quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Duas Últimas

Ando com pouco trabalho, o calor mata-me, aguardo que aceitem a minha candidatura ao doutoramento em teoria da literatura, hoje é dia de cortar a relva, o calor mata-me, a televisão não dá nada, tenho livros para ler mas ando errático, tenho telefonemas para fazer que não faço, vou andando com outras tarefas, o doutoramento é caro e eu não recupero o dinheiro, o cão dorme a paz dos justos, o meu neto chora quando devia dormir que noite é noite e há que descansar, há uma violência excessiva no mundo, somos mais informados mas não somos melhores, os chineses hão-de voltar aos hábitos maoistas com furor, o mundo está perigoso. O calor mata-me, estou certo.

Deixo-vos com Gaby Moreno, mais uma sugestão filial. Uma smart choice, numa silly season.

JdB   

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Fogo-Fátuo

Uma andorinha anuncia Setembro
ao largar um cântico cinza sobre a praça.
Em frente, o mar respiga os restos do Verão,
primeiros sinais da maré vazante
que promete já o Outono.

No jornal, leio sobre mim
ou tresleio, evidentemente,
quando os meus olhos nomeiam os mortos por vir.

Marianne morreu.
Leonard envelheceu.
A juventude adoeceu.
Do ouro, apenas o rasto.
Do resto, que sei eu?

gi, Vila Nova de Mil Fontes

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Textos dos dias que correm

A santidade dos humildes que emerge da tragédia

Correm imagens, na internet, nas páginas dos jornais, na televisão, o quadro da tragédia é observado, lucidamente, passionalmente, de cada ângulo. Acontece sempre assim, numa sociedade em que a comunicação, por vezes bisbilhoteira, superficial, insinuante, é muitas vezes manifestação de resistência, informação, apelo às consciências, poderosa quanto as forças sísmicas.

Redes sociais e meios de comunicação manifestam uma magnitude igual, e talvez superior, à dos 6,5 da Escala de Richter. Não nos restituem a vida, não fazem renascer as casas, as coisas com que vivíamos e que são fruto do labor e sede de afetos e memórias, a cama, a mesa, a cozinha, as paredes… Mas lançam-nos na realidade agónica, e portanto dolorosa e combativa, permitem-nos e sugerem-nos participação.

Neste rio de imagens e palavras, uma pergunta: de onde vem esta gente? Os sobreviventes, os que vivem agora em abrigos, os ceifados pela perda de filhos, mulheres, maridos, pais, amigos? Como fazem para conseguirem estar tão quentes e ao mesmo tempo sóbrios, estoicos, a sofrer e a controlar a dor para resistir à morte, à cegueira do sismo, à face cruel e desesperante do mistério mágico do mundo.

Depois aparece o pai de Giorgia, de quatro anos, rastreada, ela e a família, por um cão da equipa cinotécnica da polícia e resgatada pelos bombeiros, 16 horas após ter sido soterrada, na sequência de demorada escavação apenas à força das mãos. Vimo-la nos braços daquele que o jornalista corretamente define como seu socorrista, mas que nós sabemos ser seu salvador.

O seu rabo-de-cavalo depressa se torna símbolo da vida que continua. E o pai, entrevistado depois, lágrimas contidas, dor intensa e composta, agradece o destino que lhe salvou a vida da filha. Que sorte… Mas a outra, sugere timidamente a jornalista… Infelizmente a outra menina, a irmã de 10 anos encontrada sobre o corpo de Giorgia para a proteger… Não ousa continuar. Ele olha, ele e todos nós nos olhos, vemos os seus olhos como quando o divino possui um homem, um divino não antigo, um divino moderno, do pós-calvário, manso e bom antes de ser poderoso: infelizmente ela não conseguiu, responde. Como pensando que foi justo assim, em vez de uma agonia e um futuro de enfermidade.

Alguém nos protege, lá em cima. Protege os dois, aquela que milagrosamente foi salva e aquela que partiu. O vivo e o morto. Estou confundido e maravilhado pela forma como, numa tragédia e no pranto, olhando para um telejornal, repentinamente nos surge, manso e flagrante, o heroísmo e a santidade dos humildes.



A partir de texto de Roberto Mussapi
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado aqui em 26.08.2016

domingo, 28 de agosto de 2016

XXII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 14,1.7-14

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou, a um sábado,
em casa de um dos principais fariseus
para tomar uma refeição.
Todos O observavam.
Ao notar como os convidados escolhiam os primeiros lugares,
Jesus disse-lhes esta parábola:
«Quando fores convidado para um banquete nupcial,
não tomes o primeiro lugar.
Pode acontecer que tenha sido convidado
alguém mais importante que tu;
então, aquele que vos convidou a ambos, terá que te dizer:
‘Dá o lugar a este’;
e ficarás depois envergonhado,
se tiveres de ocupar o último lugar.
Por isso, quando fores convidado,
vai sentar-te no último lugar;
e quando vier aquele que te convidou, dirá:
‘Amigo, sobre mais para cima’;
ficarás então honrado aos olhos dos outros convidados.
Quem se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».
Jesus disse ainda a quem O tinha convidado:
«Quando ofereceres um almoço ou um jantar,
não convides os teus amigos nem os teus irmãos,
nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos,
não seja que eles por sua vez te convidem
e assim serás retribuído.
Mas quando ofereceres um banquete,
convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos;
e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te:
ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.

sábado, 27 de agosto de 2016

Pensamentos Impensados

Opções
Para vergonha da nossa sociedade, há pessoas que preferem estar presas, pois cá fora não têm que comer; chama-se cadeia alimentar.

Querem ser iguais
As deputadas do Bloco de Esquerda que se ponham a fancos com a igualdade de género; qualquer dia passará a dizer-se pérolas a porcas.

Para pequenos males...
Se vir um micróbio com soluços pregue-lhe um susto, dizendo que vai buscar penicilina.

Promoções
Para se chegar ao ponto cardeal é preciso passar-se por ponto bispo?

Políticas
CGTP convoca caracóis, tartarugas e cagados para marcha lenta.

Justiças
Há cerca de dois mil anos uma execução provocou uma vítima imortal.

Guinness
O corredor mais rápido do mundo é o corredor da minha casa; percorro-o em 5 segundos.

Bebidas 
O/A vodka foi inventado/a num país chamado Pielo-Russa.

SdB (I) 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Queimadas *

Por Harare inteiro, sobretudo nos subúrbios, onde há vegetação, se sente o cheiro da terra queimada. Adormeço, muitas vezes com esse odor que me entra suavemente pelo quarto adentro. Traz-me à memória vaga o encanto de uma lareira, onde as chamas são sempre diferentes, onde os nossos olhos se perdem horas infindas enquanto a mente devaneia por outros lugares. É um cheiro que não me cansa, não me sufoca, se entranha mansamente nas minhas rotinas diárias.

