domingo, 28 de fevereiro de 2010

2º Domingo da Quaresma

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago
e subiu ao monte, para orar.
Enquanto orava,
alterou-se o aspecto do seu rosto
e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente.
Dois homens falavam com Ele:
eram Moisés e Elias,
que, tendo aparecido em glória,
falavam da morte de Jesus,
que ia consumar-se em Jerusalém.
Pedro e os companheiros estavam a cair de sono;
mas, despertando, viram a glória de Jesus
e os dois homens que estavam com Ele.
Quando estes se iam afastando,
Pedro disse a Jesus:
«Mestre, como é bom estarmos aqui!
Façamos três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Não sabia o que estava a dizer.
Enquanto assim falava,
veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra;
e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem.
Da nuvem saiu uma voz, que dizia:
«Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O».
Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho.
Os discípulos guardaram silêncio
e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

A esperança de Margarida

Gonçalo a rir todos os dias que se seguiram, em que a Rosa ia subindo o tom das ordens que dava, pregava-lhe um beijo na testa e saia com um séquito querido pequenino atrás a fazer barulho. Distribuía-os a todos pelos colégios e finalmente entrava no seu escritório com luzes, cheiros, linhas e cores habituais a todos que andam no mundo por aí cada dia, sempre contente por voltar à sua rotina normal e numa atitude de luta perante todos iguais. Tinha uma empresa crescente de design com um sócio e amigo, o João, com quem costumava jogar squash e almoçar sandes, saladas, sumos e essas coisas sempre saudáveis para eles e para toda aquela geração, menos para a Rosa, claro, que achava que passavam todos fome!  

João Freitas era também da Cabreira e ao avô dele era o dono d’A Trombeta, o pequeno jornal semanal lá da terra sempre com notícias das pessoas que lá vivem, do dia em que fazem anos, do orfeão, do fórum e esse género de coisas. As indignações pelas soluções do trânsito, dos prédios que crescem pelos cantos, e assim! Tanto João como Gonçalo lembravam-se amiúde com ternura do velho José Freitas Júnior, avô do João, sempre curvado, pequenino e magrinho, nos últimos anos da sua vida ao volante de um enorme Ford Granada, o carro grande da terra, que veio depois do da Condessa quando este desapareceu da vida da vila. Este Ford era demasiado grande, elegante, sóbrio, austero, snob! Era usado todos os dias para ir de casa para o jornal e vice-versa, também ao fim de anos ainda estava novo e só conhecia as mãos e os pés do Senhor Freitas, sempre respeitador.  

A Trombeta eram duas salas no local mais central da vila, se é que isso podia existir, cheias de pastas, papéis e livros. Máquinas de escrever todas abauladas, cheias de design, uma ainda do tempo da guerra; cheiro a pó, a respeito e a seriedade, numa atitude de defesa contra a modernidade! Também o Senhor Lopes lá andava todos os dias, empregado desde não se sabe quando, com o cabelo empastado de brilhantina, gravata sempre preta num eterno luto, mangas da alpaca e uma tristeza sem fim nos olhos. O seu destino era servir o Senhor Freitas, sempre velho de fato com colete, a corrente do relógio preponderante e um ar constante de patrão. A casa dos Freitas, por seu lado, era uma típica moradia de província construída no princípio dos anos cinquenta, com vasos sem ser preciso, porque tinha terra a rodos por todos os lados, rendas em cima da televisão e uma sala de visitas onde nunca se entrava para não sujar os couros, a ceia de Cristo e as pratas pequeninas que a vida foi dando, de comemorações e isso. A Dona Deolinda Freitas, dona de tudo e da serenidade do dia-a-dia, gorda e corada com aventais de flores e folhos, cabelo grisalho apanhado em puxo no alto da cabeça e óculos redondos sobre uma eterna cara simpática, tinha atrás um quintal com hortaliças, galinhas e algumas laranjeiras; tudo ao serviço da sua cozinha. Cozinhar bem, mais do que um ponto de honra, era um destino. A Dona Deolinda fazia parte do grupo de senhoras que todas as semanas lanchavam em casa do Senhor Abade. Mesmo depois da Condessa ter deixado de ir por estar fraca, um terço era sempre por ela, durante meses a fio, entre todas, por todas e no coração de todas.  

O imponente Ford do Senhor Freitas veio substituir a grandeza do Pontiac da Condessa pelas ruas da Cabreira de casas toscas e prédios pretensiosos, todos os dias a rolar entre a Vivenda Deolinda e A Trombeta. Às terças-feiras quebrava a rotina pela porta vermelha do Abade Afonso onde descia a Dona Deolinda, sempre com as mesmas recomendações para ir devagar e com cautela, enquanto fechava a porta do carro com uma mão e segurava os bolinhos com a outra. E lá continuava o Senhor Freitas em direcção ao jornal, tipicamente curvado e de chapéu com ar zangado, como que a congeminar contra a vida e a ordem das coisas: as calças à boca de sino, a música que se ouvia aos berros, a guerra do ultramar, o preço das coisas, enfim, um rol de calamidades que tinha a missão de denunciar n’ A Trombeta. Escrevia sob vários pseudónimos para dar uma noção de mundo. Até mesmo a Dona Deolinda tinha a cargo o artigo “Culinária & Lavores” e assinava com o nome de solteira, sempre podia dar um ar mais abrangente! E sim, aquele Ford sempre ajudava a todo aquele ambiente digno, e o Senhor Freitas era considerado pelos seus iguais e respeitado pelos netos que tinha em Lisboa, principalmente pelo João, que adorava as férias da Páscoa em que se divertia à grande com o Gonçalo e em que tinham explicações de português e de matemática com a Dona Domingas, a professora primária da Cabreira tão prestável e ingénua como solteira e beata! As más notas eram mais do que inevitáveis: eram obrigatórias! Tinham um óptimo pretexto para passarem as tarde juntos a andar de bicicleta e a fumar às escondidas. Os lanches de leite e pão com manteiga em casa das avós ou tias ficaram para sempre na memória de ambos.  

Já que a pequena casa onde vivia tinha sido herdada dos pais, o único grande investimento que a Dona Domingas tinha feito na vida tinha sido há trinta anos, e resumia-se ao já completamente familiar na Cabreira Simca Étoile branco que tratava com o maior esmero. Todos os dias o viam passar a ir e a vir da escola, sempre com a professora de peito encostado ao volante, com o ar responsável de quem tem na mão a educação de várias gerações de uma freguesia inteira de homens e mulheres de hoje e de amanhã. Viveu sempre com a satisfação de ter feito um bom negócio e trocá-lo estava absolutamente fora de questão, porque o velho Simca sempre se tinha portado impecavelmente bem; nunca a tinha deixado ficar mal, dizia. A professora Domingas também ia a casa do Abade Afonso às terças, claro, e o seu era o único carro que todas as outras conheciam há muito e a quem confiavam os mexericos que não podiam dizer em frente do Senhor Abade ou do sacristão ou de alguma criada enquanto ela as despejava uma a uma em casa de casa no fim do chá semanal. Trinta anos depois mantinha-se com os tampões e os cromados a reluzirem, os brancos sem uma nódoa e o motor equilibrado. Era também o cúmplice da sua solidão e da revolta nunca resolvida de Deus lhe ter levado os pais demasiado cedo, achava, apesar de terem morrido ambos depois dos oitenta. Era também eterno companheiro na sua tristeza de ter perdido um irmão na tropa em África, não por uma bala, mas para uma bifa; que nunca mais tinha dado notícias e que era toda a família que lhe restava, gente da sua gente, sangue do seu sangue. Se calhar tinha por lá sobrinhos e não sabia. Mas também essa era uma dúvida que tinha deixado de ser torturante dentro do seu peito, que tinha acalmado com o tempo e com São Cristóvão, santo da sua devoção e dos viajantes!
  
Ruth Breiss, uma sul-africana cheia de peito a viver num bairro caro de Joanesburgo, nos seus quarenta e muitos dentro dum saia-casaco cinzento curto, saltos altos e camisa de folhos de seda natural, pernas, decotes e boquilhas muito generosas, fechava os olhos sempre que lhe acendiam um cigarro e contorcia-se numa atitude entre o provocador, o erótico e o vendedor. Em Junho de 71 Joanesburgo era a mesma cidade transpirante de sempre lá fora, a mais parecida do mundo com Nova Iorque, mas em África, e com a força que isso lhe dava, em onda em tesão, no que fosse! No meio dos 20º andar do Hotel President o ambiente era sempre o que acompanha o imaginário de qualquer um, naqueles anos em que se usavam golas grandes, calças à boca de sino e penteados cheios de onda: alcatifas pretas de pêlo alto e maples redondos brancos e roxos, tudo muito fofo e cheio de curvas. Bares com garrafas de cores e espelhos pelos cantos e também cadeiras de verga tipo trono pelos terraços sobre as luzes e a cidade. Mesmo em Joanesburgo toda a gente ainda recuperava da estreia do Laranja Mecânica.  

