domingo, 31 de agosto de 2008

Não vos conformeis


Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus,
que vos ofereçais a vós mesmos
como vítima santa, viva, agradável a Deus,
como culto racional.
Não vos conformeis com este mundo,
mas transformai-vos,
pela renovação espiritual da vossa mente,
para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus,
o que é bom,
o que Lhe é agradável,
o que é perfeito.

-----

(...)
Dá-nos, Deus de bondade,
a graça de nos sentarmos,
quando os pequenos fracassos e insucessos
nos questionam
para, com humildade,
aceitarmos a realidade
e descobrirmos
o sentido profundo das nossas experiências.

(D. Carlos Azevedo, Ao Deus de todas as manhãs, Edições Paulinas)

sábado, 30 de agosto de 2008

O poder do Karaoke

É imperioso que comece a crónica de hoje com um alerta: talvez não saia mais do Zimbabué.
(pausa, para que o grito sufocado de angústia ou o suspiro aliviado de sossego atravessem o sistema respiratório e assumam a forma de som...)
Eu explico, porque tudo é transparente para os que me seguem. Ontem, pela hora de jantar, éramos cinco à volta de uma mesa redonda no Pointe, um estabelecimento de diversão nocturna propriedade do Sr. Quintas, que assegura ter sido, em tempos mais idos, o cantor romântico de maior sucesso na África Austral.
Posso assegurar que foi o local mais interracial que conheci em toda a minha vida: encontrei angolanos, locais brancos e pretos, portugueses, um médico da ex-Jugoslávia, um advogado grego, alemães, brasileiros, iranianos, gente da polícia, indianos, diplomatas, pessoas com ar de leste, homossexuais, um chinês e tantos outros cuja proveniência me é desconhecida.
O estabelecimento serve jantares (classificado, no Michelin que me habita os sentidos, como satisfaz / satisfaz pouco). É um restaurante arquitectonicamente algo degradado, esteticamente indefinível, com pormenores curiosos: no cimo da parede, junto à sanca, um friso de lâmpadas verdes e encarnadas brilha em contínuo, revelando um nacionalismo iluminado; nas paredes, quadros diversos, variando entre o impressionismo, marinhas inglesas, tapeçarias ou óleos locais pendurados sem rigor de esquadria nem de cota; a um canto, um sistema traiçoeiro electrocuta insectos esvoaçantes num ruído de fritura; ventoinhas diversas e em profusão, lutando contra a estagnação dos aromas; no topo do salão principal do estabelecimento, dois semáforos grandes, projectando sem qualquer regularidade uma luz avermelhada forte. Indaguei, curioso, se estaria relacionado com algum código entre patrão e empregados, um morse luminoso que agilizasse o serviço, apressando a rotação das mesas. A resposta de um dos meus colegas de repasto veio imediata:
- não! Indica apenas casa de banho cheia…
Perguntar-me-ão, então, o que lá fui fazer, o que leva ao Pointe todo o mundo de Harare, sem qualquer distinção do que quer que seja. Eu explico numa palavra simples – mas demolidora: o karaoke! Na realidade, é esta espécie de semi-playback com legendas que impele dezenas de pessoas, todas as 6ªs feiras para, à volta de uma feijoada, de uma garoupa, de um chicken piripiri ou, simplesmente, de uma cerveja, se divertirem até ao limite da (sua) decência.
(A informação que intercala a reportagem não é despicienda: entre cantares espontâneos há dança – forte, participada, africana, ritmada e contagiosa).
A sala não estava ainda quente – embora cheia – e já eu me abalançava para o primeiro teste, sabendo que o clima mundial se altera quando canto. Olhei para uma lista infindável de canções e não encontrei o Requiem de Mozart, espécie musical onde me sinto como peixe na água. Optei por uma toada que conheço, que tem uma letra (na minha imaginação, “assexuada”) que se adequa aos vários mundos em que vivo e que permite aos espectadores cantar em uníssono com o herói que se chega à frente: Che sera, sera.
Quando dei por mim, era um artista no palco, com 1,86m, barbudo, um peso a rondar (para cá ou para lá) os três dígitos, pronto a enfrentar o possível arremesso de loiça e de vegetais sobrantes. Quando dei por mim cantava, simplesmente:

When I was just a little girl
I asked my mother, what will I be
Will I be pretty, will I be rich
Here's what she said to me.

Imaginei nos espectadores aquele olhar de espanto que antecede o do nojo ou da fúria – ou simplesmente o da estupefacção. Não sei se terá sido um sonho, mas o facto é que supus alguém, ao ver-me cantar uma música de mulher, a gritar da penumbra do salão:
- canta o like a virgin…
No fundo, dentro de nós vive um cançonetista em permanência, pronto a emergir ao menor sinal de despudor, de descontracção – ou excesso de vinho. Percebi, aos 50 anos, que quem habita o meu canto esmagado de entertainer se chama Doris Day…
É isto, meus amigos. O karaoke levou-me, mais tarde, a enfrentar o la bamba e o obla di obla da num dueto de amigos e no recato da mesa. Não sairei mais de cá, porque estou certo que alguns países, dado o impacto da minha actuação, não me deixarão sair. Outros, exactamente pelos mesmos motivos, não me deixarão entrar….
Entre séries de voluntários (JdC levou uma multidão ao rubro entoando o Here comes the Sun e o Like a Rolling Stone) havia música diversa, para animar uma pista sempre cheia, mista, onde ocupei o meu lugar com a ligeireza que Nosso Senhor me quis dar. No espaço de um instante dançava com gente local e desconhecida uma toada sul-africana, sensual, batida, que me levou ao encanto de uma escultura dengosa e próxima – muito próxima, mesmo - que se contorceu com o à-vontade de quem tem estes sons dentro de si. Entre mim e ela chegou a haver, apenas, os meus óculos de meia-lua. Posso arrimar-me na dança com quem não conheço, roçar o corpo por uma beldade local, mas o facto é que já não vejo bem ao perto.
Vislumbrei, na minha febre de 6ª feira à noite, o poder do karaoke. Estou mais do que certo que todas as crises do mundo se resolveriam numa noitada assim: Bush e Putin entoando o friends will be friends, Sócrates e Manuela Ferreira Leite em how deep is your love, Paulo Portas no my way. E todos eles, na pista de dança, encostando corpos frenéticos ao som de músicas lascivas, assinando pactos de regime com a volúpia no olhar.

Notas finais:
- JdC encontrou um potencial primo angolano que se apresentou dizendo: sou neto do D. Pedro S. arcebispo de Malange. Se não fosse o meu pai, eu era branco como você. E abraçaram-se, num clima de parentesco desconhecido.
- num formato A4, a Times New Roman 12, 14, e 16, um aviso informa os clientes do Dress Code: smart casual, sendo interditos os chapéus, calções e T-shirts.
- Por mais ligeira que possa parecer a crónica, diverti-me à ufa, como se costuma dizer: cantei como se a minha vida dependesse disso, dancei com quem nunca tinha visto nem voltarei a ver, tomei a decisão de voltar mais vezes. Encontrei a satisfação na simplicidade, no que não é requintado mas é contagiante, na facilidade com que podemos confraternizar com a diferença que se senta ao nosso lado.
- A alegria pode ser um túnel todo iluminado. É injusto que se veja, ao longe, um brilho que se extinguiu, como se algo nos dissesse que todo o gozo tem uma sombra de neurastenia.

Adeus, até ao meu regresso…

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Agradecimento

Ao longo dos últimos dias - na forma de comentário no blogue ou por meio de mensagens electrónicas - tenho recebido visitas às quais não respondo. Como já disse várias vezes, a rede em Harare é lenta, para além de outros afazeres (estes profissionais) me estarem a reter grande parte do dia.

A todos os que me procuram - Ana V., Arit Netoj, Xiu (porquê o blogue só até Março de 2008?), JA, o meu amigo designer JL, São, Ritz on the Rocks, JAS, MTCTC, etc., etc., fica o meu agradecimento pela curiosidade mais ou menos regular. Sejam bem-vindos, porque vêm por bem.

Mazvita, como se diz por aqui

De Harare para Chiredzi

Explicar o caminho de Harare para o nosso destino, neste caso a 450km, não é, em termos de orientação, como informar as estadas a seguir quando se vai de Lisboa para Santarém. A nossa capital tem duas saídas principais – para Norte e para o Sul -, mas não passaria pela cabeça de ninguém instruir o viajante da seguinte forma:
- sobes a Fontes Pereira de Melo, continuas pela Avenida da República, apanhas a Estados Unidos da América e, chegando ao fim, viras à esquerda para subir a Gago Coutinho.
Fruto, seguramente, da organização da cidade em termos de saídas, o facto é que abandonar Harare passa por uma explicação semelhante. Posso afirmar a tendência, porque é a segunda vez que comprovo.
Ir da capital do Zimbabué até a Chiredzi, a terra mais próxima do Nduna Safari Lodge, é conhecer várias Áfricas:
- a África de que nos apercebemos em Harare, e que já descrevi por duas ou três vezes;
- a África dos subúrbios: Chitungwiza, por exemplo, uma espécie de margem sul semi-industrializada, com dezenas e dezenas de pessoas nas ruas, nas estradas, pedindo boleias, apanhando camionetas, migrando para aqui e para ali naquilo que me parece, ignorantemente, uma diáspora desorganizada, caótica, sem destino definido.


- a África das pequenas cidades rurais, construídas em cima de duas ou três ruas, se tanto, um ou dois pequenos estabelecimentos comerciais com ar decadente e, na generalidade, fechados; nalgumas terras maiores, um posto de polícia pode conferir ao lugarejo uma maior importância.
- por último, mas não menos relevante (com maior intensidade à medida que caminhamos para sul), a maior predominância da África profunda e tribal, onde as casas, tal como nós as concebemos, mesmo que pobres, são substituídas por aglomerados de cubatas, e as regras de convivência e de organização se modernizam à velocidade das coisas quase imóveis.

