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28 outubro 2025

Campanhas dos dias que correm

 

Num momento em que a preocupação dos pais deveria estar centrada no acompanhamento ao filho doente, as dificuldades económicas trazidas pelo cancro são um peso adicional e injusto.

Para mitigar estas dificuldades, e em nome dos pais que representa, a Acreditar dirige esta Carta Aberta aos decisores políticos onde propõe medidas concretas para garantir condições justas a quem cuida.

Conheça e subscreva a Carta: 

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfg42AXTb1IEROosbSY5kv_gI7mVOd8Y_tLXxydC0RikFBwLA/viewform?pli=1

E já agora, se puder divulgue.

JdB

24 outubro 2025

30 anos: somos o que fomos, o que somos e o que seremos *

Dois momentos de importâncias muito diferentes motivam a escrita deste artigo: o 31º aniversário da Acreditar, que corresponde ao fim de um ano de celebrações; e, muito provavelmente, o meu último texto para o SAPO enquanto Presidente da Acreditar. 

Vamos ao que importa. A celebração dos 30 anos de existência da Acreditar marca um momento no tempo – e nada mais do que isso. Em bom rigor, a diferença para festejar os 29 anos ou os 31 está no redondo do número. A relevância do festejo não está no algarismo, mas, de uma certa forma, no que sustenta o algarismo: festejamos uma vida, mais do que um aniversário; festejamos um percurso, mais do que um momento. A frase temos 30 anos, se não vier acompanhada do que é tangível (mas também intangível), é apenas uma frase publicitária, ou um convite para uma festa.

Como muitas pessoas que passaram pelo desafio da oncologia pediátrica – seja como doentes, seja como cuidadores – tomei conhecimento da Acreditar pelos piores motivos: o diagnóstico de cancro numa filha com 6 anos. Em 2001 / 2002 a associação era ainda uma entidade pequena, com poucos recursos financeiros ou humanos, a fazer o que podia e sabia – e que era muito! Tive a sorte de acompanhar (no sentido de espectador, mais do que de actor) o movimento estratégico que já era palpável em quem estava à frente da associação: temos de fazer mais e melhor, temos de nos profissionalizar. Esta frase é visionária e generosa: implica um olhar para o futuro e um olhar para dentro. E implica perceber que o tempo que chegou pode já não ser o nosso tempo. 

Na Acreditar, e com a Acreditar, mudou quase tudo em 30 anos – o logótipo, a sede, a presença na sociedade, os conhecimentos, as condições, a informação, o reconhecimento. Construímos casas, influenciámos a criação e revisão de legislação, acompanhámos milhares de famílias, reunimos com decisores políticos ou com administrações hospitalares, tornámo-nos interlocutores privilegiados, atribuímos bolsas de estudo e prestámos apoio psicológico, levámos crianças às suas viagens de sonho. Um dia a Acreditar adaptará o nome, mudará de presidente, ou de director-geral, ou de membros da comissão directiva. Mesmo quando muito mudar - para que sejamos mais eficientes no serviço à nossa comunidade - nunca poderemos dizer que mudámos tudo. O quase não é sinal de que falta mais mudança, mas sinal de que a inspiração inicial se mantém imutável: o espírito de serviço a doentes, famílias e sobreviventes; a dedicação ao nosso próximo através de gestos que nascem num coração, não num manual; a par do tangível – daquilo que se vê e mede – o toque de uma mão que revela disponibilidade interior e escuta activa.

Falar dos 31 anos da Acreditar é falar de uma imensa obra feita que se materializa, não só em mudanças importantes e visíveis, mas em sementes que ficam para o futuro. Somos o que fomos, o que somos e o que seremos. Festejar os 31 anos é, também, celebrar a certeza de um futuro melhor para quem ultrapassou a doença, para quem ouve o diagnóstico de doença cedo demais na vida, e para quem cuida de todos. Utilizando uma metáfora conhecida, estamos confiantes de que muitos se sentarão – felizmente – à sombra de árvores que plantamos agora; ou que plantámos há 31 anos, quando alguns Pais deitaram mão à empreitada. 

