quinta-feira, 30 de junho de 2016

Padre Ricardo - livros dos dias que correm

Do prefácio da obra, de D. Manuel Clemente: “tudo é direto, como só acontece com quem já sabe e não precisa de andar à volta do assunto. Tudo é expressivo, com alusões fortes e certeiras. Fala de Cristo e das Bem-Aventuranças, lembra-nos o Sermão da Montanha como quem realmente O ouviu e já subiu ao monte. Não acontece assim com muitos. Mas acontece em alguns por todos e para todos. Aconteceu com o Padre Ricardo, por ele e para nós. Nos dois braços da Cruz, vertical e horizontal como são”.




quarta-feira, 29 de junho de 2016

Pensamento Impensado

Relendo e revendo
Em Os Maias, de Eça de Queiroz, um dos "personagens" é o Reverendo Bonifácio.
O Reino Unido teve o Referendo Malifácio. 
No primeiro caso, é um gato; no segundo, aqui há gato.

SdB (I)

Bem-aventurados os mansos...*

Neste pequeno texto há dois personagens, Vítor e Rafael, ambos gémeos. São tão gémeos que, para efeitos de narrativa, não só não se distinguem um do outro como dizem exactamente o mesmo, e encontram-se nos mesmos locais com uma simultaneidade sem explicação científica. O que diz um diz o outro – sendo que a inversa também é verdadeira. Onde está Rafael pode ler-se Vítor. Diria ainda, correndo o risco da repetição, que a inversa também é verdadeira.
***

Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.

Rafael – como poderia ser Vítor – de há muito que sorria ao ouvir esta frase do sermão da montanha. Apanhara o hábito de seu pai, um homem sério, austero e grave que se vira precocemente viúvo quando a esposa tombara no chão, silenciosa e discreta, num desgraçado e chuvoso domingo de Ramos.

Vítor – como poderia ser Rafael – voltara a ouvir o texto sagrado, já sem sorriso. Franzira-se-lhe um sobrolho e correra-lhe uma lágrima furtiva derivada de uma orfandade paterna recente. De facto, o pai dos gémeos – entre si, e inversamente falando – finara-se com um sorriso segurando entre as mãos fortes e grandes um diário. Foram encontrá-lo com os olhos abertos, um fio de saliva a escorrer-lhe pelo canto da boca fina e séria e um estetoscópio – totalmente desenquadrado da decoração envolvente – numa banqueta ao lado.

Rafael – como poderia ser Vítor – fechara-lhe os olhos, arrumara o instrumento médico com um misto de espanto e temor de que sempre se reveste o inexplicável, e sentara-se a ler o diário. Um dos gémeos – ou seria o outro? – sugerira que se começasse pela página aberta, que talvez se derramasse uma luz sobre o funesto evento.

17 de Fevereiro. Voltei a casa de AT. Recebeu-me linda e deslumbrante, com um sorriso convidativo e pecaminoso. Estava vestida de enfermeira, o meu fetiche mais recorrente. A farda justa realçava-lhe as formas volumosas e, junto a um peito que a cirurgia estética tinha retocado, um relógio pequeno marcava as 15 horas. Estendeu-me uma mão forte e profissional, lamentando o meu ar macilento. Instou-me à posição horizontal na marquesa, alegando a necessidade de um exame completo. Na hora que se seguiu observou-me de norte a sul, de nascente a poente, de A a Z. Usou todos os seus sentidos, justificando a necessidade de um diagnóstico perfeito. Quando a possuí – e foi ela, AT, quem explicitamente me pôs o verbo nos lábios – revesti-me de uma felicidade imensa, como o doente a quem o médico transmite palavras de cura. A enfermeira levou-me à porta, solícita, confiante, amável – e desnuda. Mantivera sempre um estetoscópio ao pescoço, como quem mostra ao paciente que todos somos serviço e prazer. Estendeu-me a mão profissional e forte e pediu que lhe devolvesse o instrumento médico aquando da próxima visita. Detectou-me um corpo pouco ginasticado, mencionando que talvez fosse bom convidar uma acrobata da vez seguinte. Amo-te, AT, e não vejo o dia de te possuir de novo.

Vítor – como poderia ser Rafael – interrompera a leitura do diário para aplicar de novo o verbo abrir – já abrira a boca, faltava abrir a porta. Na soleira da dita encontrava-se uma senhora muito bonita, fardada de enfermeira, com um relógio pequeno a compor um decote displicente onde saltitava um peito retocado pela cirurgia.

Muito boa tarde. Estou a falar com os donos da empresa Irmãos Mansos e Herdeiros? Talvez tenham ouvido falar na minhas iniciais – AT... O meu nome é Andreia Terra, e conheci bem o vosso pai...

Bem-aventurados...

