emprestado para pagar os juros da dívida.
Assim sendo, é como uma pescadinha de rabo na boca; e já sinto a boca no meu rabo.

Anexim
Quem não défice não trémice.

Espertezas
Adão, para pressionar Deus a dar-lhe uma companheira, fez greve de sexo.

Estatísticas
Nos tempos de Adão e Eva o desemprego chegou aos cem por cento.

Nulidades
Os clubes de futebol que empatam é porque têm grande empatia.

Casinhas
Era um apartamento tão pequeno que tinha a classificação de T abaixo de zero.

SdB (I)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Duas últimas

Conheci a música "No rancho fundo" quando fui ao Brasil pela primeira vez, penso que em 1975, pese embora a música ser mais antiga. Naquela viagem trouxe uma cassette (ainda alguém se lembra do tempo das cassettes?) com músicas de Ary Barroso, um brasileiro responsável por inúmeros sucessos, nomeadamente Aquarela do Brasil.  Desta cassette que me acompanhou durante algum tempo fixei este "No rancho fundo", integrado num medley interpretado pelo Quarteto em Cy. 

Ontem, em casa da minha filha, ela perguntou-me se eu conhecia a música, e apresentou-ma cantada pelo António Zambujo e Miguel Araújo. Gostei muito da versão, mas na minha memória estava a do quarteto brasileiro. Ontem ainda, ao pesquisar os youtubes para aqui postar, encontrei a versão que, dizem alguns internautas, é a melhor: Chitãozinho e Xororó - e só o nome é um tratado a merecer atenção. 

Deixo-vos com as três versões, embora a do Quarteto em Cy - que recomendo muito - integre apenas umas quadras, seguindo para outras músicas que vale a pena ouvir também. 

JdB  

Nota: nunca tinha ouvido a música toda, porque a versão do Quarteto em Cy tem apenas, como referi, uma pequena parte. Há quem ache que a letra fala de uma relação gay. Não sei, acho audacioso dizê-lo só pela escuta dos versos. Talvez haja pela net uma interpretação oficial. Não me interessou.






  

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Textos dos dias que correm

A Idade da Derrota Aceite

Tenho sessenta anos. Não te iludas: não estou ainda bastante fraco para ceder às imaginações do medo, quase tão absurdas como as da esperança e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confiança; não perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim tão próximo não é necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperança de chegar à manhã seguinte. Adentro dos limites intransponíveis de que te falei há pouco, posso defender a minha posição passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. Não deixo por isso de ter chegado à idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias estão contados não significa nada; sempre assim foi; é assim para todos nós. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avançamos sem cessar, diminui para mim à medida que a minha doença mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos já não será vivo. 

A minha margem de hesitação já não se alonga em anos, mas em meses. As minhas probabilidades de acabar com uma punhalada no coração ou por uma queda de cavalo tornam-se cada vez menores; a peste parece improvável, a lepra ou o cancro afiguram-se definitivamente afastados. Já não corro o risco de cair nas fronteiras, atingido por um machado helénico ou trespassado por uma flecha parta; as tempestades não souberam aproveitar as ocasiões que se lhes ofereceram, e o feiticeiro que me predisse que eu não me afogaria parece ter acertado. Morrerei em Tíbure, em Roma ou em Nápoles quando muito, e uma crise de sufocação encarregar-se-á da tarefa. Serei levado pela décima ou pela centésima crise? É essa a única questão. Assim como o viajante que navega entre as ilhas do Arquipélago vê despontar, ao entardecer, uma espécie de névoa luminosa e descobre pouco a pouco a linha da costa, eu começo a avistar o perfil da minha morte. 

Certas fracções da minha vida assemelham-se já a salas desguarnecidas de um palácio demasiadamente vasto que um proprietário empobrecido renuncia a ocupar todo. 

