quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Poemas dos dias que correm

O Sentimento dum Ocidental


               I

           Avé-Maria

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

    O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

    Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

    E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

    Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

    Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

    Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!



               II

          Noite Fechada

    Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de <>!

    E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

    A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

    Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

    Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

    Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

    E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

    Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos, 
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

    Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

    E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

    E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.




               III

             Ao gás

    E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

    Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

    As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

    Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

    E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

    Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

    Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

    E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua trai^ne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

    Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

    Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

    <>
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!



               III

           Horas mortas

    O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

    Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

    E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

    Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

    Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

    Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

    Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

    E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

    Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

    E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

    E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

                                Cesário Verde

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Na Quarta passada, uma multidão acorreu ao Chiado para ouvir o testemunho poderoso e luminoso de uma mulher que viveu sob as bombas, na Síria. E escapou para contar a sua experiência e deixar alertas ao Ocidente rico, com um pedido: parem a guerra e repensem na vida oca e frívola que levam. 

Concretizou: se querem acabar com a fábrica de fazer refugiados, parem a guerra; suspendam a venda de armas e o apoio aos mercenários estrangeiros que estão a destruir a Síria. A Irmã Guadalupe explicou, com desassombro, que era puro logro mediático falar em «guerra civil» num conflito que fora planeado, com frieza e calculismo, num gabinete longínquo (pareceu referir-se ao Ocidente ou, pelo menos, também o envolver), para depois ser levado a cabo por milícias estrangeiras, falsamente apresentadas como «oposição moderada local». Disse mais: a esmagadora maioria dos sírios não quer derrubar o Governo, menos ainda ficar nas mãos dos meliantes que invadiram a Síria para retalhar um país próspero, moderado e atípico na turbulência do Médio Oriente.  

Nascida na Argentina, a Irmã Guadalupe entrou para a Ordem do Verbo Encarnado, que faz questão de ir para onde ninguém quer. Há uns cinco anos, tinha pedido licença de transferência para um país calmo da bacia do Mediterrâneo, enquanto recuperava de um problema de saúde. Sugeriu a Síria por ser um paraíso de tranquilidade e ordem, prosperidade e excelente coabitação entre muçulmanos e cristãos, como fora o Líbano há três décadas. Assim, foi colocada na capital dos negócios e das melhores universidades: Alepo. Ironicamente, poucos meses depois, as fronteiras sírias tornaram-se um passador de guerrilheiros sem escrúpulos e radicais, armados até aos dentes, pagos ou simplesmente doutrinados para pôr o país a ferro e fogo. 

Contou, em seguida, como aquele povo corajoso e cordato aguentou e continua a aguentar cinco anos de rajadas de metralhadoras, mísseis, petardos, falta de víveres, água reduzida a uma vez por semana, luz eléctrica duas horas por dia! Chegam a procurar folhas nas árvores para improvisar sopas. Conseguiram reaprender a viver. Diz a Irmã que aquela onda de violência reconduziu-os ao sentido da vida. Exemplificou com fotografias de magotes de gente nova de ar divertido e exuberante. Eram do centro universitário junto à catedral de Alepo, recentemente atingida por um míssil. Comentava: acreditem que estes sorrisos não são resultado do photoshop, apesar de provirem de um bairro cristão, que são os alvos preferidos destas milícias assanhadas. A guerra trouxe-lhes uma alegria tranquila e profunda, porque experimentam o valor espantoso de cada instante! Quando saem de casa, despedem-se sem saber se já só se revêem no céu. Mas a perspectiva do céu não lhes retira vitalidade. Antes aviva-lhes a vontade de seguir em frente. Por isso se casam, com o pequeno pormenor de a igreja já não ter tecto e as paredes estarem descarnadas… Claro que dispensam o aparato dispendioso que hoje se associa ao casamento, distorcendo o sentido daquele acto. Neste campo, deixou ainda o alerta contra o ambiente artificialmente facilitado e híper protegido em que os pais hoje educam, deixando os mais novos impreparados para o futuro. Sim, casam-se apaixonadíssimos e pouco tempo depois já estão separados. Mira, qué ha passado? Que te ha detto que la vida era fácil?  

Na Síria, ainda arranjam tempo e energia para levar os estudos até ao fim. Contou a história divertida e eloquente ocorrida minutos depois de tocar o aviso de retirada imediata da cidade, com a chegada iminente do terrífico Daesh. Cada um agarrou na bagagem de sobrevivência para se fazer à estrada. Nisto, uma Irmã vê uma estudante voltar atrás a apanhar os apontamentos, insólitos num kit de primeiras necessidades. Esclarece-a logo a universitária: se sobrevivermos, Irmã, tenho exame já na próxima Segunda e conto ir! Por isso não se estranha a fotografia de uma recém-licenciada em medicina, esfusiante a mostrar o diploma da licenciatura feita nos cinco anos de bombardeios.  

Há dias, em Madrid, espantara-se com a proibição de haver presépios em lugares públicos. Esa es vuestra libertad religiosa? Qué pasa con la democracia en el occidente? Desdobrou-se em exemplos sobre o perigo do politicamente correcto em que nos afogámos, já com a expressão religiosa acantonada na clandestinidade e a liberdade individual quartada em vários aspectos. A descrição da nossa sociedade aproximou-se demasiado da antevisão descrita por George Orwell em «1984». Aliás, o autor britânico clarificou numa entrevista que aquele retrato da ditadura de mentalidades não se inspirara especificamente na União Soviética, mas no seu país. Isto, já em 1949… 

Convidou-nos a assumir a fé com maior desassombro, a libertar-nos do frenesim tonto e basicamente materialista em que nos deixamos enredar, para recuperar o que é vital, o que conta realmente. Basta o essencial, na vida! Se morrermos nos próximos minutos, o que gostaríamos de ter feito ou dito? Reparem que nenhum rico, nenhum poderoso consegue acrescentar um segundo, sequer, à existência. Nisto, os sírios tornaram-se excelentes mestres de vida. Nas notas finais, lembrou o site da AIS (Ajuda à Igreja que Sofre), onde este noticiário diferente está ao nosso alcance: www.fundacao-ais.pt. Agora que nos aproximamos do Natal: como será viver aquela Noite Santa ao som de bombas e sob as labaredas das explosões? A Irmã explicou que estas milícias são mais encarniçadas nas festas cristãs: no 25 de Dezembro e na Páscoa. 