JdB

* publicado originalmente a 21.06.2010

terça-feira, 28 de junho de 2016

Duas Últimas

Há um célebre provérbio (ou frase sábia) que oiço há muito tempo como sendo chinês: quando o bêbedo aponta a lua, o imbecil olha o dedo. Sempre tive os meus momentos de imbecilidade, outras vezes de bêbedo. Talvez só recentemente perceba quando sou um ou outro, porque a idade dá-nos lucidez ou o corpo pede-nos chatice. É por isso que olho para o Brexit (sobre o qual não me pronunciarei por motivos de prudência e desejo de manter amizades) e fixo outras coisas que não os riscos de implosão do Reino Unido ou a irresponsabilidade do primeiro-ministro inglês. Olho para o Brexit e, nos meus momentos de imbecilidade, imagino o indesejável: num dominó improvável todos os países da Europa dos 27 fazem referendos para decidir da permanência na UE. O povo aflui às urnas e todos decidem sair. A UE desfaz-se por via da democracia mais pura, que consiste em dar voz aos cidadãos no que toca a assuntos de superior importância. Queixamo-nos da irresponsabilidade do povo ou dos malefícios da democracia?

Hoje sou um imbecil, olhando para a lua dos bêbedos.

***

Era uma vez um cozinheiro que tinha um fetiche por hexágonos: o arroz árabe era servido numa forma com seis lados, a tortilha dos almoços de domingo também, assim como a salada russa que, no estalar do Verão, acompanhava uns filetes de peixe-galo. Tudo o que fosse possível chegava à mesa do comensal na forma hexagonal mais pura. Depois surgiram os problemas: e as trouxas de ovos, essa iguaria que começa com o açúcar em ponto de fio, embora a encharcada (ponto de pérola) não constituísse um problema. E o cheese cake? E o pudim flan (este em ponto de caramelo) arredado da sua forma redonda, tão típica. Mas o cozinheiro era inflexível: hexágono! Para ele, indiferente às estrelas michelin, ao master chef, às classificações do tripadvisor, só o hexágono interessava, tudo se resumia ao hexágono que era uma imagem de marca, uma tradição, uma rotina, uma ideia demolidora cristalizada num hábito arreigado. Eo pudim flan surgia, hexagonal, para tristeza do pasteleiro de serviço, a trouxa de ovos não ia à lista, porque bem se vê...

***

Deixo-vos, semi-cripticamente,  com a sombra do teu sorriso - algo não validado por referendo e que se serve também de forma hexagonal.

JdB    


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Nas franjas pitorescas da Baixa Pombalina há um palacete mourisco, datado do século XVII, que começou por ser propriedade dos Viscondes de Alverca (família Paes do Amaral). Depois de servir diferentes propósitos, veio a albergar a Casa do Alentejo (1), conhecida pelo seu sumptuoso restaurante de cozinha regional, preparado para grupos e festas privadas. 


Encrustada na rua pedonal das Portas de Santo Antão (nº 58) junto à ruela onde fica a pequena Igreja de S.Luís dos Franceses, a actual Casa do Alentejo  já teve outras designações como Palácio Alverca ou Antigo Palácio de São Luís, precisamente pela vizinhança.

Considerado Monumento de Interesse Público, sofreu várias intervenções arquitectónicas significativas, até pelas variadas utilidades do edifício, pois ali funcionou também um liceu, um armazém de mobiliário, a partir de 1919, um dos casinos de Lisboa – o «Magestic Club», em 1932, o Grémio Alentejano e, a partir de 1981, a Casa do Alentejo.

As obras de adaptação ao casino enriqueceram sobremaneira a decoração interior, em estilo exótico e revivalista, explorando o efeito cénico da sua estrutura quadrangular com 3 pátios interiores, sendo que um foi posteriormente fechado para completar as salas de refeição. A remodelação, concluída em 1919, esteve a cargo do arquitecto António Rodrigues da Silva Júnior e contou com a colaboração de uma equipa de artistas e artesãos de qualidade, como Benvindo Ceia, Domingos Costa responsável pelos painéis de pintura romântica, José Ferreira Bazalisa e Jorge Colaço autor dos azulejos novecentistas.

A árvore de Natal cheia de luzinhas alinha no tom festivo de toda a Casa
Assim, atravessar a Casa causa suspense e sensação, mergulhando-se de imediato no ambiente festivo plasmado na sua arquitectura. A porta da rua é insignificante. Só depois de subir o primeiro lance de escadas se descobre um pátio árabe ricamente decorado. Percorrido o primeiro pátio, surge outro, com claustro, fonte no centro e vasos de vegetação tropical. 


Segue-se a escadaria de acesso aos salões superiores, onde estão as salas contíguas do restaurante. No interior superabundam as superfícies vidradas da azulejaria, dos mosaicos e dos ladrilhos coloridos, numa profusão policromada e exuberante: 


O seu recheio inclui peças decorativas neo-góticas, neo-árabes, neo-renascentistas, neo-rococós e de Arte Nova, assim como elementos do barroco. Nem as grandes pinturas murais faltam, com os lustres e os dourados.


