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26 maio 2022

Largo da Boa-Hora


Ao meu querido Cão, a todos os Cães

Amor sem condições.
Confiança sem inquietações. 
Ansiosa ternura e dedicação.
Nem ontem, nem amanhã.
Nem tempo, nem espaço.
Sem porquê ou para quê.
Feliz a somar os hoje e os porque sim. 
Sem provas ou comparações. 
Sempre a acreditar e a aceitar.
Sem outros, melhores ou mais.
Sempre contente com o que somos, temos e lhe damos.
Correr para nós e em nós sossegar.
Sem nada de seu, porque dado como nosso.
Renascer a cada dia, sem monotonia ou ambição.
Desfrutar por estar e tanto lhe bastar. 
Sem querer outros mundos que não o seu.
A independência da total dependência.
A irrevogabilidade da entrega total.

Uma vida a ser sempre assim, a ser Cão.
Um Cão é um Cão, como um Cão o é. 
E, nada, mesmo nada, é mais absoluto que um Cão.
Um Cão não se compara ou demonstra, porque tudo nele é como um Cão o é.
Amigo como um Cão, bom como um Cão, fiel como um Cão, meigo como um Cão, atento como um Cão, tolerante como um Cão, próximo como um Cão, feliz como um Cão.
Tudo como um Cão e nada que não seja como um Cão. 
Por isso, o Cão é tudo como eu queria ser, porque autêntico e incomparável.
Por isso sempre te amei e admirei, meu querido Cão;
Que falta me fazes para eu me espantar e debater com o que não sou 
e tanto queria e devia ser.

Adeus Bicas, adeus Zinho.

24 de Maio de 2022

ATM


16 outubro 2015

Largo da Boa-Hora*

Não recebi a graça da santidade.
Sou vulgar, sem prejuízo da esperança e alegria que ponho neste desempenho da condição humana.
Vem isto a propósito quando aqui sentado no meu banco deste Largo pensava o tema deste escrito. Precisamente o perdão.
Entendo que o perdão incondicional é matéria do divino. No mais, ou é tema de amor ou é uma questão de possibilidade.
Enquanto tema e vivência do amor entre o culpado e a vítima, seja o perdão concedido ou negado, não são consentidos comentários ou juízos de valor que meçam o acerto dessa denegação ou concessão.
No amor, a regra é que não há regra nenhuma, o racional é que inexiste qualquer lógica justificativa da conclusão, “o coração tem razões que a razão desconhece”.
O único que é certo é que reina o incerto e, por isso, o mais improvável e inverosímil pode ser a escolha, a solução, o caminho. Estamos no reino da liberdade, da confusão, da distorção, do surpreendente.
Prevalecem sentimentos, impulsos, compromissos, vontades, desejos, fantasias, conformismos, teimosias, histórias, e tantos outros valores que ridicularizam a equação: facto/culpa/pena.
No amor, a palavra perdão nada significa, porque nunca houve o necessário pressuposto deste, precisamente a condenação, evitada pela esperança, resignação ou abnegação. Há acusação, mas raramente condenação.
Portanto, quando estão em causa laços amorosos, não há perdão, porque não há condenação, há desculpa, tolerância, esquecimento, esperança, fé na mudança, e tantos outros mecanismos de relativização das coisas, que fazem com que algo – até grave - possa não ser coisa nenhuma, num historial conjunto feito de outras grandezas e pequenezas.
Estando, pois, de fora a acção divina do perdão e o seu exercício na vivência amorosa, vejamos o perdão à luz do possível.
Perdoar é desconsiderar totalmente um acto praticado intencionalmente sobre nós, que constitua violação dos nossos direitos, valores ou essencialidades. Perdoar é apagar da história uma agressão e suprimir totalmente os seus efeitos, incluindo na esfera dos afectos, é tudo se passar, ou voltar a passar, como se o mal praticado não tivesse sucedido.
Defende-se muito o perdão como uma obrigação dos homens bons, e um especial dever dos que inspiram a sua vida numa fé religiosa. É recorrente a exigência do perdão como condição de perfeição individual e de pacificação de nós próprios e do mundo (seja o nosso pequeno mundo, seja o outro…)
Com todo o respeito, penso que essa exigência do perdão é irrealista, e constitui um apelo a um comportamento quase sempre impossível, gerando uma angústia indevida em todos aqueles que – e muito bem, a meu ver – entendem que o perdão é absolutamente excepcional, pois para o seu sucedimento têm de concorrer pressupostos que não são verificáveis na maioria das situações.
Vou sintetizar as minhas razões.
Perdoar exige que a agressão tenha cessado, se tenha consumado, e que não persista continuadamente. Só se pode perdoar depois, não durante. Ora, este requisito exclui muitas das situações da vida que podiam ser objecto de perdão, dado que grande parte delas são efectivamente acções que perduram pelos tempos, pelos anos.
Perdoar exige contrição e arrependimento do agressor. (São estes requisitos que distinguem, aliás, o perdão da amnistia). O agressor só pode ser elegível para o perdão se assumir o erro cometido, o mal causado, a repulsa pela acção e o firme propósito de a não repetir. Ora, raríssimas são as situações da vida em que o agressor assume esta atitude de remorso e comprometimento para o futuro.
Perdoar exige a reparação do mal causado. A reparação, a reconstituição do partido, a cura das feridas da agressão são, na maior parte das vezes – na vida real – impossíveis de atingir. Reconstruir a confiança, a amizade, a sinceridade, a boa vontade, a solidariedade e tantos outros exemplos, são, em regra, caminhos impossíveis.
Cheguei pois onde pretendia: perdoar é raramente possível.
Excluído o perdão, como regra, perguntar-me-ão qual será então a via mais bondosa para lidar com a agressão e o agressor.
A meu ver, o caminho que está aberto aos homens de bom coração, é o da renúncia a responder ao mal com o mal, ao “olho por olho, dente por dente”
Renunciar ao desforço, à vingança, ao ódio, à perseguição, é o caminho que se deve impor nos nossos corações, como exigência da nossa integridade moral ou salvação, se preferirem. Não devemos responder à agressão com a retaliação.
Esta renúncia, se for conseguida, confere-nos grandeza, satisfação connosco próprios, sentimentos de paz de espírito, de vitória do bem sobre o mal.
Firmada a renúncia, podemos e devemos tactear caminhos de entendimento, pontes de compreensão, passagens de esclarecimento e, conforme formos concluindo, encetar o caminho da aproximação cujo culminar pode ser até a reconciliação, que não se confunde com o perdão. Uso esta expressão, reconciliação, no sentido de, no fim do caminho, poder até suceder um retomar de laços afectivos, profissionais, sociais que, ainda que definitivamente maculados pelo pecado original da agressão, possam ser suficientes para uma coexistência saudável, pacífica e proveitosa para a paz e bem de todos os envolvidos.
Sei, porém, que por vezes essa reconciliação também não é possível. Em especial, porque nem a agressão cessa, nem o agressor indicia arrependimento, nem sucede um esboço de reparação.
Quando assim for, não resta senão tornarmo-nos totalmente indiferentes para com o agressor, ser e agir como se ele já não fosse ou agisse.
Este fazer dos outros nadas, é a medida que nos permite viver sem o tormento da permanente recordação do mal cometido, sem a dor do sofrimento que nos é infligido, sem o risco do acirrar de rancores. É o caminho para o esquecimento do mal.
Esquecer o mal, apagar a história, é a defesa dos que renunciam ao ódio e desforço, e são impotentes para mudar o curso das coisas.
O irremediável não é bom companheiro, deixá-lo jazer no cemitério do perdido.

ATM

* publicado inicialmente a 21.01.2009

08 julho 2009

Largo da Boa-Hora

“Eu e Tu”, “Tu e Eu”.

O ser e acontecer de cada um é, do ponto de vista da relação com o outro, confrontado com distintas atitudes e posturas desse outro, cuja natureza e consequências julgo merecerem alguma reflexão.
Nas acções ou omissões do outro temos vários graus de intersecção e / ou comparticipação que formam um largo espectro que me proponho evidenciar. (Aplicável, como todo o texto que segue, desde a relação amorosa à familiar, incluindo a de amizade e as de mero conhecimento ou de índole profissional).
Percorramos, pois, um breve itinerário das atitudes distintas perante o “ser e acontecer “ do outro.
Instrumentalmente, ficciono esse itinerário como uma escada cujos degraus ascendem da indiferença à cumplicidade, que são os extremos do espectro considerado.
No primeiro degrau da ligação ao ser e acontecer do outro, temos a ignorância, a indiferença, o alheamento. É ser-se cego, surdo e mudo.
No segundo degrau, assume-se a postura de mirone. Espreitamos o que acontece, de relance, com um ânimo de olhar sem registar, sem querer recordar, recusando outro efeito em nós que não distrair, apenas como paisagem banal e irrelevante que vai desfilando na estrada que vamos percorrendo, e que se apaga pela sucessão da próxima curiosidade.
No terceiro degrau, consideramo-nos testemunhas. Presenciamos o desenrolar do outro, com observação, com atenção, com interesse em ver e registar. Não somos neutros perante o acontecimento, queremos percepcioná-lo e aplicamos as nossas faculdades cognitivas a essa aquisição de conhecimento. No final, sentimo-nos habilitados e autorizados a discorrer e contraditar sobre os factos sucedidos, legitimados pelo “trunfo” de termos fotografado o evento.
No quarto degrau, entramos no ser e acontecer de outrem como conhecedores. Neste patamar interagimos com o outro, porque acresce, à qualidade de testemunha, a disponibilidade, interesse, vivência do acesso e conhecimento concreto das motivações, causas, efeitos, circunstâncias que são inerentes ao sucedido. Aceitamos a partilha de todo o mundo subjacente ao evento material. Passamos aos bastidores da obra apresentada, acedendo a todas as vicissitudes ocultadas do público em geral. Quando falarmos, poderemos narrar, tanto o “quê”, como o “porquê” do evento.
No quinto degrau, a atitude passa a ser de comparticipação. Deixa, pois, de ser acrítica, como nos degraus anteriores. Neste patamar assumimo-nos como tolerantes. Acresce, relativamente ao quarto degrau, uma reacção nossa de aceitação, de admissão, de conformismo, com o ser e acontecer do outro. Passamos de um "non facere" para um “facere”, que importa uma reacção nossa perante a acção do outro, ou seja, além de conhecer o acto, facto ou omissão, conferimos-lhe a nossa bênção, o nosso acolhimento.
No sexto degrau, a nossa intervenção sobre o outro cresce de importância, passamos a apoiantes. Neste estádio, afirmamos a nossa adesão, concordância, beneplácito ao ser e acontecer do outro. Sustentamos o seu devir com toda a disponibilidade para ajudar, auxiliar, viabilizar, concorrer para o evento. “Fazemos figas” para o sucesso, lançamos os foguetes, e, muito importante, estamos igualmente irmanados para a eventualidade do fracasso, da derrota, do infortúnio que ocorra no final. Estamos, para o bem e para o mal, companheiros de caminho, solidários e indefectíveis.
No sétimo degrau somos mais interventivos. Agimos a nível prévio da acção do outro, somos instigadores. Incitamos, estimulamos, induzimos o outro a ser e acontecer de certa e específica forma, premeditada também por nós. Queremos que as coisas sejam assim, e intervimos para a resolução do outro que seja necessária. A decisão é também nossa e, consequentemente, a acção, porque intencionalmente o determinámos ou concorremos para essa determinação. O evento que aconteça neste quadro de instigação é da autoria dele, mas tem a marca indelével da nossa força motriz que o animou.
Por fim, no oitavo degrau somos cúmplices do outro. A cumplicidade é ser-se co-autor do sucedido, é ter-se tomada como própria a acção do outro, é a fusão de vontades e de execuções que tornam o evento numa amálgama em que é impossível distinguir, entre ambos, quem fez, porque fez e como fez.
Trata-se da unicidade de vontades e agires que anulam a distinção das individualidades que antes se destrinçavam. O que está feito não foi feito por ambos, mas feito por um ente que é a soma, melhor, a fusão dos dois.
A cumplicidade é a hábil transformação dos “laços” em “nós górdios
A cumplicidade transforma egoísmos compatíveis em altruísmos abnegados.
A cumplicidade é, pois, a linha no horizonte que sucede no crepúsculo, e em que é impossível saber que parte da claridade vem do sol que nasce, e que parte vem da lua que adormece, ou vice-versa. É, pois, o abraço dos astros, que nem as estrelas deslindam, quanto mais os homens.
Temos assim identificados, pelo menos, oito degraus de acção e reacção, perante o ser e o acontecer do outro, todos eles enunciados pelo respectivo verso, quando podiam (deviam) também ter sido feitos pela referência ao respectivo inverso, o que só tornaria este texto inaceitavelmente longo, já que o contrário de cada degrau enunciado também é, evidentemente, uma opção e, pelo que a seguir direi, crítica e fundamental.
Conhecidos os degraus, reputo de fundamental para uma relação consciente, séria, construtiva, verdadeira, e com futuro, que cada um, em todas as ocasiões, em que o outro “é” e “acontece” lhe comunique, o faça interiorizar, consciencializar, sem dúvidas ou incertezas, qual é a acção / reacção com que conta e que lhe dá.
Sem erros nem equívocos, no nosso ser e agir todos temos o direito de saber com o que contamos do outro, se com o degrau um se com o dois o três… ou o oito.
É um dever de quem nos partilha e, na iminência do suceder a nossa opção e vivência, ou até nesse sucedimento, sabermos qual o papel (degrau) que o outro quer desempenhar nesse tempo, espaço e acontecimento, sem reservas, nem cautelas, com verdade, lealdade e coragem.
A tripulação de cada viagem conta-se à largada do navio.
É pois egoísmo, cobardia, má-fé, desamor e desinteresse por pessoas e projectos, não intimar o outro com a afirmação do degrau em que nos posicionamos à largada do navio: somos adeus no cais, visita de desembarque antes da partida, privilegiados com barco de apoio para fuga, passageiros de bilhete comprado e salvação assegurada, tripulantes, ou companheiros de campanha até ao fim, se for o caso.
Entenda-se aqui o direito / dever à oposição, que deve ser exercido no tempo e modo convenientes, com franqueza, firmeza, e fiabilidade. Dizer não, se é não. Quantos Alcácer -Quibir colectivos e pessoais teriam sido evitados…
Mas, e como corolário, se ousámos, livre e conscientemente, firmar-nos nos degraus mais elevados da comparticipação (quinto, sexto, sétimo, oitavo) então, em caso de borrasca e até de naufrágio, é pura indignidade abandonar o navio, como os ratos o fazem na iminência da desdita.
Tudo visto, numa relação temos o direito e o dever de nos posicionarmos no degrau que entendermos mais adequado, justo, possível, desejado, conveniente, e tudo o mais, numa perspectiva do interesse próprio, do interesse do outro e do interesse comum.
Mas, concluído esse posicionamento é de honra transmiti-lo.
E, de dever sagrado cumpri-lo.
O mais é desdenho e traição.

