sábado, 31 de outubro de 2015

Pensamentos Impensados

Copianço
Pelágio acusado de plágio quando disse "bons dias"; a frase já estava registada.

Emigração
Quem sai de Braga é um desbragado.

Descasado
O plural de sem-abrigo é cem abrigos.

Cantos marcados
Terra, 4
Lusíadas, 10

Odores
Quando se muda a fralda a uma criança, as expectativas não saem desfraldadas.

Trio
Espírito, Santo, Salgado, diabólica trindade.

Gramáticas
Se há o verbo investir, tem de haver o verbo indespir.

Ora abóbora
Ferro Rodrigues antecipa Halloween.

SdB (I)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Discursos dos dias que correm

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
NA CONCLUSÃO DA XIV ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA
 DO SÍNODO DOS BISPOS

Sala do Sínodo
Sábado, 24 de Outubro de 2015



Amadas Beatitudes, Eminências, Excelências,
Queridos irmãos e irmãs!

Quero, antes de mais, agradecer ao Senhor por ter guiado o nosso caminho sinodal nestes anos através do Espírito Santo, que nunca deixa faltar à Igreja o seu apoio.

Agradeço de todo o coração ao Cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário-Geral do Sínodo, a D. Fabio Fabene, Subsecretário e, juntamente com eles, agradeço ao Relator, o Cardeal Peter Erdö, e ao Secretário Especial, D. Bruno Forte, aos presidentes delegados, aos secretários, consultores, tradutores e todos aqueles que trabalharam de forma incansável e com total dedicação à Igreja: um cordial obrigado! E quero agradecer também à Comissão que fez a Relação; alguns passaram a noite em branco.

Agradeço a todos vós, amados padres sinodais, delegados fraternos, auditores, auditoras e conselheiros, párocos e famílias pela vossa activa e frutuosa participação.

Agradeço ainda a todas as pessoas que se empenharam, de forma anónima e em silêncio, prestando a sua generosa contribuição para os trabalhos deste Sínodo.

Estai certos de que a todos recordo na minha oração ao Senhor para que vos recompense com a abundância dos seus dons e graças!

Enquanto acompanhava os trabalhos do Sínodo, pus-me esta pergunta: Que há-de significar, para a Igreja, encerrar este Sínodo dedicado à família?

Certamente não significa que esgotámos todos os temas inerentes à família, mas que procurámos iluminá-los com a luz do Evangelho, da tradição e da história bimilenária da Igreja, infundindo neles a alegria da esperança, sem cair na fácil repetição do que é indiscutível ou já se disse.

Seguramente não significa que encontrámos soluções exaustivas para todas as dificuldades e dúvidas que desafiam e ameaçam a família, mas que colocámos tais dificuldades e dúvidas sob a luz da Fé, examinámo-las cuidadosamente, abordámo-las sem medo e sem esconder a cabeça na areia.

Significa que solicitámos todos a compreender a importância da instituição da família e do Matrimónio entre homem e mulher, fundado sobre a unidade e a indissolubilidade e a apreciá-la como base fundamental da sociedade e da vida humana.

Significa que escutámos e fizemos escutar as vozes das famílias e dos pastores da Igreja que vieram a Roma carregando sobre os ombros os fardos e as esperanças, as riquezas e os desafios das famílias do mundo inteiro.

Significa que demos provas da vitalidade da Igreja Católica, que não tem medo de abalar as consciências anestesiadas ou sujar as mãos discutindo, animada e francamente, sobre a família.

Significa que procurámos olhar e ler a realidade, melhor dito as realidades, de hoje com os olhos de Deus, para acender e iluminar, com a chama da fé, os corações dos homens, num período histórico de desânimo e de crise social, económica, moral e de prevalecente negatividade.

Significa que testemunhámos a todos que o Evangelho continua a ser, para a Igreja, a fonte viva de novidade eterna, contra aqueles que querem «endoutriná-lo» como pedras mortas para as jogar contra os outros.

Significa também que espoliámos os corações fechados que, frequentemente, se escondem mesmo por detrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas.

Significa que afirmámos que a Igreja é Igreja dos pobres em espírito e dos pecadores à procura do perdão e não apenas dos justos e dos santos, ou melhor dos justos e dos santos quando se sentem pobres e pecadores.

Significa que procurámos abrir os horizontes para superar toda a hermenêutica conspiradora ou perspectiva fechada, para defender e difundir a liberdade dos filhos de Deus, para transmitir a beleza da Novidade cristã, por vezes coberta pela ferrugem duma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível.

No caminho deste Sínodo, as diferentes opiniões que se expressaram livremente – e às vezes, infelizmente, com métodos não inteiramente benévolos – enriqueceram e animaram certamente o diálogo, proporcionando a imagem viva duma Igreja que não usa «impressos prontos», mas que, da fonte inexaurível da sua fé, tira água viva para saciar os corações ressequidos.

E vimos também – sem entrar nas questões dogmáticas, bem definidas pelo Magistério da Igreja – que aquilo que parece normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um escândalo – quase! –, para o bispo doutro continente; aquilo que se considera violação de um direito numa sociedade, pode ser preceito óbvio e intocável noutra; aquilo que para alguns é liberdade de consciência, para outros pode ser só confusão. Na realidade, as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral – como disse, as questões dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja – cada princípio geral, se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado. O Sínodo de 1985, que comemorava o vigésimo aniversário do encerramento do Concílio Vaticano II, falou da inculturação como da «íntima transformação dos autênticos valores culturais mediante a integração no cristianismo e a encarnação do cristianismo nas várias culturas humanas». A inculturação não debilita os valores verdadeiros, mas demonstra a sua verdadeira força e a sua autenticidade, já que eles adaptam-se sem se alterar, antes transformam pacífica e gradualmente as várias culturas.

Vimos, inclusive através da riqueza da nossa diversidade, que o desafio que temos pela frente é sempre o mesmo: anunciar o Evangelho ao homem de hoje, defendendo a família de todos os ataques ideológicos e individualistas.

E, sem nunca cair no perigo do relativismo ou de demonizar os outros, procurámos abraçar plena e corajosamente a bondade e a misericórdia de Deus, que ultrapassa os nossos cálculos humanos e nada mais quer senão que «todos os homens sejam salvos» (1 Tim 2, 4), para integrar e viver este Sínodo no contexto do Ano Extraordinário da Misericórdia que a Igreja está chamada a viver.

Amados irmãos!

A experiência do Sínodo fez-nos compreender melhor também que os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão. Isto não significa de forma alguma diminuir a importância das fórmulas – são necessárias –, a importância das leis e dos mandamentos divinos, mas exaltar a grandeza do verdadeiro Deus, que não nos trata segundo os nossos méritos nem segundo as nossas obras, mas unicamente segundo a generosidade sem limites da sua Misericórdia (cf. Rm 3, 21-30; Sal 129/130; Lc 11, 47-54). Significa vencer as tentações constantes do irmão mais velho (cf. Lc 15, 25-32) e dos trabalhadores invejosos (cf. Mt 20, 1-16). Antes, significa valorizar ainda mais as leis e os mandamentos, criados para o homem e não vice-versa (cf. Mc 2, 27).

Neste sentido, o necessário arrependimento, as obras e os esforços humanos ganham um sentido mais profundo, não como preço da Salvação – que não se pode adquirir – realizada por Cristo gratuitamente na Cruz, mas como resposta Àquele que nos amou primeiro e salvou com o preço do seu sangue inocente, quando ainda éramos pecadores (cf. Rm 5, 6).

O primeiro dever da Igreja não é aplicar condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus, chamar à conversão e conduzir todos os homens à salvação do Senhor (cf. Jo 12, 44-50).