Pátio fechado que veio a ser a Sala “Velez Conchinhas” 
No seu ar sóbrio e algo informal, Lisboa é uma cidade linda e misteriosa, que não se deixa descobrir às primeiras. Cheia de recantos e monumentos menos conhecidos, merece ser desbravada com tempo e tranquilidade. As férias, já à porta, são uma época óptima para redescobrir a cidade do Tejo. 


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)  
_____________________________
(1)  http://www.casadoalentejo.com.pt/

domingo, 26 de junho de 2016

XIII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 9,51-62

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo,
Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém
e mandou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram numa povoação de samaritanos,
a fim de Lhe prepararem hospedagem.
Mas aquela gente não O quis receber,
porque ia a caminho de Jerusalém.
Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus:
«Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?»
Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação.
Pelo caminho, alguém disse a Jesus:
«Seguir-Te-ei para onde quer que fores».
Jesus respondeu-lhe:
«As raposas têm as suas tocas
e as aves do céu os seus ninhos;
mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça».
Depois disse a outro: «Segue-Me».
Ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai».
Disse-lhe Jesus:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos;
tu, vai anunciar o reino de Deus».
Disse-Lhe ainda outro:
«Seguir-Te-ei, Senhor;
mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família».
Jesus respondeu-lhe:
«Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás
não serve para o reino de Deus».

sábado, 25 de junho de 2016

Pensamentos Impensados

Vícios
Morra tranquilo, morrer não causa habituação.

Dura Lex
No deserto do Saara ainda está em vigor a Lei Seca.

Bicho carpinteiro
Marcelo Rebelo de Sousa é do signo Sagitar.

Adágios
Não fumo sem fôlego.

Não façam ondas
Garrett, depois de surfar a onda gigante na Nazaré, aconselhou: não tentem fazer isto em casa.

Trânsito
Era um engarrafamento tão grande que chegava ao gargalo.

Belezas
Abelhas recusam tirar pelos com laser; só com cera.

Falhanços na vida e na morte
Conheci uma pessoa que tentou suicidar-se três vezes sem o conseguir. 
Era um autêntico amador.

SdB (I)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Pensamento Impensado

Eles lá sabem 

BrÊXITO

SdB (I)

Músicas dos dias que correm



Lagrimas negras

Aunque tú me has echado en el abandono.
Aunque tú has muerto mis ilusiones.
En vez de maldecirte con justo encono
En mis sueños te colmo,
en mis sueños te colmo
de bendiciones

Sufro la inmensa pena de tu extravio
Siento, dolor profundo de tu partida.
Y lloro sin que tu sepas que el llanto mio
Tiene lagrimas negras,
Tiene lagrimas negras como mi vida.

Viendo el Guadalquivir
Las gitanas lavan
Los ninos en la orilla
Viendo los barcos pasar.
Agua de limonero
Agua de limonero
Si te acaricio la cara
Tienes que darme un beso

En el Guadalquivir
Mi Gitana lavaba
Panuelo de blanco y oro
Que yo te daba, que yo te daba

Tu me quieres dejar
Yo no quiero sufrir
Contigo me voy, gitana,
Aunque me cueste morir.
Contigo me voy, gitana,
Aunque me cueste morir.

***


El dia que me quieras

Acaricia mi ensueño
El suave murmullo
De tu suspirar.
Como ríe la vida
Si tus ojos negros
Me quieren mirar.
Y si es mío el amparo
De tu risa leve
Que es como un cantar,
Ella aquieta mi herida,
Todo, todo se olvida.

El día que me quieras
La rosa que engalana,
Se vestirá de fiesta
Con su mejor color.
Y al viento las campanas
Dirán que ya eres mía,
Y locas las fontanas
Se contarán su amor.

La noche que me quieras
Desde el azul del cielo,
Las estrellas celosas
Nos mirarán pasar.
Y un rayo misterioso
Hará nido en tu pelo,
Luciernagas curiosas que verán
Que eres mi consuelo.

El día que me quieras
No habrá más que armonía.
Será clara la aurora
Y alegre el manantial.
Traerá quieta la brisa
Rumor de melodía.
Y nos darán las fuentes
Su canto de cristal.

El día que me quieras
Endulzará sus cuerdas
El pájaro cantor.
Florecerá la vida
No existirá el dolor.

La noche que me quieras

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Poemas dos dias que correm

Cai a Chuva Abandonada

Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

***

Meados de Maio

Chuvoso maio!

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade ...
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água...  

Irene Lisboa, in 'Antologia Poética'

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Do feitio de Jesus (IV e último)

Na sequência deste post, também deste post e, por último deste post.