Nos antípodas destes guerrilheiros fundamentalistas, está a maioria dos muçulmanos sírios citados pela monja argentina, que lhe desabafaram estarem muito preocupados com o desaparecimento dos cristãos, pois são eles quem mais alimenta a cultura e as universidades sírias, além de serem os guardiães de valores únicos e fundamentais à sociedade– à cabeça, o perdão (sic)! 

Vem o perdão a propósito do costume sanguinário aplicado pelo Daesh e grupúsculos afins, de sinalizarem as casas a abater, conforme era prática nas épocas ancestrais narradas no Antigo Testamento. Na Síria, a letra «Nun» do alfabeto árabe, inicial de Nazareno, serve para estigmatizar os seus seguidores. Para os cristãos daquelas paragens de alto risco, o sinal da perseguição reforçou-lhes a identidade. Até adoptaram o costume das tatooagens, igualmente antigo naquelas latitudes, sendo a mais comum a da cruz gravada no pulso, não cuidando de passar despercebidos. Um argentino conterrâneo da Irmã Guadalupe, Maxi Larghi, compôs uma música alusiva ao «nun», falando de kalashnikovs e da carnificina a que estão sujeitos, embora no refrão contraponha com o perdão e com a vida, para lá da morte imediata, porque: veo el triunfo del amor (…) llevo un anuncio em mi voz que habla de ressurreccíon, y cuando muero, no muero, porque fui marcado con la letra “nun” en mi alma por Dios. 



Bondade mal aplicada? Perdão imerecido? Estranhas certezas? A multidão que transbordava na Igreja da Encarnação estava pendurada das palavras incríveis da Irmã. Testemunhava com uma autoridade indizível e invulgar (ler outra entrevista recente aqui). Muito oportunamente, foi em árabe que quis terminar, entoando um cântico lindo a Nossa Senhora (ao min. 44:14 na entrevista postada abaixo). Escolheu cantar na língua mais falada do Médio Oriente e de uma musicalidade maravilhosa, pedindo para imaginarmos estar antes a ouvir os seus irmãos sírios. Da voz cristalina daquela figura esguia e de ar frágil irradiou uma vitalidade imprevista para implorar à Mãe da Humanidade pela paz na Síria e noutros países igualmente subjugados pelos grilhões da guerra.
   


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Duas Últimas

Talvez nunca tenha postado ballet. Já postei tangos e milongas mas, de facto, ballet nunca. Talvez seja agora a altura de o fazer, uma vez que gostei muito deste vídeo (e o que reproduzo não tem grande qualidade) que vi um destes dias por puro acaso. 

O único comentário que constava no youtube diz que a coreografia faz o grupo parecer uma cartilagem de peixe. Curiosamente, quando o vi senti que era alguém (o elemento do meio) que agitava cordas para um lado e para o outro. Não voltei a ver o vídeo e, se o revisse, talvez achasse que era outra coisas qualquer, quem sabe uma cartilagem de peixe...

JdB

domingo, 27 de novembro de 2016

1º Domingo do Advento

EVANGELHO – Mt 24, 37-44

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Como aconteceu nos dias de Noé,
assim sucederá na vinda do Filho do homem.
Nos dias que precederam o dilúvio,
comiam e bebiam, casavam e davam em casamento,
até ao dia em que Noé entrou na arca;
e não deram por nada,
até que veio o dilúvio, que a todos levou.
Assim será também na vinda do Filho do homem.
Então, de dois que estiverem no campo,
um será tomado e outro deixado;
de duas mulheres que estiverem a moer com a mó,
uma será tomada e outra deixada.
Portanto, vigiai,
porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.
Compreendei isto:
se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão,
estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa.
Por isso, estai vós também preparados,
porque na hora em que menos pensais,
virá o Filho do homem.

***

Começa um novo ano litúrgico no qual, domingo após domingo, escutaremos o Evangelho segundo Mateus. O princípio e o fim de um ano litúrgico só podem colocar diante de nós o que está sempre no nosso futuro: a vinda do Filho do homem, o nosso encontro com Ele. O nosso Deus é o Senhor «que é e que vem», porque já veio na carne frágil e mortal de Jesus, o filho de Maria morto e ressuscitado, vem em cada hora na vida do discípulo para o atrair a si, virá na hora do êxodo de cada um de nós deste mundo, no fim dos tempos, para nos introduzir todos e definitivamente no seu Reino de paz e de vida plena. Jesus é «o que vem», e o seu dia, «o dia do Senhor», será a parusia, a manifestação última e definitiva.

No trecho evangélico do primeiro domingo do Advento (Mateus 24, 37-44) escutamos palavras de Jesus ditas não à multidão mas à parte, só aos discípulos, ao «pequeno rebanho», nas horas que antecedem o seu fim, através da prisão, condenação e morte. No monte das Oliveiras, a oriente de Jerusalém, onde se contempla a cidade santa e o templo no seu esplendor, Jesus adverte: quanto a esse dia e a essa hora, ninguém o conhece, é um termo fixado na história que só Deus conhece. Por causa desta ignorância da parte dos humanos, quando acontecer a parusia, a vinda do Filho do homem, reinarão a indiferença, a distração, o não saber. Jesus diz estas palavras com tristeza, mas sabe que para a humanidade é sempre como nos tempos de Noé, quando vem a grande inundação e apanha a humanidade impreparada.

