domingo, 31 de julho de 2016

XVIII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 12,13-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
alguém, do meio da multidão, disse a Jesus:
«Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo».
Jesus respondeu-lhe:
«Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?»
Depois disse aos presentes:
«Vede bem, guardai-vos de toda a avareza:
a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens».
E disse-lhes esta parábola:
«O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita.
Ele pensou consigo:
‘Que hei-de fazer,
pois não tenho onde guardar a minha colheita?
Vou fazer assim:
Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores,
onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens.
Então poderei dizer a mim mesmo:
Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos.
Descansa, come, bebe, regala-te’.
Mas Deus respondeu-lhe:
‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma.
O que preparaste, para quem será?’
Assim acontece a quem acumula para si,
em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

***

O campo de um homem rico tinha dado uma colheita abundante. Raciocinava ele consigo: «Que farei? Tenho demasiado. Já sei, demolirei os meus armazéns e construirei outros maiores». Assim poderei acumular e parar.

Escreve S. Basílio: «E se depois encheres também os novos celeiros, que farás? Demolirás outra vez e outra vez reconstruirás? Com cuidado construir, depois com cuidado demolir: haverá coisa mais insensata, mais inútil? Se queres, tens celeiros: estão nas casas dos pobres».

O rico da parábola diz sempre «eu» (eu demolirei, construirei, colherei...), usa sempre o possessivo «meu» (os meus bens, as minhas colheitas, os meus armazéns, eu próprio, alma minha). Nenhum outro entra no seu horizonte. Homem sem abertura, sem brechas; não só privado de generosidade, mas privado de relações. A sua vida não é vida. Com efeito: tolo, nesta mesma noite ser-te-á pedida a vida de volta.

Jesus não evoca a morte como uma ameaça para fazer-nos desprezar os bens da Terra. O Evangelho não contesta o desejo de gozar das breves alegrias do caminho, como queria fazer o rico (alma minha, descansa, come, bebe, diverte-te...).

Jesus não faz como certos pregadores que estendem um véu de triste recusa sobre as coisas do mundo, quase querendo que percamos o interesse pela vida; não diz que o pão não é bom, que o bem-estar é mal.

O que Jesus diz é que não só de pão vive o homem. Que o homem morre se viver só de pão, só de bem-estar, só de coisas. Que a tua vida não depende do que possuis, não depende daquilo que cada um tem, mas daquilo que cada um dá. A vida vive de ser dada. Só somos ricos daquilo que demos. Nas colunas do "haver" só encontraremos, no fim, aquilo que perdemos por alguém. «Se queres, tens celeiros, estão nas casas dos pobres».

O homem rico criou um deserto à sua volta. Está só, isolado no centro dos seus armazéns cheios. Nenhum outro é nomeado, ninguém em casa, nenhum pobre à porta, ninguém com quem partilhar a alegria da colheita. As pessoas contam menos do que sacos de grão. Não vive bem.

Jesus pretende responder a uma pergunta global de felicidade que se alimenta de pelo menos duas condições: nunca pode ser solitária e tem sempre o que fazer com o dom. Queres vida plena? Não a procures no mercado das coisas: as coisas prometem o que não podem manter. As coisas têm o fundo e o fundo das coisas está vazio. Procura-a nas pessoas. Muda o teu desejo.

Quem acumula tesouros para si não se enriquece junto de Deus. A alternativa é clara: quem acumula "para si", morre lentamente. Quem enriquece junto de Deus, acumulando relações boas, dando em vez de reter, encontrou o segredo da vida que não morre.


Ermes Ronchi 
In "Avvenire" 
Trad.: Rui Jorge Martins 

Publicado aqui em 28.07.2016

sábado, 30 de julho de 2016

Pensamentos Impensados

Tanga
Carlos Gardel TOP10: cantango espalharei por toda a parte

Pelo menos
Jorge Jesus nunca teve medo que viesse a sanção; tinha era medo que viesse a Dalila, especialista em cortes de cabelo.

Ouvido por aí
Profissão: a mais antiga prostituição do Mundo..

Irmandades
Alter do Chão vai ser declarada gémea de alter ego.

Acordem
Sempre que fazem um cordão humano esquecem-se de levar o cordão umbilical.

Altius
Submarino à tona da água não pode declarar emergência.

Bichinhos
A palavra viral está a tornar-se viral.

Literatura de cordel 
O Kamasutra é considerado literatura de bordel.

SdB (I)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Textos dos dias que correm

Rabino Abraham Skorka escreve no jornal do Vaticano sobre silêncio do papa Francisco em Auschwitz

Na nossa última conversa o papa Francisco explicou-me que na sua visita a Auschwitz escolheu exprimir-se através do silêncio. Talvez porque tudo aquilo que tinha a dizer já o tinha dito na sua mensagem ao Yad Vashem, em Jerusalém, e nas palavras que trocámos no nosso encontro em Buenos Aires, e depois retomadas no livro "O céu e a terra" (2010). O arcebispo de Buenos Aires afirmava: «A "Shoah" é um  genocídio como os outros genocídios do século XX, mas tem uma particularidade. Não pretendo dizer que é de primeira importância enquanto os outros são de importância secundária, mas há uma particularidade, uma construção idolátrica contra o povo judeu. A raça pura e o ser superior são os ídolos sobre os quais se constitui o nazismo. Não é só um problema geopolítico, mas existe também uma questão religiosa e cultural. E cada judeu que era morto era uma bofetada ao Deus vivo em nome dos ídolos».

Bergoglio pensa que, no próprio lugar do massacre, as suas palavras seriam demasiado redutoras para exprimir as sensações que o estão já a impregnar só com o pensamento da sua presença lá. No livro "L'Exil de la Parole" ("O Exílio da Palavra"), André Neher diz-nos: «Auschwitz é sobretudo silêncio. Isto é indubitavelmente melhor compreendido pelos poetas que pelos filósofos, porque é o silêncio a dominá-los assim que dizem "Auschwitz"». Um deles, Uri Zvi Greenberg, procurando um só termo para exprimir a característica que distingue os mártires de Auschwitz no tempo e na eternidade, escolhe a palavra silêncio: os mártires de Auschwitz são os «mártires do silêncio» ("Kedohsei Dumiah"). Foi este o título que o poeta deu a uma poesia em memória da sua mãe e do seu pai mortos em Auschwitz.

O texto do Levítico conta-nos que Aarão se cala após a morte dos seus dois filhos (10,3). Por outro lado, no livro de Job é-nos dito que os seus fiéis amigos ficaram junto a ele durante sete dias sem lhe dirigir uma palavra (2, 13), respeitando com o silêncio o do amigo em sofrimento. Na dor, diz o texto das Lamentações (3, 28), o homem deve sentar-se e permanecer em silêncio. O silêncio deve exprimir-se muitas vezes, como nos episódios bíblicos mencionados, esse silêncio que transcende a palavra. Quando a dor é grande o grito permanece sufocado na garganta.

«Como em outros lugares que visitei, onde foram cometidos atos horríveis», confiou-me o meu amigo, «também neste lugar desejo exprimir-me com o silêncio. Rezar e sentir, chorar se Deus me abençoar com o derramar de lágrimas, sem dizer uma palavra, é isto que devo fazer em Auschwitz».

Escutando este seu propósito, voltou à minha mente a oração de Ana, mãe de Samuel. «Moviam-se apenas os lábios, mas a voz não se ouvia» (1 Samuel 1, 13). O sábio rabino Hamnuna, segundo o Talmude (Berakhot 31, a), ensinava que da descrição da oração de Ana podem inferir-se coisas muito importantes sobre como orar. Do tom tranquilo da sua oração deve-se concluir, segundo o sábio, que aquele que reza não deve elevar demasiadamente a própria voz. Porque quando alguém reza deve escutar ao mesmo tempo o que os seus lábios proferem e o que vem do seu coração.