ATM

01 julho 2009

Largo da Boa - Hora


Fascinam-me os móveis contadores, com as suas dezenas de pequenas gavetas alinhadas simetricamente na frontaria, adivinhando mistérios e memórias guardados nesses sacrários.
A minha imaginação transporta-me para o interior de cada gaveta, que sei ao alcance de um gesto, cuja memória fechada posso desvendar num suave deslizar da cada uma, bisbilhotá-la, absorvê-la, e voltar a devolvê-la à quietude do silêncio, resguardo e perenidade pelo gesto inverso.
Este poder de abrir, conhecer, e, depois de saciado, devolver ao tempo o que por instantes detive, faz-me sentir amo da História.
A curiosidade em abrir cada uma das gavetas transtorna-me e envolve-me num frenesim compulsivo de percorrer todas e cada uma delas, na busca de encontrar tudo o que quero saber, conhecer ou rever.
Cada gaveta deste meu contador é uma lâmpada de Aladino que me basta afagar para libertar a vida que nela foi encerrada e adormecida até este dia de revisitação.
Este “meu” contador é um desvario no qual ficciono que cada gaveta contém os dados de cada etapa da minha vida, da minha história, dos meus passados e memórias, dos meus sucederes e aconteceres.
Como bom e sólido contador, este móvel que me "guarda" tem tantas gavetas quantos os tempos que a minha vida foi tendo ao longo daquilo que já passou.
Todavia, e ao contrário de um negligente baú, o contador "arquiva" cada tempo acontecido de forma sistemática, ordenada e cronológica, de modo que não se encontra uma amálgama indistinta e desordenada de informação, mas antes, em alinhamento perfeito e por gaveta, tudo quanto releva em cada ciclo vivido.
Abrir cada gaveta é, pois, mergulhar num tempo e num espaço bem delimitado e preenchido com aquilo a que cada fase do vivido corresponde, sem misturas com o antes e o depois dessa vivência.
Esta segregação, por gaveta, de cada fase da vida, não é mais do que um método certo de arquivo do passado, não "se pronuncia" sobre as causas dos eventos guardados e, muito menos, nega a evidente relação de continuidade, de causa efeito, que sempre sucede nos factos que, encadeando-se uns nos outros, são interdependentes, e que no seu conjunto formam a "vida" de cada um, como um único e complexo trajecto percorrido.
O contador e as suas gavetas encerram, de modo ordenado e estanque, ciclos, etapas. São arquivo, e não fonte de explicação dos porquês do que guardam, dos seus circunstancialismos, causas e efeitos. São "museu" e não "História".
Cada passo que damos é marcado pelo passo anterior que demos, e é influenciado por aquele outro que queremos dar. Todos têm de ser vistos em conjunto para avaliar a caminhada, mas cada passo é também, por si só, um instantâneo com vida própria que merece ser destacado, guardado e, sendo caso disso, revisto.
Voltemos, pois, às gavetas.
O primeiro espanto vai para o número de gavetas com que me confronto no "meu" contador. Não tinha ideia de ter vivido tantos ciclos, tantas etapas, tantas épocas susceptíveis de serem compartimentadas para efeitos de arquivo e revisitação.
Estou estupefacto, como seguramente qualquer um ficará quando olhar para o "seu" contador e vir as gavetas que a sua vida gerou.
Amores, amigos, locais, hábitos, pensamentos, convicções, ambições, desejos, interesses, ocupações, hobbies, coisas, casas, viagens, lazeres e actividades profissionais e culturais, entre tantos outros, dão lugar a tantas gavetas no contador, porque nasceram, viveram e desapareceram, formando, por isso, um ciclo específico susceptível de ser guardado numa gaveta própria como passado, vencido por novas vivências substitutivas ou modificativas.
As vidas cumulam variações radicais, a par, naturalmente, de constâncias e perpetuidades.
É espantoso o que ao longo de uma vida vai mudando, como se sucedem os epicentros da nossa existência, os focos da nossa concentração, os espaços e modos do nosso estar, as nossas inspirações e aspirações, as prioridades e urgências, as adaptações e aceitações ao que vai surgindo e o conformar com o que vai desaparecendo.
Em suma, o firmamento de cada um é povoado por muitas estrelas cadentes.
Não existe valoração negativa nesta modificação permanente, de que só nos consciencializamos olhando para o nosso contador e vendo as gavetas alinhadas que guardam cada fase.
A vida é mesmo assim: na aparente continuidade de um repetido quotidiano, vão-se imperceptivelmente tecendo as malhas de um novo destino, de um novo estar e ser, de modificações profundas que só a respectiva consumação e exercício as torna, então, perceptíveis e dominantes.
Mas o espanto não se esgota no número de gavetas; a maior surpresa é, na verdade, o conteúdo de cada gaveta.
De facto, quando de memória, por retrospectiva sensorial, revemos o ciclo contido em cada gaveta, surge-nos uma imagem, uma visão desses tempos e acontecimentos, que é completamente distorcida relativamente à "verdade" que está encerrada e que é libertada quando abrimos o espaço em que foi fechada.
A gaveta guarda o "filme" da realidade, e esse não é coincidente com a imagem recordatória que hoje temos.
As "coisas" não foram assim, não aconteceram do modo que as percepcionamos hoje.
As "coisas" foram como estão guardadas na gaveta que encerra a verdade, porque aí estão fixadas as circunstâncias de tempo, modo, lugar em que ocorreram, as causas e os efeitos, os estados de vida, de alma, os sentimentos e emoções vividos realmente.
Sem a gaveta, ou seja, de memória, distorcemos o passado, porque o observamos com os olhos do hoje, cedendo a parcialidades, conveniências, desejos, interesses, conformando esse passado a uma realidade histórica pretendida – hoje – e não coincidente com aquela que realmente foi e aconteceu.
Idealizamos o passado – convenientemente – exaltando o banal, menosprezando o excepcional, lembrando o acessório, esquecendo o principal, extremando ora o bem ora o mal, protagonizando quando fomos figurantes, secundarizando quando fomos decisivos, absolvendo culpados e condenando inocentes, relativizando o crucial e sublimando o indiferente, imputando à sorte ou má fortuna o que ao mérito ou demérito pertence, vendo direito no que foi dádiva, ou conquista no que foi graça, omitindo e esquecendo culpas e erros próprios, recordando e enfatizando os dos outros (reais ou imaginários), negando ou afirmando o contrário.
Em resumo, reescrevemos para sustentar e credibilizar o hoje que pretendemos, o que não é o mesmo que revisitar o passado como ele sucedeu.
Essa revisitação só é possível abrindo cada gaveta do "contador" de cada um. Por isso, aliás, é que ele se chama "contador".
Aqui chegados, concluo: há muitas vidas na vida de cada um, o passado que esteja e fique na gaveta de cada contador para revisitação objectiva, e não se use a traiçoeira e tendenciosa memória para justificar o presente, ou para limitar a esperança e confiança no futuro.