Um dia, movido pela curiosidade que sempre entusiasma alguns ignorantes, perguntei a uma rapariga de cá o verdadeiro motivo das queimadas. Respondeu-me mencionando a renovação da terra, a necessidade de a tornar mais fértil, o carácter purificador e regenerador do fogo. No fundo, disse-me, to make a new green grass grow.

Há uma ou duas semanas troquei mensagens assertivas com pessoas de quem me sinto muito amigo. Algumas palavras tiveram contornos de dureza – não aquela que se serve de objectos de arremesso, mas a que nos faz olhar o outro nos olhos e verbalizar a franqueza, a diferença, o desacordo, a vontade de reparação, a certeza do seguir viagem. No fundo, fizemos uma queimada, porque a terra se regenerou, esfumando-se os vestígios do desalinhamento de pensamentos na cinza que a brisa levou. Cresceu uma nova green grass na maneira como nos relacionamos.

Lembrei-me então de uma toada lindíssima, chamada Whispering Grass, interpretada pela voz não menos bonita da Sandy Denny. 



Why do you whisper, green grass
Why tell the trees what ain't so?
Whispering grass
The trees don't have to know
Why tell them all your secrets
Who kissed there long ago?
Whispering grass
The trees don't need to know

Do filme Orgulho e Preconceito, parece-me que noutro videoclip fornece as imagens à música, não gostei da sequência de uma das cenas – olhares que se cruzam, que se perdem, mãos que se entrelaçam e se afastam, encontros e desencontros de duas pessoas entre varandas, salões, danças inacabadas, beijos interrompidos. O verdadeiro encanto das coisas está na possibilidade que nos oferece de uma visão muito única, muito nossa. E eu gostei de ver, naqueles pouco mais de quatro minutos, tantas coisas que dizem respeito à vida.

JdB

* Adaptado de um post de 21 de Agosto de 2008

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Poemas dos dias que correm

insinceridade

quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

***

Escavação

Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à fôrça de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez do fogo...
- Onde existo que não existo em mim?

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bôcas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Textos dos dias que correm

O grito e o eco

«O grito solitário não tem valor, por muito amplo que seja o seu eco», escreveu José Carlos Mariátegui, escritor peruano de forte impacto social que morreu com apenas 39 anos, em 1930, em Lima.

Estas palavras tocam-me, até porque durante as férias é fácil ouvir no silêncio das montanhas um grito solitário que se espalha pelos vales, transportado pelas ondas sonoras do eco.

O autor sul-americano recorda-nos um princípio que vale um pouco para todos, e não só para os grandes da história. Se alguém retém exclusivamente para si o tesouro de inteligência e de humanidade que recebeu e o faz brilhar apenas sobre o cume isolado da sua interioridade ou de um cenáculo restrito, no fim torna-se semelhante àqueles que enterram em lugares inacessíveis um tesouro de ouro que a muitos poderia matar a fome.

O isolamento altivo e desdenhoso não é uma tentação só do intelectual, mas é também, muitas vezes, o resultado comum de muito egoísmo ou indolência e até de soberba.

Os grandes artistas, os fundadores, os santos desceram sempre do cume da sua criatividade, da torre de marfim da sua experiência, da floresta mística, para oferecer as suas obras a quem vivia no cinzentismo do dia a dia ou na miséria, fazendo assim florescer a beleza, a verdade, o amor. Ainda que pequena seja a nossa voz e o seu eco, não a enclausuremos entre quatro paredes.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado aqui em 22.08.2016

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Duas Últimas

Ouvi há dias uma interessante conferência sobre um tema deveras complexo, de difícil aceitação e por isso tantas e tantas vezes fonte de inquietação, incompreensão e revolta: “o sofrimento, um mistério que interpela o homem”.

No dizer da esclarecida conferencista, o sofrimento é a maior causa de controvérsia e de séria divisão entre crentes e não crentes. Não é de facto novidade que há nesta questão muitas perguntas de difícil, senão mesmo impossível, resposta.

Da informação passada, que foi bastante, retive a que me parece essencial:

- Que Jesus não veio acabar com o sofrimento, nem sequer explicá-lo. Ao sofrer cruelmente pelo homem, mostrou em causa própria que o mesmo tem um sentido, que pode abrir portas em nome de um bem maior.

- Que há em tudo uma fresta, uma fenda onde a luz pode entrar. Se pedirmos e deixarmos, naturalmente.

- Que o sofrimento não é desejável, mas também que o homem não deve fugir dele a qualquer preço. Se o fizer, está a fugir de si mesmo, a negar a sua própria condição.

- Que o homem sofre mais e faz sofrer muito mais os outros quando renega Deus.

Desculpem tema tão pesado em tempo de férias, mas não me apeteceu falar das estafadas causas para a falta de medalhas (ou para a abundância de diplomas) nos JO do Rio.

A superior música de Leonard Cohen que acompanha este texto fez também parte da conferência a que assisti.

Espero que apreciem.


fq

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Pensamento Impensado

Jogos olímpicos

Nos últimos 30/45 dias, as palavras mais ouvidas e lidas foram fogos/incêndios e medalhas.

Os fogos foram uma tragédia fruto da incompetência e desleixo de todos os governos, e do lóbi dos incêndios. Quanto às medalhas, não houve governante, pivô, analista, crítico, desportista, etc. que não falasse nelas, e o resultado viu-se: uma medalha de bronze. E Agora? Vão pendurar caricas ao pescoço?

A nossa representação foi digna e com bons resultados, mas a distância que vai da presença até à medalha é superior aos 42 Km da Maratona. Penso que Portugal enviou para o Rio de Janeiro a nata dos atletas, mas enquanto a nossa nata é feita com leite magro, a dos outros provém do leite gordo.

SdB (I)

Vai um gin do Peter’s?

Recordando momentos emblemáticos vividos em Cracóvia, no final de Julho, Francisco surpreendeu as centenas de milhares de jovens ali reunidos, recorrendo às características dos teenagers para descrever a misteriosa preferência de Deus pela Humanidade. Parecia estar a referir-se a um óptimo chefe de gangue, daqueles a quem não falta personalidade nem carisma. Assim, defendeu que há carradas de teimosia no amor de Deus, para frisar que nunca desiste, da mesma forma que um surfista capaz não se deixa intimidar com ondas agigantadas, nem desiludir com marés incertas ou um mar irritantemente flat. Confidenciou-lhes: «Deus conta contigo por aquilo que és, não pelo que tens ou pelo teu passado, porque é ‘obstinado’ no amor.» 

Papa Francisco | Jornada Mundial da Juventude, Cracóvia, Polónia | 28.7.2016  | © 2016 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
Mostrou como o suposto egocentrismo dos adolescentes é, afinal, uma réplica mal conseguida da ternura infinita por que ansiamos e acaba por esbarrar no limite do amor humano, até mesmo no da mãe mais atenta. Só Deus consegue corresponder ao clamor mais fundo da alma humana: «Ajudar-nos-á pensar que Ele nos ama mais do que nos amamos a nós mesmos, que crê em nós mais do que quanto acreditamos em nós mesmos, que sempre nos apoia como o mais irredutível dos nossos fãs. Aguarda-nos sempre com esperança, mesmo quando nos fechamos nas nossas tristezas e dores, remoendo continuamente as injustiças recebidas e o passado».

