segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Cartas à minha madrinha

Madrinha, adorada madrinha,

Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.

Escrevo-lhe hoje sobre fusões. Sim, querida madrinha, adivinho-lhe o ar de espanto com pinceladas de indignação

O menino está doido? Quer matar-me? Acha que me interessam essas minudências do mundo dos negócios? Sou de um tempo em que não se falava de dinheiro. Ou se tinha, ou não se tinha. Mas não era tema de conversa.

Descanse, madrinha e tome o seu chá. Esta fusão é especial, tem contornos vinícolas e abrange, em simultâneo, países e pessoas. Quando chegar ao fim dir-me-á de sua justiça.

Sabemos bem, porque vem nos livros, que numa fusão a expressão todos é algo de vago e potencialmente equívoco. Na realidade, numa operação desse género, há o nós e o eles, sendo que estes são os fracos e aqueles os fortes. Só na teoria, no imaginário fantasista, enganoso e charlatão do mais forte é que se poderão desenhar contornos de todos felizes, todos mais fortes, todos entusiasmados. Nas empresas, nas companhias, é assim que se passa. Todos se querem fundir uns com os outros, porque acreditam nas fábulas que garantem que unidos venceremos. Ora essa frase poderá não ser mais do que o nome de uma escola de samba. A verdade nua e crua é que há uns que saem fundidos pelos outros.

Pessoa sábia e diplomata, com berço em terras estranhas à nossa, garantiu que tudo isto se passou com as duas alemanhas aquando da reunificação. Em nome da língua comum, do deustschland über alles, quiseram juntar-se, crescer, dominar aquela facção de mundo que as estimula. Mas a verdade é que o oeste fundiu o leste. Segue-me madrinha?

Fui convidado para mais um wine tasting, desta vez em casa de diplomata teutónico, que oferecia aos seus convivas produtos vinícolas alemães, todos brancos (havia, naquele repasto, uma clara supremacia branca, sem que ninguém se tivesse apercebido desse pormenor) produzidos pela sua família com o amor legítimo de algumas gerações. Poupo-a, madrinha, aos pormenores do processo em si. Já sabe que começo a confundir aromas, que as minhas papilas gustativas estão de rastos, que irei pedir um transplante de nariz porque não me posso pavonear pelos salões mais nobres com um emplastro nasal claramente cirrótico e que ri em permanência dados os eflúvios aspirados em profusões obscenas.

Foi um exercício interessante mas, antes de continuar para a temática das fusões e aquisições, queria relembrar com ternura a forma como um diplomata presente, claramente comovido pelo riesling e pelo mosel, se despediu calorosamente de mim, na minha língua pátria. Apertou-me ambas as mãos, olhou-me nos olhos com a franqueza dos puros e disse-me: estamos juntos. Vim a saber que tinha estado em Angola, o que explicará muita coisa, ainda que não tudo.

O diplomata anfitrião é um homem da noite, habituado a circular pela escuridão do basfonds com mulheres elegantes – que não a sua. Tem, na infidelidade, uma visão democrática da vida, não seguindo os ditames do famigerado ku klux klan. Chega ao seu castelo, uma casa elegante em Harare com laivos de portuguesismo algarvio, e a feliz coabitação dos povos remete-se para a garagem. Em casa ele é o Oeste e ela é o Leste. Segue-me, madrinha? Ele é do lado que fundiu o outro, e, no remanso do lar, do idílio amoroso que se imagina portas adentro, não há reunificação, porque se juntam duas alemanhas que estavam separadas pelo muro.

Ela não é a ingrid que eu imaginei há algumas semanas, embrulhada de formas volumosas num palheiro com cheiro a feno. Ela é uma rapariga elegante porém frágil, bonita porém potencialmente triste. O marido é ocidental, ela cresceu a falar russo, em Leipzig. Num gesto de anfitriã cordial para com este que lhe assina a carta, conversou comigo sobre a sua música, a minha estadia, o tecto da casa que lhe lembra uma igreja, os filhos pequenos que lhe ocupam tempo e que a vedam do piano, onde tocaria Bach com um ar melancólico. Ao jantar deu-me a graça da sua direita, e conversámos sobre os caminhos do mundo, sobre o after taste, o tanino e o xisto; circulámos pela Beira, pela geografia das estradas, pelas velocidades elevadas que a assustam, pelo Índico que a fascina. Falámos de Siracusa a propósito do teorema de Pitágoras. O marido, todo ele informação vinícola e olhar de águia para a jovem esposa, não se terá apercebido de que a sensualidade é incompatível com as fórmulas matemáticas e que catetos ao quadrado não conferem erotismo ao diálogo luso – alemão. Adivinha-se o ciúme, vislumbra-se o todos ausente daquela fusão. Há o ocidente que fundiu o leste. A casa dele, no fundo, segue a tendência corporativa. E a jovem esposa, na sua fragilidade, levanta-se, circula mais um riesling, abafa uma saudade naquele seu peitinho de rola adoentada.

Despedi-me de ambos. Ele enlaçava-a pela cintura, num misto de afirmação de propriedade, talvez amor, quem sabe se preparação para mais uma noite tardia, com o cabelo que chega a casa impregnado dos cheiros locais. Ela sorriu, gentil, e vislumbrei-lhe três golpes ligeiros na arcada supraciliar. Gente portuguesa experiente, com quem almocei no dia seguinte, garantiu-me ser moda nas camadas jovens. Mas eu, madrinha, sou mais cauteloso. Adivinho violência doméstica. Na realidade, como sabe, há o nós e o eles. Numa operação financeira deste tipo há sempre alguém que é fundido.

Perdoe-me a lentidão da descrição, a exaustão do pormenor. Mas era importante, para que se enquadrasse.

Abraço-a firme, na certeza da saudade, na esperança do regresso, na comoção do reencontro.

domingo, 28 de setembro de 2008

Hoje é Domingo, mas...

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Se as prioridades estão definidas tão quanto possível na minha cabeça, o facto é que a logística das coisas nem sempre permite o alinhamento perfeito. Assim, a minha crónica domingueira normal foi sabotada por programação mais ligeira, numa dimensão de importância diferente.

Dentro de momentos a Bunny, uma enóloga elegante filha de uma Rodésia que ainda não desapareceu, virá buscar-me para mais um wine tasting envolvendo, desta vez, uma visita a uma vinha. Comecei o fim de semana com actividade semelhante na residência do número 2 da embaixada alemã (crónica a sair brevemente). Hoje mais uma...

Confesso, queridos leitores, que o meu nariz está pré-cirrótico. As minhas papilas gustativas estão num frenesi identificador de aromas. Os meus olhos estrabizam-se na demanda obsessiva das cores, das transparências. No disco rígido - de pouca capacidade, reconheço... - tudo se confunde: o shiraz com o pinotage, o riesling com o monte da ravasqueira, o mosel com o cheiro a citrinos, a África do Sul com a Alemanha, a ciência dos vinhos com a Ingrid que, ao meu lado, se ria em alemão com o teorema de Pitágoras em versão viagem à Beira.

Saio de cá um homem mais rico de cultura, de contactos amigáveis, de conhecimento do mundo. Saio, também, um enólogo, um escanção, um expert em vinhos - tudo em versão aspirada. Não li um folheto, não assisti a uma análise química. Identifico o feno e o petróleo nos vinhos, sei distintamente a que cheira o sulfito. Entrou-me toda esta sapiência pelo nariz, sairá ao menor espirro outonal.

Tenho a enóloga à espera no seu mercedes automático, metalizado, elegante, de última geração. Gostava muito de me quedar convosco nesta charla, but first things first.

Adeus, até ao meu regresso... Espera-se que sóbrio.

sábado, 27 de setembro de 2008

ABC da contagem decrescente - chego de hoje a uma semana

Pessoal da chancelaria: para além da Manuela Chaby, já referida, merecem um destaque especial as duas outras colaboradoras da chancelaria: a Bela e a Cristina. Foram sempre de uma extrema amabilidade comigo, resolvendo problemas de voos ou de viagens com um sorriso e uma disponibilidade que me apraz registar. Last, but no the least, uma palavra para o Carlos Antunes, nº 2 da embaixada e que larga o lugar no dia em que sai este post. O Carlos foi um excelente companheiro de noitadas - no karaoke, na boite congolesa, no night-club Monaco e é um manancial de informação sobre Harare by night.

Pessoal da residência: é da mais elementar justiça destacar também o Vice e o Joe, o cozinheiro João - responsável por tantas iguarias -, o motorista Moffat e o jardineiro David. Levo comigo a educação e a simpatia, para além de outras mordomias de que fui beneficiário.

Portugueses - encontrei aqui meia dúzia de portugueses que me fizeram o gosto de convidar para as suas casas, me levaram a fazer bons negócios, me honraram com a sua simpatia. É uma gente despretensiosa que nos recebe como se fossemos convidados antigos, que se nos dirige sem a formalidade do senhor. Fica a referência à Teresa Chaby (que me oferece favas exactamente hoje) e à sua filha, que abriu portas para a resolução do meu computador e com quem cantei um dueto de karaoke; ao Alberto Correia Mendes e à Ana, que nos brindaram com um almoço tipicamente português e assassino de dietas ajuizadas; ao Toni Simões e à Sílvia, donos do Coimbra, um dos mais afamados restaurantes da capital e onde quererei ir antes de partir. Foi também com o Toni que fiz um bom negócio de esculturas shona, que não mostro porque embarcam hoje mesmo no vapor da madrugada.

Potencialidades. Não sou um visionário, não tenho jeito para o negócio. Mas, estou certo disso, o Zimbabué é um país cheio de potencialidades. Uma terra fértil, com água, uma possibilidade de turismo fora de série, um povo afável, uma capital das mais bonitas de África, segurança que não se compara com outros países vizinhos, uma memória da antiga Rodésia que muitos não querem perder. Tudo está suspenso por questões políticas. Talvez a pacificação abra portas ao investimento, ao desenvolvimento, ao bem-estar da população, à actividade económica.