Marguerite Yourcenar, in 'Memórias de Adriano'

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Duas Últimas

Devido a sortilégios informáticos muito além do meu entendimento, consigo perceber, numa determinada aplicação relacionada com música (Spotify para os mais ignorantes da tecnologia moderna) o que uma determinada pessoa, significativamente mais nova do que eu, está a ouvir no momento. Volta e meia, de visita a esta aplicação que ainda não uso com regularidade, percebo o que essa pessoa está a ouvir. Por vezes conheço a música, por vezes conheço a banda ou o cantor, por vezes, como é o caso agora, não conheço nada. Não faço, por isso, a mais pálida ideia de que género de música se trata. A decisão de postar foi, portanto, um enorme tiro no escuro, embora pareça ter identificado alguma coisa pelas imagens estáticas no youtube

Deixo-vos com os Tinariwen em Toumast Tincha. Se quiserem insultar alguém façam-no aqui, que eu reencaminho a indignação para quem de direito.

JdB


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Recordações do dia que passa

O post de hoje é todo feito sob o signo da lembrança: hoje, mas há exactamente nove anos, estava a chegar ao Zimbabwe. E hoje, mas há exactamente nove anos, escrevi dois posts: um subordinado ao título a minha mala é um queijo da serra (que copio mais abaixo) e outro subordinado ao título aniversário, no qual, lá de longe no espaço e no tempo, dava um beijo de parabéns à ETM, uma amiga que nunca me faltou quando precisei e a quem telefonarei ainda hoje. 

Hoje é isto, amanhã não sei...

JdB

***

Na generalidade, penso que todos temos um potencial racismo interior, pronto a eclodir ao menor sinal. Estou em África, pelo que falo em relação aos que cá vivem e aos que de cá são naturais. Um nativo simpático e educado ganha o estatuto de encantador. Ao lado dele, um jovem que comete um erro transforma-se num incompetente que vive num país que não funciona, porque senão tê-lo-ia despedido antes de o contratar. Entre a cristandade que deseja abraçar o seu irmão de côr e a superioridade que pretende defenestrar o mesmo cavalheiro há um nada que mal se vê. Eu conto:

Fui buscar ontem a minha mala ao aeroporto de Harare, 24 horas depois de eu próprio ter chegado. Mantive a higiene mínima graças ao pronto-a-vestir do JdC. Somos amigos há tantos anos que já temos o mesmo tamanho, pouco mais ou menos. Pela manhã afiançaram que a mala já repousava no Zimbabué, o que não se confirmou, após busca aturada. O sr. Simba, verdadeiro leão africano, sugeriu-me que esperasse pelo voo da SAA das 12.20h. O sistema, segundo ele, não falha, e afiançara que a mala saíra de Joanesburgo ainda na 3ª feira. Talvez neste aviãozinho, sugeriu ele. Aguardei, pois. Chegou enfim, passados largos minutos de espera ansiosa, enquanto os meus olhos corropiavam pelo tapete que suporta bagagem de todo o tipo e feitio - desde equipamento para o jogo do polo ao saco de comida para cães.


Estou certo de que em Joanesburgo a minha mala levantou suspeitas. Presumo o farejar de cães, o telefonema enervado para as minas e armadilhas, o contacto com o supervisor de serviço, a dúvida sobre o despoletar da emergência interna. Activou-se o plano B, que consistiu em cortar uma face inteira da minha mala, deixando a descoberto um forro alvo, feito do algodão mais macio. Felizmente não roubaram nada - das meias à máquina fotográfica, passando por um teclado de má qualidade e roupa interior do M&S.

Quando olhei para os despojos da mala que albergava os meus pertences, vi o desinteresse em tempo inútil. Senti-me como um presidente de um clube de futebol que, pagando milhões por um craque, o vê chegar no dia seguinte ao prazo legal com uma rótula flexível como basalto. Acabei por ter uma visão mais gastronómica: a minha mala é um queijo da serra ao qual cortaram uma calote, revelando um amanteigado de salivar.