Depois de retratar o Pai incansável no amor por nós, era a hora de interpelar a gente nova sobre o que se esperava deles. Assim, Francisco traça o perfil do filho: «Somos os filhos amados de Deus, sempre. Compreendeis então que não se aceitar, viver descontente e pensar de modo negativo significa não reconhecer a nossa identidade mais verdadeira? É como voltar-se para o outro lado enquanto Deus quer pousar o seu olhar sobre mim, é querer apagar o sonho que Ele tem para mim.»


Nascido numa parte do globo onde a festa é rija e colorida, o Papa latino-americano explorou a génese da verdadeira alegria. Afrontou logo a típica armadilha da juventude, atraída por um modelo de felicidade frágil e falacioso. Sim, há muito sofrimento reprimido entre os mais novos, sujeitos aos imprevistos de quem está a crescer e a ter de aguentar fases chatas em que mal se reconhecem. Quantas vezes o mito da boa disposição juvenil esconde os altos e baixos de tantos que navegam ao sabor dos entusiasmos do momento. Entalados entre euforias e decepções, julgam ser os únicos a enfrentar marés-vivas psicológicas, com picos de triunfalismo e cavas abruptas de fracasso. À turbulência do crescimento soma-se uma solidão assustadora, que facilmente degenera em crise de identidade e desespero. Por isso, Francisco foi claríssimo, deixando alertas expressivos contra o perigo do desânimo: «Afeiçoar-nos à tristeza, não é digno da nossa estatura espiritual. Antes pelo contrário; é um vírus que infecta e bloqueia tudo, que fecha todas as portas, que impede de reiniciar a vida, de recomeçar. Deus, por seu lado, é obstinadamente esperançoso: acredita sempre que podemos levantar-nos e não se resigna a ver-nos apagados e sem alegria».

Como bom pedagogo, o Papa voltou ciclicamente ao principal, explicando como a parte de leão cabe a Deus, enquanto ao ser humano basta aceitar a mão que lhe é estendida, vezes sem conta, ao longo da vida: «Deus ama-nos assim como somos, e nenhum pecado, defeito ou erro Lhe fará mudar de ideia. Para Jesus – assim no-lo mostra o Evangelho –, ninguém é inferior e distante, ninguém é insignificante, mas todos somos prediletos e importantes: tu és importante»

Conhecedor dos valores na ordem do dia, Francisco usou a linguagem dos mais novos: 

- «Deus conta contigo por aquilo que és, não pelo que tens: a seus olhos, não vale mesmo nada a roupa que vestes ou o telemóvel que usas; não lhe importa se andas na moda ou não, importas-lhe tu. A seus olhos, tu vales; e o teu valor é inestimável».

- «Não vos detenhais à superfície das coisas e desconfiai das liturgias mundanas do aparecer, da maquilhagem da alma para parecer melhor. Em vez disso, instalai bem a conexão mais estável: a de um coração que vê e transmite o bem sem se cansar. E aquela alegria que gratuitamente recebestes de Deus, gratuitamente dai-a porque muitos esperam por ela».

O versículo das Bem-Aventuranças que serviu de divisa à 31ª Jornada Mundial da Juventude
- «Não tenhais medo de lhe dizer "sim" com todo o entusiasmo do coração, de lhe responder generosamente, de o seguir. Não deixeis anestesiar a alma, mas apostai no amor formoso, que requer também a renúncia, e um "não" forte ao doping do sucesso a todo o custo e à droga de pensar só em si mesmo e nas próprias comodidades».

Ciente dos desafios mais prementes da actualidade, fustigada por nacionalismos xenófobos, o Papa convidou aquela multidão mansa de jovens a reacreditar num planeta aberto à espantosa diversidade de seres humanos. Como antídoto à corrente céptica e de militância ateísta que se vai insinuando, sobretudo no Ocidente rico, propôs: «Poderão considerar-vos sonhadores, porque acreditais numa humanidade nova, que não aceita o ódio entre os povos, não vê as fronteiras dos países como barreiras e guarda as suas próprias tradições, sem egoísmos nem ressentimentos. (…) Não desanimeis! Com o vosso sorriso e os vossos braços abertos, pregais esperança e sois uma bênção para a única família humana, que aqui tão bem representais.»

«(O) olhar de Jesus, (que) não se resigna perante os fechamentos, mas procura o caminho da unidade e da comunhão (e) não se detém nas aparências, mas vê o coração, (permite) fazer crescer outra humanidade, sem esperar louvores, mas buscando o bem por si mesmo, felizes por conservar o coração limpo e lutar pacificamente pela honestidade e pela justiça.» 

Relembrou ainda um conselho simples, que considera demasiado esquecido numa sociedade avessa às soluções antigas, de provas dadas, e tenta antes inventar alternativas para se desintoxicar psíquica e espiritualmente. Falava do sacramento do perdão: «Queridos jovens, não vos envergonheis de lhe levar tudo, especialmente as fraquezas, as fadigas e os pecados na Confissão: Ele saberá surpreender-vos com o seu perdão e a sua paz. (…) A memória de Deus «não é um "disco rígido" que grava e armazena todos os nossos dados, mas um coração terno e rico em compaixão, que se alegra em eliminar definitivamente todos os nossos vestígios de mal. Tentemos, também nós agora, imitar a memória fiel de Deus e guardar o bem que recebemos nestes dias.»

Via Sacra na JMJ em Cracóvia
Na mensagem passada na homilia do último dia, focou-se no futuro, no que importa levar da experiência daquelas Jornadas inesquecíveis para a maioria. Sugeriu truques práticos e fáceis de aplicar:

 - «Lembremo-nos disto, no início de cada dia. Far-nos-á bem dizê-lo na oração, todas as manhãs: "Senhor, agradeço-vos porque me amais; fazei-me enamorar da minha vida"; não dos meus defeitos, que hão-de ser corrigidos, mas da vida, que é um grande dom: é o tempo para amar e ser amado».

- «A JMJ – poderíamos dizer – começa hoje e continua amanhã, em casa, porque é lá que Jesus te quer encontrar a partir de agora. (…) O Senhor não quer ficar apenas nesta bela cidade ou em belas recordações, mas deseja ir a tua casa, habitar a tua vida de cada dia: o estudo e os primeiros anos de trabalho, as amizades e os afectos, os projetos e os sonhos. Como lhe agrada que tudo isto seja levado a Ele na oração! Como espera que, entre todos os contactos e os "chat" de cada dia, esteja em primeiro lugar o fio de ouro da oração! Como deseja que a sua Palavra fale a cada uma das tuas jornadas, que o seu Evangelho se torne teu e seja o teu "navegador" nas estradas da vida.»

