quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Itália, Maio de 2011


Um Ofício que Fosse de Intensidade e Calma

Um ofício que fosse de intensidade e calma
e de um fulgor feliz E que durasse
com a densidade ardente e contemporâneo
de quem está no elemento aceso e é a estatura
da água num corpo de alegria E que fosse   fundo
o fervor de ser a metamorfose da matéria
que já não se separa da incessante busca
que se identifica com a concavidade originária
que nos faz andar e estar de pé
expostos sempre à única face do mundo
Que a palavra fosse sempre a travessia
de um espaço em que ela própria fosse aérea
do outro lado de nós e do outro lado de cá
tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser
e já sem distância e não-distância nada a separasse
desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios

António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"

***

Fábrica

Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto liso e frio dos metais,
a segura confiança

do saber-se que é assim e assim exactamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura,
como na cabeça do engenheiro.
Os operários têm nos músculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:

é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento;

como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das máquinas.

Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;

as articulações subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
a fábrica, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necessários.

Joaquim Namorado, in 'Antologia Poética'

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Encontros dos dias que correm

Pedido de divulgação encontrado aqui

Duas Últimas

Sou de uma geração em que um gin tónico era um gin tónico: copo alto, Gordon's, uma rodela de limão, gelo, água tónica até acima. O pico da evolução foi quando alguém espremeu um pouco de limão no copo. Para mim, o gin tónico, bebida corriqueira mas inacessível aos bolsos médios, havia atingido um patamar diferente - havia um toque de sofisticação, de quântica, de química do palato. 

O gin tónico tornou-se, não numa bebida, mas num ritual. Fui a um casamento em que havia bicha para um bar que só fazia essas bebidas (este tipo de bar tem um nome, mas esqueci-me). A bebida era demasiadamente evoluída para poder ser trazida por vulgares empregados de libré branco e bandeja de alumínio. Fazê-lo era pouco diferente de levar a imagem de Nossa Senhora de Fátima na mala de um Anglia Fascinante. Num casamento anterior, um amigo indignou-se de forma menos educada quando viu a água tónica que lhe vertiam sobre o gin (Schweppes): vocês só têm esta água tónica?

Beber gin é um ritual vedado a gente não iniciada. Só alguns poucos percebem a importância das bagas de junípero (Juniperus communis) ou das cascas de pepino, ou a importância, ao nível da mecânica dos fluidos, de um líquido que não cai em cachão em cima do gelo, do limão e do gin, mas rodopia numa colher com pega em espiral. Não sei para que serve a cenoura. Mas também não sei para que serve uma barba hirsuta que (não) pega com uma calvície forçada.

Não conhecia a banda sonora. O Shazam diz-me que são os Blackmale Beats, cantando Intro to the Endz. Como não conheço nada, pode acontecer que o nome da banda seja, afinal, o nome da música.

É isto, no fundo. 

JdB



terça-feira, 28 de novembro de 2017

Textos dos dias que correm

Às portas do Paraíso

«Um homem bate à porta do Paraíso. “Quem és?”, perguntaram-lhe do interior. “Sou um judeu”, responde. A porta permanece fechada. Bate de novo e diz: “Sou um cristão”. Mas a porta continua fechada. O homem bate pela terceira vez e é-lhe de novo inquirido: “Quem és?”. “Sou um muçulmano”. Mas a porta não se abre. Bate uma outra vez. “Quem és?”, perguntam-lhe. “Sou uma alma pura”, responde. E a porta escancara-se.»

Místico e poeta muçulmano, Mansur al-Hallaj (852-922) foi primeiro crucificado e depois decapitado, deixando atrás de si uma extraordinária herança de fé e amor. Dos seus escritos extraímos esta parábola sugestiva. A verdadeira pertença religiosa não se mede – como sublinhavam os profetas bíblicos – pela adesão exterior, pelos atos de culto, pela ostentação, mas pela fidelidade íntima, pela pureza da alma, pelo amor operativo. É esta escolha de vida que escancara as portas do Reino dos Céus. Mas queremos agora juntar outra testemunha muçulmana (também para mostrar um rosto diferente do islão relativamente ao fundamentalista).

O místico Rumi (1207-1273), fundador dos dervixes rodopiantes, dizia: «A verdade é um espelho que, ao cair, se parte. Cada um toma-lhe uma parte e, vendo refletida a própria imagem, acredita que possui toda a verdade». O mistério glorioso da verdade precede-nos: devemos depor toda a arrogância ideológica e espiritual e escutar também o outro com a sua bagagem de verdade por ele descoberta. É certo que isto não significa que todas as ideias e crenças sejam automaticamente fragmentos de verdade, sendo possíveis as miragens, as ilusões, as cegueiras. A autenticidade brilhará através do amor, a doação a Deus e ao irmão, a procura humilde e apaixonada.


Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 23.11.2017

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Da tecnologia enquanto carrasco

Por mais diferentes que sejam entre si, todas as gerações vão tendo pontos em comum, até que estes desaparecem na dinâmica da modernidade ou da mudança de valores, sendo substituídos por outros: o peso da palavra dada e de um aperto de mão, o cavalheirismo em relação às mulheres ou a deferência pela hierarquia, a importância do clero, dos oficiais das Forças Armadas ou dos professores primários, a consideração educada por quem era empregado ou inferior hierárquico. Muitos destes valores desapareceram, não havendo garantia que o seu desaparecimento se deva aos melhores motivos. No entanto, há um ponto em comum que permanece de geração em geração, materializado numa frase que tem o peso das frases sábias e, simultaneamente, maçadoras: no meu tempo é que... Ora, a constância desta frase ao longo das gerações deve-se ao facto muito simples de ser em muitos casos verdadeira, e a inexorabilidade do progresso constituir apenas uma ideia bonita - ainda que nefasta.

Elenquemos, neste raciocínio que não é mais do que um devaneio dominical, vários elementos do nosso quotidiano: whatsapp (como expressão genérica de algumas redes sociais), casa de jantar, papel de carta. O que une estes três itens aparentemente tão diversos? A solução do exercício não requer um esforço intelectual de rara dificuldade. Há um elemento comum: a comunicação. Nada fez tanto pela destruição da comunicação do que o surgimento do primeiro item e o desaparecimento dos dois últimos. Embora se fale muito - e com razão - no facto das pessoas viverem cada vez mais isoladas estando cada vez mais próximas, o surgimento das redes sociais afectou, entre mil e uma coisas que só o futuro determinará, a ideia de conversa como a tínhamos até ao fim das casas de jantar, ao advento dos programas de televisão a qualquer hora, à publicitação despudorada e permanente de informações pessoais e de vídeos de saloios que roubam castanhas ao vizinho. A qualquer minuto há um amigo que partilha um restaurante, uma fotografia de uma boazona que tritura cartões de crédito, um filme sobre cheias no Sri Lanka ou indígenas que não sabem dizer a palavra beginning. Numa cozinha, ou numa sala a ver televisão, as conversas são cortadas pelo telemóvel que apita para partilhar uma anedota viral e pela confusão dos tempos em que as coisas - conversar, ver telemóvel, partilhar coisas - devem ser feitas. O whatsapp (sobretudo este meio, até porque os outros não domino) deram a machadada final na estertor que já havia sido iniciado pelo fim da casa de jantar enquanto espaço de partilha, de conversa, de educação para a vida, de aprendizagem.

Perguntar-me-ão, os que aguentaram até aqui, o que lá faz o papel de carta. Pois eu explico: o papel de carta, usado como tal, foi, em grande medida, o vínculo duradouro entre as pessoas. O papel de carta é o oposto do whatsapp - e não me refiro, obviamente, ao suporte tecnológico. A tecnologia transformou a nossa comunicação em algo momentâneo, frívolo, ligeiro, sem presença no futuro nem evidência de existência. A tecnologia transformou a nossa comunicação numa sucessão entrecortada de frases, porque a tecnologia suscita eficácia, rapidez, imediatismo. A tecnologia é o pingue-pongue da evolução científica. O papel de carta requeria cuidado com a caligrafia, com a disposição estética do texto, com a legibilidade e com o pensamento. A tecla delete - ou equivalente - permitiu-nos o outsourcing dessas tarefas. As cartas, por outro lado, eram registos (quase) permanentes de comunicação entre as pessoas. Agora tudo se apaga, em nome do espaço que esse tudo ocupa. 