JdB

PS: li algures, no espaço blogosférico de alguém, que as mulheres almejam sentido de humor nos homens. É isso que querem. Eu, apesar de tudo, tento manter o meu - para os fins mais nobres.

domingo, 6 de agosto de 2017

Transfiguração do Senhor

Evangelho segundo S. Mateus 17, 1-9.

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol,
e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito.
Então Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse:
«Levantai-vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

sábado, 5 de agosto de 2017

Pensamentos Impensados

Frases bombásticas
Sofia Loren foi uma bomba anatómica.

Classificações
O s mosquitos são insecto-contagiosos.

Só com motor de busca
É mais fácil encontrar o Pokemon que os sítios onde o Marcelo não esteve.

Lembranças
Omar Shariff foi assim baptizado depois da sua mãe ter lido Oh Mar Salgado.

Anexim
Cesteiro que faz um sexto é porque fez um quinto.

Protesto
Caracóis indignados com morticínio propõem-se fazer protesto em marcha lenta.

Justiças
Caim, como bom lavrador, lavrou a sentença de morte do irmão Abel.

A caixinha que mudou o falar
Oiço, na TV, um advogado dizer troca de palavras verbais e físicas.

SdB (I)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Poemas dos dias que correm

princípio do prazer

à sua volta os pombos cor de lava
nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto

no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio

trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-fátuo a coroar um mastro

seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava

e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

***

Prazeres

O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.

Bertold Brecht, in 'Do Pobre B.B.'

***

Sítio Exacto

Sei que não acaba
o teu prazer,
nem o meu.

Alguém
ama connosco
e nos leva
ao sítio exacto
das estações.

Nem o sono
depois nos pertence,
quinhão de outros
herdado após amarem.

António Osório, in 'O Lugar do Amor'

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Vai um gin do Peter’s? 

É, sobretudo, na arte que a lenda da Bela Adormecida se mostra certeira, quase à letra.

Uma das Belas, acordada há um par de anos, foi a obra milenar encoberta por um reboco espesso, a esconder (e preservar, num certo sentido) os mosaicos deslumbrantes da Basílica da Natividade, no povoado remoto de Belém, em Israel. Remoto para os peregrinos, turistas e gente bem intencionada, mas exposto aos projécteis perdidos das intermináveis guerras israelo-árabes. No célebre conflito de 1967, um morteiro fez estragos no tecto. Em 2002, as tensões com palestinianos deixou marcas de balas cravejadas por todo o lado. Em 2014, nos confrontos bélicos na Faixa de Gaza, a vítima de um foguete seria um membro da equipa italiana de restauro – Giorgia Zurla. Com humor e desportivismo, observava que lhe valera a «proteção de Deus», uma vez que não era abrangida pelo sistema anti-míssil israelita, conhecido por Cúpula de Ferro.

A história da Basílica carrega as cicatrizes do percurso atribulado de Jerusalém e imediações. Começou por ser erigida no séc. IV, sobre a concavidade onde teria nascido Jesus, por iniciativa do imperador romano Constantino. Dois séculos depois, rebeldes samaritanos arrasaram-na. Mais tarde, foi reerguida a mando de outro imperador de Roma – Justiniano. Seguiram-se mais razias por abalos sísmicos e uma sucessão perniciosa de conquistas militares. O arco da sua porta altiva acabou por ficar reduzido a 1,2m de altura, para impedir a entrada de cavaleiros, lembrando o tempo dos cruzados. Isso valeu-lhe o nome de «Porta da Humildade».


Inspirado na reportagem da NATIONAL GEOGRAPHIC de Maio de 2016, assinada por Anne-Marie O’Connor, 
autora do livro «The Lady in Gold», dedicado ao famoso retrato que Klimt pintou da milionária judia de Viena – Adele Bloch-Bauer. 