Como diz o livro dos Salmos (19, 4), os céus e os seus astros testemunham a grandeza do seu Criador, mas a sua voz não pode ser ouvida. E no primeiro livro dos Reis (1, 19-12) lê-se que Elias apercebe-se da voz do Eterno como um murmúrio do silêncio. Antes da aparição daquela voz, o profeta ouviu um vento fortíssimo, um terramoto e um grande fogo, mas Deus revelou-se com uma voz que mal perturbava o silêncio. Diante do olhar do ser sensível, o silêncio dos astros e a sua mensagem testemunham a grandeza de Deus quanto as grandes, rumorosas e dramáticas manifestações da natureza, se não mais.

Numa "haggadah" do Talmude (Menachot 29 b) conta-se que Deus antecipou o futuro a Moisés, mostrando-lhe a grandeza e a dramática e cruel morte do rabi Akiva, o maior sábio do Talmude, às mãos dos romanos. Perante a angustiante pergunta de Moisés ao Eterno - é esta a recompensa pelo estudo e a dedicação à Torá? -, Deus responde: «Cala-te, assim se elevou o pensamento diante de mim». Há coisas imperscrutáveis, que não é possível exprimir por palavras.

Bergoglio vai a Auschwitz para rezar. Para se deter diante do Criador a chorar por aquilo que o homem fez ao seu próximo naquele lugar.

Em Auschwitz o homem pôs-se a calar, por assim dizer, a voz de Deus na realidade humana através da consumação de atos nunca antes vistos. Os nazis não tinham necessidade de construir uma torre que chegasse aos céus para desafiar Deus, como tinha acontecido séculos antes em Babel. Escolheram aniquilar o povo que fez o pacto com Ele para eliminar a sua presença da realidade humana. Ali, onde a ignomínia se pôs a calar as vozes dos justos e a de Deus, o papa escolhe o silêncio para honrar quer as vítimas quer o Criador. O seu pedido a Deus para poder chorar naquele lugar difere de quanto pede o salmista (51, 17) - «Senhor, abri os meus lábios e a minha boca proclame o teu louvor? -, mas assemelha-se ao de Jeremias (8, 23), o profeta que predisse e assistiu à destruição da Judeia e de Jerusalém: «Quem fará da minha cabeça uma fonte de água, dos meus olhos uma fonte de lágrimas, para que chore dia e noite as mortes da filha do meu povo?».

Com a ajuda do Eterno, estarei fisicamente próximo dele nesse momento. A "Shoah" e o seu significado eram um tema recorrente nas nossa conversas em Buenos Aires, tão distante geograficamente de Auschwitz mas tão próxima na nossa dor e no nosso sofrimento.

Título do texto de Abraham Skorka: "O silêncio de Auschwitz"

Abraham Skorka 
In "L'Osservatore Romano", 27.6.2016 
Trad.: Rui Jorge Martins 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Poemas dos dias que correm

O Mar é Longe, mas Somos Nós o Vento

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões"

***

Desencontro

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Das coisas que não nos largam

Éramos quatro sentados à mesa - onde não se envelhece, dizem os alentejanos - de onde nos levantámos já passava da uma da manhã. Une-nos uma amizade tardia, nascida essencialmente, mas não exclusivamente, de uma vida profissional mais ou menos próxima. Falámos de tudo: das anedotas, da política, dos livros, das comidas e dos carros; mas também falámos das desarmonias interiores de cada um de nós, da forma como as combatemos, dos triggers aos quais é  fundamental estarmos atentos porque são episódios que desencadeiam o que temos de mais complicado. Falámos de terapias, das experiências de um ou de outro. Quatro homens feitos e direitos que vão desnudando a alma sem que isso constitua humilhação ou voyeurismo social.

Tenho um interesse muito grande por terapias. Nas vésperas falava com um amigo cuja namorada faz hipnoterapia para curar algumas fobias. Tive vontade de experimentar, embora não tenha fobias dignas de registo. Mas este tratamento à base de hipnose, assim como o de dois comensais, interessa-me, não do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista do efeito no auto-conhecimento da pessoa que passa por isso. Interessa-me o que aprendemos de nós, não só as misérias humanas que nos habitam, mas a forma de as controlar, de as dominar ou de as contornar. Interessa-me perceber o que em cada um de nós desencadeia um ataque de raiva incontida ou uma vontade súbita de ceder a uma adição. Interessa-me o impacto secundário da terapia na pessoa, sendo que o directo é o conseguir não beber ou o não ser excessivamente agressivo com alguém.  Mas o que verdadeiramente me suscita curiosidade é o que a terapia fez na pessoa, como a alterou para melhor, o que ela passou a saber sobre si própria que a enriqueceu interiormente.

Depois, num âmbito diferente em termos de tempo e interlocutor - mas não, em bom rigor, de tema -, conversei sobre auto-conhecimento aplicado às características que temos. E surgiu esta tríade que pode resumir, ainda que de forma muito incompleta, a nossa atitude face ao pior que temos ou somos: aceitação, reconhecimento, modificação. Isto é, aceitamos os nossos defeitos, reconhecemos os nossos defeitos, modificamos o nosso comportamento (não modificamos o nosso defeito, parece-me). Numa visão muito repentista, a sequência seria, para mim: reconhecer, aceitar, modificar. Reconheço o que sou, aceito-me como sou, modifico o que sou. Mas podemos alterar as duas primeiras palavras? Isto é, podemos dizer aceitar, reconhecer, modificar? Se sim, o que nos diz isso? Ou fazemos apenas um jogo de palavras?

Num certo sentido, ser-se colérico é o mesmo que ser-se adicto. Quem o é, é-o para sempre. Como evidenciamos a nossa vontade de mudar? Principalmente através de gestos concretos, independentemente, para mim, da motivação. Serei sempre colérico, ou forreta, ou orgulhoso ou o que quer que seja, como um adicto o é. A alteração de comportamentos não significa mais do que uma alteração de comportamentos. Não pretende dizer a ninguém que afinal não sou, mas pretende mostrar aos outros que conseguimos controlar o que somos. A única forma de demonstrar uma mudança interior é através de gestos concretos, não através de deambulações interiores que pouco mudarão o que somos. O único (passe o simplismo) pensamento interior necessário é a vontade de "mudar". Não a vontade de ser outra pessoa, mas a vontade de ter outros comportamentos e, com isso, talvez, ser outra pessoa. Essa tem de ser a verdadeira motivação. Apaziguamentos da consciência ou desejo de passar uma imagem diferente não são mais do que folclore.


JdB  

terça-feira, 26 de julho de 2016

Duas Últimas

As entradas são sem dúvida importantes no todo a que pertencem, qualquer que ele seja.

Embora por vezes não sejam decisivas, como se viu no último campeonato europeu de futebol, em que Portugal entrou quase sempre mal, mas acabou campeão. É caso para dizer aqui, usando frase usada e abusada, que “isto não é como começa, mas como acaba”.

Em minha defesa, penso nas entradas das refeições, que normalmente atestam a maior ou menor qualidade do que se lhes segue. Acreditem que sei do que falo, pois considero-me sem modéstia quase um catedrático em matéria de sopas. E locais onde elas sejam bem confecionadas não me deixam por norma ficar mal. 

Ou então nas entradas em férias, tão próximas para tantos, que se espera sejam a antecâmera de dias diferentes e bem passados.

Ou ainda nas entradas em conversas, reuniões, entrevistas, em que a primeira impressão é tantas vezes decisiva. Muitas vezes fruto de juízos apressados e injustos, mas…

Deixo-vos com três músicas que têm entradas de que gosto. A 2ª deve ser minimizada/atenuada nalguns aspectos, para mais em tempos de veraneio e de optimismo.