São cerca de 4,5 horas de um caminho que se faz num instante, no entretenimento de uma paisagem que é sempre fascinante, sempre diversa, nunca monótona: o capim, mais alto aqui e ali, bordejando uma estrada que serpenteia muito suavemente; os tons de verde e castanho, que predominam nos nossos olhos, salpicados por manchas de um acobreado escuro; um ar que cheira permanentemente a seco, porque a época das chuvas é de Novembro a Março ou Abril; numa determinada zona da jornada, macacos aos bandos, saltando, vendo os carros que passam, subindo às árvores, comendo mansamente no meio do capim. Por último, mas não menos importante, o espaço – essa coisa imensa, infinda, inalcançável.
Sempre tive algumas dúvidas – que se baseiam na estética do olhar, mais no que na evidência da certeza - que a terra fosse verdadeiramente redonda, ainda que achatada nos pólos. Aqui, como no Alentejo (numa ínfima parte quando comparado com a realidade que vivo), o que deixa de se ver não pode estar relacionado com a esfericidade do globo terrestre, mas com a limitação da visão humana. Com efeito, que bom seria vermos a África toda de uma vez só, do Atlântico ao Índico, apercebendo-nos da savana, do mato, da organização das populações, da proximidade do animal selvagem.

Não há palavras, seguramente as minhas, para descrever o que é a beleza sufocante e exaltante de um espaço sem limites, nalguns casos de uma planura que parece tirada a regra e esquadro, noutros com uma elevação suave e pouca; árvores surpreendentes que se erguem do meio do nada, como se tudo não fosse mais do que a natureza a proteger-nos do hipnotismo do lugar.
Sou um turista essencialmente urbano, atraído pelas casas, igrejas, palácios, ruas movimentadas, praças povoadas de gente que se senta e levanta, conversa, ri, cumprimenta quem está ao lado e sobre as quais posso inventar histórias. Encontro facilmente beleza no equilíbrio arquitectónico de Praga, na estética organizada de Paris, na esquadria do arranha-céus em Nova Iorque. Aqui tudo parece ser desorganizado, espontâneo e isento, quase sempre, da mão artificial do homem. E, no entanto, há um extraordinário equilíbrio do todo face ao possível desarranjo das partes.
Talvez aqui, como noutras partes do mundo, o encanto não esteja no detalhe. Nesta África rural e profunda, parece-me, a maravilha está naquilo que os nossos olhos abarcam globalmente, e que tem de ser visto dessa forma. O campo nem sempre está arranjado, ordenado, emparcelado, fruto da desordem política ou da cultura local. Mas, o que se vislumbra aos nossos olhos, é a imensidão – e essa nem sempre carece de uma grandeza organizada.
O relógio rondava a uma da tarde quando chegámos ao Nduna Safari Lodge. O resto da descrição fica para amanhã, para que o repouso dos sentidos e a contemplação do espaço infinito não sejam perturbados. Nada me daria maior satisfação do que provocar saudades nos que por cá passaram, e curiosidade nos que olham África com desconfiança.

Adeus, até ao meu regresso...

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Aniversário

Se hoje tenho Internet no meu computador, se tenho um telemóvel com número zimbabueano, se tenho tantas outras coisas resolvidas é graças à Manuela, que tem uma eficiência verdadeiramente internacional..
Por ser o hoje o dia de anos dela, aqui fica um beijo respeitoso de parabéns de um visitante atento, venerador e obrigado. Há outra coisa ainda que o pudor me impede de revelar, pelo que só o faço levemente - nasceu num ano particularmente feliz, que deu gente importante à Nação.
Parabéns, Manuela!

Cores de África


Algumas cores que tornam África fascinante

(Lake Chiveru, Harare)

Geografia humana (parte I)


Os franceses diriam que entre les deux, mon coeur balance.

Eram seis da tarde de um fim de dia suavemente quente. Sentámo-nos, o Carlos Antunes (número 2 da nossa Embaixada em Harare) e eu, no Italian Bakery, o local onde, na capital do Zimbabwe, vi mais mistura de raças. No centro da cidade só se vêem pretos, na missa idem, no Miller's, onde jantei no dia em que cheguei, só havia brancos, assim como nas instalações da Associação Portuguesa, onde almocei leitão no passado Domingo.

Aqui vi de tudo, mesa ao lado de mesa, eventualmente à volta do mesmo prato de bolos e refrigerantes.

Foi aí que conheci a Magdalene e a Purity Mapfeka, de 26 e 28 anos, respectivamente, que partilharam connosco um capuccino e uma hora de conversa. Para ser um cavalheiro, e como quem fala do tempo ou da saúde do camarada que governa a nação, perguntei o que seria preciso para me casar com uma delas, o que teria de dar ao seu (delas) progenitor. Era uma espécie de conversa ligeira, na ausência de temas mais interessantes. A resposta veio clara, directa e compreensível, porque eu já conhecia a tradição da lobola (o nosso dote):

Nove vacas e o equivalente a 2000 dólares americanos.

Fiquei arrasado, mas indaguei do comércio de gado vacum. Just in case.

Volto amanhã, com mais geografia humana.

Nota: atentem no pormenor do cartaz de cinema por trás. Quem nos espreita, guloso e com inveja?

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Ainda estou no Sul...


Hoje é segunda-feira, embora esteja a escrever este post na 6ª feira, véspera da partida para Chiredzi.

Se quiserem saber mais alguma coisa do que estou a fazer, vão a este site. E invejem.

Amanhã chegarei pela hora de almoço. Voltem pela cedinha, que há sempre qualquer coisa para deleite de quem me segue.

Adeus, até ao meu regresso...

domingo, 24 de agosto de 2008

O exercício do poder


Hoje é Domingo, e não esqueço a minha condição de Católico.

Leitura do Livro de Isaías
Eis o que diz o Senhor a Chebna, administrador do palácio:
«Vou expulsar-te do teu cargo, remover-te-ei do teu posto.
E nesse mesmo dia chamarei o meu servo Eliacim, filho de Elcias.
Hei-de revesti-lo com a tua túnica,hei-de pôr-lhe à cintura a tua faixa,
entregar-lhe nas mãos os teus poderes.
E ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá.
Porei aos seus ombros a chave da casa de David:
há-de abrir, sem que ninguém possa fechar;
há-de fechar, sem que ninguém possa abrir.
Fixá-lo-ei como uma estaca em lugar firme
e ele será um trono de glória para a casa de seu pai».

Fui buscar à liturgia de hoje a primeira leitura, porque ela nos fala de poder: a sua lógica e sentido. Não resisto a contar um pequeníssimo diálogo que travei com os meus filhos, não tinham eles ainda a noção exacta da nossa realidade laboral:

- o pai pode despedir alguém?
- graças a Deus não...
- então não tem poder nenhum...

A partir de uma certa altura da minha vida profissional o exercício do poder (no seu sentido neutro) passou a ser uma constante no meu dia-a-dia: gestão de pessoas, tomadas de decisão com algumas implicações, possibilidade de influenciar os caminhos de uma organização, numa encruzilhada escolher a melhor via, etc.

Tudo isso faz parte, para já, do meu passado, e o meu poder resume-se, hoje em dia, à gestão da minha vida pessoal e profissional, esta na sua expressão mais simples - patrão de mim mesmo.
Não deixo, no entanto, de olhar para trás, para 20 anos numa grande empresa, e questionar que tipo de chefe fui, o que me motivou, que olhar tive eu sobre as pessoas que dependiam hierarquicamente de mim.

Reconheço hoje a extrema dificuldade - como tudo na vida - em encontrar um equilíbrio profissional saudável entre a compreensão e a tolerância, e o cumprimento de objectivos cada vez mais ambiciosos que desumanizam, tantas vezes, as relações laborais, mesmo que o lema "os empregados são o nosso melhor activo" encime a secretária do presidente e faça parte dos seus discursos habituais.

Acredito que os católicos não têm o monopólio da ética e do bom relacionamento hierárquico. Mas estou convicto, ainda que ingenuamente, que temos uma responsabilidade acrescida, porque nos revemos numa mensagem e numa doutrina que nos obriga a atentar no próximo. Para nós, o uso do poder tem outros contornos, outros desafios, que se tornam mais evidentes e distintivos quando as relações se deterioram. O que marca a diferença entre um bom e um mau chefe é, muitas vezes, a forma como olha para os outros.

Exercer-se uma chefia tem muitas parecenças com o exercício da paternidade. Não me posso esquecer, por isso, da expressão bonita que ouvi de uma senhora, mãe de toxicodependentes, aplicada à recusa em dar aos filhos o dinheiro que os aliviaria, mas que os destruiria: o amor firme.

sábado, 23 de agosto de 2008

Vou-me embora, vou pró Sul...


Para aqueles que por obsessão persecutória, preocupação genuína ou ausência de alternativa mais interessante seguem os meus passos ao nível do mapa, sugiro que cantem comigo, como cantariam com o Vitorino:

Vou no vapor da madrugada
A minha estrada vai prò Sul
Dá-me um abraço d´encantar
Volto para o fundo dum olhar
Meiga paixão ao Sol do Estilo
Rubra papoila fugidia
Encontro certo no trigal
Nada me prende, vou-me embora
Vou pró Sul...

Com efeito, à hora em que a maioria dos meus leitores – fiéis ou ocasionais – me lê, estarei a caminho de Chiredzi, no sudeste do Zimbabué, a menos de 50km do Parque Nacional de Gonarezhou, na fronteira com Moçambique. Sairemos de Harare pela fresca da manhã, passando por Chitungwiza, Chivu, Gutu e Zaka, numa estirada matinal de 450km. Contamos chegar ao nosso destino pela hora de almoço.