Quando. É uma boa palavra para tantas interrogações. Quando toma posse o novo governo? Quando começam as novas reformas? Quando é que Robert Mugabe desaparece do cenário político? Quando é que as pessoas começam a ver a luz ao fundo do túnel? Quando é que a inflação desce dos 3500% ao mês? Quando é que há bens de primeira necessidade nos supermercados? Muita gente faz estas perguntas entre conversas, copos de cerveja, jantares animados, refeições difíceis e escassas. A resposta é mais ou menos consensual...

Recepções – Fruto da minha estadia na embaixada, tenho sido convidado para algumas recepções ou jantares mais ou menos diplomáticos. O JdC tem sido criteriosamente perfeito naqueles em que acha que a minha presença faz sentido e naqueles em que acha que não. Algumas pessoas têm sido insistentes na minha presença, o que me honra. Hoje teremos uma festa de aniversário surpresa para a qual também fui invitado. O convite, na forma impressa em papel de qualidade, referia o senhor embaixador de Portugal e madame

Regresso - Quando volta cá?, é uma pergunta que me fazem de quando em quando. A razão diz-me que deveria regressar dentro de três anos, a tempo de apanhar o actual embaixador e usufruir da hospitalidade, a tempo, também, de ver as eventuais mudanças que se produziram nesse país. África é um continente perfeitamente deslumbrante. Ainda na semana passada conheci uma rapariga brasileira que está cá de férias há mais de um ano, e que passou os últimos três meses a viajar sozinha por países vizinhos. Conto ter um texto dela em próximos posts. Hei-de regressar, se Deus quiser e as condições se ajeitarem.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Missa local na Beira





Hoje não é Domingo, mas eu não quero esquecer a minha condição de católico.

Passámos o último fim-de-semana na Beira, e quisemos ir à Missa. Indagámos horas e locais e foi-nos dito, com o espanto de quem vê ignorância injustificada à sua frente, que a cerimónia se realizaria - pois está claro - no Clube de Golfe local, pelas 9 horas da manhã. À hora marcada lá estavamos, tendo realizado o porquê da missa campal: celebravam-se os 20 anos da visita de João Paulo II a Moçambique, em plena guerra civil.

Quem esteve em África, ou passou, mesmo em Portugal, por comunidades africanas, sabe o que é a missa deles: música alegre e ritmada ao som (também) de batuques, danças, cor, despretensão, fé. Já tinha assistido em Harare a uma missa celebrada em shona, o dialecto local maioritário, e apercebi-me disso mesmo, ainda que a cerimónia tivesse tido lugar dentro de uma igreja.

Aqui na Beira, debaixo de umas núvens que nos protegeriam de um sol potencialmente incomodativo, um coro de afinação irrepreensível entoava músicas no dialecto local, fáceis de interiorizar ao fim de alguns segundos - ainda que não percebessemos as palavras, apenas o sentido - agitando-se levemente numa simultaneidade sem desvios.

À frente dos fiéis, um corpo de baile composto por raparigas e senhoras (talvez fossem solteiras e casadas...), com panos tendo imagens alusivas à presença do Papa, ensaiava uma coregrafia perfeita, leve, elegante. Por alturas do Ofertório constituíram ainda um cortejo que levou bens de natureza vária ao altar, situado numa pequena elevação.

Compromissos inadiáveis obrigaram-nos a sair a meio da cerimónia que já ia longa, sobretudo devido à homilia lenta e demorada que se estendeu por mais de 45 minutos. Se todos aqueles que falam para público de qualquer género tivessem um dipositivo indicador do nível de atenção de quem os ouve, talvez algumas coisas fossem mais rápidas.

Saímos do recinto, e eu ainda olhei para trás, para um último relance daquela cerimónia tão invulgar para mim. Um grupo de quatro amigos, semi-isolados da multidão, dançavam alegremente ao som de uma das músicas, enquanto as senhoras se dirigiam ao altar. Ligeiramente ao lado, uma rapaz novo agita-se com um frenesi que acharíamos estranho numa eucaristia.

As missas em Harare - sejam em shona, sejam em inglês - demoram mais de uma hora. Em Portugal, se ultrapassarem os 45 - 50 minutos há comentários menos agradados: homilías arrastadas, coros lentos... Ali já íamos nas duas horas e ninguém saiu. Só nós. Culturas...

ABC da contagem decrescente - faltam 10 dias

Libertação – Há, no exercício da humildade, na eliminação de toxinas nocivas ao nosso relacionamento equilibrado com os outros e na paz de espírito que estabelecemos com o nosso mundo uma dimensão de enorme libertação. Cada um terá o seu método e nenhum é melhor do que o outro – todos são bons desde que conduzam ao fim esperado e não pisem ninguém. Atingir este estado de sossego, de um enfrentar calmo das quezílias que permite desvalorizar algumas coisas também é, para os crentes como eu, dar os primeiros passos na estada que nos levará ao Céu. Depois ainda falta tudo…

Longe – os africanistas já o sabem: aqui parece não haver longe nem distância. Sete horas de carro para ir à Beira – e sete horas que não são de auto-estrada – não parecem ser muito, faz-se num instante. Fazer 1200 km para ir a outro lugar pode ser mais complicado, mas não é nada em que não se possa pensar.

Luz – Desaparece quando menos se espera, quando se está a trabalhar ou a usar a internet, quando se assiste a notícias fascinantes e aditivas da realidade que se vive em Portugal. Aqueles três segundos entre o desaparecimento da rede e o surgimento do gerador são terríveis, obrigam a reiniciar o computador, a televisão. Nada de dramático, mas não estamos habituados a isto na Europa rica e obesa…

Manuela Chaby – um nome recorrente neste blogue, mas não podia ser de outra forma. Profissionalmente haverá quem lhe reconheça a competência. Eu agradeço a disponibilidade permanente, a boa vontade enfeitada com um sorriso, o conhecimento de Harare posto à disposição do que eu precisava, desde o computador à camisola, passando pelos câmbios, pela marcação do corte de cabelo, pela busca de souvenirs, pela excelente companhia em almoços ou jantares de confraternização. Parece haver uma fonte inesgotável de amabilidade e prontidão de resposta.

Mar – estarei dois meses sem ver o mar que me é familiar. Estive no lago Kariba que pela sua dimensão (80 por 120 km) dá a sensação de ser oceano, e tomei banho na Beira, no Índico. Mas não chega – falta-me a visão da Baía de Cascais, o paredão com as caras habituais, a ronca do nevoeiro, o cheiro a maresia, a rotina das marés. Respiro, em Harare, um ar que será bom, até porque a ausência de actividade económica não polui o ambiente. Mas dava-me jeito ver o Atlântico… Talvez dia 6 de Outubro, bem de madrugada.

Mugabe – Camarada Robert Mugabe, o líder deste país à beira da falência. Provavelmente já falido (não ele, o país).

Nada – o produto mais disponível em Harare, no Zimbabué inteiro. Podemos ir a inúmeras lojas, estabelecimentos comerciais de vários tipos. Se perguntarmos o que existe, somos confrontados com a resposta: nada! Perguntar-me-ão como vivem as pessoas com ordenados de 1 dólar americano, com preços elevados, com regras absurdas de limites de levantamento de dinheiro. Os zimbabueanos desenvolveram a técnica do expediente (já o Camões falava na necessidade que aguça o engenho). Têm um expediente para subsistir à falta de comida, de dinheiro, de matéria-prima para alimentar os restaurantes. Tudo se vai conseguindo de uma forma pacífica – e expedita.

Ngomakurira – a montanha sagrada nos arrabaldes de Harare. A visão do pôr-do-sol que aqui retratei (não, não é uma nódoa na imagem…) perdurará no meu pensamento durante muito tempo. Foi um dia cheio de sortilégios: a paz interior que me invadiu ao ser confrontado com toda aquela imensidão, o encanto de uma actividade física estimulante (eu que sou pouco dado a ginásticas), o cruzar-me com uma pessoa que me abriu a porta da ala das crianças com cancro, a descida numa noite escura de lua nova tendo como companhia os meus próprios pensamentos.

Once you taste chocolate you won’t have vanilla anymore.
Once you go black you never come back.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Poemas dos dias que correm


Caminante no hay camino


Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.

Nunca perseguí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse...

Nunca perseguí la gloria.

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar...

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar:
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse, le vieron llorar.
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.


(Antonio Machado, 1875 - 1939)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Ir à Beira e voltar

Eram 6 da manhã quando nos atirámos à estrada para a Beira. A vegetação para aquelas bandas do Zimbabué continua a ser deslumbrante, embora já com alguma elevação - são as montanhas do Vuma! Mas o encanto mantém-se: as cores secas, a desorganização esplêndida, a imensidão do olhar.
A passagem da fronteira para Moçambique não é muito diferente de exercício semelhante para a Zâmbia, cruzada há algumas semanas: confusão, filas intermináveis, o exercício de privilégios, o preenchimento de impressos desnecessários (à entrada do Zimbabué, no regresso, fui registado como João Maria, Portugal), a desorganização da divisão de tarefas, a entrega de 25 dólares americanos para o visto, a devolução do troco em meticais que não chegaram para o que seria correcto. Ficou o sorriso do funcionário da alfândega aberto numa barba por fazer e numa boina semi-militar escarranchada no alto da cabeça.
Passamos a fronteira e mudamos de país, no sentido mais amplo do termo: a língua é diferente, a vegetação é diferente, a natureza oferece-se de forma diversa. Por mais bonito que seja o campo moçambicano, nada se compara, para já, ao do Zimbabué. Enquanto do lado de cá viajamos quilómetros sem ver vivalma, do lado de lá há uma sucessão permanente de aglomerados de cubatas e um corrupio ininterrupto de pessoas na beira da estrada, como se se deslocassem em peregrinação a um local qualquer. Em Moçambique vê-se ainda agitação económica, o que é hoje uma raridade no país de Mugabe.