Óptimas férias e que sejam muitos os que as podem ter.

fq





segunda-feira, 25 de julho de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Num cruzamento invulgar –  entre antigo e contemporâneo, oriental e ocidental, ortodoxo, católico e protestante –  foi recriado por uma artista sueca um dos ícones mais conhecidos e milenares da Igreja Ortodoxa, que está exposto na capela do Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga: 

Ícone bimilenário, que inspirou o conjunto artístico de Braga

Sendo o Seminário português dedicado à Mãe de Jesus, percebe-se que a escolha recaia sobre uma imagem ligada à tradição Eleousa, ou "Terna", ou da Misericórdia, em que Maria encosta o Filho a si, enquanto nos fixa com um olhar meigo, como Mãe da Humanidade. Por isso, este ícone é também conhecido no Ocidente por Nossa Senhora da Ternura ou da Misericórdia.

Reza a lenda que o ícone original, hoje religiosamente guardado em Moscovo numa capela da Galeria de Arte Tetryakova, terá sido pintado pelo evangelista Lucas e, de Bizâncio, levado pelo príncipe Andrei Bogolyubskiy para a cidade de Vladimir, no século XIII. A devoção espalhou-se rapidamente pelas cidades vizinhas até se estender a todo o país, ajudada pela catadupa de milagres que lhe são atribuídos. Juntamente com o ícone de Kazan, perfaz a dupla de ícones marianos com maior relevância na História da Rússia, especialmente devota de Maria. 

A pintora Lisa Sigfridsson(1)  procurou reproduzir a antiquíssima técnica da têmpora, que preserva melhor o brilho e o cromatismo das cores. Sobre madeira de tília, optou pela máxima austeridade, circunscrevendo-se às três cores primárias: magenta (ou vermelho), azul e amarelo. Além de estilizar o original, a sueca desdobrou o original em telas complementares, formando um quinteto pictórico com uma simbologia própria, explicada a seguir:

Fotografia: Joaquim Félix 

O primeiro, no extremo esquerdo, representa a imensidão monocromática do cosmos, a representar o céu profundo e misterioso habitado por Deus, mas de uma escala demasiado agigantada para o ser humano.

No segundo, o gesto meigo da Mãe ampara o Pequenino, sintetizando o epicentro da mensagem cristã, onde o Amor, a Caridade, é o próprio nome de Deus.

No terceiro, o céu estrelado representa a envolvente mais próxima do planeta, como que evocando aquela noite santa em que as estrelas iluminaram o escuro para louvar um Bebé que escolheu nascer num lugar perdido do poderoso Império Romano. 

O quarto dá destaque ao gesto maternal de Maria, fazendo zoom sobre a mão bondosa onde o Filho repousa em segurança. Foca-se numa mão de mãe, ao alcance de todos os filhos.

O quinto replica uma das duas flores do manto de Maria, no ícone antigo. A escolhida foi a que está junto ao coração – símbolo do Amor – logo abaixo da mão com que Jesus agarra a Mãe. No original, a segunda flor encontra-se na fronte, sinalizando o poder da sabedoria e da intuição.



Num país mariano como o nosso, que coroou Nossa Senhora Rainha de Portugal (séc. XVII), é significativo inspirar-se no património da arte sacra de outro país mariano, de raiz ortodoxa. As associações à Rússia ainda se adensam mais, se recordarmos a alusão explícita na mensagem de Fátima, em que Maria encomenda a conversão do maior país do mundo a três pastorinhos de pouca idade e parca cultura. Compreensivelmente, nem perceberam do que se tratava, empenhando-se apenas em cumprir, como podiam, o pedido encriptado da Virgem. Bastou a humildade e extrema dedicação, iluminadas pela fé, para as três crianças porem Portugal a rezar pela URSS, desde 1917 até ao desmoronamento do império bolchevique, no final dos anos 80. Por isso, o Papa João Paulo II lembrava que, enquanto o mundo parecia sucumbir ao poder do Exército Vermelho e à força da ideologia comunista, na Cova de Iria gente anónima e remota limitava-se a seguir a recomendação de Maria, confiando que os tempos e os meios do Céu encontram saídas que escapam à imaginação e à lógica humanas. Felizmente para nós, há uma Criatividade benigna, que nos baralha com soluções imprevisíveis e certeiras, daquelas em que o Indiana Jones tentou especializar-se.  

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

 (1)  Página da pintora: http://www.lisasigfridsson.se/?page_id=1980

domingo, 24 de julho de 2016

XVII Domingo do Tempo Comum

 
EVANGELHO – Lc 11,1-13
 
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
 
Naquele tempo,
Estava Jesus em oração em certo lugar.
Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos:
«Senhor, ensina-nos a orar,
como João Baptista ensinou também os seus discípulos».
Disse-lhes Jesus:
«Quando orardes, dizei:
‘Pai,
santificado seja o vosso nome;
venha o vosso reino;
dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência;
perdoai-nos os nossos pecados,
porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende;
e não nos deixeis cair em tentação’».
Disse-lhes ainda:
«Se algum de vós tiver um amigo,
poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer:
‘Amigo, empresta-me três pães,
porque chegou de viagem um dos meus amigos
e não tenho nada para lhe dar’.
Ele poderá responder lá de dentro:
‘Não me incomodes;
a porta está fechada,
eu e os meus filhos estamos deitados
e não posso levantar-me para te dar os pães’.
Eu vos digo:
Se ele não se levantar por ser amigo,
ao menos, por causa da sua insistência,
levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa.
Também vos digo:
Pedi e dar-se-vos-á;
procurai e encontrareis;
batei à porta e abrir-se-vos-á.
Porque quem pede recebe;
quem procura encontra
e a quem bate à porta, abrir-se-á.
Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe,u
em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente?
E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião?
Se vós, que sois maus,
sabeis dar coisas boas aos vossos filhos,
quanto mais o Pai do Céu
dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».

sábado, 23 de julho de 2016

Pensamentos Impensados

Imposições
Ó mar salgado, quanto do teu sal é proibido por Bruxelas!

Atenção Caixa Geral
Tenho experiência bancária: sei ir ao Multibanco.

Limpeza
A bordo das naus dos descobrimentos não havia a menor higiene: era uma situação nau... seabunda.

Ainda sem experiência
Deus auto nomeou-se Ministro da Administração Eterna.

A caligra não se fia
A escrita Braille, composta por pontos, ajuda os cegos a ter pontos de vista.

Andicapas
Disseram-lhe: não há pior corredor do que aquele que não tem pernas.
Oscar Pistorius riu-se.

Ri-te ó palhaço
Charlot foi um artista fora de sério.

Forreta
Saramago fez fortuna a poupar nas vírgulas.

SdB (I)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Pensamento Impensado

Destruição

Leio nos jornais a intenção de acabar com os brasões feitos de plantas na Praça do Império, sob o pretexto de que já estão degradados e já não temos Império.

Os nossos governantes estão cheios de complexos (de esquerda, de colonialismo e muitos mais). Se os brasões estão degradados, recuperem-se. D. Afonso Henriques e o Marquês de Pombal também já morreram e são lembrados. Tudo isto são complexos. E como é que vai passar a chamar-se a Praça do Império? Praceta Catarina Eufémia?

Como dizia um tio meu: País de cafres, o meu Portugal.

SdB (I)

Friday is a great day to fall in love







quinta-feira, 21 de julho de 2016

Tempo de férias *




Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso. Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo para comer, com muitas pessoas à sua volta. Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco. Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras. Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar! Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é. A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos.Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana. Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano. O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir. Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro. Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal. Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: "Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...". Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois: "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe". Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.

(texto de Bento XVI publicado, penso, em 2007)

***

* publicado originalmente a 3 de Agosto de 2008. Este estabelecimento abrira há quase 15 dias e no dia seguinte eu embarcava para o Zimbabwe. Boas férias para quem as começa brevemente.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Duas Últimas

Há algumas semanas fui ao auditório exterior da Fundação Gulbenkian ouvir o coro da Fundação - soberbamente dirigido pelo Jorge Matta - cantar músicas da Broadway. Algumas não conhecia de todo, ou por serem mais antigas e menos populares ou por serem muito recentes, outras conhecia e, impulsionado pelo ambiente fantástico, cantei desafinadamente a plenos pulmões. Neste momento mais estival deixo-vos com duas obras bastante diferentes, de tempos diferentes, de ritmos diferentes. Cantei ambas com gozo - tenho dúvidas que me tenham ouvido com gozo. 

