domingo, 30 de junho de 2019

XIII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Lc 9,51-62

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,
Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém
e mandou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram numa povoação de samaritanos,
a fim de Lhe prepararem hospedagem.
Mas aquela gente não O quis receber,
porque ia a caminho de Jerusalém.
Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus:
«Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?»
Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação.
Pelo caminho, alguém disse a Jesus:
«Seguir-Te-ei para onde quer que fores».
Jesus respondeu-lhe:
«As raposas têm as suas tocas
e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».
Depois disse a outro: «Segue-Me».
Ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai».
Disse-lhe Jesus:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos;
tu, vai anunciar o reino de Deus».
Disse-Lhe ainda outro:
«Seguir-Te-ei, Senhor;
mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».
Jesus respondeu-lhe:
«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás
não serve para o reino de Deus».

sábado, 29 de junho de 2019

Pensamentos Impensados *

Coisas impensáveis
O Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas fica a meio caminho entre Sintra e Ericeira. Foi construído em 1995 pela Câmara Municipal de Sintra e consta, principalmente, de "pedras" romanas, tais como lápides, sarcófagos etc.
Há cerca de 50 anos visitei-o pela primeira vez, e não passava de um amontoado de pedras que estavam ao ar livre num terreno murado. 
(Se não era assim era parecido; já lá vão 50 anos).
Quando quis entrar deparei-me com a porta fechada; indaguei quem tomava conta e informaram-me que era a "Sra. Maria", que estaria no campo a trabalhar; fui ter com a conservadora e pedi-lhe para me franquear a entrada; acedeu contrariada, pois estava a trabalhar.
Durante a visita vi vários sarcófagos, em pedra, que continham esqueletos do tempo dos romanos; também vi que por ali passeavam cães. Mostrei estranheza à guia / conservadora, que só me disse: É, às vezes abalam com os ossos.

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Atendendo a que Portugal é um dos melhores fabricantes de calçado, são de acarinhar os turistas de pé descalço, pois são potenciais compradores de sapatos.

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Há uma luta japonesa, sumo, que por vezes não dura mais do que um segundo ou dois. Seria divertido ver um gago a fazer o relato; ainda balbuciava o nome de um dos lutadores e já eles estavam no balneário.

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Tenho um gelado no congelador há mais de 6 meses; será que ele ainda está fresquinho ou já estará cediço?


SdB (I)

* publicado originalmente a 2 de Setembro de 2011

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Poema dos dias que correm

Não são as coisas importantes que levam um homem ao manicómio. Está preparado para a morte ou para o assassínio, para o incesto, o roubo, o incêndio, a inundação. Não, é a série contínua de pequenas tragédias que leva um homem ao manicómio... Não é a morte do seu amor, mas sim o atacador do seu sapato que se rompe quando tem pressa.

Charles Bukowsky


the shoelace

a woman, a
tire that’s flat, a
disease, a
desire; fears in front of you,
fears that hold so still
you can study them
like pieces on a
chessboard . . .
it’s not the large things that
send a man to the
madhouse. death he’s ready for, or
murder, incest, robbery, fire, flood . . .
no, it’s the continuing series of small tragedies
that send a man to the
madhouse . . .
not the death of his love
but a shoelace that snaps
with no time left . . .
the dread of life
is that swarm of trivialities
that can kill quicker than cancer
and which are always there –
license plates or taxes
or expired driver’s license,
or hiring or firing,
doing it or having it done to you, or
constipation
speeding tickets
rickets or crickets or mice or termites or
roaches or flies or a
broken hook on a
screen, or out of gas
or too much gas,
the sink’s stopped-up, the landlord’s drunk,
the president doesn’t care and the governor’s
crazy.
light switch broken, mattress like a
porcupine;
$105 for a tune-up, carburetor and fuel pump at
Sears Roebuck;
and the phone bill’s up and the market’s
down and the toilet chain is
broken,
and the light has burned out –
the hall light, the front light, the back light
the inner light; it’s
darker than hell
and twice as
expensive.
Then there’s always crabs and ingrown toenails
and people who insist they’re
your friends;
there’s always that and worse;
leaky faucet, Christ and Christmas;
blue salami, 9 day rains,
50 cent avocados
and purple
liverwurst.

or making it
as a waitress at Norm’s on the split shift,
or as an emptier of
bedpans,
or as a carwash or a busboy
or a stealer of old lady’s purses
leaving them screaming on the sidewalks
with broken arms at the age of
80.

suddenly
2 red lights in your rear view mirror
and blood in your
underwear;
toothache, and $979 for a bridge
$300 for a gold
tooth,
and China and Russia and America, and
long hair and short hair and no
hair, and beards and no
faces, and plenty of zigzag, but no
pot, except maybe one to piss in and
the other one around your
gut.
with each broken shoelace
out of one hundred broken shoelaces,
one man, one woman, one
thing enters a
madhouse.

so be careful
when you
bend over.

Charles Bukowsky (sublinhado meu)

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Poema dos dias que correm

Ode 1.11

Não procures, Leucónoe — ímpio será sabê-lo —,
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp’rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

.

1.11

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint. Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros, ut melius, quidquid erit, pati,
seu pluris hiemes seu tribuit luppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces, dum loquimur, fugerit ínvida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

Horácio (Quintus Horatius Flaccus, 65 a.C.- 8 a.C.) “Ode 1.11 | Ode a Leucónoe”. [tradução David Mourão-ferreira]. in: Vozes da Poesia Europeia I, Revista Colóquio Letras, nº 163, 2003. Sublinhado meu.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Da silly season - calvície e cabelos pretos

A minha genética capilar subdivide-se: (i) a forte, que talvez torne difícil morrer calvo; (ii) a normal (e que já faz os seus efeitos) que faz com que morra com mais cabelos brancos do que pretos. Se quanto à calvície nunca me preocupei - lá está a genética forte - quanto à brancura dos cabelos também nunca me preocupei. Porquê? Apenas porque não.

Este sábado fui confrontado com o tema. De volta de uma mesa onde algumas senhoras discutiam o perverso efeito das cloradas águas de piscina nas tintas dos cabelos - uma preocupação feminina legítima - fui confrontado com a pergunta de um cavalheiro da minha idade, afectado pela parte menos boa de ambas as subespécies da genética: o pouco cabelo que tem está branco. E perguntava ele se não havia nada que, não sendo tinta, transformasse os cabelos brancos em pretos.