Durante este ano organizámos concertos e conferências. À volta de uma orquestra ou de uma mesa-redonda festejámos três décadas de existência e falámos do que nos pareceu mais importante para a comunidade para a qual existimos: o cancro longe de casa, o modelo futuro dos cuidados na oncologia pediátrica, os direitos dos Pais, ou os adolescentes e jovens adultos. Debater e cantar são duas faces da mesma moeda: constitui-nos como actor imprescindível na sociedade para todas as discussões sobre a doença, e a forma como afecta doentes, famílias e sobreviventes; e cria um sentimento de pertença que reforça laços e garante um futuro mais coeso.

Termino com uma nota mais pessoal.

Sou presidente da Acreditar há 18 anos, cargo que deixarei muito em breve. Ser-se presidente da Acreditar é, acima de tudo, um privilégio, uma parte do qual poderá parecer – e talvez o seja – egoísta. Enquanto Pai, o mundo das crianças ou jovens doentes com cancro era a minha casa; ao tornar-me presidente da Acreditar alarguei os horizontes e, ao olhar para o País, o meu mundo ficou mais vasto, humanamente mais rico, apesar dos desafios que vi em tantas famílias. Ao ter podido ascender a um cargo internacional, representando outras associações como a Acreditar, o meu mundo ficou ainda maior, e a sensação de urgência tornou-se mais evidente. Tomar conhecimento destes três círculos - casa, país, mundo - pode salvar-nos. Salvou-me.     

Em Junho desse 2007 já longínquo, quem me antecedeu deu-me um testemunho virtual; cabia-me guardá-lo e entregá-lo, quando o tempo chegasse, a quem me sucedesse. Não me cabe dizer o que fiz ou o que se conseguiu com, ou durante, a minha presidência. Na expressão o seu a seu dono, o dono é, seguramente, a equipa que levou a Acreditar onde está agora e para onde caminha. A mim, enquanto presidente cessante, só me resta agradecer o que os outros sabem que agradeço, e o que só eu sei, dentro de mim, que agradeço. 

João de Bragança,
Ainda Presidente da Acreditar, Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro. 
Pai, acima de tudo.

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25 fevereiro 2025

Duas Últimas

Este fim de semana estive no Porto para um concerto comemorativo (haverá mais) da Acreditar, que celebra este ano o seu 30º aniversário. Nesse dia, ao jantar, conversando com grandes amigos, com quem tenho uma dívida de gratidão com quase 25 anos, soube desta música que poderia ser a música dos nossos sobreviventes (uma expressão de que ninguém gosta - mesmo no estrangeiro - mas para a qual não se encontrou ainda substituto linguisticamente eficiente). Ouvi-a ontem pela primeira vez. E sim, concordo, a música e a letra aplicar-se-iam bem à história destas crianças / jovens afectados pelo cancro. 

Digam lá se não concordam...

JdB 

Voar

Eu queria ser astronauta O meu país não deixou Depois quis ir jogar à bola A minha mãe não deixou Tive vontade de voltar à escola Mas o doutor não deixou Fechei os olhos e tentei dormir Aquela dor não deixou Ó meu anjo da guarda Faz-me voltar a sonhar Faz-me ser astronauta E voar O meu quarto é o meu mundo O écran é a janela Não choro em frente à minha mãe Eu que gosto tanto dela Mas esta dor não quer desaparecer Vai-me levar com ela Ó meu anjo da guarda Faz-me voltar a sonhar Faz-me ser astronauta E voar Acordar, meter os pés no chão Levantar, pegar no que tens mais à mão Voltar a rir, voltar a andar, voltar, voltar Voltarei, voltarei, voltarei Voltarei, voltarei, voltarei Voltarei, voltarei Acordar, meter os pés no chão Levantar, pegar no que tens mais à mão Voltar a rir, voltar a andar, voltarei!

15 outubro 2024

Nos 30 anos da Acreditar

A Acreditar fez ontem 30 anos, e eu tive o gosto de escrever um texto para o Sapo. É uma bonita data... Eu apanhei o comboio já em andamento, corria o ano de 2001.