Descrever a Beira talvez seja falar – por mais disparatado que isto possa parecer – no que imagino ter sido a cidade antes da independência. Agora é uma metrópole suja, mal conservada, estragada, mostrando a face visível do que são as consequências de uma guerra civil prolongada e as quezílias partidárias levada ao extremo.
Imagino a Beira de há 34 anos, sem que esta descrição tenha o que quer que seja de um saudosismo colonialista, já que é a primeira vez que visito este país.
Talvez o comércio fervilhasse, talvez a zona do Macuti (que garantem locais e estrangeiros ser a mais bonita da cidade) estivesse pejada de gente passeando ao calor da noite, comentando os dias que passavam, sentando-se numa esplanada a comer camarões, a beber cerveja, a rir e a gozar uma vida diferente, um clima diferente. Imagino as crianças na praia banhada pelo Índico – nalguns casos a dez passos de suas casas – a correrem inocentes atrás dos caranguejos, num cansaço que não vinha, mesmo depois das aulas de natação no Clube Náutico.
Agora já nada disso existe. As casas de algumas famílias felizes que por lá passaram deram lugar a orfanatos de crianças com futuros improváveis, a terra batida que separa as vivendas do areal parece um trilho do mato, as árvores que debruam a praia do Náutico afiançam-me estar quase secas, o tecido habitacional da cidade carece de uma operação plástica urgente – ainda que não profunda.


Fica, como manifestação saudável de uma lusitanidade orgulhosa, a satisfação de perceber que é o portugês que se fala para que as pessoas se entendam entre si. Em todo o lugar se ouve a língua pátria - nos cafés, nas compras de rua, no barco para atravessar o Savane, na missa de ontem que comemorava os 20 anos da visita de João Paulo II.

Cumprindo um dos objectivos que cá nos trazia, partimos na demanda do bacalhau, do camarão e do caranguejo. Guiados pelos olhos de quem sabe os recantos onde o negócio é vantajoso, fomos sempre bem servidos, com simpatia e educação.
Retenho e partilho com os meus fiéis leitores a compra de 20 kg de caranguejo ao preço obsceno de 1 dólar americano o quilo, e que foi ensacado vivo à nossa frente. Como as patas se agitassem num frenesim de sobrevivência e fossem provocar danos na integridade da ráfia, foram partidas e arrancadas sem dó nem piedade, sem que os animais deixassem de se mexer num estertor de morte próxima.



Estar na Beira um fim-de-semana, como eu estive, com o Cônsul de Portugal, José Menezes Rosa, e a mulher, Cristina, não é estar acompanhado de quem conhece os cantos à casa, de quem oferece uns caranguejos de entrada que nos levam ao olimpo, sabe do melhor restaurante (o Solange, diga-se a propósito, onde comi um magnífico peixe papagaio), identifica as rotundas e dá informação privilegiada sobre a geografia política da região. Estar com ambos é estar com a simpatia, a educação, a disponibilidade, a conversa fácil, os temas de que se compõe o quotidiano de cada um. Estar com ambos é estar em casa longe de casa – e isso merece um agradecimento especial.

Foram eles que nos levaram à praia do Savane, assim chamada (presumo eu…) por ficar junto ao rio que tem o mesmo nome. O carro fica numa das margens e uma embarcação semelhante a uma chata leva-nos à outra. Ali, cruzado um aldeamento com restaurantes e parques e algum equipamento de pernoita, enfrentamos o Índico e a praia que por ele é banhada. Um areal a perder de vista, quilómetros infindos de uma areia branca e limpa, sem ninguém. Durante muito tempo fomos os únicos utentes da praia, com excepção de uma comunidade de pescadores a cerca de dois quilómetros. Para o outro lado, o vazio humano. O mar esperava por nós – agitado, com ondulação variada mas segura, com uma temperatura de cerca de 26ºC, segundo a nossa sensibilidade, ideal para banhos prolongados, o corpo todo imerso na água, as conversas demoradas e interrompidas apenas por uma onda mais alta.


O regresso a Harare fez-se ontem de manhã. Parámos no Chimoio, antiga Vila Pery onde, segundo amiga minha que por lá passou há muitos, muitos anos, se comia o melhor gelado do mundo. Não tendo encontrado tal estabelecimento, quedámo-nos pelo Restaurante Concorde para almoçar, tendo sido travado o seguinte diálogo com o empregado:
- Posso comer a sopa de legumes?
- Eh, eh, eh. Isso é que não. Já não tem sopa, não tem nada…
- E como é o bife à Concorde?
- Eh, eh, eh, o bife à Concorde… Pois o bife à Concorde…
- E traz ovo?
- Eh, eh, eh. Há-de trazer, pois há-de trazer…
- Então trago-o bem passado, se faz favor…

Se passarem no Chimoio, optem pelo gelado de morango, é o que eu lhes digo.

domingo, 21 de setembro de 2008

Hoje é Domingo

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico...

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meio da manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’.
E eles foram.Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:
‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’
Eles responderam-lhe:
‘Ninguém nos contratou’.
Ele disse-lhes:
‘Ide vós também para a minha vinha’.
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:
'Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’.
Mas o proprietário respondeu a um deles:
‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho.Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que eu quero do que é meu?Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?
’Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».

Não tenho sabedoria para comentar qualquer evangelho que seja, e há textos que não carecem de palavras adicionais, que são auto-explicativos. Ler estas linhas é interiorizar a necessidade da humildade, de não me achar mais do que ninguém por causa daquilo que faço. O caminho da justiça e da rectidão não é, com toda a certeza, um caminho de negociação em que a recompensa tem de ser proporcional ao esforço. Nos dias de hoje, perceber-se isto é um desafio.

sábado, 20 de setembro de 2008

Fui-me embora, estou na Beira

À hora em que me lerem os que resistem ao passar dos dias estarei na Beira, em Moçambique. Na realidade, já parti ontem, 6ª feira, de madrugada, como o vapor.

Redijo este post na 5ª feira, alimentado por um pensamento antecipado. Há quem me leia alegremente, curioso, preocupado, desinteressado de uma actividade que só é boa quando a alternativa não é melhor. O Outono, ao que sei, instala-se para satisfação de uns e desespero de outros.

Eu, queridos amigos e / ou leitores, devo estar a banhos no Índico, oceano que nunca pisei (vale a liberdade criativa). A bem dizer, também só me banhei no Atlântico, mas isso é um pormenor de somenos importância.

É isso, no fundo: praia, caranguejo para o jantar, a visão de uma cidade pujante que se destruiu devido a desentendimentos da democracia moçambicana.

Tenho-os a todos no pensamento mas, se não se importam, vou ali dar um mergulho e já volto.

Desafios

Há alguns tempos publiquei um post, exactamente com este título, no qual desafiava os meus queridos leitores a publicarem aqui, no Adeus... um texto sobre África. Pensava, sobretudo, nos que por cá passaram, mas também naqueles que têm uma visão sobre o que é este continente.

Recebi duas contribuições (DaLheGas e Xiu - este último com um quadro) que muito honraram e abrilhantaram o meu blogue.

O desafio mantém-se. Os potenciais interessados que avancem ao reconhecimento, sans peur et sans reproche.

Este blogue é um albergue espanhol: são todos benvindos desde que tragam farnel.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Cartas à minha Madrinha

Minha querida madrinha,

Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.
Hesitei muito em escrever-lhe esta carta. Não é falta de conteúdo, é preocupação pela minha segurança e dos que me estão próximos. Harare é uma cidade que dizem ser segura – não tenho razão de queixa, note-se, mas há muitos candeeiros tombados, buracos na estrada, acácias floridas e jacarandás que despontam. E se toda esta panóplia de elementos da criação divina e do homem alberga um microfone, um dispositivo que filma os nossos humores e acções ao abrigo da penumbra?
Tenho de partilhar consigo uma história verdadeira, com contornos de tragicomédia. Muitos saberão do que se trata, dos why, what, where, who com que se escrevem as notícias em Inglaterra. O que lhe conto, depois de terminadas as introduções
(a madrinha sabe que sempre tive dificuldade em conjugar o verbo sintetizar)
é cochichado pelos salões, entre uma cerveja que se bebe fresca, um deambular precavido sobre a assinatura do acordo tripartido, um perorar interessado sobre a savana e o grau alcoólico do vinho sul-africano. Antes de lhe reportar este acontecimento consultei as partes interessadas: um advogado grego sobre uma possível acção em tribunal; um médico jugoslavo sobre a disponibilidade de reconstruções faciais; gente local e amiga sobre a possibilidade de me esconder numa arrecadação, sobreviver à maneira da resistência gaulesa na França ocupada. Avancemos.
Vive aqui determinada pessoa que era casada com outra determinada pessoa. A primeira é do sexo masculino, a segunda é do sexo feminino
(percebe, madrinha, o porquê da escrita meia dissimulada? Não queremos a presença no tribunal, o ajeitar de um nariz que ficou irremediavelmente esmagado, o queijo bolorento com a malga de sopa fria)
Ora, esta determinada senhora foi a banhos à sua terra natal; o cavalheiro com quem partilhava sonhos e fracassos, leito e televisão quedou-se por aqui, no cumprimento dos seus deveres profissionais. Ter-se-ão despedido no aeroporto, escondendo uma furtiva lágrima por trás de uns óculos escuros de marca. A senhora partia de férias, o senhor trabalhava o que entendia. As mãos que se deram e que se afastaram para a passagem da fronteira permaneceram estendidas, num final prolongado (tal e qual como o shiraz australiano).
Passou-se algum tempo e a senhora não voltava. Sim, está de férias; sim, está tudo bem; sim, as saudades corroem; sim, a vida está pela hora da morte; sim, a cebola está que não se pode. O facto, madrinha, é que a cebola aumentava, a hora da morte prolongava-se e a dama não regressava.
Indaguei, pois indaguei. Certamente que o fiz, preocupado pelo cavalheiro cujas olheiras aumentavam ao ritmo de uma inflação de 3500%, o tremor na voz era mais frequente do que os ciclones em Miami.
Sabe o que aconteceu, madrinha? A dama em questão (talvez seja exagerado falar em dama, mas o advogado grego, assim como o médico jugoslavo, recomendaram-me sigilo quanto a nomes. A violência, os juízes, a anestesiazinha na sua idade, um nariz tão bonito…) repito, a dama em questão tinha-se mantido serena na sua terra natal, inundada de uma felicidade extrema, agarrada ao seu prévio marido. Trocou, a bem dizer, o número dois pelo número um. Não há amor como o primeiro, diz-se. Um regresso às origens, a uma terra conhecida, a um porto que se terá visitado pela primeira vez. O número dois (ela era para ele a número três) está devastado, com uma neura de primeira e uma qualidade de vida de segunda.
(está confusa, madrinha?)
Até aqui a história tem o seu quê de banal. Afinal, todos nós estamos habituados a trocas. O mundo do matrimónio está como a contratação de jogadores: há o mercado de Verão, o de Inverno, o defeso… Só que, madrinha, o determinado senhor tinha uma cunhada, irmã da determinada senhora. Esta jovem tinha vindo cá para visitar o seu sangue, contar histórias de infância, recordar o peru que o pai trinchava enquanto a mãe preparava sandes de pepino.
Vê-se agora sem irmã – que se lançou em braços já conhecidos – e com um cunhado que está ávido de afecto familiar. Na ausência da sua legítima, corre nos meandros de Harare que o abandonado procura conforto na cunhada, usando de uma insistência que poderá parecer chocante. Ela refugia-se (dizem…) por trás de uma porta fechada à chave.
O dito cavalheiro está destroçado – e não é para menos, sentir-se trocado pelo anterior, por quem o precedeu na descoberta dos caminhos que depravam o homem mais puro. Tem dois pensamentos principais (a parte profissional estará pelas ruas da amargura): a legítima – e solicita uma corda para se enforcar; a cunhada – e roga-lhe um pouco de carinho, em nome da família.
No serviço militar, se o oficial de dia não estivesse, avançava a reserva. Aqui não sei como será, porque há pessoas que não têm o verdadeiro sentido do dever.

