terça-feira, 31 de agosto de 2010

Fado de Maio (inspirações de Verão)

Perco-me no teu abraço,

Como a tua água no mar

Na sombra de um cansaço

Na onda que há-de voltar

Perco-me sem reparar,

Como num campo de flores

Num amor para contar

Nos teus olhos de mil cores.


Eu perco-me sempre cedo,

Com a pressa dos teus beijos

Apareces-me sem medo

Num amor que só eu vejo.

Entre o meu mar de amores,

E o sol que o mar levou

Nos teus olhos de mil cores

Bem perdida, já eu estou.


TdB

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Moleskine

O caso da herança Feteira. Tenho seguido com moderado interesse o caso Feteira. Gostei de ver ambos os advogados empenhando a sua honra em nome da elevada estatura moral das suas constituintes, a amante assassinada e a filha de uma relação paralela, penso que apelidada pelo pai de víbora. O velho Lúcio Tomé Feteira, que por ser finado talvez não tenha um advogado que lhe gabe as superiores e inequívocas qualidades éticas, deixa um imbróglio em testamento, para além de uma vida fértil em extraconjugalidades. No seu leito de morte, com os olhos enevoados de saudades da sua Vieira de Leiria, terá murmurado para quem o ouviu: quem vier atrás de mim que feche a porta. Eu, que não sou herdeiro e não conheço a localidade, socorro-me do livro que tenho entre mãos, nomeadamente do título do capítulo doze: a promoção da beleza de se ser pobrezinho.

Livros. Depois de os considerar perdidos, tento reavivar o funcionamento dos dois hemisférios do meu pobre cérebro, lendo intercaladamente dois livros. Refiro-me, agora, ao Diário dos Vencidos, com o subtítulo O 5 de Outubro visto pelos monárquicos em 1910 (Joaquim Leitão, Ed. Aletheia).

Do prefácio:

A revolução do 5 de Outubro não foi uma batalha. Foi uma defecção.

A páginas 113/114:

- Mas estavam bombardeando o paço? ... – perguntou incrédulo o sr. major-general.

- Estavam, sim, sr. vice-almirante. Vi eu e viram dezenas de pessoas que vinham comigo no vapor. Parámos até cerca de meia hora. E vi fazer uns quinze tiros para o paço.

- Ah! Se estavam bombardeando, é preciso fazermos alguma coisa!...

Mas ia servir-se o lanche, e a Majoria e o sr. ministro da Marinha sentaram-se a comer.

Mineiros do Chile. Ao invés do caso Feteira, sigo com forte interesse o drama dos mineiros enclausurados a 700 metros de profundidade. Primeiro, porque sofro de alguma claustrofobia; em segundo, porque me interessa saber a forma como se vão organizar, que rotinas criarão, como irão gerir os conflitos e as depressões. Por enquanto move-me a ciência - se bem que não descarte a parte humana. Guardarei a emoção para quando os vir regressar à superfície, a tempo da consoada. Das várias mensagens que foram enviadas para os mineiros, escolho esta: fartámo-nos de rir com o que vais ganhar em horas extraordinárias...

Filme. Fui ver o Salt. Estava calor e, à falta de me apetecer praia, atirei-me a uma matinée num centro comercial, o que pode parecer vagamente depressivo. O filme é francamente mau mas descansa-me os neurónios – os que sobram – do esforço da leitura de dois livros em paralelo. Muitos mortos, acrobacias de fuga e sobrevivência que nem a fusão do 007 com o Indiana Jones tornaria possível. O que se aproveitou? Duas fugazes cenas em que a beleza de Angelina Jolie nos embate na testa. E, porque não é despiciendo, a boa temperatura da sala.

Dúvida. Há algum tempo partilhava esta dúvida com uma amiga: devemos educar os nossos filhos a sobreviver neste mundo cão, uma vez que é nele que irão viver, ou devemos ensiná-los a transformar o mundo, mesmo que nos pareça impossível?

Elogio. Ao que parece, os apoderados do cavaleiro tauromáquico João Moura foram, no início da sua carreira, o pai e o tio. Segundo me contaram (e não afianço a veracidade da história), sempre que o rapaz tinha um sucesso os apoderados exclamavam: hoje estivemos muito bem. Quando o cavaleiro se espetava, metaforicamente, ao comprido, os mesmos cavalheiros pronunciavam-se: o rapaz hoje não esteve bem. Lembro-me de 5ªfeira, do meu Sporting nas frias terras dinamarquesas e só me ocorre dizer: hoje nós tivemos uma bela vitória. Mas eles (o Sporting) não jogam grande coisa.

