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25 maio 2021

Da dança como conhecimento

Luciano de Samósata (Samósata, 125 - Alexandria, 181) terá dito da dança (e traduzo livremente): 

É o cume de todo o conhecimento, superior, mesmo, à filosofia.

Friedrich Nietzsche, por seu lado, afirmou que:

Só acreditarei num deus que saiba dançar.

A afirmação de que a dança não é apenas um caminho para o conhecimento, mas que constitui um tipo de conhecimento, superior, mesmo, ao conhecimento trazido pela filosofia, é uma afirmação séria - e interessante. Considerar que a dança, movimento organizado, é superior à ética, é desafiante. Significa duas coisas: ou que se dança pior do que se dançava há 2000 anos, ou que se sabe tanto (ou mesmo mais) do que se sabia há 2000 anos. Sabemos mais ou menos do que sabíamos há 2000 anos?

Porque dançam as pessoas? 

Para fazer a vontade a quem as desafia para tal;

como entretém - afectivo ou não;

como expurgação de demónios internos;

como repetição de movimentos ancestrais e tribais.

Conseguimos que estes quatro motivos se entrecruzem com o conhecimento?

JdB  

23 fevereiro 2021

Da música coral religiosa e do bailado

Se fecharmos os olhos e tivermos uma noção do que estamos a ouvir, facilmente perceberemos que é Bach - Paixão Segundo São Mateus. Se abrirmos os olhos mas não ouvirmos o que estamos a ouvir, facilmente perceberemos que é uma coreografia de dança. A estranheza, no que a mim diz respeito, é ouvirmos e vermos em simultâneo. O que significa aquela coreografia. O que disse o coreógrafo ao corpo de baile quando Bach "fala" do Monte das Oliveiras, ou da traição de Pedro ou da crucificação? O que significam os gestos, o que traduzem os gestos.

Há no bailado um grande mistério - talvez devido à minha ignorância. Será a única forma de arte em que nada fica registado: não há uma pauta, um quadro, uma tabela, uma folha de papel. O que se diz à bailarina para ela baixar o braço daquela forma, menear a cabeça daquela forma, correr para ali ou para acolá a fazer o que quer que seja às pernas ou às mãos. Um mistério... Mas gosto.

JdB

14 outubro 2020

Músicas e ideias dos dias que correm

A cantata Ich habe genug de Bach (já tenho o suficiente, tradução minha) foi-me apresentada por António Barreto numa entrevista que deu a Fátima Campos Ferreira e que passou na 2ª feira, pelas 21.00h, na RTP1. Recomendo vivamente que a vejam.

Fui investigar as razões para o nome da Cantata. Do pouco que encontrei estará relacionado com Simeão, um homem justo e piedoso de Jerusalém a quem o Espírito Santo revelou que não morreria "antes de ter visto o Messias do Senhor". Citemos a Bíblia:

Simeão tomou-o nos braços e bendisse a Deus, dizendo:

Agora Senhor, segundo a Tua palavra, 
deixarás ir em paz o teu servo, 
porque meus olhos viram a salvação.
que ofereceste a todos os povos.
Luz para se revelar às nações
e glória de Israel, teu povo.

(Lc. 2, 28-36)

A cantata é muito bonita (do vídeo consta apenas uma parte, dos cerca de 24 minutos totais) e vale a pena, não só ouvir, como pensar na sabedoria de Simeão. Ao tomar Jesus nos braços entendeu dizer o que disse, e que para Bach era Ich habe genug.

JdB

30 março 2018

6ª Feira Santa

"O homem é um aprendiz, a dor o seu mestre:
ninguém se conhece a si próprio até que sofra."

"Nada nos torna tão grandes como uma grande dor."

Alfred de Musset in Noite de Outubro




ORAÇÃO

Ouvi a Tua voz – que Te buscasse,
Que eras vida e caminho ardente e santo,
Aqui me tens, Senhor, beijando-Te na face,
Mordido de vergonha, angústia e pranto.

Cruz, lança, espinhos, pregos, fel, vinagre,
Não são adereços para um corpo humano.
Faze em mim, meu Senhor, o Teu milagre:
Sofrer, morrer e ressurgir em cada ano.

Perdoa à minha carne o desejar sem norte,
Porque vivo no mundo e sou pecado.
E recebe-me puro, quando a morte
Me levar p’ra o Teu lado.

(Um Cristo de perdão,
Sereno como é fria a madrugada,
Veio cravar-me, por amor, no coração,
Uma nova espada.)

António Manuel Couto Viana

21 outubro 2016

Do Bach e das coincidências

Ouvi esta missa há poucas semanas na Gulbenkian. Está muito para além de uma obra bonita - falamos no domínio da genialidade. Ouvir estes nove minutos e meio é ouvir quase tudo. Vale a pena investir esse tempo para enriquecimento da alma. Se estivesse muito alegre ouviria este Kyrie. Se estivesse muito triste ouviria este Kyrie. Estou muito cansado, pelo que ouço este Kyrie.