Ruth quando se levantava nestes sítios assim desse género, em reuniões que tinha amiúde, com o queixo para cima e as mãos a abrir em leque, com anéis caros mas discretos, adorava no fim fazer ouvir os fechos vitoriosos da sua mala James Bond, entre engravatados novinhos e desconhecidos de bancos e seguradoras, em que a sua vontade tinha prevalecido de certeza e em que também por certo tinha fechado um negócio extremamente vantajoso para a sua frota de traineiras de pesca ao largo. Pescava, congelava e exportava. Passou os olhos pelos quinze em volta da mesa, todos com olhares de respeito e impotência, e sentiu que nenhum podia atingir o mundo a que pertencia. Desceu ao piso -3 sempre com o queixo ao alto e gostou da sua sombra solene e esguia, da sua postura entre o comum dos mortais e das cores que a sua alma emanava; entre o betão e as tiras amarelas da parede da garagem e todo o universo que desafiava a toda a hora! Entrou no carro, um Datsun absolutamente novo e vermelho, chegado do Japão antes de todos os iguais, e sentiu-se uma vez mais acima de todos, como já ia sendo costume entre os negócios que fechava, a casa que tinha e os amigos que mantinha! Dirigiu-se então ao Blue Train, o restaurante mais na berra naquela época por lá, mas sem saber bem porquê, apenas sabia que era onde era normal ir downtown a meio da semana com a vida toda a correr-lhe bem. As notícias espalhavam-se depressa cidade fora, apesar de ser tão grande, da televisão ainda ser pouco eficiente e de não haver telemóveis! Sentou-se enquanto sorria e cumprimentava alguns presentes com a cabeça, e abriu o guardanapo sem vontade de comer como se o trabalho continuasse sempre. Mesmo assim acabou por pedir sopa fria de caranguejo e trufas, achou que calhava! O que queria mesmo, aqui para nós, era que o empregado giro que rondava se sentasse ao seu lado e lhe contasse uma história, lá da sua terra ou que inventasse, ou ainda fizesse qualquer coisa desde que lhe fizesse companhia pertinho, só para lhe dar calor e ouvir o som mesmo que fosse medíocre da voz dele. Já tinha claro na sua cabeça e em segredo que nada na sua vida lhe fazia sentido, assim sozinha, sem ninguém para partilhar momentos grandes que ia conquistando dia a dia! Podia sempre fazer compras depois nas lojas caras da zona ou meter-se no carro novo que acabava por dominar sempre e era lindo, lindo de morrer. Lindo também era um português do norte, da Cabreira achava, e que conheceu enquanto ele fazia a tropa em África e que nunca mais esqueceu. Sentia ainda os seus músculos e o seu peito a rebentarem camisa e o ar seguro com que a amava completamente! O calor das suas mãos nas costas e nos ombros, a sua cara pelo pescoço e pelo cabelo, as pernas de ambos cruzadas sem saberem onde começavam e acabavam, da maneira como era deitada no chão como se flutuasse. Tinha-lhe tocado completamente para sempre, até aquele ponto em que o seu corpo se confundia com o dele, mixed! Tinha-a feito sentir mulher, pertença de, como ninguém mais o tinha conseguido, até aí e a partir daí. De um momento para o outro nunca mais ouviu falar dele, nunca mais lhe tinha visto o rasto, acabou por se perder, assim de repente, em tempos confusos.  

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

the night has opened my eyes (or winter in america)

é sempre assim sempre assim sempre assim
dizia o rapaz no banco de jardim
lá em tulsa, nos states.

é sempre assim sempre assim sempre assim
dizia a white-trash-radio do nosso carro negro,
enquanto atravessávamos o novo méxico.

é sempre assim sempre assim sempre assim
dizia o oráculo de jornal, zoroastro de meia-tigela,
enquanto beberricávamos café queimado
e uns quantos ovos tristes com bacon.

que diabo, praguejava eu com o circunstancial taberneiro,
que diabo, atirava eu aos desvalidos companheiros de balcão.
que diabo, disparava eu, por entre dentes meio desfeitos,
aos meus próprios fantasmas.

é sempre a mesma coisa,
em tulsa, em tucson,
nos midlakes, em michigan,
em boston ou cincinnati.
é sempre a mesma coisa, pal.

apenas mais velhos,
o que, cá entre mim e a patroa,
faz a sua diferença, convenhamos.

mais velhos,
trôpegos na escuridão da noite,
tacteando restos de afecto
que de resto não há.
que nunca houve, hombre.

que diabo de espectáculo triste!
- vociferou então o rapaz,
do alto do seu garbo juvenil.

- cá chegarás,
rosnei-lhe num silvo grave,
afiando a língua como se faca.
- cá chegarás..

mais velhos,
rodeados de noite e de abutres.

mais velhos.
até ao pontual ponto final.

(whatever, buddy, whatever.)