Depois de propor uma bússola para o dia-a-dia, anunciou o local das próximas Jornadas: em 2019, o Papa espera reencontrar a gente nova na capital do Panamá – aquela língua de terra entre a Colômbia e a Costa Rica, conhecida pelo célebre Canal e pejada de praias de coqueiros, areia branca e água azul turquesa transparente. Uma escolha muito apetitosa.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)




domingo, 21 de agosto de 2016

XXI Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 13,22-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus dirigia-Se para Jerusalém
e ensinava nas cidades e aldeias por onde passava.
Alguém Lhe perguntou:
«Senhor, são poucos os que se salvam?»
Ele respondeu:
«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita,
porque Eu vos digo
que muitos tentarão entrar sem o conseguir.
Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta,
vós ficareis fora e batereis à porta, dizendo:
‘Abre-nos, senhor’;
mas ele responder-vos-á: ‘Não sei donde sois’.
Então começareis a dizer:
‘Comemos e bebemos contigo
e tu ensinaste nas nossas praças’.
Mas ele responderá:
‘Repito que não sei donde sois.
Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade’.
Aí haverá choro e ranger de dentes,
quando virdes no reino de Deus
Abraão, Isaac e Jacob e todos os Profetas,
e vós a serdes postos fora.
Hão-de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul,
e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus.
Há últimos que serão dos primeiros
e primeiros que serão dos últimos».

sábado, 20 de agosto de 2016

Pensamentos Impensados

Sem decorações
Cavaco Silva, se lhe têm dado tempo, teria condecorado Miguel de Vasconcelos, Buiça, Zé do Telhado, Alves dos Reis... deixem-me respirar!

Piadas antigas
O que se segue podia muito bem ter sido dito por um político:
Mais vale um homem todavia nunca que outro sem comparação jamais; e não só porque ora essa é boa, mas a dar-se o caso que assim seja, em questões de absolutamente não há nada como realmente.

Alturas
Nalgumas empresas o CEO é o limite.

Sai uma bejeca
As conversas são como as cervejas: quanto mais frescas melhor.

Imobiliárias
A penitenciária, para efeitos de IMI, é considerada condomínio fechado.

Registos
Uma fotografia vale mais do que mil palavras; um dicionário também.

Trânsito
A4 cortada, ficaram duas A5

Pancadas
Unha negra é considerado medida de tempo.

SdB (I)


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Poemas dos dias que correm

Poeminha sobre o Trabalho

Chego sempre à hora certa,
contam comigo, não falho,
pois adoro o meu emprego:
o que detesto é o trabalho.

Millôr Fernandes, in "Pif-Paf" 


***

Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa, in 'O Grito Claro'




quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Livros dos dias que correm



"O ócio (…) não consiste em fazer nada, mas sim em fazer muitas das coisas não reconhecidas pelas formulações dogmáticas da classe dominante." (p. 11).

"Observem por momentos um desses cavalheiros atarefados, rogo-vos. Ele semeia urgência e colhe indigestões; deposita uma vasta quantidade de trabalho a render juros, e recebe em troca uma medida considerável de desarranjos nervosos. Ou se ausenta de toda e qualquer companhia, vivendo como um recluso num torreão, com os seus chinelos e o seu pesado tinteiro; ou se mistura com as pessoas com modos bruscos e amargos, todo o seu sistema nervoso tolhido por contracções, para descarregar a sua dose de mau humor antes de regressar ao trabalho. Pouco importa que trabalhe tanto ou tão bem, um indivíduo assim é uma mancha perversa nas vidas dos outros. Que seriam mais felizes com a sua morte." (pp. 27-28).

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Duas Últimas

Mais uma sugestão do meu filho, na sua playlist de Verão. Eu, pelo título, é mais saudade do Outono que tende a demorar-se, tal é o meu incómodo com o calor que me derrete energia, criatividade, decência e bons costumes. Não quero chuva, confesso, mas uma brisa fresca, uma humidadezinha, um ar menos seco e uma relva menos amarela.

Sejam felizes, ainda que cheios de calor.

JdB



Retirado do álbum "Canto" (2014)
Música: Marisa Monte
Letra: Arnaldo Antunes
Animação: Nicolau.pt

CHUVA NO MAR

Coisas transformam-se em mim,
É como chuva no mar,
Se desmancha assim em
Ondas a me atravessar,
Um corpo sopro no ar
Com um nome p’ra chamar,
É só alguém batizar,
Nome p’ra chamar de
Nuvem, vidraça, varal,
Asa, desejo, quintal,
O horizonte lá longe,
Tudo o que o olho alcançar
E o que ninguém escutar,
Te invade sem parar,
Te transforma sem ninguém notar,
Frases, vozes, cores,
Ondas, frequências, sinais,
O mundo é grande demais.
Coisas transformam-se em mim,
Por todo o mundo é assim.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

Hoje, mas há 22 anos, baptizava-se na Igreja de Santo António do Estoril uma criança que, estou certo, já nascera consagrada a Nossa Senhora.

JdB

***

Consagração a Nossa Senhora

Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia e para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser.
E porque assim sou Vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como propriedade vossa.
Lembrai-Vos que Vos pertenço, terna Mãe, Senhora Nossa.
Ah, guardai-me e defendei-me como coisa própria Vossa.


***

EVANGELHO – Lc 1, 39-56

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naqueles dias,
Maria pôs-se a caminho
e dirigiu-se apressadamente para a montanha,
em direcção a uma cidade de Judá.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
o menino exultou-lhe no seio.
Isabel ficou cheia do Espírito Santo
e exclamou em alta voz:
«Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre.
Donde me é dado
que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?
Na verdade, logo que chegou aos meus ouvidos
a voz da tua saudação,
o menino exultou de alegria no meu seio.
Bem-aventurada aquela que acreditou
no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito
da parte do Senhor».
Maria disse então:
«A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamarão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu a Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre».
Maria ficou junto de Isabel cerca de três meses
e depois regressou a sua casa.

domingo, 14 de agosto de 2016

XX Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 12,49-53

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um baptismo e estou ansioso até que ele se realize.
Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra?
Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três.
Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».


sábado, 13 de agosto de 2016

Pensamentos Impensados

Jogos olímpicos
Sugere-se a criação de uma nova modalidade que poderia chamar-se Pé na Argola ou Pata na Poça. Portugal teria as três medalhas garantidas pelas prestações de três secretários de estado.

Conselhos
Na praia proteja-se das radiações ultra-violentas.

Cores de verão
Telma Monteiro foi para o Rio de Janeiro trabalhar para o bronze.
Por cá, a malta, limita-se a ir para S. Amaro de Oeiras; quem não pódio... areia.

Trabalhos
Antes de Deus criar o Mundo, foi considerado em pré-temporada.

Puizia
Com três letrinhas apenas
Se escreve a palavra cem
Se forem notas de banco
É o melhor que a gente tem.