JdB


terça-feira, 19 de julho de 2016

"Só Ficar" (um post para a Raquel)

Penso que já terei escrito algo sobre este aspecto das minhas férias de juventude: durante alguns anos, talvez dos 13 até aos 24 ou 25 passei férias regulares em casa de amigos e primos no Alentejo. Era Setembro, e a casa enchia-se de gente, do cheiro a petróleo que substituía a electricidade, da emoção dos cigarros fumados às escondidas, do odor a sopa de cação ou de beldroegas, da música ouvida num pick-up a pilhas ou dos devaneios adolescentes de uma ida a Badajoz. Lembro-me de me perguntarem o que fazíamos lá durante um mês. A minha resposta repetia-se com a monotonia que advém das convicções: nada! E é por isso que é tão bom.  

De facto, não havia grandes actividades, para além do pingue-pongue, dos jogos de gamão ou das idas à terra local ver a novela ou passear um bocado, das excursões a Vila Viçosa pendurados na boleia que substituía os carros inexistentes. Usando uma conjugação verbal já aplicada neste estabelecimento, estava-se. No fundo, ficávamos, e nada havia de mais feliz nessa dimensão de aparente inactividade. Não estávamos obrigados à agitação, não queríamos agitação para além daquela que já tínhamos. Queríamos algo que não se ligasse obrigatoriamente ao frenesim, à necessidade de programas diários, à agitação do corpo ou da mente. Estávamos,  e isso dava-nos - ou dava-me, pelo menos - uma tranquilidade enorme e uma felicidade cujas razões só tarde percebi. Queríamos estar, porque encontrávamos nessa realidade aquilo que cada um precisava, ditado pela ingenuidade ou pela necessidade do subconsciente. Aquela casa era o nosso mundo. Ou era o meu mundo. 

A Raquel da Camara, a viver actualmente na Índia e casada com alguém que sabe bem do que falo, escreveu um post que vale a pena ler aqui

(Em bom rigor, todo o blogue vale a pena ser acompanhado.)

Mas o post - aquele post específico - tocou-me em duas partes do cérebro responsáveis pelas memórias: uma mais antiga, a cavalo da qual recuei mais de quarenta anos, e uma mais moderna, que me levou ao Zimbabwe em 2008. E talvez me tenha ligado ainda, nesta ideia de ligar aspectos aparentemente distintos da vida, ao evangelho de domingo passado em que Cristo diz esta frase importante: Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada. A história da Raquel passa-se em Moçambique e relembra os miúdos que apareciam em casa dela e que lhe respondiam Kungokhala (uma palavra que em Chichewa quer dizer "só ficar") quando ela perguntava o que queriam.

A África que eu conheci (semelhante à África de que a Raquel fala) é, de certa forma, o meu alentejo de há 40 anos e onde a história da Raquel poderia ter-se passado. Gente que fica apenas, porque encontra nesse verbo, que traduz uma realidade física de imobilização da alma, a dimensão que lhe dá tranquilidade. Ficar não é andar de um lado para o outro, perdido nas agitações de uma marta inquieta e preocupada e que, como encontrei num blogue, não entende que a urgência é tantas vezes uma distracção disfarçada de prioridade. Ficar é ficar, é assentar os sentidos no essencial, não andar distraído, a fugir para a frente, iludido com a ideia da eficácia ou da eficiência ou da actividade permanente. Mas ficar é, também, escolher o sítio onde descansar da ansiedade dos dias. Há, em África ou no Alentejo, uma dimensão de lonjura geográfica, de vastidão da natureza que nos atira para a lentidão das coisas, como se o mundo se regesse por verbos conjugados no gerúndio. Quero ficar e quero ir ficando é, acima de tudo, uma metáfora que nos rege uma parte da vida. 

Durante um mês, se me perguntassem o que estava eu a fazer naquele alentejo da minha infância, eu diria Kungokhala. Hoje, passados 45 anos desde a minha primeira ida, continuo a dizer a palavra noutros sítios, com outras pessoas, noutras dimensões. Mas a realidade é esta: entre a palavra e o desejo de uma casa que é o nosso mundo há um fio de cabelo.  

JdB

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Textos dos dias que correm

Job e a amizade

Um olhar desatento pode nada captar de comum entre o drama pré-trágico de Job, como narrado nas Sagradas Escrituras, e a aparentemente burguesa avant la lettre teoria da amizade de Aristóteles, como exposta sobretudo na sua Ética, dedicada a seu filho Nicómaco.

Trata-se, mesmo, de um olhar desatento, pois, um olhar que queira penetrar na radicalidade da proposta aristotélica, como posta no nível mais elevado da amizade, em que esta coincide com a perfeição de um ato de mútuo e oblativo amor entre dois seres humanos semelhantes, perceberá que a ninguém melhor do que a Job, na relação com os diferentes seres humanos que o brindam com a sua presença bem como com o próprio Deus, se pode tal proposta aplicar.

A situação de Job, ao longo de quase toda a narrativa, é a de alguém que não tem amigos. E, no entanto, os seres humanos que sucessivamente nos são apresentados são-no como se de amigos se tratasse. O mesmo sucede com a primeira entidade humana a manifestar-se, a sua Mulher. No que diz respeito a Deus, há uma propositada ambiguidade, pois, não há uma, mas duas manifestações de Deus, como se de dois deuses se tratasse, um ainda demasiado humano, o outro, digno da designação e, sobretudo, como veremos, da amizade com Job, pois é da possibilidade da amizade entre Deus e o ser humano que se trata (com o devido escândalo de Aristóteles, para quem tal não era pensável).

Com Job, no Livro de Job, está em causa a possibilidade de amor recíproco entre seres espirituais, especialmente entre o ser humano e Deus. Mas está também em causa precisamente o que é específico da amizade segundo Aristóteles, isto é, a grandeza do ato de amor na sua reciprocidade: se Deus ama o ser humano com divina grandeza, isto é, infinitamente, amará o ser humano a Deus de forma semelhante?

O que vai ser exigido de Job é que ame Deus infinitamente. Como é tal possível, sendo Job finito? Obrigando que a circunstância em que Job se situa o leve a amar numa dinâmica e cinese sem fim assinalável, como se se lhe pedisse que infinitamente afirmasse o seu amor por Deus. Fazendo-o, situar-se-ia ao nível da infinitude não em ato, mas em atualização, que é o máximo absoluto que se pode pedir a algo que não é infinito em ato.

Deste modo, o acrisolamento de Job serve a finalidade – através de um drama terrível, mas que é modelo do preço possível de um amor sem limite – de expandir a sua capacidade de amar infinitamente. E de o fazer no absoluto da solidão, sem o que isso que é a oblatividade pura da amizade não é possível, pois, havendo recompensa, qualquer, pode-se sempre estar no nível da amizade interesseira ou prazenteira.

É nestes níveis, sobretudo no primeiro, que se situam os falsos amigos e a falsa amiga/mulher. Esta parece, além de mais, sentir um profundo desconforto estético pela presença do marido em estado de decomposição física. Se não lhe serve já como coisa útil, também não lhe serve como coisa agradável: mais vale que seja aniquilado.

Aos falsos-amigos, interessa apenas a relação contabilística/interesseira entre o bem feito segundo as leis, sejam elas quais forem, e as mecânicas recompensas, sem, por um momento, por um ato de puro amor ao suposto amigo, se interrogarem se, no drama presente, não há uma outra lógica. Mas, para tal, é preciso amar sem métrica.

Não há verdadeiro amor em quase toda a narrativa, salvo o absoluto ato de amor que Job sempre é para com Deus, com quem se relaciona como um verdadeiro amigo, a quem convoca como se convoca um amigo, o derradeiro amigo, dado que todos os outros se revelaram traidores.

É Deus amigo de Job?
De início, não.