gi.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A arrumadora de armários

Tinha horror à desarrumação e à desordem. A perspectiva de uma almofada fora do sítio ou a visão de uma migalha na alcatifa, impelia-a de imediato a inclinar-se para colocar a almofada junto às outras (sempre numa determinada sequência de cores e tamanhos) ou a dobrar-se até ao chão para apanhar o minúsculo pedaço de pão.
Não podia. Fazia-lhe mal aos nervos. Adorava a organização, a limpeza, o método sempre certo e igual de cada dia limpar cada divisão da casa, começando no mesmo canto e terminando no mesmo quadro pendurado na parede. Uma Mãe extremamente organizada, um Pai totalmente caótico, uma infância num colégio de freiras muito dadas aos lavores e trabalhos manuais, uma adolescência muito metida em casa e uma fraqueza extrema, tinham-na levado à humilhante condição de “maníaca das limpezas”, como era conhecida entre os seus (poucos) amigos e, infelizmente, até junto da sua própria família.
Não se conseguia controlar. Tinha tentado terapias, tomado calmantes e mézinhas várias, feito tricot a metro e desporto ao ponto de ficar à beira de uma síncope (para “afastar as limpezas do seu pensamento, minha Menina”, tinha dito o psicoterapeuta), mas o seu amor às limpezas e à ordem voltavam, após cada interrupção, com um vigor acrescido. 
Era uma pulsão superior a si própria. Tinha aprendido através da terapia que tinha uma desordem nervosa com um nome esquisito, do qual aliás já nem se lembrava. E depois? As manias não se resolvem com palavras médicas nem técnicas. Resolvem-se na prática. E a prática demonstrava-lhe, vez após vez, que nada lhe solucionava o seu problema.
Até a sua vida profissional tinha ficado dramaticamente afectada. Menina estudiosa e metida consigo, de índole dócil e muito certinha, tinha ficado encantada quando lhe tinham proposto trabalhar como secretária do gerente de uma loja de confecção para senhoras. O gerente adorava a sua pontualidade, o seu rigor, o zelo que despendia no trabalho que lhe era confiado. Nunca se tinha visto uma secretária tão amável, educada e extremosa. Velava pelo patrão e pelo negócio (na parte que lhe cabia, é claro) como se disso dependesse a sua própria vida. Havia até quem dissesse – as más-línguas, claro está – que ela estava apaixonada pelo patrão.
E os dias corriam, e as semanas passavam e os meses sucediam-se numa doce e tranquila monotonia que em tudo condizia com o temperamento da Menina. Podia-se até dizer que era uma pessoa feliz (com um f pequeno, entenda-se). As horas do dia passava-as dactilografando, enviando faxes, escrevendo cartas comerciais, conferindo notas de encomenda, até tratando de alguns assuntos pessoais do gerente. As horas da noite, depois do jantar e da novela, gastava-as no habitual frenesim das limpezas, as quais, apesar de estar empregada (e supostamente cansada no final do dia), não tinham cessado nem em número nem em intensidade. As contas da luz aumentaram-lhe consideravelmente porque tinha a luz acesa quase toda a noite. Só pela madrugada, quando a luz no horizonte começava a clarear e ela se deitava para repousar da vigília a que se forçava diariamente, é que as luzes eram extintas e a casa entrava em absoluto silêncio. Silêncio esse que era depressa rompido pelo animar das ruas e o ladrar dos cães da calçada que se ía enchendo de movimento.
Mas o excesso de trabalho tem os seus custos e a erosão do tempo e do trabalho excessivo começou a fazer os seus estragos. A Menina começou a definhar. Cada dia acordava mais cansada, mais macilenta, com imensos semi-círculos roxos por debaixo dos olhos castanhos e redondos. E estava a perder peso de dia para dia. “O que se passa consigo, Menina?”, perguntara o patrão um dia que a vira cambalear junto à máquina do café. “É só uma tontura”, dissera ela. Mas as tonturas repetiram-se por mais umas semanas. Até que uma manhã foi forçada a ficar na cama. Não conseguira mesmo levantar-se. Só teve forças para pegar no telefone que repousava na mesa-de-cabeceira do lado esquerdo da cama e informar o contabilista (que morava longe e que chegava muito cedo à loja de confecções) que nesse dia não poderia ir trabalhar. “Avise o patrão, se faz favor, Senhor Silva”, pedira ela em voz sumida.
Pela tarde, depois de ter repousado um pouco mais, conseguiu pegar no telefone e falar à Mãe que, como todas as boas mães, se prontificou a ir vê-la e ajudá-la no que fosse preciso. E foi aí que a Mãe se assustou. “Não vais trabalhar tão cedo, minha filha, nem que eu tenha de te amarrar à cama”. Ficara horrorizada com a visão dos imensos braços esquálidos da filha e com a sua tosse cavernosa. É certo que a achava abatida nos últimos tempos, mas como tinha estado recentemente na terra com uma prima querida a quem tinha morrido o marido, não tinha visto a filha nas últimas semanas. “Vou pedir ao médico que venha cá ainda hoje”. O médico veio e fez o seu diagnóstico: “Esgotamento nervoso e fraqueza extrema”. O tratamento era estar deitada, a sopas e bolos, até a fraqueza se ir.
E acabou mesmo por ir. Mas muito lentamente, porque a detentora da fraqueza não conseguia estar parada. Isto é, estava parada quando a Mãe lá estava em casa. Mal ela saía, para ir fazer compras ou tratar de alguma coisa, punha-se a aspirar os sofás, a limpar o pó aos quadros, a arear as casquinhas, até a limpar com um cotonette as pregas do manto de gesso pintado da Nossa Senhora da Conceição que se encontrava na cómoda do quarto. Por isso o seu restabelecimento foi mais lento.
Dessa época dolorosa e prolongada, resultara o verdadeiro início da sua obsessão pelas limpezas. Se desde sempre se tinha preocupado com a manutenção da limpeza e ordem do seu pequeno apartamento, nunca como após a sua paragem forçada se tinha esse ímpeto manifestado com tal intensidade. Não conseguia parar. Limpava o que estava limpo, arrumava o que estava arrumado e lavava o que já cheirava a fresco. Era como se os meses em que fora forçada a parar se tivessem concentrado todos nas horas dos dias que estava agora a viver, impelindo-a, muitas vezes a contra-gosto, a tornar mais perfeita uma ordem já de si sem mácula.
Foi nessa altura que tentou todo o género de terapias e de tratamentos. Mas nada melhorou a sua condição psicológica. Por isso teve de abandonar a loja de confecção de roupa para senhora. Com grande desgosto para ela e para o patrão, que gostava muito do seu trabalho e que dificilmente conseguiria arranjar alguém tão eficiente e perfeito. Os colegas do trabalho fizeram-lhe uma pequena festa de despedida e aquela comemoração comoveu-a até às lágrimas. Mas como podia ela compatibilizar um trabalho de 8 horas diárias com o desgaste de passar noites seguidas praticamente sem dormir com a preocupação de limpar e ordenar coisas que, para qualquer pessoa, já estavam perfeitamente limpas e ordenadas? 
Com o tempo, aprendeu a conhecer-se melhor e a aceitar-se mais. Vivia de uma renda de um pequeno apartamento na Graça que o Pai lhe deixara em herança e de um subsídio de incapacidade que conseguira arranjar através da Segurança Social. Os rendimentos eram parcos mas chegavam-lhe. Não era pessoa de extravagâncias e uma televisãozita a cores chegava-lhe perfeitamente. Passava os serões sózinha ou acompanhada pela Mãe. Os poucos amigos que tinha foram afastando-se à medida que a sua obsessão aumentava. Na altura em que a convidavam para sair, quando ainda trabalhava, recusava sistematicamente todos os programas porque estes lhe roubavam tempo para pôr a casa a brilhar. “Nunca mais te telefonamos”, dissera-lhe um dia uma das amigas do colégio de freiras, “Se quiseres estar connosco, telefona-nos tu”, atirara-lhe com algum azedume.
Mas ela nunca telefonou. Como podia ela telefonar se tinha tanto que fazer em casa: pôr a roupa a corar, lavar à mão as peças mais delicadas, tratar dos canteiros na varanda, fazer compotas para o Inverno (tinha conseguido pôr à venda uns boiões da sua confecção na mercearia da esquina), serzir os panos de cozinha mais antigos, encerar os móveis, limpar os vidros. Havia sempre tanto que fazer.
Mas o trabalho de que mais gostava era limpar e arrumar armários. Começava por esvaziá-los completamente, após o que, com um pano (molhado ou seco, consoante os casos) o limpava até ao mais recôndito dos cantos. De seguida, limpava-o por fora, com um trapo húmido ou com um pano embebido num produto para móveis “para lhes dar vida”, como costumava dizer. E depois era vê-la forrar o armário, colocando-lhe barras anti-traça e saquinhos de alfazema, lavando todo o seu conteúdo, secando-o e arrumando-o meticulosamente, respeitando integralmente a ordem inicial. Adorava forrar caixas e caixinhas, de tecido ou papel igual ao armário, que utilizava para arrumar todo o género de pequenos objectos e adereços.
Sentia-se realizada ao limpar o roupeiro, o armário do corredor, os armários das loiças e da cozinha, o pequeno louceiro da sala! Dava-lhe um prazer imenso criar ordem, tratar dos panos, dos linhos e das loiças! Só tinha pena de não ter uma casa maior onde pudesse ter mais armários. Era, decididamente, de todos os trabalhos caseiros, aquele que mais a completava.
E foi aí que a sua vida deu uma volta. Quando pode sair de casa, passadas as semanas de fraqueza, a Mãe pediu-lhe se não se importava de lhe forrar umas gavetas. Ficaram perfeitas. Passados dois dias, voltou a pedir-lhe se lhe dava um jeito no armário das roupas de casa, cheio a transbordar de colchas, toalhas e lençóis herdados da avó e bisavó. Com que prazer cumpriu a sua tarefa! Com que regalo seleccionou, lavou, pôs a corar, engomou e arrumou os muitos e rendados panos que já não via há anos! Sempre era uma distracção arrumar armários que não os seus!
E desta singela contribuição, nasceu a sua verdadeira vocação. Ao compreender o alento que esta simples e casual colaboração tinha dado à filha, a Mãe, feliz, aprontou-se a passar palavra às suas vizinhas de prédio, que se apressaram a dizê-lo às suas filhas e noras que, por sua vez, contaram às colegas de escritório e fábrica.
E era vê-la, satisfeita e desenvolta, de uma casa para outra, a arrumar armários, roupeiros, guarda-fatos, sapateiras, frigoríficos, louceiros, cristaleiras, estantes e todos os espaços em que era possível criar ordem. As clientes estavam felizes e a Menina nem se fala. Encontrara, finalmente, uma forma criativa de compatibilizar o seu gosto pela limpeza e pela ordem com a sua vida profissional. Isso dava-lhe tal sensação de alegria e liberdade que até lhe parecia que o coração se expandia. Ponto final nos tratamentos, nas mezinhas e nas conversas com doutores de óculos e barba aparada. Tinha a sensação que se tornara uma criadora, uma criadora de ordem e de limpeza, ao inventar novas formas de arrumar, ao escolher novas fragâncias para colocar junto à roupa lavada, ao trocar a ordem dos livros e dos retratos das estantes, ao criar, em suma. Uma forma de criação diferente das que conhecia, “menor” concerteza, mas, mesmo assim, uma forma de criação, apelativa aos sentidos e que, sobretudo, agradava imensamente às suas clientes. Sentia-se feliz (com um f quase grande).
E por isso, quando em certa tarde se sentou num banco de jardim de bairro, rodeada de verde, de flores e de pombos, não estranhou que um rapaz, de fisionomia séria e camisa muito bem engomada, se sentasse ao pé de si e, timidamente, enceta-se conversa. Falaram sobre o tempo lindo que fazia, sobre a poluição da cidade (e de como era bom encontrar, ainda, um espaço verde e limpo para descansar), comentaram a briga dumas crianças que gritavam à distância e, na sequência da conversa, tomaram conhecimento dos respectivos nomes. Ao que o rapaz, inclinando a cabeça na sua direcção e olhando-a directamente, lhe perguntou com toda a educação: “E a menina Laura o que é que faz?”. E a Menina certinha, composta e dedicada, com um novo brilho, vagamente trocista, a dançar-lhe nos olhos castanhos e redondos, respondeu-lhe: “Sou arrumadora de armários”. E sentiu-se Feliz com um f grande.
PS: ah, já me esquecia… esta é a música preferida da menina Laura.



pcp

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Vai um gin do Peter’s ?

A dica de hoje – pensando neste Inverno chuvoso e frio, que faz apetecer assistir à tempestade, lá fora, protegidos por uma janela com boa vista – é para uma tarde ou um serão de boa música, em casa (nossa ou de amigos, até porque resulta num presente bem apetecível), ao som de Chopin, tocado pelo talentosíssimo Maurizio Pollini ou pela Maria João Pires, que também tem uma interpretação magistral dos Nocturnos (*)!

Lembrei-me da sugestão, porque este Sábado Pollini tinha agendado um concerto na Gulbenkian(**), que foi cancelado por problemas de saúde do pianista... Tive assim de me desforrar nos CDs, em casa... E é isso mesmo que vos sugiro, porque um compositor que plasmou a sua alma na música que escreveu, é imperdível, creio: «I tell my piano the things I used to tell you» (sic, Chopin)

Antes de abrir mais o apetite para o músico do séc. XIX, avanço uma pequena nota biográfica sobre Maurizio Pollini: nasceu em Milão, em plena II Guerra Mundial – Janeiro de 1942 – numa Itália muito massacrada pelos combates. Oriundo de uma família de artistas – o pai arquitecto, a mãe pianista e cantora, o tio materno escultor (Fausto Melloti) – teve uma carreira fulgurante, recheada de prémios internacionais, com um repertório vastíssimo, que se estende de Bach aos contemporâneos. Não por acaso, o primeiro prémio foi ganho no Concurso Internacional de Chopin, em Varsóvia, nos tempos arrefecidos da Guerra Fria – 1960. Aliás, há quem o considere o melhor intérprete deste compositor, concorrendo com Rubinstein e outros nomes míticos do piano.

Frédéric François Chopin (1810-1849) nasceu perto de Varsóvia, mas deve o seu nome tão francófono ao pai, um francês que se radicou na Polónia como professor de liceu e tutor de famílias aristocratas, vindo a casar-se com uma polaca. Menino prodígio, aos 7 anos, Frédéric compôs as primeiras Polonaises (danças polacas), além de já actuar em concertos, onde era aclamadíssimo. Pelos 20 anos, mudou-se para Paris, tornando-se insustentável o regresso à sua terra natal, que acabava de ser invadida pela Rússia. Em Paris, integrou logo o grupo de artistas mais fervilhante da Cidade das Luzes, mentores da revolução romântica: Liszt, Berlioz, Balzac, Bellini, Victor Hugo, Schumann… Através de Liszt, tornou-se íntimo da célebre escritora, que assinava pelo pseudónimo literário, George Sand (Mme Dudevant), começando uma relação tumultuosa, marcada por fases de indigência, onde até um teclado lhe faltou. Aos 39 anos, corroído pela tuberculose, apagou-se o pianista mais venerado pelos parisienses. Ainda hoje, a sepultura é local de peregrinação, sempre coberta de flores frescas, no célebre Cemitério de Père-Lachaise, onde repousam outras figuras lendárias, como Oscar Wilde ou Jim Morrison (na sua campa, os parisienses colocam cigarros e cervejas!), Victor Hugo, Gustave Eiffel, Mme.Curie, Edith Piaf...