Tecnologias
Quando Adão e Eva sentiram necessidade de se vestirem, não sabiam se era melhor velcro ou fecho eclair.

Cavalidades
Hipoteca - Escultura de cavalo em madeira de teca.

SdB (I)


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Textos dos dias que correm

José Tolentino Mendonça lançou "Pequeno manual sobre a arte de viver" em Itália

"Liberiamo il tempo - Piccolo manuale sull'arte di vivere", que em português se poderia traduzir por "Libertemos o tempo - Pequeno manual sobre a arte de viver", é a nova proposta literária de José Tolentino Mendonça em Itália.

«Quantas vezes nos encontramos de acordo com lugares comuns como "precisaria de um dia de 48 horas". Duvido que seja exatamente isto que nos serve. A verdadeira sabedoria está em aceitar que o tempo não se pode estender» é uma das passagens da obra que a editora Emi destaca na sua página.

José Tolentino Mendonça, «escritor e teólogo de rara subtileza», lança um convite «à sabedoria que submerge na espiritualidade e na experiência», assinala a Editora Missionária Italiana que publica a obra de 64 páginas.

«Com a sabedoria do poeta e a profundidade do homem de fé, Mendonça acompanha-nos num intenso itinerário para nos reapropriarmos do nosso tempo, das nossas emoções e escolhas. Porque a arte de viver é a única tarefa que nunca se acaba de aprender», conclui a sinopse.

O volume é objeto de uma análise publicada hoje na página italiana Vatican Insider, pertença do diário La Stampa, pela jornalista Maria Teresa Pontara Pederiva, leiga, licenciada em Ciências Religiosas com tese em Bioética.



Habitar o presente para se reencontrar a si próprio
Maria Teresa Pontara Pederiva
In "Vatican Insider"

O tempo: um limite ou um recurso. Qualquer que seja a resposta, as horas, os dias e os anos são parte integrante da experiência humana, tanto que Notker Wolf, abade primaz dos Beneditinos, escrevia «o tempo é vida». A alternância do dia e da noite, o ritmo das estações articularam a existência durante séculos, delimitando o tempo do trabalho e do repouso, o tempo do homem e o de Deus.

Mas é igualmente verdade que o homem moderno deixou de ter aquele que se poderia definir como uma boa relação com o tempo. Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão fora de controlo, sempre na perseguição de metas a alcançar no mais breve tempo possível, ao ponto de que até os sentimentos se arriscam a revelar-se um desperdício de tempo. E ninguém tem hoje tempo "a perder". Vinte e quatro horas ligados, sem mais distinção entre tempo de trabalho e tempo dos afetos ou das férias, vivemos, perenemente controlados, numa espécie de "open space", privado de paredes e margens, os dias divididos pela agenda e a ansiedade de se sentir, desde o acordar, constantemente atrasado.

«Quando os acontecimentos se sucedem demasiadamente rápido, ninguém pode estar seguro de nada, absolutamente de nada, nem sequer de si próprio»: escrevia-o Milan Kundera no seu ensaio sobre a lentidão. Daqui as reflexões contidas no novo livro de José Tolentino Mendonça que, depois de nos ter guiado para uma espiritualidade do tempo presente (cf. "La mistica dell'instante. Tempo e promessa", Vita e Pensiero, Milão, 2015), oferece agora um «pequeno manual da arte de viver». Melhor.

Quem pode afirmar que nunca exclamou, suspirando, «gostaria de um dia mais longo» ou «precisaria de mais tempo»? «Duvido que seja exatamente aquilo que nos serve», afirma o teólogo português.

Porque a verdadeira sabedoria está em aceitar que o tempo não se pode estender, que é incrivelmente breve e que, precisamente por isso, deve ser vivido com equilíbrio. Mas a gestão do tempo, sobretudo hoje, num mundo que lhe perdeu o sentido, a par do de viver, é percurso totalmente a aprender. E avançando nos anos, cada vez mais difícil.

Porque o exercício de interromper um trabalho para passar ao tempo do repouso comporta uma prova de afastamento e de pobreza que nem sempre somos capazes de aceitar. O inacabado tem o rosto da vulnerabilidade, e todavia faz parte da experiência e da caducidade, humana.

Em geral estamos dispostos (e não é assim tão certo) a agradecer por aquilo que recebemos, do dom da vida ao das pessoas queridas, esquecendo a importância de quando não nos foi dado. Em vez de nutrir ressentimento e nos confrontarmos com os outros, acreditando que somos vítimas de injustiça, olhemos para o não dado como para uma oportunidade. Tudo o que temos pode desaparecer num instante, e o que fica? Nada mais do que os nossos recursos interiores.

Um exemplo? Um momento de espera surge-nos, normalmente, como um peso morto de que é preciso libertar-se rapidamente (na fila para um balcão, na paragem de autocarro ou metro). Mas esperar não é necessariamente um perder tempo: muitas vezes é o contrário porque poderia revelar-se uma ocasião para aquela reflexão que nos faltava, para uma resposta que adiámos para dar espaço ao trabalho. Quem não conhece a espera para a satisfação de um desejo, também não sabe o seu significado ou a alegria de ver despontar uma flor dias e dias após a sementeira.

E poderemos ser capazes de perdão, de perseverar nas nossas convicções morais, de partilhar a alegria e as lágrimas do próximo porque tudo nos surgirá como «arte» a aprender, na consciência não de perder tempo, mas que ele valha a pena.

Se o tempo presente representa algo a gerir, e não um tirano a quem responder, tornar-se-á experiência normal dar-se conta de que já não estamos sós, indivíduos numa selva de estranhos em competição. Empregar o próprio tempo na "com-paixão", na escuta do outro, na partilha de um momento de alegria que «irrompe na nossa vida quando aceitamos construir a existência como prática de hospitalidade» é já dizer-nos a caminho da felicidade. Não aquela efémera da publicidade ou do dia a dia, afogada no fim de contas na procura de uma visibilidade sem a qual acreditamos que não podemos existir, mas aquela humilde e duradoura que, distante da inveja para com a (presumida) fortuna do próximo, nos liga intimamente ao bem.

Prontos também para o tempo da dor e da separação, que chega para todos, ninguém excluído. Mas se preparados, nada nos poderá abater, convicto de que «à beira do fim, há sempre muito que começa».


Crítica: "Vatican Insider" 
Trad.: Rui Jorge Martins 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Poemas dos dias que correm

A Angústia

Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro,
A solene dolência dos poentes, além.

Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.

Já farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufrágio maior.