A pergunta - ou a inquietação - espantou-me, talvez porque nunca tenha pensado nisso. Olho-me ao espelho e há aspectos do meu físico de que me orgulho menos. Os cabelos brancos - uma esmagadora maioria - não. Posso ter pena de não ter menos uns quilos, de não ver melhor, de ter menos memória ou menor agilidade intelectual. Os cabelos brancos são-me totalmente indiferentes.

Percebo o horror dos homens à calvície e imagino que seja uma questão estética, como ter uma barriga proeminente ou uma postura menos erecta. Mas o que faz os cabelos brancos que perturbem tanto os homens? Será que nos dá um ar mais velho? Se sim, quem tentamos enganar? Tenho dificuldade em achar que se tivesse os cabelos totalmente pretos as minhas colegas de faculdade me olhariam com um olhar concupiscente. A minha idade vê-se em tudo o que sou, o que digo e como digo. Acharão os homens que terão mais sucesso junto do sexo oposto se tiverem uma gaforina orgulhosamente negra? Será então uma questão estética? A prova evidente de uma certa decadência física.

Olho-me ao espelho: não morrerei careca, não tarda tenho o cabelo todo branco. Não engano ninguém quanto à idade que tenho - nem sequer pretendo, na minha racionalidade mais pragmática e destruidora. O que eu queria mesmo era perder uns quilos...

JdB  

terça-feira, 25 de junho de 2019

Poemas dos dias que correm

yes, i remember

lembro-me bem desse tempo sem e.mail,
computador, browser, messenger, blogs.
lembro-me bem desse tempo de papel,
desenhado a tinta com cor, cheiro, textura.
lembro-me bem do tempo em que se desenhava a palavra amor,
seus contornos, sublinhados, traços,
até das sombras e da parte escura.
lembro-me bem da fisicalidade desse escrever,
agora em que a electrónica é nossa senhora,
em que os dedos são já só bites e baites,
em que em vez das noites certas, temos só 'the right nights'.

às vezes apetecia viajar no tempo,
reaparecer numa fila dos correios
ansiosos pela espera da nossa vez,
comprar selos,
inundar os lábios de cola,
fazer da carta a semiótica de uma reencontrada pureza,
voltar são e salvo à criança que fomos (infância à mesa),
um cavaleiro reinvestido
da távola redonda que resta:
escola dos sentimentos altos,
gestos elevados, carácter nobre.
deixar para trás este futuro que anuncia 'e.ouro'
mas nunca deixa de ser moderado cobre.

tinta, papel, dedos,
coração em risco de comoção
escrever como dantes, sem medos,
arder de amor no frio
e morrer branco e puro
em cada ínfima inundação.

gi

* publicado originalmente a 8 de Maio de 2009

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Duas Últimas

Passei os últimos dias a trabalhar intensamente na tradução de um livro de que falarei um destes dias. Percorri abundantemente os olhos pela Summa Theologica de S. Tomás de Aquino e só lamentei não ter menos 20 anos e saber o que sei hoje, talvez percebesse mais do que percebi. 

Como contraponto à densidade de S. Tomás, deixo-vos com a intensidade de Concha Buika, para aqueles que gostam de coisas intensas, densas, roucas e vindas directamente da alma. Há uma pessoa que põe o seguinte comentário: Javier la mira con una admiración y fascinación absoluta.... a mí, ni mi madre me ha mirado así...

JdB



En la penumbra de esta noche divina y prieta
sobre la tundra que puebla mi alma siempre despierta
se oye un lamento como preludio de las horas muertas
horas que pasan con la agonía de una muerte lenta
vuelve el silencio a vestirme de oro mi santo
vuelve el recuerdo de mis abuelas a endulzar mi espera
vuelven los discos que me enseñaron a adorar la música
volvió mi padre después de 20 años, ay si tú volvieras

si tú volvieras, te vestiría de oro mi santo
callaría las cosas para que pudieras oír mi canto, desesperado

si tú volvieras, te vestiria de oro mi santo
que se calle todo para tú puedas oír mi canto, desesperado

En la penumbra de esta noche de brillante dulce de luz oscura
se oye la voz de mi recuerdo solo caminando lento
se oye el recuerdo de quien quisiera morir en el intento
ay cómo quisiera, ay cómo quisiera quererte menos
ay como quisiera quererte menos y más oscura quisiera quererte lento
no más penurias a la hora de amarte, no más tormento
y si se hicieran realidad todos mis locos sueños
yo dejaría de soñarte tanto y adorarte lento

si tú volvieras, te vestiría de oro mi santo
callaría las cosas para que pudieras oír mi canto, desesperado

si tú volvieras, te vestiría de oro mi canto
callaría las cosas para que pudieras oirme tanto, desesperando.

domingo, 23 de junho de 2019

XII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 9,18-24

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Um dia, Jesus orava sozinho,
estando com Ele apenas os discípulos.
Então perguntou-lhes:
«Quem dizem as multidões que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns, João Baptista; outros, que és Elias;
e outros, que és um dos antigos
profetas que ressuscitou».
Disse-lhes Jesus:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu:
«És o Messias de Deus».
Ele, porém, proibiu-lhes severamente
de o dizerem fosse a quem fosse
e acrescentou:
«O Filho do homem tem de sofrer muito,
ser rejeitado pelos anciãos,
pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas;
tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia».
Depois, dirigindo-Se a todos, disse:
«Se alguém quiser vir comigo,
renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz todos os dias e siga-Me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
salvá-la-á».

sábado, 22 de junho de 2019

Poemas dos dias que correm

Conserto a Palavra

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

Daniel Faria, in "Homens que São como Lugares Mal Situados"

***

Exactidão

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá:
sentido do não-vivido
a que fica reduzido
o que, escolhido, não há.

Do imo do poder ser,
onde o não-sido se arrasta,
ouvi cadências crescer:
vaga música de ter,
na vida, quanto não basta -

quanto um sentido se entenda,
que nem verdade ou mentira.
(Que o que dele se aprenda
é como cobarde venda
para que a luz nos não fira.

Luz sem luz, brilho da treva
que tudo no fundo é;
e a certeza que se eleva
do fundo da própria treva,
de exacta que seja, é.)

Levam justiça consigo
as palavras que dissermos.
Por quanto sentido antigo,
nelas ficou por castigo
o futuro que tivermos.

