domingo, 31 de maio de 2015

Domingo da Solenidade da Santíssima Trindade

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 28, 16-20)

Naquele tempo, os Onze discípulos partiram para a Galileia, em direcção ao monte que Jesus lhes indicara. Quando O viram, adoraram-n’O; mas alguns ainda duvidaram. Jesus aproximou-Se e disse-lhes: «Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

A vida trinitária

A vida trinitária é a vida dos cristãos. “Ide”, diz Jesus, “e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei”, porque esta comunhão de vida com Deus é exatamente isso: é uma comunhão de vida. Pressupõe uma prática, uma maneira de viver, e viver com os outros significa viver no Espírito de Jesus Cristo, isto é, à maneira de Jesus de Cristo. Quem está batizado em Jesu Cristo e vive do Espírito de Jesus Cristo, na comunhão com o Pai e com os outros, vive à maneira de Jesus Cristo.
Amor significa, precisamente, comunicação de vida, a comunicação de vida que há entre Jesus e o Pai, pelo Espírito Santo: é a mesma vida n’ Eles três e, por isso, é um único Deus em três Pessoas. Deus é uma comunhão de vida, porque é Amor. Ora, é nesta vida que somos batizados.

D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 144-145.

sábado, 30 de maio de 2015

Pensamentos impensados

Antes valium
Hitler foi uma mais valia, ou seja, mais valia não ter nascido.

Tabagismo
Os animais do Jardim Zoológico não podem fumar: estão em recinto fechado.

Futebóis
Hora bolas: programas da TV, Domingo à noite.

Espelho meu
Há muitos anos, o espelho mostrava que o meu cabelo era preto. Agora, diz-me que está branco.
Os espelhos antigos eram mais simpáticos.

Do outro mundo
Não acredito em extra-terrestres, à excepção de Jesus Cristo ressuscitado e Nossa Senhora de Fátima.

Festejos
Benfica festejou bicampeonato; Futebol Clube do Porto festejou com bicarbonato.

Novas tecnologias
Notícias falam em ex-mulher. Será mudança de sexo?

Literaturas
Quem gosta de sossego, não deve ler Fernando Pessoa.

Banco Alimentar
Dalai Lima escreveu: BANCO ALIMENTAR, A MELHOR REMUNERAÇÃO PARA OS SEUS DEPÓSITOS

Banco faz recolhas esta semana.

SdB (I)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Do nexo causal entre fotografias

Furnas, S. Miguel (Maio 2015)

Furnas, S. Miguel (Maio 2015)

Alguns minutos separam a a primeira e a segunda fotografias. O raciocínio aplica-se ao número de centenas de metros. Alguns poucos também. Não haverá, seguramente, um nexo causal. A primeira foi tirada num espaço público, a segunda num espaço privado. No primeiro espaço o odor era a enxofre, no segundo o odor era inexistente. E no entanto, algo parece irmanar as fotografias, como se fossem um nexo causal, ou como se fossem uma espécie de irmãs gémeas saídas do mesmo útero. A água que borbulha sulfurosa na primeira, fruto de uma qualquer desinteria no interior da terra. A criatividade do azulejo, na sua perfeição de manufactura. O enxofre e o azulejo, o odor e a legenda. O post de hoje está impróprio para consumo - a água não sei.

JdB 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

se não agora, quando?

Fábrica de chá Gorreana, S. Miguel (Maio de 2015)


à mais recorrente das perguntas
respondes com a mais corrente
das respostas,
- quando?
quando souberes o que fazer
com essa espada,
quando souberes o que fazer
dessa flor.
quando souberes.
até lá,
que diferença faz
um qualquer ponto no tempo,
quando sabes bem
não é a pergunta
que importa,

antes e só,

a tua resposta?

gi.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Das coincidências dos dias que correm

Sou amigo do LM desde 1989. Conhecemo-nos profissionalmente, e foi graças a este conhecimento que eu hoje faço traduções de patentes. Precisava de um trabalhinho para compor o ordenado e ele prontificou-se a falar ao pai, tradutor consagrado na área da química. Fui fazendo, fazendo, e é disso que praticamente vivo, hoje em dia. Fomos convivendo mais ou menos, consoante as vidas de cada um. Quando saí da empresa onde trabalhei 20 anos - e onde fomos colegas - , praticamente deixámos de nos ver. Combinámos um ou outro encontro que nunca se realizou por apatia de ambas as partes. Uma série de desencontros quase matou a hipótese de nos revermos. 

Estive até às vésperas de vir para os Açores cheio de trabalho e outros afazeres. Mas entendi investir um minuto noutra tentativa com o LM. Outro sms... Respondeu-me e, ao saber que vinha para S. Miguel disse-me: se for o teu destino aconselho-te um local imperdível para sentires o céu na terra: Lagoa do Congro. Não tinha qualquer memória de a ter visitado aquando da minha primeira visita, até porque não consegui visitar todas as lagoas.