ATM

17 junho 2009

Largo da Boa-Hora

Como vem sucedendo em todos os anos, passei os feriados de Junho numa estância balnear a desfrutar a família, os amigos, a praia, o sol e o mar.
Dias magníficos de descanso, distracção e renovação.
Mas o que me inspira esta crónica não é a exaltação da “vida de praia”, que é essência de mim, mas uma constatação que me surpreendeu e que, de certa forma, me perturbou.
Ao longo da vida, estes lugares de férias, frequentados sazonalmente com fidelidade, adquiriram uma “mística” própria e exclusiva que os identificava e distinguia dos outros congéneres.
O lugar de veraneio que ao longo dos anos fosse o nosso, era percepcionado, sentido e vivido como um espaço “próprio”, constitutivo da nossa entidade, integrante do nosso mundo. A universalidade desse local formava um todo que nos pertencia e ao qual nós pertencíamos, numa relação de posse e propriedade, constantemente afirmada e confirmada ao longo dos anos.
Com o “sítio” eleito estabelecia-se uma relação de essência, de intimidade, de identificação, que o tornava coisa fraterna, preferida, única e exclusiva.
O “eu “ e o “sítio” eram companheiros e amigos, em anos e anos seguidos de fidelidade, de encontros religiosamente repetidos, com separações por tempo e razões sabidas e certas.
Ao “sítio” o “eu” dava a presença, a acção da sua vida, o percurso do seu crescimento e amadurecimento, deixando espalhado pelas calçadas, areais, ondas do mar, banhos de lua, esplanadas, e por todo o espaço e tempo, os sonhos, os amores, as alegrias, as esperanças, os feitos e as glórias, os insucessos e os falhanços, o riso e o choro, o encontro e o desencontro. Em suma, o “sítio” recebia e guardava do “eu” a memória de um tempo que ia passando no acontecer de uma vida.
Em cada verão, e num ápice, o “sítio” acolhia as confissões do inverno que ficara para trás, e sustentava os ideais, sonhos e projectos para o tempo vindouro. Logo nos primeiros dias, o passado era absolvido e o futuro prometido, senão mesmo garantido, ficando então o presente para ser vivido nesse enlevo com o “sítio”.
O “sítio” era o guardião da vida passada, a génese do optimismo para o futuro e o palco da felicidade presente. Tudo, pois, azul.
E o “sítio”, o que dava ao “eu” em contrapartida do que este lhe entregava?
É na conclusão desta contrapartida que me emaranho em análises e vejo e revejo tudo, para concluir que essa retribuição, em que se alicerçava e que permitia a relação estabelecida, era afinal muito simples, mesmo muito simples.
O recebido pelo “eu” era a perenidade, a constância, a imutabilidade do sítio.
Em cada reencontro ele estava como fora deixado a cada partida, tudo na mesma para viver o mesmo.
Cada reencontro era um voltar para o colo protector, para o regaço de uma mãe eterna, que sempre estava e estaria à espera, para um acolhimento de consolo, de mimo, de paz e tranquilidade, para serenar e animar.
Este sentir uma terra como colo materno provinha de, ao chegar, sentir estar-se a alcançar quem espera, sem se modificar, sem se transfigurar, para ser logo reconhecida e querida, para desde longe correres sem hesitações para os seus braços por reconheceres todos os traços desse regaço desejado.
As mesmas ruas, casas, igreja, monumentos e jardins, as mesmas lojas, praia, doca, barcos. O sol, o mar e o céu de sempre
Os sons, os cheiros, as cores, os ventos e aragens, as sombras e os soalheiros, sempre conformes com aqueles que a memória chamava nos momentos de saudade.
As pessoas de lá (habitantes, transeuntes, comerciantes, artífices, pescadores e gentes de docas, banheiros, e vizinhos) sempre os mesmos, sempre idênticos, sempre reconhecidos e que nos conheciam. Lá, as crianças permaneciam crianças, os jovens mantinham-se jovens, e os velhos estavam somente um pouco mais velhos, mas tudo com ínfimas variações que não afectavam o quadro de conhecimento, intimidade, reciprocidade, cordialidade e simpatia, caldeado por anos de contacto e companhia.
As pessoas veraneantes formavam uma “tribo” que se identificava e reconhecia como tal e agia em ritos de grupo, em matilha, numa partilha de espaços, tempos e modos de acontecer que fraternizava a relação grupal.
Essa perenidade, estabilidade, durabilidade, previsibilidade do “sítio”, conferia ao “eu” inestimável segurança, serenidade, equilíbrio, calma e, sobretudo, paz.
O reencontro no presente com o que foi o nosso passado gerava a tranquilidade de se ser e pertencer a algo que nos surgia eternamente nosso, disponível, hospitaleiro e desejado.
Nada pacificava mais do que ocupar o mesmo pedaço de areia na praia, olhar à volta e ver os mesmos de antes, conhecer cada canto e recanto do lugar e das pessoas que o animavam; numa síntese: poder não privar com ninguém e com todos falar, poder andar sem dinheiro e tudo comprar, poder andar sem chaves e em todo o lugar entrar.
Pois é, mas esses “sítios” acabaram, perderam-se, deixaram, pura e simplesmente, de ser assim.
Numa voragem tudo se perturbou, corrompeu, modificou e transformou.
As casas e edificações que eram as referências passaram a blocos de apartamentos, os espaços livres foram ocupados, as ruas foram esventradas por avenidas, as lojas são de ramo ou natureza diferente, as rotinas acabaram, o toldo é chapéu-de-sol, o banheiro é nadador-salvador, o cliente é consumidor, o interesse pelos “pequenos” pela “senhora” e pelos “paizinhos”, passou à pergunta quantos são? e, sobretudo, como vai a saúde do cartão de crédito.
Num ápice, a sólida e fiável civilização ancestral (porque durou a vida do “eu”) transformou-se numa plataforma de circulação de pessoas e bens, anónimos, indiferentes, misturados, alienados, indiferentes. Tudo é, definitivamente, “pastiche”, um deambular de anónimos entre anónimos.
Os “sítios”, de tantos revolvidos e adubados de novidades, secaram, desertificaram, e hoje são pedaços na vida de alguém, mas nunca mais refúgios de essência, guardiões de memória, recantos de história.
São plataformas logísticas na indústria das férias.
Se reflicto sobre isto não é por saudosismo, não é por renegar o processo e desenvolvimento, não é por ser contra a democratização e maior acesso de todos a tudo. É apenas porque sinto e sei quanto o sítio foi importante para mim, e temo que a falta dele possa ser bem marcante e penosa para os jovens que nunca o conhecerão.
Crescer e tornar-se adulto sem “sítio” e “tribo” é um desafio imenso para a juventude. Não os invejo.

ATM

10 junho 2009

Largo da Boa-Hora


Ocorre-me hoje reflectir sobre a prática da mentira, divergência consciente e intencional entre o real e o anunciado, exercida com o propósito de enganar o destinatário da mensagem.
Ao abordar este tema, a primeira constatação que ressalta é a de que existem inúmeras causas e fins para se mentir, num espectro tão amplo e abrangente que nele se contêm inúmeras variedades entre os extremos que serão, respectivamente, a mentira piedosa e a mentira malévola.
A mentira piedosa é, como a designação sugere, aquela que é animada de uma intenção bondosa, compassiva, cujo único propósito é evitar ou adiar o sofrimento do outro pela omissão do anúncio de uma realidade dramática, cuja oportunidade de conhecimento e de enfrentamento não é evidente. É o que sucede quando se mantém alguém na ignorância de um mal grave, cuja percepção imediata não terá qualquer vantagem. É exemplo de escola, deste tipo de mentira, a informação que o médico guarda para si sobre certo prognóstico grave que admite ou conclui.
A mentira malévola é aquela que é instrumental a burlar o destinatário. É o engano fraudulento, associado a práticas de natureza criminosa e que, pela sua natureza, não justifica mais descrição.
Para este texto seleccionei três tipos de mentiras que me proponho abordar, porque me parecem ser, de entre as tantas categorias, espécimes com particular interesse no relacionamento entre as pessoas.
Elejo, pois, a mentira embuste (que é odiosa), a mentira medo (que é compreensível), e a mentira ânimo (que é louvável).
A mentira embuste consiste na sucessão permanente de acções e declarações, falsas e enganosas, por forma a criar em alguém em particular, na intimidade, ou nas pessoas em geral, na comunidade, a convicção de que se é uma pessoa conforme certo modelo, figurino, paradigma, que não têm, todavia, correspondência com a realidade efectiva da natureza do farsante.
A mentira embuste fabrica, pois, uma identidade, estado ou condição, que permite ao ilusionista aparentar aos outros aquilo que na realidade não é.
O mentiroso torna-se num personagem por si idealizado, exercido e assumido, distinto de si próprio, passando a viver, em permanência, no desempenho desse papel teatral.
Pela dificuldade, se não mesmo impossibilidade de exercício, a mentira embuste é raramente global, sendo o mais comum exercer-se em algum dos planos sectoriais, possíveis, designadamente, e entre outros, no plano moral, amoroso e familiar, social, profissional ou económico.
É em algum destes planos, ou melhor palcos, que o indivíduo, pela mentira embuste, vai desempenhar o personagem que elegeu e aparentar o que não é.
Para quem for o seu público, o farsante vai aparentar ser homem de bem e de virtudes, quando é na realidade um libertino; vai fingir sentimentos de amor e afectos, quando o que sente é indiferença e descomprometimento; vai jurar amizades, quando se esgota no seu egoísmo e auto-satisfação; vai invocar títulos e feitos importantíssimos, quando o que faz é comum, sem merecer distinção especial; vai alardear fortuna, quando o que cumula são dívidas e trapalhices.
As causas destas vidas em mentira embuste são a imoralidade, a amoralidade, o ego desmedido, a vaidade, a ganância, a ambição, a frustração, a ânsia da sobreposição e domínio dos outros, o egoísmo, o egocentrismo e outras tantas características e patologias de índole no mesmo sentido.
A razão do meu interesse nesta mentira embuste é porque sinto crescer e proliferar a sua adopção como modo de vida e, sinceramente, estou convicto de que os seus cultores são de facto perigosos - sobretudo em tempo adversos, como estes que agora vivemos - porque tendo-se já triturado a si próprios, não hesitam em sacrificar qualquer um para atingir os fins que premeditaram, perigosidade que se agrava nestes cenários de crises económicas e sociais em que vivemos.
Mas, além desse factor de perigo, outro há que me impressiona: é que estes intérpretes da mentira embuste constroem edificações que vêem como fortalezas, mas que não passam de castelos de cartas que, em regra e sem aviso, soçobram em estrondosas derrocadas, arrastando nas consequências desse ruir todos aqueles que de boa-fé neles confiaram e acreditaram, com consequências destrutivas para essas vítimas.
São famílias partidas e perdidas, amores desiludidos e desfeitos, amigos pulverizados, empresas arruinadas, empregos acabados, honorabilidade e lustre social estilhaçados.
Cautela pois, não se dê o caso de a vida de algum de nós gravitar ou ser relevantemente influenciada por algum desses ilusionistas…
Nos antípodas, a mentira medo consiste na fraqueza humana de faltar à verdade por temor que essa mesma verdade possa magoar, desiludir alguém a quem que se quer, por receio que o conhecimento de certo acto ou facto cometido acarrete perdas de confiança, de respeito, de admiração, de amor, de imagem e notoriedade.
Falo tanto de actos ou factos menos próprios e conformes aos projectos e comprometimentos assumidos e em que o outro confia e segue, como, e especialmente, àquelas acções menos conseguidas ou frustradas que se saldaram em fracassos, cuja revelação poderia perigar o equilíbrio da imagem no pedestal.
É muito ténue a linha que, relativamente à mentira medo, a faz ser um acto indigno e cobarde, ou a converte, ao invés, num acto compreensível e, até, recomendável.
Aceitamos o pressuposto de que todos erramos, todos falhamos, todos caímos. O que está em causa é saber se devemos ou não partilhar esses maus momentos ou, pelo contrário, não só silenciá-los, como negá-los se nos forem imputados ou suspeitados.
Trata-se, evidentemente, de uma matéria delicadíssima, em que penso dever ser a sã consciência a ditar a actuação que em cada caso deve ser assumida. Só um verdadeiro, honesto e corajoso exame de consciência nos pode ditar se o bom caminho é a verdade pela confissão, ou a mentira pela negação ou omissão.
E entre outros, esse exame de consciência terá de ajuizar a importância que o erro teve para o próprio, a sua real dimensão, a força das suas causas, as circunstâncias do seu sucedimento, o impacto para o futuro, a sua reparabilidade, ignorando corajosamente, por outro lado, as consequências que a divulgação desse erro importará para o outro, e para a relação entre ambos.
É este julgamento de nós próprios que somos chamados a fazer
Se a conclusão do julgamento for no sentido da constatação de que esse erro, essa queda, essa violação, é grave em si mesma e para si próprio, porque tem efeitos, impactos, dimensão, se sente como consequência ou detonador de modificações, então a mentira medo é cobardia e ignóbil. Porém, se o resultado for que esses percalços foram isso mesmo, meras inerências à frágil condição humana, que foram apenas pó da estrada, então a mentira medo é justificada.
Neste quadro importará, talvez, ponderar três aspectos: primeiro, a expiação de erros é um processo que, se for honesto, é lento e doloroso, não sendo legítimo ir às pressas buscar a absolvição pelo perdão de quem magoámos ou lesámos, sobretudo porque ao fazê-lo passamos sofrimento e angústia ao outro; segundo, ninguém por mais íntimo que seja quer saber tudo sobre o outro, dispensa de bom grado a partilha de certos episódios marginais e inconsequentes; terceiro, o insucesso, se justificado, não tem por efeito a queda do pedestal, pelo contrário, origina mais união, alento e incitamento para o futuro.
Resta-me a mentira ânimo, à qual o espaço já consumido neste texto só me permite uma breve referência.
A mentira ânimo é aquela que assumimos para ajudar o outro, para o entusiasmar, para reforçar as suas expectativas e esperanças, para fortalecer a convicção nos seus empreendimentos, para lhe afastar medos, angústias e outras aflições. É aquela que proferimos para sermos o espelho que reflecte a imagem que o outro quer e precisa ver.
Com parcimónia e propriedade é indispensável, em exagero e constantemente é um erro de alucinação do outro.