Revela-se como o pior dos falsos amigos, lançando o sal do seu apregoado poder esmagador sobre o já quase esmagado Job. Mas este, amigo fiel – e Job é, como Abraão, paradigma máximo de fidelidade –, mantém o seu amor por Deus, amigo que se revela, também ele, infiel: infiel a Job, infiel à sua relação, infiel ao próprio Deus, garante da autenticidade do amor de Job.

Ou será que é Job que, neste penúltimo ato do drama, é garante de tudo, inclusive da possibilidade de se poder, ainda, crer em algo como um Deus que mereça tal nome?

Na economia – tremendamente sábia – da narração, assim é: a fidelidade do amor de Job, que sempre ama Deus, mesmo quando este parece não amar Job, permite que o drama cesse, que haja um corte na perversidade do teste feito precisamente à humana capacidade de amar numa relação de semelhança.

Resistindo o amor de Job, quer dizer, mantendo-se a amizade entre Job e Deus, este nada mais tem a fazer do que reconhecer a grandeza de Job. Mas esta grandeza não é reconhecida de qualquer modo: Deus reconhece Job não como um inferior, mas, porque são verdadeiramente amigos, de uma amizade forjada em sangue, suor e lágrimas, como semelhante.

O amor de Job e de Deus, na relação que os une, é semelhante. É nesta capacidade e neste ato que o ser humano é imagem e semelhança de Deus. É esta mesma capacidade infinita de o ser humano amar que é santificada quando Deus vem à carne tornar real o que Job fora como literatura, como mito.

Job é a mostração teórica de como Deus e o ser humano podem partilhar um semelhante amor; Cristo é a possibilidade de se ser amigo de Deus na forma da carne.

Aristóteles e o Areópago de Atenas tal nunca aceitariam enquanto realidades históricas. Mas, na cidade do espírito, já releram todos os mitos e todas as filosofias a uma outra luz, precisamente essa que une Job a Deus.


Américo Pereira 
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas 

domingo, 17 de julho de 2016

XVI Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 10,38-42

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou em certa povoação
e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa.
Ela tinha uma irmã chamada Maria,
que, sentada aos pés de Jesus,
ouvia a sua palavra.
Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço.
Interveio então e disse:
«Senhor, não Te importas
que minha irmã me deixe sozinha a servir?
Diz-lhe que venha ajudar-me».
O Senhor respondeu-lhe:
«Marta, Marta,
andas inquieta e preocupada com muitas coisas,
quando uma só é necessária.
Maria escolheu a melhor parte,
que não lhe será tirada».

sábado, 16 de julho de 2016

Pensamentos Impensados

Anexim
Quem canta mal... espanta

Leituras
Quem vê CARAS também vê LUX , FLASH e similares.

Águas pissadas
Oiço na TV: diz uma fonte de Bruxelas. Será que o Manneken Pis fala?

Modas
Toulouse Lautrec não tinha tamanho para usar meias; inventaram as peúgas.

Fixações
Só penso em ostras; a isto chama-se ostracismo.

Funções
Património - quem manda é o homem.
Matrimónio - quem manda é a mulher.

Longe da vista
Foi adiando a operação às cataratas porque achava que não tinha dinheiro para ir ao Niagara.

Bebidas
O cocktail Molotov é uma arma de fogo ou de arremesso?

SdB (I)

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Das vitórias merecidas

Há umas semanas uns amigos convidaram-me para ver um jogo de Portugal do campeonato europeu de futebol. Não me lembro de que jogo era, apenas que Portugal ganhou, pelo que não será difícil identificar o oponente. Polónia? No fim do jogo disse a um amigo, apesar de estar obviamente feliz pela vitória nacional, que tínhamos jogado pouco. A resposta veio rápida: não interessa, ganhámos! 

Vem isto a propósito da vitória de Portugal no campeonato europeu. O País vive uma onda eufórica de nacionalismo justificado. Afinal, somos campeões europeus, para além de termos ganho à arrogância gaulesa em casa deles. Jogámos bem? Não me parece. Merecíamos ganhar? Não faço ideia, não sei qual era a equipa que praticava melhor futebol. Sei que fomos eficientes e que, muito provavelmente, tivemos sorte. No entanto, a euforia é total, somos a última coca-cola do deserto. Mesmo que não merecêssemos ganhar, ganhámos, e isso é que importa.

Não me interesse discutir o futebol, mas fazer uma analogia para uma certa parte da nossa vida. Como devemos reagir a uma vitória imerecida, baseada na sorte, nalgum saber, numa forma de realizar que elimina a competição (qualquer que ela seja). Onde fica o mérito (e a beleza, numa dimensão mais esotérica) nesta alegria toda? Estamos, de alguma forma, a ensinar - ou a reconhecer - que o importante é ganhar? 

Não me interpretem mal: não sou velho do Restelo, não desdenho o orgulho de sermos campeões europeus de futebol, tenho uma enorme consideração pessoal (não sei avaliar a competência profissional) pelo Fernando Santos e por muitos dos nossos jogadores, gente esforçada que faz o seu melhor. Mas esta ideia das sociedades de hoje que demonstram um certo desinteresse pelo tema mérito, qualidade, esforço, desde que se ganhe qualquer coisa faz-me pensar. Somos um tempo todo feito da importância dos resultados. A mim parece-me que há algo de perverso nisso.

Desculpem qualquer coisinha. Estou com sono e desinspirado. Talvez seja isso, então.

JdB

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Poemas dos dias que correm

Não Choreis os Mortos

Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer, à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,
Agonizar... guardai, longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras,
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,
Da multidão sem fim dos que são vivos,
Dos tristes que não podem esquecer.

E, ao meditar, então, na paz da Morte,
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

Pedro Homem de Mello, in "Caravela ao Mar"

***

Ao Meu Maior Amigo

Quando eu morrer, eu sei, tu escreverás
Triste soneto à morte prematura;
Dirás que a vida cansa em amargura
E, pálido e frio, tu me cantarás.

Nas quadras, reflectido se lerá
De como, vã e breve, a vida expira
E como em terra funda, dura e fria,
A vida, má ou boa, acabará.

A seguir, nos tercetos, tu dirás
Que a morte é mistério, tudo fugaz,
Verdadeira, talvez, a vida além.

Por fim porás a data, assinarás.
E, relido o soneto, ficarás
Contente por tê-lo escrito bem.

Alexander Search, in "Poesia"

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Dos velórios

The Death of the Virgin, 1603 by Caravaggio

Talvez não haja no mundo, dentro da minha faixa etária, pessoa que repita tanto esta frase irritante como eu: sou do tempo em que...  No entanto, em abono de alguma verdade, devo dizer que nem sempre a frase é saudosista. Tanto posso dizer sou do tempo em que não se dançava com uma senhora aa fumar e, com isso estar a fazer um juízo de valor estético, como posso afirmar que sou do tempo em que os velórios duravam uma noite inteira, e com isso revelar um hábito antigo e desconfortável. 

Porque tenho a idade que tenho, e porque a vida do ser humano é finita, já cumpri uma certa dose de velórios, fosse de gente que me era mais próxima e com cujo desaparecimento sofri, fosse de gente que me era mais distante - ou que nem conhecia sequer. É natural, portanto, que compare o que eram os velórios de há 40 anos com o que são os velórios de hoje. Faço-o por uma questão sociológica apenas, não me habita um módico de morbidez.

A sensação que tenho é que há 40 anos o centro do velório era a pessoa falecida. Estava-se uma noite inteira de volta do caixão, rezando e acompanhando a família mais próxima. Uma noite inteira desconfortável, pesada, mais ou menos carpida. Hoje, o centro do velório não é a pessoa falecida. São os vivos e em grande parte do tempo tudo se resume à pergunta: a que horas é a missa? O grosso das pessoas surge em cima da hora da cerimónia e sai quando ela acaba. O que significa isto? Não sei, mas denota talvez uma certa estranheza, como se o velório não fosse para acompanhar os vivos, porque os mortos já estão bem entregues. Hoje o velório é feito de costas voltadas para a pessoa falecida, aqui e ali com uma nota de desrespeito não propositado, mas que reflecte uma realidade: a ligeireza da cerimónia, ou apenas o desejo de ligeireza da cerimónia. As pessoas falam alto, riem, contam histórias. É, tantas vezes (e sei bem o que digo) uma oportunidade para vermos pessoas ausentes do nosso dia a dia - família, amigos antigos. Como eu costumo dizer muitas vezes a tanta gente - e talvez isso já revele algo - temos de organizar um velório sem morto...