Ontem ficou-nos no caminho e decidimos ir lá. De facto, é um pouco do céu na terra. Desce-se durante 15 minutos a pé, por uma estrada de pedra, ramos, lama e terra. Depois... Depois é uma lagoa grande, verde, verde, verde, sem ninguém, rodeada de escarpas e de árvores, de silêncio e de paz, de frescura e de sossego. Em condições normais não viria à Lagoa do Congro, como não iria a outros sítios igualmente bonitos de S. Miguel, porque não se consegue ver tudo. 

Fica o abraço ao LM, que me mostrou, ainda que geograficamente, um pouco do céu na terra. Só por isto, pela ideia de que o éden pode ser isto, vale a pena ir para o céu...

JdB

Lagoa do Congro, S. Miguel (Maio de 2015)

Lagoa do Congro, S. Miguel (Maio de 2015)
  

terça-feira, 26 de maio de 2015

Duas Últimas

Vinha no avião para os Açores quando os meus olhos fixaram o título do Expresso: "A arte de enfeitar o silêncio". Seguia-se depois o artigo sobre Eneida Marta, "provavelmente a mais importante cantora guineense da actualidade". 

Numa altura de semi-férias e, por isso, de menos disponibilidade para postar, a frase caía que nem sopa no mel. Sempre fala de silêncio, algo que se sente de forma particularmente feliz nos Açores. No caso vertente, é Eneida Marta que o enfeita. No meu caso, o enfeite deste silêncio micaelense é dado pela vegetação, pelo espaço sem fim, pelo céu a prolongar o mar, na ideia feliz do Régio.

Do que ouvi, embora muito a correr, gostei. Oiçam e balancem o corpo, se vos aprouver. Sejam felizes, acima de tudo.

JdB



segunda-feira, 25 de maio de 2015

Do regresso aos sítios

S. Miguel, Setembro 2006 


Dizem as vozes sensatas que não deveremos voltar aos sítios onde fomos felizes. Não sei se isso significa, portanto, que devemos voltar - ou que não faz mal voltar - aos sítios onde fomos infelizes. Percebo a frase, mas não sei se concordo com ela. 

Olhemos para o cinema, para o casal romântico Rick e Ilse (Casablanca, para os menos familiarizados): o que significa We''ll always have Paris? Significa que ambos foram fugazmente felizes em Paris, até que a doença de Laszlo a impele a ficar e ele a partir sozinho, numa noitada de chuva, correria e espanto. Significa isso que não faz sentido voltarem? E imaginemos um casal de namorados oriundos de Aguiar da Beira, cinéfilos mas pouco viajados, para quem Casablanca é o filme da sua vida de amantes, visto e revisto ao som de pipocas, afagos, atenção a ruídos estranhos. Também eles poderão dizer we'll always have paris, sendo que só eles sabem o que a frase significa verdadeiramente? E ao dizer a frase sorriem de forma cúmplice?

Viajo há alguns anos. Houve sítios onde fui sozinho e voltei acompanhado. Houve sítios onde fui sozinho, voltei acompanhado e tornei a voltar diferentemente acompanhado. Houve sítios que provocaram um impacto forte dentro de mim e, para me manter ao nível de uma certa neutralidade, referirei o Rio de Janeiro. Fui sozinho, na minha primeira viagem transatlântica, com 16 ou 17 anos. O impacto foi imenso, por motivos que serão óbvios. Rio de Janeiro em 1975 não é o Rio de Janeiro em 2015. Fui imensamente feliz, por motivos puramente adolescentes. Voltei lá com a família, numa fase de ressaca. Voltei a ser feliz - só que de forma diferente. Acontece isso com o Rio, como acontecerá com outras cidades - por vezes são apenas felicidades de ordem diferente. Talvez exceptue deste raciocínio o Zimbabwe, pelas características de que se revestiu.

À hora a que me lerem estarei em S. Miguel, nos Açores. Regresso à ilha passados quase nove anos. Fui pela primeira vez em condições especiais. Talvez por isso me tenha sabido tão bem o espaço, a lonjura, o silêncio, o verde harmonioso, a ideia de uma certo paraíso na terra. Ir aos Açores pode ser (não quer dizer que o seja, ou o seja sempre) mais do que uma viagem apenas turística. Pode ser uma viagem ao nosso interior, o encontro com uma certa paz. Regresso em condições diferentes. Como sentirei tudo? O que muda em nós que pode mudar a percepção que temos dos locais que visitamos?

Sejam felizes. 