ATM

03 junho 2009

Largo da Boa-Hora

Quem já viveu a despedida irreversível, o adeus definitivo, a partida sem regresso, sabe que nesses tempos de cisão, de separação, de perda, irrompem impetuosamente e coexistem múltiplos sentimentos, pensamentos e memórias, formando, o seu conjunto, um intricado e complexo acervo que caracteriza e individualiza a passagem pessoal de cada um por esses acontecimentos.
Confrontando a minha experiência com a de outros que comigo partilharam situações de perda, reconheço e identifico alguns sentimentos que são comuns a todos e que predominaram no durante e, sobretudo, no depois dos acontecimentos.
De entre esses denominadores comuns destaco o remorso, em especial aquele gerado por silêncios e omissões, e não tanto por acções ou afirmações.
Efectivamente, sente-se culpa e arrependimento pelo que não se fez ou não se disse, em surpreendente preponderância sobre a contrição por actos praticados ou ditos proferidos.
Na verdade, não é o mal que se fez que corrói, mas o bem que se omitiu que consome. Porque efectivamente, na maioria dos casos, as pessoas não exercem a maldade, o que sucede é que omitem a bondade.
Na ocasião do fim da estrada, em que os peregrinos se perdem e se separam para sempre, num ápice de recordação e culpabilidade dolorosa, vem o amargo das palavras que foram caladas, dos olhares opacos, dos abraços adiados, dos beijos reprimidos, dos afagos preteridos, dos acenos esquecidos. Em suma, do amor aprisionado numa interioridade teimosa e orgulhosamente não declarada, oferecida e partilhada.
O que me importa neste texto não é propriamente dissecar o luto da perda, mas antes, a partir de uma constatação da sua essência - o remorso – apelar a uma vivência anterior que evite, ou pelo menos mitigue, que o arrependimento seja par no cortejo de dor e infortúnio que segue o adeus.
Vejamos pois.
A perda de entes queridos sobrevém, ou pela morte física, ou porque deixaram de ser queridos para nós, ou porque nós deixámos de ser queridos para eles.
A morte, essa, é inelutável e imprevisível, escapando por definição ao domínio da vontade humana.
Sobre o epílogo da vida nada podemos fazer, e para este texto este fim importa, porque sendo condição extrema de separação, é a ocasião de remorso em que a generalidade das pessoas incorre, e em cuja teia é justamente apanhada.
A morte surpreende-nos sempre, surge abruptamente, vem sempre na véspera do justo tempo.
Este desfasamento entre o tempo da realidade e o tempo conceptualizado decorre da nossa repulsa ao efémero, radicada na irracional crença da perenidade do que é, portanto, na imortalidade.
Ilusão de perenidade que nos leva ao adiamento do ser, do dizer e do fazer.
Concedemo-nos prazos e amanhãs como se fossemos divindades, e com essa concessão somos surpreendidos pela chegada da hora, com a mesma infantilidade e inconsciência da criança preguiçosa, espantada pela chegada do exame, após ter gasto o tempo de estudo em folguedo.
Prudente e sábio é aquele que não confia em amanhãs e rompe hoje, com toda a urgência, o muro de silêncios e o deserto de omissões que povoam a sua relação com o outro, desconfiando sempre que adiar pode tornar tudo tarde de mais.
Admito, aliás, que no chamado leito de morte se possa obter, em derradeira instância, o perdão por actos praticados, se consiga a generosa e pacificadora absolvição de quem parte pelo mal que foi feito, mas já não estou tão certo que esse perdão possa recair sobre uma vida que, não tendo sido vivida, condenou outra a também não o ser, tantos foram os silêncios e omissões que as preencheram. Apagar “instantaneamente” um erro é possível, mas reconstruir décadas de “nada” será, provavelmente, uma ficção impossível, mesmo para o mais bondoso.
Deixando a morte, abordemos os actos entre vivos
O silêncio e a omissão corrompem, minam e destroem os alicerces de qualquer relação.
A ausência e vazio entre presentes fisicamente é mais destruidora e arrasadora do que a distância real que se possa interpor entre duas pessoas.
A mera justaposição, as rotinas do estar e acontecer, o conformismo de uma realidade estagnada como água de lago camarário abandonado, são as causas reais da deterioração da relação.
O fim do princípio sucede quando nos surpreendemos - mas passamos a aceitar - o automatismo da vivência, o quando e como nos tornámos para o outro em peça de uma engrenagem comprometida a um funcionamento mecânico de sobrevivência e subsistência, incluindo de imagem e figurino.
O princípio do fim ocorre quando um dos dois, em inoportuna lucidez, conclui que tudo se resume a um continuar por continuar, a um caminhar, passo após passo, sem felicidade, prazer, desfrute, ideal ou esperança nesse roteiro.
E estes desencontros, estas dissonâncias, estes distanciamentos, pior e no limite, estas (des)intimidades, estas (des)cumplicidades, este estranhamento do outro são, regra geral, resultado do silêncio e da omissão que passou a ser dominante.
Na verdade, a essência dos protagonistas não se alterou. Porém, as palavras de amor, de ternura, de confiança, de compreensão, de sonho, de confissão, de esperança, de medo, de valorização, de exaltação, de importância, de ansiedade, de desafio de... e de… que unem, cimentam e criam a verdadeira e permanente aliança, passaram a ser omitidas, deixaram, pura e simplesmente, de ser ditas.
Quando se queriam permanentes, actuais, constantes, oportunas, em cada fase e momento da vida, porque cada quotidiano reclama o compromisso de partilha plena de tudo o que nos vai na alma, para não sobrarem destroços que, em se acumulando em solidão, acabam por formar uma açude, uma barreira, um muro, que obstrui, reduz e acaba por eliminar a fluidez indispensável para a mesma seiva alimentar a mesma planta, sendo que é este o compromisso do amor, que assim vai sendo negado e que acaba por soçobrar.
Estes silêncios não são gerados pelo desamor ou desencanto, ou grandes desencontros. São gerados porque a desconfiança, o medo, a preguiça, o excesso de confiança os recomendam ou consentem, e a vergonha, o pudor, o temor do ridículo, da revelação da verdade, da frustração perante a vida acabam por os impor.
Do mesmo modo, e no mesmo sentido, sucedem as omissões de actos. Falo de manifestações e expressões físicas que corporizem as palavras que deviam ser ditas e que as securitizariam, complementariam e demonstrariam, cuja ausência deixa um vazio de gestos, impossível de suportar, compreender e aceitar.
Ora, este silêncios e omissões minam e corroem os alicerces, expondo-nos à vulnerabilidade de qualquer agressão externa, que funciona apenas como detonador para a pólvora que essas lacunas constituem.
Nada nem ninguém destrói uma relação, apenas detona o explosivo em que ela se converteu, e sucede a implosão. Um “amo-te”, um “preciso-te”, um “quero-te”, um olhar, um sorriso, um carinho, um abraço, um beijo, acontecidos no tempo e modo do outro, e de nós próprios, tornariam esse detonador em mero estalido de carnaval…
E o melhor é que a minha fé, neste sentido, não exige heróis, nem vencedores, nem estrelas, apenas homens e mulheres sensíveis, atentos e conscientes de que o amor não é um título, uma qualidade, um direito, uma propriedade, mas um estado de graça, que, pela palavra e pela acção, tem de ser vivificado e fortalecido permanentemente. Acredito na dinâmica e sei que a estática liquida.
P.S.: Tudo o que vem dito é para mim válido para qualquer amor, seja ele conjugal, parental, filial e para qualquer afecto, como a amizade ou o companheirismo.