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá.
É justo, injusto - o escolhido?
Como quereis que, vivido,
ele não seja o que será?

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Textos dos dias que correm

Faço selfies, logo existo

Num texto premonitório, o escritor Paul Valéry vaticinou, em 1928, que do mesmo modo como a água ou o gás das canalizações chegam, sem um esforço direto nosso, às nossas casas, assim viria o dia em que nos alimentaríamos de imagens, que nasceriam e se extinguiriam automaticamente.

Esse dia chegou, e é servido em doses sobreabundantes, uma torrente que nenhuma torneira é capaz de controlar. Fotografar tornou-se um ato espontâneo, uma forma rápida de comunicação, uma expressão banal e engraçada das nossas sociabilidades.

Um texto da psicanalista Elsa Godart, “Faço selfies, logo existo”, mostra bem o que está em jogo, de forma declarada ou latente, numa tal inundação de imagens que diariamente nos submerge.

Trata-se de um desesperado desejo de ser, ainda que não saibamos o quê; a vontade compulsiva de partilhar que estivemos ali, naquele momento, naquela situação e naquele lugar, sobrepondo o nosso exibicionismo a qualquer outra partilha de razões e ou de sentido.

Recebemos e transmitimos imagens que se considera que aumentam, colocadas na rede, a realidade. A verdade é que o seu resultado, na maior parte dos casos, redunda num imenso empobrecimento comunicativo.

Quando reduzimos o mundo a uma acumulação de imagens simplificadoras, as imagens simplificadoras substituem-se à complexidade do mundo.


D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 19.06.2019

Solenidade do Santíssimo Sangue e Corpo de Cristo

EVANGELHO Lc 9, 11b-17

Naquele tempo,
estava Jesus a falar à multidão sobre o reino de Deus
e a curar aqueles que necessitavam.
O dia começava a declinar.
Então os Doze aproximaram-se e disseram-Lhe:
«Manda embora a multidão
para ir procurar pousada e alimento
às aldeias e casais mais próximos,
pois aqui estamos num local deserto».
Disse-lhes Jesus:
«Dai-lhes vós de comer».
Mas eles responderam:
«Não temos senão cinco pães e dois peixes…
Só se formos nós mesmos
comprar comida para todo este povo».
Eram de facto uns cinco mil homens.
Disse Jesus aos discípulos:
«Mandai-os sentar por grupos de cinquenta».
Assim fizeram e todos se sentaram.
Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu
e pronunciou sobre eles a bênção.
Depois partiu-os e deu-os aos discípulos,
para eles os distribuírem pela multidão.
Todos comeram e ficaram saciados;
e ainda recolheram doze cestos dos pedaços que sobraram.





quarta-feira, 19 de junho de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

MANJERICOS COM BOA POESIA

A tradição dos versos populares de pé quebrado é muito antiga e remontará aos trovadores e jograis da Idade Média, que deambulavam de aldeia em aldeia. Seguiu-se a gravação dos dizeres mais sonantes em bilhas de barro e faianças de todos os tamanhos ou no azulejo que as tascas gostavam (muitas ainda gostam) de exibir em lugar de visibilidade. Chegaram também aos têxteis, bordados em lenços, xailes, colchas e toalhas de mesa.  

Bem à portuguesa, a tradição ganhou pujança nos serões de fado à desgarrada, improvisando-se sobre o momento para brincar com os convivas e, mais ainda, com os ausentes de peso. 
As festas dos Santos, no prelúdio do Verão, proporcionaram outro terreno fértil para esse versejar espontâneo e livre. Habilmente, a pequena quadra divertida e maximamente personalizada foi associada à “erva dos namorados” – o Manjerico – que os apaixonados ofereciam às amadas durante as festas de Junho, para selar um voto ou oficializar um pedido. Acrescentavam-lhe um cravo de papel em cor garrida e num pequeno estandarte seguia a mensagem talhada segundo a destinatária. 



A novidade foi o contributo de bons poetas para as missivas passadas através daquela planta redonda, muito aromática e de dimensões portáteis, que as felizes contempladas deviam cuidar até ao ano seguinte. Mantendo o sentido de humor e, por vezes, também o pendor didáctico de outrora, Aleixo e Pessoa terão sido dos mais pródigos e inspirados. No caso de Pessoa, nem aquelas simples composições escaparam ao seu clamor angustiado, que se ressente da incompletude da condição humana. Em toda a sua poesia perpassa sofrimento e boa dose de desilusão, a par de uma avidez de verdade segundo a sua perspectiva:  


«SE EU TE PUDESSE DIZER  /  O QUE NUNCA TE DIREI
TU TERIAS QUE ENTENDER /AQUILO QUE NEM EU SEI.» 


«Quantas vezes a memória 
Para fingir que inda é gente, 
Nos conta uma grande história 
Em que ninguém está presente.

Cantigas de portugueses 
São como barcos no mar 
Vão de uma alma para outra 
Com riscos de naufragar.

Saudades, só os Portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.

Depois do dia vem noite, 
Depois da noite vem dia 
E depois de ter saudades 
Vêm as saudades que havia.

Se há uma nuvem que passa 
Passa uma sombra também. 
Ninguém diz que é desgraça 
Não ter o que se não tem. 

Nuvem do céu, que pareces 
Tudo quanto a gente quer, 
Se tu, ao menos, me desses 
O que se não pode ter! 

Vai alta a nuvem que passa. 
Vai alto o meu pensamento 
Que é escravo da tua graça 
Como a nuvem o é do vento. 

O burburinho da água 
No regato que se espalha 
É como a ilusão que é mágoa 
Quando a verdade a baralha. 

Levas uma rosa ao peito
E tens um andar que é teu ...
Antes tivesses o jeito
De amar alguém, que sou eu.

Rosmaninho que me deram, 
Rosmaninho que darei, 
Todo o mal que me fizeram 
Será o bem que eu farei.»


Aleixo esgueira-se com mestria pela veia irónica, como é seu apanágio, filosofando e admoestando:

«Após um dia tristonho
De mágoas e agonias
Vem outro alegre e risonho:
São assim todos os dias.

Eu não sei porque razão  
Certos homens, a meu ver,
Quanto mais pequenos são,
Maiores querem parecer.  

Para não fazeres ofensas  
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.»