Honrando os seus pergaminhos, os franceses costumam ser generosos com a memória dos artistas, mais ainda se forem românticos, nostálgicos e lúcidos, clássicos mas ousados, sofisticados e maximamente universalistas. Chopin foi tudo isso! A sua música respira poesia e charme, profundidade e emoção. Nos Nocturnos como que se excede e inflama o piano, qual «Fogo que arde sem se ver», faz as teclas chorar lágrimas que nos chegam à alma como cristais de água luminosos. A declaração do compositor a um pianista sobre a desejável entrega à música é o seu auto-retrato: «Põe toda a tua alma na peça, toca-a como a sentes!»

Conta-se que o pianista italiano, Orazio Frugoni, sugeriu a uma das suas alunas, com dificuldade em executar um dos Nocturnos, que passasse mais tempo, à noite, junto à catedral de Siena: «Sim, é muito romântico. E nós impregnamo-nos destas percepções, que alimentam a nossa criatividade; e se nada acontecer, é porque não somos artistas!» Só não ficou para a história se a comunicação da arte por osmose funcionou com a aluna...

Os 21 Nocturnos, compostos entre 1827 e 1846, são quase todos dedicados a senhoras, sendo umas mais lembradas que outras… De facto, Chopin tinha uma personalidade cativante e a sua natural timidez parecia conferir-lhe um charme especial, que lhe granjeou enorme sucesso entre o público feminino e a correspondente inveja no masculino… isto contado por cronistas da época. Aliás, o seu monumento no Parque Monceau (Paris) mostra uma admiradora em êxtase devocional, enquanto o pianista vai dedilhando ao piano.

Apesar de aclamado em vida (em 1848, deslocou-se a Londres, onde foi aplaudidíssimo pela Rainha Vitória e toda a corte britânica), Chopin era de uma humildade invulgar, como o atestam os seus desabafos, alguns de uma ironia deliciosa: «Não percebo como é os alemães estão tão fascinados comigo – por mim, fico fascinado com eles por encontrarem razões para se fascinarem!» ou, na mesma linha «Sei que me falta tanto para atingir a perfeição». Talvez não se imagine que nas suas obras, verdadeiras filigranas musicais, o compositor apreciasse sobretudo a «Simplicidade (que) é o objectivo final. Depois de se tocarem quantidades imensas de notas, é a simplicidade que emerge como o maior dom da arte.» (sic, Chopin)

Testemunhos de artistas do seu tempo:
- Eugène Delacroix: «Chopin (…) é o maior artista que já conheci. (…) Às vezes, acontece entrar-me pela janela, que dá para o jardim, a música de Chopin, a trabalhar mesmo ao lado, misturando-se com o cheiro das rosas e o canto do rouxinol.»
- George Sand: «O seu trabalho criativo era espontâneo, puro dom! Brotava sem esforço nem pré-aviso… Mas depois vinha um trabalho árduo, como nunca antes tinha visto. Multiplicavam-se as tentativas (…) Fechava-se no quarto, durante dias, percorrendo-o de rés-a-lés, partindo as canetas, repetindo e modificando um pequeno trecho, centenas de vezes.»
- Franz Liszt: «Nos seus poéticos Nocturnos, Chopin cantou não apenas as harmonias, que são fonte de inefável prazer, como também a tumultuosa agitação que costumam provocar»

Bom Inverno, desejando que a chuva lá fora resulte inspiradora e… se não sintonizarem logo com os Nocturnos, experimentem passar boa parte da noite a ver os Jerónimos…

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

__________________

(*) Para ser mais concreta, indico um dos CD possíveis, da dupla fantástica, Chopin e Pollini, com os imperdíveis NOCTURNOS. Também há a interpretação óptima da Maria João Pires, gravada pela Deutsche Gramophon:
http://www2.deutschegrammophon.com/cat/result?SearchString=Maria+Joao+Pires
Chopin: Nocturnes: Frederic Chopin (Composer),

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Escuta

Sou sossegado. Coisas do feitio das pessoas, e não há nada melhor que o sossego para nos pormos a pensar nas coisas da gente. Não foi o feitio que me sentou aqui, nesta cadeira quieta, condenado à inércia do corpo. Isso foi a sorte. 

Agora que penso bem no assunto, foi uma sorte eu ser sossegado, que a ser de outra maneira dava em maluco na certa.

Ter uma vida sentada não é, de todo, uma coisa ruim. Descobri uma infinidade de novidades emolduradas na vista de uma janela, e tinha uma infinidade de tempo para cada uma delas, pelo menos até se me apagarem os olhos.

Agora escuto. Todos os barulhos são diferentes, alguns completamente distintos e outros quase idênticos. Aprendi a distinguir o sussurro dos lençóis de seda, tão diferente dos estalos dos lençóis de algodão, ou do abafo dos de flanela. Sei de onde sopra o vento, ora pela corrida das tampas de plástico pelo chão, ora pelos ramos da amoreira, que quando está nortada, em vez de balançarem sozinhos, raspam no beiral de lata. Sei dos amores da Susana, pela cantiga que sai, ou não, da marquise dela. Foi uma sorte eu ser sossegado, que a ser de outra maneira, nunca era capaz de ver com os ouvidos.

Ontem à tarde pareceu-me, que a sorte ditou eu estar distraído com as lengalengas da criançada do jardim-escola, ouvir o meu coração abrandar. Não me detive muito no assunto e só lhe estou a prestar atenção porque hoje acordei muito cansado. Consigo ouvir a quietude gemida dos ossos e o arrastar de cada pulsação. 

Cego, sentado e sossegado, vejo o barulho que o tempo faz quando chega ao fim da sua infinidade. Mais um bocadinho e levanto-me daqui.

ZdT

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Pensamentos impensados

Diz-se que o povo português é um povo de poetas; assim sendo, o "impensado" vai dar o seu contributo para a poesia nacional.

Num sossego perturbado
Duma perfeição que é tosca
O ceguinho arregalado
Olha guloso, enojado
O parafuso sem rosca.

Quem sai aos seus não degenera
Quem sai aos seus não se regenera
Quem sai aos seus não é de Genebra
Quem sai aos seu não exagera.

Mário de Sá-Carneiro escreveu um pouco mais de Sol-eu era brasa e é citado e aplaudido; vou também dizer qualquer coisa, arriscando-me a que digam apenas que sou parvo: um pouco mais de Fevereiro
e eu era bissexto.

SdB (I)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

1º Domingo da Quaresma

A Quaresma começou na 4ª feira passada. Perdeu-se a disciplina do jejum e da abstinência, achamos sempre que já temos dificuldades suficientes na vida para nos atermos a tradições cuja lógica não vislumbramos. No fundo, no fundo, sabemos que o importante não é o não comer carne à 6ªfeira, mas gostamos de nos agarrar a estes pequenos sem sentido dos dias de hoje para nos desinteressarmos, tantas vezes, do que é verdadeiramente importante.
A Quaresma não é uma época fácil. Não há uma alegria permanente, não há luzes a ofuscarem a macilências das vidas, não há ruídos contínuos a afugentarem o horror de um silêncio com o qual pode ser difícil conviver-se.
Como sempre vou pedindo, entre outras coisas, discernimento e força, paz para todos os que me estão próximos. Gostava de ter soluções, mas afigura-se que será pedir demasiado, e também tenho de fazer pela vida...
Boa Quaresma para todos os que me lêem.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus, cheio do Espírito Santo,
retirou-Se das margens do Jordão.
Durante quarenta dias,
esteve no deserto, conduzido pelo Espírito,
e foi tentado pelo diabo.
Nesses dias não comeu nada
e, passado esse tempo, sentiu fome.
O diabo disse-lhe:
«Se és Filho de Deus,
manda a esta pedra que se transforme em pão».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Nem só de pão vive o homem’».
O diabo levou-O a um lugar alto
e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra
e disse-Lhe:
«Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos,
porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser.
Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu».
Jesus respondeu-lhe:
«Está escrito:
‘Ao Senhor teu Deus adorarás,
só a Ele prestarás culto’».
Então o demónio levou-O a Jerusalém,
colocou-O sobre o pináculo do Templo
e disse-Lhe:
«Se és Filho de Deus,
atira-te daqui abaixo,
porque está escrito:
‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito,
para que te guardem’;
e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão,
para que não tropeces em alguma pedra’».
Jesus respondeu-lhe:
«Está mandado:
‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação,
retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Músicas dos dias que correm

A esperança de Margarida

(Continuação do conto começado a publicar na semana passada, de um autor cuja biografia foi referida no mesmo local. Segue no próximo sábado.)

E a vida de ambos, do Pontiac e da Condessa, foi sempre mais ou menos assim, a cheirar a canela e a flores, durante dez suaves anos, com a rotina quebrada algumas vezes apenas quando ela ia a Lamego para casa das primas na época das vindimas. Via-se então Setembro adentro aquele enorme carro, majestoso e em silêncio, por entre ruas estreitas e sinuosas, sempre com a prima Júlia igualmente pequenina como a Condessa e vestida de preto agarrada ao tabliê como se quisesse ajudar a guiar; e com a prima Prazeres, gorda e satisfeita, toda encostada, como se estivesse a andar de montanha-russa não nas mãos de Deus, mas nas do diabo. A prima Prazeres gostava de beber, outro desastre de que não se falava porque fazia cenas e graças a Deus mantinha a postura. Apenas se ria e chamava-lhes velhas baixinho, como se de um prazer profundo se tratasse. Dava cigarros aos sobrinhos mais novos e ensinava-lhes palavrões muito antigos, tão antigos que já nem ela sabia o que queriam dizer, mas não fazia mal.  