O que era, de facto, o feitio de Jesus? E, em bom rigor, de que nos serve saber o que era o feitio dele? Ao que parece o casamento por amor é uma construção do romantismo; ouvi um dia que o conforto de uma tarde chuvosa à lareira era uma construção do romantismo. A ideia que temos de Jesus é uma construção de quê e de quem? 

Nos posts anteriores referi 17 ou 18 milagres de Cristo, milagres esses descritos nos evangelhos de Lucas. Não há um único adjectivo que qualifique Jesus como uma homem simpático, carinhoso, suave, amável terno ou doce. Também nada nos diz que ele era um homem agreste, duro, amargo, sofrido, nada complacente. Para usar uma frase do evangelho deste último Domingo, quem dizemos nós que Ele era?

Como o Miguel (comentador do primeiro post) muito bem notou, a imagem que temos de Jesus não se esgota na descrição dos milagres de um evangelista. Teríamos de ler outros relatos, dos milagres mas, também, relatos de outras aparições públicas de Cristo, das suas parábolas. Ainda que de relance, fui ler partes do evangelho de S. Lucas, já não na parte que se refere aos milagres, mas na parte que se refere às parábolas ou às intervenções públicas. Adjectivos? Nenhum. As intervenções públicas são secas e determinadas, as parábolas não são mais do que uma forma simples de ensinar mentes simples.

Cristo não veio à Terra para ser simpático e doce e amável. Veio à Terra para romper com um passado, para romper com regras injustas, impiedosas, mesmo desumanas. Veio à Terra para dar voz aos deserdados, aos injustiçados, aos pobres, aos doentes, aos banidos. Veio à Terra para ensinar a fazer por via do coração e não por via das aparências; veio, acima de tudo ensinar um mandamento novo. Como o fez? Com amor firme, desafiante, corajoso, interpelante e confrontativo. Ao fazê-lo - e este aspecto é importante - tocou e deixou-se tocar por aqueles que ninguém queria por perto: os possessos, os doentes, os mortos, em quem nenhum judeu tocava. Fê-lo por doçura, por carinho, por compaixão. 

Não se prega o amor não tendo amor; não se prega a compaixão ou a misericórdia não a tendo dentro de si. Não se prega nada até à morte que não se tenha forte na alma, no cérebro, nas mãos que tocam ou na boca que beija. Jesus era um Homem bom, porque defendia a bondade, pregava a bondade, exercia a bondade. Jesus era tudo aquilo que defendia ou que sabemos que ele fez, porque o tinha dentro de si, caso contrário não teria força para o fazer.

Cristo não é uma construção de nada - dos apóstolos ou da Igreja a caminho. A doçura de Cristo não vem revelada nos evangelhos? Não há amabilidade, ternura ou doçura? Talvez os evangelistas não tivessem o vocabulário suficiente para descrever um Homem assim.  

JdB

    

terça-feira, 21 de junho de 2016

As escolhas do gi.

# 29 Vakula, Joywind

New age space music? Retro forward progressive ambient music? Pastiche ou original? Daqui e dagora ou lá de trás, de algures? Who cares?



***

# 30 Years & Years, King

Pequeno fenómeno da música electro-pop, festiva q.b,, e com clara influência do R&B, os Years & Years são o que bem podemos chamar um "guilty pleasure". Música feita para nos dar prazer - por vezes, não precisamos de mais.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Do passado

É diferente... O sol feito de luz ardente
Do mesmo sol poente 
Que arrasta consigo um dia passado
Já basta saber... Que há em nós a saudade a doer
Se afinal recordar é sofrer
Rasga o passdo

Rasga o passado (letra de Álvaro Duarte Simões)

***

Um destes dias, pessoa jovem ainda e que me é recém-próxima, dizia-me mais ou menos isto: mas porque se há-de querer matar um passado? A frase podia ter sido dita por mim, que tenho o hábito estranho, e também criticado, de olhar muito para trás, apesar de tudo o que vejo tirar algo: uma saudade, uma lembrança, uma aprendizagem, um remorso ou um arrependimento, um factor de imobilidade. Mas não fui eu que disse a frase, repito. Foi uma pessoa décadas mais nova do que eu, para quem, estatisticamente falando, o futuro é ainda maior do que o passado. Foi na ressaca da frase, totalmente apropriada à conversa em curso, que me apercebi deste senso comum absolutamente la paliciano: todos, em certo momento, olhamos para trás; e é isso que transforma o passado numa espécie de faca que nos serve ou nos corta, tudo dependendo se lhe pegamos pela lâmina ou pelo cabo.

Seja sempre, seja em momentos específicos (não sei bem...) dentro de nós trava-se uma estranha batalha: o passado, feito de factos palpáveis e mensuráveis, mas também de sentimentos existentes, memórias e saudades, trava uma luta com o futuro, essa coisa que não existe a não ser na nossa imaginação ou no nosso desejo. O resultado desta contenda é sempre um presente que muda a todo o instante, resultado dinâmico desse combate interno entre dois tempos, um existente e o outro por existir.