Frei Hermano da Câmara abrilhanta uma sequência de quadras modestas com a sua voz cristalina:

«Toma lá colchetes d'oiro,
Aperta o teu coletinho,
Coração que é de nós dois
Deve andar conchegadinho.»



João de Deus replica a tal ponto o estilo tradicional, que mal se distingue do quarteto popular:

«Não digas que me amas
A ver se tenho ciúme
Os laços de amor são chamas
E não se brinca com lume.»

Honrando a língua de Camões, no Brasil descobrimos estrofes carregadas de poesia e emoção, no linguajar colorido e interpelativo das gentes do Novo Continente:

«Saudade, lembrança triste
de tudo que já não sou...
Passado que tanto insiste
em fingir que não passou...

Infância é um brinquedo usado
que um dia a vida resolve
tomar um pouco emprestado
e nunca mais nos devolve!

Ante as sandálias furadas
que entre cascalhos gastei,
não culpo o chão das estradas,
culpo os maus passos que dei!

Eu suplico: “Volte breve”,
num bilhete... e na verdade,
a esperança é quem escreve
e quem assina é a saudade!...

Meu lenço, na despedida,
tu não viste em movimento:
- Lenço molhado, querida,
não pode agitar-se ao vento!

Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia...
- Dentro da casa, saudade,
e, na saudade... Maria!

A vida, às vezes, resume
contrastes deste teor:
Só se morre de ciúmes
quando se vive de amor.»

Mesmo Chique Buarque de Holanda escreveu trovas ao jeito das quadras dos manjericos, acentuando-lhes a conotação política e mais um verso para formar um quinteto. Excerto da letra de «Partido Alto»:

«Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio
 Pele e osso simplesmente, quase sem recheio
 Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio
 Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio
 Que eu já tô de saco cheio.
 […]
 Deus me deu mão de veludo prá fazer carícia
 Deus me deu muita saudade e muita preguiça
 Deus me deu perna cumprida e muita malícia
 Prá correr atrás da bola e fugir da polícia
 Um dia ainda sou notícia.»

Em excertos de outros poetas da Terra de Vera Cruz, a fidelidade ao padrão do quarteto popular português é notória, somando-se o sentido de humor brasileiro:

 «Eu [a porta] fecho a frente da casa
 Fecho a frente do quartel
 Eu fecho tudo no mundo
 Só vivo aberta no céu!»  - Vinicius de Moraes, última estrofe de «A Porta»

«Todos estes que aí estão
 Atravancando o meu caminho,
 Eles passarão.
 Eu passarinho!»   - Mário Quintana in «Poeminha do Contra»

Que não falte inspiração e alegria nas Festas dos Santos, cujo repertório poético, de algum modo, aproxima as duas margens do Atlântico e os dois hemisférios – Norte e Sul!


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 18 de junho de 2019

Poemas dos dias que correm

A Minha Religião é o Novo

A minha Religião é o Novo.
Este dia, por exemplo; o pôr do Sol,
estas invenções habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a água. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante único.
Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso
Frasco).
Dele também se podia dizer, como homenagem:
Hóspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hóspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que
nunca chega, que nunca será útil, dizer dele:
em todo o lado é hóspede,
e em todo o lado é Discreto.

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

***

A Força Exacta é Violência

a Força Exacta é violência.
a Força em espirro, ao acaso, não é violência, é existência.
O mal é Fixar a Força (direccioná-la) porque a natureza espon-
tânea não o FAZ.
Natural é ser FORTE, isto é, avançar.
Violento é o Percurso que antecede o viajante. Antes dos pés:
Sapatos; a estrada.
A Força Exacta é violência.
A natureza não tem, nunca teve, Forças EXACTAS.
E tudo o que o homem faz é tornar exacta a FORÇA.
Ser violento é construir; todo o Edifício é violência.
O homem é o Exacto da Natureza; a falha NATURAL; o Erro.
Deus errou:
fez o homem EXACTO.

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Do desporto e outras patetices

Há uns anos foi-me diagnosticada uma rotura de ligamentos irreversível num pé. Na minha proverbial ignorância - e até esse momento inesquecível de esclarecimento tardio - achava que ligamento era uma palavra do foro desportivo, como médio-ala, florete, falso lento e bola medicinal. Hesitei, na elaboração do rol, na utilização de fato de treino. Na verdade, já fez e talvez venha a fazer parte do vocabulário desportivo; numa dada altura, e pelos piores motivos, passou a ser incorporado na classificação vestuário, tal como calças de fantasia, cuecas, meias de cano alto ou popelina. 

Regresso aos ligamentos. Surpreendeu-me o facto de também ter ligamentos, eu que tenho pelo exercício desportivo o mesmo sentimento que a natureza tem ao vácuo: uma espécie de horror. Se o facto de ter ligamentos me irmanava, ainda que numa pequeníssima fracção, aos grandes atletas, a ideia de ter uma rotura de ligamentos  - e disso poder falar com um certo orgulho parcimonioso e enganador - dava-me uma determinada aura, como algo que se adquire novo mas já dotado de uma patine surpreendente e valiosa. 

A honestidade não me chega por via da virtude, mas da consistência do discurso; ou seja, não minto, não porque tenha uma espécie de nojo ético à falsidade, mas porque sou fraco mentiroso. Como naquele jogo em que ganha a pessoa que estiver mais tempo sem dizer sim ou não, toda a mentira é, em mim, um esforço que denuncio sem arte nem persistência. É por isso que tenho de referir que a rotura de ligamentos não me atingiu por via do desporto, mas de um descuido: coloquei mal o pé na escada de um apartamento onde fui moderadamente infeliz; o destino puniu-me já eu me despedia da casa e, entre o pé mal colocado e a entrega da chave à senhoria, não passou mais de 1 hora. Morri na praia - de contas acertadas e um artelho torcido.

Vem tudo isto a propósito do que oiço constantemente: fulano partiu uma omoplata a fazer ciclismo de corta-mato, beltrano rachou um osso a jogar futebol, sicrano abriu a cabeça na prática violenta do ski. Ora, não me parece que alguma vez tenha ouvido que fulano partiu uma omoplata a redigir uma tese de doutoramento, beltrano rachou um osso na contemplação da suave rotina das marés, sicrano abriu a cabeça na escuta atenta de um Requiem, sobretudo se for o de Mozart. O desporto, e penso que o pensamento é cimeiro na lista dos lugares-comuns, é de uma perigosidade extrema, e o Estado deveria sobrecarregar fiscalmente os desportistas, deixando os obesos em paz na sua gordura imóvel e inócua.

