terça-feira, 31 de março de 2020

Duas Últimas *


A música escolhida faz-me regressar aos idos tempos do liceu, na outra banda, antes de Abril de 74. A talhe de foice, convém esclarecer que provenho de uma família (conservadora) em que essa arte não desempenhava um papel central: não tínhamos pick-up, ouvíamos programas musicais numa telefonia manhosa e desafinada, à mistura com relatos do Belenenses, na época o clube com mais adeptos naquela zona. E que, podem crer, ganhava então uns joguinhos!

Como era, e sou, o mais velho de vários irmãos, coube-me ir desbravando vários caminhos. Um deles o musical. Eram tempos fortes de contestação e atrevimento, sobretudo naquela margem esquerda do Tejo, que não eram acompanhados pela família, pouco ou nada propensa à revolucionarite em acelerado curso. Lembro-me bem das discussões políticas sobre questões de que mal ouvira falar em casa, das livrarias em que, por detrás de uma porta escondida, se vendiam livros proibidos, dos cantores de protesto, dos discursos inflamados de alguns colegas nos intervalos das aulas…..

Essas ideologias pseudo-vanguardistas nunca me encantaram e, basicamente, prevaleceram nessa matéria os princípios familiares em que fui educado. Acho que os tempos que se seguiram me deram razão nessa escolha. Vinda dessa área, privilegio sobretudo alguma música popular portuguesa, da melhor que se fez neste cantinho do mundo, e alguns dos seus magníficos intérpretes, a que me dedicarei qualquer dia.

Também fui tomando contacto com grupos estrangeiros. Os Procol Harum foram um deles, tendo-me sido oferecido por um dos meus colegas desse tempo, hoje em dia político de renome, o single “Conquistador”, o primeiro disco a entrar no meu quarto. Passados uns tempos, chegou um pequeno gira-discos, que muito nos alegrou.

Como gosto mais de “A Salty Dog”, fiz uma pequena batota.

Espero que gostem!
fq

----
* publicado originalmente a 22 de Março de 2011


segunda-feira, 30 de março de 2020

Por acaso até sou...

Na semana passada falei com a minha gestora de conta sobre dinheiros, um tema que, num certo intervalo, varia entre o maçador e o críptico. Note-se que não sou uma espécie de anárquico cheio de desprezo pelo vil metal, nem sou daquelas pessoas muito finas para quem o dinheiro ou se tem ou se não tem - mas do qual não se fala. Gosto de dinheiro, porque é disso que vivo e é isso que me permite satisfazer alguns devaneios. O problema está na terminologia - aplicações, diversificação, mercados, dívida pública, investidor conservador, praças, etc. que me chega aos ouvidos com um esoterismo enfadonho e indecifrável. Volto ao tema da minha gestora de contas...

Dizia-me ela que "por acaso" [é uma expressão muito usada nestes tempos, como  se fosse um acidente do destino, não uma (quase) decisão] é uma pessoa muito optimista que acredita na solidariedade da espécie humana. Conhecendo-a como conheço não tenho uma dúvida disso. Mas acho curioso que todos os comentadores ou entrevistados na televisão (agora, quando aparecem via skype, têm sempre uma estante com livros por trás) acham o mesmo: todos eles são optimistas e positivos. No fundo, o que qualquer cristão que queira cumprir os mínimos deve ser. Ao contrário de toda esta gente mais sabedora do que eu, tenho uma confiança moderada na espécie humana, porque parte dela apedreja ambulâncias pejadas com velhos; a outra parte sim, é atenta ao seu próximo; e há ainda o ministro das Finanças holandês.

Ora, estas qualidades, como os prognósticos, devem ser vistas retrospectivamente. Sente-se no ar uma espécie de irmandade face ao infortúnio, como se a humanidade sentisse o impulso de por as carruagens em círculo para protecção colectiva do inimigo. Mas a pandemia chegará ao fim e eu, descrente (ou não tão crente, vá...) nas virtudes da espécie humana, temo rever-me neste texto de Juan Manuel de Prada que me enviaram há tempos:

La plaga del coronavirus, cuyas consecuencias apenas hemos empezado a paladear, nos ofrece una ocasión inmejorable para cambiar nuestra desquiciada forma de vida. Pero, como nos enseña el Apocalipsis, los hombres se distinguen siempre, después de sufrir una calamidad, por volver a las andadas; y esta conducta irracional, tristemente repetida en todos los crepúsculos de la Historia, se repetirá también ahora.

Gostava de não ser assim. Gostava de falar para a televisão via Skype e, com um renque de livros por trás a demonstrarem o meu apreço pela cultura, dizer que sim, que por acaso acredito muito na espécie humana. Mas conseguiremos, individual e colectivamente, uma mudança tão radical nos nossos comportamentos? Ou rapidamente esqueceremos, não a pandemia (porque ninguém com idade bastante a esquecerá jamais) mas o que ela poderia ter feito por cada um de nós - famílias, empregadores, casais, pessoas singulares, que passaram por momentos tormentosos, desafiantes, dolorosos. A humanidade em que por acaso acreditamos, mudará?

***

Numa nota um pouco à margem, escrevo este texto algo pessimista (mas só por acaso é que sou pessimista) no dia em que li a crónica de Alberto Gonçalves no Observador. Dei por mim a pensar que, na essência, não há diferença entre ele e o Vasco Pulido Valente. Este dizia mal de tudo tendo aos ombros a capa da sapiência histórica; aquele diz mal de tudo tendo aos ombros a capa do humor sarcástico. O que há em comum? Dizerem mal de tudo.

JdB 

domingo, 29 de março de 2020

V Domingo da Quaresma

EVANGELHO - Jo 11,1-45

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
estava doente certo homem, Lázaro de Betânia,
aldeia de Marta e de Maria, sua irmã.
Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume
e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.
Era seu irmão Lázaro que estava doente.
As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
«Senhor, o teu amigo está doente».
Ouvindo isto, Jesus disse:
«Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus,
para que por ela seja glorificado o Filho do homem».
Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro.
Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente,
ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava.
Depois disse aos discípulos:
«Vamos de novo para a Judeia».
Os discípulos disseram-Lhe:
«Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te
e voltas para lá?»
Jesus respondeu:
«Não são doze as horas do dia?
Se alguém andar de dia, não tropeça,
porque vê a luz deste mundo.
Mas se andar de noite, tropeça,
porque não tem luz consigo».
Dito isto, acrescentou:
«O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo».
Disseram então os discípulos:
«Senhor, se dorme, está salvo».
Jesus referia-se à morte de Lázaro,
mas eles entenderam que falava do sono natural.
Disse-lhes então Jesus abertamente:
«Lázaro morreu;
por vossa causa, alegro-Me de não ter estado lá,
para que acrediteis.
Mas, vamos ter com ele».
Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros:
«Vamos nós também, para morrermos com Ele».
Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias.
Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros.
Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria,
para lhes apresentar condolências pela morte do irmão.
Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar,
Marta saiu ao seu encontro,
enquanto Maria ficou sentada em casa.
Marta disse a Jesus:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido.
Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus,
Deus To concederá».
Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará».
Marta respondeu:
«Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição, no último dia».
Disse-lhe Jesus:
«Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem acredita em Mim,
ainda que tenha morrido, viverá;
E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá.
Acreditas nisto?»
Disse-Lhe Marta:
«Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus,
que havia de vir ao mundo».
Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria,
a quem disse em segredo:
«O Mestre está ali e manda-te chamar».
Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus.
Jesus ainda não tinha chegado à aldeia,
mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro.
Então os judeus que estavam com Maria em casa
para lhe apresentar condolências,
ao verem-na levantar-se e sair rapidamente,
seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar.
Quando chegou aonde estava Jesus,
Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido».
Jesus, ao vê-la chorar,
e vendo chorar também os judeus que vinham com ela,
comoveu-Se profundamente e perturbou-Se.
Depois perguntou: «Onde o pusestes?»
Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor».
E Jesus chorou.
Diziam então os judeus:
«Vede como era seu amigo».
Mas alguns deles observaram:
«Então Ele, que abriu os olhos ao cego,
não podia também ter feito que este homem não morresse?»
Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo.
Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada.
Disse Jesus: «Tirai a pedra».
Respondeu Marta, irmã do morto:
«Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias».
Disse Jesus:
«Eu não te disse que, se acreditasses,
verias a glória de Deus?»
Tiraram então a pedra.
Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
«Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido.
Eu bem sei que sempre Me ouves,
mas falei assim por causa da multidão que nos cerca,
para acreditarem que Tu Me enviaste».
Dito isto, bradou com voz forte:
«Lázaro, sai para fora».
O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras
e o rosto envolvido num sudário.
Disse-lhes Jesus:
«Desligai-o e deixai-o ir».
Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria,
ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n'Ele.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Nada será como dantes

Não haverá, seguramente, ninguém vivo que nos explique de viva voz o que foi o impacto da gripe espanhola ou em que é que se compara com o impacto do COVID-19. Em 1918-1919 morreram dezenas de milhares de portugueses. Vamos contar que agora não morra tanta gente, embora a previsão de mortos configure uma tragédia.

Dou por mim a pensar no que vai mudar daqui para a frente. Um pensamento já elaborado por outros, seguramente, e de forma mais profunda ou científica. O que sabemos todos é que nada será igual. Há quem ache que o nosso modo de vida acabou, há quem ache que os laços de família saem reforçados. 

Tenho uma amiga espanhola, professora universitária de arquitectura. Esteve estes últimos dias a preparar aulas que serão dadas à distância. E dizia-me ontem que o futuro (ela viaja muito por causa do voluntariado internacional que nos une) pode passar por estas aulas quando ela tem de se ausentar de Espanha. Anteontem, uma pessoa que me é próxima e que faz quarentena com marido e três filhos num andar em Lisboa, dizia-me que tem ido mais ao supermercado - uma actividade motivada não pela necessidade de comprar mantimentos...

Podia pensar na parte mais visível da tragédia: quantos empregos se perderão, quantas economias irão à vida, quantas empresas fecharão? Mas penso também nas oportunidades: quantas pessoas quererão passar a fazer teletrabalho para estar mais tempo em casa, poder ter mais filhos? Quantas pessoas mudaram radicalmente a sua forma de pensar relativamente a este assunto? O que farão as empresas com isto. A este respeito, o último número do TLS (Times Literary Supplement) afirmava: this issue is the first in the TLS’s nearly 120 years of existence to have been edited and sent off to press by a group of people contributing solely from their own homes. Se se consegue fazer um suplemento literário a partir de casa (e há outros exemplos em Portugal) porque é que tanta gente tem de ir para o emprego se preferir ficar em casa? O que se poupa e o que se ganha? 

