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| The Raising Of The Cross (Rembrandt Van Rijn, circa 1633) |
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
Luciano de Samósata (Samósata, 125 - Alexandria, 181) terá dito da dança (e traduzo livremente):
É o cume de todo o conhecimento, superior, mesmo, à filosofia.
Friedrich Nietzsche, por seu lado, afirmou que:
Só acreditarei num deus que saiba dançar.
A afirmação de que a dança não é apenas um caminho para o conhecimento, mas que constitui um tipo de conhecimento, superior, mesmo, ao conhecimento trazido pela filosofia, é uma afirmação séria - e interessante. Considerar que a dança, movimento organizado, é superior à ética, é desafiante. Significa duas coisas: ou que se dança pior do que se dançava há 2000 anos, ou que se sabe tanto (ou mesmo mais) do que se sabia há 2000 anos. Sabemos mais ou menos do que sabíamos há 2000 anos?
Porque dançam as pessoas?
Para fazer a vontade a quem as desafia para tal;
como entretém - afectivo ou não;
como expurgação de demónios internos;
como repetição de movimentos ancestrais e tribais.
Conseguimos que estes quatro motivos se entrecruzem com o conhecimento?
JdB
Se fecharmos os olhos e tivermos uma noção do que estamos a ouvir, facilmente perceberemos que é Bach - Paixão Segundo São Mateus. Se abrirmos os olhos mas não ouvirmos o que estamos a ouvir, facilmente perceberemos que é uma coreografia de dança. A estranheza, no que a mim diz respeito, é ouvirmos e vermos em simultâneo. O que significa aquela coreografia. O que disse o coreógrafo ao corpo de baile quando Bach "fala" do Monte das Oliveiras, ou da traição de Pedro ou da crucificação? O que significam os gestos, o que traduzem os gestos.
Há no bailado um grande mistério - talvez devido à minha ignorância. Será a única forma de arte em que nada fica registado: não há uma pauta, um quadro, uma tabela, uma folha de papel. O que se diz à bailarina para ela baixar o braço daquela forma, menear a cabeça daquela forma, correr para ali ou para acolá a fazer o que quer que seja às pernas ou às mãos. Um mistério... Mas gosto.
JdB
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| Raising of the Cross (Rembrandt) |
Em Portugal, qualquer artista do musicól (é assim que se escreve, com o novo acordo ortográfico?) põe os espectadores a bater palmas a compasso - seja para a mula da cooperativa, para o povo que lavas no rio ou para o cheiro do bacalhau. No fundo, no fundo, o nosso grande desejo é bater palmas, como quem sente nisso o verdadeiro abrilhantar da festa.
Em Leipzig - povo diferente, hábitos diferentes - o artista põe as pessoas a cantar a Avé Maria de Gounod, enquanto ele "trauteia" o prelúdio de Bach.
Nós por cá é mais bolos...