Entre a morte de uma pessoa e o seu enterro podem passar pouco mais de 24 horas. O corpo pode estar numa capela mortuária pouco mais de 12, sendo que as 8 horas da noite passa sozinho. De facto, um velório tornou-se uma maçada, uma coisa deprimente, pesada, que queremos despachar o mais cedo possível. As condolências vêm via sms e já deve haver um símbolo qualquer que represente a frase os meus sentidos pêsames ou, numa fórmula talvez brasileira, creia que lamento profundamente. Significa isto menos amizade pelos que partem ou pelos que ficam? Não, isto é apenas um reflexo das vidas ocupadas (e como dizia alguém, baptizados e velórios sempre foram coisa de mulheres) da necessidade de ligeireza, do horror ao que não funciona (o defunto), ao que não é bonito ou divertido. 

Não sei, relativamente a este tema específico, se diga sou do tempo em que... com um toque de tristeza ou de alívio. Sei que não queria os velórios de antigamente. Mas arriscamo-nos a aligeirar demasiado as coisas, e não sei se isso é bom. Mas também não sei dizer porque é mau...

JdB

terça-feira, 12 de julho de 2016

Duas Últimas

Tenho com o futebol uma relação de algum afastamento e desinteresse. E, nesse sentido, a emoção que vivo por ver Portugal ganhar tem também uma dimensão específica. Se assim não fosse a emoção de toda a população portuguesa seria igual por ver um compatriota ganhar no remo, no lançamento de dardos ou no bridge. Por outro lado, como o meu interesse é relativo e o meu entendimento técnico do assunto é bastante reduzido, não consigo desligar-me do entusiasmo que me provoca o jogo. Não basta ser Portugal a jogar, tem de manter-me acordado.

Segui com interesse o jogo de Domingo. Não segui com entusiasmo porque, para além de outros motivos, o jogo não me entusiasmou por aí além. Serei crucificado pelos poucos que me lêem, mas não achei que Portugal tivesse jogado fantasticamente. Talvez tenha jogado eficazmente já que, com eventual menos posse de bola e com menos oportunidades, ganhou o jogo. Gosto de pensar que deve-o muito a Rui Patrício, jogador do meu clube. Se fosse ao contrário, e víssemos França a ganhar jogando menos também falaríamos na eficácia?  

Se gostei que Portugal tivesse ganho? Claro, sem histerias nem nacionalismos bacocos. E gostei que Portugal tivesse ganho a França - país pelo qual tenho uma opinião menos favorável (alguém que me desculpe) que passaram os últimos dias a dizer mal do futebol português e que sempre nos olharam com arrogância. O facto de não terem iluminado a torre Eiffel com as cores de Portugal, alegando uma votação qualquer, é demonstrativo do carácter gaulês (pelo menos neste assunto específico). Ganhar a França, portanto, no reduto deles, encheu-me de um gozo especial, até por alguma violência durante o jogo.

Deixo-vos com música francesa, (quase) a melhor entre as melhores.

JdB

           

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Pensamento Impensado

Marselhesa

Nova versão da Marselhesa: AUX LARMES, CITOYENS.

SdB (I) 

Vai um gin do Peter’s?

Em maio, num blog(1) com um noticiário diferente e bastante internacional, veio citado um artigo do «La Stampa», que recuava a 1969 para citar a profecia luminosa do então teólogo Joseph Ratzinger (a partir de 2005 – Papa Bento XVI) sobre a Igreja. 

Uma profecia impressionante, o mais não seja pela acutilância e coragem reveladas, ao afrontar com clareza e zero de atenuantes o processo de regressão da Igreja, abandonando – talvez para sempre – o lugar de referência na cultura ocidental. Espera-a ficar reduzida a um grupúsculo ignorado e obscuro numa sociedade hedonista e fixada no sucesso tecnológico. 

Embora o diagnóstico não se aplique ainda a toda a Europa, adivinha-se-lhe o realismo no prazo de umas décadas. Basta ver as sociedades mais ricas e desenvolvidas do Ocidente para se perceber como é já o retrato dessas comunidades satisfeitas e fechadas na sua super-abundância. Qualquer país nórdico ou uma Suíça estão muito próximas do descritivo traçado por Ratzinger e por outro visionário da história – o realizador Ingmar Bergman, por exemplo, no filme «O Silêncio» (1963). O sueco pretendia, com aquela descida a um mundo desesperado, cruel e em autodestruição, caracterizar o que chamou de «o inferno na terra — o meu inferno». Tudo ali é postiço e calculista, evidenciando-se a corrosão social na traição entre irmãs, onde a doente é abandonada à sua sorte. Todos à deriva, egocêntricos, venais, descontrolados, reduzidos a uma animalidade que perverte as relações afectivas mais nobres, como a maternidade e a fraternidade. À sua maneira, Bergman espelha no ecrã esse universo descrito por Ratzinger, em que os humanos estão enclausurados numa solidão letal, onde apenas o ódio e a morte florescem animadamente. Dantesco, até uma luz minúscula e firme sobressair na escuridão espessa do desespero geral, vinda do pequeno grupo de crentes. Os tais insignificantes, encarados como párias de uma sociedade altamente competitiva. Esgotada na sua esterilidade, essa comunidade descobrirá, então, na minoria com fé, a Esperança e a vitalidade por que anseia, no seu íntimo. 

Ou seja: diferentemente do cineasta, o diagnóstico inicialmente arrasador do jovem teólogo alemão antevê também um final feliz e purificador. Talvez mais próximo da primeira era da Igreja, quando um bando de pescadores incultos e pobres teve o topete de se arvorar em profetas de uma Boa Nova, irritando a elite judaica e incomodando as autoridades romanas, fartas dos típicos mobilizadores do povo, normalmente incendiários revolucionários, ao estilo de Barrabás, que pululavam por toda a Judeia. 

No grande ecrã, os Monty Python (ex: «A Vida de Brian») recriam com um humor certeiro o ambiente subversivo que perturbava tanto a pax romana, no Médio Oriente. Claro que a dúzia de pescadores ignorantes mais parecia a gente errada, à hora errada, no lugar errado. Próximo do anedótico, o que torna incompreensível, depois, não ter tudo dado errado. Ainda por cima, também lhes competia deixarem uns escritos para a posteridade, eles que eram quase todos analfabetos. Também aqui, Ratzinger ajuda a desfazer o paradoxo. 

Bem conhecedor da História, o teólogo alemão compara os tempos futuros da Igreja ao Iluminismo que, no seu experimentalismo racionalista, derivou para a Revolução Francesa e para os Despotismos ditos Iluminados, como o de Catarina II da Rússia, que mantinha um império sustentado por trabalho escravo (eram milhões os servos que aravam os campos russos), a par de uma minoria de privilegiados. Em termos políticos, qual cereja no bolo, defendia uma concepção de poder esclarecedora em matéria de autoritarismo: A Rússia é demasiado grande para ter mais do que um líder. Recorde-se que Catarina II era uma das governantes mais admiradas pelos filósofos iluministas, por estranho que isso nos possa soar hoje. 

O jornalista italiano M.Bardazzi relembra, em 2013, a profecia anunciada numa série de  programas radiofónicos emitidos na Alemanha, em 1969 e, mais tarde, compilados no livro «Faith and the Future». 