No livro do Génesis (cf. 6,5-9,17) o dilúvio universal é apresentado como castigo de Deus sobre uma humanidade por Ele criada mas que se tornou má, violenta. Descodificando esse texto, podemos compreender que, então como hoje, por vezes parece prevalecer sobre tudo a violência, a imoralidade, a perda da dignidade humana e da fraternidade. Neste caso emerge com evidência que as escolhas dos homens e mulheres são mortíferas, que o comportamento humano desfigura a Terra de uma maneira devastadora, bem representada pelas águas do dilúvio ou pelo deserto que avança. E perante acontecimentos que nos fazem tomar consciência da nossa responsabilidade, manifesta-se como os humanos foram até ao último momento distraídos, incapazes de compreender o que estavam a preparar com o seu comportamento.

Jesus não diz que a geração na qual acontecerá «o dia do Senhor» será imoral ou particularmente perversa, mas apenas lhe denuncia a indiferença. São homens e mulheres que vivem: nascem, crescem, enamoram-se, casam-se, comem e bebem… Sim, vivem, e sobre este seu viver Jesus não pronuncia uma condenação, propondo-lhes um programa ascético. Denuncia apenas o «não conhecimento», o não estarem prontos, o serem indiferentes àquilo que deve ser procurado antes de tudo e é essencial a uma vida verdadeiramente humana, que responda à vontade e à vocação do Criador.

Portanto nenhum castigo da parte de Deus, mas simplesmente a manifestação da situação em que se encontra a humanidade diante da presença e da vinda do Filho do homem. Infelizmente nós oscilamos entre febre apocalíptica com predições catastróficas e indiferença para com este acontecimento que, tardando tanto, pensamos que não nos deve atormentar. Mas este acontecimento não pode ser por nós enviado para o fim da história, quase pensando que não nos diz respeito, porque na realidade no êxodo de cada um de nós, na passagem deste mundo para o além da morte, seremos colocados diante da presença do Filho do homem vindo na glória. Acontecerá, por conseguinte, que tudo se consumará quando aprendermos dos acontecimentos que a morte chega para uns antes que para outros, pelo que quem está connosco no trabalho pode ser tomado e nós deixados em vida, ou vice-versa. Não há a mesma hora para todos, não há a mesma ocasião para todos, mas para todos há um fim. Também isto deveria servir de ensinamento, quase profecia do juízo de Deus, quanto houver uma separação entre aqueles que entrarão no Reino, porque exercitados na comunhão com os outros, e aqueles que não poderão entrar, porque não quisera conhecer a comunhão com os outros, antes se alimentaram de amor egoísta de si. Como nas sete cartas às Igrejas do Apocalipse (cf. Ap 2-3), o Senhor vem e a sua vinda é juízo em cada instante.

É preciso, por isso, conhecer o plano de salvação de Deus, é preciso vigiar e manter-se pronto. Como um chefe de casa que sabe que o ladrão virá pela noite: o que fará? Vigiará, estará desperto e à espera, de modo a não deixar que a sua casa seja roubada. Eis, então, a atitude do discípulo: sabe que o Filho do homem vem, mesmo se não conhece a hora da sua vinda, e forte desta consciência vive na vigilância, na espera. Não se deixa ir, não se distrai, mas apesar de viver humanamente bem, continua a vigiar para abrir prontamente ao Senhor, quando chegar; chegará surpreendendo-nos, mas, precisamente porque esperado, será também acolhido prontamente e com grande alegria.

De qualquer modo, diante deste Evangelho – devemos confessá-lo – a comunidade cristã experimenta sentimentos de embaraço: hesita em ser convencida de que o Senhor vem na glória, não pensa que haja verdadeiramente um fim do tempo e deixou de ter no coração o desejo ardente de ver o Senhor. Como dizia Ignazio Silone, «os cristãos dizem que esperam o Senhor, e esperam-no como se espera o elétrico». E todavia bastaria estarmos mais atentos ao ler a vida que passa, a própria e a daqueles próximos de nós, para nos darmos conta de como em cada dia, se não estamos distraídos, somos inexoravelmente reconduzidos ao acontecimento que nos espera: o encontro com o Senhor. Somos reconduzidos a compreender que nós, ainda que vagabundos e mendigos na Terra por um punhado de anos - «setenta, oitenta se houver forças» (Salmo 90, 10) -, nesse dia só teremos necessidade da misericórdia do Senhor.


Enzo Bianchi 
Prior do Mosteiro de Bose, Itália 
In "Monastero di Bose"
Trad.: Rui Jorge Martins 

sábado, 26 de novembro de 2016

Pensamentos Impensados

Sondagens
Marcelo obteve 97% de votos numa sondagem sobre popularidade, ou seja. unanimidade de quase todos os portugueses. Semelhante percentagem só os ditadores africanos.

Sofismas
Será que posso considerar-me nudista atendendo a que por baixo da roupa estou nu?

Psis
Vi várias vezes os cães da Rainha Isabel II nos sofás: estarão a fazer psicanálise?

Assentimento
Se quem cala, consente, os surdo-mudos consentem tudo.

Futebois
Os "olheiros" são super...visores.

Cãs
Bill Clinton tem a cabeça encanecida: já Hillary tem a cabeça escarnecida.

Telenovelos
Brevemente na TV nova versão de D. Quixote sem corantes nem com Cervantes.

Falsificações
O caviar já é tirado de peixes criados em "aviário": deveria chamar-se caviário.

Asseios 
Acho uma chatice enxugar-me depois de tomar banho. Vou passar a tomar duche de gabardine.

SdB (I)

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Das descobertas

Contam-me um sketch humorístico brasileiro: estamos em 1500 e Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil. Escondidos por trás da vegetação, dois índios (provavelmente da tribo aymoré) dizem um para o outro: fomos descobertos! 

Obviamente que não somos descobertos, não só se não estivermos a fugir de ninguém e, menos ainda, se desconhecermos que há mundo lá fora. Os índios, como é óbvio, não saberiam do mundo exterior. E no entanto, todos as tribos de índios ou de aborígenes do mundo inteiro - do pantanal brasileiro à Nova Guiné - poderiam dizer isso com propriedade de horror se seguissem a ideia de Lévi-Strauss que, sendo antropólogo, tinha uma ideia fraquíssima e muito crítica da antropologia a ponto de dizer: "todo o esforço para compreender destrói o objecto pelo qual nos tínhamos interessado, em proveito de um objecto de natureza diversa."