Estaremos até 3ª feira instalados no Nduna Safari Lodge, junto ao um lago onde os hipopótamos vêm escorropichar uma aguinha e fazer, eventualmente, as suas abluções. Fruto de uma prática legal que foi explorada com mestria e noção do tempo, de uma vontade indómita de dois amigos e de um furor cambial a que nunca me habituarei, pagaremos uma obscenidade de 11 ou 12 euros por dia.

Imaginam os meus queridos amigos e visitantes que pernoitaremos junto ao Hippopotamus amphibius, enquanto ele gargareja ao pôr-do-sol? Comeremos capim ao relento? Estender-nos-emos junto a uma fogueira que aquece o corpo gelado e afugenta a chita esfomeada? Desenganem-se, então. Estaremos instalados em chalets individuais (assim reza o dépliant), com direito a três-refeições-três, bar aberto, e dois safaris diários: um de manhã, para ver como o animal africano reage ao nascer do dia; o outro à tarde, para ver a fauna a recolher, enquanto a escuridão se instala.

No entretanto estaremos por ali, escutando os ruídos próprios da savana, pensando na vida, em estado de prontidão e resposta para enfrentar o animal feroz que se aproxima, desejoso, quem sabe, de carne branca. E lembraremos todos os amigos que por esse Portugal fora preparam orçamentos, enquanto nós observamos a hiena.

O preço é tão convidativo que considerei seriamente a hipótese de me quedar por ali, habituar-me à ausência de tudo, porque as comunicações com o exterior são impossíveis: não há telemóveis, rede fixa, internet. Durante três dias o mundo isola-se de mim, restando-me o rufar dos tambores para saber se Vicente Moura se demite, se recandidata ou reivindica uma condecoração por alturas do 10 de Junho.

Se quiserem ter um cheirinho do que irei encontrar, abro a ponta do véu (muito poucochinho, porque o país está, todo ele, em construção...) com este site. O resto virá depois.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A sabedoria do Raposão


Puxara de uma cadeira de baloiço

não muito baloiço, porque não gostava daquele exagero de vaivém para a frente e para trás como se estivesse num mar desgovernado

e abrira o Para Sempre do Vergílio Ferreira, naquela toada persistente e ritmada a falar na Sandra, na Xana, nas tias velhas, na mãe que numa cama do asilo tartamudeava frases que ninguém entendia. Leu uma dúzia de linhas, talvez menos, e pousou o livro no colo, os óculos no pescoço e deixou-se possuir por aquilo que estava à sua volta: o ruído ritmado do torniquete que humedecia a relva para que esta resistisse à secura persistente do ar, o aroma da terra queimada que anunciava a renovação, o cantar dos pássaros escondidos nas ramagens altas das palmeiras.

De olhos fechados, a cara esparramada ao sol morno de Agosto, sorriu uma, duas, três vezes. Aconteciam-lhe estes sorrisos quando o seu pensamento fugia numa associação que os outros nem sempre percebiam, de forma que era altura de deixar de os partilhar. Eram pensamentos aparentemente extemporâneos, desfasados do que parecia ser a realidade que se vivia naquele preciso instante, como se um cozinheiro de estrelas consagradas entrasse numa sopa dos pobres e requisitasse ingredientes exóticos - e só ele percebesse porquê.

Lembrou-se do Eça, d’ A Relíquia e do Raposão que, numa vontade enganosa de agradar à Titi,

e era preciso dizer sempre que sim à Titi

trouxera da Terra Santa madeirinhas aplainadas por S. José, orações para vésperas de lotaria e para gavetas emperradas.

Todo o homem, dizem, tem uma mente que é um aparador, minado de gavetas de cima a baixo onde se arrumam ideias, partes da vida, organizações, sentimentos, vontades, funcionamentos mecânicos, prazos de pagamento. Tudo está arrumado, ao que parece, de uma forma separada, por género, cor e feitio, para que possam ser usadas sem misturas perniciosas à boa eficiência dos actos em questão, para que os afectos não colidam com os funcionamentos mecânicos, os sentimentos com os prazos de pagamento.

Olhou para o aparador que era o seu e invejou o Raposão, malandro e bajulador que já sabia, ainda que de uma forma intuída, a importância de um bom abrir e fechar de gavetas: um movimento fluido, suave, sem esforços, sem agressividade com a peça de mobiliário que guarda tudo o que nos vai no raciocínio e na paixão, no impulso e no pensado. Raposão não era um crente fervoroso e via, no Criador, o concorrente mais directo à herança daquela que cheirava a formiga de sacristia. Mas trouxera orações, como quem pensa que na dúvida…

Também ele, com o Vergílio no colo e o cantar dos pássaros ao fundo, tinha as suas orações para gavetas emperradas, encravadas, torcidas, que provocavam esforço demasiado para fechar, como se os assuntos que lhes dissessem respeito custassem a resolver, a guardar num arquivo suspenso ou sine die, algures entre o activo e o morto.

Abriu os olhos, pegou no livro e leu a última frase do capítulo XIV: o silêncio dentro de mim. Ao seu lado, um jornal local falava no desafio da liberdade. Sorriu pela quarta vez, com a sensação de um serendipismo claro, e com nítida sensação que numa parte qualquer do seu corpo - não sabia se coração, cérebro, entranhas da alma ou vísceras que por vezes se nauseavam - uma gaveta anunciava, tenuemente mas sem empenos inultrapassáveis, que chegara a altura de começar a fechar.

Adeus, até ao meu regresso...

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Há horas felizes


Hoje de manhã recebi várias mensagens electrónicas. Algumas fazem parte das rotinas matinais, outras são informativas, outras ainda de trabalho. Recebi duas particularmente relevantes: uma mostrava uma perspectiva diferente sobre coisas que me são importantes; a outra, da JTR, dizia-me coisas que me enterneceram profundamente.

O meu coração já as sentia, mas ouvi-las de viva voz tem um sabor diferente, um impacto diferente. São palavras que nos alegram o futuro, que nos fazem olhar para a frente com a certeza de que há luzes que nunca se apagam, braços que nunca se retraem, corações que nunca se fecham. São, no fundo, faróis que iluminam o mar tormentoso, mostrando que há um caminho de regresso.

Sei que a mensagem é críptica, que só algumas pessoas perceberão o que estou a dizer. Mas, e desculpem-me a genica proprietária de que me revisto neste momento, o blogue é meu, e este post tinha de ser dirigido à JTR, por aquilo que sentimos um pelo outro. Entre mim e ela há algo de especial, como há pelo RAV, sobre quem escrevi recentemente.

Desenganem-se os que pretendem ver romances escondidos, amizades misteriosas, contactos clandestinos. Há muito, mas muito mais do que isso.

Para a JTR vai um abraço especial, cheio de um carinho infinito.

Nota: o desenho, chinês, tem um significado: dupla felicidade

Queimadas


Por Harare inteiro, sobretudo nos subúrbios, onde há vegetação, se sente o cheiro da terra queimada. Adormeço, muitas vezes com esse odor que me entra suavemente pelo quarto adentro. Traz-me à memória vaga o encanto de uma lareira, onde as chamas são sempre diferentes, onde os nossos olhos se perdem horas infindas enquanto a mente devaneia por outros lugares. É um cheiro que não me cansa, não me sufoca, se entranha mansamente nas minhas rotinas diárias.

Um dia, movido pela curiosidade que sempre entusiasma alguns ignorantes, perguntei a uma rapariga de cá o verdadeiro motivo das queimadas. Respondeu-me mencionando a renovação da terra, a necessidade de a tornar mais fértil, o carácter purificador e regenerador do fogo. No fundo, disse-me, to make a new green grass grow.

Há uma ou duas semanas troquei mensagens assertivas com pessoas de quem me sinto muito amigo. Algumas palavras tiveram contornos de dureza – não aquela que se serve de objectos de arremesso, mas a que nos faz olhar o outro nos olhos e verbalizar a franqueza, a diferença, o desacordo, a vontade de reparação, a certeza do seguir viagem. No fundo, fizemos uma queimada, porque a terra se regenerou, esfumando-se os vestígios do desalinhamento de pensamentos na cinza que a brisa levou. Cresceu uma nova green grass na maneira como nos relacionamos.

Lembrei-me então de uma toada lindíssima, chamada Whispering Grass, interpretada pela voz não menos bonita da Sandy Denny. Não consegui pôr aqui o videoclip, mas deixo o endereço, para quem quiser confiar no meu gosto e discernimento.

Why do you whisper, green grass
Why tell the trees what ain't so?
Whispering grass
The trees don't have to know
Why tell them all your secrets
Who kissed there long ago?
Whispering grass
The trees don't need to know

Não vi o filme (Orgulho e Preconceito, parece-me) que fornece as imagens à música, não conheço os actores. Gostei da sequência de cenas – olhares que se cruzam, que se perdem, mãos que se entrelaçam e se afastam, encontros e desencontros de duas pessoas entre varandas, salões, danças inacabadas, beijos interrompidos. O verdadeiro encanto das coisas está na possibilidade que nos oferece de uma visão muito única, muito nossa. E eu gostei de ver, naqueles pouco mais de quatro minutos, tantas coisas que dizem respeito à vida.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Jogo Olímpicos - a visão de uma colectividade


Os Jogos Olímpicos de Pequim estão na sua recta final. Para a delegação portuguesa, com algumas honrosas excepções, não há euforia na Portela, vislumbra-se já a curva da estrada. Estou certo de que comungaremos todos do mesmo sentimento: desilusão. Não faremos com certeza o V da vitória, mas, se o despudor nos impelir a isso, haja uma alma caridosa que pendure as medalhas alcançadas nos dedos espetados. Sobra um dedo? Mas que maçada…

Não me parece que a culpa seja dos atletas, da falta de profissionalismo, da fatalidade das provas matinais para quem gosta do quente da cama, da penúria indigente em que nos encontramos, da falta de resistência à tensão competitiva. Há um problema de base que faz ruir a visão da bandeira hasteada, a audição do hino nacional expurgado do carácter marcial e transformado numa sinfonia pastoral. O problema está na escolha das modalidades nas quais teremos representantes. Estou certo disso, e a certeza instala-se em mim com uma convicção que pode ser incomodativa.