Um dia o medo de lidar com aquele titã verde acabou por vencer, por causa das cataratas e da guerra que a Rosa iniciou, preocupada com os desastres que aconteciam aqui e ali cada vez mais. O Senhor Alves do táxi achou muito prudente e com ar sério pôs-se logo à disposição para o que fosse preciso. Ficou assim o Pontiac fechado numa garagem nada desconfortável de chão vermelho durante outros dez longos anos até ao dia que finalmente a Condessa morreu. O Regaleira tratou sempre dele com a maior ternura, claro!  

A partir desse dia fatídico de Junho a vida de todos naquela casa mudou. O carro passou então a fazer parte de um imenso inventário, entre pratas, quintas, prédios, brasões e móveis. Longo, entre partilhas complicadas. Acabou, por fim, por ser herdado, junto com a Rosa, pelo Gonçalo, um sobrinho de Lisboa que lhe achava graça, mas não tinha lugar para ele no seu mundo, nem garagem tinha sequer! Por isso vendeu-o ao Senhor Antero da Garagem Preciosa lá da vila, que sempre tinha tratado dele com a maior atenção e cuidado, por adivinhar este desfecho e por ser para a senhora Condessa, que merecia o melhor e o mais caro.  

Passou, então, ainda mais cinco anos esquecido num armazém, coberto por um oleado cheio de pó cinzento e azul, esquecido e a envelhecer ingratamente! Tanto tinha para dar e ficou-se por ali, rijo, novo e parado. Parecia eternamente parado! O Senhor Antero ao fim desses anos acabou por morrer também e os filhos com a intenção de fazerem o primeiríssimo parque de estacionamento da vila, resolveram vendê-lo ao primeiro que aparecesse e que não se importasse de gastar gasolina a rodos. 

João  “Besegol” era o ganzado mais psicadélico de toda a região. O pai era um conhecido comerciante de carnes verdes e tinha cabelos ruivos e encaracolados, sardas e ombros largos e grandes a saírem de t-shirts cavadas de cores gritantes, texanas azuis e roxas! Cintos de fivelas enormes e onda, muita onda; charros à abrir! Apaixonou-se logo pelo carro da Condessa quando o viu e comprou-o por tuta-e-meia ao gerente dos filhos do Senhor Antero da Garagem Preciosa. Andava sempre em estradas perto do mar e do vento, entre o Alentejo e o Algarve, nos bares dos velhos da batota, cheios de areia e de gente, a falar com montes de gaivotas e claro, sempre inevitavelmente a sentir o peso de toda aquela máquina quase nova e cheia de tesão. Braço de fora e cheiro a sal na boca, não podia pedir mais nada ao mundo, apenas talvez que lhe controlasse um bocado a adrenalina! As noitadas e os momentos que lhe tocavam profundamente eram cada vez menos, por isso procurava sempre um bocadinho mais em garrafas e em mulheres, dali de perto ou não. O Pontiac, sempre forte, galgava as dunas, desafiava as ondas, desbravava canaviais e esperava paciente, noites dentro descampados fora; curtes do dono dentro, sempre fora!  

Gonçalo Ávila Ribadeneira, o sobrinho de Lisboa da Condessa descia naquele dia quase pela última vez a Serra da Cabreira enquanto desmontava a casa aos bocados, adivinhava segredos pelos cantos, vendia as vinhas e os pomares e inevitavelmente se irritava com os primos pelas partilhas, por causa de coisas pequeninas que não lhe diziam nada! A Rosa inconsolável, Cabreira abaixo, ao seu lado, serra fora, ainda não se conformava com a morte da Senhora e com o medo de ir viver para Lisboa. Só lá tinha ido uma vez em excursão, sempre com a sensação confortável de que ao fim do dia voltaria ao aconchego da sua cozinha, das suas brasas e do seu escuro confortável. Agora não, ia para aquele inferno para sempre, para um andar entre milhões, tratar dos filhos do menino Gonçalo; longe dos jardins, dos campos, da horta e do Senhor Regaleira. Chorava inconsolável. Gonçalo por seu lado, ao volante e em silêncio, estava descansado porque não dava um mês para que ela se tornasse no sargento da casa, que foi o que acabou por acontecer, claro. Entre os dias dele e da mulher que só chegavam a casa à noite, e os filhos pequenos que haviam de passar a ser mimados até à última por uma avó que vem nos livros de histórias, que lhes dava biscoitos e lhes contava coisas de tempos antigos.  

Gonçalo acabava por acreditar mais em si e no seu trabalho do que em heranças e títulos, por isso as idas à Cabreira eram sempre uma obrigação que não lhe agradava nada. Aturar primos que discutiam cheios de raiva por causa de uma caixa de costura, antiquários de todas as bandas sempre certos que era tudo imitação e empreiteiros a quererem baixar os preços dos terrenos junto à estrada. Era realmente um frete que acabava por fazê-lo sentir abutre como os outros. E ele estava-se mesmo nas tintas para tudo o que tinha que não tivesse sido construído por si. Parecia que a única coisa boa que lhe tinha acontecido naquele dia era poder experimentar fora da cidade o seu novo 206. Era lindo, cheirava a novo, tinha uma série de botões para experimentar e até podia pôr o rádio mais alto sem tirar as mãos do volante, apenas com o polegar. Estava entre o utilitário e o familiar e a relação qualidade/preço tinha-lhe parecido vantajosa. Era escusado tentar partilhar tudo isto com a Rosa, sempre agarrada ao lenço a soluçar e a ser-lhe indiferente naquele minuto ir de carro ou de foguetão, mas também não fazia mal e se chegasse cedo a Lisboa ainda ia dar umas braçadas ao health club como todos os dias, falar das coisas que os homens falam e estar atento ao que se vai passando por aí.  
 
No dia seguinte, enquanto arranjava a gravata com flores de lis, a gola da camisa de quadradinhos e o blazer com botões dourados, já atrasado para ir trabalhar e levar os filhos à escola com a mulher a berrar recados de coisas inadiáveis, entrou na cozinha e viu a velha Rosa ainda com o lenço da cabeça na mão para enxugar as lágrimas, aterrada com tantas máquinas brancas pelos cantos que não sabia para o que serviam; sumos de lata de cores gritantes, muito longe do que já tinha visto, mas que garantiam a vida eterna na embalagem; e pacotes de cerais com ares plásticos mas saudáveis por todo o lado que haviam de substituir o pão! O mulete normal, aquele para comer com manteiga, não se achava em lado nenhum naquela cozinha onde havia crianças e achou que o Abade Afonso tinha razão e que o fim do mundo estava para chegar. Pegou no lenço e pediu à Condessa que a levasse com ela para o outro mundo, tão perdida e desesperada que se sentia! Mas levou dois dias apenas, não o mês que Gonçalo previa, para que Rosa se tornasse no comandante não só da cozinha, mas da casa e da vida de todos, que era o que Gonçalo e a mulher queriam e esperavam com aquele pequeno rancho para gerir.  

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

o amor como bela arte

atrás de si, os habituais clientes deixavam de tudo. peúgas sujas, pares de meias por estrear, um ou outro casaco de cabedal, garrafas de mau whisky, todo o género de roupa interior, cintos sem fivela, fivelas sem o respectivo cinto, um arco-íris de objectos sem préstimo evidente, cigarros meio-fumados, cigarros por fumar, cigarros sugados como se disso dependesse amanhã nascer o sol, livros baratos, luxuosas colecções de artigos científicos, exemplares de toda a imprensa portuguesa e de alguma estrangeira, uma dentadura, molhos de chaves, uma canadiana e duas bengalas, sobretudos cossados nos cotovelos, terços e um ou outro missal. 

com o que ela nunca tinha dado era com um coração em carne viva, deixado para trás, sobre o cobertor encardido. sim, ela suspeitara desde o mais tenro início: ele era aquele de quem todas as colegas de ofício falavam baixinho, um serial killer muito especial: o homem que semeava corações.

quando, anos depois, ela me contou esta história, achei-a (como sempre a tinha achado, confesso) levemente louca. eu, cínico glacial desde o berço, não poderia acreditar nisso. seria ir contra tudo aquilo para que, intelligent design ou simples mão-de-ferro em menino, me haviam programado para ser: um homem regrado, espartano, uma espécie de quintessência do bom-senso, com braços e pernas. 

mas desta vez algo me dizia para acreditar, mesmo que eu não soubesse exactamente de onde vinha esse sopro de fé, essa pulsão improvável e raríssima. quer dizer, saber eu sabia, não podia era aceitar que soubesse. afinal, frio e cortante, seco e enxuto, como eu me habituara a ser, havia treinado com afinco e zelo inultrapassável, para me conseguir apagar a mim próprio da minha própria memória.

o homem que semeara corações não se lembrava já desses seus dias de outrora. era agora um homem voluntariamente sem memória, na companhia de uma velha amiga de maus costumes mas muito bons fígados - e só eu e Deus sabemos como estes últimos escasseiam.

levantei-me, de mansinho, e dei-me ao mundo, como a ele havia chegado, umas já valentes décadas atrás. nú e sem vícios. de cabeça limpa e sem o menor vestígio de um coração.