Lévi-Strauss destruiu os Bororo quando os descobriu. Fez o mesmo aos Nambiquara e a outras tribos do interior brasileiro. Quando os descobriu e, na sua convivência com eles, redigiu registos de campo com os hábitos dos homens, dos chefes, das mulheres e das crianças de cada tribo, começou a destruí-los, porque lhes perturbou um sossego milenar e lhes revelou uma civilização indesejada. E talvez tenha sentido este paradoxo que é um antropólogo na sua terra querer mudar tudo em nome do conforto, dos direitos dos homens, das minorias, das mulheres ao seu corpo e, no interior brasileiro onde conviveu com os Tupi-Cavaíbas, não querer que mude nada. 

O que queremos mudar nós nas tribos que descobrimos? O que é legítimo mudar e em nome de que moral? Temos o direito de querer impedir a poligamia numa tribo africana? Ou dizer como se devem vestir as mulheres no médio oriente? Ou regular as relações de poder ou as regras de vizinhança numa comunidade escondida da Nova Guiné? Ou impedir os chineses de comer cão? Ou querer catequizar os incréus? O que é razoável? Quais são os valores morais ou éticos absolutos que nós, europeus / ocidentais, nos achamos com direito de impor ao mundo? E o que ganharam os cadiueus quando viram aproximar-se Lévi-Strauss de bloco de notas e máquina fotográfica?

Fomos descobertos! Há um certo horror genuíno na frase. Não sei bem é onde...

JdB       

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Reportagem (que pode impressionar) dos dias que correm *

Foi registado o momento emocional quando os médicos fazem o parto a uma mulher síria, ferida num ataque aéreo na cidade cercada de Aleppo.

A mulher identificada apenas como Mayissa, estava gravemente ferida enquanto se deslocava para o hospital para dar à luz.

"O som mais elementar de todos,  por um breve momento, mais poderoso, do que o grito de morte quotidiano de Aleppo." 
Estas imagens foram recolhidas em Julho e difundidas em Agosto. 
A reportagem faz parte de uma série que documenta o sofrimento dos civis em Aleppo que vivem sob bombardeamentos permanentes. 
O repórter acrescenta: "A guerra quase acabou com a sua vida antes de ter uma hipótese de começar. Mas a guerra continuará a ser sua companheira e irá transformar o mundo em que ele entrou.  



* retirado daqui

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Poemas dos dias que correm

O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

***

Contemplação

Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre idéias e espíritos pairando...

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...

E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido

Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só presentido...

Antero de Quental, in "Sonetos"

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Duas Últimas



Na semana passada estive quatro dias em Roma, com a minha mulher e pessoas amigas, algumas talvez só conhecidas.

Deparou-se-nos uma agenda carregada, que passou pela presença na Praça de S. Pedro na audiência Papal das quartas-feiras, em lugares sentados de privilégio, pela visita guiada ao túmulo que muito presumivelmente contém os restos mortais de São Pedro, por um agradável jantar na embaixada de Portugal junto da Santa Sé, pelas termas de Caracala ou pelas inúmeras igrejas e palácios por mim visitados tendo por critério principal a pintura de Caravaggio.

Sou incondicional adepto da obra deste pintor milanês, mas que fez vida por outras paragens, da força, luminosidade e religiosidade dos seus quadros. “Persegui-o” por toda a Roma com afinco e dores nas articulações, mas lá consegui ver mais ou menos o que tinha em mente. Em cima têm um deles, que vi numa sala do sumptuoso palácio Borghese. Ao seu lado mais três ou quatro pérolas do grande mestre. Salinha bendita!

Depois Roma tem todo o resto. Aquelas ruas, aquelas montras, aquelas massas, aquelas….

Deixo-vos com um fado de Maria Ana Bobone, que muito abrilhantou o serão na embaixada.

Espero que apreciem.


fq


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Das associações de palavras aparentemente distintas

Reiki, Programação Neurolinguística, mestrados, viagens, livros, meditação, consultas de psiquiatria, estudo dos pintores. 

Aparentemente, ou numa leitura imediatista e desprovida de enigma, limitei-me a elencar um conjunto de palavras. Relativamente a estas haverá pessoas conhecedoras dos meandros da mente (em geral ou da minha) que conseguirão encontrar conexões: os mestrados com os livros, as viagens com o estudo dos pintores, esta com aquela e com aqueloutra. Contudo, não há mistério.  A este conjunto de palavras poderia adicionar-se um conjunto semelhante que concorresse para o mesmo fim - sabermos mais.

Para que adquirimos conhecimento? Para espantarmos os outros, por curiosidade mais ou menos insaciável, por entretenimento, por desejo genuíno de saber ou de exercitar a mente, por ironia de querermos saber muito sobre um assunto que pouco interessa à riqueza das nações. Ou então, por uma ingenuidade subjacente a uma convicção: sabermos mais é sermos mais. E sermos mais é sermos melhores.

A nossa melhoria assenta em vários factores, sendo que todos se traduzem em actos. De facto, não podemos dizer que somos melhores se não o comprovarmos por actos e palavras. Porém, e retomo o argumento, um dos factores em que assenta a nossa melhoria é a decifração do próximo. A tolerância e a compreensão (no sentido do entendimento) estão, por isso, intimamente ligadas. Por vezes, o que nos falta é percebermos o outro ou, tantas vezes, percebermo-nos a nós próprios. Assim, tenho esta visão ingénua de que, no limite dos limites, perceber Plutarco a ensinar os jovens a ler poesia, fazer um curso de PNL ou discernir uma parábola da Bíblia podem ter o mesmo efeito: estabelecer relações, ver mais além, expandir o entendimento sobre as coisas e, com isso, percebermos melhor o que somos e o que são os outros. Depois falta tudo o resto...

A aquisição de conhecimentos tem de ser encarada como a utilização do talento no sentido bíblico do termo: recebemos para por ao serviço - uns, do Reino de Deus; os outros, da sã convivialidade consigo próprios e depois com quem vive em redor. O conhecimento sem consequência a não ser uma espécie de engorda em circuito fechado é pouco credível.