Do Beato Paulo VI temos estas palavras estupendas: «Por conseguinte podemos pensar que cada um dos nossos pecados ou fugas de Deus acende n’Ele uma chama de amor mais intenso, um desejo de nos reaver e inserir de novo no seu plano de salvação (...). Deus, em Cristo, revela-Se infinitamente bom (...). Deus é bom. E não apenas em Si mesmo; Deus – dizemo-lo chorando – é bom para nós. Ele nos ama, procura, pensa, conhece, inspira e espera… Ele – se tal se pode dizer – será feliz no dia em que regressarmos e Lhe dissermos: Senhor, na vossa bondade, perdoai-me. Vemos, assim, o nosso arrependimento tornar-se a alegria de Deus».

Por sua vez São João Paulo II afirmava que «a Igreja vive uma vida autêntica, quando professa e proclama a misericórdia, (...) e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador das quais ela é depositária e dispensadora».[6]

Também o Papa Bento XVI disse: «Na realidade, a misericórdia é o núcleo da mensagem evangélica, é o próprio nome de Deus (...). Tudo o que a Igreja diz e realiza, manifesta a misericórdia que Deus sente pelo homem, portanto, por nós. Quando a Igreja deve reafirmar uma verdade menosprezada, ou um bem traído, fá-lo sempre estimulada pelo amor misericordioso, para que os homens tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10, 10)».

Sob esta luz e graça, neste tempo de graça que a Igreja viveu dialogando e discutindo sobre a família, sentimo-nos enriquecidos mutuamente; e muitos de nós experimentaram a acção do Espírito Santo, que é o verdadeiro protagonista e artífice do Sínodo. Para todos nós, a palavra «família» já não soa como antes do Sínodo, a ponto de encontrarmos nela o resumo da sua vocação e o significado de todo o caminho sinodal.

Na verdade, para a Igreja, encerrar o Sínodo significa voltar realmente a «caminhar juntos» para levar a toda a parte do mundo, a cada diocese, a cada comunidade e a cada situação a luz do Evangelho, o abraço da Igreja e o apoio da misericórdia Deus!

Obrigado! 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Dos talentos

Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. 
Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: 'Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.' O senhor disse-lhe: 'Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.'
Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: 'Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.' O senhor disse-lhe: 'Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.'
Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: 'Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.' O senhor respondeu-lhe: 'Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.' 'Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.'»

(Lc 19,12-27)

***

Há muito que contava receber este trecho de Lucas no Evangelho Quotidiano que me chega todos os dias ao correio electrónico. Contava reencaminhá-lo para quem entendo não poder nem dever desperdiçar os talentos que tem. Tardou, e entretanto fui pensando e trocando impressões sobre o tema.

Recuo alguns anos. 15, talvez. Numa conversa intergeracional em casa falava-se sobre um parente que, tendo dois cursos superiores (música e Direito, parece-me) matava o seu tempo de uma forma algo ociosa. Tocou piano com o Rubinstein (não afianço a história mas parece-me que é assim), formou-se como excelentes notas na Faculdade de Direito e, mesmo assim, ócio com ele! 

A argumentação que usei há 15 anos foi a mesma que usei há 15 dias - e, do lado de lá, duas pessoas de gerações diferentes discordaram de mim. Sinal de que se calhar não estou certo - ou terei encontrado os interlocutores errados... 

Então é assim: pode alguém, a quem Deus ou a genética presenteou com talentos desperdiçá-los quase por completo? Tem alguém o direito, face ao facto de tantos lutarem por uma oportunidade e se empenharem de forma tão sacrificada por serem mais num certo mister, de não usar por esses talentos ao seu serviço ou, melhor ainda, ao serviço dos outros? 

No outro dia, pessoa de quem sou amigo recente dizia-me: não tenho jeito para nada; tudo o que consegui foi com muito esforço. E conseguiu muito, reconheço. Por outro lado, vou-me cruzando com pessoas com talentos natos para isto ou para aquilo (e falo de casos concretos, nada de abstracções) que se deixam enredar pelas dúvidas, pelas inseguranças, pelas preguiças, pelas frustrações, pelos erros de análise quanto ao caminho a seguir. 

Tenho ou não alguma obrigação de usar os meus talentos? Tenho ou não o direito de fazer com eles o que me apetecer, inclusivamente deixá-los quietos? Devo ou não equacionar o facto de tantos se esforçarem tanto para atingir qualquer coisa que eu, face ao meu talento, não atinjo porque simplesmente não quero? 

Em bom rigor, o que devemos fazer com os talentos que nos foram confiados?

JdB 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A dactilógrafa *

Há quem chore de tristeza, há quem chore de alegria. Por vezes é a visão de algo superiormente bonito que nos provoca lágrimas corridas; outras vezes é uma ternura, um encantamento muito próprio, sei lá eu, que nos embacia os olhos. Foi este enternecimento, inexplicável à luz de uma lógica impessoal, que fez Gonçalo chorar, com a boca muito aberta para que lhe entrasse o ar que faltava. Porque Filomena, no quarto ao lado, se despia para ele com um vagar perturbador.

É normal o desejo carnal perante uma nudez que se revela gradualmente – e pela primeira vez - numa proximidade inquietante. Mas o homem, professor de filosofia num liceu dos arredores, não o sentiu em exclusivo. O amor que devotava a Filomena, administrativa no mesmo estabelecimento de ensino, era de uma intensidade tão própria, que chorou. Muitos não perceberiam esta sensação de exaltação que esmaga um coração que teima em bater a descompasso.

Filomena sentia-se observada através de espelhos de portas, algo que não a incomodava. Devagar, como se o mundo dependesse disso, desapertou os botões da camisa. A lentidão era devoradora, mas ela acreditava no cerimonial, no tempo próprio, na habituação dos sentidos à transcendência de uma mulher, jovem e bonita, despojada dos artefactos que cobrem o seu corpo nu.

Gonçalo espiava, sufocado, a mulher por quem se apaixonara. E via mais uma peça de roupa que tombava no chão. E Filomena desnudava-se, rodando o corpo num misto de pudor e provocação para atrasar a revelação total. O professor passara a fase da lágrima de ternura, explodindo por dentro num vulcão de desejos ardentes. Fechou os olhos, no desespero da criança que tem de esperar pela guloseima longínqua. Quando os abriu, Filomena tinha um cabelo longo e ruivo que lhe tapava o peito, e sentara-se de lado numa cadeira, revelando umas costas tentadoras.

Passados alguns minutos, a rapariga levantou-se de forma calculada e ergueu os braços para apanhar o cabelo. Olhou para o namorado, que lhe revelara Platão e Espinosa, e numa voz…

Podemos ficar por aqui, D. Odete? Estou cansado.

Vítor Guilherme olhou para as mãos, deformadas por artroses que o impediam, há anos, de exercer autonomamente o seu trabalho de escritor, e recostou-se. Ao seu lado, Odete Ramires, que casara como costureira para enviuvar como dactilógrafa, cobriu a máquina de escrever eléctrica com um oleado acinzentado. Arrumou a cadeira com cuidado e silêncio e despediu-se numa voz que revelava educação e ódio:

Até amanhã, Sr. Guilherme. Estimo as suas melhoras.

Já na rua, enfrentando um fim de tarde tristemente frio, Odete Ramires, reformada de emoções, sentou-se numa pastelaria para um bolo seco e um galão escuro. A artrose do autor debilitado era-lhe indiferente; os dedos carcomidos pela dor, também; invejou-lhe, com raiva, a imaginação e o facto de o escritor ter outra vida dentro da própria vida. Quando pensou no Gonçalo e na Filomena, em corpos desnudos amando-se no remanso de uma meia-luz, levou a mão ao pescoço, escondendo um camafeu e sufocando um desejo.

Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

(* publicado neste estabelecimento a 26.10.2009)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Duas Últimas

Estou certo do enorme lugar-comum da frase: há músicas diferentes para ambientes diferentes. Melhor, talvez: géneros musicais diferentes para tempos diferentes, ambientes diferentes, locais diferentes. Não me convidem para ouvir Quim Barreiros de volta de uma lareira acesa com um chá quente, artista que não me importo de ouvir numa viagem de carro para a província enquanto rio e canto alto. Numa festa de crianças não ponham Amália. Em bom rigor, não ponham nada numa festa de crianças, a não ser uma venda nos olhos e uns protectores auriculares. Não quero ouvir Beethoven numa esplanada, de volta de uma imperial e de um prato de tremoços ou melhor ainda, favas torradas. 

Junto segue Grant Green, no seu álbum "Idle Moments" - traduzido livremente por tempos livres. Um género musical que, dei por mim a pensar, se ouve em qualquer espaço, em qualquer momento, em qualquer ambiente - uma lareira, um elevador, uma esplanada, um fim de tarde ameno. Ouvi-o pela primeira vez em casa de amigos. Éramos oito a jantar: o dono da casa a querer mostrar a excelente qualidade da aparelhagem de som; um outro amigo a querer que ele pusesse o volume no máximo; a dona da casa com um sorriso cândido, a desejar carregar no off. Como sempre, vencem as senhoras...

Enjoy - if possible.

JdB


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Das boas pessoas



Há dois ou três anos, numa missa de finados, o padre, amigo óbvio do desaparecido, elogiou-lhe fortemente as virtudes humanas. Ao meu lado, alguém me diz ironicamente, sem um minuto de hesitação: "ouvi dizer que era insuportável em casa". 6ªfeira passado recebo um elogio fúnebre sobre alguém que desapareceu recentemente e que conheci relativamente bem. O nome masculino "elogio" está correcto, independentemente de ser uma expressão vulgar quando ligado ao adjectivo "fúnebre". Era de facto um elogio, e para o caso pouco interessa saber se merecido ou não. Para mim basta-me que contivesse muita verdade.

O parágrafo acima deriva de uma pergunta que me fazem e que suscita uma conversa toda feita de interrogações: o que faz de nós boas pessoas? Isto é, o que nos leva a dizer que o manel ou a maria são boas pessoas, ou que nem o manel nem a maria são boas pessoas? A conversa assenta numa pergunta inicial mais incisiva: uma pessoa generosa é uma boa pessoa? Tendo a dizer que é uma condição necessária, mas não é suficiente. Um mafioso, pelo menos segundo o paradigma dos filmes, pode ser um homem generoso: num minuto empresta dinheiro a um amigo ou proporciona-lhe uma viagem a Las Vegas para jogar e beber e, no minuto seguinte, calça uns sapatos de betão a um traidor e atira-o ao rio, ou manda dizimar uma quantidade imensa de inimigos que, à saída de uma missa, sonham com um prato de spaghetti alla putanesca com os filhos e sobrinhos vestidos de ver a deus. 

O que faz de nós boas pessoas? A generosidade sobrepõe-se à ira? O sentido de justiça é mais forte do que o orgulho? Uma índole pacificadora tem mais impacto do que um comodismo exacerbado? As virtudes são sempre melhores do que os defeitos, diria La Palice. Coexistindo na mesma pessoa, que critérios utilizamos para aferir a contabilidade entre uns e outros? Não sei. Só sei - e isso sei - que de algumas pessoas afirmo que são muito boas pessoas e que de outras pessoas elogio as qualidades, por vezes bastantes. O que diferencia umas das outras? Na minha cabeça é de tal forma intangível que não sei dizer com exactidão. Talvez seja um conjunto de virtudes humanas com impacto no próximo que as leva a serem promovidas a "boas pessoas".  Ou será a ausência de alguns defeitos? Vemos os outros pela positiva ou também pela ausência de negativa? Há defeitos que nos impedem de sermos boas pessoas, mesmo que tenhamos um bom punhado de qualidades?

Regresso aos mortos. Em O Primo Basílio, há o seguinte diálogo:

- Até já fiz construir, sem vacilar, no Alto de S. João, a minha última morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, no arruamento à direita, num lugar abrigado, ao pé da choça dos Veríssimos amigos.
- E já compôs o seu epitáfio, Sr. Conselheiro? — perguntou Julião, do canto, irónico.
- Não o quero, Sr. Zusarte. Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meus patrícios, entenderem que eu fiz alguns serviços, têm outros meios para os comemorar; lá têm a imprensa, o comunicado, o necrológio, a poesia mesmo! Por minha vontade, quero apenas sobre a lápide lisa, em letras negras, o meu nome - com a minha designação de conselheiro -, a data do meu nascimento e a data do meu óbito. 
E com um tom demorado, de reflexão:
- Não me oponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: «Orai por ele.» 

O elogio fúnebre, sobretudo se for em sentido único, pode surtir um efeito contrário. Isto é, à conta de tantos encómios - como se qualquer finado não fosse um caldo onde viveu a luz e a escuridão, o bem e o mal - é normal que nos lembremos rapidamente de alguns defeitos que equilibrem o epitáfio tirando-lhe um pendor excessivamente elogioso. Nem todos somos boas pessoas porque nem sempre o queremos, ou nem sempre o conseguimos, ou talvez estejamos iludidos quanto à bondade do nosso caminho. Morrer com essa certeza - relativamente a nós ou aos outros - é morrer com a noção reconfortante de que partimos humanos, incompletos, mas sempre filhos de um Deus que nos recebe por igual.

Quando chegar a minha hora serei lembrado pelos amigos e familiares que me sobreviverem. Não haverá imprensa, necrológio - menos ainda poesia. Em tudo sendo justo não haverá elogio fúnebre ou homilias laudatórias. Talvez não me oponha, como diria o Conselheiro Acácio, a que inscrevam uma singeleza por baixo das memórias que terão de mim: tentou imperfeitamente. Mais do que isso não, não vá alguém afirmar ironicamente: "ouvi dizer que era insuportável em casa".

JdB

domingo, 25 de outubro de 2015

30° Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mc 10,46-52

Naquele tempo, 
quando Jesus ia a sair de Jericó 
com os discípulos e uma grande multidão, 
estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho. 
Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: 
«Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: 
«Filho de David, tem piedade de mim». 
Jesus parou e disse: «Chamai-O». 
Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». 
O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: 
«Que queres que Eu te faça?» O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja». 
Jesus disse-lhe: 
«Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista 
e seguiu Jesus pelo caminho.

sábado, 24 de outubro de 2015

Pensamentos Impensados

Pesca milagrosa
Na Serra da Estrela pesca-se?
Então, apanhas douradas.

Repasto
A comida no Inferno é monótona: é sempre carne assada ou churrasco.

Cadeiras
Os deputados têm assento parlamentar.
Salazar teve um assento para lamentar.

Bola
Oiço na televisão: Ronaldo assiste. Pergunto: Ronaldo estava a jogar ou a assistir?

2 em 1
Uma bala que mate 2 pessoas é uma bala comum.

Ajudas
As Cruzadas foram patrocinadas pelos jogos da Santa Causa sem Misericórdia.

Primos?
Canto e Castro, Vale e Azevedo, Marinho e Pinto serão parentes? Têm um apelido comum.

Latrocínios
Ladrão que rouba as Finanças, tem 100 anos de cobranças.

SdB (I)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Poemas dos dias que correm

Esta Palavra Saudade

Junto de um catre vil, grosseiro e feio,
por uma noite de luar saudoso,
Camões, pendida a fronte sobre o seio,
cisma, embebido num pesar lutuoso...