Nos dias de hoje não se está; nos dias de hoje faz-se. A vida moderna, e muito bem em determinadas circunstâncias, está feita para a acção, para o consumo (aparentemente) produtivo do tempo, relegando a ideia de tempos livres para aqueles que não sabem fazer nada (os defuntos da produtividade) ou para aqueles que aguardam que os progenitores os resgatem aos estabelecimentos de ensino. Dantes conversava-se, talvez porque não houvesse mais nada para fazer. Hoje não se conversa, talvez porque há tudo o resto para fazer. 

O mundo mudou. A consideração pelas professoras primárias, oficiais das forças armadas ou padres é uma consideração pelo ser humano, não pelo profissional. O cavalheirismo relativamente às senhoras caiu em desuso, porque há a igualdade e o assédio, e talvez haja menos senhoras... O trabalho em casa é mais repartido, porque há a consciência e a consideração. Etc., etc., etc. No entanto, relativamente à perda do gosto pela conversa, ao desinteresse pela conversa, à ideia de conversa como perda de tempo, direi a frase: no meu tempo é que... Mesmo que o meu tempo já tivesse morto coisas de outros tempos...

JdB

domingo, 26 de novembro de 2017

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

EVANGELHO – Mt 25,31-46

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Quando o Filho do homem vier na sua glória
com todos os seus Anjos,
sentar-Se-á no seu trono glorioso.
Todas as nações se reunirão na sua presença
e Ele separará uns dos outros,
como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;
e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita:
‘Vinde, bem ditos de meu Pai;
recebei como herança o reino
que vos está preparado desde a criação do mundo.
Porque tive fome e destes-Me de comer;
tive sede e destes-me de beber;
era peregrino e Me recolhestes;
não tinha roupa e Me vestistes;
estive doente e viestes visitar-Me;
estava na prisão e fostes ver-Me’.
Então os justos Lhe dirão:
‘Senhor, quando é que Te vimos com fome
e Te demos de comer,
ou com sede e Te demos de beber?
Quando é que Te vimos peregrino e te recolhemos,
ou sem roupa e Te vestimos?
Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’
E o Rei lhes responderá:
‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes
a um dos meus irmãos mais pequeninos,
a Mim o fizestes’.
Dirá então aos que estiverem à sua esquerda:
‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno,
preparado para o demónio e os seus anjos.
Porque tive fome e não Me destes de comer;
tive sede e não Me destes de beber;
era peregrino e não Me recolhestes;
estava sem roupa e não Me vestistes;
estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’.
Então também eles Lhe hão-de perguntar:
‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede,
peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão,
e não Te prestámos assistência?’
E Ele lhes responderá:
‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer
a um dos meus irmãos mais pequeninos,
também a Mim o deixastes de fazer’.
Estes irão para o suplício eterno
e os justos para a vida eterna».

***

Que restará de nós no fim? O amor dado e recebido

O Evangelho desenha uma cena poderosa, dramática, que estamos habituados a chamar o juízo universal. Mas que seria mais exato definir como “a revelação da verdade última, sobre o ser humano e sobre a vida”. O que resta da nossa pessoa quando não permanece mais nada? Permanece o amor, dado e recebido.

Tinha fome, tinha sede, era estrangeiro, estava nu, doente, na prisão: e tu ajudaste-me. Seis passos de um percurso, onde a substância da vida tem como nome “amor”; forma do ser humano, forma de Deus, forma do viver. Seis passos para nos encaminharmos para o Reino, a Terra como Deus a sonha. E para intuir traços novos do rosto de Deus, tão belos que encantam sempre de novo.

Antes de tudo Jesus estabelece uma ligação muito estreita entre si e os homens até ao ponto de se identificar com eles: fizeste-o a mim. O pobre é como Deus! Corpo de Deus, carne de Deus são os pequeninos. Quando tocas um pobre é Ele que tocas.

Depois emerge o argumento em torno do qual se tece a última revelação: o bem, feito ou não feito. Na memória de Deus não há espaço para os nossos pecados mas só para os gestos de bondade e para as lágrimas. Porque o mal não é revelador, nunca, nem de Deus nem do ser humano. Só o bem diz a verdade de uma pessoa.

Para Deus o bom grão é mais importante e mais verdadeiro do que a cizânia, a luz vale mais do que a escuridão, o bem pesa mais do que o mal.

Deus não despreza nem a nossa história nem muito menos a sua eternidade fazendo-se o guardião dos pecados ou das sombras. Ao contrário, para Ele não se perde um só dos mais pequenos gestos bons, não é perdido nenhum generoso cansaço, nenhuma dolorosa paciência, mas tudo isto circula nas veias do mundo como uma energia de vida, agora e para a eternidade.

Depois dirá aos outros: afastai-vos de mim… tudo aquilo que não fizestes a um destes pequeninos, não o fizestes a mim.

Os que se afastaram de Deus que mal cometeram? Não o de acrescentarem mal ao mal, o seu pecado é mais grave, é a omissão: não fizeram o bem, não deram nada à vida.

Não basta justificar-se dizendo: nunca fiz mal a ninguém. Porque faz-se o mal também com o silêncio, mata-se também com o estar à janela. Não se comprometer pelo bem comum, ficando a olhar, é já fazer-se cúmplice do mal comum, da corrupção, das máfias, é a «globalização da indiferença» (papa Francisco).

O que acontece no último dia mostra que a verdadeira alternativa não é entre quem frequenta as igrejas e quem não vai lá, mas entre quem se detém junto ao homem agredido e à Terra, e quem, ao contrário, segue em frente; entre quem parte o pão e quem volta as costas e passa ao largo. Mas além do ser humano não há nada, muito menos o Reino de Deus.


Ermes Ronchi
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 23.11.2017

sábado, 25 de novembro de 2017

Pensamentos Impensados

Memés
Vi uma ovelha de cabeça preta; era uma ovelha de tez malhada.

Cortesias
Marcelo vai homenagear as vítimas das guerrras púnicas.

Dieta-pateta
O sal quando nasce é para todos.

Bolas quadradas
P: Como se chama o treinador de futebol do Benfica?
R: Vitória.
Isso é alcunha...

Tempo
Portugal está com um clima igual ao do Polo Norte; não chove.

Mistérios
Se, a exemplo de Tancos, desaparecer um submarino, devem começar as buscas na Chamusca.

Cuidem do rabo
Deputado tem assento? Tem, na Assembleia da República.

Estados
É proibido tocar no Chefe de Estado do Reino Unido.
É obrigatório tocar no Chefe de Estado de Portugal.

SdB (I)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Ver diferente

Então o bom gigante fez um prodigioso esforço, e a cada passo, meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lançando a mão para se arrimar, tropeçando, com grossas gotas de suor que se misturavam a grossas gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para cima. Os seus pés iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. Já se sentia tão fraco como a criança que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o fim: um grande sol nascia, banhava toda a terra em luz. Cristóvão pousou o menino no Chão. e caiu ao lado, estendendo as mãos. Ia morrer. Então entreabriu os olhos, e no esplendor incomparável reconheceu Jesus Nosso Senhor, pequenino como nasceu no curral, que docemente, através da manhã clara o ia levando para o Céu.

***

Índia, Janeiro de 2017


Não me parece que vá dizer nada de novo neste post.

1) Há un anos pediram-me para escrever um texto com base em cenas da vida de Nossa Senhora, um conjunto de quadros da Paula Rego que estavam no palácio de Belém.  Não gosto de Paula Rego.

2) Durante muitos anos não gostei de Alfredo Marceneiro a cantar fado. 

3) Ler Shakespeare ou este trecho de Eça de Queiroz, sobre S. Cristovão é ler textos bem escritos, de escritores cuja mestria perdura no tempo.  

*** 

Nenhuma das frases acima é mentira. Não gosto de Paula Rego, não gostava de Marceneiro, este texto (ou outros de outros escritores consagrados) é muito bonito. No entanto, apesar da veracidade das afirmações, todas pecam pela incompletude. Não gosto de Paula Rego, repito, mas a mestria, a criatividade, o mundo interior da pintora ficaram bem patente depois do assessor cultural do presidente da altura me ter explicado o que significavam as figuras, os pormenores, o fio condutor que une tudo. A forma como olhei para aqueles quadros mudou substancialmente.