(Já no fim deste deambulação domingueira de Outono lembrei-me de uma comparação aeronáutica: na remota eventualidade de uma perda de pressão súbita na cabina, sobre todos os passageiros cairão máscaras de oxigénio. É-lhes pedido que, mesmo tendo crianças a seu cargo, as coloquem primeiro, e só depois as coloquem às crianças. Significa isto o quê? Que as perguntas que fazemos aos outros para indagarmos das suas fragilidades, obsessões, alegrias, inseguranças, fraquezas e fortalezas, as devemos fazer primeiro a nós. Só depois de as respondermos interiormente as poderemos formular ao próximo. Só com uma máscara de oxigénio colocada na face podemos colocar uma máscara de oxigénio da face de uma criança, isto é, de alguém mais frágil do que nós.)

JdB

domingo, 20 de novembro de 2016

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

EVANGELHO – Lc 23,35-43
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo:
«Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo,
se é o Messias de Deus, o Eleito».
Também os soldados troçavam d’Ele;
aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:
«Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo».
Por cima d’Ele havia um letreiro:
«Este é o Rei dos judeus».
Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados
insultava-O, dizendo:
«Não és Tu o Messias?
Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».
Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:
«Não temes a Deus,
tu que sofres o mesmo suplício?
Quanto a nós, fez-se justiça,
pois recebemos o castigo das nossas más acções.
Mas Ele nada praticou de condenável».
E acrescentou:
«Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza».
Jesus respondeu-lhe:
«Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

sábado, 19 de novembro de 2016

Pensamentos Impensados

O gesto é tudo
Rafael Bordalo Pinheiro foi o introdutor, em Portugal, da linguagem gestual.

Celogã
Eusébio há só um, o Ronaldo e mais nenhum.

Andço
Os elefantes são os culpados da propagação das tromboflebites.

Solteirão
Quando vivia sozinho, Adão entretinha-se a jogar "solitaire" e a ensaiar danças tradicionais.

Mãos para que vos quero
Venus de Milo, mesmo com os seus dotes físicos, não podia manipular nenhum homem.

Sonos
A partir de 22 de Setembro o dia vai para a cama cada vez mais cedo.

Músicas
Cinco obesos juntaram-se e formaram uma orquestra ligeira.

Calores
As temperaturas elevadas que se fazem sentir devem-se ao facto de a Terra estar velha; 
são calores da menopausa.

SdB (I)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Das bizarrias - ou das aparentes desconformidades

Há algumas semanas almocei no campo em casa de uma amiga que tem três filhas, uma delas na casa dos vinte e muito poucos anos. A jovem sentou-se na mesa onde eu estava com uma amiga que, por acaso, era filha de amigos de longa data, e conversámos sobre petits riens, sendo que o tema namorados veio à baila. Ela falou despreocupadamente de alguém com quem subiu à catedral de Sevilha e por quem sentiu uma química especial. Não foi a beleza física, uns olhos verdes ou umas mãos fortes, um cabelo desgrenhado ou uma suspeita de fundo alternativo. Não foi nada que nos parecesse normal numa rapariga daquela idade. O que foi, então? Salazar - isso mesmo, António de Oliveira Salazar na boca de dois jovens que nem sequer são contemporâneos do rústico de Santa Comba, como diria um parente nosso. O que os ligou de imediato? A ideia, expressa pelo político e verbalizada pelo rapaz, que Portugal ia de Minho a Timor.  E a rapariga tremente, enlevada com tanto sincronismo, repetiu um pensamento que condicionou todo um país e toda uma época (e cito de cor): devo à Providência a graça de ser pobre

***

Circulo displicentemente pelo átrio da Faculdade de Letras onde há uma banca com artigos expostos. Espreito para posters, camisolas, talvez pins. Sou abordado por um cavalheiro simpático que me quer falar sobre um evento, a realizar em Junho na faculdade, sobre ficção científica. Pretendem explicar o que é, que há uma ideia - errada - de que está sempre relacionado com estrelas, e que querem ligar o tema da ficção científica ao ensino universitário. Oiço vagamente desinteressado, que o tema me diz pouco. As camisolas são quase todas pretas, os posters idem idem aspas aspas, os desenhos são futuristas. O senhor continua a explicação, dá-me uma cartão com o site que abre com o lema: unidos pela ficção científica.  Nada disto seria bizarro se o dito cavalheiro não terminasse a conversa apontando-me para uma ponta da mesa onde jaziam objectos ligados ao tema. Entre os vários artigos, alguns feitos em crochet cor-de-rosa...

JdB

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Textos dos dias que correm

Quando Jesus liberta a mulher

Jesus foi para o monte das Oliveiras. Mas de manhã dirigiu-se de novo ao templo, e todo o povo ia até Ele; sentando-se, ensinava-os. Ora, os escribas e os fariseus levaram até Ele uma mulher surpreendida em adultério e, colocando-a no meio, dizem-lhe: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Ora, Moisés, na Lei, mandou-nos lapidar mulheres como esta. E Tu, que nos dizes?». Diziam isto para o colocar à prova, para terem com que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. Mas porque continuavam a interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós está sem pecado, seja o primeiro a lançar a pedra contra ela». E inclinando-se de novo, escrevia na terra. Mas eles, ouvido isto, saíram um por um, começando pelos mais velhos. Deixaram-no só, e a mulher estava lá no meio. Ora, Jesus, erguendo-se, disse-lhe: «Mulher, onde estão? Ninguém te condenou?». Disse ela: «Nenhum, Senhor». E Jesus disse: «Nem Eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais».