O País não está preparado para me ouvir (não levo a mal a impreparação) mas eu faria as coisas Jogo Olímpico a Jogo Olímpico. Eu explico: as modalidades medalhadas em Pequim ganhariam o estatuto de representação em Londres. As outras seriam riscadas ferozmente do Plano Desportivo Nacional.

(Neste momento apostamos no triatlo feminino, o que se me afigura económico).

Era imperioso que duas outras modalidades tivessem o total empenho do Governo, dos Clubes, das Autarquias – afinal, os grandes responsáveis pelo nosso desaire desportivo. Quais seriam? O bilhar e o ping pong, que os intelectuais do desporto chamam ténis de mesa. Porquê estes? Porque são os verdadeiramente praticados nas colectividades, ramo da economia onde somos fortíssimos. Há por esse país fora – na sua pluralidade geográfica, incluindo os arquipélagos – um manancial de talentos que investe horas no taco ou na raqueta, procurando o melhor efeito para esmagar o oponente. É gente que não carece de grandes patrocínios ou subsídios, que entrega a camisa à Pátria em troca de uma fanta laranja ou de uma imperial bem tirada.

Damo-nos mal com o estatuto de alta competição, embora o chapéu que alguns atletas usaram no desfile de abertura não ajude à moral. Criamos uma exagerada expectativa que, como se sabe, é a mãe da desilusão. Há almoços com o presidente da república, programas nos canais generalistas, conversas com a população local. Os atletas nacionais afadigam-se num corropio entusiasmante de entrevistas, fotografias, conversas informais, dissecação das biografias, informação sobre os gostos pessoais. Enquanto isto, os outros treinam - só assim se compreende que a poderosa Mongólia, o competitivo Uzbequistão e os entusiasmantes Camarões estejam à nossa frente no ranking. A nossa liga é a dos últimos, mas sabemos que há atletas lusos que elegem o passeio e o convívio com os amigos como actividades lúdicas importantes.

Não me alongo, que tenho ali uma juventude à minha espera para um torneio solidário de bilhar. É malta local que já vislumbra o Big Ben daqui por quatro anos – assim haja vontade política de mudança. Alertam-me para algo importante: estamos habituados à simplicidade deste jogo, pelo que as três tabelas só são obrigatórias para o último ponto. Tudo o resto é singelo – bola na bola na bola com opção facultativa de tabela .

A música de Verão de 2012 será A Portuguesa. Duvidam?

terça-feira, 19 de agosto de 2008


Lady, por Richard Katanda

(estátua feita em Opal, Springstone, Serpentine ou outras pedras que me são desconhecidas)

Notas dispersas e recados


O Pedro Castelo Branco, rapaz de vinte e poucos anos, filho de amigos e primos, juntou-se a quatro amigos e deambulam pela Índia. Visitou-me ontem, via Adeus, até ao meu regresso, para me cumprimentar simpaticamente e para me dar novas do seu blogue, onde reflecte as impressões de viagem. Para quem queira saber como se passeiam, na jóia da coroa britânica, cinco matulões cheios de força e com o apetite que é próprio da idade e dos genes de cada um, visitem-nos em No país de Gandhi. Não se arrependerão, porque entre a inveja da jornada e o nojo de algumas descrições fica sempre uma gargalhada.

Num registo diferente (passe o cliché da expressão), três amigas rumaram aos Açores, no gozo legítimo de dias retemperadores que as prepararão para o sufoco da rentrée. Têm a idade que têm, uso do mesmo raciocínio para lhes descrever o apetite, mas são detentoras de uma sabedoria diferente, fruto de quem já tem muitos anos a virar frangos. Vale a pena visitá-las no Porta do Vento, onde a mestria literária da Ana V. e a beleza das fotografias nos faz olhar para alguns destinos continentais tão eleitos com uma sensação de náusea frustrante e de erro de opção.

Aos que me visitam e me deixam um ou outro comentário ao qual eu não respondo, agradeço sensibilizado. A ausência de resposta não deve ser entendida como desinteresse ou falta de simpatia. Nem sempre tenho disponibilidade tecnológica, porque a rede é lenta e a energia eléctrica escasseia . O gerador, como já referi anteriormente, precisa de descanso. Aos Anónimos, Ritz on the Rocks, Ana V., Rocha e tantos outros que me escrevem sem que leiam resposta, o meu bem haja (expressão que me parece particularmente feliz).

Última nota travestida de lugar comum. Sei de um amigo que está na Índia - por onde anda, o que come, o que visita, o que sente. Sei de amigas que estão nos Açores: as descrições são diferentes, mas o relato do seu dia-a-dia é-nos disponibilizado por igual. Falo com os meus filhos por Skype, poderia usar semelhante processo para Nova Deli, o Pico, ou mesmo Tumbuctu se as tropelias da falta de rede não inquinassem a facilidade. Mesmo assim, estamos em tempo real com o mundo que nos rodeia. Como saudosista que sou em inúmeros aspectos, sinto a falta da carta manuscrita, que fica para a posteridade com hipótese de análise grafológica. Mas esta panóplia de comunicações que está ao nosso alcance, dá muito jeito. Uma palma para a Internet!

domingo, 17 de agosto de 2008

Harare - divagações com vista sobre a cidade



Lembramo-nos da disposição com que entrámos nas cidades que conhecemos? Ir a Paris por alturas de Maio com o divórcio unilateral marcado para o início de Junho? Aterrar no Rio de Janeiro com uma conjuntivite que nos obriga a um semi-olhar? Ter uma semana inteira em Istambul e não poder adquirir nenhum bem local? Chegar a Veneza de avião e saber, à partida da Portela, que o grande canal está fechado para desintoxicação? Ganhar uma semana de férias em Benidorm - em simultâneo com as viagens de fim de curso - acompanhados da mulher da nossa vida e no momento da nossa vida? Um fim de semana em Badajoz, por alturas de Agosto, depois de nos ter sido anunciada a promoção aguardada desde o final dos anos 90? Tudo isto é uma caricatura, obviamente, mas adequa-se ao meu raciocínio: como olharíamos para estas e outras cidades afectados por um estado de espírito tão marcante? Estou certo que o belo e o horror se esbateriam, amortecidos, ambos, por um ânimo interior tão diverso mas tão forte.
Estou em Harare há 15 dias. A minha primeira impressão, como partilhei com os meus leitores, foi negativa. Globalmente feia, suja, com um ou outro pormenor bonito. A minha cabeça está formatada, seguramente, para a visão de uma cidade ocidental. O contraste não me foi favorável, confesso. E talvez tenha olhado para a capital do Zimbabué com os mesmos olhos que se admiraram com Berlim, Nova Iorque, Sevilha, o Cairo mesmo.
À medida que vou conhecendo ou reconhecendo os pormenores desta cidade vou-lhe vislumbrando sinais de algum encanto. As ruas largas e arborizadas, um renque bonito de jacarandás que florirão um dia,
Flor do jacarandá
Cai, leve no passeio
Céu d´outro mar sonhado
Chão de anilado estio
uma fiada de palmeiras que decora uma via, alguns edifícios relativamente modernos e interessantes, um pormenor de um hotel do início de século rodeado por uma parte urbana substancialmente mais limpa, um permanente bulício tão diferente daquele a que estou acostumado.
Num raciocínio um pouco simplista - e sem querer comparar o que quer que seja - imaginem que Harare é do tamanho de Lisboa, que o seu centro tem a dimensão da baixa pombalina e o resto (o que aqui se chamam os subúrbios) é completado por um restelo. É assim que vejo esta cidade.
Se conseguir retirar dos meus olhos o trompe l'oeil que me faz ver o ocidente a toda a hora e momento, os motivos de graça vão-se revelando. É imperioso, no entanto, fazer a agulha arquitectónica mental. Não existe a dimensão cultural da velha Europa, o modernismo tecnológico norte-americano, o exotismo do Oriente, a envolvente natural brasileira. Harare é uma cidade africana - tipicamente africana - e é com essa evidência que os nossos sentidos têm de percorrer a cidade. Se assim não for, talvez só lhe vejamos sujidade, decadência, as estradas largas que ligam as redondezas ao centro uma triste imagem de tráfego confuso.
Harare não é uma cidade francamente bonita. Mas é uma cidade que merece um segundo olhar.