Eis que na rua um cântico amoroso
subitâneo se ouviu da noite em meio:
Já se abrem as adufas com receio...
Noites de amores! Que trovar mimoso!

Camões acorda e à gelosia assoma;
e aquele canto, como um antigo aroma,
ressuscita-lhe os risos do passado.

Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
no azul viu perpassar, claro e distante,
de Natércia gentil o vulto amado...

Gonçalves Crespo, in 'Nocturnos'

***

Regresso ao Lar

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh, a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida.
canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago de amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas manso, muito manso...
tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!

Guerra Junqueiro, in 'Os Simples'

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Debates dos dias que correm

Famílias gay. Ter dois pais ou duas mães divide opiniões

CATARINA CORREIA ROCHA E MELISSA LOPES 17/10/2015 21:29

Famílias que juntam dois pais ou duas mães estão em minoria. E quando o tema envolve crianças, as opiniões dividem-se: de um lado estão os que consideram não ser benéfico, do outro, os que defendem que na base de tudo está o amor, independentemente do género.

Há cinco anos, Portugal juntou-se ao conjunto de países que permitem casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo. Mais de 1500 uniões depois, a adopção e co-adopção de crianças por casais gay ainda não é uma realidade legislativa no nosso país. Quando o assunto é discutido, os argumentos dividem-se entre os que acreditam que uma criança educada por duas pessoas do mesmo sexo pode desenvolver problemas relacionados com a sua personalidade e os que defendem exactamente o oposto: que não existe qualquer diferença no seu crescimento. 

Socorrendo-se dos mais de 700 estudos realizados na Europa e nos Estados Unidos, o pediatra Mário Cordeiro está convencido de que “viver numa família em que o casal é do mesmo sexo não traz, por si, qualquer problema para a criança”. Já a psicóloga infantil Rita Jonet duvida da veracidade dessas investigações: “Há muitos estudos contraditórios. Em termos científicos, há muito poucos fidedignos e acabam por ser enviesados consoante as pessoas que os estão a fazer.” A psicóloga defende ainda que, do ponto de vista da criança, “não é natural” ter dois pais ou duas mães. Na escola, ter uma família diferente pode gerar alguns problemas: “Trabalho num colégio e a experiência que tenho é que é muito complicado para as crianças explicarem esta parentalidade”, afirma. 

Mário Cordeiro acredita que os problemas estão na mente dos adultos e não na das crianças. As questões que “eventualmente surjam têm a ver com a sociedade e os pseudovalores que esta queira definir, estigmatizando pessoas”, defende, acrescentando que há muitos factores a condicionar a infância e a juventude, “desde a escola onde se anda, os professores que se têm, a casa onde se mora e os valores que são transmitidos”. Em contraponto, Rita Jonet considera que, no desenvolvimento da personalidade, a diferença, seja ela qual for, traz insegurança à criança. Esta é uma fase em que não gostam de ser diferentes dos outros: “Para assumirem isso, é preciso trabalhar com eles de uma forma consistente e sistemática.” Quanto à dialéctica pai/mãe, a psicóloga explica que as crianças têm de ter estes papéis na cabeça e esta questão “é tão importante” que mesmo quando “não têm, fantasiam com isso”.

PAI E MÃE. Em termos teóricos, defende Rita Jonet, a criança precisa sempre, para um desenvolvimento adequado, de ter as facetas feminina e masculina: “O feminino como gerador de vida e o masculino como aquele que vai mais à luta.” O mesmo é dizer que uma criança precisa de um pólo maternal e de um paternal, representando o primeiro a regressão e segurança, e o segundo o crescimento e a ousadia. Em casais heterossexuais, nos tempos correntes, homens e mulheres desempenham esses dois papéis: “Um pai que embala um filho ou lhe dá banho está a fazer de mãe. Uma mãe que leva ao infantário ou estuda com a criança está a fazer de pai”, sustenta Mário Cordeiro. Assim, “interessa é que a criança possa contar com esse triângulo psicológico pai-mãe-ela, mas não importa se, em termos de pessoas, elas são do mesmo sexo ou de sexos diferentes.” 

A psicóloga infantil critica esta posição, explicando que “se está a menosprezar a dualidade pai/mãe com a quantidade de famílias diversificadas”, mas não necessariamente apenas com as famílias arco--íris. Para Rita Jonet, “a família tradicional, com as suas características mais naturais, dá mais equilíbrio à criança”. A mãe e o pai têm características completamente diferentes: “No dia-a-dia, a mãe até pode estar a trabalhar e o pai em casa, mas isso não quer dizer que a característica maternal não exista na mesma”, justifica. 

Um dos argumentos que têm sido mais usados e que é “cientificamente errado”, sublinha Mário Cordeiro, é o do impacto que um ambiente familiar composto por duas pessoas do mesmo sexo poderá ter na relação e descoberta da própria sexualidade dos filhos. “Se uma pessoa, para ter uma orientação sexual homo, tivesse de viver com pais do mesmo sexo, então não haveria homossexuais”, sustenta o especialista. 

Sexualidade e amor. Na opinião do pediatra, não há relação entre o percurso da sexualidade de uma pessoa e a dos seus pais. Aliás, Mário Cordeiro está convencido de que “uma criança ou adolescente nem quer nem deve saber nada sobre a vida sexual dos pais”. 

As manifestações de amor, “sejam de um casal hetero ou homo, sê-lo-ão sempre de amor”, explica, lembrando que a orientação sexual não é adquirida ao longo das vivências, mas é sim um processo inato e biológico que não faz “de um gay menos homem” nem transforma uma lésbica num homem. “Trata-se apenas de ter, como objecto de desejo sexual e de paixão e amor, uma pessoa do mesmo sexo”, resume o pedopsiquiatra. E poderão estas crianças desenvolver comportamentos homofóbicos por lidarem com o preconceito? Sim, “mas tanto como a população em geral”, responde Mário Cordeiro.

Sobre a possibilidade de adopção por casais do mesmo sexo, Rita Jonet está reticente: “Do ponto de vista das crianças, não acho, à partida, bem. Mas cada caso é um caso.”

Já Mário Cordeiro usa a ironia para reforçar a sua posição. Para o pediatra, o argumento de que “não é natural” é tão “estúpido como usarmos roupas porque está frio, óculos quando não vemos bem ou deslocarmo-nos a 100 km/h quando o natural é deslocarmo-nos a 4 km/h ou, no máximo, 36 km se formos o Usain Bolt e, mesmo assim, só por 100 metros”.

http://www.ionline.pt/artigo/417520/familias-gay-ter-dois-pais-ou-duas-maes-divide-opinioes?seccao=Portugal_i


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Dos duques

(Dos dicionários): Duque, título nobiliárquico, imediatamente superior ao de marquês.


***

Na semana passada, por ocasião de um jantar de aniversário, recebemos em casa o 7º duque de L., convidado na condição de primo e amigo, não de titular. Puxo pela memória e olho em redor: era tudo família e, ainda que a nota seguinte pareça bizarra,  gente com o liceu apenas, licenciaturas antigas ou modernas, mestrados feitos ou em vias de, hipóteses de doutoramentos. No meio de todos um duque, também com uma licenciatura que data do tempo em que Bolonha era apenas uma cidade italiana. 

O que significa ser-se duque em 2015? Do ponto de vista legal, nada. Do ponto de vista histórico, já pouco. Do ponto de vista do mérito também nada, pois limitou-se a herdar, sem esforço, o que deixará a outros, até que tudo se perca na voragem de tempos diferentes. Do ponto de vista familiar alguma coisa, pois é o representante do ramo onde vou buscar o meu apelido; é, por assim dizer, o nosso "chefe".   