Este trecho conheceu uma sorte particularíssima, que atesta o seu carácter escandaloso e embaraçante: com efeito, foi censurado pela Igreja! Está ausente nos manuscritos mais antigos, é ignorado pelos padres latinos até ao século IV, durante cinco séculos não foi proclamado na liturgia e não há comentários sobre ele da parte dos padres gregos do primeiro milénio. No termo de um longo e trabalhado migrar entre os manuscritos foi inserido no Evangelho segundo João, depois do sétimo capítulo e antes do versículo 15 do oitavo. Não é uma cena insólita: muitas vezes os Evangelhos anotam que os adversários de Jesus tentam colocá-lo em contradição com a Lei de Deus, para o poder acusar de blasfémia, de desobediência ao Deus vivo.

A estes escribas e fariseus, na realidade, nada importava a mulher, para eles o importante era encontrar motivos de condenação contra Jesus: não queriam lapidar a adúltera, mas fazer lapidar Jesus! Estes homens religiosos irrompem no auditório de Jesus, levam até Ele uma mulher surpreendida em flagrante adultério, colocam-na no meio de todos e apressam-se a declarar: «Moisés, na Lei, mandou-nos lapidar mulheres como esta». Tal declaração parece formalmente inatacável, porque cita a Lei; a um olhar atento, porém, apercebe-se que o seu recurso à Torá é parcial. A Lei, com efeito, previa a pena de morte para ambos os adúlteros e atestava a mesma pena mediante lapidação, enquanto que se fossem já casados se recorria ao estrangulamento. É, todavia, altamente significativo que só ela tenha sido capturada e levada diante de Jesus, enquanto o homem que cometeu adultério com ela, e segundo a Lei culpado como ela, não é nem imputado nem conduzido a juízo!

Procuremos permanecer por um momento junto desta cena. Alguns levaram a Jesus uma mulher, para que seja condenada. Mas Jesus começa a responder aos acusadores falando com o corpo, não com palavras: inclina-se, abaixando-se, rompe o círculo da «violência mimética» (René Girard), rompe o face a face com aqueles fariseus e mete-se a escrever na terra, em absoluto silêncio. Da posição de quem está sentado para à de quem se inclina para a terra; mais, deste modo inclina-se diante da mulher que está de pé em frente de si!

Dado, no entanto, que os acusadores insistem em interrogá-lo, após aquele longo e para eles aborrecido silêncio preenchido apenas pelo seu mimo profético, Jesus ergue-se e não responde diretamente à questão que lhe foi posta, mas faz uma afirmação que contém em si também uma pergunta: «Quem de vós está sem pecado, lance em primeiro lugar a pedra contra ela». Depois inclina-se de novo e volta a escrever na terra. Assim uma palavra de Jesus, uma palavra só mas incisiva (ao ponto de se ter tornado proverbial) e autêntica, uma daquelas perguntas que nos sacodem e nos fazem ler a nós próprios em profundidade, impede aqueles homens de cometer violência em nome da Lei. Só Deus, e portanto só Jesus, poderia condenar aquela mulher.

Aqui Jesus - permita-se-me dizer - "evangeliza" Deus, isto é, torna Deus Evangelho, boa notícia para aquela mulher. Jesus, o único homem que narrou Deus em plenitude, que dele foi o exegeta vivente, afirma que perante o pecador, a pecadora, Deus tem um só sentimento: não a condenação, não o castigo, mas o desejo que se converta e viva. Jesus, enviado por Deus «não para condenar o mundo, mas para salvar o mundo», também aqui age como tinha anunciado no início do seu ministério: «Não vim chamar os justos, mas os pecadores».

Só quando todos se foram embora é que Ele se põe de pé e fica diante da mulher. Ela, posta ali em pé, no meio de todos. Agora é finalmente restituída à sua identidade de mulher e vê Jesus de pé diante de si: assim é possível o encontro verdadeiro. Por fim, Jesus conclui este encontro com uma afirmação extraordinária: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não peques mais». São palavras absolutamente gratuitas e unilaterais. Eis a gratuidade daquela absolvição: Jesus não condena, porque Deus não condena, mas com este seu ato de misericórdia antecipado oferece àquela mulher a possibilidade de mudar. Não sabemos se esta mulher perdoada mudou de vida após o encontro com Jesus; sabemos só que, para que mudasse de vida e tornasse a viver, Deus, que não quer a morte do pecador, a perdoou através de Deus e enviou-a para a liberdade.

As pessoas religiosas desejariam que neste ponto Jesus tivesse dito à mulher: «Examinaste-te? Sabes o que fizeste? Não compreendes a gravidade? Arrependeste-te da tua culpa? Detesta-la? Prometes que não voltas a fazê-lo? Estás disposta a sofrer a justa pena?». Estas omissões nas palavras de Jesus escandalizam ainda agora, hoje como ontem! Nenhuma condenação, só misericórdia: aqui está a grandeza e a unicidade de Jesus. Este encontro entre Jesus e a mulher surpreendida em adultério não nos revela só a misericórdia de Jesus, mas também a sua capacidade de defender a mulher de um cerco de homens, sempre prontos a justificarem-se a si próprios e a condenar as mulheres. Infelizmente, toda a história dos crentes, da antiga como da nova Aliança, testemunhará este olho espião, exigente e condenador dos homens religiosos em relação às mulheres, vistas como culpadas pela sua condição - dizem os homens - de criaturas sempre tentadoras e fáceis para a tentação.

Este exemplo de Jesus será pouco compreendido e ainda menos vivido, mas no entanto será memorizado no Evangelho e haverá sempre leitores que nele encontrarão uma boa notícia.


Enzo Bianchi
Prior do Mosteiro de Bose, Itália
In "Gesù e le donne" (Einaudi) / Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 15.11.2016

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Por causa de um poema enviado por mão amiga

Oferecimento

Se necessitas de virgens, Senhor,
se necessitas de valentes sob o teu estandarte
aí estão Clara, Teresa, Domingos, Francisco, Inácio…,
aí estão Lourenço, Cecília…

Mas se, por acaso, alguma vez precisares de um preguiçoso
e de um medíocre, de um ou outro ignorante, de um orgulhoso,
de um cobarde, de um ingrato e de um impuro,
de um homem cujo coração esteve fechado e cujo rosto foi duro…,
aqui estou eu.

Quando te faltarem os outros, a mim sempre me terás.