(chegados aqui, impôe-se dizer-vos que tudo isto é metáfora - melhor ou pior manejada, mas ainda metáfora. só as partes que metem coração é que não o serão inteiramente, como se passa com aquela melancia que guardamos no sítio de todos os tesouros e que todos saboreámos em criança - quem vai acreditar que esse suco vermeho e doce, essa textura precisa e preciosa, não passam de metáfora? ninguém, pelo menos ninguém no seu perfeito juizo, se esquece do maravilhoso sabor de um coração de melancia..)

o sol brilhava agora, vertical e soberano como só ele sabe, como só ele pode. acolheu-me nos seus longos e largos braços, como se acolhe um filho que regressa de um ano, de um lustre, de um século, de incertas aventuras e cruel desabrigo. sem perguntas, sem rudeza, sem brusquidão. com lágrimas e voz embargada e aquela certeza funda de que a vida é possível, outra vez.

o homem que semeava corações ficara lá atrás, no file dos casos insolúveis. daqui a uns quantos anos, não mais seria recordado senão como uma anomalia, uma maçada para gente séria e honrada, um desaforo para todos os pragmáticos do mundo, um mito para as novas gerações de senhoras da vida que hão-de suceder às contemporâneas mestres de tão sui generis arte.

um crime perfeito - foram as palavras que lhe dirigi, antes de levantar a gola da gabardine príncipe-de-gales e me fazer ao caminho. continuava a ser inverno, como sempre, nesta cidade quase fantasma. mas o sol era agora uma possibilidade. e isso - só isso - fazia toda a diferença.

epílogo:

no seu leito de moribundo, ele sabia, bem no fundo de si, que o homem que semeava corações preparava a sua última visita, a sua derradeira obra-de-arte. e ele esperava-o, agarrado a um espelho triste, com um resquício de coragem e de dignidade, como já não se usava. como nunca se chegou a usar.

o amor como o mais perfeito dos crimes - foram as suas verdadeiras últimas palavras. e, bem vistas as coisas, as únicas que alguma vez realmente proferira.

gi.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Falta de tempo para rezar?

Os jesuítas acabam de lançar o www.passo-a-rezar.net, uma proposta de oração para quem não vive parado.
Cada dia, são 10 minutos de texto, pistas de oração e música, em formato mp3 para descarregar. Depois, é só levar e rezar no metro, no autocarro, a passear pela rua ou simplesmente sentado à secretária.
Venha descobrir este novo modo de se encontrar com Deus e viver espiritualmente o dia-a-dia!

Deixa-me rir...

Caros audiophiles, there are many artists who, whatever other great works they have sung or written or painted, are forever associated with one particular masterpiece. Al Stewart is one such artist. Perhaps his name may not immediately be familiar to everyone, but almost everyone will recognise the timeless classic song, and album, for which he will always be remembered, Year Of The Cat.
For me, the song's evocative descriptive lyrical imagery, recalling the film Casablanca, and the seductive saxophone in its musical soundscape transports me to summer days in some unspecified exotic place.



The first thing I ever knew about Al Stewart, even before I heard his songs, was that he was expelled from a boarding school near mine, filling me with the horror and curiosity of a conformist teenager. Listening to his cultured voice he does not sound much like a rebel but he was caught soming 'pot' I think, and later according to his biography he was the first songwriter to include 'f**k' in a lyric.
The first album I heard was Modern Times, and I particularly liked the title song about meeting an old schoolfriend in a bar and reminiscing about the old days but the schoolfriend seems neither to want to remember the past nor to engage with the present.
Al Stewart wrote many story songs of historical people and events, in particular on his album Past Present Future. My favourite here, for the poignant lyric and spanish guitar, is Roads to Moscow about the terrible fate under Stalin's tyranny of so many Red Army soldiers after they returned from five years fighting for Mother Russia against Hitler; Stalin did not trust the power of the military and many were executed or sent to Siberia labour camps.  


A proxima,
po
 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Cinco minutos de Madrid

Saí da cama mais cedo do que o sol. Fiz o check-in antes do sol. E antes do sol ter começado a trabalhar, já eu estava num avião a vários quilómetros de altura. O que significa que o meu dia, em termos de luz, começou em Madrid.

Foi só escala para outro destino, mas, como tinha umas horas entre voos, apanhei um metro para o centro da cidade. Todas as informações sobre como lá chegar foram dadas por uma senhora muito prestável, que respondeu à primeira pergunta com um ar exasperado, e à segunda com suspiros e olhos revirados. Uma excelente aquisição para um ponto de informações.

Apanhámos o metro até à estação Sol, que dos cinco minutos de pesquisa feitos na noite anterior pareceu um bom ponto de passagem para alguns pontos obrigatórios. Começámos nas Puertas del Sol, com um movimento que se estava à espera para um Domingo, fim-de-semana de Carnaval e dia dos namorados. A fotografia abaixo explica as mãos dadas e os beijinhos a que se assistiram durante o dia.




Da praça seguimos para o Mercado del Rastro, o maior mercado europeu em espaço aberto, assim dizem os sites da especialidade. São mais de 3500 bancas que vendem de tudo. Começando por roupas, passando por pregos apanhados de uma gaveta em casa e acabando em gaiolas com tamanho suficiente para acomodarem um leão.

Numa dessas bancas estavam à venda facas de todos os tamanhos e feitios. A senhora, muito mais prestável que a das informações do aeroporto, insistia que levássemos uma espada samurai, com uma lâmina capaz de cortar aço como se vê nos filmes, e de tamanho considerável. ‘Não se preocupem’, dizia ela num espanhol e / ou português estranho, ‘podem levar isto no avião sem quaisquer problemas’. Com todos os protocolos apertados de tira casaco, tira botas porque podem apitar, tira cinto porque é proibido, et al,, não tenho dúvidas de que uma espada de quase um metro levantaria algum problema.

A visita ao mercado acabou com um almoço tipicamente espanhol. Pelo menos espero, porque, se não, fui enganado.



Mais uns passeios numas ruas que não sabia onde iam dar, acabámos na Gran Vía, na loja do Real Madrid, com uma fotomontagem com o Cristiano Ronaldo. A impressão da fotografia custava onze euros. Com um preçário deste calibre não admira que o fundo de transferências anual do Real seja perto do PIB português.

Depois de tudo isto acabaram os cinco minutos de Madrid, e chegou a altura de voltar para o aeroporto. No próximo destino não vão ser só cinco minutos, e a experiência fica para outras linhas.



SdB (III)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Pensamentos impensados

Num jantar de confraternização de médicos, quando chegou a altura dos brindes, todos disseram à sua saúde e levantaram
uma ...aspirina.

Os 3 grandes escritores da antiguidade foram Ovídio, Paris e Gargântua,

Camões disse amor é fogo que arde sem se ver. Eu digo que azia é fogo que arde sem se ver.

Física para todos:
Quem disse que o calor dilata os corpos,nunca assou uma peça de carne.
Quem disse que o frio faz encolher, nunca pôs uma garrafa com água no congelador.

SdB (I)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Para uns é 2ª feira de Carnaval. Para outros...

No Rio de Janeiro, com temperaturas superiores a 40º - há alguns dias estavam, pelo menos - o povo samba na rua e nos recintos próprios, dando rédea livre à sua natureza foliona. 

Em Veneza é Inverno, e a temperatura convida menos à nudez sub-tropical. A cidade mascara-se, respeitando uma tradição que vem da Idade Média, para que ninguém se conheça e a liberdade seja total.

Na Alemanha haverá outros costumes, como na Rússia, em África ou noutros países do globo. Em Portugal é Sines, Torres Vedras, Loulé, entre tantas localidades.

Mas, em todos estes países, há uma parte da sociedade que comemora o Dia Internacional da Criança com Cancro. É um realidade diferente, com contornos bem menos alegres. 

Numa das minha mãos vejo um miúdo que se mascara de Zorro ou de fada, ou de um qualquer herói dos jogos de computador; na outra mão é uma criança que acaba um tratamento, começa outro, neste rodopiar de angústias que se inicia por uma notícia brutal: o seu filho tem cancro.

Há uma ironia neste dia 15 de Fevereiro. Para uns é 2ª feira de Carnaval. Para outros...

JdB

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A Esperança de Margarida

Porto, 1965 - Londres, 2007. Um homem dificilmente definível, tantos os contrates e contradições que faziam parte dele. Um ser superior em coragem, sensibilidade e inteligência. Um homem excessivo. Ter-lhe acesso tanto foi um privilégio como um desafio (nalguns casos, uma provação). Curso de Direito pela metade, pensamento rasgado e límpido, foi autor de “Porto A'Abrir”, juntamente com Rita Burmester, no âmbito do Porto Capital da Cultura 2001, bem como de “Uma família do Porto”, uma viagem pela genealogia familiar. O conto em questão foi publicado postumamente e insere-se num livro, iniciativa de Rita Burmester, intitulado "Splendid Garage". Uma vida invulgarmente rica, verdadeiramente experimental, marcou todos aqueles que com ele se cruzaram. Morreu como viveu: com a cabeça erguida e a dignidade intacta.

***

A velha Condessa de Vivalma, naquele dia de Abril dentro, estava especialmente nervosa. No seu quarto, onde vivia sempre com uma sensação de desperdício de espaço, entre cadeiras Chippendale de pau-santo, espelhos de talha dourada e maples forrados com pássaros exóticos, flores e luas dispostos simetricamente como Poirot gostaria, procurava impaciente os brincos, a carteira, as chaves, o lenço e os óculos. O cabelo estava muito fino, caramba! Irritava-se com as bainhas do saia-casaco que não estavam bem, mas a Maria Costureira já andava nos oitenta, coitada! Hoje era dia de conferência vicentina em casa do Senhor Abade, como todas as terças, e os bolinhos de areia ainda estavam quentes para levar. Era uma receita secreta de família muito apreciada, e era-lhe mais grato ouvir elogios a eles do que aos feitos épicos dos seus antepassados, reais ou não. Estava tão nervosa que nem conseguia espetar bem o alfinete que segurava o chapéu. 