Se quisesse ser um pouco radical diria: não gosto de ouvir um fado do Marceneiro, mas gosto se ouvir todos. Porquê? Porque ouvir tudo é perceber o estilo, a escola criada. É, à semelhança do que aconteceu com a explicação dos quadros de Paula Rego, perceber o fio condutor de uma carreira. 

Por último. Ler Shakespeare pode ser, apenas, ler Shakespeare: quem matou quem, quem atraiçoou quem, que frases ficaram para a posteridade. Mas, explicada a obra, há muito mais interesse na interioridade dos personagens do que na história dos dramas. A Lady Macbeth ou Othello têm uma densidade que ultrapassa em muito os seus actos. Mas é preciso que me expliquem...

Por último, ler o texto acima não é ler um texto bonito, apenas. Há ali uma lição: a ideia de paraíso como destino de recompensa, a certeza de que no rosto do nosso próximo mais fragilizado se reflecte o rosto de Cristo, ou que os ombros que oferecemos a quem precisa, mesmo que para isso se rasguem joelhos e se sue sangue, é dar a mão à eternidade, à mão que docemente nos leva para o Céu.

Ver tudo, ver além do desfocado, ver de forma diferente. Ver mais, para perceber mais. Ou apenas ver diferente, sei lá eu.

JdB  

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Vai um gin do Peter’s?

FILME ANIMADO COM TELAS DE VAN GOGH (1853-1890) – UM INÉDITO

Num projecto híper ambicioso, dois craques da animação – a polaca Dorotea Kobiela e o britânico Hugh Welchman – reuniram os apoios certos para desvendar uma parte misteriosa (mais uma!) da biografia atormentada de Vincent Van Gogh (VVG), fazendo fluir com vida as telas do pai da pintura moderna. Uma loucura visual, que espanta e encanta(1) .

Contou com o trabalho árduo de 120 pintores, seleccionados entre mais de 4000 candidatos. Durante seis anos, empenharam-se num contra-relógio para acordar os 94 originais de Vincent e reformatar mais 31 obras do grande mestre. Conferiram-lhes movimento ao replicá-los em óleos pintados à maneira de VVG, como clonos estereoscópicos. O elenco das principais telas incorporadas no filme consta no site oficial em: http://lovingvincent.com/by-vincent-painting,27,pl.html

Na abertura da animação, a famosa «NOITE ESTRELADA» surge fulgurante, cada pormenor do quadro a ondular num baile suave mas expressivo. Parecem gozar a mobilidade recém-conquistada, depois de a magia do cinema os resgatar do estaticismo.


Para se ter uma escala dos recursos alocados: esvaíram-se nos oito segundos inaugurais do filme um ano e meio de labor intenso de três pintores profissionais e 3.000 litros de tinta. A complexa produção desenrolou-se por três etapas consecutivas: filmagem dos actores sob fundo esverdeado com a técnica de chroma key; edição dos fotogramas e subsequente adaptação às telas oitocentistas; e a fase avassaladora de pintura de cada “frame” (c. 65 mil) segundo a técnica de VVG, por um escol de mais de uma centena de artistas. 

A contracenar com as obras de Vincent, os flash-backs da história são sustentados por óleos a preto-e-branco, fiéis ao estilo do holandês. Este grupo inspira-se em fotografias da época.

O título do original inglês dá o mote à narrativa, tomando a fórmula da despedida afectuosa usada pelo pintor nas cartas enviadas ao seu irmão e mentor – Theo Van Gogh: Your LOVING, VINCENT. A correspondência entre ambos ultrapassou as 900 cartas, justificando a amizade do carteiro Armand Roulin pelo artista, afinal, o seu melhor cliente! O argumento baseia-se na missão legada por Roulin ao filho, para garantir a entrega da última carta de Vincent a Theo. Honraria, assim, o último desejo do artista. A tarefa, bem mais intrincada do que se supunha, levou o aprendiz de carteiro até à aldeia francesa Auvers-sur-Oise, onde o pintor tinha sucumbido no dia 29 de Julho de 1890.

«Retrato do Carteiro Joseph Roulin», início de Agosto de 1888
«La Berceuse» (Augustine Roulin), 1889

De porta em porta, saltando de testemunha em testemunha, a história converte-se num thriller sobre as circunstâncias da morte precipitada do pintor, de interpretação menos clara do que se terá convencionado, à época. Na altura, taxou-se de suicídio. A imprevisibilidade e os excessos no comportamento do artista, que padecia de alucinações e crises psicóticas, acomodavam tal desfecho. Simplesmente, os factos clarificados posteriormente – desmancha-prazeres das conveniências sociais e de certas agendas – apontam noutro sentido, conforme sugere o filme, baseado num veredicto clínico da altura, mas ocultado, além de outras evidências.  

Embora a tese que vingou fosse subscrita pelo médico homeopata (ex-)amigo do pintor – Paul Gachet, há testemunhos comprovativos da sua feroz desavença (uma constante na vida de VVG) e da estranha reacção do clínico após o disparo, pois não removeu a bala, antes deixando o doente exaurir-se numa morte lenta e dolorosa. Seria incapacidade técnica? Refere-se ainda que Gachet teria ciúmes do talento de Vincent, além de estar furioso com a aproximação do pintor à sua filha, igualmente embevecida. Outro defensor desta tese é o filho Gachet, cuja família se apropriou sumariamente de várias telas do pintor, no rescaldo da sua morte.  

Em contracorrente, outro médico menos envolvido emotivamente detectou marcas óbvias de homicídio, desde logo por a zona atingida ser de difícil acesso ao próprio. Mesmo na hipótese acrobática de Vincent ter alvejado o seu abdómen, o impacto da proximidade teria feito estragos inexistentes na sua ferida. Além disso, a trajectória da bala indicava ter sido disparada a bons metros de distância, em direcção oblíqua debaixo para cima (uma impossibilidade para o próprio), a partir de uma posição quase rasteira, provavelmente abaixo do perímetro da tela que estaria a ser pintada e constituía um entrave natural ao atirador anónimo. Também era um contra-senso ter a intenção de se matar e desistir de disparar um segundo tiro, preferindo antes sobreviver com uma ferida mortífera a prazo, que redundou numa agonia de 29 horas! Outro facto por esclarecer está no inexplicável desaparecimento de todo o material de pintura existente no local do disparo e demasiado pesado para poder ter sido mexido pelo ferido. Mais: apesar dos kms de papel escritos por VVG, não referiu em carta alguma a possibilidade de suicídio. Ao invés, na que escrevera na véspera do tiro, entusiasmava-se com grandes projectos para o futuro. 

Ao longo dos anos, a principal testemunha em favor do suicídio foi a filha do estalajadeiro onde Vincent pernoitava, Adeline Ravoux, com apenas 13 anos na altura e relatos posteriores desencontrados uns dos outros. Ou seja: fixámo-nos numa teoria pouco sustentável, pejada de inconsistências. 

Até na morte, Van Gogh terá sofrido a sorte dos desprotegidos, preferindo-se uma “narrativa” hábil e plausível, que resguardou a identidade dos assassinos, além de ajudar a alimentar agendas romantizadas em torno do herói-marginal, como se a bizarria e a marginalidade fizessem prova de genialidade. No filme e segundo averiguações mais recentes, atribui-se o crime aos chefes de um gangue de liceais arruaceiros e violentos – os manos Gaston e René Secrétan. À hora da morte, nos anos 50 do século XX, René deixou uma mensagem alusiva àquele episódio tremendo da sua vida, sendo certo que, à data do tiro, costumava exibir-se com uma pistola carregada.  

Os outros motivos em desfavor do propalado suicídio são de natureza mais nobre, ligados ao carácter do artista. Também, por isso, menos objectivos, não podendo sustentar sozinhos a nova tese a que LOVING VINCENT dá voz, apesar de ser consensual que o pintor padecia de uma depressão grave com picos de desordem psiquiátrica, agravados pelo excesso de trabalho e por hábitos desregrados.

A existência trágica de Vincent poderia ser considerada o expoente do fracasso. Primeiro, incompreendido pelos pais, ao somar reveses e rejeições que não o recomendavam para gerir os negócios de família. E logo calhava ser o primogénito. A fim de tentar a sorte noutras paragens, deambulou por vários países, experimentou diferentes ofícios, inclusive como missionário na Bélgica, mas em lado nenhum se sentiu minimamente acolhido. Aos 27 anos, era um homem perdido e escorraçado pela maioria, com a honrosa excepção de um par de amigos artistas e do irmão mais novo – Theo – vendedor de arte, que o instigou a lançar-se na pintura. 