Boa semana para quem me lê.

JdB

domingo, 29 de agosto de 2010

22º Domingo do Tempo Comum

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

Nos últimos dois dias participei num debate, num blogue perto de mim, sobre as opções políticas de Jesus. Tudo começou com uns versos de Rodrigo Emílio e um post que suscitara dois comentários: a Arte é de esquerda. Cristo era de esquerda.

Acredito que alguns valores da mensagem que Ele nos deixou há dois mil anos sejam conotados com opções tradicionalmente de esquerda: a justiça social, a defesa dos oprimidos, a redução das desigualdades.

Parece-me claro, no entanto, que Cristo não era de esquerda nem de direita. Era, acima de tudo, um humanista, defendendo uma sociedade mais igual, que é diferente de igualitária. Tenho isto por tão óbvio que encerro este tema...

Ora, quem é católico mas não se sente de esquerda tem, por isso, um desafio suplementar: mostrar, por actos e palavras, que a mensagem em que acreditamos não é propriedade de ninguém em particular, mas de todos os Homens de boa vontade.

Quando falava aos noivos que frequentavam os CPM's dizia sempre que o mundo está cheio de advogados competentes, engenheiros competentes, gestores ou médicos competentes. O que marca a diferença é a forma como lidamos com os nossos colaboradores, fornecedores, parceiros, pondo a ética, a consideração, a justiça e o respeito acima de tudo. Até para provar, se aplicável, que não há qualquer incompatibilidade entre ser-se de direita (o que quer que isso signifique actualmente) e viver um cristianismo militante.

O poder e a importância social ou profissional de cada um de nós não devem ser encarados como geradores de direitos ou como um motivo de diferenciação oco, mas como um dever de tornar o mundo um lugar melhor.


EVANGELHO – Lc 14,1.7-14

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou, a um sábado,
em casa de um dos principais fariseus
para tomar uma refeição.
Todos O observavam.
Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares,
Jesus disse-lhes esta parábola:
«Quando fores convidado para um banquete nupcial,
não tomes o primeiro lugar.
Pode acontecer que tenha sido convidado
alguém mais importante que tu;
então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer:
‘Dá o lugar a este’;
e ficarás depois envergonhado,
se tiveres de ocupar o último lugar.
Por isso, quando fores convidado,
vai sentar-te no último lugar;
e quando vier aquele que te convidou, dirá:
‘Amigo, sobre mais para cima’;
ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados.
Quem se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».
Jesus disse ainda a quem O tinha convidado:
«Quando ofereceres um almoço ou um jantar,
não convides os teus amigos nem os teus irmãos,
nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos,
não seja que eles por sua vez te convidem
e assim serás retribuído.
Mas quando ofereceres um banquete,
convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos;
e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te:
ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.

sábado, 28 de agosto de 2010

Pensamentos impensados

Pensamento antes do EURO:
Com a desvalorização do Escudo, a como estará o Franco-atirador e o Marco de Canaveses?

A massa associativa é feita com margarina para folhados?

Apalpares: mexer em coisas que são aos pares.

Circunscrição - operação inventada pelos judeus feita com circunspecção, por sujeitos circunspectos e em lugares circunscritos.

TRADU-SONS
So far so good - o sofá é tão bom
Under pressure - anda depressa
Come along - cama comprida
Chiffre d'affaires - o côrno dá férias
Foreign office - fora é nossa
Deutsh Bank - doi-te a banca

Choque em cadeia - terá a ver com execuções na cadeira eléctrica?

SdB (I)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

alpha e ómega

roberto carlos e metafóricas baleias rasgam este domingo,
e as lágrimas que me envergonham neste web café alimentar
são lágrimas em memória do nosso provado amor improvável,
tão esventradamente morto agora quanto eu, tão extinto quanto tu.
a vida, lá fora, continua, indiferente às minhas invisíveis mágoas:
biografias avulsas e carros a passar, esmagam-me contra meu peito,
atropelado por mim, por ti, pela vida, pelas coisas do mundo.
tão mortos agora, como esse fulminante hotel onde fomos felizes,
arquitectura outrora poderosa e radiante que é já ruína em cal viva.
ou como o teu nome, alpha e ómega, a triturar-me os ossos e a pele,
as pernas e os braços, os olhos e os lábios, o rosto e o resto
- e esse impossível tomorrow que, para nós, é always too late.

gi.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Deixa-me rir...