Fique bem, madrinha, neste amplexo ternurento com que me despeço



quinta-feira, 18 de setembro de 2008

ABC da contagem decrescente - faltam 17 dias

Gente. As pessoas do Zimbabué são afáveis, simpáticas, educadas, cordatas, pacíficas, com um nível de escolaridade elevada. Independentemente de todos os erros cometidos, ninguém merece viver nesta miséria extrema, neste pouco mais do que sobrevivência. Encontrei estas características basicamente em todas as pessoas que encontrei – brancos e pretos. Fui apresentado a rodesianos que me trataram imediatamente pelo nome próprio, conversaram comigo, interessaram-se pelo que eu fazia, quanto tempo estaria, manifestaram vontade de me rever.

Gestão. Não falo de finanças nem de recursos humanos. Falo da gestão das expectativas, da gestão das frustrações, da forma como lidamos com os insucessos e os fracassos, mas também da maneira como vivemos as vitórias, tudo aquilo que de bom nos acontece. É preciso dar um sentido às coisas, não deixar que os ups and downs se passeiem pela nossa existência sem que lhes demos a atenção devida.

Harare. A minha primeira cidade conscientemente africana. Estranhou-se, entranhou-se. Uma cidade de que vou ter saudades: pela segurança de que ainda goza, pelo encanto que se vai descobrindo, pelas ruas debruadas a jacarandás (que florescem agora) e a acácias, pelo cheiro permanente e suave a terra queimada Não vou ser ridículo ao ponto de me dizer que me afligirá a pequenez das nossas ruas, mas terei saudades desta largueza, deste desafogo.

História. Como convivemos com a história da nossa vida? Onde arrumamos os personagens que participaram na peça de teatro que representa o que vivemos até agora? Em que local da sala de espectáculos que todos nós temos colocamos os que desempenharam um papel importante no nosso caminho? Como convivemos com as memórias, as saudades, a necessidade de substituir gente por outra gente, para não pararmos, não cristalizarmos num passado imobilista e imobilizante? Como resolvemos o dilema de alguém que tem de passar à história mas que faz parte da nossa história?

Incapaz. De perceber o que vem abaixo…

Inflação. Galopante como se fosse um cavalo de corrida, desenfreada como se cheirasse a estábulo, incontrolável, ao que parece. Não sei o que são 3500%, mas consigo perceber porque não aceitam cheques – num dia o cheque vale o número que lá está, quando se credita na conta vale o seu peso em papel…

Irritação. Tive-a quando cheguei ao ver a minha mala desaparecida e surgida de um túnel 24 horas depois, esventrada como se fosse um queijo da serra na mão de famintos. Nunca mais me irritei com nada. Ou poucas vezes o fiz… Será da altitude?

JdC. Merecerá, repito, post futuro e exclusivo.

Karaoke. O que dizer desta invenção do século? Já escrevi, já partilhei, resta-me gozar as suas memórias. Onde há Karaoke no Monte Estoril? Alguém tem a caridade de me dzer?

Kidzcan. A associação local que lida com o drama das crianças com cancro. Ainda que contornos diferentes da nossa Acreditar – devido a circunstâncias próprias – a missão é a mesma, as tristezas e alegrias serão vividas, seguramente, de forma semelhante. A sua existência é uma prova viva do esforço, da dedicação, do espírito de missão num país com tantas dificuldades. Comigo vão memórias que perdurarão com a minha consciência das coisas: o ordenado dos pediatras, o abraço da responsável da associação, os olhos da criança de quatro anos cujo futuro é improvável.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Aviso, alerta, pedido de paciência

Queridos leitores,

Um bom dia para todos.

6ª feira - Pointe's, karaoke (já relatado)
Sábado - almoço em casa de amigos portugueses; 10 ou 12 pessoas à volta de uma mesa a falar a língua pátria e a comer bacalhau, leitão e feijoada; noitada no Monaco, night-club de Harare;
Domingo - dia de descanso e de intensidade por motivos pessoais;
2ª feira - muito trabalho.
3ª feira - muito trabalho, jantar num restaurante coreano com a Daisy e Connie, ambas raparigas locais, com conversa interessante que proporciona boa companhia.
4ª feira - muito trabalho, compra de vinhos sul-africanos, jantar de anos de CA;
5ª feira - muito trabalho, jantar com duas amigas brasileiras;
6ª feira de madrugada - partida para a Beira.

Entre o que fiz, tenho de fazer, prevejo que seja feito, esta semana arrasou-me.

O post de hoje é isto, na partilha total - tanto quanto possível - da minha vida.

Voltem mais tarde, nunca se sabe se não aparecerá alguma coisa mais interessante do que a minha vida pessoal.

Façam o favor de ser felizes - e desculpem qualquer coisinha.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A saúde que não se deseja

O cancro pediátrico é um drama em qualquer parte do mundo: o confronto com uma doença que se julga de velhos, o desconhecimento dos seus efeitos numa criança, o choque e o horror da palavra que se conjuga com a antevisão de um luto, as estatísticas lidas desequilibradamente em função do estado de espírito, a sensação de impotência, o pânico da dor e do sofrimento, a certeza obsessiva da incapacidade do sistema de saúde, a procura desesperada de alternativas supostamente mais eficazes e menos nocivas, o vocabulário técnico e de compreensão difícil, as noites em claro, as lágrimas que correm até ao limite da resistência, a esperança e a descrença lado a lado.

Falo do que sei por experiência própria e por aquilo que vou vendo, sabendo, intuindo. Com o diagnóstico que se ouve a nossa boca abre-se de espanto, de pavor, de incapacidade de soltar uma frase. Começa então uma aventura com um final imprevisto, porque não há autor da história para decidir o destino dos personagens: umas vezes o herói vai ao encontro do pôr-do-sol com um sorriso nos lábios, outras fica no local da batalha, porque a vida e o mundo estão longe de ser o paradigma da justiça.

Ser-se criança no Zimbabué é difícil – porque é difícil ser-se o que quer que seja neste país, se exceptuarmos os poderosos. Ser-se Pai (no duplo sentido da maternidade / paternidade) é um desafio, porque as dificuldades com que se luta diariamente são de monta: a escassez de bens essenciais, a fome (não se imagina o que se deve passar nas zonas rurais), um sistema financeiro incompreensível para qualquer doutorado, uma inflação de 3500% que destrói qualquer vislumbre ingénuo de planeamento caseiro, ordenados mensais inferiores à moeda que damos aos arrumadores de carros.

Hoje estive num hospital grande de Harare, onde visitei a ala das crianças com cancro. Era dia de chegada de novos doentes, e imaginei o que ia na cabeça daquelas mães para quem tudo isto é de uma violência sem nome, porque não têm apoios, o serviço de saúde não funciona, não têm dinheiro para utilizar num sistema de transportes que de qualquer forma é inexistente. Falei com dois médicos novos, pediatras, cujo salário mensal ronda o equivalente aos três dólares mensais. Como sobrevivem? Fazendo biscates por fora, envergando a camisola da missão que se escolhe, não do emprego que se tem.

Neste hospital funciona uma escola. As fornadas de licenciados são lentas, não por dificuldade intelectual de quem aprende, mas pela inexistência de gente que ensine. Os salários são tão baixos que os profissionais desertam. É por isso que a ala de que falo não tem oncologista pediátrico – está na Pensilvânia a trabalhar.

A falta de dinheiro sente-se em tudo: no gabinete do pediatra a quem ainda não deram um telefone nem uma linha de internet; no líquido desinfectante dos médicos que vem numa garrafa de 33 cl e é doseado pela tampa; na ausência de idas ao estrangeiro para assistir a uma conferência, tomar contacto com o outro mundo; na ausência de reagentes, o que torna o diagnóstico um exercício de adivinhação; na inexistência de drogas para o cumprimento dos protocolos de quimioterapia; na incapacidade de retenção de pessoal técnico qualificado; no desaparecimento de amostras para exames; no sonho ingénuo de ter exames básicos – ressonâncias magnéticas, TACs, etc. A falta de dinheiro sente-se ainda no resultado de tudo isto: crianças que morrem, devido, exclusivamente, à ausência de tratamentos adequados mínimos. Eu conheci um potencial exemplo: rapariga, quatro anos, leucemia, uma cara de chocolate a olhar para a mãe com uns olhos mansos e redondos, sentada numa cama sem perceber o que se estava a passar.