(Charles Péguy)

***

Talvez nada irrite tanto uma espécie de incréus do que esta aparente humildade dos crentes ou, para usar uma expressão felizmente fora de moda, os tementes a Deus. Esta humildade surge-lhes como falsa, hipócrita, ridícula porque, no fundo no fundo, vão todos à missa mas são todos pecadores... 

Ora, esta humildade não é um exercício vão, mas a definição muito exacta do que na realidade somos: medíocres porque nos falta a ambição de voar mais alto; orgulhosos porque não cedemos em nome de vitórias sem interesse, cobardes porque nos amedrontamos perante o desafio da santidade.

A consciência do (pouco) que somos é a oportunidade para recebermos. Se já somos muito, o que nos falta ter ainda? Sabermo-nos pouco é tornarmo-nos pequenos, não é diminuirmo-nos. E como essa pequenez aspirarmos a tudo, ao mundo inteiro.

Falarmos com Deus e afirmarmo-nos tudo aquilo que Péguy se afirmou é o mesmo que falarmos com o próximo e afirmarmo-nos pouco. O nosso próximo é o Deus terreno, do quotidiano, a quem falhamos constantemente.  

JdB  

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Aos 82, Leonard Cohen(1) deixou um legado maravilhoso de poesia vivida e cantada, experiências de vida entre banhos de multidão e anos de reclusão. Ora numa ilha grega, ora num mosteiro budista na Califórnia (durante cinco anos), ora pelos palcos do mundo para cantar com os fãs, de preferência ao luar. Nos concertos era generoso, com actuações de duas a três horas, de fazer inveja aos mais novos e robustos. Ele, ao contrário, mantinha-se franzino e sóbrio, de ar ascético. Entrava em palco de chapéu, fato e gravata, como se fosse para um jantar à luz das velas. Educadíssimo, tratava o público como convidados de casa em dia de festa. Por isso eram tão indefiníveis os seus concertos, conseguindo um tom intimista, cerimonioso e, simultaneamente, caloroso e sincero, como um senhor. De olhar directo e límpido, irradiava uma ternura contagiante.

Percebe-se que a poesia veio antes da música, pois já andava pelos 30 quando decidiu dedicar-se à segunda. Nascido em 1956, em Montreal, herdou da família judia, de origem polaca, uma fé viva, incansavelmente dialogante e ávida de mais horizonte. A sua arte – literária e musical – alcançou uma dimensão transcendente, a rondar a eternidade, a transbordar de uma espiritualidade estilizada, que procura o Belo. Bem que teria honrado o Nobel poder incluí-lo no friso dos premiados. Chamaram-lhe: the monk, o último dos românticos, o eterno insatisfeito, o visionário, o poeta do rock n' rol, mas tudo ficou aquém de Cohen, que se limitou a ser ele próprio – curiosamente, replicando a singularidade de outros artistas de raízes judaicas.

Nas letras, o primeiro mestre foi García Lorca. Depois, deixou que fosse a própria vida, com muitos encontros e desencontros. Quem teve a sorte de se cruzar com Leonard recorda histórias divertidas de um homem simples, inteligente, profundo, cheio de humor, lúcido e sem tiques de vedeta. Daquela humildade pura, que volta a resultar revolucionária de tão rara em que se tornou. Numa das estadias em Portugal, recusou a suite que lhe tinham reservado, mudando-se para um quarto igual ao dos outros. Noutra, a minutos de começar o concerto, no pavilhão de Cascais, descobriram-no a fazer o pino num ginásio contíguo. Anedótico: de pernas para o ar, já de fato e gravata e com bastante idade, enquanto o recheio dos bolsos se espalhava pelo chão com algum estardalhaço. Rindo-se da situação, pôs-se calmamente de pé. Nele, mesmo as acrobacias inesperadas saíam-lhe com naturalidade.

Seguem três músicas talvez menos badaladas, que explicam bem a mística de Cohen. A primeira, «In my secret life». A segunda, um dueto muito conseguido com Sharon Robinson. A terceira, uma homenagem à mítica cantora de blues e souls – Janis Joplin – dois anos depois de esta ter morrido de overdose, com apenas 27 anos, num vídeo com imagens aos recantos aconchegantes do Hotel Chelsea de Nova Iorque, que foi residência de inúmeros artistas, incluindo do próprio Cohen, de Edith Piaf, Dylan, Joplin, Frida Khalo e Diego Rivera, Cartier-Bresson, Andy Wharhol. Também ali foi escrito «2001: Odisseia no espaço», por Arthur C. Clarke.








Muitos artigos interessantes inundaram os jornais e os blogs, desde que a sua morte foi anunciada, a 7 de Novembro. Alguns dos testemunhos(2), que ajudam a descobrir a personalidade riquíssima de Leonard C., são da autoria de João Miguel Tavares e de Miguel Esteves Cardoso, seguindo um mini-aperitivo de um e de outro:

«Chorei como se tivesse morrido alguém da minha família, porque Leonard Cohen é da minha família. Demasiado importante, demasiado próximo, demasiado meu. É esse o dom dos génios: estabelecem relações íntimas com milhões de pessoas. (…) em mais ninguém encontrei tamanha capacidade de iluminar o interior das coisas e das pessoas, traduzindo por palavras o que não sabíamos sentir. Não há outro a quem possa dizer: “Dá-me só mais um verso, Leonard, e eu serei salvo.” Chamar-lhe músico ou poeta é ficar aquém. Era um profeta que nos falava das únicas duas coisas que realmente importam na vida: Deus e o amor. (…)
A razão porque nos sentimos sempre demasiado novos ao lado de Leonard Cohen é porque ele pareceu sempre demasiado velho. Já esteve lá, já leu, já viu, já viveu, já bebeu, já fumou, já sofreu, já meditou – sempre vários anos à nossa frente. Mas não em distância. Em profundidade. (…) Em Going Home, fala das aspirações de um certo “Leonard”, e diz: “He wants to write a love song/ An anthem of forgiving/ A manual for living with defeat.” Cohen não nos ensina o caminho – ele consola-nos o caminhar
João Miguel Tavares, transcrito de:

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«Passámos um fim-de-semana juntos em que me fizeste esquecer que eras o meu herói. Quando acabou fiquei com dois heróis: com o Leonard Cohen das canções e com o Leonard Cohen em carne e osso. Embebedámo-nos com Bloody Marys e, a certa altura, tu reparaste que eu tinha a mania de desdizer o que tinha acabado de dizer. Eu disse-te que era um tique português. Primeiro afirma-se um disparate ou uma verdade. Depois continua-se “E, no entanto…”  “And yet!”, gritaste, “the two greatest words in any language!” (…)

Agora morreste e obrigas-me a escrever estas palavras lavadas em lágrimas. AND YET… E, no entanto, tiveste uma vida feliz. Fizeste o que querias. Amaste e foste amado. Trabalhaste nas canções mais bonitas e elevadas do nosso tempo. Já há mais de 60 anos que andaste a falar com Deus, a preparar o teu caminho. Foste um pecador de primeira AND YET… E, no entanto, algo me diz que vais ser muito bem recebido no reino dos céus, se for para aí que combinaste ir. (…)

Toda a vida dançaste com Deus e com a morte (…) Hoje de manhã, quando ouvi You Want It Darker, como faço todas as manhãs desde que saiu o álbum, pensei que ia chorar, por ser a primeira vez que o ouvi sabendo que estavas morto. Mas não chorei. As canções fizeram o que sempre fizeram: encheram-me de força, abriram-me ao medo e à beleza de estar vivo. Adeus, Leonard Cohen, dizemos nós como se não soubéssemos que já lá estás

Miguel Esteves Cardoso, transcrito de:

A Partida definitiva não intimidava Cohen, que pareceu encarar a existência segundo um dito de Saramago: «Fugir da morte pode tornar-se num modo de fugir da vida.» Muito recentemente, no lançamento do último álbum, proclamou alto e bom som: «I’m ready, my Lord». Assim deu forma de oração ao que desabafara ao longo dos anos, em momentos alegres, outros tristes (muitos), quase todos nostálgicos, embora festivos como um gentleman. Uma das composições mais cristalinas na mensagem, datada de 1984, é o conhecido Hallelujah, aqui antecedido pela letra:

«Hallelujah

Now I’ve heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don’t really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah


Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you to a kitchen chair
She broke your throne, and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

You say I took the name in vain
I don’t even know the name
But if I did, well really, what’s it to you?
There’s a blaze of light
In every word
It doesn’t matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah

Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah

I did my best, it wasn’t much
I couldn’t feel, so I tried to touch
I’ve told the truth, I didn’t come to fool you
And even though it all went wrong
I’ll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah

Hallelujah, hallelujah, …»

Um caminhante no tempo, Cohen soube dar voz e preencher de música os pensamentos mais bonitos. Vivera em pleno, pelo que estava preparado para partir! Inclusive, antevira o Momentum, há mais de 30 anos, fixando-o no verso final de Hallelujah. Só nós fomos logo acometidos de um ataque de saudades. Ainda bem que a sua voz rouca e quente sobrevive em 14 álbuns.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
 (1)  O site oficial do artista canadiano: https://www.leonardcohen.com/ .

(2)   Mais letras e vídeos estão compactados num artigo do Observador: http://observador.pt/2016/11/11/10-poemas-10-cancoes-palavra-de-cohen/ .

(3)   Site oficial do Chelsea: http://www.hotelchelsea.com/ .


Escadaria interior do hotel

O saguão – foyer

domingo, 13 de novembro de 2016

XXIII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 21,5-19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
comentavam alguns que o templo estava ornado
com belas pedras e piedosas ofertas.
Jesus disse-lhes:
«Dias virão em que, de tudo o que estais a ver,
não ficará pedra sobre pedra:
tudo será destruído».
Eles perguntaram-lhe:
«Mestre, quando sucederá isso?
Que sinal haverá de que está para acontecer?»
Jesus respondeu:
«Tende cuidado; não vos deixeis enganar,
pois muitos virão em meu nome
e dirão: “sou eu”; e ainda: “O tempo está próximo”.
Não os sigais.
Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas,
não vos alarmeis:
é preciso que estas coisas aconteçam primeiro,
mas não será logo o fim».
Disse-lhes ainda:
«Há-de erguer-se povo e reino contra reino.
Haverá grandes terramotos
e, em diversos lugares, fomes e epidemias.
Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu.
Mas antes de tudo isto,
deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos,
entregando-vos às sinagogas e às prisões,
conduzindo-vos à presença de reis e governadores,
por causa do meu nome.
Assim tereis ocasião de dar testemunho.
Tende presente em vossos corações
que não deveis preparar a vossa defesa.
Eu vos darei língua e sabedoria
a que nenhum dos vossos adversários
poderá resistir ou contradizer.
Sereis entregues até pelos vossos pais,
irmãos, parentes e amigos.
Causarão a morte a alguns de vós
e todos vos odiarão por causa do meu nome;
mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.
Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas.

sábado, 12 de novembro de 2016

Pensamentos Impensados

Politiquices
Haveria dia a dia na grande noite fascista?

Promoções
Jorge VI viu-se Rei da Índia.

Contactos
Trump não gosta de apertar a mão e eu também não. No entanto, já apertamos a mão um ao outro.
Almas gémeas? Mais a alma geme.

Dimensões
Tinham a mesma altura, embora um fosse o anão mais alto do Mundo e o outro o gigante mais baixo do Mundo.

Leituras
Constitucionalista - Pessoa que teve a pachorra de ler mais do que uma vez a Constituição.

Procuras
Entre as sondagens americanas e as sondagens para encontrar petróleo em Portugal, venha o Diabo e escolha...

Doçarias
Na embaixada que D. Manuel I enviou ao Papa ia um rinoceronte empalhado.
O Papa só disse: prefiro palha de Abrantes.

Linguagem jornalística 
Por não ter havido testemunhas, Deus é o presumível criador de Adão.

SdB (I)

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