Tengenenge



Fomos ontem a Tengenenge, uma cooperativa com mais de 200 escultores locais que produzem o que de melhor se faz na arte shona. O local situa-se entre Mvurwi e Guruve, a cerca de 150km a norte de Harare, em plena Mashonaland. A 200km, zambianos, zimbabueanos e moçambicanos estão à distância de um aperto de mão, estando todos em casa.
O caminho até lá faz-se por uma estrada secundária (portuguesmente falando) em relativo mau estado e com algum trânsito de carros ligeiros (as tais carrinhas de caixa aberta cheias de gente local), camionetas de passageiros (que seriam já obsoletas quando os aliados pisaram as praias da Normandia) e um ou outro pesado de mercadorias.
No espaço de 50 a 60km passámos por quatro ou cinco operações stop, algumas tão rudimentares que as barreiras na estrada eram compostas por bidões amolgados com um pau atravessante. Numa prova de província, seria mais um obstáculo numa barrage de cavaleiros amadores. Considerando que íamos em carro de matrícula diplomática nunca nos incomodaram, e apenas uma vez pediram os documentos.
Ao longo da estrada, dezenas, se não centenas de pessoas, apinham-se num pedido de boleia, numa venda de meias dúzias de laranja, de duas ou três couves, algumas delas carregados com malas, sacos, como se partissem de férias para uma estância de eleição. Não sei quanto tempo ali permanecerão, mas admito que possam ficar horas infindas. Talvez regressem ao ponto desmoralizador de partida, para uma nova tentativa no dia seguinte. Ou no seguinte…
A vegetação que nos acompanhou nesta centena e meia de quilómetros é variada. Capim alto à beira da estrada, árvores verdes e altas (ao longe pinheiros ou ciprestes), zonas com um cultivo ordenado e limpo, alguns pomares de laranjeiras, montanhas na linha do horizonte, mas, sobretudo, terra a perder de vista. Quem conhece África não precisa da minha descrição para saber do que falo. Quem não conhece, não será com a pobreza das minhas palavras que lá irá. Se me perguntarem o que me impressionou mais na geografia direi sem sombra de dúvida:
O espaço e a cor
O espaço e a cor
O espaço e a cor
Repito três vezes, porque não me canso de o afirmar - nem me canso de o lembrar.
A orientação por mapa é difícil, nalguns pontos quase impossível. Vale-nos a amabilidade da gente local, sempre disponível para fornecer uma indicação. Não há sinais na estrada, roubados, muitas vezes, para fazer uma fogueira ou aproveitar a chapa metálica.
Chegar a Tengenenge é chegar, talvez, a um misto de cidade fantasma (depreendi, pelas palavras, do “guia” que seríamos as segundas visitas este mês) e cemitério de esculturas. De facto, ao longo de 2 hectares, talvez, de terreno, existem centenas de estatuetas de todos os tamanhos e feitios, esculpidas, maioritariamente, em springstone (ainda não consegui descobrir o que é).
Comprei uma escultura que representa uma mulher zimbabueana, com cerca de 40cm de altura. Negociei o preço: em dólares americanos custar-me-ia 60; quando perguntei o preço em dólares do Zimbabwe, o sistema cambial é tão frenético e incompreensível, que a peça de arte me custou o equivalente a 30, cerca de 22€. Um dos mais afamados escultores do género, chamado Dominic Benhura, vende peças de arte deste género, nos mercados europeus, por 50 vezes mais.
Talvez tenha sido a minha primeira incursão à África profunda, tão pouco recordado do trajecto que fiz entre Pretória, na África do Sul, e Sun City, no então Bophutatswana.
Considerando todas as diferenças no tempo, no clima, na civilização, no povo, na geografia, percebo bem o fascínio e o desaire de quem começou um livro revelando: I had a farm in Africa...
Adeus, até ao meu regresso

sábado, 16 de agosto de 2008

Vi o "Adeus, até ao meu regresso" no meu computador!!!


Imaginem que adquirem um cocker spaniel, lhe põem o nome de B---- e se afeiçoam ao animal, tratando-o como um primo próximo que foi reencontrado na selva amazónica. Há um desajuste nos astros, um desalinhamento astronómico da vossa vida, e têm de entregar o bicho a uma família de apoio. Arranca-se-vos um braço, despedaça-se a vossa alma, revolvem-se as entranhas de cada um. Passados algumas horas, dias, meses, lustros, tudo se recompõe e o canito volta para casa. O regresso do filho pródigo seria uma história dura comparada com a vossa alegria.
Pois foi assim que eu me senti quando, no espaço de duas semanas, abandonei o meu blogue a um computador de suporte e o revi ontem, no começo de uma tarde semi-tapada pelas nuvens.
Tudo se deve à minha necessidade obsessiva, à disponibilidade permanente da Manuela Chaby, ao olhar informaticamente arguto de uma sua sobrinha, que mirou com um ar - se não íntimo, pelo menos conhecedor - para os hardwares e softwares disponíveis e, por fim, à mestria de um cavalheiro munido de uma chave de fendas (confesso que o terror se apoderou de mim), de um hub, de um cabo e de uma dose de simpatia e profissionalismo. O meu B----, perdão, o meu blogue, estava de volta a casa. Mate-se o vitelo mais gordo, pois viveu-se uma espécie de Deus cria, o Homem sonha, a obra nasce em versão zimababueana.
Tenho, finalmente, internet no meu computador, embora servida por uma banda cuja largura já nem se encontra num loja de retrós da província profunda. Mas tenho acesso ao mail, ao blogue, ao Google (que saudades, senhores). Experimentarei o Skype amanhã e o MSN é já a seguir.
Sou um homem com uma conectividade conseguida. Ontem, confesso, foi um dia de fortes emoções: um corte de cabelo com actividade paralela, o regresso ao MacBook do meu bloguinhas. Tinha de partilhar convosco.

Estou convicto que todos temos, dentro de nós, uma luta permanente entre a alegria e a tristeza, o riso e a lágrima, a euforia e a depressão. Sentimo-nos, por vezes, com o estado de espírito do peru quando começa o Advento; noutras alturas, somos uma ave canora engaiolada - destas que só subsiste em cativeiro. As mulheres preferem o sentido de humor, garante-me pessoa fidedigna. Eu faço o meu melhor - sempre pelos motivos mais nobres.

Trivialidades do dia-a-dia


Um embaixador, acima de muitos outros misteres que não carecem de uma imagem impecável, tem de tratar de minudências capilares. Não me refiro à lavagem, embora esta seja de importância igual. O que me traz hoje ao blogue é a crónica de um corte de cabelo. Faço-o, e descanso os meus potenciais leitores sobre este assunto, de acordo com o visado na historiazinha, que lerá o texto antes da sua publicação.
Eram 11.45h de ontem, quinze minutos depois da hora que o JdC tinha registado na sua agenda, quando entrámos ambos numa vivenda dos subúrbios de Harare. No que seria o hall de entrada de uma habitação normal, existia uma ou duas cadeiras frente a um espelho corrido. Numa delas sentava-se pessoa dos meus conhecimentos, que retocava a cor do cabelo numa elegância de elogiar. Nada disto seria surpreendente - vamos esquecer, para já, o pormenor do salão funcionar paredes meias com uma habitação - se a pessoa em questão não puxasse de um cigarro e o fumasse alegremente, entre escovas, pentes, e secadores que lhe alindavam o cabelo.
Perguntámos se nos era permitido repousar o corpo cinquentão na varanda. Felizmente, a única funcionária presente não acedeu, porque a cadeira existente, tristemente só numa viuvez de mobiliário, não tinha fundo onde pudéssemos assentar as nobres nádegas. Sugeriu-nos que entrássemos para a sala, onde nos esperavam três sofás confortáveis em napa negra e um plasma a encimar uma lareira, dentro da qual se colocara um cesto com ovos de avestruz, vigiados por uma fotografia da proprietária do salão, colocada esteticamente a três quartos.
45 minutos depois da hora marcada - e perante o nervoso já anunciado da coiffeuse de serviço - o senhor embaixador prestava-se a um corte de cabelo que o prepararia (ainda mais, se possível) para qualquer representação ao nível máximo. A operação - tensa e vagarosa da jovem - demoraria uma hora! Muito cabelo?, perguntarão alguns; exigências estéticas?, aludirão outros. Nada disso. Eu explico:
De dois em dois minutos tocava o telemóvel (seriam vários?), o telefone fixo, ambos numa sanfona desarmoniosa com a música ambiente tipo Shakira com uma overdose de excitantes. A menina atendia, eventualmente. A meio do telefonema, ou do aparar de um madeixa diplomática, chegava uma cliente, e ambas recolhiam aos fundos, para uma conversa mais privada; o telefone voltava a tocar, entrava mais uma cliente e lá iam para as traseiras da vivenda ajustar uma qualquer outra conversação. Às tantas - não me pareceu bem, num representante de um país milenar - o JdC aparecia, de cabelo molhado e desgrenhado, envergando um bibe em nylon verde-alface para dar um dedo de conversa, espreitando, com curiosidade tristonha, o desaire olímpico nacional.
Na televisão plasmada, o fenómeno Phelps ganhava mais uma medalha; o stars and stripes nao se ouvia, vencido pelo som da cançonetista que gritava num frenesim ritmado; as clientes entravam e saíam, faziam-me perguntas às quais não sabia responder e seguiam o seu caminho, para mais uma conversa nos quartos resguardados. O suave e cuidado cabelo do embaixador de Portugal em Harare caía em pequenos flocos intervalados, ao longo de uma hora. Dentro da lareira, onde na época fria os clientes em lista de espera se aqueceriam junto a um lume crepitante, repousava agora o cesto de ovos, vigiado, a três quartos (o pormenor não é dispiciendo), pelo retrato singelo mas tocante da dona ausente do estabelecimento.
Duas perguntas se impõem, para encerrar a croniqueta:
1) o que eram as conversações nas assoalhadas resguardadas?
2) que tal ficou a cabeleira diplomática do nosso JdC?
À primeira não posso responder. À segunda não sei.
PS: mais semana menos semana toca-me saga do corte de cabelo. Dada a minha farta e forte gaforina, estou a pensar em cativar o salão entre as 9 e as 5 - talvez a menina tenha, ainda, de fazer horas extraordinárias, assumindo que nesse dia o vai-vem de clientes para os quartos dos fundos seja reduzido.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Para a Parede 7

Que me perdoem os que me lêem e são ateus, agnósticos, budistas, hindús, muçulmanos ou outras confissões religiosas que não as cristãs, mas, sobretudo, as marianas. O dia de hoje está voltado para o beatério (e quem me conhece sabe o significado desta palavra).
Durante alguns anos tive o gosto de pertencer a um movimento católico mundial, chamado Equipas de Nossa Senhora. Não faz sentido explicar, aqui neste blogue, em que consiste este movimento. Mas faz sentido dizer, com uma enorme satisfação (pouco altruísta, diga-se...), que recebi muito mais do que dei. Fui militante numa dada altura mais complicada da minha vida e, não só as rotinas próprias da Equipa, como também, e sobretudo, as amizades que criei e / ou desenvolvi, foram garante de uma certa estabilidade no domínio da Fé.
A Parede 7 (assim se chamava a equipa) era e é um grupo extraordinário, composto por gente com vidas mais fáceis ou mais difíceis, mas com uma disponibilidade por igual. Fazem parte daqueles meus amigos que estão sempre presentes, nunca disfarçam um olhar, abrem um sorriso quando é necessário, mesmo que o seu dia-a-dia seja sofrido, custoso, ou mesmo ingrato. Acabei por sair devido a circunstâncias próprias da minha vida, mas guardo na memória todos os momentos.
Este meu post de hoje é-lhes dedicado por inteiro. Sei que alguns estarão a banhos, outros gozarão o feriado. Haja uma alma caridosa que os informe desta minha romagem de saudade.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.
Porque pôs os olhos na humildade da sua serva,
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações.
O Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem.
Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.
(Magnificat, do Evangelho de hoje)

Dia da Assunção de Nossa Senhora



Hoje é 15 de Agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, e eu não esqueço a minha condição de católico e mariano.
Neste mesmo dia, mas há 14 anos, baptizava-se no Estoril uma criança aparentemente igual a tantas outras. Há evidências fotográficas de ter rido 24 horas depois de ter nascido, talvez por ter ouvido o princípio de uns versos que lhe foram dedicados:

Na Sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu

Esteve pouco tempo connosco, vítima das leis de um mundo nem sempre perfeito. Mas quem de nós não acredita que há vidas cujo tamanho e impacto nos outros se queda para lá da finitude das horas, minutos, instantes, existências que se não reduzem a cronologias humanas?
Àqueles que a viram nascer, dela se afeiçoaram e a lembram com saudade resta a dimensão da memória e o desafio de viver o melhor possível.