Conheci também a Kidzcan, uma organização zimbabueana ligada à Igreja (de Inglaterra / Escócia, presumo) que faz o impossível e o errado: substituir-se ao Estado. Quais as prioridades? Arranjar os medicamentos (uma actividade exercida no máximo sigilo e segurança para que nada aconteça), apostar no diagnóstico correcto (a ausência de diagnóstico precoce aumenta brutalmente a mortalidade infantil), apoiar as crianças. Paralelamente a isto ajudam os médicos no que podem, fazem angariação de fundos num país cujo tecido empresarial é inexistente ou mais frágil do que um pergaminho, garantem o transporte das crianças para os tratamentos. Como não há dinheiro, ou a criança fica abandonada no hospital porque os pais fogem espavoridos, ou regressa num estado terminal, quando pouco mais há a fazer do que garantir a qualidade na morte.

Peço desculpa pela dimensão do post de hoje, sobretudo não tendo a criatividade ligeira das noites de karaoke ou a descrição paisagística dos safaris em reservas. Quem teve a coragem e a paciência para chegar aqui, pode imaginar o que foi a minha manhã. Tudo foi compensado com a ternura da responsável da Kidzcan (uma sobrevivente) que, ao terminar a reunião nas instalações da associação (um cubículo com 15 metros quadrados), fez questão de me abraçar fortemente, agradecer a minha visita e dizer:

- You’re an angel ...


domingo, 14 de setembro de 2008

Festa da Exaltação da Santa Cruz

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem,
humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte
e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados no séc. XXI. De acordo com os critérios que presidem à construção do nosso mundo, os grandes "ganhadores" não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?
Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido, neste dia em que somos convidados a contemplar a cruz de Cristo, um passo em frente no difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?
O exemplo de Cristo garante-nos que o caminho da cruz, da entrega, do dom da vida não é um caminho de "perdedores" e de fracassados: o caminho do dom da vida, conduz ao sepulcro vazio da manhã de Páscoa, à ressurreição. É um caminho que garante a vitória e a vida plena.
Comentários acima tirados do sítio Agência Ecclesia, comentários às leituras.

sábado, 13 de setembro de 2008

A meteorologia interior

Os meus leitores que se habituaram, com uma regularidade viciante, aos meus posts bem matinais, que me desculpem pela hora comparativamente tardia a que sai o de hoje.
O dia amanheceu nublado, como mais nuvens no céu do que aquelas que encontrei, cumulativamente, até agora. Mas, queridos Amigos, acordei com este pensamento que me parece peregrino, inovador, rasgado de criatividade. Não interessa a beleza exterior do nosso próximo: o nariz afilado, uns lábios carnudos e sedentos, umas pernas sem fim, um cabelo sedoso, uns olhos quentes e carentes, uma testa equilibrada, uns dedos que adivinham carícias repousantes e viagens perigosas. Tudo isso é efémero, alterável nas mãos experimentadas dos cirurgiões plásticos. No fundo no fundo (duplico o conceito para o reforçar) o que interessa é a beleza interior, aquilo que não vemos mas adivinhamos, e que nos permite olhar para uma aberração da estética com o mesmo desvelo e, quiçá, sensualidade, com que olhamos para uma deusa grega.
O raciocínio acima que, estarão de acordo e me farão essa justiça, é fruto de um momento único de inspiração e elevação, pode aplicar-se ao ramo da meteorologia. O que interessam umas nuvens baixas e ameaçadoras no céu que nos cobre? Qual a importância de um ventinho agreste, desagradável, ligeiramente fresco que sopra? Qual a relevância de uma coluna de mercúrio que quase desaparece na escala do termómetro e que faz antever um almoço condenado ao interior de uma vivenda? Verdadeiramente significativa é a meteorologia do nosso interior – não a do baço, apêndice ou outras minudências – mas a do coração. E aí, jovens europeus continentais, o clima está radioso, com o barómetro numa explosão de alegria, as frentes frias enroscando-se com as correntes do golfo.
A que se deve tanta alegria? perguntar-me-ão solícitos, curiosos, talvez mesmo preocupados com a minha potencial sanidade mental, duvidosos da capacidade psiquiátrica da medicina zimbabueana caso sejam necessários sedativos, camisas de força, regressões, hipnotismos. Eu digo, sem qualquer estratégia de secretismo: o karaoke, de novo. Isso! Sentem-se, relaxem, recostem-se, abrandem. O karaoke – mas no Pointe, com tudo o que circula em redor: música africana, um microfone, meneios sensuais de anca, olhares lânguidos habituados à vastidão logo que nascem, corpos esbeltos de uma beleza negra, a proximidade provocadora de quem acha que não existe pecado abaixo do equador, a alteração dos comportamentos com a proximidade da lua cheia e do calor, a sensação de que o relógio fica em casa porque é um artefacto inibidor da liberdade, a noite que se nos oferece até que o sol volte a nascer, a promessa de um beijo mesmo que não haja quatro paredes caiadas, bocas entreabertas na voragem de um desejo.
O Pointe está mais caro, com qualidade gastronómica igual. Adquiriu mesas e cadeiras novas, mantendo o artefacto que frita insectos esvoaçantes, o friso de lâmpadas verde rubras, o semáforo que revela a lotação esgotada do WC, a variedade de quadros sem cota nem esquadria. Cantei em dueto o It’s Only a Paper Moon, e o Sweet Caroline, mas isso não foi o mais importante. Verdadeiramente relevante é o idílio meteorológico que dento de mim (e coabitando com a Doris Day) o higrómetro e o anemómetro vivem em conjunto, numa valsa perfeitamente coordenada (ou será um tango?).
O que importa é a beleza interior. O que interessa é o clima que nos afaga as entranhas.
Tenho que ficar por aqui - e peço desculpa se o post parece estranhamente redigido, desagarrado nos parágrafos.
Fiquem bem, queridos Amigos, que aguardam o meu regresso com sentimentos díspares.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Provas de inteligência

O reconhecimento da ignorância própria é um acto de grande inteligência. Não sei se concordarão comigo, mas eu sinto-me tentado a afirmá-lo, até porque este post é dedicado, efectivamente, à confissão pública do nada que sei em matéria de vinhos.
Tínhamos sido desafiados para um wine tasting no Flying Frog, um restaurante que funciona numa casa particular com especificidades próprias – abre apenas alguns dias por semana e é preciso marcar mesa, sob risco de se ficar à porta. No jardim, embora grande, não se me afigura que aceitem piqueniques.
Eram 6 da tarde quando rumámos ao local onde se degustaria o precioso néctar. Meia dúzia de mesas onde se sentavam duas dezenas de pessoas que não conhecia (com excepção das que compunham a minha própria); um guardanapo de pano, um prato de sobremesa ao lado e uma folha de papel onde a Divine Wines – empresa promotora do evento – publicitava os futuros acontecimentos vinícolas e oferecia uma tabela para classificação (sabor, cor e aroma) dos seis vinhos que iríamos provar, todos da casta Shiraz. Entre vinhos seriam servidas umas vitualhas, petits riens que impediriam as resistências mais débeis de se obnubilarem com os eflúvios do álcool.
Serviam-se, sequencialmente, vinhos australianos e sul-africanos, a preços entre os 12 e os 20 dólares americanos, com graduações alcoólicas oscilando (parece-me bem, o termo) entre os 14 e os 16%.
Porque estava eu presente? Porque tinha sido apresentado a uma enóloga local (a tal dos finais prolongados que mencionei anteriormente) como pessoa interessada neste negócio e que gostaria de ver portas abertas para futuras e potenciais parcerias. Quem me conhece estranhará este meu súbito interesse profissional pelo mundo dos engarrafados tintos e brancos; quem me conhece um pouco melhor rirá com a perspectiva de eu querer estabelecer um negócio. Haverá por aí, pelo Monte Estoril, gente que sabe porque me meti nesta alhada. Sigamos em frente…
Vinho, queridos amigos. Uma coisa é estarmos à volta de uma mesa, escorropichando goles e comentando com voz entendida que o líquido é bom, talvez ligeiramente acidulento ou um pouco passado, ou que é uma pomada. Todos levantamos o copo para lhe iluminar o conteúdo à luz de um candeeiro, havendo quem o faça com um ar vagamente técnico, deitando o rabo do olho para o rótulo a fim de sacar informações preciosas que eliminem a triste figura. Com mais ou menos conhecimento, somos todos enólogos, discorrendo com propriedade sobre o futuro da vinha e a obscenidade dos preços.
Outra coisa, caros leitores, é estar numa varanda com pessoas que encontram aromas cremosos no lote australiano, sabores a baunilha ou a ameixa no que provém da África do Sul, que comentam com ar entendido os efeitos do carvalho francês ou norte-americano. Gente que deglute o vinho depois de o rolar pela língua – isto depois de o ter aspirado com uma elegância duvidosa. Pessoas que são detentores de um jargão técnico que me provoca mais inveja do que o Nobel do Saramago. Homens e mulheres, aparentemente (só aparentemente) iguais a mim, que sentem no que bebem aromas de amora ou de canela – e que as referem com uma veemência que não admite dúvidas, que mencionam características invisíveis com se nada daquilo fosse engenharia espacial. Houve, inclusivamente, quem encontrasse um sabor forte a sulfito numa determinada garrafa. Alguém se importa de me dizer a que sabe o sulfito?
Bebíamos o último lote, um vinho forte e caro. Já se tinham feito comentários, eu já cheirara tantas vezes o copo à procura da ameixa e da canela que o meu nariz já estaria impróprio para conduzir. Ao meu lado, um diplomata alemão perorava com uma sapiência que me esmagava, aumentando um achincalhamento por eu, filho de um país que bebia vinho para dar pão a um milhão de indígenas, não detectar a influência forte do tanino e da ausência de rolha. Com a mesma tranquilidade com que se diz que está um lindo dia de Verão, observou: este vinho tem aroma a feno.
Deus meu! Gerou-se no alpendre um bruaá de espanto, de admiração, de concordância, de fascínio. Eu disfarcei, alegando um nariz entupido devido à altitude de Harare e à secura do ar. Olhei para o jovem (jovem ainda, a saber tanto…) e não tive uma dúvida: a mocidade dele foi passada em cavalariças, rebolando com uma Ingrid pela palha, afagando-lhe as formas volumosas e rindo com aquela alegria de que só os alemães são capazes. No fim, entre corpos nus num palheiro, os cavalos relinchando bem pertinho com os olhos esbugalhados, a frase romântica com que sempre terminaria estas farras: cheiras tanto a feno, Ingrid…
Algumas observações curtas:
- ainda antes da despedida, houve lugar para se encontrarem pratos adequados aos vinhos em prova. Eu diria carnes ou peixes, protegendo a minha integridade intelectual com lugares comuns. Houve quem falasse em Strogonoff, Chateaubriand e, pasme-se, osso bucco. Há gente, na realidade, que sabe muito.
- ainda que não venha a propósito, digo-lhes com toda a certeza: o Zimbabué é a terra das oportunidades, logo que a situação política mude, o que estará para perto. Eu já conheço a gente ligada aos vinhos – já não me falta tudo. O estabelecimento de um entreposto está a ser equacionado.
Repito, para terminar. O reconhecimento da ignorância própria é um acto de grande inteligência. E eu estou a reconhecer, sem constrangimentos, o que não sei. Não sei se me faço entender…