Segue esse artigo clarificador sobre o futuro e sobre o misterioso passado de uma Igreja feita, sobretudo, por gente incapaz para a missão que lhe é confiada:

«A PROFECIA ESQUECIDA DE RATZINGER SOBRE O FUTURO DA IGREJA

Encontro nos Jornais este artigo que se refere a um discurso radiofónico pronunciado pelo Papa Bento XVI no longínquo ano de 1969. Penso que ilumine o que se vive na Igreja neste período.

Uma Igreja redimensionada, com muito menos seguidores, obrigada até a abandonar parte dos lugares de culto construídos ao longo dos séculos. Uma Igreja católica de minoria, pouco influente nas escolhas políticas, socialmente irrelevante, humilhada e obrigada a “repartir das origens”.

Mas também uma Igreja que, através desta “enorme agitação”, reencontrar-se-á e renascerá “mais simplificada e mais espiritual”. É a profecia sobre o futuro do cristianismo pronunciada há mais de 40 anos por um jovem teólogo da Baviera, Joseph Ratzinger.

Redescobri-la hoje ajuda talvez a descobrir uma ulterior chave de leitura para decifrar a renuncia de Bento XVI, porque reconduz o gesto surpreendente de Ratzinger ao leito da sua leitura da história.

Em cinco discursos radiofónicos pouco conhecidos - voltados a publicar há um tempo pela Ignatius Press no volume “Faith and the Future”- o futuro Papa naquele ano complexo de 1969 traçava a sua visão sobre o futuro do homem e da Igreja. É sobretudo a ultima lição, lida no dia de natal aos microfones da “Hessian Rundfunk”, a assumir um tom de profecia. Ratzinger dizia-se convencido de que a Igreja estivesse a viver uma época análoga àquela que se seguiu ao Iluminismo e à Revolução Francesa. “ Estamos num enorme ponto de mudança - explicava - na evolução do género humano. Um momento a respeito do qual a passagem da Idade Media aos tempos modernos pareça quase insignificante”. O Professor Ratzinger comparava a era actual com aquela do Papa Pio VI, raptado pelas forças da Republica Francesa e morto na prisão em 1799. A Igreja tinha-se encontrado então diante de uma força que pretendia extingui-la para sempre, tinha visto os seus bens confiscados e as ordens religiosas dissolvidas.

Uma condição não muito diferente, explicava, poderia esperar a Igreja de hoje, minada segundo Ratzinger pela tentação de reduzir os padres a “assistentes sociais” e a própria obra a mera presença política. “ Da crise presente - afirmava - emergirá uma Igreja que terá perdido muito. Tornar-se-á pequena e deverá repartir mais ou menos dos inícios. Não estará já em condições de habitar os edifícios que construiu em tempos de prosperidade. Com a diminuição dos seus fieis perderá também grande parte dos privilégios sociais”. Repartirá de pequenos grupos, de movimentos e de uma minoria que voltará a pôr a fé no centro da experiência. “Será uma Igreja mais espiritual, que não se arrogará um mandato politico flirtando ora com a Esquerda ora com a Direita. Será pobre e tornar-se-á a Igreja dos indigentes”.

Aquilo que Ratzinger delineava era “um processo longo, mas quando toda a aflição tiver passado, emergirá um grande poder de uma Igreja mais espiritual e simplificada”. Nesse ponto os homens descobrirão que estão a habitar um mundo de “indiscritível solidão” e tendo perdido de vista Deus, “perceberão o horror da sua pobreza”.

Então, e só então, conclui Ratzinger, verão “aquele pequeno rebanho de crentes como qualquer coisa de totalmente novo: descobri-lo-ão como uma esperança para si próprios, a resposta que tinham sempre procurado em segredo.»

Marco Bardazzi | La Stampa | 2013.02.18

Acentuando o mérito dos finais felizes, apetece evocar o autor do Tintim, que concluía sempre com a conhecida fórmula: Tudo está bem, quando acaba bem. A confirmar-se o provável diagnóstico de Ratzinger, é reconfortante abrir-se para um desfecho tão positivo, onde se recupera a simplicidade e a autenticidade da mensagem cristã.  

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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 (1)  http://o-povo.blogspot.pt/

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Largo da Boa-Hora *

“Eu e Tu”, “Tu e Eu”.

ser e acontecer de cada um é, do ponto de vista da relação com o outro, confrontado com distintas atitudes e posturas desse outro, cuja natureza e consequências julgo merecerem alguma reflexão.
Nas acções ou omissões do outro temos vários graus de intersecção e / ou comparticipação que formam um largo espectro que me proponho evidenciar. (Aplicável, como todo o texto que segue, desde a relação amorosa à familiar, incluindo a de amizade e as de mero conhecimento ou de índole profissional).
Percorramos, pois, um breve itinerário das atitudes distintas perante o “ser e acontecer “ do outro.
Instrumentalmenteficciono esse itinerário como uma escada cujos degraus ascendem da indiferença à cumplicidade, que são os extremos do espectro considerado.
No primeiro degrau da ligação ao ser e acontecer do outro, temos a ignorância, a indiferença, o alheamento. É ser-se cego, surdo e mudo.
No segundo degrau, assume-se a postura de mirone. Espreitamos o que acontece, de relance, com um ânimo de olhar sem registar, sem querer recordar, recusando outro efeito em nós que não distrair, apenas como paisagem banal e irrelevante que vai desfilando na estrada que vamos percorrendo, e que se apaga pela sucessão da próxima curiosidade.
No terceiro degrau, consideramo-nos testemunhas. Presenciamos o desenrolar do outro, com observação, com atenção, com interesse em ver e registar. Não somos neutros perante o acontecimento, queremos percepcioná-lo e aplicamos as nossas faculdades cognitivas a essa aquisição de conhecimento. No final, sentimo-nos habilitados e autorizados a discorrer e contraditar sobre os factos sucedidos, legitimados pelo “trunfo” de termos fotografado o evento.
No quarto degrau, entramos no ser e acontecer de outrem como conhecedores. Neste patamar interagimos com o outro, porque acresce, à qualidade de testemunha, a disponibilidade, interesse, vivência do acesso e conhecimento concreto das motivações, causas, efeitos, circunstâncias que são inerentes ao sucedido. Aceitamos a partilha de todo o mundo subjacente ao evento material. Passamos aos bastidores da obra apresentada, acedendo a todas as vicissitudes ocultadas do público em geral. Quando falarmos, poderemos narrar, tanto o “quê”, como o “porquê” do evento.
No quinto degrau, a atitude passa a ser de comparticipação. Deixa, pois, de ser acrítica, como nos degraus anteriores. Neste patamar assumimo-nos como tolerantes. Acresce, relativamente ao quarto degrau, uma reacção nossa de aceitação, de admissão, de conformismo, com o ser e acontecer do outro. Passamos de um "non facere" para um “facere”, que importa uma reacção nossa perante a acção do outro, ou seja, além de conhecer o acto, facto ou omissão, conferimos-lhe a nossa bênção, o nosso acolhimento.
No sexto degrau, a nossa intervenção sobre o outro cresce de importância, passamos a apoiantes. Neste estádio, afirmamos a nossa adesão, concordância, beneplácito ao ser e acontecer do outro. Sustentamos o seu devir com toda a disponibilidade para ajudar, auxiliar, viabilizar, concorrer para o evento. “Fazemos figas” para o sucesso, lançamos os foguetes, e, muito importante, estamos igualmente irmanados para a eventualidade do fracasso, da derrota, do infortúnio que ocorra no final. Estamos, para o bem e para o mal, companheiros de caminho, solidários e indefectíveis.
No sétimo degrau somos mais interventivos. Agimos a nível prévio da acção do outro, somos instigadores. Incitamos, estimulamos, induzimos o outro a ser e acontecer de certa e específica forma, premeditada também por nós. Queremos que as coisas sejam assim, e intervimos para a resolução do outro que seja necessária. A decisão é também nossa e, consequentemente, a acção, porque intencionalmente o determinámos ou concorremos para essa determinação. O evento que aconteça neste quadro de instigação é da autoria dele, mas tem a marca indelével da nossa força motriz que o animou.
Por fim, no oitavo degrau somos cúmplices do outro. A cumplicidade é ser-se co-autor do sucedido, é ter-se tomada como própria a acção do outro, é a fusão de vontades e de execuções que tornam o evento numa amálgama em que é impossível distinguir, entre ambos, quem fez, porque fez e como fez.
Trata-se da unicidade de vontades e agires que anulam a distinção das individualidades que antes se destrinçavam. O que está feito não foi feito por ambos, mas feito por um ente que é a soma, melhor, a fusão dos dois.
cumplicidade é a hábil transformação dos “laços” em “nós górdios
cumplicidade transforma egoísmos compatíveis em altruísmos abnegados.
cumplicidade é, pois, a linha no horizonte que sucede no crepúsculo, e em que é impossível saber que parte da claridade vem do sol que nasce, e que parte vem da lua que adormece, ou vice-versa. É, pois, o abraço dos astros, que nem as estrelas deslindam, quanto mais os homens.
Temos assim identificados, pelo menos, oito degraus de acção e reacção, perante o ser e o acontecer do outro, todos eles enunciados pelo respectivo verso, quando podiam (deviam) também ter sido feitos pela referência ao respectivo inverso, o que só tornaria este texto inaceitavelmente longo, já que o contrário de cada degrau enunciado também é, evidentemente, uma opção e, pelo que a seguir direi, crítica e fundamental.
Conhecidos os degraus, reputo de fundamental para uma relação consciente, séria, construtiva, verdadeira, e com futuro, que cada um, em todas as ocasiões, em que o outro “é” e “acontece” lhe comunique, o faça interiorizarconsciencializar, sem dúvidas ou incertezas, qual é a acção / reacção com que conta e que lhe dá.
Sem erros nem equívocos, no nosso ser e agir todos temos o direito de saber com o que contamos do outro, se com o degrau um se com o dois o três… ou o oito.
É um dever de quem nos partilha e, na iminência do suceder a nossa opção e vivência, ou até nesse sucedimento, sabermos qual o papel (degrau) que o outro quer desempenhar nesse tempo, espaço e acontecimento, sem reservas, nem cautelas, com verdade, lealdade e coragem.
A tripulação de cada viagem conta-se à largada do navio.
É pois egoísmo, cobardia, má-fé, desamor e desinteresse por pessoas e projectos, não intimar o outro com a afirmação do degrau em que nos posicionamos à largada do navio: somos adeus no cais, visita de desembarque antes da partida, privilegiados com barco de apoio para fuga, passageiros de bilhete comprado e salvação assegurada, tripulantes, ou companheiros de campanha até ao fim, se for o caso.
Entenda-se aqui o direito / dever à oposição, que deve ser exercido no tempo e modo convenientes, com franqueza, firmeza, e fiabilidade. Dizer não, se é não. Quantos Alcácer -Quibir colectivos e pessoais teriam sido evitados…
Mas, e como corolário, se ousámos, livre e conscientemente, firmar-nos nos degraus mais elevados da comparticipação (quinto, sexto, sétimo, oitavo) então, em caso de borrasca e até de naufrágio, é pura indignidade abandonar o navio, como os ratos o fazem na iminência da desdita.
Tudo visto, numa relação temos o direito e o dever de nos posicionarmos no degrau que entendermos mais adequado, justo, possível, desejado, conveniente, e tudo o mais, numa perspectiva do interesse próprio, do interesse do outro e do interesse comum.
Mas, concluído esse posicionamento é de honra transmiti-lo.
E, de dever sagrado cumpri-lo.
O mais é desdenho e traição.