ATM

27 maio 2009

Largo da Boa-Hora

Há dias assim, em que somos tomados pela tristeza, encarcerados na melancolia, abatidos pelo desânimo.
São dias negros, cujo breu cobre e cega os nossos olhos, de nada valendo o esforço do sol para nos devolver a luminosidade, ou o azul do céu para nos serenar.
Sentimo-nos prostrados na enxovia da infelicidade, em tormentosa solidão que nenhum carinho consegue apartar.
Tudo nos surge como vão, inútil, despiciendo, inconsequente.
São as trevas em que caímos.
Estes dias de agonia surgem como resultado de certo percurso que tentarei denunciar nesta reflexão, como alerta à navegação.
Normalmente, as “trevas” só ocorrem em tempos de vazio de acontecimentos, em momentos nos quais a vida crucial está omissa, suspensa, ou seja, quando não estamos absorvidos, dedicados, consumidos, em relevantes feitos ou dolorosos tormentos.
Os eventos importantes, sejam positivos ou negativos, determinam-nos à reacção, ao confronto com eles, ao seu desfrute ou combate. A respectiva iminência e vivência esgotam a disponibilidade e a capacidade de todo o nosso ser, não havendo distracção possível.
Como animais que somos, essa ocorrências, de gratificação ou de agressão, são nexo de causalidade para a acção, e não para o processo que é pressuposto do estado de “trevas” que abordo.
Mas esse hiato, essa falta de acontecimentos ou desafios relevantes, não é, em absoluto, suficiente, pois a regra é os tempos de vulgaridade e rotina decorrerem serenamente, em paz, sem vislumbre das garras das trevas. O intervalo é condição necessária, mas não bastante.
O que passo a descrever é algo de complexo, mas que acredito sucede efectivamente, pois cada um de nós é intérprete dos mais extraordinários processos de vivência psicológica, os quais ocorrem quando e onde menos se podem esperar, e a que nenhum de nós está imune.
Assim, o primeiro passo para as “trevas” é acontecer-nos um episódio de metamorfose, em que, durante esse episódio, nos transformamos de seres sociais, originados e vocacionados para os outros, em entidades isoladas, como ostras fechadas na sua concha. Quebramos todas as amarras com os outros, despojamo-nos deles, ignoramos a sua existência, função, importância, apagamos sentimentos, afectos, compromissos, num percurso egocêntrico que culmina com o olhar, o confronto exclusivo de eu próprio comigo mesmo, numa solidão absoluta.
Concluído esse desprendimento dos outros, segue-se o segundo passo, que consiste em dividirmos o eu em dois, em que um deles será o observado e o outro observador. Acontece, pois, um desdobramento, em que do uno resultam dois entes: um é destinado a jazer na pedra fria da mesa de observações e o outro a assumir-se como o catedrático patologista que autopsiará o primeiro.
O terceiro passo será, pois, a autópsia, cujo resultado, antecipo desde já, será inevitavelmente a queda nas “trevas”.
Com efeito, o catedrático observador vai adoptar critérios de análise científicos e objectivos, desconsiderando qualquer circunstância específica e particular do observado. Vai seguir cânones de avaliação desumanizados, no sentido de não atinentes ao caso concreto em observação, mas sim conformes à teoria geral e pelo uso da razão pura.
Como tal, todas as imperfeições, defeitos, incapacidades, erros cometidos, falhanços, oportunidades perdidas, frustrações do observado são identificadas, descritas, denunciadas, severa e implacavelmente, originando um relatório condenatório demolidor, porque a sua objectividade não consente o respectivo enquadramento nas circunstâncias específicas, reais e históricas em que sucederam.
Do mesmo modo, as virtudes, aptidões, talentos, potencialidades e outras benesses, são objecto de igual tratamento, culminando com o confronto entre o que teria ou deveria ter sucedido e o que sucedeu de facto; entre a obra que poderia ter sido e a obra feita, sendo evidente que o juízo é necessariamente negativo, pois o conseguido fica, em todos nós, muito aquém do potencial de realização.
Ora, no fim desta sessão, o eu faz o caminho de reunificação no uno e de reencontro com os outros e depara-se, confronta-se com um relatório sobre si mesmo, sobre a sua vida, sobre o seu caminho, que o arrasa e condena por acumulador de erros e falhanços, esbanjador de oportunidades, e artífice de obra pequena e banal, senão mesmo medíocre.
É então que as trevas lançam as garras e arrastam o eu para as suas profundezas.
Sofre-se por um passado demasiadamente maculado e improdutivo, desdenha-se o presente por insignificante e irrisório, e teme-se o futuro por se antever continuidade do mal que é o todo.
No fim, e a culminar, tem-se saudades de si próprio.
Tristeza mais profunda não há que a provinda desta descrença em si mesmo.
Este texto é uma tentativa de encontrar a “chave” para explicar certos estados de depressão que, como escrevo, podem radicar no descrito processo de isolamento do eu, na sua “desconstrução” e subsequente sujeição a julgamento cego, demasiado crítico, exigente, baseado em paradigmas e postulados, fora do enquadramento na realidade que é cada um de nós, com as suas vicissitudes e circunstâncias próprias.
Para mim, tento evitar estes caminhos, radicais, perigosos e opressivos. “Não me desconstruo”, antes, sem prejuízo do constante exame de consciência – que é coisa diversa – procuro aceitar-me e conformar-me com as minhas misérias e grandezas, pecados e virtudes, erros e méritos, confiando que a vida é sempre mais leve, doce, suave e boa do que esses “exames” a mostram, porque o amor, o perdão e a esperança permitem-nos o reerguer quando caímos, a tolerância, a benevolência e a bondade avaliam justamente a obra feita, e a fraternidade, a solidariedade e a sabedoria apontam o bom caminho para o futuro.

ATM

20 maio 2009

Largo da Boa Hora

Estou indignado, revoltado e furioso.
Não aceito e não me conformo com certos factos que sucedem, e cujo acontecimento revela toda a bestialidade que teima em continuar a existir no ser humano e na sociedade que o enquadra.
Os factos são simples de enunciar. Num quadro de triângulo amoroso protagonizado por certa actriz muito popular, foi assumido por uma senhora uma continuada relação amorosa com o “companheiro” da primeira, tudo com mediatização plena, incluindo transmissão em directo pela TV da dita confissão e publicação nas capas das revistas da especialidade e jornais diários generalistas.
Até aí, ainda que não compreenda esse mundo e não aceite os seus valores, reconheço que o desfasamento é meu, pois tudo isso é parte de um “mercado” poderoso e com múltiplos interesses envolvidos.
É a feira das vaidades no seu melhor (ou pior), que todos conhecemos. Toda essa bisbilhotice faz parte do show business, por muito que tal fira conceitos e valores relevantes. São as regras de um certo jogo que, de modo consentido e consciente, os protagonistas aceitam jogar, como inerência aos seus objectivos profissionais, sociais ou outros.
É a cave que se paga para jogar o jogo da fama, é a franquia que se suporta para a popularidade.
No caso concreto, os ingredientes não podiam ser mais do agrado da populaça que consome o “produto”, pois estava lá todo o necessário à escandaleira que entusiasma, agrada e satisfaz a turba: amor, traição, ciúme, mentira, sexo, depressão, ruptura, arrependimento, reconciliação, vingança, e tudo o mais.
Sórdido, mas real show como parece que tem de acontecer para que o espectáculo siga continuando. Aliás, estas badalações nunca têm efeitos nos próprios, porque socialmente são ungidos com o direito aos maiores dislates, cambalhotas e desfaçatezes. Podem fazer o que bem quiserem que são sempre compreendidos, aceites, absolvidos e recompensados, desde que mantenham a produção de notícias escaldantes e, se possível, algo escabrosas, para deleite dos fieis que seguem as suas vidas, com laivos de patologias psicológicas que dariam crónicas e mais crónicas aos especialistas.
Portanto, até aqui não haveria nada de novo que me pudesse transtornar e determinar a obrigação cívica, moral e intelectual deste escrito
Porém, após a confissão televisiva da referida senhora, sucedeu o inaceitável e horroroso.
Certos “media”, especializados na matéria, procederam a uma investigação à vida daquela que confessou ser a amante do companheiro da diva, e, pelos seus critérios, saiu-lhes de facto o totoloto, pois descobriram que a senhora exerce a actividade de prostituta, sendo aquela que se anuncia como a “Tia de Cascais” nos anúncios de prestação desses serviços publicados nas páginas dos jornais .
Sem hesitar, publicaram sofregamente a descoberta, em grandes parangonas e com honras de primeira página, com todos os detalhes, incluindo os termos do agenciamento e conclusão dos negócios, preço e natureza dos serviços prestados, tudo sempre enquadrado pela fotografia da senhora, em grande plano, e com indicação do seu nome completo.
Para não haver dúvidas da eficácia assassina, o povo ficou a saber tudo, e foram-lhe fornecidos, à exaustão, os elementos identificadores da senhora, por forma a que jamais a megera possa passar desapercebida onde quer que seja. Conhece-se o que faz, a cara e o nome.
Satisfeitos com a missão cumprida, de consciência tranquila pelo serviço público prestado… liquidaram, assim, uma pessoa.
Tudo isto já é mau demais para ser verdade, e não é preciso o meu escrito para repudiarmos estes linchamentos públicos animados de revanchismo e ódio.
Mas, o que dói e revela a bestialidade e crueldade de todas as pessoas que participaram neste linchamento, e que ufanamente se consideram jornalistas, é o facto de a senhora ter três filhos menores.
Crianças e adolescentes cujas vidas ficam irremediavelmente afectadas pela crueldade exercida sobre a sua Mãe.
Crianças e adolescentes que ficam maculados para sempre com o anátema, o opróbrio, com a marca a fogo de, publicamente, a sua Mãe ser denunciada, escarnecida, acusada de ser prostituta.
Nenhuma das bestas que executou e consentiu no plano de denúncia da senhora pensou nos filhos desta e nos catastróficos e irremediáveis danos que lhes seriam causados.
Estes monstros insensíveis não hesitaram em sacrificar três crianças. A sede de vingança, de aniquilamento, impôs-se ao respeito pelos filhos, à recusa em fazer vítimas indefesas, à degola dos inocentes.
Pergunto-me: como se sobrevive à capa sucessiva de jornais em que a Mãe é identificada com fotografia, nome completo e, depois em título, que se trata de uma prostituta?
Como enfrentarão estes filhos a vida? Como superarão a humilhação, a vergonha, a dor? Como lidarão com a diferença e discriminação? Como ficará a relação com a sua Mãe? Que sentimentos se modificarão, se extinguirão ou nascerão?
Três crianças são vítimas de uma tragédia que só a maldade, mesquinhez, irresponsabilidade e crueldade dos vampiros e abutres de certo jornalismo determinaram.
Recuso-me a não denunciar, protestar e acusar esses autores de um crime gravíssimo de violência e abuso sobre menores, exigindo a sua severa condenação nem que seja neste Blogue, já que outros parecem não querer saber.
Este texto é um manifesto de defesa dos menores que, constantemente, são violentados e abusados, até, como é o caso, por razões absolutamente fúteis e desproporcionadas, sem interesse nenhum, sem justificação ou desculpa possível.
Que fique bem claro, para que não haja confusões, que não isento de responsabilidades a Mãe, que criou a situação e as condições para o seu aproveitamento; reconheço-lhe, igualmente, culpas maiores. Mas a loucura, oportunismo, depravação, ou seja o que for da senhora, não podiam ser aproveitados por pessoas – jornalistas – a quem se exige clarividência, exercício de valores e respeito de limites, que neutralizem ou temperem a irresponsabilidade, insanidade, perturbação, distúrbio patológico ou outros, das pessoas. A honra e deontologia da profissão de jornalista importa o respeito e a consciência dos efeitos, não se aproveitando ou abusando dos fracos ou incapazes.
Espero que compreendam porque divergi do teor que normalmente adopto para estas crónicas do Largo da Boa-Hora, mas a consciência impõe a denúncia, a manifestação de revolta contra a barbárie. É o que faço.