JdB

domingo, 24 de maio de 2015

Solenidade de Pentecostes

Evangelho de Nosso Senhor de Jesus Cristo segundo São João (Jo 20, 19-23)

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

Sinais do Espírito

Ao longo de dois mil anos de presença de Espírito no mundo, mas também na nossa própria vida e na vida de muita gente próxima de nós, vemos como a presença de Jesus Cristo, através daqueles que participam do seu Espírito, é uma presença pacificadora e uma presença reconciliadora.
As pessoas que estão reconciliadas, que vivem do Espírito de Jesus Cristo e da sua Páscoa, essas pessoas pacificam. Nós gostamos de estar ao pé delas, sentimo-nos acolhidos. O Espírito de Cristo é um factor universal de comunhão, de unidade, de reconciliação, de aceitação mútua e, como eu dizia, de recriação. Porque o perdão que o Espírito de Jesus Cristo realiza no mundo – ou tal como se realiza em cad celebração do sacramento da Penitência, por exemplo – é sempre uma recriação. Perdoar é recriar.
As pessoas que acabam por ter os sentimentos de Jesus Cristo, induzidas pelo Espírito, têm esta capacidade de recomeçar, de recriar, e é esse o sinal do Espírito de Deus que Cristo nos comunicou.

D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna.

sábado, 23 de maio de 2015

Pensamentos impensados

Anexim
Enquanto o pão vai e vem, comam as tostas.

Belezas
Tinha duas filhas; uma era Magda a outra era Gôgda.

Sheik Pierre
Shakespeare tinha um problema com o tamanho das peças; estava sempre a dizer: too big or not too big.

Mão leve
Carteiristas criam Prémio Carreira 28.

Chalaças
Graças a Deus não é o mesmo que piadas a Deus.

Supostamente
O detido é suspeito de ter confessado o crime.

Látegos
Os peixes, fora de água, estrebucham doidamente: são chicotadas piscicológicas.

Chatices
A melhor maneira de enfrentar um maçador é virar-lhe as costas.

SdB (I)


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Rapazes...

Falava da Argentina Santos com à vontade mas respeito, como compete às pessoas finas. Referia-se à Amália sem nunca usar a expressão diva porque, afirmava, há expressões calistas que já não podem ouvir-se. Comentava-se António dos Santos e sorria, lembrada do minh'alma de amor sedenta, ou do partir é morrer um pouco. Quando lhe perguntavam pelos sucessos fadistas sorria envergonhada, torcendo as pontas do xaile entre os dedos finos e bem tratados. Não gosto de falar disso, fui apenas uma rapariga com sorte. Conhecera Maria Teresa de Noronha que lhe ensinara, sem nunca lho dizer, que o Pintadinho era especial, ou se cantava muito diferente ou não se cantava porque era imitação. Comentava os discos do Camané, as saudades do Tony de Matos, a afinação irrepreensível da Hermínia, a injustiça de se associar o Max à mula da cooperativa. Discorria sobre o lundum, sobre a teoria da música portuária ou dos folhetos dos ceguinhos, da irrazoabilidade do fado ter nascido no mar, não obstante a beleza dos versos do Régio, superiores na frase os olhos ceguinhos de choro.... Sabia do fado Lopes ou do fado Anadia, das quadras glosadas em décimas, das afinações de Coimbra e Lisboa, da lenda das dez mil guitarras perdidas em Alcácer-Quibir... Conversava sobre fado, ouvia os outros, revelava um interesse sobre o mundo fadista nas suas várias vertentes - a história, as tendências, os contra-baixos, os mestres, a qualidade do som. 

Depois ia para casa. Sentava-se no seu peugeot, ajustava o espelho por onde via a perfeição da maquilhagem ou o surgimento de uma ruga, compunha uma madeixa de cabelo e ajustava a saia, que teimava em subir para níveis que não eram os dela. Talvez pusesse um pouco de baton, que a dignidade e a estética se mantêm numa festa ou no bulício do trânsito. E ia para casa, um terceiro esquerdo nas avenidas novas, decorado com um esmero simples. Sentava-se na sala ao lado de uma caixa com discos de 33 rpm, 45 rpm, mesmo 78 rpm. E alguns CD's: o Armandinho, o Artur Paredes ou o filho, o Menano, a Amália ou a Ercília Costa, os irmãos Moutinho, a Carminho ou o Vicente da Camara, o Tony de Matos sempre a apanhar a orquestra com elegância e saber. Na aparelhagem, o fado que se repetia sempre, sempre, ao longo da noite: de cada vez que te vejo / sinto um desejo canalha / beijar-te e marcar-te o beijo / c'oa ponta de uma navalha. Agarrava uma chave de fendas grande, afiada, e riscava os discos um a um - a Amália, o Vicente, o Tony, a Fernanda Baptista ou a Ada de Castro, o Marceneiro ou o Tristão da Silva. Riscava para trás e para a frente até à destruição total e irreversível. Depois daquele lote massacrado olhava com ar triste para o cabo da chave de fendas onde uma etiqueta revelava um pensamento de António Arroio: rapazes, não cantem o fado...   