Também penso em coisas mais comezinhas: daqui a quanto tempo poderemos viajar ou dar um encontrão numa carruagem de metro? Quanto tempo demorará a recuperarmos a confiança nos abraços, na proximidade física tão latina, nos ajuntamentos? Como me perguntava alguém próximo, daqui a alguns meses haverá mais divórcios ou mais bebés? Que impacto teve esta pandemia nas relações familiares? Foi maioritariamente benéfica ou muito pelo contrário? O que afectou a proximidade excessiva ou o afastamento excessivo?

Passado o momento da tragédia, o mundo tornar-se-á uma boa fonte de estudo. O que vai mudar, que se perceba já, daqui a alguns meses? Conseguiremos perceber que podemos viver com menos? E quereremos? De facto, nada será como dantes. 

JdB

quinta-feira, 26 de março de 2020

Duas Últimas

António Pedro da Silva Chora Barroso (1950 - 2020)

quarta-feira, 25 de março de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

VPV PÕE O DEDO NA FERIDA SOBRE A GUERRA NA SÍRIA

Se a nós, ocidentais do dito ‘primeiro mundo’, nos custa os estragos provocados pelo COVID-19, primeiro como calamidade sanitária, depois como hecatombe económica, o que dizer das vítimas da longa guerra na Síria, agora também atingidas pelo coronavírus?

Talvez uma comparação mínima entre a situação de uns e de outros, ajude a dar a medida do sofrimento das vítimas de um conflito armado sanguinário, bem mais letal do que as perdas pesadas desta pandemia. Por exemplo, como explicar, a quem corre o risco de ter a casa bombardeada, os nossos problemas (legítimos, à nossa escala) para repor a despensa? Como comparar algumas aflições no acesso à net, fundamental para o teletrabalho, com o drama dos que estão sujeitos a longos períodos sem electricidade nem água potável? Como encarar o problema dos pais e filhos pequenos apertados num apartamento, face a quem vive em roleta russa sem saber se se sobrevive mais um dia? O que dizer do drama dos nossos hospitais sobrelotados e dos profissionais de saúde em burnout, à vista dos hospitais sírios também sobrelotados e em constante risco de serem alvejados por morteiros?

Entre 2015 e 2017, Vasco Pulido Valente (VPV), com o olho clínico dos bons historiadores, denunciou algumas das causas menos faladas da Guerra contra Assad, um tirano pouco recomendável mas que não justifica o preço de uma sangria inumana:



«À NOSSA PORTA

–  17.JAN.2016 –


As fronteiras do Médio Oriente foram impostas, como toda a gente sabe, pelo acordo Sykes-Picot no fim da I Guerra Mundial e tentavam equilibrar as pretensões da Inglaterra e da França. As fronteiras da África do Norte são a consequência de uma guerra de conquista, que começou em meados do século XIX com o último rei de França, Luís Filipe, e em que pouco a pouco se envolveram a Inglaterra, a Itália e mesmo a Alemanha de Guilherme II. Nenhuma destas divisões e redivisões considerou a religião ou a afinidade tribal da gente que ia dispersando pelo mundo a régua e a esquadro, como se ela não valesse mais do que peças sem valor num jogo que não podia de toda a evidência jogar. As coisas correram bem até à guerra contra Hitler e à emergência do petróleo como a principal fonte de energia do Ocidente.   
Dali em diante as grandes potências tiveram de evacuar, a bem ou mal, do Médio Oriente e da África do Norte e deixaram para trás países sem qualquer espécie de viabilidade como o Iraque, ou a Líbia, geralmente governados por velhos funcionários do colonialismo ou por indígenas de confiança, que acabaram por ser submersos por uma civilização primitiva, dirigida pelo fanatismo e pela violência. Hoje, o Médio Oriente é o campo livre para as guerras religiosas do islão e naturalmente as facções detestam a interferência do Ocidente em querelas para que o dito Ocidente não é chamado, que não percebe e que vem sempre perturbar com a sua superioridade económica e militar.  Os terroristas de Nova Iorque, de Londres, de Copenhaga ou de Paris querem ficar sozinhos para se exterminarem em paz.
Hoje as duas maiores potências regionais deslizaram para uma situação de guerra não declarada, mas que está em perigo de se tornar uma catástrofe para o Médio Oriente, para o Norte de África e para o mundo. Ora a Europa não tem meios para reagir a essa ameaça. Se o choque entre o Irão (xiita) e a Arábia (sunita) não for evitado, acabará por se estender da Turquia a Marrocos, e provavelmente à Índia e à Ásia central, e não existe força alguma capaz de o sufocar ou reter. Em Portugal, […] consciente ou inconscientemente, sofreremos como o resto da Europa as consequências do conflito que vai crescendo à nossa porta.

HÁBITOS QUE NÃO PASSAM

–  15.NOV.2015 –

O Ocidente, por razões que variaram com a época e o país, sempre se achou dono da África do Norte e do Médio Oriente. A impotência de Istambul tornava o imenso território do Império Otomano em terra de ninguém e de toda a gente, que os diplomatas da “civilização” dividiam e redividiam a régua e esquadro. Mesmo a Rússia perdeu a sua única guerra – na Crimeia, com a França e a Inglaterra – por causa de uma querela com a Igreja Católica em Jerusalém. O canal de Suez, caminho para a “jóia da coroa” e para o Oriente, e a seguir o petróleo prolongaram até hoje o longo envolvimento da Europa e da América em questões que não lhes diziam respeito. […] Sobretudo para a França que se continua a considerar tutora e protectora das suas velhas colónias.
A situação do Norte de África e do Médio Oriente é agora uma situação de guerra religiosa entre sunitas e xiitas (e as várias seitas de cada lado) e também, em certos países, de guerra entre islamitas e secularistas. Não ocorreria a nenhum estrangeiro de senso intervir neste caldeirão, como não ocorreria a um budista, por muita força e apetite que tivesse, intervir na “Guerra dos 30 Anos”. Mas nem o Ocidente nem a Rússia hesitaram um segundo em tomar partido pela palavra e pela bomba na região inteira. Julgavam que nenhum muçulmano se atreveria a transportar as suas sujas questões para o continente da liberdade e da tolerância. Um erro primário. […] As relações entre o Ocidente e o islão deviam ser mínimas e estritamente materiais: petróleo por tecnologia – e acabou. Fora isso, o terrorismo vai continuar e aumentar, quer a “grande” França queira, quer não.


O OCIDENTE E O MUNDO MUÇULMANO

– 23.ABR.2017 –

Dar um pontapé num formigueiro é uma estratégia? Em princípio, parece que não é. Mas que tem feito o Ocidente, senão isso? E, quando falo do Ocidente, falo da Inglaterra, da França e da América. Desde a primeira invasão do Iraque à chamada “Primavera Árabe” as velhas potências coloniais e a nova potência “global” não perdem uma oportunidade para influenciar, ou mesmo dirigir, o mundo islâmico. Ora esse mundo islâmico, de fora tão simples, está em guerra consigo próprio, para defender ou fortalecer as suas posições em África e no Médio Oriente e por razões religiosas que, às vezes, não se distinguem muito de razões políticas e militares. 
E por isso o Ocidente não sabe ao certo quem são as suas vítimas e menos quem a prazo vai beneficiar ou prejudicar. Não admira que quase todos os grupos de muçulmanos odeiem imparcialmente a Europa e a América e uma civilização inconciliável com a deles. […] 


O OCIDENTE E O ISLÃO

– 10 JUN.2017 –

O terceiro atentado terrorista em Inglaterra desde Março produziu os lugares comuns do costume. […] Mas como sempre ninguém tentou explicar politicamente o que sucedera. Porquê? Porque ninguém se atreve a revelar as verdadeiras causas desta violência contra sociedades [ocidentais] à superfície pacíficas. As causas são claras. Em primeiro lugar, a América estabeleceu uma base na “terra santa” da Arábia e a seguir começou duas guerras em países muçulmanos: no Iraque e no Afeganistão. Esta criminosa estupidez está em grande parte na origem da violência que veio depois. Bush, Blair e os governos que na Europa lhes deram apoio militar e diplomático não conheciam nem se interessavam pelas condições no terreno ou pela natureza do seu inimigo, historicamente dividido em dois ramos inconciliáveis e em dezenas de seitas e organizações.
O islão é um mundo em crise, um mundo imerso numa guerra religiosa, que se confunde, como invariavelmente sucede, com a luta pela hegemonia de um bilião de muçulmanos. Qualquer intervenção de fora implica duas consequências. Por um lado, favorece uma facção ou facções dos beligerantes. Por outro, leva a América e as potências da Europa a conduzir elas mesmas uma guerra por interposta pessoa. A Síria é um bom exemplo. Não admira por isso que o ódio gerado no islão transborde para Nova York, Paris, Marselha, Manchester ou Londres, que os jihadistas compreensivelmente consideram parte do seu campo de acção.
A única maneira de acabar com ataques terroristas ao Ocidente seria que o Ocidente se retirasse por completo do islão, o que implicaria o fim da mais leve presença militar, económica ou política e mesmo de alianças formais com qualquer Estado muçulmano. Para nossa má sorte, […] basta olhar à volta para perceber até que ponto o dinheiro do islão ou, pelo menos, de uma fracção dele penetrou nas sociedades em que vivemos.



                     
Vasco Pulido Valente em crónicas do PÚBLICO


Aplica-se a esta hora algo quaresmal e insólita das nossas vidas (para lá de a quarentena não ser custosa para todos) a resposta visionária de uma alta patente do recém-derrotado exército japonês, no final da Segunda Guerra Mundial na frente do Pacífico. Perguntaram-lhe até que ponto o Império do Sol Nascente tinha soçobrado à superioridade bélica norte-americana. Ele retorquiu, sem hesitar: o verdadeiro vencedor desta guerra será o povo que melhor se reerguer no day-after. A sua capacidade de focar o olhar acima dos escombros e de apontar ao futuro, foi correspondida pela maioria da população nipónica, permitindo uma reconstrução em tempo recorde e até ascender ao pequeno núcleo das economias mais pujantes do mundo – o G7. Naturalmente, que o Japão também contou com o forte apoio do vencedor directo daquela guerra – os EUA, à data, o país mais visionário, a par da Grã-Bretanha! De igual forma, após este combate contra o vírus, enfrentaremos outro tsunami, não menos feroz, no plano económico e bem podemos começar já a preparar o futuro. A falência de inúmeras micro-empresas, depois desta paragem técnica, fará disparar o desemprego.