E aos outros, aos que contribuem estatísticamente para o crescimento da esperança de vida, o que os move nesta caminhada terrena, quais são os seus objectivos maiores?
Alguns, filhos de uma educação e de uma época, entenderão que é o cumprimento dos seus deveres e obrigações. Outros, filhos de uma educação semelhante, mas de época diversa, acreditarão que é a busca da felicidade.
Os primeiros arriscar-se-ão, talvez, a viver uma vida árida e auto-desumanizante, assente numa tábua das leis onde se gravou uma infinitude de regras, todas elas começadas pela palavra não.
Os segundos (o que é isso de felicidade?) esquecerão, eventualmente, que a felicidade é um percurso, não é um destino, que o conceito tem uma dimensão abrangente, pois nunca se poderá ser feliz à custa de outrém.**
Aqueles que são crentes talvez possam adoptar uma meta simples - porém desafiadora: ganhar o céu. Ambicionar essa dimensão etérea engloba, no seu sentido mais nobre, o respeito pelas obrigações e a busca da felicidade. Consegui-lo é sentir o pleno nas mãos.
Fiz o mais fácil, que foi escolher o destino. Quanto ao caminho para lá chegar, nem eu sei para mim...

** Desenganem-se os que imaginam um raciocínio enviesado nesta frase. O conceito aplica-se a inúmeras situações: o que é egoísta e vive feliz nos seus hábitos exclusivos; o que é forreta e respira satisfação na sua poupança à custa dos outros; o patrão que é desumano e transborda conforto burguês com o seu ordenado.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Harare



Tinham-me dito que era uma cidade tipicamente africana, com o que as cidades tipicamente africanas têm de feio. Deste continente onde me encontro conheci Pretória e Joanesburgo (em 1981, pleno apartheid, e tenho poucas recordações) , uma cidade pequena em Marrocos de cujo nome não me lembro, e o Cairo, onde estive há cerca de ano e meio. Mas, entre a capital do Egipto e a capital do Zimbabué existe um Sahara e isso, em termos de caracterização africana, fará toda a diferença.
Vamos por partes, como diria Jack, o estripador:
Beleza: Harare não é, definitivamente (pelo menos na minha opinião) uma cidade globalmente bonita. Tem, como qualquer localidade no mundo, pormenores bonitos - um edifício, umas árvores, um enquadramento. Mas, ao deambular ontem pelo centro, não vislumbrei nada de extraordinário. E vi muita sujidade.
Arruamentos: da chancelaria (os escritórios da embaixada portuguesa) até ao centro da cidade são cerca de 15 - 20 minutos a pé. Grande parte do caminho é feito por avenidas largas, com a parte dedicada aos carros estreita q.b. e de qualidade média. Os passeios são grandes, cheios de jacarandás, num estado não muito bom, sendo metade da largura do passeio em terra batida.
Transeuntes: andei cerca de hora e meia deambulando pelo centro da capital. Não encontrei um único branco (dizem-me ser normal, pois estes não vão ao centro da cidade). As ruas estão apinhadas de gente: encostados a esquinas, a andar de um lado para o outro, enchendo estabelecimentos tipo Kentucky Fried Chicken. A população não é, na generalidade bonita, embora tenha encontrado mulheres elegantes, de feições correctas e agradáveis. Há um pormenor curioso: os apertos de mão são moles (percebe-se à distância) e as pessoas prolongam o cumprimento agitando a mão uma na outra quase como se fossem namorados. É um hábito.
Segurança: comportei-me como um turista típico: mapa na mão, máquina fotográfica em punho, a parar aqui e ali para apanhar um ângulo, observar uma loja. Nem sempre me senti seguro, e, por vezes, para consultar a planta da cidade, encostei-me a uma parede, protegendo conscientemente (e se calhar ridiculamente) a rectaguarda. Mas nunca - digo mesmo nunca - me senti verdadeiramente ameaçado. Algumas pessoas olhavam para mim - o contraste era evidente - outras ignoravam-me completamente. Não me ofereceram dinheiro a câmbios milagrosos, não me pediram nada - com excepção de um miúdo que pedia esmola a torto e a direito.
Comércio: as lojas são, na generalidade, confrangedoras. Não têm preços, devido ao ritmo cambial frenético, têm poucos artigos. A evidência mais chocante foi uma sapataria, chamada World of Shoes, que tinha redes metálicas a proteger montras amplas completamente vazias. À porta, um empregado observava o movimento do quotidiano, queixando-se, seguramente, que o negócio está fraco. Vi lojas de ferragens de vitrines decoradas com meia dúzia de alicates ou martelos que, num estabelecimento de outro país mais rico, estariam a monte num caixote de madeira. As lojas de brinquedos evidenciam artigos para crianças que em Portugal se dariam aos pobres.
Parque automóvel: quem me conhece sabe que não sou muito de ligar a automóveis: tenho dificuldade em distinguir marcas, a menção a modelos (gente que se refere ao seu carro como sendo um 3.si, ou xktl turbo) recorda-me a engenharia espacial. Não serei por isso, o informador privilegiado desta vertente de Harare. Noutros pontos da cidade vêem-se alguns bons Mercedes que são viaturas diplomáticas ou de gente do partido. Há, aqui e ali, bons jeeps, uma profusão de veículos do tipo Toyota Carina (dá para perceber?) e, acima de tudo, carrinhas de caixa aberta, onde se acomoda, como sardinhas em lata, uma quantidade imensa de gente local. As fotografias que circulam na internet podem ter sido tiradas aqui.
Nota final: sou, estatisticamente, um viajante europeu - ou pelo menos ocidental. Estes dez dias em Harare abriram-me os olhos para uma realidade que eu sabia existir mas que não conhecia de perto. Vivo num mundo diferente, decididamente, daquele a que estou habituado. Não gostaria, de forma alguma, que as descrições que aqui faço - e continuarei a fazer no futuro - fossem lidas como uma manifestação de racismo ou desprezo pelo país. Apercebo-me da crise, da instabilidade, das características próprias de um país africano que tem da democracia, das leis do mercado, da cultura, uma visão diferente da nossa. Parece-me importante esta nota final, para poder ter a liberdade de escrever, sem sentir o melindre em quem me lê.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Livros dos dias que correm

O regresso, de Bernhard Schlink

Da badana:
A viver com a mãe na Alemanha do pós-guerra, o pequeno Peter passa as férias de Verão em casa dos avós, na Suíça. Responsáveis pela edição de uma colecção de livros, os avós dão ao neto o papel usado nas provas, em cujo verso ele pode escrever mas cujas histórias está proibido de ler. Um dia, Peter desobedece e descobre o relato de um prisioneiro de guerra alemão que, após ter enfrentado inúmeros perigos para fugir aos seus captores e regressar a casa, descobre que, durante a sua ausência, a mulher constituíra uma nova família. Mas Peter já tinha usado as páginas finais para fazer os trabalhos de casa e fica sem saber como termina a aventura. Anos depois, já adulto, decide procurar as páginas desaparecidas; uma busca que se altera por completo quando descobre que o seu pai, um soldado alemão que ele sempre acreditou ter morrido na guerra, pode ainda estar vivo. Sob o encantamento da sua própria história de amor, e à medida que começa a deslindar o mistério do desaparecimento do pai, Peter vê-se obrigado a questionar a sua própria identidade e a enfrentar o facto de a realidade ser, por vezes, um reflexo das expectativas dos outros.

Do interior:
Não castigamos o assassino por este extinguir a vida de um ser humano sem o seu consentimento. Por que razão o faríamos? Castigamos a perfídia e a crueldade com a qual ele cometeu o crime, ou seja, a desilusão e a dor que ele infligiu à vítima antes de esta morrer. Então porque punimos o assassinato no seu estado mais puro? Não é por causa da vítima, mas por causa dos outros. Por causa da mulher que perdeu o marido, da criança que perdeu o pai, do amigo que perdeu o amigo. Por causa de todos os que confiavam na vítima e a perderam. Por causa da ordem do mundo, de que necessitamos e na qual confiamos; e esta implica que haja um tempo natural para viver e para morrer.