Daqui por 50 anos os meus bisnetos falarão de mim com a ternura falsa que devotamos aos que não conhecemos, mas de quem nos falam com desvelo. Citarão histórias a meus respeito, repetirão com orgulho os elogios que me fizeram, e que me assentam menos por via das minhas virtudes humanas, e mais pelas minhas qualidades de vendedor de feira, perito na arte do logro. E rematarão: coitado, parece que comia carne. Perante a necessidade de pedir desculpa aos animais de terra, do ar e do mar que aquele seu antepassado deglutia com laivos de pecado, sobra-lhes o conforto de poder dizer: ao menos não fazia desporto

Alguém inventou, como benéfica, a dieta do paleolítico. Alguém inventou, como benéfica, a prática do desporto. Comer mamutes parece ser, para alguns iluminados, uma opção de vida inquestionavelmente saudável, ainda que difícil. Para outros, o esplendor da saúde seria perseguir os ditos animais a pé, antes mesmo de os cozinhar a fogo lento. As minhas convicções de homem moderadamente esclarecido duvidam dessa dieta, como duvidam da virtude de um desporto que imprima um ritmo que acelere o coração para além do que acontece quando nos apaixonamos pela primeira vez; parece-me, aliás, do mais elementar bom senso definir esse ritmo cardíaco como um limite superior. Um dia mais tarde, creio e espero eu, se provará os enormes malefícios do desporto a não ser com uma valência de entretenimento, como ouvir a Marisol ou ler banda desenhada; um dia seremos lembrados por termos comido carne e por nos termos agitado freneticamente sem razão. Seremos, em 2069, os esclavagistas do século XXI, olhados com desdém retrospectivo.

Não serei vegetariano e não farei desporto. Sobre mim ficam memórias de carnívoro e de sedentarismo persistente. Aos meus bisnetos cabe-lhes 50% de alegria, o que já não é de deitar fora.

JdB      

domingo, 16 de junho de 2019

Solenidade da Santíssima Trindade

EVANGELHO – Jo 16,12-15

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Tenho ainda muitas coisas para vos dizer,
mas não as podeis compreender agora.
Quando vier o Espírito da verdade,
Ele vos guiará para a verdade plena;
porque não falará de Si mesmo,
mas dirá tudo o que tiver ouvido
e vos anunciará o que está para vir.
Ele Me glorificará,
porque receberá do que é meu
e vo-lo anunciará.
Tudo o que o Pai tem é meu.
Por isso vos disse
que Ele receberá do que é meu
e vo-lo anunciará».

sábado, 15 de junho de 2019

Textos dos dias que correm

O Solitário

O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.
(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Duas Últimas



Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaitre

Conheci esta música interpretada por Charles Aznavour: uma música poderosa, uma letra poderosa, uma interpretação poderosa. Ouvir a interpretação desta rapariga  - e confesso que não ouvi mais do que meio minuto - é perceber o espanto: como é que se cantam coisas que não se percebem, como se fosse um esquimó a cantar o fado Mouraria por via do conhecimento de fonética?

A rapariga não tem vinte anos e, não obstante, canta uma música que fala de um tempo que os que têm menos de vinte anos não podem conhecer. Não é conhecer do ponto de vista de não ter vivido - é não conhecer porque não há experiência de vida para tal.

Devemos cantar palavras que não conhecemos, realidades que não conhecemos, tempos que, não só não vivemos, como não fazemos ideia do que foram, porque não temos informação digerida internamente? Ela sabe o que era La Bohème? Do que fala o cantor quando diz que comiam dia sim dia não; saberá o que significa, na verdade, et toi qui posais nude?

Não tenho uma dúvida de que a rapariga canta bem. Estamos, porém, a falar de um número de circo - piruetas seguidas, arcos manuseados com garbo e arte, caniches que jogam à bola, braços fortes que agarram outros menos fortes num voo arriscado.

Interpretar é perceber o que se canta, encontrar sentido e significado às palavras, dar-lhes rugosidade, vida. Se não for assim é força de braço sem conhecimentos de aerodinâmica, é teclas de calculadora sem perceber a mecânica dos integrais duplos.

JdB   

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Poema e oração para o dia de hoje

Passeio de Santo António

Saíra Santo António do convento
A dar o seu passeio acostumado
E a decorar num tom rezado e lento
Um cândido sermão sobre o pecado.

E andando...andando sempre
Repetia o seu divino sermão suave e brando
E nem notou que a tarde esmorecia
E vinha a noite plácida baixando

Andando... andando, viu-se num outeiro
Com árvores e casas espalhadas
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua, das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe
E cansado por haver andado tanto
Sentou-se a descansar o bom do monge
Com a resignação de quem é um santo.

O luar, um luar claríssimo nasceu
Num raio dessa linda claridade
O Menino Jesus baixou do céu
E pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante
Juntava os seus murmúrios ao dos pinhais
Os rouxinóis ouviam-se distantes
O luar, mais alto, iluminava mais

De braço dado para a fonte vinha
Um par de noivos todo satisfeito
Ela trazia no ombro a cantarinha
E ele trazia o coração no peito.

Sem suspeitar que alguém os visse
Trocaram beijos ao luar tranquilo
O Menino porém ouviu e disse:
- Oh, frei António, o que foi aquilo?

O frei erguendo a manga do burel
Para tapar o noivo e a namorada
Mentiu numa voz doce como o mel
- Não sei que fosse, eu cá não ouvi nada.

Uma risada límpida, sonora, cristalina
Ecoou como notas de ouro sobre o caminho.
- Ouviste frei António, ouviste agora?
- Ouvi Senhor, ouvi, é um passarinho.

- Tu não tens com a cabeça boa.
Um passarinho? E a cantar assim?
E o pobre Santo António de Lisboa,
calou-se embaraçado.

Mas por fim, corado como as vestes dos cardeais
Teve esta saída redentora
- Se o Menino Jesus pergunta mais
Queixo-me a sua Mãe, Nossa Senhora.

E voltando-lhe a carinha contra o vento
E contra aquele amor, sem casamento
Pegou-lhe ao colo e disse:
Jesus, são horas! E abalaram para o convento

Augusto Gil

***

Responso a Santo António

Se milagres desejais,
Recorrei a Santo António;
Vereis fugir o demónio
E as tentações infernais.