O busílis está, sobretudo, na brusquidão das mudanças em curso, muitas delas irreversíveis, deixando multidões à margem da revolução digital já a rolar. Sem folga mínima para se adaptarem, arriscam-se ao empobrecimento por exclusão. O filme com mais Óscares, em 2020  – «PARASITAS», de realizador sul-coreano –  explica bem o sub-mundo de pobreza que coabita, quase invisível, semi-clandestino, com bolsas de riqueza e de bem-estar pacatamente egocêntricas e mimadas. Apenas curtem a dolce vita, sem reparar naqueles sobreviventes, até o limite da humilhação e da frustração ser ultrapassado e esses frágeis extravasarem em explosões de violência imprevisíveis. É um facto que a ferida das desigualdades acompanha a história humana, desde os primórdios, mas assume contornos muito diversos conforme a reacção dos dois segmentos. Há uma diferença abissal entre a dupla do rico e de Lázaro (em parábola, que parte de situações reais) e os grupos que se cruzam na ficção cinematográfica premiada por Hollywood, certeira a retratar realidades do nosso presente, sem cair no estereótipo reducionista e ideológico da luta de classes.

No lado positivo do pós-Covid19 está o provável reforço de novos hábitos como o teletrabalho e uma melhor gestão do tempo, menos poluição e menos stress nas idas para e vindas do trabalho. Na mesma senda, fecharam-se as Igrejas, mas a oração universal ganhou força e visibilidade; a generosidade de muitos crentes saiu para a rua e tem inspirado conversões nos lugares onde faz mais falta levar a paz e algum sentido de vida. Assim tem acontecido no desespero dos hospitais italianos, onde também se multiplicaram os gestos heróicos, como o do sacerdote de setentas e tais, que dispensou máscara para que não faltasse ao rapaz novo ao seu lado. O novo salvou-se e o mais velho partiu para o céu, com a maior serenidade, marcando muitos em seu redor. Hoje mesmo, o Papa Francisco pediu para o mundo rezar em conjunto o Pai-nosso, às 12h (de Roma, 11h de Portugal continental).  Outras ideias criativas pairam sobre os céus de Roma…

Religiosas romanas fizeram terços gigantescos, de 21m de comprimento, com balões azúis e brancos. Presos a uma varanda, vêem-se de toda a cidade e, de quando em vez, são soltos para subirem até às estrelas. A ideia original veio da Congregação das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus.

Algumas vozes portuguesas, lembram brechas que podem ter aberto bons trilhos para um futuro melhor:

No semanário SOL – edição de 21 de Março de 2020.

Do Turismo de Portugal chegou uma mensagem de esperança para este difícil contra-relógio de contenção da insidiosa pandemia. De certo modo, já aponta e contribui para o day-after:



Citando um amigo divertido, é hora de desejar a todos a continuação de uma santa quarentena.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 24 de março de 2020

Textos dos dias que correm

O poder da esperança: Mãos que sustenham a alma do mundo

Bruscamente, sem pré-avisos, a nossa vida foi sorvida para o interior de uma daquelas imagens inquietantes de Giovanni Battista Piranesi, cujo terceiro centenário de nascimento, por coincidência, este 2020 assinala. Poucas vezes se descreveu a angústia, o efeito do caos, as intransigentes paredes de vidro do isolamento com a precisão que o artista alcançou nas suas alegorias sombrias, onde os seres humanos parecem pontos ainda mais minúsculos e torturados, ilhas ainda mais desprotegidas, num mundo contaminado e distorcido até ao absurdo. A fantasmagórica visão de uma ponte levadiça que se recolhe, numa das gravuras mais famosas de Piranesi, – determinando com isso uma incomunicabilidade forçada – dá-nos como que o símbolo para representar, quase à pele, uma realidade que se transmuta, do dia para a noite, em forma distópica. Pois o desconcertado sentimento geral que hoje predomina é esse: o de que entramos, à maneira de Jonas no ventre da baleia, nas entranhas imprevisíveis e confusas de uma distopia.


Dentro de um mundo desconhecido

E, temos de reconhecer, esta situação apanha as nossas sociedades impreparadas. E não falo já do ponto de vista dos recursos sanitários para fazer face a um desafio tal. Falo do ponto de vista da nossa experiência e daquilo que a nossa memória pode extrair em nosso socorro. Falo da nossa visão do mundo e da existência. Do que julgamos distante e longínquo e do que está efetivamente perto. Do que que temos por estritamente individual e do que é coletivo. Do que consideramos que nos protege e do que nos expõe. Do que temos (ou tínhamos) por adquirido ou como completamente improvável. Da consciência da nossa real força e da nossa exata vulnerabilidade. Da dimensão do medo que podemos experimentar e dos trabalhos necessários para trazer, à alma, o nosso quinhão de paz. Não, não é fácil, repentinamente, constatar que sabemos, de nós próprios e da vida, menos do que pensávamos. Não é fácil despertar dentro de um mundo desconhecido, como o pobre caixeiro viajante, na novela de Kafka. Há uns dias atrás, o escritor italiano Antonio Scurati recordava que a nossa geração tem sido uma jeunesse dorée na história europeia. Todas as coisas más (que, na verdade, nunca deixaram de acontecer) aconteciam, porém, lá longe e aos outros, eram tragédias que assistíamos pela televisão, em diferido. E nem nos dávamos conta que a perceção que construímos das nossas sociedades – a da humanidade com mais saúde, com maior esperança de vida, com mais segurança e proteção, melhor nutrida e vestida – assenta num contexto histórico que não é inabalável ou, pelo menos, não tão inabalável como acreditávamos.


A necessidade de parábolas

Um dado curioso, no atual contexto, tem sido a necessidade de encontrar parábolas. Sem chaves interpretativas para lidar interiormente com a situação presente, assiste-se a uma corrida a alguns textos clássicos capazes não só, por comparação, de ilustrar aquilo que vivemos, mas também de nos fornecer ferramentas narrativas para podermos contar, a nós próprios e uns aos outros, o que está a acontecer. Que, de uma hora para outra, tenham voltado ao top dos livros mais vendidos, em alguns países, “A peste”, de Albert Camus, ou “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, não deixa de ser um elemento significativo. O texto de Saramago, uma poderosa e escuríssima parábola moral, cuja escrita ele próprio descreveu como das mais dolorosas experiências por que passou (“são 300 páginas de constante aflição” ), está repleto de termos que se impuseram recentemente ao jargão dos nossos quotidianos: epidemia, infeção, quarentena, medidas de coerção, debate ético sobre o valor da vida, carência, medo e compaixão. Mas não só as palavras como que ultrapassaram o estrito campo da ficção e se infiltraram no nosso domínio histórico. Saramago encena ali, com genial agudeza, os fantasmas e os pesadelos que temos de fazer tudo para evitar. Porque, não nos enganemos, tudo pode ser sempre pior. Nesse sentido, o seu romance permite uma leitura preventiva em relação à realidade. Por sua vez, o romance de Albert Camus, publicado em 1947, constitui uma incisiva reflexão sobre o mal, e certamente ali, como pano de fundo, está a sombra macabra do nazismo, denunciado como a “peste” que encurralou, naqueles anos, a nossa humanidade. Mas Camus escolhe para narrador-protagonista da sua simbólica crónica de resistência um médico. E isso certamente permite uma ligação direta ao presente, onde queremos sobretudo ouvir o que pensam os virólogos, os infectologistas, os especialistas em contágio, os clínicos em geral. De repente, o doutor Bernard Rieux, que desde aquela manhã de Abril em que, saindo do consultório, se torna o narrador-protagonista do que sucede na cidade algerina de Oran, é um interlocutor plausível e familiar também daquilo que experimentamos, e para o qual nos faltam ainda narradores. E há três coisas que aprendemos ouvindo o Dr.Rieux contar “A Peste”. A primeira delas é que a sobrevivência, perante surtos infeciosos desta dimensão, passa por adotar os cordões sanitários e seguir escrupulosamente, de forma continuada, as regras terapêuticas estabelecidas. A segunda é que a declaração de estado de peste e do fecho da cidade são também informações para uso das almas, pois colocam em questão aspetos da condição humana e do seu destino. A terceira, e não menos decisiva, é que, no meio de toda esta tribulação, abrem-se imprevistos espaços para a fraternidade entre os seres humanos.


Podemos reaprender tantas coisas

Parece paradoxal, mas o tempo presente representa também uma oportunidade para nos reencontrarmos. Confinados a um isolamento compreendemos talvez melhor o que significa ser – e ser de forma radical – uma comunidade. A nossa vida não depende apenas de nós e das nossas escolhas: todos estamos nas mãos uns dos outros, todos experimentamos como é vital esta interdependência, esta trama feita de reconhecimento e de dom, de respeito e solidariedade, de autonomia e relação. Todos esperam uns dos outros e estimulam-se positivamente a que façam a sua parte. Todos contam. Os cuidados individuais, que somos chamados a exercitar, não são a expressão de uma fobia ou do interesse próprio apenas, como se destinados a nos enclausurar na torre de marfim do nosso ego. São, sim, a forma de colaborar para uma construção maior, de colocar os outros no centro, de sacrificar-se por eles, de privilegiar o bem comum. Esta é a hora em que podemos, de facto, reaprender tantas coisas. Podemos reaprender a estar nas nossas casas, mas também a sentir que depende de nós o nosso prédio, a nossa rua, o nosso bairro, a nossa cidade, o nosso país, dando substância efetiva a palavras, tantas vezes destituídas dela, como são as palavras proximidade, vizinhança, humanidade, povo e cidadania. Podemos reaprender a utilizar as redes sociais não só como forma de divertimento e de evasão, mas como canais de presença, de solicitude e de escuta. Sem nos tocarmos, podemos reaprender o valor da saudação, o estímulo de um cumprimento, a incrível força que recebemos de um sorriso ou de um olhar. Sem que os nossos braços se estendam na direção uns dos outros podemo-nos abraçar afetuosamente, como já o fazíamos ou de um modo mais intenso ainda, transmitindo nesses abraços reinventados o encorajamento, a hospitalidade, a certeza de que ninguém será deixado só. Sem nos conhecermos podemos finalmente reaprender a não votar ninguém à indiferença ou a não tratar os nossos semelhantes como desconhecidos. Nenhum ser humano nos é desconhecido, pois sabemos por nós próprios o que é um ser humano: o que é esse pulsar de medo e de desejo, essa mistura de escassez e de prodigalidade, esse mapa que cruza o pó da terra com o pó das estrelas.