A trama de mosaicos formada por vidro, madrepérola, pedras semi-preciosas da zona e folhas de ouro e prata, data do séc. XII e foi patrocinada pelo rei cruzado Amalrico I e pelo imperador bizantino Manuel Commeno I. Aquelas composições, de acentuado cariz bizantino, lembram Sicília, Florença e Ravena, além dos característicos padrões florais simétricos da arte muçulmana, em concreto os da mesquita Al Aqsa de Jerusalém, que calha a ser a terceira mais sagrada do Islão.

Uma jóia em fundo de ouro luminoso

O artista terá sido Basilius, que assinou as peças em latim e siríaco. É-lhe também atribuída a autoria das ilustrações do «Saltério» concebido para a  rainha Melisende de Jerusalém (séc. XII).

As figuras gigantescas dos murais estão estrategicamente inclinadas para maximizar o seu impacto visual, a partir do chão.

A primeira figura do anjo de 2,5m de altura, que deu alento à caça ao tesouro


Foi emocionante para a jovem especialista da equipa italiana – Silvia Starinieri, de apenas 28 anos – vislumbrar um contorno imprevisto, ao passar a máquina termográfica sobre o reboco das paredes. Mal conseguiram remover essa cobertura, com mil cuidados, surgiu uma face cintilante de madrepérola:

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Nas palavras do líder da equipa, Piacenti: «Finalmente o belo anjo, após séculos de escuridão, pode olhar para baixo, sobre a multidão de peregrinos».


Em 2013, a pressão do presidente da Autoridade Palestiniana, M.Abbas, foi crucial para as comunidades cristãs se entenderem e a equipa de restauro poder iniciar os trabalhos. Já o primeiro alerta para o risco de colapso das vigas viera dos palestinianos, depois secundados pelas Nações Unidas que, em 2012, declararam em perigo iminente a Igreja classificada como Património Mundial.

Nos murais restaurados, visualizam-se cenas bíblicas com Jesus e sua Mãe, os apóstolos e ainda santos posteriores, patriarcas, animais da época, incluindo um camelo bebé, que faz as delícias da equipa, pelo sentido de humor do artista de eras tão recuadas.

Com desvelo, os restauradores não se pouparam a esforços para desencantar madeira semelhante às vigas originais, feitas de cedro do Líbano, da era de Justiniano. Encomendaram também toros dos Alpes, de onde provinham os originais do séc. XV, já parcialmente danificados.

Até no chão, a trama pictórica se entrelaça artisticamente. Por falta de verbas, não houve ainda possibilidade de cobrir todo o original com uma placa de vidro que deixasse ver a obra, protegendo-a em simultâneo. Dos cerca de 10 milhões de dólares já gasto no restauro, um décimo proveio de doações privadas, onde se contam cristãos e palestinianos-muçulmanos, de nacionalidades muito variadas.



Pouco a pouco, o trabalho de formiga dos especialistas tem operado milagres, reconhecidos internacionalmente. Cada figura inteira que reaparece é olhada com pasmo, por ter saído ilesa de tantas vagas destrutivas. Sem ilusões, a equipa celebra os 20% de área de mosaicos, literalmente, renascida das cinzas, ciente de que a maior porção é irrecuperável. Como irrecuperável se tornou o valioso património de arte sacra e laica, acintosamente, erradicado pelo Daesh, no Iraque, na Síria e demais sítios onde pôde hastear a sua bandeira negra.

Se arrepia o rasto de vandalismo hoje perpetrado, também arrepia – mas em sentido inverso, por comover – a réplica construtiva que nunca desiste, embora a tentação fosse (seja!) abissal: «No Iraque estamos a testemunhar a destruição de lugares santos», diz o Ministro palestiniano Ziad Al-Bandak, conselheiro presidencial para as questões com a Cristandade, explicando que «Estamos a tentar proteger o berço do cristianismo. Como eu disse ao papa Bento, sou de uma família que estava aqui ao tempo do nascimento de Cristo».

Respeitar o ser humano exige e pressupõe respeitar a História. Ainda bem que a nossa época conhece guardiãs à altura das dificuldades, quantas vezes de proveniências imprevistas.


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para uma Quarta daqui a 2 semanas)


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