JdB     

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Textos dos dias que correm

«O bom português deve cultivar em si o patriota, que abrange o indivíduo, o pai e o munícipe e os excede, criando um novo ser espiritual mais complexo, caracterizado por uma profunda lembrança étnica e histórica e um profundo desejo concordante, que é a repercussão sublimada no Futuro da voz secular daquela herança ou lembrança...
É já grande o homem que subordina à Pátria, sem os destruir, os seus interesses individuais, familiares e municipais.
Por isso, o viver como patriota não é fácil, principalmente num meio em que as almas, incolores, duvidosas da sua existência, materializadas, não atingem a vida da Pátria, rastejando cá em baixo, entretido em mesquinhas questões individuais e partidárias. Mas para Portugal continuar a ser, precisamos de elevar até ele a nossa pessoa e conhecê-lo na sua lembrança e na sua esperança, na sua alma, enfim.
Não podemos amar o que ignoramos.
Impõe-se, portanto, o conhecimento da alma pátria, nos seus caracteres essenciais. Por ela, devemos moldar a nossa própria, dando-lhe actividade moral e força representativa, o que será de grande alcance para a obra que empreenderemos, como patriotas, no campo social e político.
O político estranho à sua Raça não saberá orientar nem satisfazer as aspirações nacionais. É preciso que ele encarne o sonho popular e lhe dê concreta realidade. Do contrário, fará obra artificial, transitória e nociva, por contrariar e mesmo comprometer o destino superior de uma Pátria.
Sim: o bom português necessita de conhecer e comungar a alma pátria, a fim de se guiar por ela, no seu labor. Depois legislará, reformará ou criará literária e artisticamente uma obra duradoura e útil.»

Teixeira de Pascoaes
in «Arte de Ser Português», Assírio & Alvim (2007).

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Do simbolismo das coisas



Oiço a frase atribuída a Teixeira de Pascoaes e fixo-a: o símbolo é o mérito das coisas. Só então lhe junto a fotografia que encima este texto, como se houvesse necessidade de uma imagem para uma legenda e não a inversa, que é mais natural. 

Na fotografia está uma máquina de escrever (semelhante a uma que usei, antes do azerty - e antes ainda do qwerty - vencer o lusitano hcesar) e uma guitarra portuguesa, aparentemente de Lisboa. Na fotografia poderiam estar um voucher para Buenos Aires, um ingresso para um concerto de Bach, ou um prato de encharcada acompanhado de um parecer médico a atestar a sua inocuidade calórica. Às três hipóteses eu diria sim, muito, com alegria e gosto. E no entanto, num certo sentido, o casamento dessa imagem hipoteticamente tripla com a frase do Pascoaes não seria possível. O voucher, o ingresso e a doçaria seriam apenas coisas, despidas, sob certas circunstâncias, de mérito simbólico. O raciocínio aplicar-se-ia igualmente a um ovo Fabergé ou a um cadillac (uma alusão muito vintage...). Hesitei sobre a inclusão de um jantar com a Uma Thurman.

O símbolo é o mérito das coisas. Esta guitarra pode ser apenas uma miniatura de uma guitarra portuguesa, semelhante a uma caneta bic, a um clip desdobrado numa espargata metálica para desencravar algo, ou a um agrafador de marca bambi. Mas pode ser um símbolo, que não da canção nacional, porque esse seria um demasiadamente universal e, portanto, impessoal. Quem lhe atribui esse simbolismo? Estou em crer que é sempre quem recebe, não quem o dá - no caso de ser uma oferta. É o recipiente da coisa que o define, pelo que um ovo Fabergé dado por amor poderá não ser mais do que um artigo caro, valioso - sem simbolismo, portanto. Ou, matematicamente, uma espécie de simbolismo elevado a menos um. 

Assim sendo, e num pensamento totalmente peregrino que nada tem a ver com os artigos expostos, apenas com o raciocínio sobre o poder de determinação do simbolismo, ocorreu-me que a fórmula matrimonial do recebe esta aliança em sinal do meu amor... deveria ser alterada para recebo esta aliança em sinal do meu amor... Séculos de tradição abalados por uma conjugação verbal. Patetices, no fundo.

Sou receptor e, por isso, sou eu que estabeleço o simbolismo. Não obstante agradeço os objectos, que já vêm carregados de algo. O texto acima não é mais do que um devaneio intelectual de um homem beneficiado generosamente com uma máquina de escrever e uma guitarra portuguesa.