A distância e a proximidade

Conhecemos a semântica da proximidade e da distância, e, para dizer a verdade, precisamos de ambas. São elementos de comprovada importância na arquitetura do que somos: sem uma ou sem outra nós não seríamos. Sem a proximidade primordial nem seríamos gerados. Mas também sem a separação e a distinção progressivas a nossa existência não teria lugar. Na linguagem parabólica do livro do Génesis, Deus cria o homem amassando-o da argila da terra e oferecendo-lhe o seu próprio sopro, mas depois deixa o casal humano a sós no jardim para que a aventura da liberdade possa ter início. Do mesmo modo, cada um de nós, foi chamado a construir o seu mundo interno no balanço destas duas palavras: fusão e distinção. E através delas descobrimos, a tatear, o significado do amor, da confiança, do cuidado, da criação e do desejo. É verdade que no campo pessoal e social há tantas distâncias que são distorcidas formas de afirmar barreiras, de inocular com o vírus ideológico da desigualdade o corpo comunitário, de desnivelar a existência comum com assimetrias de toda a ordem (económicas, políticas, culturais, etc). E, temos de reconhecer igualmente que tantas formas de proximidade não passam de prepotência sobre os outros, exercício perturbado de poder, como se os outros fossem propriedade nossa. A distância e a proximidade precisam, por isso, de ser purificadas. Este tempo em que repentinamente ficamos todos mais perto (penso nas famílias em quarentena numa casa, 24 horas sobre 24 horas) e todos mais separados (é recomendado para o contacto interpessoal que se mantenha, pelo menos, 1 metro de distância) pode representar uma oportunidade para redescobrir aquelas proximidade e distância que garantem a qualificação ética da existência.


As modalidades do tempo

Que somos nós se não escravos do tempo? Vivemos sob a ditadura do tempo cronológico: aquele tempo utilitário e voraz, aquele contador ininterrupto que não dorme, aquele corredor que ninguém consegue travar. Somos literalmente engolidos pelo tempo, como a sugestiva imagem da mitologia diz ser a prática de chrónos, o inexpugnável rei dos titãs que, sem piedade, devorava os próprios filhos. E damos por nós a habitar dentro desse processo de devoração, correndo na ofegante corrente dos dias, acreditando que nada pode parar, temendo qualquer ralentização ou pausa e deixando com isso adiado o coração para outro século; e, com isso, adiando a vida para outra vida. Estamos sempre a empurrar para o fim de semana, ou então para as férias, ou para uma ocasião propícia que nunca chega. Porque o tempo não estica. Mas os inconformados gregos, a par do chrónos, tinham uma outra conceção de tempo para a qual reservavam o termo kairòs. No chrónos predomina uma visão quantitativa do tempo, uma espécie de contabilização vertiginosa, uma inalterável linha contínua que nos aprisiona na sua teia. E uma coisa sabemos: não é essa experiência de tempo que dará uma alma ao mundo. Porém, o tempo pode também experimentar-se como uma realidade qualitativa, isto é, pode ser finalmente definido como “o tempo de”, “o tempo para”. O que se sublinha não é tanto a duração, mas o momento propício, o ponto determinante, a hora do acolhimento da graça capaz de alterar os referentes do mundo. Se assim acontecer, o chrónos foi transformado em kairòs.


De quarentena a tempo gratuito

No imaginário contemporâneo o termo “quarentena” remete-nos para mundos recuados, que a modernidade superou. Quanto muito, podia-se aplicar a alguns poucos casos individuais, onde a gravidade das patologias impunha essa arcana prática securitária. A ideia de metrópoles inteiras ou de países em quarentena constitui uma absoluta estranheza. Não admira, por isso, que a primeira reação seja a de medo e dê lugar às formas mais diversas de expressão de claustrofobia exasperada. Aqueles que - movidos por motivações religiosas ou por escolhas conscientes de vida - aprenderam a tornar fecunda e solidária a própria solidão fizeram antes um percurso iniciático, educaram o seu coração nesse sentido, mas tiveram de se posicionar contra a corrente. De facto, essa educação falta a uma sociedade onde os estímulos maiores vão na direção contrária: na linha do escapismo, do atordoamento consumista, da vida massificada e dispersa. Por isso, somos convocados como sociedades a uma experiência pedagógica. Que a quarentena não seja só um violento recurso forçado, do qual vemos apenas os aspetos negativos, mas, mesmo com indesmentível esforço, nos possa ajudar a transmutar o chrónos em kairòs. Passamos uma vida inteira a repetir que “time is Money” e nem nos apercebemos do custo existencial dessa proposição. Este pode ser o momento para irmos ao encontro daquilo que perdemos; daquilo que deixamos sistematicamente por dizer; daquele amor para o qual nunca encontramos nem voz, nem vez; daquela gratuidade reprimida que podemos agora saborear e exercer. Temos de olhar para a quarentena não apenas como um adverso congelamento da vida que nos deixa manietados, elencando de modo maníaco o que estamos a perder. Sairemos mais amadurecidos se a aproveitarmos como um dom, como um espaço plástico e aberto, como um tempo para ser.


Não basta encher o frigorífico

A nossa segurança não pode provir da despensa bem guarnecida ou do  frigorífico a abarrotar. A vida é mais do que a materialidade necessária à sobrevivência. É isso, mas é mais do que isso. Esta estação que vivemos representa, assim, também uma oportunidade para refletir sobre aquilo que nos nutre. É que nos alimentamos de tanta contrafação, reduzindo a vida a um fast-food, de preferência sem pensar muito. É que nos alimentamos de tiques rotineiros e empalidecidos; de ideias-feitas que não deixam lugar a percursos de escuta e de descoberta; de automatismos que pairam como pura abstração; de imagens filtradas que reduzem sempre mais a realidade a uma coisa plana, esvaziando-a da sua natureza rugosa, polifónica e concreta; de palavras que, mais do que uma real declaração de presença, se parecem a uma estratégia que nos subtrai às chamadas sucessivas que a vida faz. Recordo o discurso sapiencial de Jesus e como esse restabelece o contacto da nossa realidade com as suas fontes mais profundas:  “quanto à vossa vida, não coloqueis o cuidado no que haveis de comer ou beber; nem quanto ao vosso corpo, no que haveis de vestir. Pois não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo, mais do que aquilo que o reveste? Reparem nas aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem armazenam em celeiros; e o Pai celeste as alimenta... Reparem nos lírios do campo: eles não trabalham, nem tecem. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um só deles” (Mateus 6:25-29). Numa das horas mais opacas do século passado, uma rapariga holandesa de nome Etty Hillesum escreveu num campo de concentração este comentário às palavras do evangelho de Mateus: “Uma vez escrevi num dos meus diários: ‘gostava de tatear com as pontas dos dedos os contornos desta época’. Nessa altura estava sentada à secretária sem saber bem como atingir a vida... E então, de repente, fui lançada num foco de sofrimento humano numa das múltiplas frentes espalhadas por toda a Europa. E foi aí que eu experimentei isto abruptamente: a partir dos rostos das pessoas, de milhares de gestos, de pequenas manifestações, de biografias, comecei a interpretar estes tempos... Se as pessoas entendessem esta época, seriam capazes de aprender com ela a viver como os lírios do campo”. O que significa sermos capazes de olhar os lírios do campo e as aves do céu? Significa adotar uma atitude contemplativa. Precisamos de olhar, mas não apenas como habitualmente o fazemos, pois a maior parte das vezes o nosso olhar morre junto aos sapatos. Somos desafiados a um olhar que vá além de nós, que supere os limites do nosso tracejado, que transcenda o perímetro das nossas preocupações imediatas, que se projete para lá do que sozinhos conseguimos ver... porque a vida não se resolve apenas com aquilo que trazemos ou conseguimos, mas sim no diálogo misterioso entre a nossa escala e a escala mais ampla que a própria vida é; no diálogo entre o que surge como conquista e o que brota como inexplicável dom; na interação entre o aqui e o agora e o que é da ordem do eterno.


As histórias de amor que estão a ser escritas

No meio da emergência que vivemos, não podemos esquecer o testemunho humano altíssimo que está a ser dado por todos os cuidadores. Esses são heróis desta história coletiva. E são milhões que, de forma anónima, e com um extraordinário sentido de abnegação, mantêm abertas fábricas e serviços, continuam a produção alimentar e de bens indispensáveis, vigilam pela segurança e, claro, nos hospitais combatem por todos nós na primeiríssima linha. Enumero três histórias minúsculas no universo de bem e dedicação que, nestes dias tão difíceis, se está também a construir. No sábado fui à pequena padaria do meu bairro. É o proprietário que atende ao balcão, um senhor dos seus setenta e muitos, um olhar cheio de cordialidade, um humor sempre a assomar. Vi-o, como o nunca vi, desolado, meditabundo, exausto. Perguntei-lhe se a padaria continuaria aberta. E ele confessou que por ele já a teria fechado. Mas depois começa a pensar nos clientes, nas pessoas que serve há tantos anos, muitas delas idosas como ele: como farão, se não há outra padaria nas redondezas! Outra história li-a no jornal. Uma senhora ligou para o posto da polícia do seu quarteirão, que naturalmente continua aberto, apenas para fazer esta pergunta: “E vocês como estão?”. A terceira é contada, sem palavras, por uma fotografia que mostra os bastidores de um hospital. Uma enfermeira adormecida com a cabeça em cima de um teclado do computador. Tem os óculos e a máscara colocados no rosto. Os braços caídos ao longo do corpo, sem nenhum apoio. É uma imagem comovedora, no seu desamparo extremo, porque se percebe tudo. Há quantas horas aquela mulher não dormia? E que dimensão tem de ter o cansaço, que peso tem de atingir para fazer tombar assim um corpo? Há já quem diga que a geração que vive o turbilhão desta pandemia olhará inevitavelmente para a vida de outra maneira. Esperemos que sim. Mas que na equação, que porventura despoletará uma mudança de mentalidade, entre não só o poder desconhecido do medo e da urgência, que nos faz relativizar tanta coisa. Que saibamos considerar devidamente todas as histórias de amor que estão a ser escritas, a começar por esta inteira multidão de profissionais e de voluntários que aproximam da nossa experiência hodierna a inesquecível parábola do bom samaritano.