Os meus amigos

A televisão debita informação ininterrupta sobre os Jogos Olímpicos, com Portugal arredado, para já, das medalhas e de Pequim, vítima do fuso horário, de um vento aziago, do sorteio desfavorável, do nervosismo de quem não se habituou, ainda, à roda da alta competição. Há pouco, uma jovem atleta, talvez eliminada, referia ao jornalista a importância que tinha estar-se em boa forma nas olimpíadas - não como uma justificação, mas como um tesouro do seu pensamento juvenil. Pareceu-me um lugar comum, mas talvez seja azedume da minha parte...
Observo uma coreana bonita, sossegada, com um panamá branco que lhe assenta elegantemente por cima de uns olhos rasgados, na modalidade de tiro com arco. Compete com ela uma marroquina que podia ter sido um homem noutra reencarnação ou, quem sabe, na década passada. Entendo que deve haver uma dimensão estética nas coisas e, por isso, também nas vitórias. Assim, não tenho dúvidas sobre a beneficiária do meu (pouco) entusiasmo.
Estava eu nestes preparos, pensando no tema do meu blogue de amanhã (por vezes escrevo na véspera) quando me chegou uma mensagem electrónica de uma pessoa de quem sou amigo há muitos, muitos anos – o RAV. Era uma mensagem alegre, bem-disposta, de alguém que tinha visitado pela primeira vez o meu espaço cibernético e o comentava com humor, referindo-se a mim como uma pessoa de quem gosta e que muito admira. Decidi, por isso, que o meu post de hoje se iria referir aos amigos – no sentido mais amplo da palavra.
Eu sei que esta afirmação é um cliché, mas as amizades sofrem um forte crivo em momentos de crise, de aflições, de maçadas, de desgostos, de choques. Há uma espécie de onda purificadora que varre da nossa praia, numa lógica tantas vezes injusta da lei do mais presente, os amigos que não sobreviverão ao desgaste do tempo. Tive esta visão mais criteriosa numa determinada fase da minha vida, durante a qual alimentei uma espécie de preto / branco, passa / não passa, fraco / forte. Hoje, tento o desafio da tolerância, sabendo que há muitos factores por trás de certos comportamentos e que, olhando para cima, me defrontarei com os meus próprios telhados de vidro.
Tenho sido um homem fortemente privilegiado nas minhas amizades, reconhecendo que a forma como lido com quem me dá o gosto de se afirmar meu amigo nem sempre será a mais correcta. Há exageros na convivência e naquilo que lhes exijo, falto-lhes, seguramente, em momentos importantes, nem sempre tenho paciência em stock suficiente. Mas, quando preciso, olho para o lado e tenho, por vezes, o embaraço da escolha. Gente que nunca me falta, sobretudo nos momentos mais determinantes da minha vida. Gente que tem, muitas vezes, as vidas ocupadas com preocupações próprias, que já se dariam por satisfeitas se lhes aliviassem a carga.
Daqui do Zimbabué onde estou, sei que muitos se preocupam comigo à distância. Uns perguntam por mim, outros escrevem-me ou visitam o meu blogue, interessam-se pelo meu ânimo e pela minha hérnia discal, contam-me boas novas do solo pátrio. De outros não vou sabendo - porque estão de férias ou porque entendem respeitar a minha distância -, mas estou certo que me levam nos seus pensamentos. Neste misto de exílio voluntário e férias em que me encontro, é um factor de consolo e uma fonte de companhia. Um conforto, digo-lhes!
Para eles, e para os que são família, não de sangue mas de afecto, e que me abraçam como um deles, vai este post de hoje. Para o RAV, um abraço especial e forte.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Uma semana de Zimbabué



Cheguei há exactamente uma semana. Altura para algumas notas dispersas sobre sensações e impressões:
Internet: Não obstante os esforços inexcedíveis da chanceler da Embaixada, Manuela Chaby, a minha ligação ao mundo da internet continua por um fio (telefónico). Tenho os serviço mínimos, que me permitem enviar SMS via Vodafone PT, actualizar o blogue, receber e enviar correio electrónico. Carregar fotografias e comunicações pelo Skype estão, para já, arredados do mundo das realidades. Fica aqui o agradecimento renovado à Manuela - pela simpatia e disponibilidade permanentes, nestas e noutras questões logísticas / financeiras / informativas.
Meteorologia: as manhãs surgem gloriosas, sem núvens no céu e uma temperatura fresca e simpática. As tardes tendem a ficar mais quentes e rondam, neste momento, os 24ºC. Quando cai o sol fica frio, e a camisola torna-se traje (quase) obrigatório.
Trabalho: tenho o privilégio de trabalhar no alpendre com vista para a piscina e para o lindíssimo jardim da residência (fotografias já publicadas aqui). Tudo seria idílico se não fosse o ruído constante e mecânico do gerador que nos acompanha diariamente - nos últimos dias ao longo de várias horas. Quando vem a energia da rede - ou se desliga a máquina infernal para poupança do equipamento - cai um silêncio que surpreende, mas que é inspirador, apenas quebrado pelo som dos pássaros. Não há motoretas ao fundo, carros que passam, cães que ladram dos jardins vizinhos.
Redondezas: saindo da residência e voltando à esquerda, defrontamo-nos com casas semelhantes, como já referi anteriormente, amplas e espaçosas, relativamente baixas, com muros altos e redes de protecção (alguma electrificadas). Se voltarmos à direita - no caminho que nos levará ao centro, a paisagem é mais incaracterística e não tão simpática.
Bancas: em cada esquina (não estará um amigo, como cantava o Zeca) mas há um grupo de gente local, com um caixote de madeira voltado ao contrário a vender meia dúzia de tomates, algumas cenouras e laranjas. Não são bancadas grandes, não são quantidades grandes. Dá aspecto de ser uma tentativa, inglória, quiçá, de facturar uns tostões.
Estradas: a beira das estradas está povoada de zimbabueanos, parados como quem aguarda por nada, ou acenando uma mão num braço caído ao longo do tronco. O que fazem estes (que se contam às dezenas) que manifestam um movimento mínimo? Pedem boleia - porque os hábitos cá são assim.
População: a população branca, versus a preta (diz-se preta ou negra?) é inferior a 1%. Significa que, salvo alguns locais frequentados maioritariamente pela população branca, o nosso olhar cruza-se, quase sempre, com os de cá. São geralmente afáveis, simpáticos, educados e têm, ao que me foi dito, o grau de escolaridade mais elevado em toda a África.
Finanças: Desde 1 de Agosto que entrou em vigor uma nova política monetária. Assim, foram retirados 10 zeros (parece-me) a todas as notas. Reina, agora, o dólar zimbabueano revalued. Para estas coisas sou engenheiro - naquilo que os engenheiros têm de pior. Preciso de estabilidade para perceber as engrenagens. Escusado será dizer, por isso, que ainda não entendo o preço das coisas, a lógica que preside aos câmbios, o que é barato ou caro.
Feriado: Ontem foi Dia dos Heróis. O Zimbabué presta homenagem aos bravos (gallant no original) filhos e filhas da nação que tombaram para proporcionar a liberdade de que todos gozam agora.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O senhor dos anéis

As pessoas queriam contar cidades visitadas, aeroportos pisados, escalas feitas, recorde de fusos horários, continentes conhecidos, mares banhados. Queriam reduzir as viagens dele a uma contabilidade, a uma tabela com várias linhas e colunas, a um somatório de parcelas. Mas ele - sem que envolvesse na resposta uma modéstia falsa - alegava simplesmente: o meu mundo.
Havia, no seu círculo de amigos, quem juntasse coisas várias ligadas ao turismo: postais ilustrados, cinzeiros subtraídos a quartos de hotel, bases de copos em bares locais, artesanato alegórico. Ele coleccionava anéis que enfiava naturalmente nos dedos das mãos, sem critério de importância evidente ou de estética cuidada. Olhava para eles, não como uma peça de joalharia ou de cultura local, mas como o sinal evidente de uma qualquer emoção. Tinha um anel do Perú, oferta de uma criança que viajara longa e inesperadamente no seu colo, encostando uma cabeça cansada a um ombro dorido; tinha ainda outro, dado por uma estudante japonesa com quem passara uma noite vagarosa, intervalando ensinamentos sobre posições impossíveis e rituais do chá; tinha os dedos cheios de anéis, todos eles com uma história gravada no interior, que só ele conhecia, mas que o marcara de alguma forma.
Um dia, entraram-lhe em casa e roubaram-lhos todos. Sem gritos, sem violência, com uma mansidão que espantaria qualquer mortal. Quando olhou para as mãos sentiu um vazio, mas recusou liminarmente pensar que se iam os anéis mas que ficariam os dedos. Não se tratava de comparar propriedade valiosa com integridade física. Respirou fundo, olhou para as mãos e saíu para a rua, como se nada se tivesse passado. Com o polegar e o indicador ajeitou o anel da criança peruana, rodou o que tinha sido oferta da rapariga nipónica. Já não compunha aros de metal, de madeira ou de marfim, mas marcas do tempo, manchas brancas e perfeitas em dedos tisnados pelo sol e vincadas pelo trabalho manual.
Encontrei-o ontem, quando passeava no centro de Harare; tenho ideia de o ter visto a beber vodka numa esplanada de Moscovo; estou certo que me cruzei com ele a ouvir tangos em Buenos Aires; posso garantir, mesmo, que o vi a negociar tapetes no grande bazar de Istambul. Quando regressar tomarei atenção, talvez faça parte dos habituais do paredão.
Escrevo uma história que contei ontem, quando o sol se punha no silêncio de África. No fim, quem me escutou, sorriu e disse: Bonita metáfora. Mas para quê? Não corria uma aragem, mas o frio que vem diariamente com a noite já se tinha instalado. Devolvi o sorriso e respondi:
- Não é metáfora. Estou mesmo a falar de anéis.