Olhar para o passado não é olhar para o que foi, como se esta conjugação pretérita conferisse ao exercício uma conotação negativa, ou apenas desinteressante, porque para a frente é que é caminho. O passado é a única coisa que, de facto, existe dentro de nós e em nosso redor. Não é uma criação, um caminho que vamos definindo momento a momento, um desejo ou uma projecção. O passado é a nossa única realidade, é o único activo da nossa existência, o curriculum vitae com que nos candidatamos ao mundo, porque ninguém se apresenta com o que irá fazer, mas com o que fez. 

A frase que me foi dita é representativa da mais simples realidade: olhar para o passado não é uma actividade de velho de espírito ou de velho de corpo, de criatura imobilizada e cristalizada naquilo que existiu. Falar no passado pode ser um exercício de enorme lucidez porque, com a existência posta em perigo, não há nada que seja mais parecido com uma bóia de salvação, nem que seja para rejeitar o que houve, para construir um que , talvez ainda um que haverá. Na sua música Solsbury Hill, Peter Gabriel canta: my heart going boom, boom, boom / son, he said, grab your things, I've come to take you home. Onde é - ou o que é - a nossa casa? É o passado, porque é a única realidade. Por isso a jovem me perguntava, mais duvidosa do que inquieta, porque se havia de matar um passado, já que isso (digo eu...) equivaleria a deixá-la sem abrigo. 

O presente é sempre o resultado de uma luta entre o passado e o futuro. Quem nunca olhar para trás - achando ingenuamente que é um campeão do optimismo e do avanço - terá sempre uma vitória por falta de comparência, que é a pior vitória de todas. A vitória nunca é certa, que por vezes o futuro agiganta-se.

JdB 

domingo, 19 de junho de 2016

XII Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Lc 9,18-24

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Um dia, Jesus orava sozinho,
estando com Ele apenas os discípulos.
Então perguntou-lhes:
«Quem dizem as multidões que Eu sou?»
Eles responderam:
«Uns, João Baptista; outros, que és Elias;
e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou».
Disse-lhes Jesus:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro tomou a palavra e respondeu:
«És o Messias de Deus».
Ele, porém, proibiu-lhes severamente
de o dizerem fosse a quem fosse
e acrescentou:
«O Filho do homem tem de sofrer muito,
ser rejeitado pelos anciãos,
pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas;
tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia».
Depois, dirigindo-Se a todos, disse:
«Se alguém quiser vir comigo,
renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz todos os dias e siga-Me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
salvá-la-á».

sábado, 18 de junho de 2016

Pensamentos Impensados

Trânsito
Acidente provocou 3 vítimas, 2 ligeiras e 1 obesa.

Libações
Encontrado inédito de Gil Vicente: Auto da Barca Velha.

Não há rapazes maus
Leio coisas boas sobre Harry Truman; será o bom Samaricano?

Feito em cacos
A cacofonia alma minha, fica a perder de vista com discoteca gay.

Desavergonhados
Sexo em público, em Paredes de Coura? Faça-se dentro de paredes e com decoro

Economia, o grande mistério
Há países à rasca (Angola, Brasil, Venezuela) porque o petróleo/gasolina estão baixos.
Portugal está à rasca porque essas matérias estão caras.

Genérico
Homem de 100 anos quer mudar de sexo; pretende passar a sexo activo.

Fute...boys
Nos tempos mais próximos quem quiser ver televisão, a qualquer hora, exclamará sempre HORA BOLAS.

SdB (I)


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Crónicas de um pré-doutorando tardio

Plano para o trabalho final da cadeira de Educação Estética. Não consegui estruturar melhor a conclusão, apesar da paciência pedagógica da Profª Elisabete Sousa. Agora falta tudo, que é fazer o trabalho...

JdB

***


Título:           Um estudo comparativo sobre o sublime e o patético em Eça de Queiroz a partir de A AiaO Suave Milagre e S. Cristóvão.