"Caros audiophiles, this week I want to resurrect a song which probably many of you will remember but have forgotten. By a singer that most of you will probably not recall.
Murray Head first became known as an English actor but his greater success, though in truth never long lasting fame except in France, is as a singer. He was the original Judas Iscariot in the musical soundtrack Jesus Christ Superstar in 1971, and later in the 1980s he acted and sang One Night In Bangkok from the musical Chess written by Abba's Benny & Bjorn.
But in between he released in 1975 a sublime solo album called Say It Ain't So, from which he will forever be associated, for those who remember, with the cult song Say It Ain't So Joe.
The title of the song refers to an American sports star of the 1920s, "Shoeless Joe" Jackson, a national hero who became implicated in a betting scandal when his team deliberately lost the final match. One day Jackson appeared outside the court house trial and was stopped by a young boy who held his arm and pleaded: 'Say it ain't so, Joe.'
Since then, this expression has come to symbolise the disappointment, the disbelief, whenever a group of people's, or a nation's, illusions are shattered by the human frailty of someone they respected. Indeed, Murray Head was inspired to write the song after Richard 'Tricky Dickie' Nixon's involvement in the Watergate scandal and the president's public denials before his resignation and humiliation. Certainly we can all think of other occasions when our personal or nationalistic illusions/dreams have died.


Say it ain't so Joe, please, say it ain't so
I'm sure they're telling us lies JOe
Please tell us it ain't so.

They told us that our hero has played his trump card
He doesn't know how to go on
We're clinging to his charm and determined smile
but the good old days have gone
The image and the empire may be falling apart
The money has gotten scarce
One man's word held the country together
but the truth is getting scarce.

Ohh babies, don't you think we're gonna get burned
We're gonna get turned, gonna get learned.

Say it ain't so Joe, please, say it ain't so
We pinned our hopes on you Joe
and they're ruining our show...


From the same album are two more beautiful poetic songs which deserve attention, but I recommend you to find and listen to all the album.

When I'm Yours:



Turning me on and with your eyes
Playing along and with your eyes
Coming on strong and with your eyes
You burn me
Searching to please and with your smile
Cursing with ease and with your smile
Kindle the flame and with your smile
You burn me
Have I go to be burned all over again?

I'd rather you told me that you couldn't care less
Than put me through the numbers that feel like a test
I want you
But I've got to know that I'm wanted
That I don't get taken for granted
When I'm yours.

I'll be yours to command and obey
I won't demand
But I've got to know that I'm wanted
That I won't be taken for granted
When I'm yours.

Never Even Thought:



Never even thought it could happen to me
Maybe I've been blind, only others can see
I'm in love
What am I to do, can I let it show
Do I keep it to myself or should I let her know
I'm in love?
Do I nurse it in my heart, hold it back in my eyes
Hide it all inside or put on a disguise
I'm in love?
Have I got to play games, even suffer the pain
Let the secret out, even suffer the doubt,
I'm in love?
I know it's all there, I really want to share
My life with someone else
Will she feel the same?
It isn't so easy when you've been broken before
But it isn't so hard when you're ready for more
Could you love me?
Give me a simple clue, anything will do
So long as I know what's in me is in you
Could you love me?
I've got so much of care to give away
There's only one thing I want to hear you say
I love you.


A proxima,
PO

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Quando vasculho as memórias da infância, o fio da memória vai sempre desaguar ao mar, concentrando-se nos três deliciosos meses de Verão na praia, rodeada dos cheiros a maresia e dos caramanchões de plantas que povoam o Pinhal de Leiria, explorado, incansavelmente, na companhia dos meus irmãos e dos amigos de férias. Voltar à infância é também relembrar os livros preferidos dessa idade, escritos pela Sophia (1919-2004).

Nestes dias, à beira d’água, relembro alguns desabafos de «A Menina do Mar», onde a alegria é linda e a tristeza não corrói, porque não é inquinada pelo desespero. A saudade é uma rosa maravilhosa e muito inteira (também com espinhos), que se esconde no coração. Na orla da praia, os seres aquáticos brincam com os da terra e o sol festeja a luz na espuma das ondas. O mundo resplandece de cor e o tempo desdobra-se em milhares de sabores. As meninas são fadas e todos os lugares onde a natureza é rainha, os habitantes são as crianças.