A vocação tardia e a falta de habilitações académicas não impediram Vincent de bater recordes como autodidacta inspirado. No espaço de quase uma década pintou, sofregamente, mais de 2000 obras, entre 900 óleos (o filme refere apenas 800) com alguns pintados no verso por falta de dinheiro para novas telas, e 1100 desenhos e sketches. Porém, só uma ínfima minoria lhe reconheceu a genialidade, chegando o sucesso postumamente. Dir-se-ia, demasiado tarde… 



Por qualquer mistério (outro), o pós-impressionista/expressionista guardou até ao fim uma luminosidade interior e uma grandeza no olhar, que impregnou as telas de cores garridas e quentes, revelando um mundo atractivo e lindo. Até as obras lavradas no hospício são generosas a comemorar a vida. Em Van Gogh, os céus merecem pinceladas de azuis festivos salpicados por estrelas cintilantes, as nuvens entretêm-se em coreografias ondulantes, o trigo forma mantos dourados e toda a paisagem é deslumbrante, como se a Beleza fosse a face mais visível do universo. Estas telas datam do ano em que morreu: 


De algum modo, coube a um dos artistas mais sofridos – com maior ou menor grau de responsabilidade, pouco importa – devolver-nos a criação num estádio incrivelmente límpido, ainda por estrear, centésimos de segundo depois do Big Bang. VVG parece ter sempre vislumbrado aquele esplendor que, um século mais tarde a milhares de kms de distância da terra, maravilhou os astronautas que olharam para o «planeta azul». Observavam-no a partir da lua, talvez como Vincent, que terá sido o mais lunar dos homens, pelas melhores razões. Lunar, mas não lunático! Antes de enorme agudeza de espírito. Num postal enviada a Theo, Vincent explicava: «Eu posso ver um campo cercado de trigo (...) acima do qual, durante a manhã, eu vejo o Sol nascer com toda a sua glória.» Sem se deter na dor – que era imensa – VVG valorizava o Belo em tudo o que via. Uma ironia eloquente ser ele a manter esta aptidão raríssima. 


Como canta a conhecida ária dedicada por Don McLean ao híper sensível, frágil e afectuoso Vincent, repugna o bullying de que foi alvo e o isolamento a que foi condenado. Os mais penalizados acabaram por ser os que se recusaram a aceitá-lo na sua individualidade e gigantesca diferença, por óptimos motivos. Segue a versão incluída na banda sonora do filme, magistralmente interpretada por Lianne Las Havas sob a imagem do «Autorretrato» pintado no ano da morte. A letra sugere, dramatizando até ao limite: «they could not love you (…) this world was never made for someone as beautiful as you». 



No filme, possivelmente citando uma das cartas de Vincent, este conta ao irmão o que pretende exprimir com o pincel: «show the world what this nothing has in his heart» e ainda «the truth is, we cannot speak other than by our paintings.» À medida que o tempo passa, a vida aclamada pelo precursor do modernismo permite desvelar novos indícios, que obrigam a actualizar a biografia enigmática do pai do modernismo. Sobre o corte da orelha, historiadores alemães alegam ter sido cortada por Gauguin, esgrimista exímio,  assumindo Van Gogh a brutal amputação para resguardar o amigo da prisão, enquanto ele consentia em ser hospitalizado num hospício psiquiátrico.

LOVING VINCENT ajuda a fazer luz sobre o seu passado, com o mérito acrescido do estilo sóbrio e tranquilo da animação estar isenta daquele sentimentalismo febril que costuma vir associado à figura algo inacessível do mestre. Percebe-se o manancial imenso que continua por desbravar.
   
Maria Zarco
 (a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA:

Título original: «LOVING VINCENT»
Título traduzido em Portugal: «A PAIXÃO DE VAN GOGH»
Realização: Dorotea Kobiela e Hugh Welchman
Argumento: Dorotea Kobiela e Hugh Welchman
Produtor: Sean M. Bobbitt e Hugh Welchamn
Banda Sonora: Clint Mansell
Duração: 94 min.
Ano:        2017
País: Polónia e Reino Unido
Elenco:
   - o actor polaco Robert Gulaczyk (VVG)
   - Chris O'Dowd (o filho do carteiro amigo)
   - Douglas Booth (o carteiro)
   - Saoirse Ronan (a jovem Gachet, por quem VVG se apaixona)
   - Aidan Turner,
   - Jerome Flynn, etc.
Local das filmagens: Londres e estúdios/ateliers de pintura – 2 na Polónia e 1 na Grécia.
Site oficial: https://www.facebook.com/lovingvincentmovie e http://lovingvincent.com/

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Os Meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

***


Nas estantes os livros ficam 
(até se dispersarem ou desfazerem) 
enquanto tudo 
passa. O pó acumula-se 
e depois de limpo 
torna a acumular-se 
no cimo das lombadas. 
Quando a cidade está suja 
(obras, carros, poeiras) 
o pó é mais negro e por vezes 
espesso. Os livros ficam, 
valem mais que tudo, 
mas apesar do amor 
(amor das coisas mudas 
que sussurram) 
e do cuidado doméstico 
fica sempre, em baixo, 
do lado oposto à lombada, 
uma pequena marca negra 
do pó nas páginas. 
A marca faz parte dos livros. 
Estão marcados. Nós também. 

Pedro Mexia, in "Duplo Império" 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Duas Últimas


Sei que a fotografia acima me foi enviada por mão amiga. Não faço ideia de onde veio, mas parece-me tudo acertado. Até porque tendo a acreditar que os professores serão competentes para ensinar matemática, história ou geografia, mas não sei se estarão aptos a ensinar regras de conduta, de civismo ou de educação.  Essa parte da matéria prefiro que deixem para os Pais (enfim, eu já dei para esse peditório...) porque é uma área que requer mais do que uma licenciatura, um mestrado ou um doutoramento, seguido de pós-graduações. Requer opções de vida, sensibilidades ou mesmo manias, escolhas e hábitos.Além disso, se atentar no que para aí vai de desonestidades, éticas aparentemente superiores que caem pela base, roubos e outros desmandos, mesmo por parte de gente de quem, parece-me, se poderia exigir mais, ficaria mais descansado se a tarefa do que se aprende em casa se aprendesse mesmo em casa, não nas escolas.

Deixo-vos com uma peça bonita, nada relacionada com a imagem acima. Mas ouvi-a de novo um destes dias, e só então soube de quem era. De Edward Elgar, e das Variações Enigma, oiçam Nimrod, para vosso deleite.

JdB

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Textos dos dias que correm

Marraquexe, Abril de 2017

O absurdo e o mistério

«Diga-me, em cinco minutos, a substância da sua experiência de filósofo.» - «É a escolha entre duas soluções: o absurdo e o mistério. O meu colega Sartre escolheu o absurdo, eu o mistério.» - «Mas qual é a diferença? Também o mistério parece absurdo!» - «Não, o absurdo é um muro impenetrável contra o qual se esmaga num suicídio. O mistério é uma escada: sobe-se de degrau em degrau para a luz, confiando.»

São estas algumas das frases de um diálogo ocorrido em 1983 entre o presidente francês François Miterrand e o filósofo católico Jean Guitton. É verdade que em cinco minutos só se pode dizer pouco, mas também se é estimulado e aprofundar e a colher o essencial.

A opção do filósofo Jean-Paul Sartre é conhecida e já está nos títulos de algumas das suas obras, como “O ser e o nada”, “O muro”, “À porta fechada” e, por fim, “A náusea” e “Com a morte na alma”. Muitas pessoas que passam e se sentam junto a nós, sem nunca terem lido uma linha de Sartre, partilham na prática esta decisão.

Estamos imersos num mundo absurdo e repugnante, no qual as portas das respostas estão todas fechadas e indisponíveis, e o horror é a marca da nossa existência. A liberdade impele-nos a ultrapassar esse muro, mas estamos destinados a partir as mãos e a esmagar-nos contra ele se o tentamos escalar.

Muito diferente é a conceção de Guitton, que vê o ser como uma escada aberta aos nossos passos. É um pouco como a de Jacob, que «viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu» (Génesis 28, 12).