1)        Introdução 
                   i.       Nos textos “Do Sublime” e “Sobre o Patético”, (in Textos sobre o Belo, o Sublime e o Trágico) aos quais farei referência na elaboração deste trabalho, Schiller escreveu profusamente sobre o era sublime e o que era apenas grande. Escreveu ainda sobre o patético, e sobre o sublime como requisito para que o sofrimento seja estético. Schiller refere a certa altura: "o patético só é estético na medida em que é sublime.” E mais adiante: "(…) pois tudo o que é sublime provém apenas da razão”. A ainda” “(...) todo o motivo de tranquilização tem de ser procurado apenas na razão.” Ora, não só a ideia de milagre já contém uma dimensão não racional (acontecimento inexplicável ou a fé num Deus que nos ouve) como a ideia de imortalidade “em nada pode contribuir para tornar a representação da morte num objecto sublime. E no entanto há milagre; e no entanto há morte.   
                  ii.       Nas três obras de Eça em estudo, o sofrimento (pathos) é patente nas três personagens principais: a aia mata-se por amor ao filho, S. Cristóvão quase desfalece a levar o menino a casa, a criança na Galileia sofre entrevada numa cama, desesperada por ver Jesus enquanto, ao fundo do palco, a Mãe sofre por não conseguir encontrar o Rabi. Por outro lado, o milagre perpassa os três textos, de forma mais evidente n’ O Suave Milagre. O milagre, não numa dimensão de acontecimento inexplicável ou apenas como simples recompensa ou prémio para uma fé inquebrantável ou uma santidade evidente, mas como manifestação da comunicação entre a divindade e o Crente, comunicação esta que se revela na ideia de um Deus que escuta quem sofre, seja um velho cansado ou uma criança enferma.
                 iii.       Definir o objectivo do trabalho.

2)        Desenvolvimento 
            2.1.     Os textos de Schiller 
Apresentação dos textos “Do Sublime” e "Sobre o Patético” de Friedrich Schiller (in Textos sobre o Belo, o Sublime e o Trágico).
            2.2.     Os textos do Eça  
Apresentação dos três textos do Eça realçando, no âmbito do trabalho, as principais diferenças e pontos em comum.
            2.3.     Análise
Abordagem do patético e do sublime, do milagre e do sofrimento, em cada texto, individualmente, explorando: 
                        2.3.1  pontos em comum: 
                                     i.           Sofrimento nos três textos; 
                                    ii.           Milagre nos três textos: como recompensa "Deus ouviu-me" [O Suave Milagre e Cristóvão] ou como redenção, “Deus vai ouvir-me” [A Aia]         
                        2.3.2  pontos divergentes:
                                     i.           O sofrimento como acção da vontade [A Aia; S. Cristóvão?]
                                    ii.           O sofrimento como efeito [O Suave Milagre?]    
                        2.3.3  pontos importantes:
                                     i.           A ausência de resistência ao sofrimento [todos os textos]
                                    ii.           “(…) os afectos lânguidos, as comoções meramente ternas (…)” (Schiller, pg. 167) [todos os textos?]  
                                   iii.           “(…) e todo o motivo de tranquilidade tem de ser procurado apenas na razão (Schiller, pg. 151) [todos os textos?]               
                                 iv.           Podem os personagens dos três textos ser “classificados" como sublimes?
                                  v.           O patético dos três textos é sublime?
                       
3.        Conclusão
Os três personagens principais dos textos do Eça – a aia, S. Cristóvão e o menino entrevado – são, segundo a categoria de Schiller, grandes ou sublimes?
O sofrimento nos três textos, o milagre - nessa ideia de Deus que nos ouve - em dois. Há o sublime que provém da razão? Há sublimidade patética? Os textos do Eça geram apenas afectos lânguidos, comoções meramente ternas?


quinta-feira, 16 de junho de 2016

Poemas dos dias que correm

O Poeta Pede a Seu Amor que lhe Escreva

Meu entranhado amor, morte que é vida,
tua palavra escrita em vão espero
e penso, com a flor que se emurchece
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem a sombra conhece nem a evita.
Coração interior não necessita
do mel gelado que a lua derrama.

Porém eu te suportei. Rasguei-me as veias,
sobre a tua cintura, tigre e pomba,
em duelo de mordidas e açucenas.

Enche minha loucura de palavras
ou deixa-me viver na minha calma
e para sempre escura noite d'alma.

Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos'
Tradução de Oscar Mendes

***

O Cúmplice

Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos. 
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta. 
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira. 
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno. 
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo. 
O meu alimento é todas as coisas. 
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo. 
Tenho de justificar o que me fere. 
Não importa a minha felicidade ou infelicidade. 
Sou o poeta. 

Jorge Luis Borges, in "A Cifra" 
Tradução de Fernando Pinto do Amaral 

***

A um Jovem Poeta

Procura a rosa. 
Onde ela estiver 
estás tu fora 
de ti. Procura-a em prosa, pode ser 

que em prosa ela floresça 
ainda, sob tanta 
metáfora; pode ser, e que quando 
nela te vires te reconheças 

como diante de uma infância 
inicial não embaciada 
de nenhuma palavra 
e nenhuma lembrança. 

Talvez possas então 
escrever sem porquê, 
evidência de novo da Razão 
e passagem para o que não se vê. 

Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança" 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Do feitio de Jesus [III]

(Na sequência deste post e deste post)

8) Ressureição do filho de uma viúva (Lc 7, 11-17)
Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: "não chores."
"Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!"
E Jesus entregou-o à sua mãe.

9) A tempestade acalmada (Lc, 8, 22-25)
E Ele, levantando-se, ameaçou o vento e as águas (...)
Disse-lhes depois: "Onde está a vossa fé?"