Paul Verlaine, in "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

***

Bicarbonato de Soda

Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Jogos Olímpicos - a visão de uma colectividade *



Os Jogos Olímpicos de Pequim [ver nota no fim da página] estão na sua recta final. Para a delegação portuguesa, com algumas honrosas excepções, não há euforia na Portela, vislumbra-se já a curva da estrada. Estou certo de que comungaremos todos do mesmo sentimento: desilusão. Não faremos com certeza o V da vitória, mas, se o despudor nos impelir a isso, haja uma alma caridosa que pendure as medalhas alcançadas nos dedos espetados. Sobra um dedo? Mas que maçada…

Não me parece que a culpa seja dos atletas, da falta de profissionalismo, da fatalidade das provas matinais para quem gosta do quente da cama, da penúria indigente em que nos encontramos, da falta de resistência à tensão competitiva. Há um problema de base que faz ruir a visão da bandeira hasteada, a audição do hino nacional expurgado do carácter marcial e transformado numa sinfonia pastoral. O problema está na escolha das modalidades nas quais teremos representantes. Estou certo disso, e a certeza instala-se em mim com uma convicção que pode ser incomodativa.

O País não está preparado para me ouvir (não levo a mal a impreparação) mas eu faria as coisas Jogo Olímpico a Jogo Olímpico. Eu explico: as modalidades medalhadas em Pequim ganhariam o estatuto de representação em Londres. As outras seriam riscadas ferozmente do Plano Desportivo Nacional.

(Neste momento apostamos no triatlo feminino, o que se me afigura económico).

Era imperioso que duas outras modalidades tivessem o total empenho do Governo, dos Clubes, das Autarquias – afinal, os grandes responsáveis pelo nosso desaire desportivo. Quais seriam? O bilhar e o ping pong, que os intelectuais do desporto chamam ténis de mesa. Porquê estes? Porque são os verdadeiramente praticados nas colectividades, ramo da economia onde somos fortíssimos. Há por esse país fora – na sua pluralidade geográfica, incluindo os arquipélagos – um manancial de talentos que investe horas no taco ou na raqueta, procurando o melhor efeito para esmagar o oponente. É gente que não carece de grandes patrocínios ou subsídios, que entrega a camisa à Pátria em troca de uma fanta laranja ou de uma imperial bem tirada.

Damo-nos mal com o estatuto de alta competição, embora o chapéu que alguns atletas usaram no desfile de abertura não ajude à moral. Criamos uma exagerada expectativa que, como se sabe, é a mãe da desilusão. Há almoços com o presidente da república, programas nos canais generalistas, conversas com a população local. Os atletas nacionais afadigam-se num corropio entusiasmante de entrevistas, fotografias, conversas informais, dissecação das biografias, informação sobre os gostos pessoais. Enquanto isto, os outros treinam - só assim se compreende que a poderosa Mongólia, o competitivo Uzbequistão e os entusiasmantes Camarões estejam à nossa frente no ranking. A nossa liga é a dos últimos, mas sabemos que há atletas lusos que elegem o passeio e o convívio com os amigos como actividades lúdicas importantes.

Não me alongo, que tenho ali uma juventude à minha espera para um torneio solidário de bilhar. É malta local que já vislumbra o Big Ben daqui por quatro anos – assim haja vontade política de mudança. Alertam-me para algo importante: estamos habituados à simplicidade deste jogo, pelo que as três tabelas só são obrigatórias para o último ponto. Tudo o resto é singelo – bola na bola na bola com opção facultativa de tabela .

A música de Verão de 2012 será A Portuguesa. Duvidam?

JdB

* Publicado originalmente a 20.08.2008. Será que esta visão é aplicável aos jogos olímpicos do Rio?

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Duas Últimas

Está um calor de ananases, diria o Eça (Cartas de Fradique Mendes?). 

O penúltimo casamento a que compareci como convidado deve ter sido o mais chuvoso do ano. O último casamento a que compareci como convidado, embora com um estatuto especial, deve ter sido o mais quente do ano - sábado passado. Comecei a suar pelas 15.30h, altura em que, no jardim, tirei algumas fotografias, e parei de suar 12 horas depois, quando me meti debaixo de um duche frio. Tive o secreto desejo de me abraçar até à eternidade a um aparelho de ar condicionado, mas temi ser mal interpretado.

Enfim, anseio pelo Outono com a mesma vontade com que o veado anseia pelas águas cristalinas. Não sei o que fazer com tanto calor, tanto incómodo, tanta loja de perfume e tanta pomba assassinada. Imaginar que teria de postar para amanhã foi penoso, que até o editor e dono do estabelecimento tem raivas intestinas. 

Enfim, pedi ajuda ao meu filho e nora, que me salvaram com um desvelo que comove. Deixo-vos, portanto, com Concha Buika. Se não gostarem digam, que eu indico o telefone dos responsáveis.

Sejam felizes - com menos 10ºC.

JdB


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Vai um gin do Peter’s?

O gin de hoje vem na senda da crónica deste blog Textos dos dias que correm, publicada a 29 de Julho, com o testemunho do rabino argentino sobre o silêncio do Papa em Auschwitz, lavrado no L’Osservatore Romano. Perante uma dor avassaladora, as palavras só atrapalham, de tão insuficientes que se são.

Aproveitando a ida a Cracóvia, para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), Francisco quis incluir no programa uma ida ao conhecido campo de concentração do Reich, que anos antes tinha sido visitado pelo Papa polaco (1979) ligado às vítimas e depois pelo Papa alemão (2006) da mesma nacionalidade dos guardas homicidas. 

No fim da década de 70, a homilia de S. João Paulo II na eucaristia celebrada em Auschwitz comoveu gente de todos os quadrantes, até pela autoridade de quem provinha da cidade mais próxima do campo de extermínio. Fora o local de tortura de amigos seus, uns por serem judeus, outros por pertencerem à Resistência, outros simplesmente por serem sacerdotes e freiras.  

Definiu, assim, aquele inferno na terra:  «Um lugar que foi construído sobre o ódio e sobre o desprezo do homem em nome de uma ideologia louca. Um lugar que foi construído sobre a crueldade. A ele conduz uma porta sobre a qual está colocada uma inscrição: “Arbeit Macht frei” [o trabalho liberta], que tem um som sardónico, porque o seu conteúdo era radicalmente negado por aquilo que acontecia aqui dentro. (…) Pode ainda alguém admirar-se que o papa, nascido e educado nesta terra, o papa que foi para a Sé de São Pedro da diocese em cujo território se encontra o campo de Auschwitz, tenha iniciado a sua primeira Encíclica com as palavras “Redemptor hominis” e que a tenha dedicado no conjunto à causa do homem, à dignidade do homem, às ameaças contra ele e por fim aos seus direitos inalienáveis que tão facilmente podem ser espezinhados e aniquilados pelos seus semelhantes? Basta revestir o homem com um uniforme diferente, armá-lo com todos os meios da violência, basta impor-lhe a ideologia em que os direitos do homem são submetidos às exigências do sistema (…)».