A frase "recebemos em casa o duque de L." pode ser lida como um exibicionismo pateta, uma snobice ridícula, um pretensiosismo deslocado. Mas a mesma frase pode ser uma bandeira que combate a ideia demolidora do "já não faz sentido nos dias que correm..." que eliminou tradições e nos condicionou a viver irremediavelmente no momento presente, como se não houvesse ontem e a beleza das coisas não persistisse para além das modas.

Adquirir um grau académico é a persistência do esforço: requer trabalho continuado, por vezes doloroso e isolado dos outros. É um sinal de alguma excelência ou, pelo menos, de labor. Estuda-se para se ser mais, para se ter mais, para se ir mais longe na satisfação própria ou na carreira e, com isso, ganhar estatuto ou qualidade de vida. Por outro lado, os títulos nobiliárquicos já não garantem prebendas nem significam particular mérito. Bem usados, são apenas uma responsabilidade, o dever de honrar um nome antigo ao qual foi acrescido um título também já antigo. Ser-se duque ou marquês é, por isso, a persistência da memória.

O mundo de hoje é utilitário, eficiente, prático, ao qual a memória humana não faz falta. Não precisamos de nos lembrar de nada porque está tudo no infinito google ou na imperfeita wikipédia. O que quisermos saber do passado está no éter, não no nosso cérebro; está numa peça de equipamento made in china, não num espaço do corpo que que estabelece sinapses e se comove. A nossa lembrança das coisas antigas (relativamente às quais já não temos interlocutores vivos) é uma artificialidade tecnológica, não um saber que se transmitia oralmente. 

A existência de um duque, que já só tem, aparentemente, uma valência vagamente estética, é uma arma empunhada, não contra a cultura do mérito e do esforço, mas contra a ideia do presente absoluto. Um duque ou um marquês ou um dom antes do nome são a evidência de que todos nós somos uma História que já existia antes dos pais dos nossos pais, História essa que é contemporânea de um tempo que se media em séculos, não em velocidade do sinal ou em largura da banda. A existência de um duque não configura um revivalismo, apenas um fio condutor que se pretende intacto. Infelizmente o combate está irremediavelmente perdido, pois a memória de hoje serve o imediato, o comando informático, a programação de dispositivos, a vida vivida ao ritmo de um aparelho de cozinha alemão.  

A persistência da memória é uma arma contra a ditadura do instante imediato. Um duque não é mais nem menos do que ninguém. É apenas alguém que nos liga ao que passou de moda, ao que faz ainda sentido, apesar de já não parecer fazer sentido.

JdB       

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Duas Últimas

Trago hoje à colação os Deolinda, versátil conjunto musical que viu a luz do dia em 2006, com êxito assinalável e a meu ver merecido quase desde o berço.

Parafraseando a crítica especializada, falamos de um grupo que “cruza o sentimento do fado com a sensibilidade da pop, de olhos postos no quotidiano lisboeta”.

Cultivando uma crítica inteligente embora por vezes demasiado óbvia ou algo demagógica, isto já sou eu a debitar faladura.

Como pontos fortes, suportando e dando clara identidade ao grupo, a voz de Ana Bacalhau, de que ela parece fazer mais ou menos o que quer, e a qualidade da instrumentação bem portuguesa.

Deixo-vos com três interpretações, na esperança de que as apreciem.


fq




segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Vai um gin do Peter’s?

Quantas vezes os sítios giros são verdadeiros ímanes a atrair tudo o que há de giro pelo mundo, desde eventos interessantes a edifícios vanguardistas e com graça, que preferem um contexto favorável, onde todos saem mais valorizados. Uma lógica bem pragmática, a apostar nas alternativas com maior probabilidade de sucesso.  De certo modo, a tendência confirma-se e the winner takes it all. 

Assim está a acontecer em Lisboa, que continua a surfar uma óptima onda. Juntando o útil ao agradável, a zona ribeirinha prepara-se para receber um museu novo, da iniciativa da Fundação EDP, com uma arquitectura sofisticada, da britânica Amanda Levete. Vale a pena ver o seu portfolio(1)  para se perceber como a arquitecta leva à letra a ideia de tentar que cada intervenção arquitectónica se converta num elemento da paisagem natural. 




Como se fosse pouco, à frente do MAAT-Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia ficará o actual curador do MoMA de Nova Iorque – o arquitecto português Pedro Gadanho, que largará Manhattan para vir animar a agenda cultural do país. 

Dando preferência aos artistas portugueses, a Fundação conseguirá expor a sua portentosa colecção, com mais de 1200 obras de arte contemporânea. Procurará também acolher as exposições de enorme qualidade que funcionam no circuito internacional das cidades com maior apetência para as artes. Desta vez, com Lisboa a entrar no circuito. 

Pretende-se devolver aos cidadãos cerca de 37 mil metros quadrados, erradicando os muros que ainda subsistem nas bordas do Tejo. Ali albergará um edifício para exposições e restaurante panorâmico, além de uma área pública com escadaria até ao rio, ideal para gozar a beira-mar passeando por entre e por cima do Museu, ele próprio a funcionar como uma instalação interactiva. 





O clima fabuloso, o cosmopolitismo crescente de Lisboa, o tipo de vida suave, a sua escala invulgarmente humana, o ritmo menos stressante quando comparado com outras capitais europeias, transformaram-na na escolha natural para criar um polo onde arte e entretenimento coincidem. Cumprindo a sua vocação de mecenas, a Fundação assume assim este investimento de 21 milhões de euros, em favor da cultura, onde a própria construção é muito artística.


A inauguração está apontada para Junho de 2016, já daqui a uns meses, que vão voar até ao grande dia. Se corresponder à maquette, é provável que seja daqueles casos felizes em que deixamos de conseguir imaginar Lisboa antes do MAAT existir.  

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
 (1)  http://www.amandalevetearchitects.com/. Com imensa personalidade, Amanda Levete tem deixado marcas nas cinco partidas do mundo.



domingo, 18 de outubro de 2015

29º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 10,35-45

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Tiago e João, filhos de Zebedeu,
aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
«Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir».
Jesus respondeu-lhes:
«Que quereis que vos faça?»
Eles responderam:
«Concede-nos que, na tua glória,
nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda».
Disse-lhes Jesus:
«Não sabeis o que pedis.
Podeis beber o cálice que Eu vou beber
e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?»
Eles responderam-Lhe: «Podemos».
Então Jesus disse-lhes:
«Bebereis o cálice que Eu vou beber
e sereis baptizados com o baptismo
com que Eu vou ser baptizado.
Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda
não Me pertence a Mim concedê-lo;
é para aqueles a quem está reservado».
Os outros dez, ouvindo isto,
começaram a indignar-se contra Tiago e João.
Jesus chamou-os e disse-lhes:
«Sabeis que os que são considerados como chefes das nações
exercem domínio sobre elas
e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder.
Não deve ser assim entre vós:
Quem entre vós quiser tornar-se grande,
será vosso servo,
e quem quiser entre vós ser o primeiro,
será escravo de todos;
porque o Filho do homem não veio para ser servido,
mas para servir
e dar a vida pela redenção de todos».

sábado, 17 de outubro de 2015

Pensamentos Impensados

Especial relojoaria
O meu relógio não é de confiança; está sempre a mostrar horas diferentes.

Tenho 2 relógios que se dedicam a política: um marca sempre o mesmo, é conservador. O outro lá vai andando, é progressista.

Tenho um relógio sem ponteiros, o que é uma espécie de voto em branco.

Especial futebol
Num jogo de futebol houve triangulações dos dois lados.