Adeus, até ao meu regresso…

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

ABC da contagem decrescente - faltam 23 dias

A
Au dip iz ior lâve. Quis começar com música por respeito àqueles que não tendo tido, felizmente, outras carências, afirmam não saber viver sem sons harmoniosos. Na generalidade, a maioria das chamadas músicas pop tem, na minha mente, uma época, uma pessoa, um determinado acontecimento de referência. Esta não foge à regra. Mesmo que já ninguém a oiça, tem uma importância especial para mim, porque há coisas que são imorredouras, mesmo que sejam declaradas finadas.
África. Este mês que passou e o que há-de vir serão o meu verdadeiro baptismo do continente negro, ainda que já tenha passado por cá. Pelas características próprias da viagem, foram tempos marcantes, cheios de experiências novas, de contactos com gente radicalmente diferente, de confrontação com uma paisagem deslumbrante. Em boa hora vim.

B
Banda Larga. Há um mês que não sei o que é, dado ser um produto luxuoso e raro neste país. Mesmo assim, com mais ou menos dificuldade, escrevi e respondi a mails, trabalhei, alimentei o meu blogue, falei no MSN e no Skype. Antevejo uma baixa de tensão e uma vertigem quando chegar a Portugal e me defrontar com a rapidez internética comparativa da nossa rede.
Blogue. Iniciei-me nestas artes, sem saber ler nem escrever. Contaminado, sobretudo, pela Porta do Vento e pelo Pronome Possessivo, e graças à ajuda inestimável da Ana V., aqui estou, nas mais de 2.300 visitas. Para mim é obra, para outros serão trocos. Agradeço a todos os que sei que me visitaram, aos que imagino terem feito, aos que não puderam com a frequência desejada. O que farei dele quando regressar? Alguém quer ajudar no destino que terá?

C
Cor. Já não sei o que dizer mais desta cor africana: verdes, castanhos, cores secas, surpreendidas aqui e ali por um pintalgado vermelho. Uma delícia para os olhos, um desafio para quem se dedica à descrição das coisas, uma angústia para quem não sabe fazê-lo.
Cruzeiro. Não dirá nada a muitos, mas é uma referência saudosa no imaginário de todo o monte estorilense que se preza. Menciona-se o Cruzeiro para explicar um endereço, fala-se com sossego da competência da Farmácia Cruzeiro, é o edifício a que se dá as costas quando nos dirigimos ao mar. Hoje é uma estrutura decadente, mas já albergou a boite Zig Zag, local de algum encontro de jovens inocentes, desejosos de conviver – dançar, dar a mão, confidenciar, beber uma limonada, preparar em beijo, uma carícia, sei lá eu...

D
Distância. Quando pergunto a quantos quilómetros fica um determinado lugar, dizem-me com um sorriso genuíno: é perto, são cerca de 700. Os africanistas que me lêem sabem do que falo. Mas também distância geográfica a perder de vista: a savana, o mato, a planície, o pôr-do-sol, o infinito do mundo inteiro que se estende e nos esmaga.
Doris Day. A cantora que habita o meu pequenino corpo há tantos anos, e de cuja existência intestina só me apercebi aquando da noite do Karaoke, em que eu não era o João que muitos de vós conhecem, mas a menina do exorcista que fala línguas que desconhece, jorra matéria estranha pela cavidade bocal, tem comportamentos inauditos.

E
Embaixada
. Uma casa privilegiada, onde me fizeram sentir como se estivesse na minha própria. 1 hectare de terreno bonito, árvores altas e espaçadas, relva numa rega permanente, verdes de tons diferentes e descansativos. Um local paradisíaco para se trabalhar e descansar.
Embaixador. Terá direito a crónica futura e exclusiva.
Esplanadas. Fazem-me falta e em Harare não há. Desconheço, ainda, se existem noutras paragens da África subsariana. Tenho saudades de estar a uma mesa no meio de uma praça, beber uma cerveja ou um refresco, ver gente a passar, sentir o bulício e o sol a iluminar um canto qualquer, imaginar histórias no par que está ao meu lado, no executivo que gesticula ao telemóvel, na rapariga de olhar nostálgico.
Espaço. Ver distância e encher os pulmões de ar e paisagem.

F
Felicidade
. Não a encontrei aqui, porque também não vinha atrás dela. Ouvi a palavra em Harare (em história que contarei oportunamente à minha madrinha) com a banalidade com que se pronuncia em qualquer parte do mundo. A felicidade não é hoje um percurso, mas um destino para muitos que a querem encontrar, no matter what. Que os meus amigos me impeçam de invocar a palavra em vão.
Finalmente. Conjuga-se a palavra de forma variada: finalmente vou-me embora; finalmente vem-se embora; finalmente vai-se embora.
Finanças. O Zimbabué tem um conceito próprio desta expressão que governa os povos e as nações, as famílias e as empresas. Sobreviver aqui com o estado das finanças é obra dolorosa. Quem não tiver dólares americanos vive numa penúria absoluta. Os dez e doze zeros estão a regressar, com aquela voz melíflua com que sempre se apresentam os traidores: eu não vos disse que voltaria?

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A África vista por DaLheGas

Queres o quê? Ir embora. Para onde? Para casa. Mas aqui é a nossa casa Gui. E a outra nossa casa pai? Ficou lá Gui, ficou lá. Então podemos ir no avião pai. Ficou tudo lá Gui.

Emília Tomásia, orgulhosamente cabo-verdiana, dava colo e costas na hora de varrer ou de correr entre as casas e cubatas do Alto Catumbela, um lugarejo erguido para os trabalhadores da Celulose, onde o rio Catumbela tinha duas pontes; a de betão e a de madeira - pedestre, com frestas tão largas que era borra uma criança atravessar. Lá em baixo, na correnteza brava do rio, os jacarés viviam atentos, e a Emília contou que eles imitavam o choro de miúdos, só para apanhar gente.
Tínhamos um clube que exigia cartão de sócio com fotografia, uma grande piscina pública, um recinto para farras memoráveis, a Cooperativa, mercado exclusivo dos colonos, e um colégio. Património respeitável, constituía as Casas 1 e 2, com belos relvados e arbustos, que instalavam os Administradores da fábrica. De resto, pouco mais figurava naquele lugarejo no meio do mato, fundado há umas décadas por brancos da Pátria, além dos hectares e hectares de eucaliptal onde o meu pai passava os dias.
Depois, veio Benguela, cidade maravilhosa. Carros, machimbombos, bicicletas, flores nunca vistas, cachos de dém-dém, gente, mar e ondas, tudo pertences da Praia Morena e do prédio onde calhámos. Coqueiros, acácias, areia, água... e de novo à areia, quente, quente até ao pescoço. Às vezes, todos se estendiam no alcatrão, brancos e pretos, como gatos ao sol. Benguela era os rapazolas das mini-hondas, a bomba de gasolina com uma onça a fazer vezes de cão e a esplanada do Tan-Tan, onde meu pai me esperava no fim das aulas a beber cucas. Na grande escola dos Professores do Posto leccionava minha mãe e lá em casa toda essa classe de pessoas se sentava à mesa de jantar, sacava papéis das malas e ficavam a falar até de madrugada. As coboiadas do Trinitá Insolente, em Benguela, aconteciam debaixo das estrelas, acompanhadas de vozes suplicantes: "cuidaaaado meu, ele vai-te matar!". Cinema Calunga, viagens para lá de minimoke, sempre em pé, cantando hinos promissores e emocionados: "sob a bandeiraaaa do MPLAAA, nós faremos a revoluçãããão". Mas domingos, era missa certa na catedral, reencontrando um ror de gente que sempre combinava grandes convívios, incluindo o Senhor Padre, até a guerra rebentar e parar com toda a dança daquela vida.
Foi-se a cor, o calor, o riso e até o olho vivo da nossa Emília Tomásia, que numa choradeira sem fim embarcou num navio com destino a Cabo Verde, ainda antes de passarmos duas noites num aeroporto cheio de famílias pelo chão que também esperavam um lugar no Jumbo rumo ao desconhecido.

Pai, aqui é frio e as pessoas estão escuras. É outro clima Gui. Lá em Benguela pai, é mais bonito. Mas é aqui que estamos agora Gui. Qualquer dia vamos voltar pai. Talvez Gui.