A subida é cansativa, pode-se tropeçar porque os primeiros degraus estão na escuridão, mas lá em cima há uma luz infinita. Com o archote da esperança e com o desejo da procura pode-se prosseguir de etapa em etapa, de luz em luz…

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 18.11.2017

domingo, 19 de novembro de 2017

33º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 25,14-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«Um homem, ao partir de viagem,
chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens.
A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um,
conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu.
O que tinha recebido cinco talentos
fê-los render e ganhou outros cinco.
Do mesmo modo,
o que recebera dois talentos ganhou outros dois.
Mas, o que recebera dois talentos ganhou outros dois.
Mas, o que recebera um só talento
foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos
e foi ajustar contas com eles.
O que recebera cinco talentos aproximou-se
e apresentou outros cinco, dizendo:
‘Senhor, confiaste-me cinco talentos:
aqui estão outros cinco que eu ganhei’.
Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.
Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.
Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.
Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse:
‘Senhor, confiaste-me dois talentos:
aqui estão outros dois que eu ganhei’.
Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.
Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.
Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.
Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse:
‘Senhor, eu sabia que és um homem severo,
que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste.
Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra.
Aqui tens o que te pertence’.
O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso,
sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei;
devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro
e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu.
Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez.
Porque, a todo aquele que tem,
dar-se-á mais e terá em abundância;
mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores.
Aí haverá choro e ranger de dentes’».

sábado, 18 de novembro de 2017

Pensamentos Impensados

Prevaricação em moda
Consta que foi vista Odete Santos, na rua, a gritar: e a mim, ninguém assedia?

Altas matemáticas
O Mundo foi criado há minutos, não se sabe é quantos.

Não se trata de Paulo Portas
Há várias qualidades de portas, sendo a mais esquecida a porta-te bem.

Interné
Ligue já para 123456 e receba grátis informação sobre aumento de impostos.

Desorientado
Não sabia qual a sua orientação sexual, pois tinha perdido a bússola.

Gigantismos
Vi fazer surf nas ondas gigantes da Nazaré; não tentem fazer em casa.

Vícios
O hábito de ver vídeos chama-se video-hábito.

Maus hábitos
Conheceu tudo o que havia sobre sexo; para isso, foi de lés a lésbica.

SdB (I)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Moleskine

Mestrados I
Cruzo-me nas aulas com uma colega do mestrado. Gosto de conversar com ela, pela simpatia, pelo sentido de humor e pela inteligência e cultura discretas que revela. Defendeu a sua tese de mestrado (baseado no livro A Consciência de Zeno) seis meses depois eu ter defendido a minha. Teve um 18. Hoje perguntei-lhe porque motivo escolheu aquele tema: porque é igual ao meu tio, que é uma pessoa muito importante para mim... Não foi uma epifania, uma vontade de deixar um escrito para a posteridade, um alarde de erudição - limitou-se a encontrar um ponto de intersecção com uma pessoa que lhe era próxima. 

Zimbabwe
Tenho acompanhado a situação no país de Mugabe, não por me interessar por política africana nem por compaixão por um país onde a esperança de vida anda pelos 35 anos, mais coisa menos coisa. Vivi lá dois meses e poderia copiar o Malato: já fui feliz no Zimbabwe. Interesso-me, de facto, porque lá vivi, e isso torna a tragédia e a esperança em algo mais próximo. Todos os dramas ou alegrias assumem uma dimensão diferente a partir do momento em que têm lugar em sítios que conhecemos. Dez pessoas morrerem no mercado de velha Delhi tem em mim um impacto superior à morte de 50 pessoas na Mongólia, porque conheço um, não conheço o outro. Um golpe de Estado no Zimbabwe suscita-me uma atenção que não suscita igual movimento na Costa do Marfim. 

Monte Ngomakurira, Zimbabwe, Setembro de 2008 

Mestrados II
Zeno é igual ao tio da minha colega. Diz-me ainda: o João sabe? O Joyce é igual ao meu avô. Este raciocínio é curioso. Em momento algum, que me lembre, consegui encontrar semelhanças entre pessoas que me são próximas e personagens de ficção ou personagens reais. Terei de estar mais atento, disse-lhe eu. A resposta veio rápida: não é preciso. As parecenças batem-nos na testa. Tenho de estar mais atento, mesmo assim.

Arquitectura religiosa


Por motivos da minha tese de doutoramento leio o livro acima. Muito, seguramente, por ignorância e preconceito meus, sempre tive uma opinião pouco positiva sobre a arquitectura religiosa desta época, formatado que estava / estou pela arquitectura "antiga", clássica, bonita. Mas impressiona-me positivamente o envolvimento de tantos arquitectos e outros artistas plásticos (todos católicos) na definição de regras, na adaptação do espaço à liturgia, no pensamento de uma arquitectura mais consentânea com os tempos de então, enquandrando fiéis e altar, por exemplo.

Cito o livro que cita o Pe. Couturier: A glória de Deus não consiste na riqueza e na enormidade, mas na perfeição da obra pura. Se as nossas igrejas fossem assim, poderiam recomeçar a ensinar ao mundo que muito pouco chega para o essencial

O despojamento, portanto.

JdB

Poemas dos dias que correm

Toronto, Outubro de 2014
Gerês, Setembro de 2016


Percam para Sempre

Percam para sempre as tuas mãos o jeito de pedir.
Esqueça para sempre a tua boca
O que disse a rezar.
E os teus olhos nunca mais, nunca mais saibam chorar
Porque é inútil.
Faz como os outros fizeram
Quando chegou o momento
De perder o medo à morte
Por ter muito amor à vida.

Raúl de Carvalho, in 'As Sombras e as Vozes'


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Duas Últimas

Passei o último fim-de-semana no Vidago, com pessoas de família.

Encontrámos um sítio tranquilo, com gente que não incomodava, boa mesa e um parque com árvores magníficas de proveniências muito distintas, excelente para passeios, a pé ou de bicicleta. Afinal, aquilo que procurávamos.

Nada de televisões e poucos jornais, mantendo um esparso contacto com o mundo exterior.

Aproveitámos para visitar a localidade de Pitões das Júnias, na parte nordeste do Gerês, concelho de Montalegre, paredes meias com a Galiza. Uma zona ainda verde, apesar da seca, de rica vegetação e trilhos apertados, felizmente sem vestígios de incêndios por perto.

Destaco um mosteiro cisterciense abandonado, de que resta uma igreja razoavelmente conservada. Num sítio arrepiante de bonito, isolado e silencioso, com uma pequena ponte sobre uma ribeira e soberbos carvalhos. Sem dúvida um local apropriado para a contemplação, próprio para quem procura estar perto de Deus.

Já com a noite e o nevoeiro a caírem rapidamente, fomos ainda ver umas quedas de água, descendo a bom descer através de um passadiço de madeira. Mas a vista final dessas quedas, no outro lado do vale, compensa a descida algo abrupta.

Garantiram-me que esta é terra de lobos, animal que sempre me fascinou, mas infelizmente não me quiseram presentear com sinais/uivos da sua presença próxima.

Deixo-vos com Roberto Carlos, no estilo enamorado e repousado que se lhe conhece.

Espero que apreciem.

fq



terça-feira, 14 de novembro de 2017

Do dualismo em Shakespeare

She lov’d me for the dangers I had pass’d
And I lov’d her that she didi pity them. 

["Ela amava-me pelos perigos que eu passara; eu amava-a por que se apiedara de mim.” (na tradução do Rei Dom Luís de Bragança, Publicações Europa-América, 1999)]

Shakespeare, in Othello (Acto I, Cena III)

***

A relação amorosa é um diálogo. E um diálogo, até pela sua própria natureza, é um jogo duplo, no sentido de ser protagonizado por duas pessoas. É um movimento de vaivém, de pergunta e resposta, de afirmação e afirmação, de interrogação e interrogação. A relação amorosa que começa, que perdura ou que termina é um mistério cuja decifração está na frase que se diz e que se ouve, no olhar que se derrama ou que se pressente, ou no detalhe, esse activo que é propriedade intermitente de Deus e do diabo, coisa dual que constrói e destrói.