10) O possesso de Gerasa (Lc, 8, 26-39)
(...) Jesus, efectivamente, ordenava ao espírito maligno que saísse do homem (...)
Jesus perguntou-lhe (...)
Jesus subiu para o barco e afastou-se dali.
Mas Jesus despediu-o, dizendo: "Volta para tua casa e conta o que Deus fez por ti."

11) A filha de Jairo e a mulher com fluxo de sangue (Lc 8, 40-56)
Jesus perguntou: "Quem me tocou?"
Jesus insistiu: "Alguém me tocou, pois senti que saiu de mim uma força."
Disse-lhe Jesus: "Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz."
Mas Jesus, que tinha ouvido tudo, respondeu: "Não tenhas receio; crê somente e ela será salva."
Jesus disse: "Não choreis, porque ela não está morta, mas dorme."
Mas Ele, tomando-a pela mão, chamou-a dizendo em voz alta: "Menina, levanta-te!"
Jesus mandou que lhe dessem de comer.
(...) e Ele ordenou-lhes que não dissessem a ninguém o que tinha acontecido.

12) Jesus alimenta cinco mil pessoas (Lc 9, 10-17)
Tomando-os consigo, Jesus retirou-se para um lugar afastado (...)
Disse-lhes Ele: "Dai-lhes vós mesmos de comer."
"Jesus disse aos discípulos: "Mandai-os sentar por grupos de cinquenta."

13) O jovem epiléptico (Lc 8, 37-43)
Jesus respondeu: "Ó geração incrédula e pervertida! Até quando estarei convosco e terei de vos suportar? Traz cá o teu filho."
Jesus, porém, ameaçou o espírito maligno, curou o menino e entregou-o ao pai.

14) Mulher curada ao sábado (Lc 13, 10-17)
Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe: "Mulher, estás livre da tua enfermidade." E impôs-lhe as mãos.

15) Cura de um hidrópico ao sábado (Lc 14, 1-6)
Jesus, dirigindo a palavra aos doutores da Lei e fariseus, disse-lhes (...)
Tomando-o então pela mão, curou-o e mandou-o embora.
Depois disse-lhes: (...)

16) Cura de dez leprosos (Lc 17, 11-19)
Ao vê-los, disse-lhes: "Ide e mostrai-vos aos sacerdotes."
Tomando a palavra, Jesus disse: "Não foram dez os que ficaram purificados? Onde estão os outros nove? (...)"
E disse-lhe: "Levanta-te e anda. A tua fé te salvou."

17) Cura do cego de Jericó (Lc18, 35-43)
Jesus parou e mandou que lho trouxessem.
(...) perguntou-lhe: "Que queres que te faça?"
Jesus disse-lhe: "Vê. A tua fé te salvou."

terça-feira, 14 de junho de 2016

Duas Últimas

Nas 2 últimas semanas tenho passado longas horas de boca aberta, não de espanto pela actividade incessante e frenética do nosso novo PR, complementada pelo ar prazenteiro e “porreiro pá” do Costa actualmente de serviço – quando se sabe ou pelo menos se adivinha que a situação do País aconselha por certo mais trabalho e menos espalhafato –, mas antes devido ao “total colapso” da dita, na crua mas infelizmente certeira expressão de um dos médicos com que me vi confrontado.

Nessas horas intermináveis, é bem-vindo tudo o que for para nos distrair da posição incómoda e de imediata inferioridade em que somos colocados, da aparelhagem (medonha, diria Eça) que nos perfura sem piedade ou da conta que nos fustiga a carteira.   

Entre essas benesses está uma televisão agarrada ao tecto, que vislumbramos num relance mais ou menos prolongado quando, de olhos semi-cerrados, resistimos indefesos o melhor que podemos e sabemos. Aí fui vendo cenas de filmes, vídeos musicais, notícias do país e do mundo. Quase tudo me pareceu interessante e até com qualidade, o que atribuo à situação de especial fragilidade em que me encontrava…

Esta música que hoje aqui trago também por lá passou. Trata-se de um dueto improvável e interessante entre Zambujo e um rapper de Cascais que tem Dengaz como nome de guerra. Ajudou-me a passar o tempo e a queimar etapas, por isso estou-lhes grato. 

A bem da verdade e da justiça, não posso concluir sem dizer que, descontando os exageros a que acima me entreguei, fui de facto tratado com esmero e competência, o que os resultados positivos alcançados podem comprovar. 


fq


segunda-feira, 13 de junho de 2016

Vai um gin do Peter’s?

No final de Abril, um historiador de arquitectura, cronista e político muito conhecido no exigente meio académico de Coimbra – Paulo Varela Gomes (VG; 1952-2016) – morreu como sempre tinha vivido: em luta intensa e desgastante! A novidade foi o último ano, em que ganhou uma bonomia e misteriosa serenidade, ele que agora enfrentava um cancro em último grau. Parecia a circunstância menos lógica para lhe pacificar o feitio truculento e inquieto, depois de um passado aguerrido nas fileiras do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda. Só que algo novo lhe acontecera, na ocasião menos previsível, dir-se-ia.