JdB


terça-feira, 19 de maio de 2015

Duas Últimas

Roberto Carlos, 74 anos, brasileiro do Estado do Espírito Santo, ainda hoje rei de muitos coraçõezinhos que batem por aqui e acolá.

Ouvi-o no passado dia 15, no Meo Arena. Cheio que nem um ovo, que músicos destes, cantores românticos por excelência, arrastam sempre multidões.

Por norma, fujo a sete pés das multidões, e cada vez mais. Tenho a sorte de não ser do Benfica, não ter filiação partidária que me obrigue a comícios e não precisar de andar de metro ou cacilheiro em horas de ponta.

Desta vez fiz uma excepção, e fiz bem. Gostei da presença simpática, da elegância e sensibilidade da conversa, da naturalidade inimiga da piroseira para que facilmente se pode resvalar, da voz que ainda tem, da orquestra. E quem convidei também gostou, o que é sempre de levar em conta.

Deixo-vos com 2 das músicas que Roberto Carlos interpretou no concerto, que me fizeram lembrar com gosto tempos passados.

Espero que também apreciem.


fq




segunda-feira, 18 de maio de 2015

Vai um gin do Peter’s?

Um filme salvo pela qualidade histórica do argumento é «LABIRINTO DE MENTIRAS»(1)   cujo título alemão é bem mais sugestivo: Labirinto de silêncios. Não que faltem mentiras. Mas é sobretudo a falta por omissão que impera. Muito interpelativo a rever e julgar erros, embora correndo o risco de se entrincheirar numa lógica justiceira onde dificilmente há lugar ao perdão e à reabilitação.

A loucura de uma investigação aos milhões de documentos
cuidadosamente escritos e arquivados pelo Reich.

A trama baseia-se em factos verídicos, despoletados em 1958, praticamente uma década depois do fim da II Guerra. O processo de mudança irrompe quando a nova geração alemã, que só presenciara o conflito na primeira infância, começa a invadir o mercado de trabalho e introduz uma perspectiva diferente da história, sem perceber nem aceitar a colaboração da maioria dos seus compatriotas com o regime nazi. No pós-guerra, volta a não perceber o silêncio opaco sobre esse passado recente, em que apenas houvera oportunidade de julgar as cúpulas do Reich: menos de 50 pessoas. Onde estariam todos os outros? Só Auschwitz tivera 8000 guardas prisionais, responsáveis por atrocidades indizíveis. Faria sentido a sociedade reintegrá-los acriticamente e isentá-los de julgamento?

Assinado por um realizador italiano, também co-autor do argumento, a película começa por fazer desfilar personagens relevantes para o enredo, deixando claro o seu carácter indelével, que orientará as suas atitudes e acções posteriores. Assim, vemos junto ao gradeamento de uma escola um artista de olhar triste, a arrasta-se com a paleta de tintas. Preparando-se para fumar um cigarro, quase colapsa ao reconhecer um indivíduo, muito hirto e solícito, que lhe oferece lume.

Em 1958, à semelhança daquele indivíduo (agora professor primário), toda a cidade de Frankfurt transborda de aprumo, com uma organização bem oleada, a funcionar primorosamente como um relógio de cuco. Revelador da capacidade de reconstrução recorde da Alemanha Ocidental. Mal se adivinharia que aquele país estivera 10 anos antes no epicentro de uma guerra tremenda, de onde saíra derrotado e em ruínas. À parte do mérito da reconstrução fulgurante, o ambiente pacato e descomprometido da sociedade – a saborear a moda das scooters coloridas e dos vestidos de tule em tons primaveris e estampados florais – não parecia coadunar-se com a cumplicidade da maioria daqueles cidadãos com um regime cruel e belicista.

Johann com a namorada

Os tempos correm depressa e o filme foca os animados anos 50, na sede da Procuradoria de Frankfurt, onde juristas de elite andam atarefados com milhares de processos sobre todos os crimes, excepto os da II Guerra. Tabu absoluto. Mas nada melhor para desestabilizar o status quo do que um novato ambicioso e cheio de brio – Johann Radmann –  confinado a dossiers insignificantes, à base de infracções às regras de trânsito. Claro que sonha em emancipar-se de minudências e assumir casos importantes, de vida ou de morte. Percebemos na sua aparição em tribunal, no início da película, que partilha o rigor germânico, q.b. inflexível, apesar do olhar afectuoso e eivado de idealismo. Que até confirmou ter, embora com boa dose de intransigência e imaturidade. Cabe-lhe ser o protagonista desta narrativa, povoada de típicas ilusões e decepções.