ATM

06 maio 2009

Largo da Boa - Hora

Segunda de Duas

Consumiu-me uma semana completa de trabalho, mas, aqui estou, sentado no meu banco, a examinar o meu produto, precisamente o antivírus que desenhei para os “agressores” que mais comummente e danosamente afectam o sistema operativo do ser humano e que, recordo, foram: o desânimo, o pessimismo, o conformismo e o fatalismo.
Apesar de artífice amador, e porque detesto a falsa modéstia, reconheço que estou satisfeito com o meu produto, já que, apesar de rudimentar e simples, parece-me eficaz e pronto para ser testado.
A técnica que usei foi a de construir uma firewall, que funciona como uma barreira virtual que impede a entrada dos indesejados intrusos, e que, como qualquer muro, é constituída por um elemento maciço, compacto, sólido, e pela argamassa que preenche as frinchas que sempre sobram no assentamento.
O elemento maciço que é a barreira consistente e intransponível para os intrusos é a Liberdade.
Instalar a Liberdade no nosso sistema operativo e nas nossas aplicações é obrigar-nos a sermos e agirmos livremente, consoante as leis da nossa natureza, da nossa vontade e dos nossos sonhos. É recusar a coacção, as imposições, os impedimentos, os constrangimentos. É determinar a vida pelo uso da nossa razão, da nossa consciência, dos nossos sentimentos, da nossa emoção, da nossa fé.
Instalar a Liberdade obriga-nos a ser e a viver por nós próprios. Cada acção, actividade, realização que de nós dependa como autores é precedida da formação de um querer, resultado do livre exercício daquilo que realmente somos e pretendemos, e de nada mais, de modo totalmente liberto.
Este poder/dever de sermos livres e de actuarmos como tal responsabiliza-nos na maior das medidas, precisamente como criadores de nós próprios, das nossas vidas.
Somos artistas que recebemos uma tela em branco, chamada existência, para desenharmos e pintarmos, indelével e definitivamente, um quadro chamado vida. As tintas são os talentos e limitações recebidos, as oportunidades e impossibilidades surgidas, as condições e omissões proporcionadas. Os pincéis são os meios, os recursos, os instrumentos com que vamos sendo dotados ou privados. A inspiração são as pessoas, os ideais, os valores, os desejos, os factos, os actos, os acontecimentos, os surgimentos que vão povoando os nossos pensamentos, sentimentos, emoções, alma e fantasia, mas a mão que cria a obra, que a pinta, essa, é conduzida, guiada, ditada exclusivamente pela liberdade que é o supremo crivo da afirmação.
Que cada um pinte o seu quadro, mas esse quadro somente será o seu, se a mão que mistura as cores na paleta, trabalha os pincéis, desenha e colora for uma mão, indiferentemente forte ou fraca, firme ou trémula, decidida ou hesitante, mas sempre, e necessariamente, uma mão livre.
A existência (a tela) é-nos dada para nela pormos uma vida (o quadro). Tudo termina, mas só termina, quando a obra estiver acabada e cada um de nós pendurar o seu quadro na galeria da história, afastando-se o suficiente para o observar como obra completa, a sua, e depois, tranquilamente, cerrar os olhos, deixando assim o seu contributo na infinita parede desse museu onde, assim, vai ficando o percurso da humanidade.
Pintar o quadro (concluir uma vida) é, pois, um dever, uma obrigação, um necessário, mesmo imprescindível, é a superior distinção perante a bestialidade, a irracionalidade, a inutilidade.
Ninguém pode eximir-se a esse dever, e esse quadro jamais será uma obra se não for expressão de liberdade. Expurgue-se, pois, o que corrói e destrói essa liberdade, designadamente o desânimo, o pessimismo, o conformismo e o fatalismo, que são a negação, a contradição desse requisito e critério de mérito.
Todo o quadro inquinado por esses vírus não é uma obra de autor e não tem, portanto, lugar na galeria da história onde as obras de autor vão sendo afixadas desde sempre e para todo o sempre, como testemunhos da humanidade.
Como disse, a firewall é composta pela parte maciça - a Liberdade - e pela argamassa que preenche as frinchas do assentamento. Esta argamassa é muitíssimo importante, porque é indispensável para garantir a consistência e o isolamento pretendidos, sendo constituída por fragmentos devidamente tratados do sólido principal. No caso concreto, pelo uso de cada uma das letras da palavra Liberdade.
Vejamos, pois, a argamassa.

L – lealdade. Um compromisso connosco próprios, com os outros e com os nossos ideários. Cumprir a lealdade exige prestar contas, impedindo assim que a liberdade se torne arbitrariedade, discricionariedade, capricho, e vedando a entrada das nefastas patologias da alma que pressupõem, todas, um focar exacerbado do indivíduo sobre si próprio, como centro do mundo.
I - independência. A liberdade isenta, desinteressada, imparcial, que nos isola das patologias que nos querem agrilhoar a destinos predeterminados, a subserviências.
B – bondade. A liberdade exercida com uma disposição para o bem, para a compreensão, para a tolerância, para a solidariedade, e que nos isola do alheamento e da indiferença, nos impede de não sentir pelos outros e agir em sua defesa ou auxílio.
E – esperança. A liberdade para o presente, mas com confiança e projecção no futuro. Faz a ponte necessária entre o hoje e o depois, impedindo uma liberdade desanimada e irresponsável, repentista e imediatista, sorvida no ”agora e já”, e que nos isola das patologias que negam ou desprezam a possibilidade do raiar luminoso do advento.
R - redenção. A liberdade destemida, corajosa, valente porque afasta o irreversível, o definitivo, deixa espaço e cabimento ao erro, dada a recuperabilidade do passo em falso, e que nos isola das patologias que cerceiam e descrêem o recomeçar, o reerguer, o refazer.
D – dedicação. A liberdade voluntariamente vocacionada para o servir de valores, ideais, sentimentos, pessoas e obras, e que nos isola das patologias que nos conduzem ao “autismo” e desinteresse, até de nós próprios.
A – Amor. A liberdade, a verdadeira e única liberdade, já que onde existe amor jamais o prato da balança do mal prepondera sobre o prato do bem, e é tão forte que não só nos isola de todas as patologias, como nos anula tudo quanto possa haver de negro em nós próprios.
D – Determinação. A liberdade em ordem à realização, à concretização, ao conseguir, ao atingir de metas, de objectivos, a converter sonhos em realidades, projectos em obras, e que nos isola das patologias que nos reduzem a cata-ventos inconsequentes.
E – Encantamento. A liberdade dirigida ao belo, ao fantástico, ao emocionante, ao sublime, ao sonho e fantasia, ao irreal, e que nos isola das patologias que nos consomem em tédio, rotina, fealdade, desmerecimento e desencanto.

Eis, assim, apresentado o meu produto antivírus. Vou fazer o download. Haverá alguém que me acompanhe?

ATM

29 abril 2009

Largo da Boa-Hora

Primeira de Duas

Hoje, aqui sentado no meu banco, tomei uma decisão que é arriscada, inovadora e experimental, mas da qual espero colher os maiores benefícios, e que partilho convosco para, se resultar, me acompanharem.
O meu projecto é adoptar em mim tecnologias da informática que tão bons e eficientes resultados proporcionam nos computadores, conforme todos constatamos.
Assim, decidi instalar em mim, pelo adequado download, um antivírus que imunize o meu hardware (alma, cérebro, coração) e o meu software (aplicações emocionais e racionais) contra ataques dos vírus mais ameaçadores para a sua estabilidade e performance, quer impedindo a sua entrada no meu sistema, quer neutralizando eventuais infecções já provocadas.
Como é sabido, a aplicação destas tecnologias ao ser humano ainda não foi tentada, quanto mais testada, mas eu arrisco a ser cobaia.
Ora, a primeira tarefa é delimitar, na panóplia dos vírus existentes, quais os elegidos para lhes impedir o acesso e expurgá-los do sistema se por acaso já passaram.
Como é sabido, não existe, ainda, no mercado, o produto de que falo, pelo que tenho eu de construir a aplicação a instalar, a qual será assim artesanal, protótipo, e, porque não sou especialista, muito limitada no seu alcance.
Acresce que não saberia cobrir todo o espectro dos vírus danosos, nem arriscaria ir tão longe na introdução experimental de tal novidade no meu sistema, porque certa cautela e prudência são mais do que recomendáveis, desconhecendo-se, como desconheço, os efeitos colaterais e demais sequelas possíveis destes caminhos nunca dantes navegados.
Tudo meditado e sopesado, e privilegiando as urgências e importância nociva, elegi como vírus alvo, a interditar ou expurgar, o desânimo, o pessimismo, o conformismo e o fatalismo.
Aqui começam as dificuldades deste artífice informático. É que tenho, primeiro que tudo, de caracterizar cada um dos elencados vírus para incorporar no programa o respectivo antídoto. Vamos, pois, lá tentar.
Desânimo, patologia da alma, que provoca no sujeito desalento, abatimento, esmorecimento, gerando uma incapacidade de acção e reacção para enfrentar a vida e as suas dificuldades. Em casos extremos reduz o ser humano, por excesso de inércia e inactividade reactiva, à condição de autómato, apenas capaz de agir e reagir a estímulos básicos e necessidades vulgares, decorrentes da mera sobrevivência. Importam consigo, sempre, o apagamento da alegria, da vontade de fazer, da confiança em conseguir alcançar, ou pelo menos de cair a lutar, a tentar.
Arrastam-se em quotidianos de tédio, em que está indistinta a distinção de si mesmos, engrossando caudais de seres que, por causa nenhuma, seguem os mesmos caminhos, na mesma ordem das coisas banais e vulgares, como que agrilhoados a um não destino qualquer, pois todos são indiferentes.
Pessimismo, patologia da alma, que provoca no sujeito a convicção profunda, a certeza absoluta de que no itinerário da vida o mal prevalece sobre o bem, o mau sobre o bom, o desamor sobre o amor, a dor sobre a felicidade, o infortúnio sobre a boa ventura, o insucesso sobre o êxito, a ruína sobre a edificação, a frustração sobre a obra, o pesadelo sobre o sonho. Em casos extremos reduz o ser humano, por premonições e visões dantescas, à condição de apavorado, tolhido e transido de medos e maus augúrios, mortificando-se por antecipação de sofrimentos certos, que lhes cobrem a alma com mantos pesados e negros de luto, e lhes encovam os olhos num negrume de breu. Arrastam-se em quotidianos que são cortejos fúnebres de um constante enterramento da vida, lamuriento e lúgubre.
Conformismo, patologia da alma, que provoca no sujeito a aceitação incondicional e reverente do actual estado das coisas, do se ser o que se é, do se sentir o que se sente, do se desejar o que se deseja, do se estar onde se está, do viver o que se vive e como se vive, numa renúncia e abdicação conscientes e voluntárias à alteração, inovação e até revolução, se necessário. Em casos extremos reduz o ser humano à condição de amorfo, de discípulo obediente acrítico, de subserviente da ordem e estado das coisas tal como configurados, formatados, no tempo em que vão passando. A vontade própria, privada que está do alimento do sonho, da imaginação e fantasia, do projecto, da ambição e desejo, esbate-se e dilui-se até se liquefazer em curso para uma qualquer vala comum.
Arrastam-se em quotidianos que são cortejos de cegos que recusam ver o sol e o horizonte, apenas lhe importando a corda guia que, estendida pela hierarquia e poder, lhes vai atando os caminhos.
Fatalismo, patologia da alma, que provoca no sujeito o convencimento da sua impotência para influenciar o curso dos acontecimentos, de modo que o destino de cada um, por mais que se faça, está fixado “a priori”, e seguirá inexoravelmente essa determinação, desacreditando-se, assim, a autodeterminação como expoente da condição humana, cujo exercício, na verdade dita, ou pelo menos influencia, decisivamente o futuro de cada um. Em casos extremos, reduz o ser humano à condição de testemunhas de si próprios, com abdicação de criadores de si mesmos, numa deprimente troca do lugar no palco pela cadeira de plateia, de intérpretes da sua vida passam a espectadores de uma vida que, por pormenor despiciendo, até é a sua. Desacreditando na sua vontade, esclarecimento, coragem, inteligência, capacidades, talentos, vontade, sonhos e desejos, desprendem-se de si próprios, largando o seu destino ao sabor das correntes, marés e ventos, como coisa que lhes não pertence guardar, definir e seguir como coisa própria. Quando se entrega o destino à discricionariedade do que está escrito nos astros, vai também, nessa entrega e desprendimento, a alma, que existe precisamente para animar a escolher e cumprir o que se decidiu livremente ser. A alma é o sopro, o vento, que enfuna as velas da nossa barca no rumo que o homem do leme lhe deu.
Arrastam-se em quotidianos que são cortejos de bruxos e adivinhos, astrólogos e magos, curandeiros e adivinhadores, curiosos e dedicados a descobrirem e lerem o que sabem já estar escrito no futuro, desprezando nessa ânsia o presente que vai passando e que não vivem na ganância da antecipação.
Escolhidos os mais ameaçadores vírus, e descritos sumariamente (desânimo, pessimismo, conformismo e fatalismo), cabe agora a este aprendiz de feiticeiro informático desenhar o antivírus, coisa que farei noutra jornada de trabalho, que o Sol vai alto e o tempo de estada neste Largo por hoje terminou.