A África vista por Xiu


Falar de África, João, obriga-me a vasculhar o pacote de 16 anos que a experiência me ofereceu. No desembrulho, peças animadas por tramas coloridas como as fotos que nos mostras, lágrimas que do ponto mais alto da montanha que subiste escorreram, cumplicidades de amigos como esse chão que pisas e que exala o que de mais puro a terra molhada oferece, continuam misturadas num misto amargo doce que se aprende a gerir.
Este desafio que lanças é mais uma página que repete o cheiro a pitanga, a cor de amendoim ou a laranja-cor-do-céu, com a particularidade de ser escrita à medida dos meus sentidos, dos quais não posso dissociar a força da minha juventude musculada que aí vivi, na memória do que África ensinava, sem saber eu que a noite e o dia eram para se beberem até à última gota. É mais uma página onde, por todos os motivos, África foi Mãe no sentido mais lato que a vida nos ensina. Terra onde ainda se nasce debaixo do imbondeiro, terra onde ainda se morre da forma mais incrédula que o mundo assiste de camarote.
Hoje não vivo sob nostalgia nenhuma. Sair de África foi uma prova de sobrevivência da qual poucas saudades me restam e a memória teima em apagar registos mais difíceis. Contudo, abstraindo-me do que corrói uma historia cor de rosa ou laranja, África, eu sei, sim, porque tu nos mostraste e mostras, continua a ser as cores que não diluíram, os cheiros que não dissiparam, que a terra continua vasta e o Africano.... sempre Africano.
Um abraço
xiu
Nota do Editor: texto e quadro são do mesmo autor. Xiu para ele!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Cartas à minha madrinha

Querida Madrinha,
Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.
Vou presumir a minha diligência no cumprimento das suas fortes recomendações:
Misture-se com as pessoas, oiça o que têm para dizer, ausculte os seus problemas e anseios, disseque-lhes os passados, descortine-lhes os presentes, preveja-lhes os futuros.
Tentei, madrinha, tentei, e acho que consegui – ainda que o empreendimento não seja de se atar e pôr ao fumeiro. Conheci pretos, brancos, amarelos (para mantermos a interpretação colorida dos povos orientais), cores misturadas. Conversei com gente de cá, gente daí mas que está cá, gente de passagem, gente interrogada quanto ao seu destino, gente certa quanto ao seu querer.
Sabe? Se me pedisse para lhe dizer uma única coisa que todos têm em comum, não hesitaria um minuto, dar-lhe-ia a resposta em menos tempo do que a madrinha demora a matar insectos incómodos com o seu mata-moscas de plástico: as pessoas gostam de cá estar, de cá viver.
Ninguém me disse que queria ir embora no vapor da madrugada, ninguém se referiu ao país como um charco de tristezas onde sobrenadam carências múltiplas. Pedem-se 50 dólares americanos por uma dúzia de ovos; não há carne, peixe, bens essenciais; a electricidade falta, fomentando o negócio dos geradores, provocando ruídos persistentes e desagradáveis na quietude do bairro.
Mas, não obstante este quadro de tristeza, as pessoas querem ficar: o editor inglês que é casado com uma senhora daqui; o casal de alemães que vive cá há 38 anos; a brasileira cujos pulmões respiram melhor em Harare do que em Brasília; o professor universitário indiano a quem não pagam há dois meses; as duas irmãs locais que mantêm uma banca numa espécie de feira da ladra em versão pior; a jovem elegante e enóloga que promove vinhos, revolvendo gotas de néctar sob a língua enquanto fala em finais prolongados.
Antevejo-lhe a sagacidade nos olhos, madrinha, a pergunta que assoma na ponta da sua língua:
E porquê, menino? Porque quer toda essa gente ficar, quando uma omeleta custa os olhos de uma cara, um frango de fricassé assume foros de luxo, a penúria do molho de tomate é servido a conta-gotas?
Eu respondo em três pequeninas palavras, mesmo que nesta frase esteja implícita a suspeita de um raciocínio estranho, enviesado: qualidade de vida. As pessoas, na diversidade dos seus anseios, na multiplicidade das suas vontades, na imensidão das suas frustrações, revêem-se no sossego, no clima, no convívio, na beleza, na extensão, no potencial. Todas as que são daqui revelam um orgulho em serem zimbabueanas, um povo, garantem-me, que é pacífico, afável, paciente, que se contenta com tudo, que não responde quando é agredido, não respinga quando sofre o ardor de um estalo. Ninguém ambiciona o consumismo europeu, a voragem trabalhadora, o stress do trânsito, a vulgaridade das televisões, o acanhado - em termos comparativos - das cidades.
De um ponto de vista mais corriqueiro, digo-lhe que as raparigas de cá são muito casadoiras - no sentido da vontade: as irmãs Magdalene (curioso como este nome desemboca sempre no estuário da minha vida) e Purity, com quem lanchei num fim de tarde morno; a Monalisa, a Melissa e a Memory com quem confraternizei numa noite congolesa feita de M’s (esta inicial, senhores...). Todas elas ambicionam um homem que as vele, que as proteja, com quem possam partilhar os momentos difíceis e tormentosos de um futuro que não se abre, para já, risonho. Dizem-me que não há homens com vacas suficientes – ou com interesse quanto baste. Mas a raparigada de cá quer aquilo que na Europa se abandona com um desinteresse militante, se desfaz com uma facilidade imensa, se repete como um pitéu que caiu bem: o casamento.
A nível escolar, muito embora haja 12.000 estudantes universitários em Harare, só conheci uma local - a Purity – quase finalista de engenharia civil. Sorrio, madrinha, sorrio, porque estou à espera da próxima pergunta:
E o que fazem a tanto licenciado, se o país tem o dinamismo de um caracol, a abundância de um lar pobre, a visão de um frequent flyer da multiópticas?
Pois é… Emigram para a África do Sul, Moçambique ou Angola, Inglaterra, onde são considerados bons profissionais. As jovens com quem falei mostraram vontade em ter uma experiência de expatriação, conhecer outro mundo. Elenquem-me destinos, solicitei curioso. Não se fizeram rogadas e falaram-me de Espanha, do Canadá, da Noruega, não porque se revejam nos países, mas porque têm lá uma amiga, um conhecido, um parente. O regresso, mesmo assim, adivinha-se-lhes nos olhos. Este é um país tribal, rústico, onde o apelo da terra, o chamamento do campo e das raízes ancestrais se fixa na alma de cada um, condicionando a vida a longo prazo.
Perguntar-me-á, curiosa, sobre a influência dos Estados Unidos, esse eterno protector do mundo e da civilização ocidental, na cultura desta juventude que erguerá o Zimbabué das cinzas. Diria que pouca, muito pouca. A música que ouvem, e ao som da qual dançam e se meneiam numa sensualidade que corrompe, é local – essencialmente africana; não há o conceito do hambúrguer e a paisagem não foi desfeada, ainda, pela existência do McDonald’s. Lê-se pouco, provavelmente, porque não há dinheiro para o sustento do corpo, quanto mais para o do espírito. Entre o Truman Capote e um prato de chicken fingers – em havendo para o que quer que seja - les coeurs ne balancent pas…
Sabe, madrinha, tenho saudades da família, de casa, do mar, dos amigos, da disponibilidade do supermercado, do paredão, da banda larga, do 2º canal da RTP, da farmácia Cruzeiro, da FNAC. Forças fortes e irresistíveis impelem-me ao regresso na data aprazada. Mas, digo-lhe, percebo o encanto da vida aqui, numa cidade que me tratou bem e que tem a fama de ser a mais bonita da África subsariana, num país que tem um futuro que pode ser invejável, onde fazer 600km é ir ali que já se volta, onde os babuínos velam, o kudu espreita, o elefante calcorreia o nosso alcatrão. Regressarei ao solo que me viu nascer dando mais importância ao valor dos bens triviais, com cuja escassez me defrontei aqui, e que foi um bom ensinamento para um certo modo de vida.
Termino, querida madrinha. Se tenho histórias de pessoas para contar? É claro que tenho. Mas o meu blogue é um livro aberto, uma montra escancarada por onde estou certo que se espreita. Entre aquilo que eu sei dos outros e aquilo que gosto de inventar sem maldade há o pudor da vida alheia. Aqui, como em todo o lado, há amores que se perdem, olhos que se desencontram, mãos que se tocam na escuridão de um sonho ou de um desejo. Aqui, neste calor que se aproxima, a perdição anda de mãos dadas com a ânsia, a tristeza e a alegria são parceiras inseparáveis, entre a quimera e o desânimo não se sabe quem espreita quem.
Deixe-me abraçá-la e beijá-la, ainda que de longe.






segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Desafio


Gosto de saber que muitos dos meus amigos me visitam através do blogue, vão sabendo das minhas andanças, têm curiosidade por me ler. Houve alguém, inclusivamente - e agradeço o elogio à pessoa que o fez - que sugere este espaço a outros através de uma frase publicitária: conheça África sem lá ir.
No dia em que publiquei o post Coincidências, colega bloguista escreveu-me um comentário simpático, animado, críptico para a maioria das pessoas que não sabe quem é o Jorge Antunes
(confesso, a bem dizer, que nem eu próprio o conheço bem...)
falando nostalgicamente de África. Já antes disso o meu amigo LM o tinha feito.
É por isso que lanço o desafio / pedido / convite: que tal escreverem um texto
(tanto quem assina como DaLheGas como quem assina Xiu o farão muito melhor do que eu)
sobre a vossa experiência africana, as vossas nostalgias, as vossa recordações? Seja assinado, seja com o pseudónimo que entenderem, publicarei com o maior gosto e prazer, porque sempre é uma forma de quem me lê sentir outras visões deste continente que mexe tanto com tanta gente.
O desafio, é óbvio, estende-se a quem quiser contribuir também - ainda que nunca por cá tenha passado (Porta do Vento, Pronome Possessivo, etc.)
Repetirei este post durante dois ou três dias.
Pensem nisso - e colaborem com este exilado...

Frases dos dias que correm

A vida é uma casa com duas portas. Há uns que entram e que têm medo de abrir a segunda porta. Ficam girando, dançando com o tempo, demorando-se na casa. Outros se decidem abrir, por vontade de sua mão, a porta traseira. Foi o que eu fiz, naquele momento. A minha mão volteou o fecho do armário, a minha vida rodeou o abismo.

(Mia Couto)

domingo, 7 de setembro de 2008

O tudo e o nada


Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico.