A reviravolta deu-se em segundos, quando estava de arma em punho para pôr termo à vida, exausto e revoltado com a degradação física provocada pela doença. Nesse instante dramático, o guerreiro céptico foi invadido por uma estranha alegria, que lhe inspirou ternura e ânimo. Percebeu, então, que era maravilhoso estar vivo, para lá de tudo o que ainda o atormentava. Assim, era um momento ínfimo a revolucionar-lhe a existência, em lugar das várias causas políticas que abraçara com sofreguidão e galhardia. 

Posou a arma, deixou no bosque a parafernália do suicídio e, sem sequer olhar para aquele conjunto tétrico que pertencia a um passado amargo e estéril, voltou ao carro para regressar a casa. 

Quando abriu a porta, ele que minutos antes se despedira da mulher para sempre, reviu  Patrícia, que correu a abraçá-lo, lavada em lágrimas, entre a alegria e o espanto. As palavras eram completamente insuficientes. Em silêncio – sabiam bem que estavam sob o efeito de um autêntico milagre – ficaram agarrados um ao outro a saborear um reencontro que já não era esperado. 

Varela Gomes não hesitou em chamar «espiritual» àquele momento, resguardado pelo arvoredo, em que foi interceptado por uma poderosa luz, que lhe devolveu o sabor fascinante da vida, de maneira quase palpável. Foi o minuto zero de uma nova fase, convertido, segundo o próprio.   

Se dúvidas tivéssemos de que cada pessoa é única e tem um caminho irrepetível, a biografia atribulada de VG ajuda a lembrar esta verdade espantosa sobre o ser humano. Ele que buscara e lutara pela revolução em tantas frentes, apostando na abordagem reivindicativa e inflamada, acabou por protagonizar o maior volte-face de forma gratuita e sem intervir, senão para acolher um dom. Tudo com a simplicidade de uma criança pequenina. Mais tarde, por associações muito pessoais do historiador, resumiu a sua nova experiência com a frase do Evangelho que, séculos antes, inspirara a conversão de S.Francisco Xavier, repetida à exaustão pelo seu amigo Inácio de Loyola: «Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la.»  

Bem treinado no combate, quis deixar em legado o que lhe acontecera, explicando os equívocos em que nos enredamos, quando tomamos por coragem actos que podem estar nos antípodas. Mas, também aqui, talvez mais ainda aqui, há enormes nebulosas e hiatos enigmáticos, pois só o próprio e Deus sabem o que cruza a cabeça e o coração de quem sofre até ao desespero. 

O testemunho lúcido e corajoso de Varela Gomes, escrito em 2015 para a revista «Granta», segue citado sumariamente. A abrir e a rematar sobressaem a frontalidade e uma sede inequívoca de verdade, mesmo quando doi:

«Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”. (…)

Não vou escrever aqui um artigo de (fazer chorar) … primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.  (…)

Quando voltámos para casa (depois de confirmado o pior diagnóstico), não houve uma lágrima, um gesto de desespero, um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca. Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. (…)

Numa estranha frieza, só quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até me ajudaria se fosse necessário. (…) Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no nevoeiro do tempo. Passaram (…) (d)ois anos e onze meses. 

Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre. Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos. (…)

É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no meu espírito é muito antigo e muito complexo. (…)

Depois de uma breve conversa entrecortada de angústia e silêncio (com o psicanalista), lembro-me de lhe ter dito com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor…” Quem é que estava a falar assim pela minha boca? (…) Que força psíquica queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte?

A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. (…) Cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem.

Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever (…), em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso .(…)

As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha morte interior: regressei à melancolia (…). Como é que vou morrer? Exactamente como?, perguntava… Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim próprio.

Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte. (…)

Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida (…). Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer? (…)

Depois de fechar os cães e de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas, ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a coronha da arma apoiada no solo. (…) Pronto, ia morrer. (…) Sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça, dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de que me rodeara. Ergui os olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol, através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da encosta. Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para trás”.

Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei com o sofrimento nestes mais de mil dias: “Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.»

  Do artigo «Morrer é mais difícil do que parece», 
disponível online em 
- http://www.blogclubedeleitores.com/2015/06/morrer-e-mais-dificil-do-que-parece-o.html

Bem à maneira dos temperamentos que nasceram guerreiros, andou anos e anos ocupado noutras batalhas em que imprimia ele o ritmo, até a vida o surpreender derivando para um rumo totalmente fora do seu controle. Foi-lhe, então, pedida uma simplicidade e uma ousadia novas, sem as bravatas de outros tempos, mas mais bravura. Uma bravura tranquila e dócil. Estranho? VG explica o paradoxo.    

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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