O amor nasce de um dualismo que concentra em si a simultaneidade. Não é A que olha para B e B que olha para A. O olhar de A para B tem de ser simultâneo com o olhar de B para A, pelo que, naquele preciso instante, os olhos se cruzam no espaço e no tempo, permitindo o amor. Na mesma linha de raciocínio, a frase que A diz a B não é simultânea com a frase que B diz a A porque um diálogo não é uma composição de monólogos. Há, no entanto, uma simultaneidade sequencial, um nexo causal, uma causa e efeito, uma força exercida sobre um corpo, corpo esse que reage – é o princípio da acção e da reacção – e, por mais microscópico que seja, desvia o seu percurso.

O amor nasce desta diversidade de dualismos: a troca de olhares, a troca de frases, a troca de sorrisos que estabelece o comércio, o toque dual de uma mão na outra. Mas o amor nasce também do motivo, do porquê? com que interrogamos o céu, o destino, as estrelas. O dualismo nasce do motivo duplo: A ama B porque...; B ama A porque... O sucesso do amor não reside no conhecimento de uma resposta, de outra resposta, de ambas as respostas. O sucesso do amor reside no dualismo perfeito das duas respostas, no encaixe perfeito de uma saliência e de uma reentrância, na conjugação harmoniosa do claro e do escuro, de Veneza e de Chipre, ou mesmo do claro e do claro, de Veneza e Veneza.

Otelo e Desdémona amam-se e casaram. Neste casal há, aparentemente, dualismo: há claro e escuro, há novo e velho, há Veneza e Chipre. E há amor, que é uma espécie de aglutinante de todos estes ingredientes adicionados à malga em proporções de par. Por vezes, quando estes dualismos assumem foros desafiantes, como se a todos os elementos se juntasse o advérbio muito (muito claro e muito escuro, muito Veneza e muito Chipre) o amor é um emulsionante, homogeneizando dois fluidos imiscíveis. 

Assim sendo, o amor de um pelo outro chegaria para conferir felicidade ao par? Sim, mas...

Na terceira cena do primeiro acto, no entanto, o desfecho está traçado. Não haverá felicidade, não porque entre A e B se interponha C, ou porque um determinado lenço (tingido do sangue que não tingiu nunca os lençóis) caiu nas mãos erradas, no momento errado. Não haverá felicidade, não porque A e B se não amem mutuamente, mas porque no dualismo que contém o motivo do amor o conjunto intersecção é nulo; não houve acção / reacção; A olhou para B numa fracção de instante diferente do momento em que B olhou para A. E nessa fracção de instante o mundo rodou, a posição relativa das coisas deslocou-se, B tinha fechado os olhos um milímetro, e os olhos alheios viram coisas diferentes.

Otelo ama Desdémona; Desdémona ama Otelo. Mas este amor não é aglutinante nem mesmo emulsionante. O amor que um nutre pelo outro tem uma natureza diferente, e é isso que mata o amor. 

Recorramos à tradução portuguesa: Desdémona ama Otelo pelos perigos que ele passara. Desdémona nutre por Otelo uma amor que tem uma natureza simultaneamente sexual e romântica. É o amor em toda a sua plenitude física e emocional. O amor nasce-lhe da visão que tem de Otelo, dos perigos pelos quais ele passara. Otelo encantou Desdémona com a história sobre ele próprio. Uma história que ganharia o coração de outras mulheres, tal o seu fascínio. 

Recorramos de novo à tradução portuguesa: “eu amava-a por que se apiedara de mim.” Otelo não ama Desdémona por aquilo que ela é, pela história da sua vida ou pelos perigos que passara, mas ama Desdémona pela forma como Desdémona o ama a ele. Em Otelo, a haver amor, não é carnal, uma vez que não deseja que a mulher parta com ele para Chipre para satisfazer desejos carnais. Otelo ama Desdémona? Talvez à sua maneira, se entendermos como maneira legítima o mouro apenas amar a forma como Desdémona o ama a ele. E isso, por mais terrível que seja, inviabiliza o amor, ou a possibilidade do amor. Não há dualismo, não há olhar simultâneo, não há frase e outra frase numa simultaneidade consecutiva. 

O casamento de Otelo e Desdémona não é consumado nunca. No leito onde nada começa, tudo acaba. O casamento, tal como a sua consumação num leito onde mora o amor, é um dualismo, o encaixe divino de dois seres, dois diálogos, dois olhares entrecruzados. Talvez, em bom rigor, não tenha havido falta de consumação por idade do mouro que redunda em menos desejo carnal, ou por falta de um amor eros. Talvez, em bom rigor, não tenha havido consumação porque não tenha havido nada de conjugal para consumar. O amor que ambos nutriam um pelo outro era de tal forma diferente, de tal forma distante no espaço e no tempo que nada mais lhes restava, a não ser uma tragédia em cima de outra tragédia. E talvez Otelo tenha cravado um punhal em si próprio, não por remorso ou medo do cárcere, mas porque não conseguia amar-se se ninguém o amava a ele. O caos invade-o, porque, tendo morto Desdémona, já não há ninguém para reflectir a imagem que ele tem, ou quer ter, de si próprio.

O dualismo permite o amor, ou a possibilidade do amor; mas permite a tragédia porque ambos podem andar a par. No entanto, a falta de dualismo, quando entre dois seres criados à imagem e semelhança de Deus, só permite a tragédia. Aconteceu assim com Otelo e Desdémona.     

JdB

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Para vir a gostar de tudo

Para vir a gostar tudo,
Não queiras ter gosto em nada.
Para vir a saber tudo,
Não queiras saber algo em nada.
Para vir a possuir tudo,
Não queiras possuir algo em nada.

Para vir ao que não gostas,
Hás-de ir por onde não gostas.
Para vir ao que não sabes,
Hás-de ir por onde não sabes,
Para vir a possuir o que não possuis,
Hás-de ir por onde não possuis.
Para vir ao que não és,
Hás-de ir por onde não és.

Quando reparas em algo,
Deixas de arrojar-te ao todo.
Para vir de todo ao todo,
Hás-de deixar-te de todo em tudo.
E quando o venhas de todo a ter,
Hás-de tê-lo sem nada querer.

Nesta desnudez acha o espírito o seu descanso
Porque não cobiçando nada,
Nada o afadiga para cima e nada o oprime
para baixo porque está no centro
da sua humildade.

S. João da Cruz

***

Da Oração

Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:

Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.

Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?

Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?

Frei Agostinho da Cruz (Agostinho Pimenta), in 'Sonetos'

domingo, 12 de novembro de 2017

32º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 25,1-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens,
que, tomando as suas lâmpadas, foram a
o encontro do esposo.
Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes.
As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas,
não levaram azeite consigo,
enquanto as prudentes,
com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias.
Como o esposo se demorava,
começaram todas a dormitar e adormeceram.
No meio da noite ouviu-se um brado:
‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’.
Então, as virgens levantaram-se todas
e começaram a preparar as lâmpadas.
As insensatas disseram às prudentes:
‘Dai-nos do vosso azeite,
que as nossas lâmpadas estão a apagar-se’.
Mas as prudentes responderam:
‘Talvez não chegue para nós e para vós.
Ide antes comprá-lo aos vendedores’.
Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo.
As que estavam preparadas
entraram com ele para o banquete nupcial;
e a porta fechou-se.
Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram:
‘Senhor, senhor, abre-nos a porta’.
Mas ele respondeu:
‘Em verdade vos digo: Não vos conheço’.
Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora.

sábado, 11 de novembro de 2017

Pensamentos Impensados

Mezinhas
A guerra é um bom diurético; para informação completa ler War and Piss.

Luvas
Aceitar subornos é inaceitável.

Virtualidades
Os reis, em princípio, são pessoas realistas. D. Sebastião nem por isso.

Unanidades
Se o Presidente da República fizer greve, logo virão os sindicatos a proclamar que a adesão foi de 100%.

Similitudes
Eram dois gémeos tão iguais que as pessoas tinham a maior dificuldade em saber quem era quem.
Já os próprios não tinham a menor dificuldade.

Chatices
Noé, quando se apanhou em terra, depois do dilúvio, só disse: mas que grande seca.

Aparições
Há 6 horas que não vejo Marcelo na televisão; começo a ficar preocupado.

Cabeçadas
Se em vez de ter pedido a cabeça de João Baptista tivesse pedido uma cabeça de pescada, Salomé não teria ficado para a História.