As mãos sustêm a alma

Uma das esculturas mais conhecidas de Rodin revela, numa primeira abordagem, uma impressionante simplicidade. Trata-se de uma composição em pedra constituída por um par de mãos. Na verdade, duas mãos direitas, de duas pessoas diferentes cujos braços se entrecruzam e alongam para que os dedos, no ponto mais alto, se toquem, desenhando a forma de um arco. Um programa aparentemente elementar, portanto. A poesia deflagra – e, desse modo, nos remete para uma outra visão da obra - quando nos é anunciado o seu título. Primeiramente, Rodin pensou denominá-la “A arca da aliança”, mas optou depois por chamá-la “A catedral”. O que é uma catedral? A escultura de Rodin pode socorrer-nos na necessidade atual de obter uma resposta. Uma catedral não é apenas um território sagrado exterior onde os nossos pés nos levam. Nem é apenas um templo fixado num determinado espaço. Nem apenas um porto de abrigo que os mapas assinalam. Uma catedral também se alcança com as nossas mãos abertas, disponíveis e suplicantes, onde quer que nos encontremos. Porque onde está um ser humano, ferido de finitude e de infinito, está o eixo de uma catedral. Onde possamos realizar essa experiência vital de busca e de escuta para a qual a imanência não é resposta. Onde as nossas mãos se possam erguer para o alto em desejo, urgência e sede. Esse será sempre um dos eixos da catedral. O outro eixo é o mistério de Deus que o desenha, avizinhando-se de nós e segurando-nos, mesmo quando não nos apercebemos logo, mesmo quando o silêncio, o duro e espesso silêncio, parece a verdade mais tangível. Foi Pascal que escreveu que “as mãos sustêm a alma”. Hoje precisamos de mãos – mãos religiosas e laicas – que sustenham a alma do mundo. E que mostrem que a redescoberta do poder da esperança é primeira oração global do século XXI.

Card. José Tolentino Mendonça
In Expresso
Publicado pelo SNPC em 22.03.2020

segunda-feira, 23 de março de 2020

Do direito ao esquecimento

Vi sábado de noite, no remanso caseiro de um estado de emergência pandémico, um filme chamado "Thanks for Sharing", que a criatividade demente de um qualquer especialista na matéria decidiu traduzir por "Uma boa dose de sexo". Apesar deste título sugestivo, desenganem-se as pessoas que se atiram ao filme pelo desejo de um erotismo potenciado pelo isolamento. No pico da nudez, Gwyneth Paltrow (uma das protagonistas e uma mulher sempre interessante) limita-se a aparecer em roupa interior. Reproduzo uma parte do que, do filme, diz o jornal Público (não sei a data): 

Apesar de muito diferentes, Adam, Mike e Neil (Mark Ruffalo, Tim Robbins e Josh Gad) travam uma luta comum: o vício em sexo. Ao perceberem como essa obsessão lhes dificulta a relação com os outros e consigo mesmos, decidem inscrever-se num programa de reabilitação que promete curá-los em 12 passos.

Os três personagens do filme referido reivindicam, à sua forma, o direito ao esquecimento. Trata-se da reconstrução das suas vidas, e o direito ao esquecimento do passado é um dever de luta pelo futuro. O passado de cada um de nós, quer sejamos vítimas de uma adição, de uma doença ou de uma desacerto de comportamento, não deve ficar gravado para sempre na internet das nossas vidas. Esquecer não é, neste caso, negar a existência de, mas negar o impacto condenatório e vitalício da existência de. "Sóbrios" durante alguns anos ou durante algumas horas, todos eles (re)caíram porque em dada altura lhes foi negado o direito ao esquecimento, isto é, o seu passado foi um entrave ao presente que se converteria em futuro. Numa dada altura cada um deles deitou fora a medalha que celebrava um tempo de sobriedade, tendo que começar tudo de novo. O que aconteceu? Um passado que os acossou - ou que foi usado como argumento de ruptura.  

Num nível diferente, ninguém sabe como ficará o mundo, Portugal ou a comunidade familiar de cada um de nós quando assentar a poeira do coronavirus. Também aqui teremos de aplicar o direito ao esquecimento. Não negar que ele existiu, que deixou um rasto de cadáveres e sofrimento pelo caminho, mas negar que a pandemia deve ficar para sempre na internet das nossas vidas. O mundo não será o mesmo, mas devemos usar o direito ao esquecimento para nos podermos abraçar, cumprimentar, beijar sem que soframos do horror ao contágio - ou simplesmente do horror ao próximo desconhecido

JdB  

domingo, 22 de março de 2020

IV Domingo da Quaresma

EVANGELHO - Jo 9,1-41

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença.
Os discípulos perguntaram-Lhe:
«Mestre, quem é que pecou para ele nasceu cego?
Ele ou os seus pais?
Jesus respondeu-lhes:
«Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais;
mas aconteceu assim
para se manifestarem nele as obras de Deus.
É preciso trabalhar, enquanto é dia,
nas obras d'Aquele que Me enviou.
Vai cegar a noite, em que ninguém pode trabalhar.
Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».
Dito isto, cuspiu em terra,
fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego.
Depois disse-lhe:
«Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado».
Ele foi, lavou-se e ficou a ver.
Entretanto, perguntavam os vizinhos
e os que antes o viam a mendigar:
«Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?»
Uns diziam: «É ele».
Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele».
Mas ele próprio dizia: «Sou eu».
Perguntaram-lhe então:
«Como foi que se abriram os teus olhos?»
Ele respondeu:
«Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo,
ungiu-me os olhos e disse-me:
'Vai lavar-te à piscina de Siloé'.
Eu fui, lavei-me e comecei a ver».
Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?»
O homem respondeu: «Não sei».
Levaram aos fariseus o que tinha sido cego.
Era sábado esse dia em que Jesus fizeram lodo
e lhe tinha aberto os olhos.
Por isso, os fariseus perguntaram ao homem
como tinha recuperado a vista.
Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos;
depois fui lavar-me e agora vejo».
Diziam alguns dos fariseus:
«Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado».
Outros observavam:
«Como pode um pecador fazer tais milagres?»
E havia desacordo entre eles.
Perguntaram então novamente ao cego:
«Tu que dizias d'Aquele que te deu a vista?»
O homem respondeu: «É um profeta».
Os judeus não quiseram acreditar
que ele tinha sido cego e começara a ver.
Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes:
«É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego?
Como é que agora vê?»
Os pais responderam:
«Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego;
mas não sabemos como é que ele agora vê,
nem sabemos quem lhe abriu os olhos.
Ele já tem idade para responder: perguntai-lho vós».
Foi por medo que eles deram esta resposta,
porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga
quem reconhecesse que Jesus era o Messias.
Por isso é que disseram:
«Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós».
Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido curado
e disseram-lhe: «Dá glória a Deus.
Nós sabemos que esse homem é pecador».
Ele respondeu: «Se é pecador, não sei.
O que sei é que eu era cego e agora vejo».
Perguntaram-lhe então:
«Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?»
O homem replicou:
«Já vos disse e não destes ouvidos.
Porque desejais ouvi-lo novamente?
Também quereis fazer-vos seus discípulos?»
Então insultaram-no e disseram-lhe:
«Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés;
mas este, nem sabemos de onde é».
O homem respondeu-lhes:
«Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é,
mas a verdade é que Ele me deu a vista.
Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores,
mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade.
Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos
a um cego de nascença.
Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».
Replicaram-lhe então eles:
«Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?»
E expulsaram-no.
Jesus soube que o tinham expulsado
e, encontrando-o, disse-lhe:
«Tu acreditas no Filho do homem?»
Ele respondeu-Lhe:
«Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?»
Disse-lhe Jesus;
«Já O viste: é Quem está a falar contigo».
O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou:
«Eu creio, Senhor».
Então Jesus disse-lhe:
«Eu vim para exercer um juízo:
os que não vêem ficarão a ver;
os que vêem ficarão cegos».
Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto,
perguntaram-Lhe:
«Nós também somos cegos?»
Respondeu-lhes Jesus:
«Se fôsseis cegos, não teríeis pecado.
Mas como agora dizeis: 'Não vemos',
o vosso pecado permanece».

sexta-feira, 20 de março de 2020

quinta-feira, 19 de março de 2020

Textos dos dias que correm

O Pessimismo é Excelente para os Inertes

O Pessimismo é uma teoria bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o até o tornar uma lei universal, a lei própria da Vida; portanto lhe tira o carácter pungente de uma injustiça especial, cometida contra o sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso vizinho - porque nos sentimos escolhidos e destacados para a Infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem se queixaria de ser coxo - se toda a humanidade coxeasse? E quais não seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e borrasca de um Inverno especial, organizado nos céus para o envolver a ele unicamente - enquanto em redor toda a humanidade se movesse na benignidade de uma Primavera? (...) O Pessimismo é excelente para os Inertes, porque lhes atenua o desgracioso delito da Inércia.

Eça de Queirós, in 'A Cidade e as Serras'

***

O Terror do Optimismo

A verdadeira razão por que todos nós pensamos tão bem dos outros é que todos temos medo de nós próprios. A base do optimismo é o puro terror. Julgamos que somos generosos porque atribuímos ao nosso vizinho a posse daquelas virtudes que pensamos poderem vir a beneficiar-nos. Louvamos o banqueiro para podermos exceder o nosso crédito, e encontramos bons princípios no assaltante na esperança de que nos poupe as carteiras. Acredito em tudo o que disse. Tenho o maior dos desprezos pelo optimismo.

Oscar Wilde, in "O Retrato de Dorian Gray"

quarta-feira, 18 de março de 2020

Da conservação da energia

É conhecida a resposta (de que refiro parte) que Churchill terá dado quando lhe perguntaram o segredo para a sua longevidade: conservação da energia; não faça sentado o que pode fazer deitado, não faça em pé o que possa fazer sentado. 