Devo à Sophia a paixão pelos livros e por um mundo impregnado do perfume dos oceanos, pleno de vida e de horizonte, onde os poetas vivem em mansardas, bem perto do céu, e inspiram-se no silêncio da noite.



Diálogos da Menina do Mar com o rapaz, a quem basta ser, dispensando o nome próprio:

«Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar… Nessa casa morava um rapazito que passava os dias a brincar na praia…

Edward Hopper ˆ Orlas marítimas em Cape Cod

(Um dia, o rapaz e a menina) sentaram-se os dois um em frente do outro e (ela) contou:

- Eu sou uma menina do mar. Chamo-me Menina do Mar e não tenho outro nome. Não sei onde nasci. Um dia uma gaivota trouxe-me no bico para esta praia… Tenho tanta curiosidade da Terra – disse a Menina, - amanhã, quando vieres, traz-me uma coisa da terra.

E assim ficou combinado. No dia seguinte, logo de manhã, o rapaz foi ao seu jardim e colheu uma rosa encarnada muito perfumada. (…) A menina pôs a sua cabeça no cálice da rosa e respirou longamente...

- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.

- Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.

- Mas o que é a saudade? - perguntou a Menina do Mar.

- A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.

- Ai! - suspirou a Menina do Mar olhando para a Terra. Por que é que me mostraste a rosa? Agora estou com vontade de chorar.

O rapaz atirou fora a rosa e disse:

- Esquece-te da rosa e vamos brincar... (Repara que a terra) tem lá dentro uma coisa maravilhosa, linda e alegre que se chama o fogo. Vais ver.

E o rapaz abriu a caixa e acendeu um fósforo. A Menina deu palmas de

alegria e pediu para tocar no fogo.

- Isso - disse o rapaz - é impossível. O fogo é alegre mas queima.

- É um sol pequenino - disse a Menina do Mar.

- Sim - disse o rapaz - mas não se lhe pode tocar… Enquanto o fogo é pequeno e tem juízo é o maior amigo do homem: aquece-o no Inverno, cozinha-lhe a comida, alumia-o durante a noite. Mas quando o fogo cresce demais, zanga-se, enlouquece e fica mais ávido, mais cruel e mais perigoso do que todos os animais ferozes.

- As coisas da terra são esquisitas e diferentes - disse a Menina do Mar.

No dia seguinte o rapaz chegou à praia, sentou-se ao lado da Menina do Mar e disse:

- Hoje trago-te uma coisa da terra que é bonita e tem lá dentro alegria. Chama-se vinho. Quem bebe fica cheio de alegria. (…)

- É muito encarnado e muito perfumado - disse ela (pegando no copo que o menino lhe trouxera). - Conta-me o que é o vinho.

- Na terra – respondeu o rapaz – há uma planta que se chama videira. No Inverno parece morta e seca. Mas na Primavera enche-se de folhas e no Verão enche-se de frutos que se chamam uvas e que crescem em cachos. E no Outono os homens colhem os cachos de uvas e põem-nos em grandes tanques de pedra onde os pisam até que o seu sumo escorra. E a esse sumo dos frutos da videira chamamos vinho. Esta é a história do vinho, mas o seu sabor não o sei contar. Bebe se queres saber como é.


E a Menina bebeu o vinho, riu-se e disse:

- É bom e é alegre. Agora já sei o que é a terra. Agora já sei o que é o sabor da Primavera, do Verão e do Outono. Já sei o que é o sabor dos frutos. Já sei o que é a frescura das árvores. Já sei como é o calor duma montanha ao sol. Leva-me a ver a terra. Eu quero ir ver a terra. Há tantas coisas que eu não sei. O mar é uma prisão transparente e gelada. No mar não há Primavera nem Outono. No mar o tempo não morre. As anémonas estão sempre em flor e a espuma é sempre branca. Leva-me a ver a terra

Sophia de Mello Breyner Andresen

Desejo a todos umas férias cheias de descobertas fantásticas, à semelhança da Menina do Mar, que percebeu os segredos da terra através de uma história que atravessa vários tempos, como a do vinho. No fundo, descobriu o sabor único de cada minuto. E, no final (do conto), experimentou o mistério da saudade – a flor invisível que nasce e cresce com a amizade.