Recupera-se o perdido.
Rompe-se a dura prisão
E no lugar do furacão
Cede o mar embravecido.

Todos os males humanos
Se moderam se retiram,
Digam-no aqueles que o viram,
E digam-no os lusitanos.

Recupera-se o perdido.
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte,
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são.

Recupera-se o perdido.
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo.

Recupera-se o perdido.
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido.

Rogai por nós, bem-aventurado António.
Para que sejamos dignos das Promessas de Cristo.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Das perguntas como espécies desaparecidas


Fotografia tirada da net

Ernest Shackleton partiu de Plymouth para o Polo Sul a 8 de Agosto de 1914. A viagem a que ele se propunha foi um rotundo fracasso - não chegou ao destino. No entanto, toda a viagem do explorador inglês é um acto de enorme heroísmo: nas piores condições atmosféricas possíveis, sem comunicações, sem barco, com pouca comida, com uma equipa debilitada, com um frio antártico e sem cães, que foram sendo abatidos por questões de necessidade, conseguiu empreender o resgate de todos. Não ficou ninguém para trás.  

Em 1916 chegou a Elephant Island, na Antártida, um espaço reclamado pela Argentina, pelo Chile e pelo Reino Unido. Uma das primeiras frases que proferiu, dirigida ao responsável pela estação baleeira, foi na forma de pergunta: "diga-me, quando é que acabou a guerra?". A resposta foi cruel: "a guerra não acabou, há milhões de pessoas a morrer. A Europa enlouqueceu. O mundo enlouqueceu." 

Durante dois anos, Shackleton não teve notícias da Europa. Não porque não quisesse - tanto que se interessou - mas porque não conseguia. Não havia tecnologia. Shackleton era um explorador exactamente por isso - porque não havia tecnologia; hoje já não seria, porque onde quer que estivesse poderia falar com a mulher, ver os cães, saber notícias da vizinha do terceiro andar ou da política. Já ninguém é obrigado a estar dois anos incomunicável - ou se quer ou não se quer. 

A fotografia acima foi tirada no topo do Everest. A curiosidade não está na desolação da geografia ou no colorido dos fatos. O interessante da fotografia é o facto de revelar um engarrafamento. Num certo sentido caricatural, ir ao Everest é, hoje em dia, semelhante a ir à feira do livro num feriado: as pessoas amontoam-se, e temos de pedir com licença para nos chegarmos a um renque de livros em promoção. Todas estas pessoas que se veem na fotografia quiseram isso mesmo - picar uma espécie de ponto, tirar uma selfie, publicá-la em tempo real no instagram ou no facebook, falar com a namorada, a mãe, os filhos, o patrocinador.

Parece que a varíola já só existe em frascos. Parece que a ideia de explorador já só existe em livros de aventuras. Um dia haverá uma máquina de senhas para chegar ao topo do mundo, as pessoas acotovelar-se-ão para lá chegar, talvez empurrem um desconhecido para não correrem o risco de falhar o alvo, de não chegar lá acima em tempo útil.

"Tell me, when was the war over?" A frase, mais do que uma pergunta em inglês correcto, tem o encanto terrível das espécies desaparecidas. 

JdB   

terça-feira, 11 de junho de 2019

Ainda ando aqui *

Não percebo o que se passa, Catarina. Ainda ontem, nós os dois, sozinhos no teu par de assoalhadas com vista para o metro de Odivelas, nós os dois no teu sofá verde e velho com buracos nas braçadeiras e cheiro a rebuçado, nós os dois num carrossel de risos e tremores, de cócegas e amores, nós os dois tão felizes e sem tempo contado. Não percebo o que se passa, Catarina. Ainda ontem, nós os dois, e tu tão feliz comigo, a contares a tua tarde enquanto empurravas um macarrão riscado pelo prato, e eu tão feliz contigo, a soprar-te bolas de sabão enquanto lavava os copos. Não percebo o que se passa Catarina. Ainda ontem, nós os dois, a fazer planos para o fim do mês, eu que queira ir para a praia e tu que querias ir ao Gerês, e agora nem me falas, e parece que não me vês. Não percebo o que se passa, Catarina. Ainda ontem era dia cinco, como é que no teu calendário já é vinte e três? Porque é que estás assim de preto, Catarina, que ficas tão linda de flores, ou às bolinhas? Porque é que não me abriste a porta quando chamei e como é que entrei? Não percebo o que se passa, Catarina!

Zdt

* publicado originalmente em 8 de Junho de 2010

segunda-feira, 10 de junho de 2019

10 de Junho de 2019

O INFANTE

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

s.d.
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 57.

***


Poema de Rodrigo Emílio tirado daqui

domingo, 9 de junho de 2019

Solenidade do Pentecostes

EVANGELHO – Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

sábado, 8 de junho de 2019

Pensamentos Impensados *

A língua portuguesa é muito traiçoeira; ouvido na televisão:
-A mãe pediu o poder paternal...
-No âmbito do processo Casa Pia, foi ouvido um surdo-mudo...

As "pequenas" que praticam "strip tease" devem ter alguma carne para não serem apelidadas de "strip" tísicas.

Os afro-asiáticos são parentes afastados dos afrodisíacos.

Os coevos eram um povo que viveu no tempo dos contemporâneos.

Os peixes podem ter apetites carnais?

Poderá dizer-se o "dia-a-dia" do guarda-nocturno?

O quilómetro será uma medida de peso? não me parece embora tenha visto um letreiro a dizer Peso da Régua ,5 quilómetros.


SdB (I)

* publicado originalmente em 18 de Janeiro de 2010

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Duas Últimas *

Nunca fui ao Brasil, nestes anos que levo de vida, que já não são assim tão poucos! Nem mesmo quando um grande amigo meu viveu e trabalhou em Brasília como diplomata, uma grande oportunidade de acrescer conhecimento que desperdicei ingloriamente. Usando uma linguagem mais jurídica, diria que se trata de uma grave lacuna, que espero suprir em breve.

Como sabemos, trata-se de um país, quase um continente, excepcional: na dimensão, nas belezas naturais, na literatura, na música, no futebol e em tantas outras coisas. Com perto de 200 milhões de almas que falam português, factor critico que Portugal poderia e deveria ter aproveitado melhor no seu (suposto) desenvolvimento estratégico, pois aí tínhamos algumas vantagens sobre os vizinhos europeus. Mas só tivemos olhos para a Europa e para os euros fáceis (até pelo TGV desesperamos!), os resultados estão à vista. Adiante, que não é para isto que fui desafiado pelo dono do blogue.