O mundo estava louco e os homens queriam ir à lua, onde só Nossa Senhora podia por os pés! A prima Piedade tinha deixado o marido e os filhos e tinha ido para Las Vegas com um artista de variedades que parece que cantava com um casaco de lantejoulas azuis ou prateadas, tipo corista mas em homem; havia outros homens assim em Inglaterra que não cortavam o cabelo; e as netas do caseiro usavam saias acima do joelho e queriam ir estudar para o Porto, para quê, meu Deus, para quê, se iriam para o campo a vida toda, iriam costurar, servir, ou qualquer coisa do género? O Senhor Abade estava raladíssimo com tudo isto, não entendia nada, achava que o fim do mundo estava para chegar. Todos estes problemas preocupavam em excesso a Condessa.

Enquanto endireitava as costas e lançava um olhar terno à fotografia do marido, como que a pedir-lhe protecção do céu, viu o venho Senhor Regaleira no jardim, de chapéu de palha e de avental vincado, entre o buxo e as rosas, as margaridas aos molhos e os amores-perfeitos perto do tanque, como se conhecesse cada flor pelo nome próprio. Regaleira, porque era a perdição das criadas velhas, um regalo para os olhos, diziam elas inocentes, perante a Senhora. Bateu então na janela e pediu-lhe com gestos já conhecidos de ambos que tirasse o carro da garagem. 

Ah, aquele carro novo que o seu procurador de Lisboa a tinha aconselhado a comprar, porque lhe acompanhava a dignidade e era material sólido, americano; era um pesadelo que tinha de enfrentar sempre que era preciso ir à vila, como hoje! Saiu do quarto e atabalhoadamente ia pondo as luvas enquanto arranjava os punhos pelo corredor, com o som austero dos tacões no soalho, amaciados de vez em quando por arraiolos e sempre sob os olhares austeros dos avós e bisavós nos quadros a óleo, cheios de brasões. A Rosa, a criada desde sempre que tinha sido criada consigo em casa dos seus pais, esperava à porta com um sorriso e com os bolinhos dentro de um avental com uma gola engomada, exactamente igual ao que tinha vestido há quarenta anos atrás. 

Agora a Condessa tinha uma empreitada: abrir aquela porta com uma mão de espessura e sentar a sua silhueta pequenina naquele imenso banco corrido. Abrir talvez um bocado o vidro e mais uma vez estamos na mão de Deus. Com o nariz colado ao pára-brisas da frente, acenou ao Regaleira e à Rosa que foi logo a correr para junto do lume escuro com brasas, rezar o terço para partilhar a aflição da Senhora, por causa do volante, das mudanças e essas coisas! E enquanto isso o Pontiac descia a estrada e serpenteava toda a Serra da Cabreira, sereno e solene por entre campos amarelos e roxos e árvores fortemente verdes até entrar na vila e parar exactamente em frente à porta vermelha do Abade Afonso Bento que às terças-feiras era especialmente mimado pelas senhoras respeitáveis da vila que lhe levavam sempre especialidades de novas experiências, absolutamente suculentas, obrigatório. A mulher do Doutor Marques desta vez com enroladinhos de chouriço; a Dona Adelaide Novais com barrigas de freira com mais amêndoa do que manda a receita; a Dona Deolinda Freitas com bolos de gengibre e de chocolate; a Dona Beatriz da Quinta das Camélias com tigelas e tigelas de marmelada algumas ainda com caroços dos dias em que se esqueceu de tomar o cadilium, o remédio da memória, que acabava por ser o que a tornava respeitável entre as suas pares! Os bolinhos de areia da Condessa eram indispensáveis, porque vinham do céu completamente e davam sempre um ar aristocrático ao lanche semanal. Eram herdados de alguém com sangue forte! 


Nota: Continua na próxima semana

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

pastiche

já não frequento o invernal jardim
nem de noite, nem de dia - fui-me.
ninguém mais quer saber de mim,
azar meu e do que deixei ao lume.

perdi o meu gosto pela jardinagem,
por garimpar estrelas, pérolas novas.
antes: minério delicado; agora: vadiagem,
frequento os dias, não mais as covas.

a escrita que resta é só solavanco,
não mais ternura, espada, pregação.
deixei o génio sentado num banco,
e a mágoa numa qualquer canção.

onde luzia verso, prosa, às vezes fulgor,
há agora paz, mansidão, puro recato,
fui flor ébria, o mais fulminante amor,
sou só memória baça e ao desbarato.


gi.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Deixa-me rir...

Freddie Mercury. o maior cantor de rock de sempre? muito provavelmente;

adorava tê-lo visto ao vivo. sobretudo neste concerto: Wembley, 1986; (o po esteve lá);

um estádio fabuloso (já lá passei uma maratona de 9 horas ininterruptas de música pop e rock - com o po);

um mar de ouvintes comungando do mesmo gosto (amor?) pela música dos Queen;

uma voz e uma força do outro mundo;

uma guitarra cheia de sensibilidade (Brian May); o registo certo por detrás de palavras fortíssimas entoadas por esse “monstro” que foi Freddie Mercury;

o equilíbrio perfeito entre sons e silêncio;

uma prece em formato rock;

o acústico mais bonito que já ouvi!


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Vai um gin do Peter's?

Vi, há dias, o imperdível "INVICTUS" (Invencível), do talentoso realizador, Clint Eastwood, cujo epicentro é a figura maior de Nelson Mandela -- e só isso vale o filme!

Clint esquiva-se, habilmente, à tentação de biografar, tout court, uma personalidade ímpar, concentrando-se antes no maior legado que Mandela quis deixar ao seu país, desde o minuto zero do seu mandato como Presidente da África do Sul (1994): desfazer as quase intransponíveis barreiras do apartheid, sulcadas em zonas remotas do coração, superar os inúmeros traumas étnicos para unir, pacificar a «rain-bow nation», na expressão muito positiva do Nobel da Paz (em 1993, com Frederik de Klerk)!

De INVICTUS -- título do poema (*) que sustentou Mandela durante os longos 27 anos de cativeiro, escrito 100 anos antes por outro resistente -- mantenho a surpresa do enredo, para quem não tenha ainda visto o filme, apenas partilhando convosco impressões fantásticas, que a obra de Clint nos transmite...

Antes de mais, lembro os excertos significativos do poema, declamado pela voz poderosa do protagonista, com a autoridade da própria vida, como gostava de reivindicar Evita Perón. E fica-nos bem claro que lhe assiste a autoridade de quem perdoou, do fundo da alma, aos seus cruéis algozes, convertendo-se em testemunho vivo de que o caminho da reconciliação é possível, apesar de tudo, e é a única via que abre para a vida, para o futuro: «Out of the night that covers me, / (...) I thank whatever gods may be / For my unconquerable soul. / (...) I am the master of my fate: / I am the captain of my soul.»! Isto dito, ou antes, isto rezado por um condenado incrivelmente aberto aos outros, nada individualista, permitiu-lhe rasgar um horizonte de magnanimidade, sem limites, que o aproximou de todos os homens, a começar pelos carcereiros!

Impressionou-me também -- aliás, impressionou a maioria dos que privaram com ele -- a atenção personalizada, muito humana, dedicada a cada pessoa com quem se cruzava, fixando-lhe o nome, interessando-se pela sua vida, solidarizando-se com os seus problemas. Os pequenos equívocos criados pela invulgaridade desta atitude, que colhia quase todos de surpresa, resultam na melhor marca de autenticidade dos seus gestos, muito populares, mas nada populistas!

E talvez de tudo o que mais me tenha tocado seja a confirmação da criatividade imparável do Bem, que jorra no dia-a-dia de Mandela com a pujança luminosa da gigantesca queda de água Victoria Falls ! E tanto mais espantosa quanto os factos históricos o certificam! Foi giríssimo (não, não vou quebrar o suspense...) Mandela ter estudado, ao pormenor, a forma de convocar o seu povo para a era pós-apartheid, inundando-o, autenticamente, com uma cascata de boas acções, das pequenas às grandes, de impacto incalculável!

Disse que Clint não se tinha detido na biografia de Mandela... mas tenho de explicar que nem precisou, porque os 2 anos de vida fixados na tela denunciam, explicitam mesmo, um passado de heroísmo e sabedoria, conquistados a pulso! Nunca um Homem daquela estatura poderia ter emergido do nada! De facto, o filme é apenas, ao de leve, pontuado por pequenos sinais do passado, eloquentes e sóbrios, como é apanágio de um realizador que não cede a sentimentalismos.

A acabar esta crónica inaugural, passo a palavra ao poeta, repetindo com Mandela: «I thank whatever Gods may be / For my unconquerable soul. /... It matters not how strait the gate, /... I am the master of my fate / I am the captain of my soul».

Maria Zarco
_______________________

(*) Composto em 1875 pelo vitoriano William Ernest Henley (1849-1903), no seu quarto de hospital, a recuperar de uma tuberculose óssea bem feroz, que se saldou na amputação de uma perna. O poema celebrizou-se quando, no final do séc. XIX, foi incluído na colectânea: "The Oxford Book of English Verse". Versão integral do poema:

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Tragicomédia mediocre

É o meu dia-a-dia, alucinante, alucinado, destravado. Partilho a casa, não só com os que pagam a renda como com quem vai aparecendo, personagens mais ou menos difusas, mais ou menos engraçadas, algumas peculiares o suficiente para figurarem num texto insónio. A casa e a vida, que se não somos todos partilha, devíamos ser. Para mim a vida é uma singularidade plural. Não sou muito de me afligir, mas quando penso nisso, na descontracção com que a pontapeamos de um lado para o outro, a vida, nossa e dos outros, revolto-me todo por dentro. Vezes há em que me apanham desprevenido, desfocado das coisas e todo aflito com a curriqueirice do trato que dão ao que temos de mais precioso, e eu acabo por dizer alguma estupidez pouco oportuna, das que caem nas conversas como copos de água gelada na digestão do almoço. Nada a que as personagens principais do meu filme não se tenham já habituado a dar pouca importância.