A acção inicia-se, depois, com uma peripécia em volta do tal professor alemão que fora reconhecido por um sobrevivente de Auschwitz (o tal a quem o ex-SS se aprontara a acender o cigarro) e que ninguém na Procuradoria estava disposto a investigar. O caso é levado aos Procuradores por um jornalista exaltado, de aspecto subversivo e justiceiro, algo anarca, que todos se habituaram a ignorar. Excepto Johann, que aproveita aquela oportunidade de ouro para se lançar numa mega investigação, sem imaginar que iria relembrar a página mais negra da história da Alemanha.

O jornalista reivindicativo a irromper pela Procuradoria com o sobrevivente de Auschwitz, seu amigo. No friso de trás, à esquerda: Johann ao lado da secretária hiper competente e bondosa

Como é apanágio dos filmes históricos, também aqui se presta a devida homenagem a quem ousou alterar as mentalidades alemãs do pós-guerra, contra ventos e marés. Soma ainda a vantagem de revisitar o passado para dele tentar extrair lições, forçando os implicados na tragédia do III Reich a assumir responsabilidades pelos seus actos. Redundando num processo de auto-conhecimento e de auto-avaliação, acaba por expor as fraquezas e os pontos fortes de um povo, contrapondo duas épocas próximas e aparentemente opostas, entre a ofensiva de 1939-45 e a tranquilidade próspera de 1958. Dois tempos assentes na notável eficiência germânica. Umas máquinas… de efeitos perversos quando postas ao serviço da guerra.   

Na investigação por sua conta, com o voluntarismo próprio da pouca idade, o novato do «Labirinto de Mentiras» é logo torpedeado pelos colegas e, em seguida, pelo oficial americano que guarda os arquivos nazis e nem acredita que um alemão quer mesmo reagitar o fantasma do conflito e da culpabilidade dos cidadãos, hoje tornados anónimos. Mas nada faz vacilar o jovem jurista, nem mesmo o erro de, involuntariamente, ter passado informações internas ao tal jornalista agitador e ousado. O certo é que o Procurador-Geral percebe a verve do seu jovem colaborador e dá-lhe carta branca para vasculhar um passado tão difícil quanto humilhante, que beliscará gente VIP, arriscando-se a abrir fraturas numa sociedade recém reerguida das cinzas.

À medida que as descobertas de Johann avançam, também as pessoas se revelam… A quantidade de esqueletos descobertos no armário é assustadora. Fará impressão a muitos reencontrar os antigos algozes pacatamente reinseridos na sociedade, a trabalhar em escolas, escritórios, no pequeno comércio ou em lugares de destaque na administração pública.  



No desenho variado das personagens ressalta o carácter sólido e íntegro da funcionária mais subalterna da Procuradoria – a secretária maternal que acorre a todos os dossiers, sempre diligente e eficaz. Firme como uma rocha, possui a sobriedade dos povos do Norte da Europa. Uma das suas saídas emblemáticas é o repúdio silencioso, mas inequívoco, à despedida de Johann, quando este se cansa da investigação labiríntica que lhe fora confiada e resolve ir ganhar principescamente para o outro lado da trincheira, num escritório de advogados de defesa, cheio de êxito. Felizmente que o idealismo do imberbe procurador se choca, de imediato, com o mercantilismo amoral de uma indústria de defesa, especializada em contornar as leis segundo os interesses dos clientes, sem escrúpulos. Nada poderia ferir mais o lema herdado do pai, que adoptou como mantra: Veritas.  

Com a secretária fantástica.

Ainda assim, a incursão de Johann ao lado menos escrupuloso da justiça fora menos movida pelo dinheiro do que pelo desânimo face à avalanche de revelações sobre os seguidores de Hitler, a incluir o seu mentor e herói: o pai, igualmente jurista! Não bastava o desgosto de o saber perdido em combate, prisioneiro de Estaline em parte incerta, para agora lhe descobrir uma faceta sombria, que nunca imaginara.

Numa investigação dolorosa a todos os títulos, a infligir-lhes desgostos pessoais grandes, Johann amadurece muito, percebendo o risco de se arvorar em juiz puro à caça de cadastrados não-assumidos. À medida que desvenda e consegue levar a tribunal os torcionários de Auschwitz, aprende a matizar a realidade, a reconhecer atenuantes e a ter a coragem de evoluir de “nãos” proferidos com o orgulho dos que se tomam por impolutos, para o “sim” mais humilde e solidário com a frágil condição humana. No fundo, ganha realismo. É disso prova a humildade com que acabou por anuir ao pedido do pintor judeu e, não só se prontifica a ir ao Campo de Concentração proferir a oração hebraica pelas filhas pequeninas ali mortas, como aceita a companhia do jornalista, também ele ex-funcionário do Campo, recrutado à força, aos 17 anos!