SdB (I)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Textos dos dias que correm

A Liberdade e a Justiça

A revolução do século XX separou arbitrariamente, para fins desmesurados de conquista, duas noções inseparáveis. A liberdade absoluta mete a justiça a ridículo. A justiça absoluta nega a liberdade. Para serem fecundas, as duas noções devem descobrir os seus limites uma dentro da outra. Nenhum homem considera livre a sua condição se ela não for ao mesmo tempo justa, nem justa se não for livre. Precisamente, não pode conceber-se a liberdade sem o poder de clarificar o justo e o injusto, de reivindicar todo o ser em nome de uma parcela de ser que se recusa a extinguir-se. Finalmente, tem de haver uma justiça, embora bem diferente, para se restaurar a liberdade, único valor imperecível da história. Os homens só morrem bem quando o fizeram pela liberdade: pois, nessa altura, não acreditavam que morressem por completo.

Albert Camus, in "O Mito de Sísifo"

***

A Justiça em Estado Puro

Quero que me ensinem também o valor sagrado da justiça — da justiça que apenas tem em vista o bem dos outros, e para si mesma nada reclama senão o direito de ser posta em prática. A justiça nada tem a ver com a ambição ou a cobiça da fama, apenas pretende merecer aos seus próprios olhos. Acima de tudo, cada um de nós deve convencer-se de que temos de ser justos sem buscar recompensa. Mais ainda: cada um de nós deve convencer-se de que por esta inestimável virtude devemos estar prontos a arriscar a vida, abstendo-nos o mais possível de quaisquer considerações de comodidade pessoal. Não há que pensar qual virá a ser o prémio de um acto justo; o maior prémio está no facto de ele ser praticado. Mete também na tua ideia aquilo que há pouco te dizia: não interessa para nada saber quantas pessoas estão a par do teu espírito de justiça. Fazer publicidade da nossa virtude significa que nos preocupamos com a fama, e não com a virtude em si. Não queres ser justo sem gozares da fama de o ser ? Pois fica sabendo: muitas vezes não poderás ser justo sem que façam mau juízo de ti! Em tal circunstância, se te comportares como sábio, até sentirás prazer em ser mal julgado por uma causa nobre!

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Dos recasados

Abro com uma declaração de interesses: sou católico, vivo bem na Igreja que me acolheu e eu acolhi, acato as decisões e as regras, mesmo aquelas que me parecem mais desfasadas no tempo, reconheço na Igreja inúmeros erros, o que é sinal da sua humanidade e fragilidade. Por último, vivo recentemente aquilo que se chama uma situação irregular.  

***

Leio no Observador, ainda ontem, que a Diocese de Braga vai constituir um grupo para acompanhamento dos cristãos que se divorciaram e voltaram a casar. A Diocese emitirá um documento em breve, intitulado "Construir a casa sobre a rocha", que vai de encontro à exortação apostólica “Amoris Laetitia” (Alegria do Amor), do papa Francisco. Esta notícia suscita-me um post.

A minha roda de amigos é composta por gente entre os 56 e os 65 anos, maioritariamente. São quase todos casados: uns com primeiros casamentos que duram há 30 ou mais anos, outros com novas relações mais recentes, outros com segundas relações com mais de 20 anos, depois de erros ou infortúnios. Dos que frequentam a igreja ao Domingo, alguns recasados comungam, outros não. Os que não o podem / querem fazer têm pena, independentemente de acharem que podem ou não comungar, porque alguns, presumo eu socorrem-se da sua consciência para decidir o que fazer.

Nos últimos anos - e sei disto porque foi afirmado publicamente pelo Papa - os processos de declaração de nulidade dos casamentos têm sido agilizados. Eliminaram-se passos do processo e, com isso, encurtaram-se prazos. Talvez o crivo que definia quem era "elegível" ou não esteja maior, pelo que há mais casos. Todos nós, de uma forma ou de outra, conhecemos casos. Eu, sem um grande esforço de memória, conheço meia dúzia - alguns de gente da minha idade, outros de gente mais nova. 

Desde que surgiu esta agilização que manifesto o meu desconforto por este caminho que a igreja parece estar a seguir. Se há casos que são óbvios, outros requerem um pensamento mais elaborado. Afinal, não falamos de dogmas. Assim sendo, alguns / muitos casais vêm o seu percurso de prática religiosa mais desimpedido. O que "diz" a declaração de nulidade? Que naquele preciso instante em que os noivos disseram que sim, perante o testemunho de um padre, não houve sacramento. Ambos os noivos são solteiros aos olhos da Igreja, pelo que podem receber de novo, não só o sacramento do matrimónio, mas outros que lhes estariam vedados. 

De fora continuam todos aqueles, alguns com mais de 20 anos de novas relações, para quem as regras ou a consciência impedem o processo e declaração de nulidade. De fora continuam todos aqueles que cometeram um erro, ou foram vítimas de uma situação indesejada, e que quiseram refazer a sua vida conjugal. 

Do ponto de vista do raciocínio intelectual (e não sei bem o que isto quer dizer) dizer-se que não houve sacramento não é fácil de entender. A minha tendência imediatista, totalmente desfasada do que deve ser, é encontrar justiça na decisão. Assim, num raciocínio muito leviano, a declaração de nulidade devia aplicar-se ao "queixoso", àquele/a que foi abandonado/a, a quem mentiram, que foi sujeito/a a violências de qualquer tipo. O/a outro/a, que enganou, agrediu, mentiu, segue de alguma forma impune, podendo refazer a sua vida. é justo? É sempre correcto?

Olho para alguns dos meus amigos: o segundo casamento deles é o primeiro casamento. Foi por esse segundo que lutaram, que perderam noites de vigília aos filhos, nalguns casos dias nos hospitais; foi por esse que deram tudo, porque o primeiro foi um erro curto com custos elevados, um azar, uma decisão leviana - ainda que consciente. Para esses a solução é escassa, ainda.

Há muito que defendo a solução da igreja ortodoxa para estas situações. Fulano recasou, não é elegível para o processo de nulidade, mas quer casar de novo. A igreja, depois de um período de acompanhamento e discernimento, aceita um segundo casamento. Não há exercício da consciência individual, não há rebelião contra as regras. O recasamento, mediante certas condições, é aceite pela Igreja, porque quem está à frente da paróquia sabe quem é Fulano. É a vida e prática religiosa da pessoa que fala por si.

Não sei o que se tem feito nas paróquias / dioceses por estes recasados não elegíveis para a declaração de nulidade mas que querem receber os sacramentos. Não sei se se faz alguma coisa, porque nada vem a público - apenas o caso da Diocese de Braga. Mas gostava de ver esta realidade bracarense replicada noutras dioceses, e que disso se desse notícia, para que muita gente possa ver que a exortação do Papa Francisco, neste caso específico, não caiu em cesto roto. 

JdB 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Vai um gin do Peter’s?

NA PRIMAVERA DE 1895, NASCIA O CINEMA   

Na voragem das invenções extraordinárias do século XIX, com a industrialização e a mobilidade em larga escala, também os hobbies se sofisticaram e democratizaram. A par do boom industrial e comercial, as artes começaram a popularizar-se e uma nova indústria de divertimento despontou num ápice. Por exemplo, o século XIX viu nascer salas de espectáculo em dimensões agigantadas, que tornaram residuais as récitas dos salões palacianos muito comuns no mundo ocidental. Viu também emergir os primeiros fluxos turísticos com viagens de comboio lendárias (no Expresso do Oriente, no Trans-siberiano…) e mega-exposições artísticas e tecnológicas a atrair milhares de visitantes. Começaram as deslocações em massa, à base de curiosos e intelectuais, para se estender aos imigrantes e refugiados, devido à facilidade de acesso aos meios de transporte. Assistiu-se à fundação de Estados de peso na Europa, como a Alemanha e a Itália, assim como à erupção de uma miríade de países por toda a América Latina, no rescaldo das descolonizações. Foi ainda o século da primeira grande guerra europeia moderna, conhecida por «Guerras Napoleónicas» (1803-1815), em consequência da devastação e do clima de guerra civil (ex: período do «Terror Branco») provocados pela Revolução Francesa, que nem as peças de arte poupou. Apesar de tudo, Paris mantinha-se no epicentro da civilização ocidental, embora tivesse já a resvalar para um ocaso irreversível.  