Devo confessar que sigo esta máxima churchilliana com gosto; sou comodista (a distância à preguiça pode ser um fio de cabelo) e arreigou-se-me esta ideia de que já não vale a pena esgotar a cabeça para perceber algumas coisas que utilizarei pouco no futuro. Assim, quando não sei pergunto, e na resposta que me dão - ou na resolução do problema que me apresentam - aprendo alguma coisa. Há quem ache que o GPS é um dispositivo errado, porque nos impede de pensar em termos de geografia. Eu, dada a minha proverbial falta de sentido de orientação, acho o GPS uma invenção de importância muito superior ao Raio X ou ao antibiótico; e entendo que o aparelho me mostra alternativas de circulação que eu não conhecia.

Em tempos de quarentena a conservação da energia pode ser uma ferramenta mental preciosa; não sabemos o que vai passar-se, se a quarentena acaba no final de Abril, de Maio, de Junho ou de 2020. Ninguém sabe como fica o país - menos ainda o mundo - com dois meses de quarentena. Não me preocupa que as crianças ou os jovens percam o ano e que com isso atrasem a sua vida escolar; no fecho das escolas preocupa-me, isso sim, a quantidade de crianças enfiadas em casas por vezes exíguas sem nada de novo para fazer. Preocupa-me a sanidade mental dos pais, retidos em apartamentos pequenos com filhos energéticos, a precisarem de rua, de brincadeiras, de sujar as mãos ou de puxar os cabelos de alguém.

Sou da opinião que o governo / autoridades de saúde deviam dar um horizonte temporal para esta quarentena cívica. Falei com duas pessoas (por acaso duas mulheres) que acharam exactamente o contrário: que não, que isso é criar uma expectativa perniciosa às pessoas. Vivo numa casa grande, com uma pessoa apenas e um cão. Há 13 anos que vivo em regime de teletrabalho, com o qual me dou como Deus e os anjos. Eu serei uma excepção, e só não tive de aplicar a minha versão de conservação de energia porque já sou assim por natureza: organizado, planeado, com uma visão muito parcimoniosa da actividade que não acrescenta valor, a não ser (ainda que raramente) não fazer nada, que é uma actividade que acrescenta muito valor.

São tempos que requerem uma gestão cuidadosa da energia. Como dizia alguém, somos roubados, violados, vilipendiados e, mesmo assim, aguentamos. Mas é o atacador que se parte na altura errada que nos leva à maior loucura. 

JdB 

terça-feira, 17 de março de 2020

Poemas dos dias que correm *

A um negrilho

Na terra onde nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho,
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

Miguel Torga

---

* retirado do SNPC, publicado em 16.03.20 

segunda-feira, 16 de março de 2020

Do que se fotografa

Retomo, em tempos de pandemia e quarentena, a leitura de Imagens Imaginadas, de Pedro Mexia (Tinta da China, 2019). Em Momentos Kodak (pg. 100) é citada Nancy Martha West, autora de Kodak and the Lens of Nostalgia (2000):

"As pessoas que tiram fotografias rápidas usam a fotografia como forma de evitar, e até de negar, as memórias dolorosas, nomeadamente a memória da morte de uma pessoa amada. Tiram quase exclusivamente fotos de momentos felizes, e usam essas fotos como modo de reconstruir a sua história através da narrativa de prazeres e afectos 'intemporais', tentando assim consagrar um futuro não maculado pelo sofrimento, e no qual nos lembramos de momentos em que de algum modo escapámos ao sofrimento e à perda."

Calhou começar a dedicar-me à fotografia de uma forma totalmente amadora (por oposição a experiente, e não a profissional) quando os meus filhos eram crianças. Apesar de haver muitas fotografias banais, de momentos familiares - na praia, numa festa, em férias - o meu prazer consistia em fotografar-lhes os rostos de perto, (quase) sempre com chapéus de adultos, como se transpusesse para eles um gosto (que eles não tinham) e que eu não conseguia satisfazer. Era um tempo, ainda, de felicidade, manchado apenas por trivialidades - um dente partido, uma amigdalite, um febrão extemporâneo. Também nesse tempo, e no decurso de viagens, fotografei muitas paisagens - fotografias normalmente desinteressante, para não dizer más. Não há uma originalidade, um pormenor, uma perspectiva. Tudo, ou quase tudo, poderia ser substituído sem mágoa por postais ilustrados.

Deixei de fotografar rostos há muito tempo: os meus filhos cresceram, e a dimensão de lazer - ou desejo de registo para memória futura - já não faz sentido. As crianças já são outras, são os filhos deles, que eles fotografarão como entenderem, com ou sem chapéu, provavelmente de telemóvel. Continuei, contudo, a dedicar-me à fotografia sempre na dimensão amadora isto é, inexperiente. Como penso já ter dito aqui neste estabelecimento, o meu prazer fotográfico vai agora maioritariamente para os ambientes urbanos: o reflexo de um prédio espelhado, a perspectiva de um claustro, uma assimetria - ou talvez uma simetria - a nota dissonante de um gordo em frente a um ginásio ou de uma anoréctica numa montra pejada de éclairs. Paisagens também, com outra qualidade, confesso. 

Será que Nancy Martha West tem alguma explicação para esta mudança, ou encolheria os ombros, como se faz perante uma banalidade que não merece atenção? Talvez, segundo ela, eu tenha tentado reconstruir a minha história, desejando consagrar um futuro não maculado pelo sofrimento, o que claramente não consegui, ainda que por motivos extemporâneos. Agora procuro olhares sobre a urbe, já não sobre as pessoas, forçosamente transitórias. Talvez seja o desalento, talvez seja um desejo de fixar espaços  que são, pelas circunstâncias, mais perenes. Ou talvez não seja nada disso, o que é mais provável.

JdB

domingo, 15 de março de 2020

III Domingo da Quaresma

EVANGELHO - Jo 4,5-42

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar,
junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José,
onde estava a fonte de Jacob.
Jesus, cansado da caminhada, sentou Se à beira do poço.
Era por volta do meio dia.
Veio uma mulher da Samaria para tirar água.
Disse lhe Jesus: «Dá Me de beber».
Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.
Respondeu Lhe a samaritana:
«Como é que Tu, sendo judeu,
me pedes de beber, sendo eu samaritana?»
De facto, os judeus não se dão com os samaritanos.
Disse lhe Jesus:
«Se conhecesses o dom de Deus
e quem é Aquele que te diz: 'Dá Me de beber',
tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva».
Respondeu Lhe a mulher:
«Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:
donde Te vem a água viva?
Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob,
que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu,
com os seus filhos a os seus rebanhos?»
Disse Lhe Jesus:
«Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.
Mas aquele que beber da água que Eu lhe der
nunca mais terá sede:
a água que Eu lhe der tornar se á nele uma nascente
que jorra para a vida eterna».
«Senhor, suplicou a mulher dá me dessa água,
para que eu não sinta mais sede
e não tenha de vir aqui buscá la».
Vejo que és profeta.
Os nossos pais adoraram neste monte
e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar».
Disse lhe Jesus:
«Mulher, podes acreditar em Mim:
Vai chegar a hora em que nem neste monte
nem em Jerusalém adorareis o Pai.
Vós adorais o que não conheceis;
nós adoramos o que conhecemos,
porque a salvação vem dos judeus.
Mas vai chegar a hora - e já chegou –
em que os verdadeiros adoradores
hão de adorar o Pai em espírito a verdade,
pois são esses os adoradores que o Pai deseja.
Deus é espírito
e os seus adoradores devem adorá l'O em espírito e verdade».
Disse Lhe a mulher:
«Eu sei que há de vir o Messias,
isto é, Aquele que chamam Cristo.
Quando vier há de anunciar nos todas as coisas».
Respondeu lhe Jesus:
«Sou Eu, que estou a falar contigo».
Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus,
por causa da palavra da mulher.
Quando os samaritanos vieram ao encontro de Jesus,
pediram Lhe que ficasse com eles.
E ficou lá dois dias.
Ao ouvi l'O, muitos acreditaram e diziam à mulher:
«Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos.
Nós próprios ouvimos
e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».

sexta-feira, 13 de março de 2020

Textos dos dias que correm

A Inconstância no Amor e na Amizade

Não pretendo justificar aqui a inconstância em geral, e menos ainda a que vem só da ligeireza; mas não é justo imputar-lhe todas as transformações do amor. Há um encanto e uma vivacidade iniciais no amor que passa insensivelmente, como os frutos; não é culpa de ninguém, é culpa exclusiva do tempo. No início, a figura é agradável, os sentimentos relacionam-se, procuramos a doçura e o prazer, queremos agradar porque nos agradam, e tentamos demonstrar que sabemos atribuir um valor infinito àquilo que amamos; mas, com o passar do tempo, deixamos de sentir o que pensávamos sentir ainda, o fogo desaparece, o prazer da novidade apaga-se, a beleza, que desempenha um papel tão importante no amor, diminui ou deixa de provocar a mesma impressão; a designação de amor permanece, mas já não se trata das mesmas pessoas nem dos mesmos sentimentos; mantêm-se os compromissos por honra, por hábito e por não termos a certeza da nossa própria mudança.
Que pessoas teriam começado a amar-se, se se vissem como se vêem passados uns anos? E que pessoas se poderiam separar se voltassem a ver-se como se viram a primeira vez? O orgulho, que é quase sempre senhor dos nossos gostos, e que nunca está saciado, sentir-se-ia infinitamente lisonjeado por um novo prazer; a constância perderia o seu mérito: deixaria de fazer parte de uma ligação tão agradável, os favores actuais teriam o sabor dos primeiros favores e as recordações não fariam a menor diferença; a inconstância seria desconhecida e as pessoas amar-se-iam sempre com o mesmo prazer, porque teriam sempre os mesmos motivos para se amarem. As transformações da amizade têm mais ou menos as mesmas causas que as transformações do amor: as suas regras são muito semelhantes. Se um tem mais alegria e prazer, a outra deve ser mais serena e mais severa porque nada perdoa; mas o tempo, que muda o humor e os interesses, destrói-os quase do mesmo modo. Os homens são demasiado fracos e demasiado mutáveis para suportar muito tempo o peso da amizade. A Antiguidade deu-nos os exemplos; mas no tempo em que vivemos, pode afirmar-se que é ainda menos impossível encontrar um amor verdadeiro do que uma verdadeira amizade.

La Rochefoucauld, in 'Reflexões'

quinta-feira, 12 de março de 2020

Textos dos dias que correm

Covid-19 e espiritualidade: Oportunidade para reencontrar os outros e a interioridade perdida

Neste tempo de emergência, o que está a nascer de bom é a consciência de que a minha existência e a dos outros não dependem de mim; não sou eu o dono da vida. Basta um vírus – ainda que com um nome real – para a colocar em risco. Um vírus que pode ajudar todos nós a purificar-nos da nossa indiferença diante deste mistério que a nossa sociedade tenta controlar e por vezes “dominar” através do progresso científico-tecnológico.