De facto, Veritas revela-se um mantra extraordinário, ultrapassando os limites do ecrã. Profundamente transfigurador. Ideal para nos humanizar, à medida que nos vamos imbuindo dessa luminosidade impregnada de Amor, que constitui a trama da vida, marcada com o selo de veritas. Paradoxal? Utópico? Só na aparência.     

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1) FICHA TÉCNICA


Título original:
Im Labyrinth des Schweigens
Título traduzido em Portugal:
Labirinto de Mentiras
Realização:
Giulio Ricciarelli
Argumento:
Giulio Ricciarelli e Elisabeth Bartel
Produzido por:
Duração:
122 min.
Ano:      
2014
País:
Alemanha
        Elenco:

Alexander Fehling (como Johann)
André Szymanski (o jornalista)
Friederike Becht (namorada de Johann)


Trailer oficial:

Hansi Jochmann  (a secretária )


www.youtube.com/watch?v=yZtY0LBbvak

domingo, 17 de maio de 2015

Domingo da Ascensão

EVANGELHO Mc 16, 15-20
Naquele tempo, Jesus apareceu aos Onze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados». E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.

Ascensão do Senhor
O anúncio da Boa Nova é, agora, a missão da Igreja. Por isso, poderíamos pensar: “Bem, então o anúncio do Evangelho agora é connosco; no que diz respeito a Cristo, acabou!” Não! Reparemos no que está escrito: “E eles partiram, a pregar por toda a parte. O Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra, por meio dos milagres que a seguiam”. Isto é muito importante e é exactamente assim que se conclui o Evangelho de São Marcos. Os onze apóstolos partiram e, como eles, nós partimos também em cada dia, neste dia, a anunciar o Evangelho de Jesus Cristo; e o Senhor coopera connosco. É ele que, ressuscitado e fazendo-nos participar do seu espírito, nos leva a anunciar o Evangelho que é d’Ele. Que nós anunciamos e, nesse sentido, é nosso também. Já começamos a vivê-lo e a levá-lo às últimas consequências, também como oferta aos outros, pela nossa vida, pelo nosso serviço pela nossa disponibilidade para as coisas de Deus, que são as coisas de todos... Mas é Ele que está connosco e que, pelo seu espírito faz com que qualquer coisa que nós possamos fazer, em termos de Evangelho, tenha – para utilizar termos actuais – uma rentabilidade absoluta.

D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna,  pág.129-132

sábado, 16 de maio de 2015

Pensamentos Impensados

Beu-beu vs. Miau
Os cães miam e a caravana pasma.

Músicas
Tales, de Mileto, assim chamado por fazer parte de uma orquestra de mil músicos.

Amá-lias
Cliente (C) - Eu quero amá-la, amá-la!
Empregado (E) - Qual mala, a verde?
C - Eu quero amá-la, a Rosa!
E - Essa cor não temos

Mais aborto
A consoante pode desaparecer, consoante se use, ou não, o aborto ortográfico.

Leis
Os militares estão sujeitos ao Código Civil, ou só quando estão à paisana?

Mamíferos
Dei-lhe um grande encontrão, abalei-a.
Qual baleia, a Moby Dick?
Não, a Odete Santos.

Doenças
Os micróbios, se ficam parados, arriscam-se a ficar obesos e com diabetes.

Sistema tétrico
A primeira medida foi a pulgada, ou seja a distância equivalente ao salto da pulga.

SdB (I)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

“People who love to eat are always the best people.”

 Gelados light, sirva com o café ou coma quando quiser, só porque sim.

Ingredientes
  • Mirtilos, morangos ou frambroesas
  • Iogurte grego

Pousa a mistura em cima de um tabuleiro que possa ir ao congelador ou dentro de cuvetes de gelo e já está: tem uns fantásticos mini-gelados de mirtilo e iogurte. Depois, retire as bolinhas e pode guardá-las num saco dentro do congelador.
"Se for mais destemido, use um iogurte grego com sabor a morango, framboesas ou frutos silvestres. Se quiser alguma coisa mais light, use iogurte grego natural, sem açúcar. Esse é o meu destino."

Esparguete de courgette - adoramos esparguete, gostamos menos dos hidratos



Com um ralador de cenoura ir passando a courgette em todo o comprimento de forma a obter fios com cerca de 3-5mm de espessura. Se quiser esparguete, não tagliatelle, corte as fatias em fios.