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Moleskine

Ramadão. É o nono mês do calendário islâmico, durante o qual os muçulmanos praticam o jejum ritual, o quarto dos cinco pilares do Islão (fonte: Wikipédia). Um destes dias conversava com um amigo que iria jantar com diplomatas paquistaneses e indianos e, como estamos no Ramadão, o tema veio à baila. Hoje, dia 24 de Agosto, um muçulmano cumpridor que viva em Portugal não ingerirá alimentos líquidos nem sólidos entre as 7.03h e as 20.17h. A mim, confesso, dá que pensar: na diferença entre os sacrifícios católicos e muçulmanos; nos excessos que se farão a partir do pôr-do-sol; nas artimanhas de alguns patrões, dormindo de dia e trabalhando de noite; no valor que o nosso Deus (porque é o mesmo) dará a quem é obrigado, nos países árabes, por exemplo, a trabalhar com 50ºC sem água.

Jantar. Ontem, numa roda pequena de amigos, alguém se referiu a fulano dizendo: beltrano diz-me que não é boa peça. Eu não conheço fulano - nem a pessoa que veiculou o comentário o conhece. Encontrámo-nos uma vez e, se nos cruzarmos na rua, não saberemos identificar-nos. Mas, da próxima vez que encontrar ou ouvir falar de fulano, terei bem presente a informação de que não será boa peça. É espantoso a rapidez com que, baseado numa opinião que não faço ideia se é fidedigna - e nem sequer me interessa -, formei uma ideia sobre uma pessoa.

Velhos. Por motivos que não vêm ao caso, voltei, no Domingo, a visitar os meus velhos no lar. Por motivos idênticos visitei um casal de idosos que cumpriam 50 anos de casados. Entrei pela cozinha de uma casa humilde e com um cheiro pouco agradável. No quarto, acamado, o marido, recém-chegado do Alcoitão. Meio paralisado, com um palavreado ininteligível, celebrou, sabe Deus com que entendimento, as suas bodas de ouro, com a mulher dedicada ao lado. Era a terceira vez, nesse dia, que lia o Evangelho, tão bem comentado pela maf dois posts abaixo. E lembrei-me da porta estreita por onde temos de passar. Há portas bem estreitas, de facto...

Livros. Nem a propósito do parágrafo acima, comecei há poucos dias a ler a máquina de fazer espanhóis (valter hugo mãe, Ed. Alfaguara). Socorro-me da contracapa: o que mudará na vida de antónio silva, com oitenta e quatro anos, no dia em que violentamente o seu mundo se transforma? O que se sabe lendo as primeiras páginas? Depois de enviuvar, antónio silva é atirado pelos filhos para um lar da terceira idade.

JdB

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

We'll always have Paris



Há pessoas que, se não fossem tão ferozmente adeptas da cultura francesa, adoptariam como lema uma frase de um filme memorável (obviamente não francês...). Já no fim deste deste marco cinematográfico, o revolucionário canastrão diz à beldade nórdica: we''ll always have Paris. O húngaro elegante, ao lado e de cigarro na mão, percebe que as forças do Mal recuarão, mesmo que a sua mulher tenha ouvido demasiado piano num bistrot de Paris enquanto ele, o tal húngaro elegante, era sujeito às sevícias da canalha.
Há frases redentoras, que nos remetem para os dias felizes, para os dias em que não tínhamos de escolher, porque o alinhamento dos astros tinha a perfeição das coisas perfeitas e as angústias eram outras.
Vou arranjar uma frase redentora para mim. Esta é para outros, para quem só não diz a frase porque acha que allez la France deveria ser mais importante do que a declaração universal dos direitos do Homem...

domingo, 22 de agosto de 2010

Domingo ... Se Fores à Missa !

Há 15 dias atrás, nesta mesma rúbrica, perguntava-me se o mal estaria em mim ou em São Lucas. Confesso que, mais uma vez, ao ler o evangelho de hoje, tive a veleidade de pensar que o mal estava no Evangelista. De novo, a mensagem de que só alguns se salvam; de novo a ideia de um administrador prepotente, um dono da casa julgador que decide quem entra e quem fica de fora. Ideias muito “pouco católicas”, diriamos nós, na verdadeira acepção da palavra !