Num jogo de futebol são 11 jogadores de cada lado. Como o campo tem 4 lados, presumo que são 44 os jogadores.

No relvado
Do campo pelado
Abola é quadrada
A mais não é obrigada.

Up grading
Quando comecei a estudar fui para a 1ª classe; ainda não havia turística.

Vita...mina
Reúno todas as condições para morrer: estou vivo.

2 em 1
Os bígamos chamam às mulheres bis.coito.

SdB (I)


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Largo da Boa-Hora*

Não recebi a graça da santidade.
Sou vulgar, sem prejuízo da esperança e alegria que ponho neste desempenho da condição humana.
Vem isto a propósito quando aqui sentado no meu banco deste Largo pensava o tema deste escrito. Precisamente o perdão.
Entendo que o perdão incondicional é matéria do divino. No mais, ou é tema de amor ou é uma questão de possibilidade.
Enquanto tema e vivência do amor entre o culpado e a vítima, seja o perdão concedido ou negado, não são consentidos comentários ou juízos de valor que meçam o acerto dessa denegação ou concessão.
No amor, a regra é que não há regra nenhuma, o racional é que inexiste qualquer lógica justificativa da conclusão, “o coração tem razões que a razão desconhece”.
O único que é certo é que reina o incerto e, por isso, o mais improvável e inverosímil pode ser a escolha, a solução, o caminho. Estamos no reino da liberdade, da confusão, da distorção, do surpreendente.
Prevalecem sentimentos, impulsos, compromissos, vontades, desejos, fantasias, conformismos, teimosias, histórias, e tantos outros valores que ridicularizam a equação: facto/culpa/pena.
No amor, a palavra perdão nada significa, porque nunca houve o necessário pressuposto deste, precisamente a condenação, evitada pela esperança, resignação ou abnegação. Há acusação, mas raramente condenação.
Portanto, quando estão em causa laços amorosos, não há perdão, porque não há condenação, há desculpa, tolerância, esquecimento, esperança, fé na mudança, e tantos outros mecanismos de relativização das coisas, que fazem com que algo – até grave - possa não ser coisa nenhuma, num historial conjunto feito de outras grandezas e pequenezas.
Estando, pois, de fora a acção divina do perdão e o seu exercício na vivência amorosa, vejamos o perdão à luz do possível.
Perdoar é desconsiderar totalmente um acto praticado intencionalmente sobre nós, que constitua violação dos nossos direitos, valores ou essencialidades. Perdoar é apagar da história uma agressão e suprimir totalmente os seus efeitos, incluindo na esfera dos afectos, é tudo se passar, ou voltar a passar, como se o mal praticado não tivesse sucedido.
Defende-se muito o perdão como uma obrigação dos homens bons, e um especial dever dos que inspiram a sua vida numa fé religiosa. É recorrente a exigência do perdão como condição de perfeição individual e de pacificação de nós próprios e do mundo (seja o nosso pequeno mundo, seja o outro…)
Com todo o respeito, penso que essa exigência do perdão é irrealista, e constitui um apelo a um comportamento quase sempre impossível, gerando uma angústia indevida em todos aqueles que – e muito bem, a meu ver – entendem que o perdão é absolutamente excepcional, pois para o seu sucedimento têm de concorrer pressupostos que não são verificáveis na maioria das situações.
Vou sintetizar as minhas razões.
Perdoar exige que a agressão tenha cessado, se tenha consumado, e que não persista continuadamente. Só se pode perdoar depois, não durante. Ora, este requisito exclui muitas das situações da vida que podiam ser objecto de perdão, dado que grande parte delas são efectivamente acções que perduram pelos tempos, pelos anos.
Perdoar exige contrição e arrependimento do agressor. (São estes requisitos que distinguem, aliás, o perdão da amnistia). O agressor só pode ser elegível para o perdão se assumir o erro cometido, o mal causado, a repulsa pela acção e o firme propósito de a não repetir. Ora, raríssimas são as situações da vida em que o agressor assume esta atitude de remorso e comprometimento para o futuro.
Perdoar exige a reparação do mal causado. A reparação, a reconstituição do partido, a cura das feridas da agressão são, na maior parte das vezes – na vida real – impossíveis de atingir. Reconstruir a confiança, a amizade, a sinceridade, a boa vontade, a solidariedade e tantos outros exemplos, são, em regra, caminhos impossíveis.
Cheguei pois onde pretendia: perdoar é raramente possível.
Excluído o perdão, como regra, perguntar-me-ão qual será então a via mais bondosa para lidar com a agressão e o agressor.
A meu ver, o caminho que está aberto aos homens de bom coração, é o da renúncia a responder ao mal com o mal, ao “olho por olho, dente por dente”
Renunciar ao desforço, à vingança, ao ódio, à perseguição, é o caminho que se deve impor nos nossos corações, como exigência da nossa integridade moral ou salvação, se preferirem. Não devemos responder à agressão com a retaliação.
Esta renúncia, se for conseguida, confere-nos grandeza, satisfação connosco próprios, sentimentos de paz de espírito, de vitória do bem sobre o mal.
Firmada a renúncia, podemos e devemos tactear caminhos de entendimento, pontes de compreensão, passagens de esclarecimento e, conforme formos concluindo, encetar o caminho da aproximação cujo culminar pode ser até a reconciliação, que não se confunde com o perdão. Uso esta expressão, reconciliação, no sentido de, no fim do caminho, poder até suceder um retomar de laços afectivos, profissionais, sociais que, ainda que definitivamente maculados pelo pecado original da agressão, possam ser suficientes para uma coexistência saudável, pacífica e proveitosa para a paz e bem de todos os envolvidos.
Sei, porém, que por vezes essa reconciliação também não é possível. Em especial, porque nem a agressão cessa, nem o agressor indicia arrependimento, nem sucede um esboço de reparação.
Quando assim for, não resta senão tornarmo-nos totalmente indiferentes para com o agressor, ser e agir como se ele já não fosse ou agisse.
Este fazer dos outros nadas, é a medida que nos permite viver sem o tormento da permanente recordação do mal cometido, sem a dor do sofrimento que nos é infligido, sem o risco do acirrar de rancores. É o caminho para o esquecimento do mal.
Esquecer o mal, apagar a história, é a defesa dos que renunciam ao ódio e desforço, e são impotentes para mudar o curso das coisas.
O irremediável não é bom companheiro, deixá-lo jazer no cemitério do perdido.

ATM

* publicado inicialmente a 21.01.2009

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Poemas dos dias que correm

Quanto, Quanto me Queres?

Quanto, quanto me queres? - perguntaste
Olhando para mim mas distrahida;
E quando nos meus olhos te encontraste,
Eu vi nos teus a luz da minha vida.

Nas tuas mãos, as minhas, apertaste.
Olhando para mim como vencida,
«...quanto, quanto...» - de novo murmuraste
E a tua boca deu-se-me rendida!

Os nossos beijos longos e anciosos,
Trocavam-se frementes! - Ah! ninguem
Sabe beijar melhor que os amorosos!

Quanto te quero?! - Eu posso lá dizer!...
- Um grande amôr só se avalia bem
Depois de se perder.

(António Botto, in 'Canções')

***

Escavação

Numa ânsia de ter alguma cousa, 
Divago por mim mesmo a procurar, 
Desço-me todo, em vão, sem nada achar, 
E a minh'alma perdida não repousa. 

Nada tendo, decido-me a criar: 
Brando a espada: sou luz harmoniosa 
E chama genial que tudo ousa 
Unicamente à fôrça de sonhar... 

Mas a vitória fulva esvai-se logo... 
E cinzas, cinzas só, em vez do fogo... 
- Onde existo que não existo em mim? 