Saudades do que não se afigura

Faz hoje uma semana que saí de casa para a minha estadia de dois meses no Zimbabué. Despedi-me da Praceta Marquesa do Cadaval, lembrando-me de que já se chamou Praceta projectada à Avenida do Lago. Em termos toponímicos, penso que não se poderia ter batido mais fundo - uma morada assim não tem inspiração, não tem homenagem, não tem futuro, não dignifica o munícipe. Em boa hora a edilidade cascaense se lembrou de substituir a projecção pela nobreza.
Não é sobre endereços, no entanto, que espraio as minhas ideias neste manhã de segunda-feira. Ontem, ao fazer uma caminhada pelas redondezas da embaixada - uma zona de casas boas servidas por uma estrada de qualidade relativamente baixa -, dei por mim a pensar na saudade do que (não) há-de vir. Pensamento singelo? Certamente. Pouco original? Sem dúvida alguma. Interessante? Questiono-me...
Achei sempre que teria saudades do que já passou: as férias em sítios que me encantaram, os tempos felizes da juventude, a sensação intoxicante das paixões, os braços dos meus filhos à volta do pescoço, a cama que lhes compunha numa ternura de protecção paternal. Olhar a saudade era olhar para trás, para aquilo que já foi.
Por uma vez na minha vida - e de uma forma brutal - fui confrontado com o sentimento da nostalgia olhando em frente: tive saudades do que não viveria, não acompanharia, não saberia como ia ser.
Estou em Harare em condições privilegiadas, com mordomias que nunca terei em casa, na companhia de um amigo a quem me ligam confidências, férias, afastamentos e reaproximações. Todas as refeições são uma surpresa; o tempo é esplêndido; adivinham-se, num futuro próximo, viagens ao sul do país - onde os gatos que miam na praceta são substituídos pelos leões que rugem no mato - e a Moçambique, onde nos abasteceremos de praia, encanto, camarão e bacalhau em proporções incertas.
Em mais do que uma ocasião estive ausente de casa uma semana - em trabalho ou lazer - e, quando era novo, muito mais do que isso. Embora, tal como disse ontem, o regresso fosse importante, tudo se passava com uma tranquilidade de alma própria da juventude que ambiciona a ausência, ou com o sossego do quarentão que volta para o conhecido. Em nenhuma ocasião, no entanto, esteve previsto estar dois meses longe. Por isso, ao contrário do que poderia pensar, esta semana foi carregada de saudades, não daqueles que não vi em sete dias, mas daqueles (consistentemente próximos) que não verei nos próximos quarenta e nove.
Estará de regresso? perguntarão alguns mais alarmados (ou mais esperançados, dependendo...) De todo! Ainda não cumpri, nem pouco mais ou menos, o que me trouxe a este país. E por isso fico, acompanhando a nostalgia, que anda de braço dado comigo, com a perspectiva da aventura, que me espreita por cima do ombro.
Porquê este post, então? Se sofresse de bronquite, tomaria um expectorante. Como tenho saudades, decido-me pela escrita.

Adeus, até ao meu regresso...

PS: olhei para o contador que revela a evolução de visitas a este blogue e reparei, num repente que me surpreendeu, que já tive mais de 1000 - não, certamente, um milhar de pesssoas diferentes, mas número igual de espreitadelas. Sinto crescer em mim um frémito juvenil que não me impede, no entanto, de agradecer a quem se aprochega para me ler. Quando chegar aos mil cento e quarenta e três (o número parece-me historicamente entusiasmante) talvez beba uma cerveja local. Sounds exciting...

domingo, 10 de agosto de 2008

Confusões aparentes


Hoje é Domingo, e não esqueço a minha condição de Católico.
Há dois ou três dias que repousa na minha mente uma frase que li no Evangelho Quotidiano:
Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?
Não sou letrado suficiente para ter a veleidade da interpretação certa desta linha que, numa leitura mais desatenta, se perderia no meio de um Evangelho.
Poderíamos falar do ser e do ter, do que é imediato e do que é duradouro, da ligeireza versus o que é consistente, da intermitência e da constância.
Talvez as expressões mundo inteiro e vida tenham significados diferentes para pessoas diferentes. Haverá quem nisso veja vantagem, sinal da pluralidade de olhares distintos sobre um mesmo assunto. Estou convicto, no entanto, de que há uma verdade única por trás desta frase, que não se compadece com visões que pretendam afastar-nos da procura da rectidão – não aquela que obedece cegamente a preceitos, mas a que nos dá a sensação de (quase) plenitude. Ganhar a vida, talvez, para a dar pelo próximo, porque só quando prescindimos das coisas é que somos verdadeiramente donos delas.
A curto prazo, este desafio de um certo percurso proporciona maçada, seriedade indesejável, trabalho, desencanto, pouca ligeireza, desfasamento em relação ao que são as modas actuais.
A curto prazo, estou certo, não será mais do que isto...

Tive a sorte de querer e poder viajar a partir dos 16 ou 17 anos. Herdei o hábito por via paterna e desenvolvi-o, fruto de bilhetes de avião grátis, sacrifícios que geravam poupanças e, posteriormente, aproveitando deslocações profissionais.
Os destinos do meu encanto eram desenhados nas revistas da especialidade, nos programas televisivos relacionados com o tema, nas conversas com amigos igualmente viajantes. Percorri muitos países, mas, em frente a um sonho, fui a todo o mundo.
Gozadas as delícias da jornada, o meu desejo enchia-se do retorno a casa, mesmo que no vôo de regresso já planeasse a próxima saída. A chave que fecha ou abre a mesma porta tem, decididamente, encanto igual. Na minha mente – ou naquilo que em mim é mais emotivo - uma viagem só fica verdadeiramente completa quando se fecha o ciclo: partir, disfrutar, regressar. Na realidade, só quero ir porque quero voltar. E na alegria da chegada está, também, a antevisão de uma nova partida.
A vida é, de certa forma, algo semelhante, em que o terminar de um momento marca o início de um outro. Talvez por isso nem sempre seja decisivo de onde se parte e para onde se regressa. É o lado luminoso da caminhada.

Duas reflexões aparentemente desconexas, independentes uma da outra. Este blogue, não sendo de culto, não tem mais pretensão do que reflectir o que me vai na alma. Mesmo que seja uma aparente confusão.

sábado, 9 de agosto de 2008

Música dos tempos que correm



Oliver "Tuku" Mtukudzi

Poesia dos tempos que correm

THE WORD IS A BIRD

Some say silence is golden
But silence is shit
’Cause words can hit
But they can heal
Liberating us from what we feel
’Cause mazwi acho akasimba
Anogona kutibatsira kwatirikuenda (1)
’Cause words are warriors
And their great gifts are glorious
But politicians wanna sell us words that are worthless
Creating a populace that’s wordless
Throwing curse upon curse on the word’s carcass
But the word is a bird and birds fly regardless
Flying above the durawalls of their so-called silence
The word still heard above their virile violence
’Cause you can bomb the word but you can’t keep it silent.

(1) Words are powerful, they can help us to move forward.

(Samm Farai Monro, mais conhecido como Comrade Fatso, Zimbabué)

Escultura (shona) dos tempos que correm



sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A residência


A residência do embaixador de Portugal é fora do centro de Harare, numa zona com casas semelhantes. A estrada que nos leva de carro à embaixada (cerca de 7 km de distância) é o equivalente a uma boa estrada secundária portuguesa, só que esta é bastante larga, ainda que de qualidade média - nalguns locais média baixa.
O quadro de pessoal - extremamente simpático, educado e prestável, é o seguinte:
Moffat, o motorista;
Vice, o criado de fora;
João (moçambicano), o cozinheiro;
Joe, engoma e limpa a casa;
David e Mike, os jardineiros.
Como poderão verificar, a minha vinda não duplicou o trabalho, reduziu para metade o tempo de ócio.


A economia dinâmica, ou perder peso versus perder peso

Cheguei na 3ª feira e, desde então, vou ouvindo informações sobre os preços das coisas: triliões que se pagam por jantares ou medicamentos, notas com dez zeros que valem vinte e cinco tostões. Alguns exemplos deste país à beira de qualquer coisa:
- 1/2 dúzia de ovos: 30.000.000.000 dolares zimbabueanos (1,5 US dolares);
- 1kg de carne: 9.000.000.000.000 dolares zimbabueanos (9 US dolares)
- 200g de manteiga: 4.000.000.000.000 dolares zimbabueanos (16 US dolares)
- Frango (ao quilo): 4.500.000.000.000 dolares zimbabueanos (5 US dolares)
- Uma professora portuguesa na Universidade de Harare ganha 50 US dolares mensais;
- Um guarda da embaixada (contratado a uma empresa) ganha 500 biliões de dolares zimbabueanos, o equivalente a 2 US dolares. Dá-lhe para comprar dois pães...
- Existem quatro tipos de câmbios:
1 - o câmbio do cash
2 - o câmbio das transferências interbancárias
3 - o câmbio dos cheques
4 - o câmbio quando se paga em moeda estrangeira
- A 11 de Julho 1 US dolar equivalia a 45 biliões de dolares zimbabueanos (45 + 9 zeros); 1 mês depois valia 280 biliões.
- O ritmo cambial a 6 de Agosto:
de manhã 1 US dol <==> 220 + 9 zeros dolares zimbabueanos;
pelas 13 horas: 250 + 9 zeros
pelas 16 horas: 280 + 9 zeros
Os preços mudam diariamente. De 3ª para 4ª feira, o custo de seis ovos duplicou.
******
Vim para Harare com o firme propósito de continuar a minha saga de perda de peso. Fá-lo-ia à custa de uma alimentação racional e de algum exercício. Como se explica a empregados locais, que vêem os seus compatriotas a morrer de fome, a viver de expedientes alimentares que repugnam a nossa sensibilidade, a subsistir numa miséria sub-humana, que não queremos comer porque desejamos emagrecer? Como se diz, a quem não tem nada: não me traga mais arroz, nem mais bifes - e evite os doces - porque estou muito gordo e tenho de reduzir a cintura...
Como se explica, a quem perde peso pela força das circunstâncias, que também queremos perdê-lo pela ditadura da estética?

(Nota: esta minha preocupação é conceptual, já que não se aplica aos funcionários da residência, pois têm um estatuto privilegiado relativamente aos seus conterrâneos).

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