Largamos um dos centros de Lusaca – neste caso o hoteleiro, onde se situam as unidades de maior qualidade. O trânsito, como referi, é caótico, não só em termos de intensidade, como de condução.
Ao fim de 15 minutos chegamos aos chamados compounds, o equivalente em português dos nossos bairros sociais. O que nos rodeia é difícil de descrever: estradas de terra batida e em pior estado do que as de qualquer monte alentejano que se preze; mini-buses como enxames de insectos tontos, parando em qualquer lado para largar ou recolher passageiros, retomando a marcha sem preocupação por quem circula; de ambos os lados da estrada, um renque de bancadas onde se vende tudo – cebolas, batatas, limões, peixe seco, pedaços de carne colocados em cima de folhas de papel, tudo exposto às moscas e à poeira que se cola com uma camada fina; centenas de pessoas circulando num vaivém ininterrupto, sentadas à beira da estrada, respirando este ar que se entranha nas gargantas.
Continuamos a circular por estes carreiros, alguns dos quais ficarão intransitáveis quando chegarem as chuvas, transformando-se em rios sem utilidade – não circulam barcos, não circulam carros. O automóvel, que não está preparado para estes percursos, geme, esforça a suspensão, exige mais do automatismo das mudanças. Ao fim de vinte minutos chegamos ao Lyland Compound.
Desaguamos num recinto que se poderia assemelhar ao pátio de uma casa agrícola. No centro ressalta um edifício parecido com os nossos celeiros, de onde saem sons ritmados, perfeitos de afinação e simultaneidade, essencialmente femininos. Entramos a meio de uma missa católica, rezada num dos dialectos, assistida por algumas dezenas de locais – homens mulheres, crianças, jovens – celebrada por dois padres acolitados por quatro rapazes, trajados totalmente a rigor na sua função. Passa pouco das cinco da tarde de um dia de semana.
Uma coisa é saber da labuta dos missionários (neste caso combonianos), outra é ver o que fazem e onde fazem o seu trabalho. Olhar para um missionário é ter uma visão dupla: o que deixam e o que encontram. Sabemos todos o que fica para trás: o conforto, o acesso às lojas, ao cinema, às esplanadas, ao convívio com a família ou amigos, a disponibilidade permanente dos livros, discos, cultura; a possibilidade (quase sempre) de uma boa refeição a tempo e horas.
Calculo o que deixaram, vi um pouco do que encontraram: não vislumbrei (ou não imaginei) cinemas, livrarias, restaurantes, estradas em condições, interlocutores à altura para discutir uma obra publicada, uma tendência política, um caminho da Igreja; não descortinei uma mesa numa praça onde se vira a cara ao sol e se enfrenta os dias que se avizinham. Ali, pela pequena visita que fiz, não há nada daquilo que para nós é um mínimo indispensável, e não me refiro a luxos, vidas ricas e excessivas, benesses que só o muito dinheiro pode oferecer. Falo do trivial, do simples, do quotidiano.
Estou certo de que a minha mente estava formatada para achar que um missionário largava tudo para se entregar à inexistência da maioria das coisas. Não sei exactamente o que fazem aqui em Lusaca, porque a nossa conversa com o Padre Horácio, de Lamego, foi curta. Mas sei que vão ao encontro da miséria, da pobreza, da exclusão, da ignorância tal como nós a entendemos, da descrença ou da desesperança, da doença e do desconforto.
Com a convicção que me vem da alma e não da evidência, com a certeza que se gera mais na percepção do que no facto, estou agora convencido que o missionário deixa atrás de si um nada para se entregar a uma plenitude. E isso talvez lhe dê uma felicidade cuja dimensão temos dificuldade, ainda, em imaginar.

Que interessa ao Homem perder o mundo inteiro, se com isso ganhar a sua Vida?



sábado, 6 de setembro de 2008

Para os meus amigos da (Uni)Lever


Não sei como estará a marca OMO em Portugal, mas em Lusaca, há dois ou três dias, estava um pouco amolgada...


Poemas dos dias que correm


EIS-ME

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Ir a Lusaca e voltar


Atravessamos a fronteira na zona do lago Kariba, que nos garantem ter menos movimento, vedado que está o trânsito a pesados nesta estrada que cruza uma reserva. Até cerca de 40km da Zâmbia seguimos a estrada que todos os camiões provenientes da África do Sul, Moçambique, Zimbabué tomam para rumar a norte. Encontrar-se-ão na estrema do país, formando longas filas para vencer os obstáculos burocraticamente complicados na passagem de um lado para o outro.
Os procedimentos para atravessar a linha que separa os países, embora cumpridos de forma simpática pelos funcionários diligentes, são totalmente obsoletos à luz dos nossos critérios ocidentais: longos cadernos preenchidos à mão - pelo próprio transeunte - sem qualquer controlo, carimbos sucessivos em documentos vários, perguntas importantes cujas respostas não são validadas e, por fim, de cá para lá, o pagamento de 50 dólares americanos pelo meu visto, pois sou turista. Uma forma expedita de ganhar divisas a troco de um recibo bonito, como um selo holográfico, carimbado em duplicado.
Estando bem acompanhado, nunca temi pela minha segurança, muito menos pela minha não passagem para o o país vizinho. Mas, o facto é que persiste a sensação (formatada pela nossa facilidade de circulação no espaço Schengen) de que uma resposta mal dada, um sorriso entendido a desoras ou uma desconfiança provocada por um diálogo que os locais não entendem poderão provocar um pequeno incidente, onde a razão da força esmagaria a força da razão, com a mesma dificuldade com que um elefante tropeçaria numa lêndea ao sol de inverno.
Durante alguns quilómetros, já em solo zambiano, temos a noção de uma vegetação semelhante à que deixámos para trás – vastidão, mato, cores secas verde e castanha, alguns cabeços povoados por árvores que crescem nesta zona de África. A aproximação a Lusaca realça as diferenças: do lado zimbabueano, uma natureza selvagem, espontânea, bonita. Do lado da Zâmbia, uma natureza igualmente selvagem, mas desorganizada, anárquica, com grandes vestígios, junto de alguns aglomerados populacionais, de sujidade e descuido.
Facilmente nos apercebemos de que a Zâmbia é um país que não vive a crise profunda do seu vizinho: há uma profusão imensa de carros em circulação, sinal de acesso fácil a combustível; as lojecas de beira de estrada, embora degradadas, estão abertas e em funcionamento; há bancadas de venda de produtos ao longo do percurso, um ror de mini-buses (os nossos pães de forma) evita os infindáveis pedidos de boleia ao longo das vias.

Devido a características próprias, mas também devido às cerimónias fúnebres do presidente Mwanawasa, que se realizaram na 4ª feira e que provocaram o encerramento de algumas ruas, o trânsito na cidade é caótico, lento, desrespeitador das convenções mundiais – um amarelo obriga a passagem sob risco de embate por trás, um vermelho depende…
Tenho o dia 3 de Setembro livre – pelo menos até ao fim da tarde. Refiro ao Sr. Eurico Marques, emigrante nestas paragens há 50 anos, rotário e natural da Figueira da Foz – e que foi de uma amabilidade inestimável aquando da nossa chegada – que talvez vá passear a pé pela cidade, munido de um mapa, de máquina fotográfica e de curiosidade pelos motivos de interesse que sempre existem numa capital africana. Recomenda-me fortemente que não o faça, dado o carácter aparentemente violento das gentes locais. Convida-me, como alternativa, para um programa bem menos agressivo, se exceptuarmos o excesso ponderal de que ainda sofro: um churrasco, um braai em linguagem africander, em casa de um sul-africano, caçador de caça grossa, e que conheci no MOTH (Members of the Tin Hat) de volta de uma bebida generosa.
No dia seguinte lá estávamos, em casa do Chris e da sua segunda esposa, uma ucraniana de Odessa e aqui residente há mais de vinte anos. Ainda o relógio não batera o meio-dia e meia hora e já eu me servia de um uísque, bebida que me acompanharia durante o almoço, até meio da tarde. Precavido, previdente e cauteloso, só a primeira dose foi correcta; todas as outras foram sub-standard, porque a sobriedade é uma característica a manter, estejamos na África profunda, na cosmopolita Londres – ou no pacato Monte Estoril. Os outros convivas (mais dois sul-africanos, um deles casado com uma russa) provocaram, pela amostra da manhã, um aumento no vidrão local. O que comemos? Vaca, porco e salsichas de Kudu (um primo do antílope), carnes limpas e suculentas, grelhadas ao ar livre e borrifadas com cerveja, enquanto os convivas peroravam sobre o futuro da nação e sobre a entrega de África aos locais.
Lusaca é uma cidade relativamente feia – bem menos interessante do que Harare – mas com outra pujança. Enquanto aqui, na capital do Zimbabué se têm de procurar legumes por montes e vales, pesquisando aturadamente os melhores preços da cebola ou do tomate, havendo, para além disso, um excesso de inexistências (passe a contradição) de bens essenciais, lá há de tudo, como na botica. Fomos a um supermercado normal, e senti-me no Harrod’s, quando ainda não era do egípcio. É extraordinário como a trivialidade se transforma em luxo: deambulámos pelos topos de gôndola, circulámos pelos corredores dos enlatados e das farinhas com um salivar disfarçado, porque a sobriedade, repito, é uma atitude a manter.
O regresso, ontem de manhã, voltou a ser pelo lago Kariba, onde a presença de quatro elefantes na beira da estada atrasou um pouco a partida após um almoço caro e de pouca qualidade. Acabamos por fazer os últimos quase 200 quilómetros de noite, o que é uma façanha arriscada: as estradas não têm luz, os carros não têm faróis, alguns circulam com os quatro piscas ligados, ou apenas um, ou com os máximos, porque é a forma de iluminação que as avarias e as falta de dinheiro provocam nos veículos. Há o quase desespero de se manterem visíveis pelos que passam na mesma estrada - e qualquer subterfúgio é bom, desde que eficaz; na beira, gente que pede boleia, que vende um peixe, raspadinhas para carregar os telemóveis, um bocado qualquer de legume. Se considerarmos a cor dos locais e a iluminação que (não) existe, facilmente percebemos os elevados riscos ocupacionais.

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