ATM

* publicado originalmente a 8 de Julho de 2009, cumprem-se hoje sete anos. Coincidências...

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Poemas dos dias que correm

Os Dois Horizontes

Dois horizontes fecham nossa vida:

          Um horizonte, — a saudade
          Do que não há de voltar;
          Outro horizonte, — a esperança
          Dos tempos que hão de chegar;
          No presente, — sempre escuro,—
          Vive a alma ambiciosa
          Na ilusão voluptuosa
          Do passado e do futuro.

          Os doces brincos da infância
          Sob as asas maternais,
          O vôo das andorinhas,
          A onda viva e os rosais;
          O gozo do amor, sonhado
          Num olhar profundo e ardente,
          Tal é na hora presente
          O horizonte do passado.

          Ou ambição de grandeza
          Que no espírito calou,
          Desejo de amor sincero
          Que o coração não gozou;
          Ou um viver calmo e puro
          À alma convalescente,
          Tal é na hora presente
          O horizonte do futuro.

          No breve correr dos dias
          Sob o azul do céu, — tais são
          Limites no mar da vida:
          Saudade ou aspiração;
          Ao nosso espírito ardente,
          Na avidez do bem sonhado,
          Nunca o presente é passado,
          Nunca o futuro é presente.

          Que cismas, homem? – Perdido
          No mar das recordações,
          Escuto um eco sentido
          Das passadas ilusões.
          Que buscas, homem? – Procuro,
          Através da imensidade,
          Ler a doce realidade
          Das ilusões do futuro.
       
          Dois horizontes fecham nossa vida.

Machado de Assis, in 'Crisálidas'

***

Como Podemos Esperar

Como podemos esperar.
Aguardar o que nossas mãos possam reter.
Uma palavra. O olhar cúmplice. Se as coisas
têm já o estado do vento
o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

Aguardar mais aguardar nada
quanto mais se repete uma palavra
«estou sentado virado para a parede desta casa»
baixo, mais baixo ainda,
«estou sentado virado para a parede desta casa».

Fazer que não haja sucedido o sucedido.
O prazer de sentir chegar as coisas
o riso sob a chuva
o frio que faz. Aqui

como podemos esperar uma noite de lua e vento?

João Miguel Fernandes Jorge, in "Direito de Mentir"

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Carta a um anjo

Foi hoje, mas há 22 anos.

Em vinte e dois anos tudo acontece: a guerra e a paz, as desavenças e as reconciliações, gente que desaparece da nossa vida física ou que, olhando para nós com olhos baços, já agarra uma realidade diferente. Vinte e dois anos são uma vida. Talvez nos tenhamos esquecido de tudo que se passou neste ano, naqueles dias que antecederam o dia de hoje, mas há vinte e dois anos. Mas este dia, este exacto dia, marcou uma etapa na nossa existência e por isso nos lembramos de tudo, excepto do futuro que nos vieste ensinar. Já eras um anjo antes de seres uma criança como todas as outras; já te rias para tudo, mesmo não tendo visto nada. Nasceste para um propósito que não compreendemos naquele dia. Nasceste para nos mudares, para nos desafiares, para nos ensinares a vida triste ao lado da vida fagueira, os olhos que choram ao lado dos olhos que riem. Ensinaste-nos tudo, e o que não aprendemos deve-se ao nosso coração ainda fechado, limitado na ilusão de que tínhamos mais uma criança a quem chamávamos filha ou irmã ou neta ou sobrinha ou outra coisa qualquer. Não eras nada disso, apenas uma pessoa à frente de uma época, de olhos fixos na eternidade e de mão estendida para o céu. Ensinaste-nos tudo: o Deus que não é senão amor, o sentido da vida, as coisas mais importantes do que as desavenças, o que permanece junto, o que se refaz, o olhar posto no horizonte e na distância onde o silêncio vence e se encontra o destino que a vida desenha para nós. A tua existência revelou-nos duas coisas, ambas verticais e de sentido diferente: o abismo profundo e o céu estrelado,  expressões com que me cruzo nas coincidências significativas da vida.  Hoje, vinte e dois anos depois, sabemos para onde olham os teus olhos: para cima, que é no céu que pedimos o infinito.


Na sua bondade sem fim
Quis Deus olhar para mim
Dar-me um pouco do que é seu
Deu-me uma estrela pequena
A quem chamou Madalena
Que é uma das santas do Céu


J (em nome de todos os que te lembram)

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