Somos três, quatro, cinco, de cada vez. Cinco e um chinês. Quase seis, portanto, que o rapaz não tem peso para ser pessoa inteira. Eu apostava uns tostões como ele só paga meio bilhete lá nos transportes orientais. Não se apressem no julgamento, que eu não estou a ser mau só porque ele é amarelo e tem um cheiro estranho, aliás, afianço já que não sou nada má pessoa, e longe de mim ficar apoquentado com a diferença. Até ia a dizer que ele é muito boa meia-pessoa, apesar do vocabulário limitado e da surrealidade das conversas que tenta manter com quem não fala a língua dele, que é como quem diz, toda a gente ca de casa. O choque de culturas é flagrante e hilariante, um relato detalhado dava uma pequena obra, que escrita com cuidado, poderia ser publicada como comédia levezinha para se ir lendo nos lavabos. Resumindo depressa e bem, viver com ele é como ter um cãozinho. O afecto é inegável, porque ele é de facto, adorável, mas tirando isso, é um pesadelo, incluindo a porcaria no chão e os fios elétricos roídos.

Agora estou de férias, uma ilusão temporária que gosto de festejar, como se tudo fossem passarinhos e nuvenzinhas e florzinhas. A verdade é que ando no rescaldo de mais uma época de exames que foi demasiado má para ser sequer credível. A melhor metáfora que me ocorre é a do castelo de areia. O exercício é fácil, imaginem um miúdo entusiasmado, munido da ferramenta plástica do costume e de uma vontade inabalável de fazer a diferença, de joelhos na areia dá início a um empreendimento ambicioso. O brilho nos olhos dele denuncia o planeamento exaustivo, a análise cuidada de todas as variáveis, a confiança que o muro de areia, desta vez, vai ser suficientemente alto e largo para segurar a maré, vai levar pauzinhos espetados, vai levar todas as pedras que houverem na praia, vai aguentar. Vem a maré e alaga tudo, aparentemente com a mesma facilidade que tinha alagado o último muro que ele se lembrava ter construído, muito mais pequeno e fraco. O meu semestre é o castelo, a maré são as épocas de exames. No fim da batalha, afoga-se o desgosto com o lanche que a mãe trouxe de casa e volta-se a atenção para outra coisa qualquer, tentando iludir o orgulho ferido e o desgosto do insucesso com distracções menores.

Não sei o quão semelhantes têm de ser os dias para que nos seja permitido adjctiva-los de rotina, na acepção negativamente repetitiva da palavra. A minha vontade é adjectivar-lhes o estado de espirito, que é sempre o mesmo.

Falei de partilha no início, sublinhei-a como essencial. Não costumo gabar-me das coisas realmente importantes, só das que não interessam para nada, das que puxam umas gargalhadas, mas a verdade é que tenho orgulho no meu sentido de justiça, ou coisa que o valha, e ia estar a ser injusto se me fosse deitar sem partilhar com estas linhas quem partilha tudo o resto comigo. Não há aflição que não se apazigúe com um esfregar de nariz e um abraço apertado, e o amor é isso mesmo, um esfregar de nariz mágico. Os meus dias caóticos são como uma bola presa a um elástico seguro a uma mão firme. Resvalam por todo o lado, vão e vêm, pulam e batem, rodopiam, mas sempre seguros num ponto, numa certeza. E vale-me isso, mais do que tudo.

ZdT

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Moleskine


Bernardo Maria despedira-se do último convidado. Cinco minutos depois, encostado à ombreira da porta de sua casa do Restelo, olhara com uma ternura indisfarçada para a sua filha Carmo, vendo-a a afastar-se de braço dado com Tiago, o seu marido. A festa do 10º aniversário do casamento de ambos fora um sucesso.
No quarto do primeiro andar, Carlota, a sua mulher de há mais de 30 anos, sentara-se ao toucador, frente a um espelho, a uma fotografia emoldurada do Pai com o Prof. Marcello Caetano e a uma saudade de um tempo fagueiro que não voltaria. Quedou-se com um boião de creme na mão, enquanto a mente deambulava pelo dia em que recebera a notícia do casamento da filha.
Oh minha querida! Fico tão satisfeita.
Enquanto isso, no seu escritório, Bernardo Maria escutava o ruído decrescente de uma casa que se vai arrumando aos poucos. A empatia pelo genro nascera com o primeiro aperto de mão entre ambos, talvez há 20 anos.
Olá Tia, olá Tio. Entrem, se faz favor, que os pais estão lá dentro.
As relações entre as pessoas nem sempre são classificáveis por palavras certas, disponíveis nos manuais da especialidade. Bernardo Maria tinha-se-lhe afeiçoado, se bem que não soubesse caracterizar como. Afinal, enquanto Tiago saía com a sua própria filha, ele alimentava uma clandestinidade com a mãe do rapaz, que fora votada a um abandono, sexualmente injusto e financeiramente confortável, por um marido empresário e passageiro frequente.
Um dia, escrevera no seu livrinho de capa preta que o acompanhava há alguns anos:
Ana Sofia, 15 de Janeiro. Casa bonita, cama larga, música suave. Sexo óptimo; mulher experiente e ágil; criativa e com iniciativa. A repetir e a manter.
Bernardo Maria sorrira ao deambular pelo livro, um verdadeiro who’s who da sua vida paralela.
Irene, 18 de Agosto. Mulher poderosa e esgotante. Pouco versátil, agarrada a fórmulas certas. A espaçar devido à exaustão física que me provoca.
Anabela, 1 de Novembro, dia de Todos os Santos. Mulher pequena mas proporcionada, obediente. Sugeri-lhe operação estética aos seios. Dava-lhe outro impacto. Casa pequena, com um cheiro permanente e adocicado que é estranho mas agradável.
Dulce, véspera de Natal…
Andreia, 1 de Fevereiro, dia do regicídio…
Ana Sofia, 2ªfeira de Carnaval. Tiago muito simpático, enternecido pela companhia quinzenal que faço à mãe na ausência do pai. Sexo extraordinário de arrojo, resistência e inovação. Este dia, então, foi de ir às nuvens. Pateta do António, que deixa aquela mulher sem dono.

Bernardo Maria voltou a sorrir, cheio de um encantamento por uma vida secreta e estimulante, repleta de aromas, de posições, de certezas, ausente de remorsos. O sorriso ainda não se desvanecera quando viu, a um canto do escritório, um caderno igual ao seu, mas onde vislumbrou a caligrafia do genro.
Miss X. 15 de Janeiro. Indescritível de ternura, sofreguidão e desejo. Terminou a chorar.
Irene, 20 de Agosto. Já vi mais criatividade, mas é um género. Se não fosse a minha preparação física, talvez não aguentasse.
Anabela, 3 de Novembro. Gosto daqueles seios pequenos . Quer ser operada e discordei. Casa com cheiro enjoativo.
Dulce, 26 de Dezembro…
Andreia, 3 de Fevereiro…
Miss X. 2ªfeira de Carnaval. Como se descrevem duas horas de pleno gozo? O riso final foi o de um sorriso que findara. Chorou.
Bernardo Maria sentiu que ficava sem sangue. Olhou em frente, para uma árvore genealógica onde os seus antepassados se cruzavam com as elites merecidas ou nascidas e não viu orgulho de gente antiga, presunção de mais valor, sangue medieval. Só conseguiu ver uma filha atraiçoada vezes sem conta, um genro que o seguia nas capelinhas do desejo, parando com uma exactidão de complô nas mesmas estações e apeadeiros. Antes de se deixar cair num sofá ainda teve forças para uma última pergunta, gritada para o andar de cima:
Carlota! Lembras-te do que fizeste na 2ªfeira de Carnaval?

JdB

domingo, 7 de fevereiro de 2010

5º Domingo do Tempo Comum

Fui ver, no outro dia, o filme Invictus, de Clint Eastwood. Não me alongo em comentários, para já, porque nos próximos dias talvez saia aqui no Adeus... um texto interessante sobre o assunto. Mas lembro a passagem em que Morgan Freeman, encarnando o papel de Nelson Mandela (um dos homens genuína e completamente bons do nosso tempo) fala do perdão como algo verdadeiramente libertador. O seu percurso de vida afinça-nos que ele sabe do que fala.
Vou ouvindo, aqui e ali, histórias de desavenças, de relações mal acabadas, de zangas que se perpetuam, de raivas e rancores, de orgulhos mal feridos, de desejos de vingança. Talvez devessemos todos ver o filme, para não descurar o p0der incrível do perdão.

EVANGELHO – Lc 5,1-11

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
estava a multidão aglomerada em volta de Jesus,
para ouvir a palavra de Deus.
Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré
e viu dois barcos estacionados no lago.
Os pescadores tinham deixado os barcos
e estavam a lavar as redes.
Jesus subiu para um barco, que era de Simão,
e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra.
Depois sentou-Se
e do barco pôs-Se a ensinar a multidão.
Quando acabou de falar, disse a Simão:
«Faz-te ao largo
e lançai as redes para a pesca».
Respondeu-Lhe Simão:
«Mestre, andámos na faina toda a noite
e não apanhámos nada.
Mas, já que o dizes, lançarei as redes».
Eles assim fizeram
e apanharam tão grande quantidade de peixes
que as redes começavam a romper-se.
Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco
para os virem ajudar;
eles vieram e encheram ambos os barcos
de tal modo que quase se afundavam.
Ao ver o sucedido,
Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe:
«Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador».
Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele
e de todos os seus companheiros,
por causa da pesca realizada.
Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu,
que eram companheiros de Simão.
Jesus disse a Simão:
«Não temas.
Daqui em diante serás pescador de homens».
Tendo conduzido os barcos para terra,
eles deixaram tudo e seguiram Jesus.

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