. . . . . . . . . . . . . . . 
. . . . . . . . . . . . . . . 

Um cemitério falso sem ossadas, 
Noites d'amor sem bôcas esmagadas - 
Tudo outro espasmo que princípio ou fim... 

(Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão') 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Dos verbos

Palácio Nacional de Queluz, Outubro de 2015

Percebo bem o que está por trás da frase mais vale ser do que ter mas, confesso, acho-a estafada, por ser usada a torto e a direito por quem anda torto e anda direito... Por outro lado, o povo diz que mais vale sê-lo do que parecê-lo. Nesse sentido, ter e parecer são dois verbos que retratam posições perante a vida e que parecem gozar do mesmo estatuto algo depreciativo. Devemos ser mais do que ter e ser mais do que parecer. Ser é tudo, e talvez o pior  seja parecer ter... Por outro lado, há gente que gosta de por a mão na massa e que sobre isso se regozija. Sou mais pessoa de fazer, por oposição aos que não fazem ou, sendo mais de pensar, não geram resultados práticos e visíveis. Ou ainda que dizem eu é mais educar, sendo que isso significa dar instruções, palmadas, incutir rotina e disciplina, já que o oposto de educar parece ser deixar os filhos à rédea solta. 

Num âmbito algo diferente, os meus setembros adolescentes foram passados numa quinta de primos e amigos onde durante muitos anos não havia luz eléctrica e, por isso, não víamos televisão. Além do mais nem sabíamos que um dia surgiriam os computadores ou as redes sociais ou os telemóveis. Quando nos perguntavam o que lá fazíamos durante um mês inteiro, respondíamos com uma filosofia antes do tempo: não se faz nada, e isso é que é bom. Está-se, é-se, fica-se. Pretendíamos ter graça mas, sem o sabermos, três verbos reproduziam com fidelidade o que eram aqueles fins de verão à sombra dos plátano e de um carteiro que trazia cartas escritas em letra jovem e, quiçá, apaixonada.

Não sei - porque ando moído dos neurónios e a lucidez já teve melhores dias - se estamos habituados a caracterizar o que somos ou o que são os outros através de verbos. Nem sequer sei qual a vantagem por trás deste exercício. Em vez de dizer que fulano é gordo, afirmar que fulano é mais de comer. Ou caracterizar alguém preguiçoso como beltrano é mais de se encostar.  Não usar adjectivos que são uma arma potencialmente letal.

Gosto das pessoas que dizem ser, orgulhosamente, pessoas de fazer.  O verbo fazer é moderno, traduz um desejo de eficiência, de optimização dos recursos, de estudo da árvore de perdas ou de análise de uma estrutura de custos. O oposto de fazer é não fazer, e não, como se poderia invocar positivamente, fazer outro tipo de coisas. Quem faz produz e quem não faz não produz. Porque quem faz usa os braços que são a extensão de um cérebro em torvelinho. Quem não faz pode usar a cabeça, mas é apenas uma vénus de milo dos tempo modernos. 

Hoje, à hora a que escrevo este texto, sou mais pessoa de me apatetar.

JdB    

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Duas Últimas

Já postei neste estabelecimento harpa do Paraguai, instrumento que conheço há muitos anos - e de que sou apreciador. Não fui revisitar o post em questão, mas estou certo de que ofereci aos meus surpreendentemente fieis leitores um youtube só de harpa. Agora o post sai enriquecido com dois instrumentos de corda e um de percussão. 

Mesmo para mim é uma estreia e, confesso, gostei. Ao som bonito e ritmado da harpa juntam-se a viola, o contrabaixo e o tambor (não é mas estou cansado de mais para procurar o nome certo) - o colectivo sai valorizado, a modalidade sai prestigiada.

Duas-peças-duas. Divirtam-se, apreciem, insultem. Vão aparecendo, que um dia falo sobre a diferença entre voltar para casa e voltar para casa. Metáforas, pois então.

JdB




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Dos auto-retratos


O quadro acima está exposto no Palácio Nacional de Queluz. Da autoria de Vieira Portuense (1765 - 1805) representa Angelika Kauffman a pintar o retrato de Vieira Portuense. É, portanto, uma espécie de auto-retrato por interposta pessoa - o pintor que pinta alguém que pinta o pintor.

Em boa verdade há, neste quadro, mais do que parece. Num auto-retrato, a menos que seja fruto de uma encomenda cujo alcance não discerniremos, há uma dose de vanglória. Numa época em que memória futura era uma expressão por inventar, o pintarmo-nos para a posteridade é uma manifestação de quê, se não de fatuidade? Ora, neste quadro a pessoa dominante é Angelika Kauffman e não o próprio Vieira Portuense, que vemos quase como se fosse uma marca de água numa folha de papel. Podemos então encontrar uma espécie de modéstia incompatível com o paradigma do auto-retrato? Se assim for, talvez não haja, então, auto-retrato. Poderemos imaginar o pintor a dar instruções a Angelica Kauffman quanto à forma como deve ser auto-retratado; ou ainda imaginar que o pintor reproduziu uma cena real, pelo que só percebeu como era depois de Angelika o ter pintado. E é esta teoria que me agrada mais.

Quando dizemos o que somos, não dizemos, na verdade, o que somos, mas limitamo-nos a repetir aquilo que os outros dizem que somos. Não somos nada até que os outros nos identifiquem no seu horizonte visual e sobre nós tenham ideias. Fruto da genética poderemos ter uma determinada característica, mas ninguém é sovina ou egoísta ou colérico ou generoso ou altruísta numa ilha deserta, ou numa vida absolutamente desprovida de audição. Quando me perguntam que características tenho não as sei dizer, apenas papaguear. Repito o que todos os outros disseram sobre mim - fosse no remanso elogioso de uma esplanada, fosse no calor auditivo de uma discussão. Esta inevitabilidade transforma a auto-análise, senão numa mentira, pelo menos na possibilidade de. Nada me impedirá de modelar a percepção de alguém sobre si próprio dizendo-lhe permanentemente que é vaidoso ou rancoroso quando essa pessoa não é nada disso.

Não somos o que somos, mas o que os outros dizem que somos, porque nos é impossível ver para dentro de nós próprios a não ser através do olhar dos que connosco interagem. Nesse sentido, a auto-análise é um exercício de escuta e de discernimento e, acima de tudo, de confiança. Fazer auto-análise assenta em duas afirmações fundamentais, sem as quais tudo soçobra: eu oiço o que tens a dizer sobre mim, e eu acredito no que dizes sobre mim. Por outro lado, a auto-análise só pode consistir, no verdadeiro sentido do exercício, em falar de sentimentos ou de sensações (eu sinto...), não de características (eu sou...). As características ouvem-se. Se se dizem, ou são sensações, ou não são mais do que repetições - um ser humano pensante numa actividade de papagaio. Não há diferença entre estarmos no divã do psiquiatra ou mandarmos um quarteto de grandes amigos.

No quadro - e só no quadro - do Palácio de Queluz, Vieira Portuense, o homem que na realidade se chamava Francisco Vieira, deixou que Angelika Kauffman o retratasse. Só quando ela terminou o trabalho é que pintor percebeu quem ele próprio era, ou como era: o equilíbrio simétrico da boca, a dimensão do nariz, um olhar que perscruta. Melhor, só quando Angelika terminou o trabalho é que ele percebeu como ela, a mulher que ele pinta a pintá-lo, o vê. E há nisso uma grande diferença. Mais importante do que ver o pintor é ver quem ele pinta a pintá-lo a si próprio.