ATM

22 abril 2009

Largo da Boa - Hora

Este meu Largo está luminoso, ensolarado. Predomina o azul do céu e a claridade emana das fachadas; esvoaçam os pombos e os pardais depenicam por entre as pedras alvas da calçada, as árvores agitam-se pela força da Primavera que lhes dá vida e movimento. Na calçada desenham-se esguias sombras, os meus bancos retomam o seu sentido, as janelas estão escancaradas a sorver o ar fresco e límpido. As pessoas que surgem já não correm, caminham como em passeio. Enfim, tudo flui na simplicidade e ligeireza dos tempos amenos e primaveris que adoçam e pacificam.
Olho o meu Largo que suportou estoicamente o inverno e que agora se aconchega na ternura da primavera. Sinto-me bem, sinto-me alegre, apetece-me estar a desfrutar esta calmaria, esta serenidade.
Mas não posso ficar, tenho de partir, tenho uma agenda a cumprir. São horas de ir, são sempre horas para qualquer coisa.
Sinto raiva deste viver que não consente momentos de indolência, de recolher o sol, a luz, a cor e os sons que me aquecem, abraçam e embalam, suspendendo-me para me diluir neste quadro que me rodeia, sem mais ser do que uma parte dele e com ele, como se estátua aqui pousada fosse.
Mas não. Não sou, nem nunca serei mais do que inquietação em movimento, sempre em afazeres, sempre em acção, sempre ocupado, sempre em caminho.
A causa de não poder fazer parte de quadro algum, nem que seja por umas horas, está no excesso de coisas, de assuntos, de eventos, de pessoas, de compromissos, de empreendimentos em que nos deixamos envolver e que acumulámos nas nossas vidas.
Sinto-me presa de uma teia de aranha, em que falta sempre suprir um emaranhado de fios para alcançar a liberdade de estar livre de compromissos, de obrigações, de tarefas e prazos a cumprir.
Há sempre um mais a fazer, um ainda a realizar, um último toque ou retoque que impede, adia aquele tempo de dissolução, como inerte, num quadro qualquer de que eu queira fazer parte.
Por vezes apetece-me gritar pelo direito a ser coisa, sem outro fazer do que estar e ficar sem mais na paisagem que quero desfrutar. Ser pessoa cansa…
No fundo, do que estou a tratar é do direito, melhor, necessidade emocional, de existir tempo de contemplação na nossa vida, por contraposição ao permanente tempo de acção em que nos vamos esgotando, sem oportunidade para o primeiro.
Dir-me-ão que o segredo para a viabilização, para a conciliação destes tempos e modos de vida estará na selectividade, na escolha criteriosa das “acções” que assumimos e aceitamos, para que sobeje tempo para a contemplação que reclamamos, para a diluição nos quadros que elegemos, para fazer parte deles como paisagem.
Em teoria, esse segredo, essa recomendação, não terão contradição. Mas, na prática, a sua eficácia já não será tão evidente.
Com efeito, ser pessoa tem inexoravelmente, por inerência, uma série de qualidades (títulos) extra, que se adquirem automaticamente, e que limitam por natureza a possibilidade dessa selectividade.
O primeiro título inerente a ser-se pessoa é o de cidadão. Ora, ser cidadão importa uma série de trapalhadas, trabalhos e burocracias que, além de imensas, a respectiva necessidade de realização se renova logo que está concluída a última etapa (tratado o cartão de cidadão caduca a carta de condução, obtida o cartão de utente da saúde caduca o passaporte, e assim por diante, até ao infinito).
Ser cidadão consome agenda, porque o Estado acalenta uma relação com os seus cidadãos que exige contactos amiúdes e prolongados, havendo sempre, em cada mês, ou até semana, um assunto a tratar conexo com essa relação de cidadania.
Existem, ainda, os subtítulos de contribuinte fiscal e beneficiário da segurança social, os quais, todos sabemos, são assuntos constantes no dia-a-dia da pessoa.
O segundo título que acompanha a pessoa é o de profissional. Ser-se profissional hoje, seja do que for, é um sacerdócio, e não um modo de sustento. Aparentemente, e só aparentemente, somos todos absolutamente indispensáveis, preponderantes, importantíssimos nas organizações para as quais trabalhamos, sendo cada um conditio sine qua non para o respectivo êxito. Com este grau de responsabilidade, até sentimentos de culpa temos por gozar fins-de-semana ou férias, quanto mais não viver nos dias úteis obcecados e completamente comprometidos e disponíveis, a toda a hora, modo e para o que seja.
Como terceira inerência da categoria pessoa, temos o título de consumidores. Arrepia pensar nos trabalhos, diligências, esforços e angústias que consumir bens e serviços importam. Tratar de seguros, abastecimentos das redes públicas, televisão, telemóveis, computadores, e toda a demais panóplia de comodidades e utilidades que nos rodeiam é agenda. E que agenda! Há sempre um pendente, esta é uma constatação sem excepção, e, se incluirmos o banco….então não falhará um dia em que não tenhamos de cumprir qualquer diligência ou tarefa.
E poderia seguir enunciando os demais títulos inerentes à categoria pessoa, como seja o de proprietário, social, etc, etc., mas tal talvez não se justifique, porque já entenderam o meu pensamento sobre a pretensa liberdade de sermos selectivos na escolha do tempo que dedicamos à acção, para sobrar o necessário para a contemplação.
Lamentavelmente, a conclusão é que a pessoa, porque é, em simultâneo, cidadão/contribuinte/profissional/consumidor/proprietário/social/etc, etc, tem os seus santos dias preenchidíssimos para dar conta dos recados e incumbências destes títulos todos, pouco lhe sobrando para a almejada contemplação.
Parece-me irrefutável o que venho descrevendo – acumulamos dever fazer, sem oportunidade para o nada fazer. Mas, e aqui é um paradoxo, apesar de todos sentirmos este excesso de deveres, a verdade é que, inexplicavelmente, ainda complicamos mais as nossas vidas com voluntárias e suicidas sobrecargas de “deveres” que limitam, ainda mais, a nossa liberdade.
Exemplos não faltam: alimentamos dependências como seja a da (des)informação, da televisão, do cinema, do consumismo, ou inventamos necessidades que realmente não temos e que colmatamos com dispêndio da nossa liberdade e tempo.
Sabem, pode ser que não haja outra forma, que a realidade, sendo esta, não possa ser modificada, e que tenhamos de nos conformar., Mas dói, faz pena e até revolta que ninguém veja as árvores crescerem, apenas nos espantamos pelo tanto que entretanto cresceram.
Deixo aqui um desafio que aceito para mim: vou escolher uma árvore pequena e comprometo-me a diariamente gastar alguns minutos a vê-la crescer; vou quotidianamente contemplar esse pedacinho de natureza, em homenagem a toda a Natureza que a agenda me rouba.

ATM



15 abril 2009

Largo da Boa -Hora

Bom dia.

Tudo magnífico.

Regresso de umas férias em Família (restrita) na qual a regra de ouro é concentrarmo-nos recíproca e intensamente uns nos outros, sem cuidar de mais nada que não de nós os quatro.

Por esse compromisso de exclusividade e dedicação não escrevi para o nosso Blogue, tendo tido a condescendência do Editor e Dono do Estabelecimento, JdB. Fico-lhe grato pela compreensão destas prioridades sazonais.

Registo, porém, que ser ausente custa menos quando, como sucedeu, fui substituído por dois textos excepcionais, destacando o de PCP a quem convoco – na medida da minha reduzida autoridade - para escrever sempre e quando quiser em minha vez.

Mas eis-me de volta, sentado no meu banco deste Largo da Boa-Hora, palco de meditação e cogitação, para partilhar, como sempre, o que me vai na alma e no coração (que são coisas distintas).

Como é de supor, o tema elegido não poderá ser outro que não o da concentração existencial de afectos que sucede numa viagem de família.

À semelhança de todos nós, vivo uma vida, sistemática e quotidianamente, apartada do meu núcleo essencial: a minha mulher e os meus filhos.

Todos sabemos e sentimos que o desenrolar de cada dia vulgar separa mais do que une, atentas as tarefas, preocupações e prioridades diárias que se vão impondo.

A vida real atribui, a cada um, um papel quotidiano, uma missão diária que é necessário ser cumprida e que, no melhor, gera uma oportunidade ao fim do dia de balanço partilhado do que com cada um se passou.

Cumprimos o dia-a-dia, com contas do sucedido ao jantar; naturalmente e saudavelmente, aplaudimos o bom, anima-nos o menos conseguido e censuramos o mal que aconteceu. Uma reza, uma palavra, uma ternura, um beijo, a meias com as modernices da comunicação e as invasões dos media, e outro dia se passou…, recolhendo cada um ao seu “coito” de pernoita.

Na verdade, cada jornada não é vivida por todos e com todos. O que acontece, na realidade, é cada um partir na sua cruzada diária, solitária, a fazer o que tem de ser feito, reunindo-se a tribo pela noite, mais para aferir o como individualmente se passou do que para apreciar o como passámos.

Não é, nem está errado, nem sequer pode ser de outra forma. Mas este isolamento, distanciamento, que arrasta todos é um somatório de solidões, e não a conjugação de uma vivência comunal, no sentido romântico, literário e infantil do um por todos e todos por um.

Ora, nestas viagens em que não se consente diverso do que a comunhão plena de estados de alma, de vivências, de quereres, de “ à uma”, a vida é totalmente em grupo, em matilha, em uníssono.

Tudo acontece e vai sucedendo com uma preocupação natural de conveniência e adequação a todos os envolvidos. É a preocupação pelo máximo denominador comum, não serve o que serve a uns, só é querido o que serve a todos, ainda que cada um tenha de condescender um pouco nas suas apetências individuais.

Esta conjunção gera um grupo, cuja existência e identificação como tal traz felicidade, bem-estar, realização, “à uma” entramos e jornamos nos restaurantes, nas lojas, nos museus, nos transportes, nos hotéis, em todo o lado.

Somos “e pluribus unum” e é bom. Confere-nos sentido de família, de história, de presente e futuro, de continuidade, de transmissão de valores, de partilha de presentes, de legado para o futuro.

Estarmos por uns dias concentrados uns nos outros, em exclusividade, em intimidade e cumplicidade, e libertarmo-nos, também, de tudo quanto nos é estranho e que, no fundo, invectivamos, porque no subconsciente sabemos que esse estranho é aquilo que nos separa quotidianamente dos nossos.

Por mim, não tenho dúvidas: o meu lugar é no seio destes quatro que formam o meu bando. Por estas razões quedava-me com eles na gargalhada fácil que brota naturalmente, no afago que acontece, na cumplicidade permanente, na repetida companhia e encontro.

Nestes quadros de conjunção, a realidade do mundo exterior – profissional, social – parece-nos tão longínquo, pouco importante, despiciendo, que até surge como descartável. Não é, só que esta sensação de autonomia e auto-suficiência para a felicidade é realmente gratificante, muito retemperadora, dando-nos ânimo, coragem e até vontade de voltar ao real, na esperança de repetir estes momentos de família e em família, inesquecíveis e marcantes na alma e no coração.