Mas acho que desta vez consegui entender o que se espera de nós. O segredo está na palavra ESFORÇAI-VOS. Deus diz-nos que todos somos chamados à salvação, mas que este chamamento tem de ser acolhido por cada um de nós. E cada um de nós tem de se esforçar para o acolher. Não dá para vivermos a nossa vida numa simples rotina de sol que nasce, sol que se põe. Não dá para passarmos despercebidos ou ignorarmos os outros. Não dá para fazermos como a avestruz. Não dá para nos instalarmos e dormir o dia todo. Não dá para vivermos na inércia ou pasmaceira. Porque mesmo que cheguemos até à porta da casa, se não nos esforçarmos por entrar, iremos ficar de fora. E aí os últimos passam os primeiros.

Se eu quiser conhecer pessoalmente um famoso cantor e vou aos seus concertos todos e vou até à porta do seu camarim e vou à festa onde ele está, mas se não me puser na fila dos autógrafos ou se não bater à porta do camarim e insistir que me deixem entrar, tenho poucas hipóteses de o vir a conhecer e nenhuma hipótese de que ele me convide a entrar.

Também Deus espera que nos esforcemos para o conhecer, que vamos ao encontro d’Ele, que estejamos atentos quando ele se manifestar.

Domingo se fores à Missa .............. Fica Atento !

Maf


Evangelho segundo S.Lucas 13, 22-30

Naquele tempo, Jesus dirigia-Se para Jerusalém e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava. Alguém Lhe perguntou: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Ele respondeu: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo: ‘Abre-nos, senhor’; mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’. Então começareis a dizer: ‘Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nossas praças’. Mas ele responderá: ‘Repito que não sei donde sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’. Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes no reino de Deus Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas, e vós a serdes postos fora. Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos».

sábado, 21 de agosto de 2010

Pensamentos impensados

Chama-se kopi luwak e é considerado o melhor café do Mundo; produz-se da seguinte maneira, na Indonésia: uns animais chamados civetas comem determinados grãos de café que mais tarde são devolvidos nos excrementos. Esses grãos são lavados e servem para produzir o tal café. Em vez dum nome tão esquisito proponho que se chame café de alcagoitas.

Disse-me ele:
Sabes lá o que foi a minha vida no último ano! Trabalhei um ano inteiro a Norte da Gronelândia, com temperaturas a rondar os 30 negativos! Um ano inteiro, ouviste!?
Disse-lhe eu:
Nesse sítio não trabalhaste um ano; trabalhaste um dia e uma noite.

Antigamente escutava-se o fado com ar de sofrimento; eram os fado-masoquistas.

O compositor Bach escreveu o cravo bem temperado; o 25 de Abril produziu o cravo destemperado.

Levou umas marteladas na cabeça e ficou com um galo; chama-se galo de martelos.

SdB (I)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

entre eros e thanatos

(diz ela)
em verdade te digo:
oceanos inteiros chorarás
até vislumbrares terra firme,
um-porto-uma-porta de abrigo.

de resto, sabes bem a tabuada, rapaz:
perigo e espanto rimam em ti
com fogo eterno e feminino.

(diz ele)
em verdade te digo:
vivo e revivo, como sou capaz:
acelerando a morte branca e farta,
desalinhando o desatino.

de resto, sabes bem a tabuada, rapariga:
esperanto e esperança rimam em ti
com feérico fogo masculino.


gi.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Deixa-me rir...


Beauty has no other origin than the singular wound, different in every case, hidden or visible, which each man bears within himself (Jean Genet)



Gosto muito, muito de pintura. Já postei um texto sobre o Klimt e estou a pensar postar mais alguns sobre outros artistas. Hoje trago-vos um link (http://www.sandymallet.com) e dois quadros dum self taught painter, totalmente desconhecido do grande (e do pequeno!) público, que, por qualquer razão misteriosa, adoro. Acho-os duma suavidade e dum lirismo extraordinários. A meu ver, são quase femininos. E, no entanto, foram feitos por um homem. Sandy Mallet de seu nome. Meu ex-boss. Hoje em dia dedica-se à pintura a tempo inteiro (que eu saiba, confesso que já lhe perdi o rasto).


E porque é quinta-feira, a música. Uma música transparente que apetece ouvir ao volante dum carro a caminho do Algarve. Agosto, janela aberta, o dourado dum fim de tarde de Verão, uma mala com o indispensável, a guitarra inconfundível de Carlos Santana e a voz angelical de Sarah Mclachlan. O que se pode querer mais da vida?