Duas décadas depois, Bento XVI, o Papa-professor quedou-se em oração por longos minutos, deixando os media desconfortáveis, até cortar o silêncio com uma pergunta que ecoou pelo mundo: «Onde estava Deus naqueles dias?»  Depois, partilhou uma das reflexões mais marcantes do seu pontificado, que se tornou numa magna oração sobre o sofrimento humano: 

«O papa João Paulo II veio aqui como filho daquele povo que, ao lado do povo judeu, teve que sofrer mais neste lugar e, em geral, durante a guerra. Hoje eu vim aqui como um filho do povo alemão, e precisamente por isto devo e posso dizer como ele: não podia deixar de vir aqui. Tinha que vir. Era e é um dever perante a verdade e o direito de quantos sofreram, um dever diante de Deus, de estar aqui como sucessor de João Paulo II e como filho do povo alemão filho daquele povo sobre o qual um grupo de criminosos alcançou o poder com promessas falsas, em nome de perspetivas de grandeza, de recuperação da honra da nação e da sua relevância, com previsões de bem-estar e também com a força do terror e da intimidação, e assim o nosso povo pôde ser usado e abusado como instrumento da sua vontade de destruição e de domínio. Sim, não podia deixar de vir aqui.

O nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo.

Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: onde estava Deus naqueles dias? Por que se silenciou Ele? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: "... Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas... por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27). Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje.»

Em vésperas da partida para as JMJ, Francisco avisou que não iria proferir qualquer alocução em Auschwitz: «Desejo ir àquele lugar de horror sem discursos, sem gente, apenas os poucos necessários (…) Sozinho, entrar, rezar (…) E que o Senhor me dê a graça de chorar.  Já em 2014, o Papa afirmara: «Neste lugar, memorial da “Shoah”, sentimos ressoar esta pergunta de Deus: “Adão, onde estás?”. Nesta pergunta está toda a dor do Pai que perdeu o filho. O Pai conhecia o risco da liberdade; sabia que o filho poderia perder-se… mas talvez nem sequer o Pai podia imaginar uma tal queda, um tal abismo. Aquele grito – “onde estás?” –, aqui, diante da tragédia incomensurável do Holocausto, ressoa como uma voz que se perde num abismo sem fundo».

No Bloco 11 do campo de extermínio, o Papa reuniu-se com onze sobreviventes, que beijou um a um. Alguns tinham mais de cem anos. O último confiou-lhe a vela onde Francisco acendeu a lâmpada que ofereceu àquele lugar de tirania. A lâmpada está cunhada com um brasão em prata dourada e tem uma base em madeira de nogueira torneada, a evocar o gradeamento levantado pelos nazis. Depois encaminhou-se para a cela onde morreu Kolbe, o franciscano polaco que dissera ao médico alemão, enquanto este lhe injetava ácido fénico para acelerar a morte: «Não entendeu nada da vida. O ódio não serve de nada, só o amor cria». Naquela cela da fome há grafitis na parede, em concreto uma cruz. Francisco demorou-se ali a rezar. 

(1894 - 1941) Sacerdote polaco, que deu a vida para salvar outro prisioneiro.

No Livro de Honra disponível numa pequena mesa de um corredor, Francisco escreveu em espanhol: «Senhor tem piedade do teu povo! Senhor, perdão por tanta crueldade!». 

Já de regresso a Roma, o Papa fez um aviso forte ao nosso tempo: a crueldade dos campos de concentração assemelha-se à que se vive hoje em várias zonas do planeta. E afirmou: «O grande silêncio da visita a Auschwitz-Birkenau foi mais eloquente do que qualquer palavra. Naquele silêncio escutei, senti a presença de todas as almas que passaram por lá; senti a compaixão, a misericórdia de Deus, que algumas almas santas souberam levar mesmo àquele abismo».

Papa Francisco | Audiência geral, Vaticano | 3.8.2016 | © 2016 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
Três Papas peregrinaram até Auschwitz para rezarem e clamarem a um Deus que, na hora de maior necessidade, emudeceu, parecendo abandonar milhares de pessoas à mercê de uma potente máquina de destruição. Mas foi naquele local de genocídio que os três sucessores de Pedro lembraram que a morte não tem a última palavra na história. As sucessivas visitas papais ajudam a comprová-lo.  

Concluo com uma nota pessoal: na minha experiência em Auschwitz-Birkenau, num mês de Janeiro, impressionou-me a face mais patente do mal que ali antevi – a mentira. Começa logo à entrada, com a pérfida camuflagem inscrita no topo do portão – Arbeit macht frei. A ideia era confundir-se com um pacato campo de trabalho. O conjunto de barracões, dispostos entre um quadriculado de arruamentos bem amplos, permanecem alinhados com uma simetria e um aprumo sumamente impiedosos. Respiram eficiência, uma eficiência cruel. Como cruel é a beleza da paisagem em redor, destoando da dor das vítimas. À parte da floresta de abetos verdejantes e altivos, insensíveis à sorte dos condenados, tudo o mais é estéril e excessivo, a começar pelas temperaturas glaciares do longo inverno. Naquelas paragens, o frio também mata. A extensa planície coberta de neve brilhante está exposta a um céu acinzentado, cor de aço. Num recanto menos visível, semi-escondidas pela inclinação do terreno, subsistem as ruínas dos fornos humanos, ladeadas por pequenos fornos onde se queimavam os documentos de identidade dos assassinados. Tratava-se de uma erradicação total, que apenas saiu furada pela vaga referência lavrada nos anais dos burocratas do Campo, incumbidos de contabilizar o ritmo diário das mortes. Teve efeito boomerang tanta eficiência. 

Apanhei-me sem palavras e sem lágrimas a percorrer um terreno onde ficou depositada uma quantidade obscena de sangue inocente. Felizmente que a água do mar partilha a natureza salgada das lágrimas humanas, pois só os oceanos podem chorar todo o sofrimento que atravessou e continua a ferir a humanidade. 

Bem sei que Verão e férias não quadram com memórias tristes, mas creio que a força dos factos se sobrepõe à época. Aliás, foi também em Agosto que sucumbiram em Auschwitz nomes grandes da cultura ocidental e da fé cristã, como Edith Stein (dia 9) ou S.Maximiliano Kolbe (dia 14). Por isso, valerá como homenagem a todos os que ali pereceram.   

(1891-1942) Filósofa alemã judia, converteu-se ao catolicismo e ingressou no Carmelo. Apesar de estar votada à clausura, as SS foram buscá-la a um convento na Holanda e deportaram-na para a Polónia. 