***

Anteontem, no decorrer da conferência que me trouxe a Dublin, uma colega austríaca (com responsabilidades na organização a nível europeu) abordou-me com um desafio: se eu me dispunha a ocupar um lugar no board do CCI (Childhood Cancer International), uma espécie de confederação que abarca associações de pais e de crianças com cancro de todo o mundo - 180 organizações, 90 países, 5 continentes. Disse-lhe que sim, apesar de dentro de mim se fazer esta difícil pergunta: que valor acrescento eu a quem já faz um trabalho notável? Ao fim da tarde era eleito para um cargo que me obriga a saber mais, a estar mais por dentro dos assuntos da oncologia pediátrica a nível nacional e internacional, a ter contactos com os médicos da especialidade. 

Ontem, à saída de uma apresentação, dei de caras com o médico francês, Eric Bouffet, de quem já falei aqui. Oncologista pediátrico a trabalhar no Canadá, ensinou-me à distância quase tudo o que eu (não) precisava saber sobre tumores cerebrais, em 2001. Correspondemo-nos erraticamente numa dada altura, encontramo-nos nestas conferências. Informou-me que a partir de hoje será o próximo presidente do SIOP - sociedade internacional de oncologia pediátrica. Há coincidências significativas...

Cansado, folgado, triste, alegre - há sempre uma boa altura para se ouvir este Bach. Quando há estas coincidências também, porque parece que o mundo ficou micronesicamente mais alinhado dentro de mim.

JdB


25 março 2016

6ªFeira Santa

Raising of the Cross (Rembrandt) 

Pietà 


Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.

Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.

Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;

Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.

Miguel Torga


03 outubro 2014

Da misericórdia, ou das noites de cada um de nós

Theodor Adorno afirmou: to write poetry after Auschwitz is barbaric. Cruzei-me com esta frase anteontem. Opto pela interpretação simples, ainda que potencialmente incorrecta: a noite de Auschwitz matou a possibilidade do belo. O pensamento veio também a propósito de outras lucubrações derivadas de dizer coisas, ouvir outras, ler frases, apanhar fragmentos de fragmentos, fazer dos fins de tarde quentes em esplanadas sossegadas momentos de inspiração e espanto. 

Cada um de nós tem o seu rol de noites de Auschwitz, ainda que elevadas à potência comezinha das vidas mais ou menos fagueiras. São os dramas, os desgostos, as perdas, as traições; são os olhos postos no chão com que enfrentamos os nossos mais próximos a quem, com vergonha inútil, imaginamos a palavra desilusão inscrita nas pálpebras. Transpor a frase de Adorno para a nossa ruela terrena seria afirmar que nenhuma felicidade (nos) é completa - talvez mesmo nem permitida, nalguns casos - depois do renque de sofrimentos acima. Como se a existência degenerasse então numa espécie de loiça de refugo, vedada que nos está a partilha de refeições em pratos de primeiríssima qualidade. 

A vida tem de ser a procura da paz, mais do que da felicidade. Já aqui o disse, citando Hans Kung. À noite de Auschwitz temos de contrapor os olhos postos no Céu, onde está a resposta de tudo para tudo, a luz perene que ilumina a alma de quem sofre e de quem cuida. Antes de olharmos para o lado temos de olhar para cima, dar à relação horizontal uma dimensão vertical. Só o Amor nos salva - o amor pelos que nos estão mais próximos, o amor que é verdade, transparência, partilha, pedido de ajuda, mãos abertas que significam impotência e ansiedade. Ao olhar que pede damos uma palavra que enxuga lágrimas, não um cilício que aperta ilhargas.

Erbarme dich, significa, em alemão, tem misericórdia. Ouvir a beleza mais triste pode ser um acto redentor, um módico de iluminação na noite de Auschwitz, a generosidade divina que nos converte, nos faz perceber que é mais importante deixar traços do que provas. Só o Amor nos salva - e a misericórdia, que é compaixão.

JdB 


22 abril 2011

Páscoa

Aos meus queridos colegas de blogue e fiéis leitores desejo uma Santa Páscoa.

Deixo-vos com a magnificência de Bach, neste dia em que se lembra o amor sem limites de quem deu a vida por nós.

JdB


30 julho 2008

Swinging Bach Live Concert





Em Portugal, qualquer artista do musicól (é assim que se escreve, com o novo acordo ortográfico?) põe os espectadores a bater palmas a compasso - seja para a mula da cooperativa, para o povo que lavas no rio ou para o cheiro do bacalhau. No fundo, no fundo, o nosso grande desejo é bater palmas, como quem sente nisso o verdadeiro abrilhantar da festa.
Em Leipzig - povo diferente, hábitos diferentes - o artista põe as pessoas a cantar a Avé Maria de Gounod, enquanto ele "trauteia" o prelúdio de Bach.
Nós por cá é mais bolos...

29 julho 2008

Jacques Loussier & Bobby Mcferrin- Bach Anniversary Leipzig



São 5'06'' de uma interpretação perfeita por parte de artistas que já passaram por Portugal. Eu fui um dos privilegiados que assistiu a um concerto do trio de Jacques Loussier. Enjoy it!

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