Spend all your time waiting

For that second chance

For a break that would make it okay

There’s always one reason

To feel not good enough

And it’s hard at the end of the day

I need some distraction

Oh beautiful release

Memory seeps from my veins

Let me be empty

And weightless and maybe

I’ll find some peace tonight


In the arms of an angel

Fly away from here

From this dark cold hotel room

And the endlessness that you fear

You are pulled from the wreckage

Of your silent reverie

You’re in the arms of the angel

May you find some comfort there


So tired of the straight line

And everywhere you turn

There’s vultures and thieves at your back

And the storm keeps on twisting

You keep on building the lie

That you make up for all that you lack

It don’t make no difference


Escaping one last time

It’s easier to believe in this sweet madness oh

This glorious sadness that brings me to my knees


In the arms of an angel

Fly away from here

From this dark cold hotel room

And the endlessness that you fear

You are pulled from the wreckage

Of your silent reverie

You’re in the arms of the angel

May you find some comfort there

You’re in the arms of the angel

May you find some comfort here


pcp

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

M.M.M - Manifesto da Minha Mudança

Quero ir mais longe, ser maior, lutar mais.
Quero sentir o vento na cara, o sal, o mar no cabelo e a força da chuva com a certeza de que eu controlo a minha vida e a natureza me controla a mim.
Quero ouvir os outros ler sobre quem foi longe, quero ler a quem não imagina o longe que se pode ir, quero perceber o mundo e perceber-me a mim própria.
Quero saber o que é a adrenalina, a histeria, a euforia e sentir tudo ao mesmo tempo.
Quero elaborar planos para mudar o mar de cor, fazer o sol dançar e preparar conversas sérias quando o meu cão falar.
Quero ser melhor, quero sentir que o universo precisa de mim e que eu preciso dele. Quero assumir o mundo como força de luz, de energia, de força e como sendo um plano perfeito de Deus.
Quero pintar o que vejo mesmo que não entenda, quero criar cores novas e sentar-me a imaginar o Céu.
Quero conhecer os meus amigos do início, quero continuar a pensar em mim e em ti porque sei que ainda não gostei de ti o suficiente.
Quero ver o mundo de pernas para o ar, ter um canto só meu e desafiar a gravidade.
Acredito num mundo melhor, acredito que nos levantamos sempre que o mundo nos empurra para baixo. O mundo é maior, maior e é mais complexo e com milhões de seres vivos. Quero saber mais sobre eles, ir mais longe e quebrar barreiras.
Quero encher o coração, encher tanto que ele transborde.

Este é o meu Manifesto.

5 de Agosto de 2010 (Dia da conclusão do curso)

TdB

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Nos 110 anos (ontem) da morte de Eça de Queirós

Porque, enfim, para quê o viajar? Todos os filósofos e todos os donos de hotéis são unânimes em dizer que se viaja para ver o que há de interessante no mundo. Ora, no mundo, só há de interessante, verdadeiramente, o Homem e a Vida. Mas para gozar a vida duma sociedade, é necessário fazer parte dela e ser um actor no seu drama: de outro modo, uma sociedade não é mais do que uma sucessão de figuras sem significação que nos passa diante dos olhos: Quando falo de sociedade não me refiro àquela que vem no High Life do Ilustrado: refiro-me às Sociedades, no plural e com S grande. Já o bom Flaubert falava da «melancolia das multidões estranhas». Essa melancolia é a mesma que se sente em vir de longe, para olhar para uma porta fechada. Quem for de Marco de Canavezes e queira gozar a vida, que fique em Marco de Canavezes, na Assembleia, na botica, e nos chás das Macedos! Se vier a Hyde Park ou aos Champs Elysées, vê só a Vida por fora, nos seus contornos exteriores.
É como estar a mirar as paredes escuras de um teatro, onde se está a passar, por dentro e em grande luz, uma interessante comédia. Por isso, nós, os Portugueses, pessoas infinitamente filosóficas, chamamos ao viajar: andar por fora. Expressão perfeita e profunda. Andar por fora, que melancolia, que desconsolação, quando estar por dentro é que é o interessante! Dir-me-ão os donos dos hotéis e as companhias de caminhos de ferro que é necessário ir ver a Civilização. De acordo. Mas o que é a civilização de Paris? É o romance de Zola, e a descoberta de Pasteur, e o bom dito de Rochefort: e isso tudo vai ter connosco, onde quer que estejamos, pelo paquete. A melhor maneira de gozar a civilização, é ao canto do lume, de chinelas. Dir-me-ão ainda os donos dos hotéis que se devem admirar os monumentos e que Notre-Dame eWestminster são um elemento de educação. De acordo, estalajadeiros, de acordo! Para isso se inventou a fotografia. E, em resumo, meu querido Bernardo, grande foi a tua sabedoria em não querer andar por fora.