Esta emergência é um convite a servir a vida, antes de mais pondo fim à superficialidade, à indiferença, ao egoísmo que me faz pôr-me a mim próprio no centro de tudo; e por isso não esquecendo que tudo é dom. A saúde e o bom funcionamento, hoje, das células do meu corpo são um dom a redescobrir; nada é dado como adquirido ou devido.

Talvez a experiência do mal comum nos diga o que é o bem comum, hoje tão escarnecido e vituperado. Desta emergência pode extrair-se uma lição de solidariedade: a tua vida é também a minha vida, e eu, com as minhas forças, colaboro na construção do bem comum. Por isso evito abrir brechas na barragem de contenção comum com escolhas irresponsáveis, e obedeço às disposições restritivas, comportando-me com cautela e responsabilidade, porque ao proteger-me, protejo os mais fracos, os mais expostos: idosos, adultos frágeis, crianças doentes.

Quem sabe se esta precariedade, o sentido de um “inimigo” que nos ameaça, não são as cinzas que impomos sobre a nossa existência para nos encaminharmos para a luz fulgurante da Páscoa, prefigurada pelo Evangelho da transfiguração do passado domingo. Se acolhermos estas cinzas feitas de limites, renúncias, medos, cansaços, doença, sofrimento, morte, então poderemos entrar numa consciência maior, a de sermos envolvidos e responsáveis uns pelos outros, base do viver civil e do viver cristão. Em cada um de nós está o traço de cada pessoa; em cada vida entram, de variadas maneiras, todas as existências.

A Quaresma acende uma luz sobre a nossa precariedade: o Evangelho do primeiro domingo recordava que não só de pão vive o homem. Não podemos viver transformando tudo em bens económicos; em momentos como estes, damo-nos conta de que o rei capitalista vai nu, e que também se vive de contemplação, de beleza, de relações, de sapiência. Vivemos também de vidas doadas para curar os outros, como são aquelas destes heróis modernos que são os médicos e os enfermeiros, que sufocam o medo para dedicar-se com abnegação a quem está frágil e doente.

Estes dias “sem” podem constituir uma oportunidade para nos dedicarmos a alguma coisa de que normalmente fugimos como se fosse um inimigo: a interioridade. Pode ter-se tempo para meditar, orar, caminhar, viver a pura alegria do dom e do agradecimento, viajar interiormente em companhia dos grandes de cada tempo.

Se acolhido de maneira correta, o “jejum” da missa pode constituir um caminho inédito para o Absoluto que nos espera. A partir do modelo dos Padres do Deserto, que viviam e conseguiam caminhar rumo a Deus para além dos ritos e das fórmulas litúrgicas. Este é o momento de reentrar em si, voltar à interioridade, ao meu eu que se acende diante do mistério da vida e do mistério de Deus. São dias para nos sentirmos instados por algo que nos preme por dentro e é mais quente, mais intenso, mais luminoso do que tudo aquilo que nos preme de fora.


Ermes Ronchi
A partir de entrevista de Giovanna Pasqualin Traversa/SIR
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 11.03.2020

quarta-feira, 11 de março de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

ALGUÉM AGUENTA 10 ANOS EM QUARENTENA?... SIM, OS SÍRIOS

Há anos, ouvi de viva voz o testemunho de uma estrangeira radicada na Síria, cristã, a transmitir uma perspectiva da guerra e da governação de Bashar al-Assad nos antípodas das versões propaladas nos media ocidentais, onde as notícias tomam o conflito por uma cruzada justa para depor um presidente iníquo. A receita apresentou-se simples, como um gesto generoso e justiceiro do Ocidente para libertar o povo sírio das garras do maior déspota da actualidade. Por azar, estamos em época de déspotas e calha que Assad não é o pior, apesar de sanguinário e prepotente. Basta compará-lo com o vizinho Erdogan ou ouvir o que dizem dele os inúmeros estrangeiros radicados no país e que ainda conseguem ter alguma voz, para além de sírios menos alinhados com o regime. 

Aquele país economicamente próspero e rico em matérias-primas, que se atrevia a seguir uma política nacional pouco dócil aos interesses ocidentais, suscitara a raiva de uns e a cobiça de outros. Acabou posto a ferro-e-fogo, sujeito a uma guerra que se pretendia cirúrgica. 

Corria o ano de 2011 e esperava-se navegar à bolina dos ventos de mudança das Primaveras Árabes, capazes de derrubar ditadores bem implantados. A portentosa indústria de armamento (onde os ocidentais são líderes do mercado) regozijou com a guerra. Rejubilou também um (em boa verdade, vários) membro da NATO, que assim se lançava numa aventura expansionista para reerguer parte do império otomano, inaceitável em condições de normalidade. Por último, foi fácil arregimentar soldados a preço de saldo entre os múltiplos núcleos de fanáticos islâmicos, ávidos de impor a sua variante religiosa (há dezenas e combatem-se entre si) e castigar um país, como a Síria, que autoriza a coexistência de quase todos os credos religiosos. 

Daquela guerra por procuração sairia um país dilacerado, depois fácil de retalhar a bel prazer de algumas potências estrangeiras. Mas os planos parecem ter saído de controle, pois a derrota (para posterior repartição do território) deixou de estar garantida. O novo cenário até reforçou alianças malquistas ao Ocidente, envolvendo o Irão e, pior, Putin, que encontrara pretexto para se estrear em novas regiões. Já saíra dos planos as muitas hesitações dos americanos, no tempo de Obama (Trump deu-lhes continuidade), que terá cedido a contragosto àquele aventureirismo bélico, quando preferia concentrar energias no Pacífico, retirando-se de outras zonas. Ficou célebre a sua recusa de «boots on the ground» (à parte da assessoria técnica a militares curdos), que suscitou uma saraivada de críticas de muitos media europeus. Também foi imprevista a resistência das tropas e da população sírias, mais fiéis a Assad do que se esperava. Porém, a ‘cereja no bolo’ terá sido o envolvimento directo do Irão (muito conhecedor daqueles meandros), a que se seguiram as temíveis «boots on the ground» do próprio Exército Vermelho, a inverterem as sortes do conflito a favor do líder de Damasco. A um mês e pouco da eleição de Trump, era a resposta hábil de Putin à provocação de Obama, que declarara que a Rússia ficara reduzida a potência regional. Regional, mas capaz de alargar o seu espaço de influência além-fronteiras, recuperando peso por outra via. Ora, um Médio Oriente menos americano e ainda com peso geoestratégico, oferecia uma oportunidade de ouro ao Kremlin para aumentar o poder militar e geopolítico. 

BBC a 1.Out.2015, referindo-se ao primeiro raide aéreo russo em território sírio, a 30 de Set.: «Russian warplanes have carried out their first air strikes on opponents of President Bashar al-Assad in Syria, adding a new dimension to the country's four-year civil war. Russia says it is targeting Islamic State and 'other terrorists'» 

Como última consequência deste conflito alegadamente justiceiro: a internacionalização dos grupos islâmicos radicais, agora armados até aos dentes, colocou o Ocidente à mercê dos seus actos suicidários, para se vingarem das constantes interferências dos governos ocidentais noutras geografias, recorrentemente no Próximo e no Médio Oriente. A ferocidade daqueles ataques terroristas para desestabilização da pax europeia tem mantido uma hierarquia nos alvos, sendo os preferidos (até agora) os civis, em geral e os símbolos cristãos, em particular, para o apagamento das marcas indeléveis de uma fé e de uma mundividência – onde «não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher» (Gal.3,28), exactamente ao contrário da práxis daqueles fanáticos – que abominam e se propõem erradicar. 

Após 10 anos de guerra na Síria, a instabilidade e a insegurança globais dispararam, os povos da região empobreceram dramaticamente, sendo um totoloto chegarem vivos ao dia seguinte, as multidões de deslocados criam novos problemas aos locais de destino impreparados para absorver tanta gente em necessidade extrema. 

Nesta longa guerra, o que mais dói ao povo sírio não são os morteiros dos terroristas cruéis apoiados por mercenários sem escrúpulos, nem sequer a destruição, mas o silêncio férreo a que o Ocidente os votou, lembrando-os só pelos “indesejáveis” fluxos de refugiados. Um silêncio de censura, segundo narra um local, pois os factos sobre aquela guerra incomodam inúmeros VIPs e não interessam a quase ninguém. Isto equivale a mantê-los sob quarentena forçada, desde há uma década! Ao estilo de S.Paulo, foi a partir de uma capital dilacerada pelas bombas mas com uma réstia de humanidade e de esperança, que um franciscano escreveu uma carta aos Ocidentais, que vivem apavorados pelo coronavírus:

«Caríssimos amigos, escrevo-vos da prisão» 

«Eis que chega o tempo quaresmal, que nos ajuda à conversão através da penitência [tempo em que os cristãos são] chamados a estar próximos de quem sofre, dos marginalizados com quem o Senhor Jesus se identificou. 

Os presos são expressamente mencionados na parábola do juízo final, em Mateus 25,31-46: “Estava na prisão e fostes visitar-me”. Aqui na prisão não estou só, mas partilho esta reclusão com todos os meus compatriotas. Nós, sírios, com efeito, vivemos desde 2011 numa grande prisão, imposta pelas políticas ocidentais, pelos países que se arrogam o papel de defensores dos direitos civis, mas colocam sob embargo uma nação inteira... 

E sabeis porque estamos nesta prisão: Porque queremos defender o nosso belíssimo país dos terroristas, que quiseram transformar a Síria num estado obscurantista.

Hoje, os grandes meios de informação gostam de dirigir os holofotes para a história de uma menina morta de frio, ou para uma família obrigada a fugir dos bombardeamentos, mas esses mesmos meios não vos falam dos milhões de sírios que sofrem o frio por falta de gasóleo, que nem sempre podem desfrutar de uma refeição quente por falta de gás de cozinha. 

Não vos falam dos alunos que não podem estudar depois do pôr-do-sol por falta de corrente elétrica, não vos falam dos idosos abandonados porque os seus filhos tiveram de emigrar... 