Zélia Duncan é uma cantora/ compositora brasileira nascida em Niteroi em 1964. Escolhi-a entre meia dúzia de compatriotas de que muito gosto e que poderão estar aqui numa próxima oportunidade. Gosto da letra e da abordagem da solidão, da forma como a música se desenvolve e, sobretudo, da voz de Zélia nesta sua magnifica interpretação ao vivo de Catedral. Arrepia-me sempre que a ouço. Telhados de Paris é outra excelente música que recomendo.

Espero que gostem.


fq




*publicado originalmente a 1 de Março de 2011

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Poemas dos dias que correm

Kyrie

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

José Carlos Ary dos Santos, in A liturgia do sangue (1963)

***

Minha Mãe que não Tenho

Minha mãe que não tenho    meu lençol
de linho    de carinho    de distância
água memória viva do retrato
que às vezes mata a sede da infância.

Ai água que não bebo em vez do fel
que a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que eu não oiço    ai mãe    ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que Egipto vieste?    De que Ganges?
De qual pai tão distante me pariste
minha mãe    minha dívida de sangue
minha razão de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho    minha força
sumo da fúria que fechei por dentro
serás sibila    virgem    buda    corça
ou apenas um mundo em que não entro?

Minha mãe que não tenho    inventa-me primeiro:
constrói a casa    a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo    que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.

José Carlos Ary dos Santos, in Antologia Poética 

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Vai um gin do Peter’s ?

VASTIDÃO DO CÉREBRO PARA ALÉM DAS ESTRELAS – na Gulbenkian, até 10 de Junho

Aprofundar o cérebro, enquanto estrutura biológica mais complexa da natureza, é o desafio científico e cultural que a Gulbenkian (1) proporciona ao público, até ao próximo Domingo. A simples visão das metamorfoses operadas pelas infinitas ligações neurológicas produzidas no cérebro humano, a cada centésimo de segundo, redunda numa aventura imperdível e de uma beleza estonteante. 

Iluminado por luz branca, lembra uma peça de joalharia.

Centro motriz e sensorial – Movimento e Sensação /Motor and Somarosensory Cortex

Apesar das enchentes, vale a pena ir à sede da Fundação ouvir, em sentido literal, a actividade do nosso cérebro, desbravar o funcionamento do órgão mais prodigioso que conhecemos, perceber a lógica e o âmbito de acção da Inteligência Artificial, assistir à azáfama ininterrupta de pequenos robots encarregues de pintarem uma tela por semana a partir de uma programação-base que permite às máquinas um espectro infindável de opções, como se fossem livres… E assim penetrarmos num horizonte que desconhece os limites do céu, suplantando a vastidão cósmica.  

O neurocientista e artista Greg Dunn denominou «self reflected» à série de imagens explicativas do modus operandi do cérebro humano [in http://www.gregadunn.com/self-reflected/the-neuroscience-behind-self-reflected/]

Esquematização simplificada para localizar as diferenciar  os centros operativos das inúmeras funções cerebrais.

O neurocientista norte-americano Greg Dunn somou duas paixões – a investigação da estrutura da mente e do comportamento humanos e a arte que replica o esplendor visual desse frenesim das conexões sinápticas que interligam 86 biliões de neurónios. Mal terminou o doutoramento em neurociências (2011), lançou-se na captação de imagens do cérebro, aplicando-lhes luz e cor para diferenciar as infinitas ligações e as múltiplas funcionalidades localizadas na caixa craniana. Chamou-lhe arte neuro-científica e nem disfarçou o fascínio da colecção recolhida, intitulando-a de «O MILAGRE DO SEU CÉREBRO EM COR»:


NEURAL MIGRATION

Dunn e o físico Brian Edwards inventaram ainda uma técnica de transposição de imagens do cérebro para litografias, por efeito de contraste. A nova série foi denominada de «Self Reflected», por pretender revelar a natureza da consciência humana colocando a par duas perspectivas impossíveis de conciliar nas observações, embora o resultado se aproxime da realidade: o plano macro do funcionamento global do cérebro e o plano micro da movimentação frenética dos neurónios. 

A simplicidade da arte oriental perpassa nas imagens que a dupla de cientistas-artistas captou, indo ao encontro das preferências pictóricas assumidas por Dunn: «I enjoy Asian art. I particularly love minimalist scroll and screen painting from the Edo period in Japan. (…) I admire the Japanese, Chinese, and Korean masters because of their confidence in simplicity. (…) (The cells that comprise your brain) can be painted expressively in the Asian sumi-e style. Neurons may be tiny in scale, but they possess the same beauty seen in traditional forms of the medium (trees, flowers, and animals).»


SPINAL CORD. 



Sobre o sentido geral daquelas incursões neurocientíficas e posterior aplicação à arte, Dunn explicou: «When I was a kid, I used to ask the question, “Is there any single thing that every person has?” Material things are eliminated, periphery body parts are out. The brain is really the only thing that we all have. It’s the common denominator. I want people to understand that the brain is a miracle. It’s the most sophisticated machine, or piece of biology, in the universe that we know of. It’s at the fundamental root of everything that we ever will do and who we are. It’s important to remember that sometimes. Part of the reason that I chose some of the materials that I use, like gold, is to give the brain it’s lofty due. (…)  I want people to have an idea what their brain really is. There are billions of things happening in your brain at every instant – it will always be that way. It’s vain to think that nature’s beauty ends at the narrow band of what we see and hear and perceive. (…) It really is a humbling thing to think about how different people’s brains are. How similar they are from a macroscopic standpoint, but when you get into the details, the completely different sets of memories, it’s a very humbling thing to think about.» 