JdB  

domingo, 11 de outubro de 2015

28º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 10,17-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
ia Jesus pôr-Se a caminho,
quando um homem se aproximou correndo,
ajoelhou diante d’Ele e Lhe perguntou:
«Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?»
Jesus respondeu:
«Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus.
Tu sabes os mandamentos:
‘Não mates; não cometas adultério;
não roubes; não levantes falso testemunho;
não cometas fraudes; honra pai e mãe’».
O homem disse a Jesus:
«Mestre, tudo isso tenho eu cumprido desde a juventude».
Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu:
«Falta-te uma coisa: vai vender o que tens,
dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu.
Depois, vem e segue-Me».
Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante
e retirou-se pesaroso,
porque era muito rico.
Então Jesus, olhando à volta, disse aos discípulos:
«Como será difícil para os que têm riquezas
entrar no reino de Deus!»
Os discípulos ficaram admirados com estas palavras.
Mas Jesus afirmou-lhes de novo:
«Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus!
É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha
do que um rico entrar no reino de Deus».
Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros:
«Quem pode então salvar-se?»
Fitando neles os olhos, Jesus respondeu:
«Aos homens é impossível, mas não a Deus,
porque a Deus tudo é possível».
Pedro começou a dizer-Lhe:
«Vê como nós deixámos tudo para Te seguir».
Jesus respondeu:
«Em verdade vos digo:
Todo aquele que tenha deixado casa,
irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras,
por minha causa e por causa do Evangelho,
receberá cem vezes mais, já neste mundo,
em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras,
juntamente com perseguições,
e, no mundo futuro, a vida eterna».

sábado, 10 de outubro de 2015

Pensamentos Impensados

Medem-se aos palmos
Ninguém fala nos pigmeus; será por serem low profile?

A ver navios
Portugal já teve uma marinha marcante.

Nem oto nem otenta
Os otorrinos saberão reparar otoclismos?

Trabalheira
Andava à procura de trabalho quando já o tinha; procurar trabalho dá muito trabalho.

Números...de circo
Na passada 3ª feira Cavaco Silva fez uma declaração ao País dizendo, a certa altura: "(...) e sufragada, nestas eleições, pela esmagadora maioria dos cidadãos."
Será que 57% é a esmagadora maioria? E 75% seria o quê? O fim da macacada? E 90%? valha-me Deus que o Mundo vai acabar?
Senhor Presidente: vá brincar com os meninos da sua rua que a mim doem-me as costas.

Adivinhas
Consultaram a pitonisa mas não perceberam nada; era a pitonisa de belfos.

Climas
Não gostava de viver onde vivia mas resolveu o assunto; aclimatou-se.

Cônjuge
O feminino de sargento é sargeta.

SdB (I)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Duas Últimas (repescado)

Lembras-te em que ano dançámos estas músicas? Era seguramente Verão, no terraço de um qualquer prédio no Algarve. Tínhamos todos a mesma idade, mesmo que tivéssemos nascido em anos diferentes. Tínhamos todos o mesmo dinheiro, mesmo que algumas mesadas fossem mais generosas. Jogávamos o verdade ou consequência, certos de que coraríamos se nos perguntassem de quem gostávamos, ansiosos por não fazer má figura se as regras nos levassem a beijar a rapariga que nos criava borboletas no estômago. 

Depois, alguém punha discos de vinil num gira-discos que talvez funcionasse a pilhas. As estrelas eram imensas, e a Janis Joplin arrancava com o seu Me and Bobby Mc Gee. E a Melanie Safka com o seu Ruby Tuesday. Eu olhava em volta e ia buscar-te, porque estes eram os nossos slow. Não tinha pressa, porque tinha a certeza de que esperarias por mim, que disfarçarias se te viessem buscar para dançar. Íamos para o meio da pista - quer dizer, do terraço - e enroscávamo-nos na ingenuidade da juventude, com a embriaguez provocada por dois corpos justos, um cabelo cheiroso, uma face encostada, uma forma de dançar que pouco mais era do que a imobilidade de dois adolescentes apaixonados. 

Lembras-te em que ano dançámos estas músicas?

JdB



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Do gosto pelo frio

No seu ensaio Nautilus (1975, parece-me, e já citado neste estabelecimento) Roland Barthes afirma: 

"O gosto pelo navio é sempre a alegria do enclausuramento perfeito, do domínio do maior número possível de objetos, do ato de dispor de um espaço totalmente finito: amar os navios é, antes de mais nada, amar uma casa superlativa, porque fechada sem remissão, e de modo algum as grandes e indeterminadas partidas. O navio é uma ação do habitat, antes de ser um meio de transporte. Ora, todos os barcos de Júlio Verne são, realmente, perfeitos ambientes de aconchego, e a grandeza de seu périplo aumenta ainda mais a felicidade de sua clausura, a perfeição de sua humanidade interior. Sob este aspecto, o Nautilus é a caverna adorável: o prazer da clausura atinge o seu paroxismo quando, no seio dessa interioridade sem fissuras, é possível ver através de uma imensa vidraça o vago exterior das águas e assim definir assim num mesmo gesto o interior pelo seu contrário."

Por seu lado, na sua História do Fado, Pinto de Carvalho refere a “(...) teoria de Mantegazza, que, discreteando a respeito da mímica como expressão dos afectos e movimentos físicos, diz que a alegria é centrífuga, enquanto que a dor é centrípeta.”

Só aparentemente há dissociação entre estas duas citações. E a ligação entre ambas é tão forte que consigo ainda juntar-lhe um outro vector sem que nada se perca: o apreço pelo frio como revelador de uma insegurança. Raciocinemos:

É muito pouco provável que o gosto pelo frio ou pelo calor esteja na ordem do conforto corporal mais físico. Isto é - ainda que não possamos afirmar, categoricamente (e cito), que "o frio é um estado de espírito" - podemos dizer que, tomadas as devidas precauções de roupa em quantidade qb, o que define se gostamos de temperaturas elevadas ou baixas é o nosso interior mais profundo, não uma infinidade de sensores à flor da pele que enviam sinais para o cérebro. 

O frio, tal como a música triste, é centrípeta. O frio convida ao recolhimento, ao gorro, à gola levantada do sobretudo, à proximidade com a lareira, ao aconchego de uma manta. O calor, pelo contrário, é centrífugo: convida às janelas abertas, aos grandes espaços, às bebidas alegres, aos sorrisos rasgados, aos movimentos amplos. Assim, o gosto pelo frio (e podemos aqui acrescentar o tempo outonal, o nevoeiro, o encurtar dos dias) revela, não uma resistência à intempérie ou uma mentalidade depressiva, mas um movimento de recolhimento. Gostar do frio é gostar do conforto da casa com tudo o que isso representa. Talvez gostar do frio não seja então um simples prazer - como ouvir música ou cozinhar ou conviver com amigos - mas também uma fragilidade, uma necessidade. E se entendermos que o movimento centrípeto da existência humana é a tal "felicidade da clausura", podemos então afirmar que o frio é uma espécie de Nautilus. Gostar do frio é ter a necessidade do "perfeito ambiente do aconchego." E nesse sentido, a nossa apetência pelas temperaturas altas ou baixas é reveladora, apenas, de uma aparente (in)segurança.

Gostar do frio (ou do nevoeiro, ou do cair da folha) ou de calor não revelam apenas resistências físicas, mentalidades depressivas ou alegres. O gosto pelas temperaturas altas ou baixas diz-nos muito mais das pessoas do que se pensa. Não ficamos tristes porque gostamos do frio nem gostamos do frio porque somos tristes. Não há aqui gosto, como quem se atira a um pop ou a uma milonga, mas necessidade. "Apreciar" o frio e, nesse sentido, a dor centrípeta é, tão só, uma metáfora para a procura de uma segurança. 

JdB

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