Eça de Queirós, in 'Correspondência'

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Moleskine

Férias. A amizade, tão incondicional quanto é possível, da E. e do A. levou-me uns dias a Soltroia. Praia excelente, tempo quente, banhos prolongados, vida social q.b., conforto caseiro, conversas interessantes. Tudo isto faz um homem feliz, dando graças a Deus – e aos anfitriões, é claro – poder entregar-se ao remanso durante quase uma semana. No entanto, esta jornada estival confirmou o que para mim já era uma certeza (passe o erro de raciocínio): em primeiro lugar, que podemos chegar a esta idade e, ainda assim, fazer amizades fortes, seguras, desafiantes, contrariando a ideia de que há um tempo para tudo – até para fazer Amigos. Em segundo lugar, é grato pensar que aqueles que estão mais próximos, ao ver-nos perante uma encruzilhada, nem sempre atiram com ligeireza uma solução milagrosa ou um conselho sábio. Em vez disso, sai-lhes uma frase do género: qualquer que seja o caminho que escolhas, ter-me-ás ao teu lado.

Desaparecimentos. No espaço de alguns dias morreram progenitores de amigos meus. Era gente com uma idade avançada, a viverem tempos de tormento e de perda de qualidade de vida. Há algo dentro de nós que se alivia com estas partidas porque acompanhamos, ainda que ao longe, o sofrimento de quem padece e de quem está ao lado. Mas, sobretudo no caso do pai do X., é perceber que há um tempo que desaparece, um Senhor (pus o ‘s’ propositadamente em maiúsculas) que eu conhecia há mais de 30 anos e que era uma referência de educação, simpatia, memória, transmissão de valores com os quais viveu uma vida inteira sem transigir.

Evangelho. 5ªfeira passada, missa de 7º dia por alma da mãe da R., em Cascais. O evangelho fala da necessidade de se perdoar, não sete vezes, mas setenta vezes sete. Há passagens da Bíblia que nos ficam mais na memória do que outras. Porque nos comove a bondade de um acto ou o arrependimento sentido de alguém, mas também porque nos interpela, num tempo que pode ser propício a zangas, rancores, orgulhos. Não perdoar sete vezes, mas setenta vezes sete.

Livros. Das últimas semanas ressalto dois: O Livro dos Snobs (W.M. Thackeray, Ed. Guerra e Paz), para quem, como eu, nem sempre percebe que se pode escrever com graça, simplicidade e concisão. A Maçã no Escuro (Clarice Lispector, Ed. Relógio de Água) do qual cito algumas linhas.

(...)

Corajosamente fizera o que todo o homem tinha que fazer uma vez na sua vida: destruí-la.

Para reconstruí-la em seus próprios termos.

(...)

Pois olhou o vazio perfeito da claridade, e ocorreu-lhe a possibilidade estranha de jamais conseguir reconstruir. Mas se não conseguisse, não importava sequer. Ele tivera a coragem de jogar profundamente. Um homem um dia tinha que arriscar tudo. Sim, ele fizera isso.

Poesia. Há poemas nos quais algumas pessoas se revêem. Num destes dias, à borda de uma piscina (de rara qualidade pelas pessoas que estavam à volta) falou-se de Mário de Sá-Carneiro, e do poema O Recreio. Reproduzo-o, emoldurado por um abraço para quem sabe que o recebe.


Na minha Alma há um balouço

Que está sempre a balouçar ---

Balouço à beira dum poço,

Bem difícil de montar...


--- E um menino de bibe

Sobre ele sempre a brincar...


Se a corda se parte um dia

(E já vai estando esgarçada),

Era uma vez a folia:

Morre a criança afogada...


--- Cá por mim não mudo a corda,

Seria grande estopada...


Se o indez morre, deixá-lo...

Mais vale morrer de bibe

Que de casaca... Deixá-lo

Balouçar-se enquanto vive...


--- Mudar a corda era fácil...

Tal ideia nunca tive...


JdB

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