Não vos falam do alto custo de vida, porque a libra síria caiu, não vos falam dos jovens soldados que combatem o terrorismo em temperaturas abaixo de zero, e não sabem se o conseguirão fazê-lo, não vos falam dos doentes que não podem ter tratamentos dignos porque os terroristas “moderados” destruíram a maior parte dos hospitais, e porque os hospitais que funcionam não conseguem reparar os equipamentos por causa do embargo…

E, seguramente, não vos falarão dos bombardeamentos que mataram um jovem universitário há dois dias [em Damasco], nem dos discursos abertamente hostis de Erdogan, que decidiu introduzir nas escolas primárias a nostalgia otomana de reconquista das terras limítrofes, designadamente a Síria. 

Mas os grandes meios de informação também não vos falarão da alegria dos habitantes de Aleppo desde que o exército nacional conseguiu libertar os subúrbios oeste de Aleppo, a partir dos quais choviam os morteiros sobre civis. 

Nunca vos falarão da alegria de todos os sírios pela reabertura da autoestrada Damasco-Aleppo e da reabertura do aeroporto internacional de Aleppo, que deu esperança de uma possível retoma económica…

Não vos falarão do anúncio da reparação do caminho de ferro entre a capital síria e a capital industrial (Aleppo), nem da possibilidade de viajar de comboio após nove anos de guerra… 

Por isso vos digo que estamos na prisão… e as nossas notícias, as verdadeiras, são escassamente difundidas. 

Desta prisão ouvimos notícias tristes e preocupantes sobre o coronavírus, que invade o mundo (…), rezamos por vós, e às vezes, querendo desdramatizar, dizemos que desta vez é uma vantagem o estar na “prisão”, porque pelo menos esse maldito vírus não consegue facilmente penetrar os muros da nossa nação. 

Da “prisão” desejamos-vos todo o bem, e um bom caminho de Quaresma… Não tenhais medo, Jesus, com a sua cruz, venceu o sofrimento, o pecado e a morte. Recordai-vos de nós na vossa caridade quaresmal.» 

Frei Bahjat Elia Karakach –  guardião do convento de Bab Thouma, na capital síria
 In Famiglia Cristiana ; Trad.: Rui Jorge Martins. 9 de Março de 2020

Independentemente das estranhas causas desta guerra algo artificial e sumamente interesseira – com raízes na clássica dupla inveja & avidez, camuflada por uma narrativa à base de meias-verdades e boa dose de fake news  – é um mero tributo aos factos dar voz a quem raras vezes é ouvido e levado a sério. A última palavra cabe aos poetas, aplica-se em pleno à Síria: «Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar / […] Relatórios da fome / O caminho da injustiça / A linguagem do terror /  A bomba de Hiroshima /  Vergonha de nós todos / Reduziu a cinzas /  A carne das crianças /  DÁfrica e Vietname /  Sobe a lamentação /  Dos povos destruídos / Dos povos destroçados / Nada pode apagar / O concerto dos gritos /  O nosso tempo é / Pecado organizado.»  [Sophia in «Cantata de paz»].

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 10 de março de 2020

Duas Últimas

O link, enviado por mão amiga, vinha com o seguinte texto: são Portugueses a cantar e a compor e há uma moça que dança bem numa sala bonita. A música talvez não seja o seu género, mas é muito boa!

Deixo-vos com os Brass Wires Orchestra.

JdB


segunda-feira, 9 de março de 2020

Da confiança

Já no fim do filme Uma Questão de Honra há uma diálogo tenso e que de alguma forma determina o desfecho da trama. O advogado diz à testemunha: "I want the truth"; a testemunha responde: "you can't handle the truth." Para efeitos deste raciocínio é indiferente o que é a verdade ou a que verdade se referem os intervenientes. Interessa, isso sim, as duas frases (i) eu quero a verdade, e (ii) você não aguenta a verdade

Nesta versão, a expressão "handle" é traduzida por "aguentar". Ora, de um ponto de vista teórico, sem nos atermos ao enredo do filme, porque é que alguém não conseguiria aguentar a verdade? Talvez porque a verdade fosse muito dura, talvez porque a pessoa que a escuta não estivesse preparada para a verdade, por desconhecer o conceito de verdade.

A expressão verdade poderia aqui substituir-se por uma imensidade de outras dimensões. Conheci uma pessoa (desaparecida há bastante tempo) que poderia ter sido a protagonista do diálogo do filme, ainda que ligeiramente alterado: (i) "eu quero (a) ternura"; (ii) "você não aguenta a ternura." A ternura é dura? Não, a ternura era algo que essa pessoa desconhecia, pelo que não aguentaria viver com algo que lhe era estranha e que, de alguma forma alteraria a sua estrutura. Poderíamos usar a confiança, por exemplo: pessoas que querem sentir confiança mas que não aguentariam viver com ela porque, por um motivo qualquer, a confiança esteve arredada das suas vidas e tiveram de criar mecanismos de defesa para essa lacuna.

A confiança no próximo pode ser uma suspensão da incredulidade, sobretudo para quem não foi habituado a sentir a confiança à sua volta: implica baixar as guardas, ter uma perspectiva diferente, olhar em frente, mais do que olhar para trás para ver de onde vem a faca que apunhala à traição. Exercer a confiança no outro é fechar os olhos e deixar-se cair, alimentando a certeza de que se será amparado na queda. Amar não é mais do que confiar - e isso pode ser "inaguentável" para quem não sabe o que isso é, porque nunca o viveu.

JdB


domingo, 8 de março de 2020

II Domingo da Quaresma

EVANGELHO - Mt 17,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
e levou os, em particular, a um alto monte
e transfigurou Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência. Escutai O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito.
Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
«Levantai vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

sexta-feira, 6 de março de 2020

Moleskine *

Dos vários modelos de coabitação do Homem não podemos descurar o que se refere ao dele consigo próprio. Não me atenho na capacidade que cada um de nós tem para viver sozinho, mas na aptidão que revelamos para nos desdobrarmos num ‘eu’ que se observa e num ‘eu’ que se deixa observar. No fundo, como se a individualidade fossem dois – personagem e crítico – de um mesmo solilóquio. Acredito que temos um espaço confinado por onde deambular interiormente, uma espécie de terreno virtual limitado onde podemos exercer este mister. Ora, assim sendo, a dimensão dos ‘eus’ – observado e observador – é fundamental. Se o primeiro ‘eu’ – que será sempre o dominante – se estender nesta virtualidade do espaço, pouco lugar há para o segundo ‘eu’. É o Princípio de Exclusão de Pauli aplicado à não-matéria. É este exercício desejável - ou mesmo possível?

[Gregory Tapescu, in Há espaço para dois 'eus'? (Edição do Autor, Bucareste, 2010, traduzido por A. L. Andrade)]

***

Alberto lia, com vagar e cansaço, este artigo que lhe tinham mandado. Meditava sobre a verdadeira dimensão deste texto, como se adequaria às meditações que vinha fazendo e onde as expressões pequeno e pequenez assumiam foros de protagonismo. Leu e releu, e reforçou as suas convicções.

Sempre tivera a desadaptada e inútil mania de se fixar nas inutilidades da vida, pelo que não estranhou ter olhado mecanicamente para o relógio quando tocaram à campainha. Eram 15.51h, e percebeu que tão cedo não haveria outra capicua horária. Não que isso fizesse diferença para a rotina das marés ou para a constância das luas, mas mesmo assim era uma coincidência. Talvez não significativa, como referia Jung, mas seguramente curiosa. Um minuto de diferença e o relógio revelaria umas desinteressantes 15.50h ou 15.52h sobre as quais não poderia discorrer-se, muito menos filosofar.

Sou a nova vizinha do rés do chão. Arranja-me um pé de salsa?

Alberto já a conhecia – mas do capacho. Nesta tendência permanente, quiçá de uma limitação patológica, de pregar a sua atenção nas menoridades do quotidiano, deu em tecer considerações íntimas sobre tapetes de esparto e tipos de pessoas. O que motiva o simples mortal a comprar este ou aquele modelo? Há algum sinal exterior de onde possa inferir-se uma formação académica, um nível social ou financeiro, uma opção de vida? De facto, percebera que a vizinha usava um modelo que fazia publicidade a uma bebida energética, algo que ele nunca experimentara por temor dos efeitos. O que revelava aquele capacho por comparação com o seu, trivial e esfiampado nas orlas? 

A frase

Sou a nova vizinha do rés do chão. Arranja-me um pé de salsa?

fora proferida por uma mulher bonita, elegante, com umas calças justas, botas até ao joelho e decote sensual.  Imaginou-a, face a uma camisa caprichosa, a hesitar entre apertar o botão, e revelar pudor, ou não apertar, e mostrar volúpia. A vizinha estava de frente para ele, o que era vagamente perturbador, porque Alberto gostava agora de apreciar as mulheres ligeiramente por trás, para lhes descortinar os contornos - a ondulação elegante de umas costas, o desenho de um pescoço ou de um pedaço da maçã do rosto, um braço em ângulo que esconde o perfil de uns seios discretos. Apesar disso fixou a frase que lhe abriu uma possibilidade com tendências para certeza. Ele, Alberto, tinha sido observado nas suas entradas e saídas de casa e o pedido da vizinha, mais do que a necessidade de um raminho de Petroselinum crispum (outra inutilidade cultural) era uma porta que se abria, um convite, um desafio, uma hipótese, uma sugestão.

Imaginou-se a dizer-lhe que sim, a convidá-la a entrar, a levá-la à cozinha, a abrir a porta do frigorífico e ela a dizer deixe, beije-me, abrace-me e a querer fazer amor em cima da ilha de fórmica revestida a silestone, a desejar viver a loucura dos amores proibidos, dos corpos enroscados, das mãos peregrinas e exploradoras, das bocas ávidas, dos peitos desnudos e ofegantes, dos lábios frementes, da vizinhança solidária levada ao esplendor do desejo e da oferta, e ele a dizer sim, sim, era por si que eu esperava,  e a cobri-la de beijos e de luxúria, de frases tórridas, de mãos que se abrem além da possibilidade humana, de cinco dedos que são escassos para a voragem erótica que altera o eixo da terra num meio de tarde outonal.

Se calhar não tem... Deixe. Olhe, não leve a mal, mas tem um fio de caldo verde na barba...

Alberto olhou para o relógio. Eram 15.52 e tão cedo não haveria outra capicua.

JdB 

---

* publicado originalmente em 25.10.12 

Acerca de mim

Arquivo do blogue