Gostei de Nova Iorque, como gostei de tantos outros lugares que vivi com os meus.

ATM

25 março 2009

Largo da Boa-Hora

Há muito que deixámos de ser tribais, há algum tempo que deixámos de ser comunitários.
A aldeia foi substituída pelo bairro, este pela rua e esta pelo condomínio, e este é tão opaco que a vizinhança se reduz à partilha de elevador.
Vivemos dispersos e separados uns dos outros, com barreiras e distâncias que nos afastam.
Hoje, a amizade, e até a família, exercem-se por marcação, como qualquer outro serviço. É preciso combinar previamente, ajustar agendas, conciliar disposições, tirar a senha para o encontro.
O estar juntos, que antes resultava do casual e natural encontro de quem coincidia nos mesmos espaços e tempos de existência, é agora, para acontecer, um acto premeditado, planeado.
A geografia e geometria separam cada vez mais e, paradoxalmente, com a cumplicidade das novas tecnologias de contacto (intencionalmente não as designo de comunicação) como seja o sms, o telemóvel e o email.
Nunca vi um sms comunicar uma lágrima ou um sorriso, nunca vi um telemóvel desvendar um olhar de ternura ou de dor, nunca um email abraçou alguém.
A comunidade tornou-se um imenso arquipélago, em que cada núcleo familiar restrito é uma ilha, e no qual as águas são tão profundas que é sempre preciso barca e barqueiro para nos visitarmos, e está sempre sob um denso nevoeiro tal que nem consente o irmo-nos vendo à distância de um aceno.
Resultado: abandonamo-nos reciprocamente.
Pergunto-me porque é que as coisas são assim. Não culpo apenas as distâncias físicas que nos separam, busco e encontro outras explicações, que aqui deixo para reflectirmos.
A primeira é que interiorizámos, como paradigma civilizacional, que pouco ou nada precisamos dos outros, e estes pouco ou nada precisam de nós.
Numa lógica de predominância de valores materiais, o “outro” perde importância à medida que vai estando assegurada a nossa auto-suficiência material.
Cada núcleo familiar restrito constrói permanentemente a sua independência, a sua autonomia, a sua capacidade de sobrevivência, com recursos próprios, um ter tudo o que se quer, mesmo que seja algo de uso ocasional ou temporário.
Partilhar teres e haveres não faz parte da actual lógica; o “emprestar”, o “dispensar”, o “dividir”, não fazem parte do modelo da sociedade (que ironia, o sentido da palavra sociedade é precisamente o oposto…)
No mesmo sentido, o apelo aos outros para ajudar num empreendimento já não faz qualquer sentido. Quando antes se chamava a “malta” para ajudar a varar o barco na praia, hoje recorre-se ao mercado, e compra-se a tarefa.
Concorre igualmente para o isolamento a falta de entrega a causas, projectos e acções, comuns e comunitárias, a militância social, cultural, recreativa.
Pertencer-se e dedicar-se a um grupo de teatro amador ou de canto, aos bombeiros voluntários, ao grupo recreativo do bairro, à junta de freguesia, à paróquia, ou ao que seja de todos e para todos, à vivência colectiva, é hoje uma raridade que torna o participante numa “ave rara”, num “carola” ou num “santo”, que não se consegue explicar sem um juízo de extravagância, hoje que nem para administrador do condomínio se consegue encontrar um voluntário…
Tornámo-nos todos egocêntricos com ambições e quereres de auto-suficiência e indiferença ao colectivo. Trilhamos, assim, caminhos de isolamento e alheamento.
Todavia, não nos culpabilizemos demasiado. É que concorrem para estas atitudes, para estes comportamentos de isolamento, a justificada preocupação que a vida de cada um nos origina, a angústia destes dias plenos de preocupações que vão correndo sucessivamente em desgaste e temor do amanhã. Na verdade, há medo e esgotamento, e estes originam a busca do refúgio no núcleo restrito, na “casa” de cada um.
É real a componente da exaustão que marca as nossas vidas, de um cansaço que paralisa e predispõe para a fuga do refúgio da “casa”, sem querer ouvir, ver ou saber de mais nada. Até pelo temor de que o contacto com os outros possa originar mais trabalhos, empenhos e preocupações.
Não é despicienda esta vertente de moral e espiritualmente estarmos a ser consumidos, diria até arruinados, por um sistema, por uma máquina trituradora que sobrevive e se alimenta do nosso esgotamento, da nossa mecanização, do sermos autómatos num quotidiano ditado por um “big brother”.
Para muitos, o bálsamo de cada dia é “não haver problemas”. Para quê procurá-los por via do confronto com os outros, quando aliás nos reconhecemos incapazes, sem ânimo ou força, para ajudar?
Muito do nosso “autismo” actual advém da sensação de já nem forças termos para levar a nossa “canga”, quanto mais as dos outros.
A meu ver, importa inverter este estado de coisas, porque, na realidade, e como desde sempre, nós precisamos dos outros e os outros precisam de nós. Necessidade que se não é premente e actual no domínio do ter, o será seguramente no domínio do ser.
O caminho pode estar no conformarmo-nos com as contingências e limitações modernas, que são inevitáveis pela actual natureza das coisas, sem, todavia, prescindir do objectivo de estarmos uns com os outros. Trata-se, pois, de refundar os paradigmas desse convívio.
Basicamente, prescindir do acessório, do mundano, do convencional e protocolar e retomar a essência do encontro, do contacto.
Redescobrir a autenticidade e simplicidade do convívio, despindo-o de tudo o que é supérfluo para aproveitar e desfrutar o que temos de realmente importante para dar e receber do outro.
Como me dizia alguém, “sentimentalizar” a relação, por oposição à prática da sua “materialização”.
No concreto, falo de inovar tempos, modos e espaços de encontros, proponho passeios por parques e jardins onde estavam cinemas e saídas nocturnas em diversões; proponho tertúlias de conversa ao serão onde estavam jantares em restaurantes; proponho hospitalidade sem mais que dar do que nós próprios; proponho redescobrir a visita como tal, e não como acontecimento social.
Muitas serão as formas de inovar no modo de nos relacionarmos, que serão tão mais gratificantes quanto mais descomprometidas com o “social”, e mais empenhadas no reforço de uma intimidade e autenticidade de partilha.
Voltemos a encontrar-nos como que por acaso. Ficcionemos a imprevisibilidade e deixemos o improviso acontecer.
Mas tal não bastará. Tenhamos presente que estarmos juntos é uma riqueza, é um bem escasso, pelo que teremos que elevar o conteúdo desses momentos, não os desperdiçando com banalidades e vulgaridades, seja de atitudes, seja de pensamentos, seja de comunicações.
Estou certo que nos reencontraremos mais e melhor.

ATM

18 março 2009

Largo da Boa-Hora

Sob o sol primaveril que ilumina o largo e dá ares de talha dourada a este meu banco, pergunto-me qual o maior tesouro da nossa vida, qual o valor mais precioso que nos é concedido.
Considero e pondero, detalhada e cuidadosamente, as várias fortunas de que dispomos, e, depois de muito examinar e peneirar, consigo eleger aquela que é a riqueza superior às demais, a rainha das nossas venturas.
A primeira surpresa deste meu exercício é que não suspeitava que o elencar sistemático e exaustivo dos “activos” originasse um rol tão extenso. Fiquei surpreso com a multiplicidade de “bens” que compõem a nossa vida, assim como com a suficiência formada pelo conjunto: “tanto mar têm os nossos barcos para navegar”.
Também me impressionou quanto a riqueza material se desvaloriza no “ranking”, quando em concurso com as riquezas espirituais. A matéria é pó quando comparada com a essência, com a alma, com os sentimentos.
A rainha das venturas, é haver quem precise de nós. Não me refiro a alguém indeterminado da comunidade, mas a alguém em concreto, a que estejamos ligados por laços de amor. De igual modo, não me refiro apenas a uma pessoa, mas às pessoas que, por causa desses específicos e particulares laços de amor, formam o nosso núcleo existencial.
A grande riqueza é esta certeza, este saber convicto, de que para alguém somos contributo decisivo para o seu bem, para a viabilidade da sua felicidade, para a realização dos seus sonhos, ambições, projectos, e tudo o mais de construção de uma vida.
Do mesmo modo que para esse alguém somos bálsamo, refúgio, ajuda nas tristezas, desalentos, dores e infortúnios, acompanhando derrotas e medos, testemunhando inquietudes e angústias, suavizando remorsos e erros.
Para esse alguém somos espelho que não consente máscaras, dispensa maquilhagens e disfarces, somos procurados para reflexo da verdade, e não camarim de actor.
Para esse alguém somos parte e condição da vivência, da alegria e da tristeza.
Olhar e ver, ouvir e escutar, falar e dizer, tocar e sentir, consumam-se na partilha com esse alguém que nos precisa.
Para esse alguém somos, afinal e sempre, bordão de peregrino na romagem da vida.
Essa utilidade, necessidade, enche-nos de felicidade e encantamento, dá-nos sentido à vida, é estrela polar que marca o nosso norte e empalidece as tantas constelações celestiais que brilham, apontando outras direcções e rumos.
Servir esse alguém é vocação bastante, é missão suficiente para todo o “eu” fazer sentido, para o “eu”acontecer por uma causa e não por mera casualidade.
Sem esse alguém seriámos, provavelmente, seres erráticos, desnorteados, por não ter de quem ser bordão.
E este ser bordão é condição inesgotável, porque a cada nascer do sol se renova a oportunidade de continuar a caminhada. Há sempre um amanhã e há sempre mais caminho, até ao fim da longa jornada.
Nunca a missão está completa, nunca a vocação está saciada, regenera-se no dia-a-dia e essa continuidade é, por natureza, a fonte da tranquilidade.
Trata-se de uma dependência desejada e consentida, fruto de uma reciprocidade de eleição do bem mais precioso, com a assunção de que amar é querer ser o bordão do outro, e desejar que o outro precise que nós sejamos o seu bordão.
Muitas formas existem para definir o amor, para o demonstrar e para o viver quotidianamente.
Este texto é sobre o amor, tendo seguido uma dedução que me conduz à definição que o amor é, metaforicamente, ser eleito o bordão do outro, que é, reciprocamente, o nosso bordão.
Focando-nos agora e exclusivamente no amor entre pares (deixemos, pois, o filial, parental, fraternal, em que somos bordões por tempos ou ocasiões) três notas finais completam o quadro que quis esboçar.
A primeira, é no sentido de que, enquanto cada um se revir e sentir como bordão do outro, a relação se manterá forte, leal e segura, apesar das vicissitudes surgidas no caminho. Enquanto a mão amada me segurar como seu bordão (e vice-versa) os sulcos e obstáculos do caminho serão ultrapassados e vencidos, desaparecendo na curva do caminho.
A segunda é que a mão e o bordão vão envelhecendo e desgastando-se juntos. O que ambos perdem em qualidades de juventude ganham em conhecimento, ajeitamento e confiança, cada dia mais moldados, cada dia mais calhados; os nós das mãos conhecem os nós do bordão e sabem senti-los.
A terceira é que a jornada a dois termina, definitivamente, quando por razões que a razão desconhece, o bordão, antes amparo indispensável, se transforma em objecto inútil, empecilho de caminhadas ou estradas diferentes que se querem calcorrear ou percorrer.
Para mim basta-me esta metáfora.

ATM

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