Numa frigideira anti-aderente, junte azeite e o esparguete. Normalmente em 3 minutos a courgette fica cozinhada.
Junte-lhe tudo ou nada. Pesto, molho de tomate, legumes, carne, tudo e seja muito feliz.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Das mãos e do risco

Hélène Grimaud (HG) é uma bonita pianista francesa, nascida em 1969. Numa entrevista curta ao canal France 5 (dez minutos, mais ou menos) que mão amiga teve a amabilidade de me enviar, conta de si, de quando e como lhe nasceu a música clássica. Fala - e este será o tema mais surpreendente - do seu amor pelos lobos. Num filme de alguns segundos, apenas, vê-se HG fazendo festas e dando de comer a um imponente espécimen. É ela e o lobo, no mesmo espaço desprotegido. É ela com uma mão aberta de onde o lobo come, aparentemente manso, como se fosse eu e o cachorro que agora tenho em casa.

HG gosta de lobos. Poderiam ser orquídeas, gastronomia, coleccionismo, voluntariado com crianças ou idosos, cultura de cogumelos ou columbofilia. De entre a quantidade quase infinita de opções para ocupar o tempo e distrair a mente, HG escolheu os lobos. Estende-lhes as mãos com carne ou legumes ou ração, afaga-lhes a cabeça e o focinho, deixa-as ao alcance de uma língua húmida e grata. As mãos com que o faz são as mesmas com que nesse mesmo dia, na véspera ou no dia seguinte, correrá as teclas de um Steinway para tocar o concerto nº 23 para piano e orquestra de Mozart, ou a suíte Ibéria de Albeniz. De manhã a jaula dos lobos, de noite a sala de espectáculos. Ponto comum? Umas mãos estendidas - para prazer do canis lupus ou do homo sapiens.

Sem aquelas mãos prodigiosas, que são a extensão visível de uma mente também ela prodigiosa, HG não seria nada daquilo que é e quer ser. E mesmo assim põe-nas numa espécie de cepo, arriscando o machado. Ao contrário das pernas não sei de que actriz, da voz não sei de que cantor, ou dos seios não sei de que escultura, as mãos de HG não podem estar seguras - ou então os lobos são uma actividade subversiva, ao arrepio de quaisquer condições contratuais. Uma dentada imprevista que decorre de um sobressalto, de um ruído estranho, de uma pata pisada, atira para o corredor da morte a pianista Hélène Grimaud, não a pessoa Hélène Grimaud.  

Que lição, que ideia, que paralelismo poderemos tirar deste episódio da vida de uma francesa bonita nascida em 1969? Não sei. Talvez o risco, é o que me ocorre. O que é o risco na nossa existência? Deixamos de fumar, de beber em excesso, de jogar em excesso, de ter peso em excesso, de ter sedentarismo em excesso, sendo que o excesso é, por vezes, uma definição ténue, subjectiva, sujeita a estéticas da mundanidade e obsessões de equilíbrio. Largamos vícios e desregramentos em nome da vida, do prolongamento da vida, do amor que é um deve e haver em proporções nem sempre justas. Não queremos morrer, ou queremos fazê-lo o mais tarde possível, seja por egoísmo, seja por altruísmo. Não arriscamos em nome da segurança, da integridade de um corpo que se pretende esbelto e saudável, de um sentido de dever que nos aferrolha, ou de uma mente a quem proíbem loucuras.

Há duas hélènes grimauds - a mulher e a pianista. A primeira pode viver sem dois dedos, a segunda inexiste com essa limitação. E no entanto, apesar dessa dualidade, talvez haja uma única HG que vive do bafo dos lobos para interpretar uma sonata, para quem a aventura de uma mão sobre um animal é condição necessária para a apoteose. Talvez ela diga ao manager que lhe cuida dos contratos e lhe recomenda creme gordo ou harpejos: deixa-me os lobos, que a morte deles é a minha; deixa-me o risco, que sem ele sou uma gota de nada. Que hélène grimaud existe dentro de cada um de nós? Quem são os lobos e o piano que afagamos com mãos ansiosas ou tranquilas?

Termino como terminei um livro, citando Sophia de Mello Breyner: (...) E por isso em cada gesto ponho / solenidade e risco.

JdB   

quarta-feira, 13 de maio de 2015

13 de Maio

Nossa Senhora

Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão nela,
Uma Nossa Senhora de madeira,
Arrancada a um Calvário de Capela.

Põe as mãos com fervor e angústia.
O manto cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;
E uma expressão de febre e espanto
Quase lhe afeia o fino rosto.

Mãe de Deus, seus olhos enevoados
Olham, chorosos, fixos, muito além ...
E eu, ao passar, detenho os passos apressados,
Peço-lhe – “A Sua bênção, Mãe !”

Sim, fazemo-nos boa companhia
E não me assusta a Sua dor: quase me apraz
O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia !
Só isto bastaria a me dar paz.

- “Porque choras, Mulher ?” – docemente a repreendo.
Mas à minh’alma, então, chega de longe a sua voz
Que eu bem entendo: -“Não é por Ele” ...
“Eu sei ! Teus filhos somos nós”.

José Régio (1901-1969)




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