À americana, criou também posters para venda online, estando vários em contínuo “esgotado”. Resultam em telas lindas com toque intergaláctico, no limiar de um maravilhoso mundo novo. Percebe-se por que mereceram lugar de honra na Gulbenkian, abrindo a exposição ao som de música composta por Rodrigo Leão, numa parceria muito feliz: 


Apetece citar alguém que assistiu a um desfile de modelos praticamente nuas e teve esta saída bem humorada: «Isso não é obra tua! É obra de Deus!» Quem diria que uma grandeza tão espantosa habitava a mente humana? Dá para perceber por que é mais vasta do que o céu…


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
 (1) https://gulbenkian.pt/fcg_videos/viagem-ao-cerebro-mais-vasto-que-o-ceu/

terça-feira, 4 de junho de 2019

De uma certa ideia de fábrica

Num certo e desejável sentido arquitectónico, há uma semelhança entre o Outono e uma fábrica: a estação do ano que medeia o calor do Verão e as agruras do Inverno tem uma natureza centrípeta, ou seja, voltada para dentro. Uma fábrica - a arquitectura de uma fábrica - tem de estar voltada para dentro, isto é, tem também uma natureza centrípeta. A natureza centrípeta de ambas as realidades deve-se à necessidade de interioridade, não como perscrutação da alma, mas como segurança de um corpo que se fecha sobre si mesmo para se resguardar e proteger. O carácter centrípeto é protecção, apenas.  

Uma fábrica, como já o terei dito algures neste estabelecimento, é mais, muito mais, do que um alinhamento de máquinas, uma escala de trabalho, uma espaço geográfico onde se controlam efluentes gasosos ou líquidos, uma lista de vencimentos. Uma fábrica é um micro-cosmos, uma cidade - uma comunidade. É um espaço que obedece a regras próprias, onde cada elemento tem uma função própria, e esse carácter singular de seres humanos e de equipamento, não se repetindo noutras áreas da vida, repete-se indefinidamente naquela realidade. Um escritório, um atelier, um consultório, sendo espaços fundamentais para a sã convivência das pessoas com os outros e consigo próprios, não é um micro-cosmos. É um espaço onde se trabalha, se cria, se cura, se ajuda. Mas as actividades mudam de dia para dia, de minuto para minuto, de instante para instante.

Há algo no mundo que contraria a entropia para onde caminha, e que tende para a repetição. É esse carácter distintivo que lhe dá o encanto. Não se concebe uma fábrica sem a repetição sonora das bielas, dos órgãos em movimento, do atrito entre peças, dos sistemas de vácuo ou de rejeição das peças defeituosas. A protecção de uma fábrica não está na solidez dos rácios, na constâncias dos indicadores, na implementação de modernos sistemas de gestão. Uma fábrica sobrevive na, e pela, rotina das actividades e repetição dos sons, nas paredes altas - ainda que penetradas pela luz natural - que impedem, não as pessoas de sair, mas os estranhos de entrar. Uma fábrica fechada é um casulo onde as marés têm uma suave rotina, os dias se repetem e a música tem a previsibilidade dos futuros seguros. A arquitectura moderna das paredes de vidro, com um ângulo de visão rasgado de 360º, deitará por terra o sistema industrial mundial, remetendo-o à aparente modernidade que tudo iguala, dando a aparência que tudo diferencia. 

O Outono é centrípeto, a música triste é centrípeta; uma fábrica eficiente é centrípeta. Tudo o que deveria ser a vida.

JdB    

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Duas Últimas

Passamos uma vida a ouvir as mesmas Ave-Marias (é assim que se escreve, no plural?): de Gounod e de Schubert num tom mais erudito, ou a de Mascagni, que descobri depois de todas as outras. Há ainda a de Frei Hermano da Camara, num tom mais ligeiro, mas não menos bonita ou não menos susceptível de arrebatar muita gente. Disso sou testemunha: na missa, se o coro decide cantar esta Ave-Maria no final, a assembleia vai ficando a cantar. Sim, seré a devoção mariana, mas não deixa de ser acompanhada por aquela música.  

Comentarista anónimo, mas presumo que habitual, comentou o meu post relativamente a um texto do Padre Tolentino Mendonça sobre a Pietà de Miguel Ângelo. E falava desta Ave-Maria. Ouvi um pouco e gostei muito, e por isso aqui a publico, com o devido agradecimento ao comentarista anónimo que, derramando o seu mau feitio (dito por ele...) sobre o autor daquele texto, me ensinou algo valioso. Obrigado.

JdB

PS: Icónico, diz o dicionário, é aquilo que representa o modelo com fidelidade. Anónimo: acha que não faz sentido a utilização da palavra? Pergunto, não tendo opinião formada...

domingo, 2 de junho de 2019

Solenidade da Ascensão

EVANGELHO – Lc 24,46-53

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia
e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados
a todas as nações, começando por Jerusalém.
Vós sois testemunhas disso.
Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai. Por isso, permanecei na cidade,
até que sejais revestidos com a força do alto».
Depois Jesus levou os discípulos até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os.
Enquanto os abençoava,
afastou-Se deles e foi elevado ao Céu. Eles prostraram-se diante de Jesus,
e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria.
E estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus.

sábado, 1 de junho de 2019

Textos dos dias que correm



Pietà

Os biógrafos de Miguel Ângelo são unânimes em sublinhar a importância da figura materna na sua obra: perde a mãe desde criança, e em muitos momentos a sua arte será uma espécie de diálogo, evocação discreta ou puro grito, com esta figura ausente e, precisamente por isso, desmesuradamente presente.

Pensemos, por exemplo, na Pietà que se encontra na basílica de S. Pedro, no Vaticano, uma das imagens mais dolorosas e icónicas do cristianismo. A Mãe está sentada, e o Filho morto repousa no seu ventre. A Mãe tem um corpo enorme, capaz de acolher o corpo do Filho adulto, mas conserva o rosto de uma jovem em flor.

O corpo parece um bote, um salva-vidas, uma cidade-refúgio. O rosto, no entanto, desenha-se impávido, como se, através daquele sofrimento, olhasse para outro lugar, e se concentrasse não sobre aquela morte, mas na infância intacta do Filho.

É um enigma esta discordância aparente, e as hipóteses de explicação são numerosas: que Miguel Ângelo estivesse contagiado pelo neoplatonismo, segundo o qual a vida divina é impassível; que pretendesse reproduzir a forma dos rostos da escultura greco-romana, tão admirada pelo Renascimento; que citasse o teológico verso de Dante sobre os mistérios da Virgem, «filha do seu filho»; ou, simplesmente, que aquele rosto jovem fosse a imagem que um filho pode preservar da sua mãe perdida na infância.


D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Pietà" (det.) | Miguel Ângelo | Basílica de S. Pedro, Vaticano
Publicado pelo SNPC em 31.05.2019

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