Também o alvor do cinema data da última década de oitocentos e deriva directamente do progresso científico e técnico. Nos Estados Unidos, Thomas Edison inventava uma câmara de imagens animadas (1888) de uso individual, à americana. Cada espectador pagava para espreitar por um monóculo a animação que corria no interior de uma caixa mágica, cognominada cinescópio. 

Em França, Léon Bouly concebia o cinematógrafo, que acabou por ficar associado aos irmãos Lumière, que o patentearam mais tarde, aperfeiçoando o trabalho de Bouly e de outros investigadores gauleses. O novo aparelho projectava imagens movimentadas e visionáveis, em simultâneo, por inúmeros espectadores, dependendo apenas da lotação do espaço. Curiosamente, Edison achou louco e votado ao fracasso o projecto francês, apostado num entretenimento colectivo. Felizmente que o tempo não confirmou este vaticínio.

Outra curiosidade está no apelido dos talentosos irmãos Lumière (luz), talhado à medida do seu feito mais luminoso. 



A 22 de Março de 1895, Auguste e Louis exibiram perante uma pequena plateia a primeira obra do cinema, revelando um notável sentido de marketing. A curtíssima-metragem de 50 segundos tinha por tema a fábrica de família. Intitulou-se «La Sortie de l'usine Lumière à Lyon» e mereceu várias versões, para retocarem o efeito pretendido – hordas de homens e mulheres de semblante agradável e em passo despachado certificavam o vigor da força de trabalho da oficina dos realizadores. Precisamente, algumas das variantes sobre este tema consta da colectânea de 114 filmes dos Lumière, reunidos num documentário(1)  montado, em 2016, pelo director do Festival de Cannes e do Instituto Lumière – Thierry Frémaux. 



Nesse ano de 1895, os dois irmãos não se contentaram com a estreia absoluta em Março, empenhando-se em aperfeiçoar o mini-filme «A Saída da Fábrica Lumière em Lyon». Narra a história que terá calhado, numa noite de insónia, Louis L. chegar à solução optimizada das 24 imagens por segundo, capazes de reproduzir o movimento natural. Assim, a 28 de Dezembro de 1895, a dupla Lumière organizou um segundo visionamento no salão des Indiens, localizado no nº 14 do Boulevard des Capucines (hoje, Hotel Scribe). Entre os 33 espectadores, encontrava-se um futuro realizador de cinema, Georges Meliès, que ficou extasiado com o fabuloso invento. 

O conjunto das curta-metragens seleccionadas por Frémaux (com o trailer no final) correspondem a 90 minutos mágicos, que nos transportam até um mundo distante, situado entre 1895 e 1905. Esse período de transição entre dois séculos traz-nos: o ambiente sofisticado das míticas Exposições Mundiais de Paris; as amplas avenidas de Manhattan cruzadas por caleches e longas carruagens; a antiquíssima e soberba esfinge de Gizé, indiferente à passagem do tempo; as ruelas enigmáticas de Jerusalém com ecos da era medieval; a acumulação divertida de gentlemen em chapéu de coco junto ao Parlamento britânico; os fumadores de ópio orientais numa atmosfera esfumada que envolve o espectador no seu êxtase meio tóxico; as filas de pequeninas em vestidos tufados brancos e muitos laçarotes, acompanhadas por nurses fardadas à Florence Nightingale; pescadores de rosto sulcado pela dor a tentar domar as ondas numa barcaça frágil, antecipando o dramatismo que ficou depois consagrado no ecrã pelo genial realizador russo Sergei Eisenstein. 

O humor, a tensão tragicómica da vida, o suspense, o olhar subjectivo da câmara, as técnicas de travelling, as escolhas meticulosas da mise-en-scène e da melhor perspectiva, os remakes, a profundidade de campo, e até o recurso a pequenos efeitos especiais, impregnam as obras surpreendentes dos pais do Cinema. 

O rol de filmes «LUMIÈRE» flui por temas, com comentários de Frémaux em off, certeiros e cheios de humor. 

Há lugar ao primeiro momento de terror da Sétima Arte, com a chegada do comboio à gare de La Ciotat, provocando o pânico no público, que fugiu da sala para evitar ser colhido pela locomotiva. 

O comboio que parecia prestes a atravessar o ecrã e invadir a sala.

Há lugar às blagues com pequenos episódios ensaiados, como a blague evocada na imagem de cartaz. Mas há também as cenas comuns, que hoje resultam anedóticas, como a bailarina desengraçada e acelerada a querer exibir todas as habilidades em parcos 50 segundos, os soldados franceses a falharem os exercícios militares, as crianças a estragar as coreografias de grupo com as suas espontaneidades deliciosas, etc. 

Este foi uma das provas falhadas por um regimento militar, a merecer um comentário mordaz sobre o motivo por que a França passou a somar derrotas

Há lugar ao espectáculo com a introdução de imagens coloridas artesanalmente, num delírio de tons diferentes aplicados sequencialmente sobre o longo vestido da bailarina, que faz rodar a saia plissada num efeito de borboleta imparável. São 50 segundos de tirar o fôlego.

À falta de actores profissionais, recorre-se também à prata da casa, com a família dos irmãos em primeiro plano, sobretudo os mais novos, sempre naturais e fotogénicos:
  
A protagonista é a filha de um dos realizadores, que come tranquilamente a bolacha, sob o olhar embevecido dos pais. 

A emoção e a carga afectiva também contracenam, desde a primeira hora do Cinema. A personagem considerada mais enternecedora por Frémaux, na multidão imensa filmada pelos dois realizadores, é a da pequena vietnamita a correr à frente de uma câmara estrategicamente localizada para lhe captar um sorriso meigo, enquanto avança livremente, com uma simplicidade encantadora:    



Chegaram a perto de 1500 as curta-metragens realizadas pelos manos da luz, embora poucas tenham subsistido, pois o material era muito inflamável. A maioria acabou consumida pelas chamas. Daí o mérito deste documentário, composto por exemplares restaurados, a confirmar quanto o Cinema nasceu com poesia. Há 122 anos, surgiu bem mais do que um passatempo revolucionário. Inaugurou-se uma nova expressão de Arte – a Sétima!
      
Maria Zarco
 (a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta) 
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(1) FICHA TÉCNICA:

Título original: «LUMIÈRE ! L’AVENTURE COMMENCE»
Título traduzido em Portugal: «LUMIÈRE! A AVENTURA COMEÇA»
Realização: Thierry Frémaux
Argumento: Thierry Frémaux
Produtor: Bertrand Tavernier e CNC-Centre Nationale de la Cinématographie
Fotografia: Irmãos Lumière
Banda Sonora: o compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921)
Duração: 90 min.
Ano:        2016
País: França
Elenco:  - os irmãos Lumière: Auguste e Louis
                - Thierry Frémaux, 
                - Martin Scorsese, etc.
Local das filmagens: Os sítios originais, há um século atrás:  França, Nova Iorque, Londres, Cairo, Vietname, Jerusalém, etc.
Prémios /distinções: Nos festivais de Cannes e de Toronto 
Site oficial: https://www.facebook.com/Lumi%C3%A8re-Laventure-commence-218273918611458/

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Duas Últimas

Inexplicavelmente, ou talvez não (e esta construção frásica é de uma criatividade que impressiona) Genesis só passou uma vez por este estabelecimento, trazido pela mão de um rapaz de 18 anos, filho do meu amigo fq. Inexplicavelmente, porque são um conjunto fantástico. Talvez não, porque, embora sendo meus contemporâneos, não os ouvi imenso (uma construção frásica mais do tipo tia de Cascais). 

Aderi ao spotify há uns largos meses, quando me fizeram uma gentileza pelos anos. Já vinha com algumas músicas que rapaziada amiga quis sugerir. Há músicas que se relacionam comigo pelo título (sugeridas, talvez, por gente que me conhece menos bem) há músicas que foram sugeridas por quem me conhece há décadas. Penso que ninguém sugeriu Genesis...

Com o tempo fui populando as minhas playlists: fado, música pop, francesa ou italiana, jazz ou crooners, música portuguesa e tangos, entre outras. Da playlist "pop" (e talvez esta designação já seja reveladora do que eu sou com este tipo de música) não deve constar nada posterior aos anos 80. Talvez os Supertramp sejam o conjunto mais moderno.

Pus Genesis, porque gosto de os ouvir - música pop pode ser um bom acompanhamento quando se cozinha, por exemplo. Deixo-vos, por isso, com Genesis.

JdB




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