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

domingo, 7 de agosto de 2016

XIX Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 12,32-48

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Não temas, pequenino rebanho,
porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino.
Vendei o que possuís e dai-o em esmola.
Fazei bolsas que não envelheçam,
um tesouro inesgotável nos Céus,
onde o ladrão não chega nem a traça rói.
Porque onde estiver o vosso tesouro,
aí estará também o vosso coração.
Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas.
Sede como homens
que esperam o seu senhor voltar do casamento,
para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater.
Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar,
encontrar vigilantes.
Em verdade vos digo:
cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa
e, passando diante deles, os servirá.
Se vier à meia-noite ou de madrugada,
felizes serão se assim os encontrar.
Compreendei isto:
se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão,
não o deixaria arrombar a sua casa.
Estai vós também preparados,
porque na hora em que não pensais
virá o Filho do homem».
Disse Pedro a Jesus:
«Senhor, é para nós que dizes esta parábola,
ou também para todos os outros?»
O Senhor respondeu:
«Quem é o administrador fiel e prudente
que o senhor estabelecerá à frente da sua casa,
para dar devidamente a cada um a sua ração de trigo?
Feliz o servo a quem o senhor, ao chegar,
encontrar assim ocupado.
Em verdade vos digo
que o porá à frente de todos os seus bens.
Mas se aquele servo disser consigo mesmo:
‘o meu senhor tarda em vir’;
e começar a bater em servos e servas,
a comer, a beber e a embriagar-se,
o senhor daquele servo
chegará no dia em que menos espera
e a horas que ele não sabe;
ele o expulsará e fará que tenha a sorte dos infiéis.
O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor,
não se preparou ou não cumpriu a sua vontade,
levará muitas vergastadas.
Aquele, porém, que, sem a conhecer,
tenha feito acções que mereçam vergastadas,
levará apenas algumas.
A quem muito foi dado, muito será exigido;
a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá».

sábado, 6 de agosto de 2016

Pensamentos Impensados

Astrologia
Professor KAMANDER confirma o passado, contempla o presente e erra o futuro.
Preços especiais para deputados que só abrem a boca para bocejar ou para comer as iguarias fornecidas pelo refeitório a preços pornográficos.

Limpezas
Purga na Turquia promete dar que falar. Em Portugal bastam 30 gramas de sulfato de sódio.

Libações
Para festejar o nascimento de uma criança entornei uma garrafa de espumante e fiquei encharcado; se fosse espumante meio seco não ficava tão molhado.

Hiperactivos
Oiço na TV vender os activos: Penso que não se trata de Marcelo Rebelo de Sousa.

Retrocesso
O Mundo voltou à Idade Média (leia-se mídia).

Marcar passo
Há um aparelho para se pedalar em casa; chama-se biciquieta.

Moedas
Portugal já teve um escudo à prova de bala, mas isso foi antes do euro.

Cagalifarias 
O meu PC não tem o sinal de ponto em itálico, vá lá saber-se porquê.

SdB (I)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O senhor dos anéis *

As pessoas queriam contar cidades visitadas, aeroportos pisados, escalas feitas, recorde de fusos horários, continentes conhecidos, mares banhados. Queriam reduzir as viagens dele a uma contabilidade, a uma tabela com várias linhas e colunas, a um somatório de parcelas. Mas ele - sem que envolvesse na resposta uma modéstia falsa - alegava simplesmente: o meu mundo. 

Havia, no seu círculo de amigos, quem juntasse coisas várias ligadas ao turismo: postais ilustrados, cinzeiros subtraídos a quartos de hotel, bases de copos em bares locais, artesanato alegórico. Ele coleccionava anéis que enfiava naturalmente nos dedos das mãos, sem critério de importância evidente ou de estética cuidada. Olhava para eles, não como uma peça de joalharia ou de cultura local, mas como o sinal evidente de uma qualquer emoção. Tinha um anel do Perú, oferta de uma criança que viajara longa e inesperadamente no seu colo, encostando uma cabeça cansada a um ombro dorido; tinha ainda outro, dado por uma estudante japonesa com quem passara uma noite vagarosa, intervalando ensinamentos sobre posições impossíveis e rituais do chá; tinha os dedos cheios de anéis, todos eles com uma história gravada no interior, que só ele conhecia, mas que o marcara de alguma forma.

Um dia, entraram-lhe em casa e roubaram-lhos todos. Sem gritos, sem violência, com uma mansidão que espantaria qualquer mortal. Quando olhou para as mãos sentiu um vazio, mas recusou liminarmente pensar que se iam os anéis mas que ficariam os dedos. Não se tratava de comparar propriedade valiosa com integridade física. Respirou fundo, olhou para as mãos e saíu para a rua, como se nada se tivesse passado. Com o polegar e o indicador ajeitou o anel da criança peruana, rodou o que tinha sido oferta da rapariga nipónica. Já não compunha aros de metal, de madeira ou de marfim, mas marcas do tempo, manchas brancas e perfeitas em dedos tisnados pelo sol e vincadas pelo trabalho manual.

Encontrei-o ontem, quando passeava no centro de Harare; tenho ideia de o ter visto a beber vodka numa esplanada de Moscovo; estou certo que me cruzei com ele a ouvir tangos em Buenos Aires; posso garantir, mesmo, que o vi a negociar tapetes no grande bazar de Istambul. Quando regressar tomarei atenção, talvez faça parte dos habituais do paredão.

Escrevo uma história que contei ontem, quando o sol se punha no silêncio de África. No fim, quem me escutou, sorriu e disse: Bonita metáfora. Mas para quê? Não corria uma aragem, mas o frio que vem diariamente com a noite já se tinha instalado. Devolvi o sorriso e respondi:

- Não é metáfora. Estou mesmo a falar de anéis.

JdB

* publicado inicialmente em 11 de Agosto de 2008, poucos dias após ter chegado ao Zimbabwe

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Para o meu neto



O meu menino é d'oiro
É d'oiro o meu menino
Hei-de levá-lo ao céu
Enquanto for pequenino

Enquanto for pequenino
Tão puro como o luar
Hei-de levá-lo ao céu
Hei-de ensiná-lo a cantar

***



O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino
Não façam caso que é pequenino
O meu menino é d'oiro
D'oiro fagueiro
Hei-de levá-lo no meu veleiro.


Venham aves do céu
Pousar de mansinho
Por sobre os ombros do meu menino
Do meu menino, do meu menino
Venha comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

Quantos sonhos ligeiros
p'ra teu sossego
Menino avaro não tenhas medo
Onde fores no teu sonho
Quero ir contigo
Menino de oiro sou teu amigo

Venham altas montanhas
Ventos do mar
Que o meu menino
Nasceu p'r'amar
Venha comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

O meu menino é d'oiro
É d'oiro é de oiro fino ....

Venham altas montanhas
Ventos do mar ....

Pensamento Impensado

Jogos Olímpicos, uma treta
Conheço uma "menina" capaz de este feito extraordinário: fez com que o marido fosse pai pela primeira vez, que o seu pai fosse avô pela primeira vez e que o seu avô fosse bisavô pela primeira vez. Não brinca em serviço.
Daqui vai um abraço do tamanho da criança, pois não pode haver qualquer comparação.

SdB (I)

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Texto para o dia de hoje

Excertos do livro “O Brasileiro Perplexo”, de Rachel de Queiroz, publicado em 1964:
 A arte de ser avó 
 Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimónio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo…
Quarenta anos, quarenta e cinco… Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não a incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações – todos dizem isso embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.
Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que você recorda. (…)
(…) E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.(…)
(…) Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague...

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