JdB

***

Somos um tripé, que tomba fatalmente na ausência de um dos suportes

Caminante no hay camino, se hace camino al andar. 
(Antonio Machado Ruiz)

A Acreditar – Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro nasceu há 30 anos. E nasceu, como muita coisa nasce, fruto de uma necessidade do momento, de uma angústia, de uma pergunta que requer uma resposta tão imediata quanto possível, de um espanto: como assim, o meu filho tão pequeno tem cancro? 

À volta de uma mesma mesa, um conjunto de Pais entendeu que era preciso fazer mais pelos seus filhos mas, também, pelos filhos de todos os outros Pais, presentes ou futuros, que viessem a ser confrontados com este desafio. O que existia não chegava – era preciso garantir apoio emocional a Pais e doentes, era preciso prestar informação técnica numa linguagem para leigos, era preciso tornar a estadia num hospital tão confortável quanto possível. Era preciso garantir tudo o que não havia e que fosse importante para aquelas crianças ou jovens. 

30 anos é uma vida. Olhar para ontem, para aquele ponto de partida, e olhar para hoje, para o ponto onde estamos, é percorrer uma estrada onde está tudo o que é intangível e o seu contrário: a morte e a vida, a resiliência, a esperança e o desalento, a certeza em dias melhores, a palavra Acreditar como verbo de conjugação obrigatória. Mas é, também, percorrer uma estrada cheia de conquistas: a construção de três Casas, a dinâmica dos sobreviventes, as alterações legislativas, o crescimento da asociação e o seu posicionamento enquanto parceiro credível – e indipensável! – para tudo que é a oncologia pediátrica.

O lema dos nossos 30 anos - quando o cancro se mete no caminho, ninguém vai sozinho - é particularmente feliz, pois condensa duas ideias importantes, de obviedades distintas. Por um lado, na família de um jovem ou criança confrontada com um diagnóstico de cancro, ninguém vai sozinho: a família é, toda ela, afectada pelo acontecimento, pelo que tem de ser protegida das mais diversas formas; mas há, também, uma solidariedade que se instala e que suscita o cuidado, o apoio, tantas vezes assegurado pela Acreditar. Por outro lado, ninguém vai sozinho nas outras áreas: decisores políticos, profissionais de saúde e associações de Pais e de Doentes têm de conversar, articular-se, procurar soluções que tenham um impacto positivo na vida desta comunidade. Somos um tripé, que tomba fatalmente na ausência de um dos suportes.

Vive em todos nós, estou certo, o famoso verso de Sebastião da Gama: pelo sonho é que vamos. Talvez aos Pais de há 30 anos faltasse, numa primeira fase, a veleidade do sonho, preocupados que estavam com questões imediatas que urgia resolver no momento, ou no momento a seguir ao momento. Eram tempos de relativo desconhecimento da doença e das suas implicações. Só a palavra cancro instilava medo, tinha uma roupagem negra, de pouca esperança. Talvez, e parafraseando Alberto Caeiro quando dizia sou do tamanho do que vejo, a Acreditar fosse do tamanho do que via – ou do que era permitido ver.

O ADN da Acreditar mantém-se inalterado: cuidamos das crianças e jovens doentes, dos Pais e dos sobreviventes. Identificamos as suas necessidades e tentamos colmatá-las, para fortalecer uma comunidade fragilizada. Embora o discurso de profissionais e de voluntários seja fruto da história de vida de cada um, a mão que estendemos ou o sorriso que oferecemos é sempre o mesmo, porque deriva de um desejo genuíno de ajudar este próximo. Embora as palavras usadas sejam o resultado da diversidade geográfica, académica ou cultural de cada um dos que por aqui passa para servir estas famílias, há expressões que são iguais, porque pertencentes a um léxico comum onde predomina a palavra Acreditar.

Este fio condutor que une passado e presente, e que se prolongará pelo futuro, não se rompe, porque é isto que queremos ser. O fio é reforçado por aquilo que, em todo o momento, se entende como prioridade e que constitui a obra visível da Acreditar. Nesse sentido, como diria o poeta espanhol, não há um caminho, o caminho faz-se caminhando. O que hoje é prioridade amanhã não será mais. E aquilo que, hoje, não sabemos que existe, tornar-se-á alvo de todos os nossos esforços amanhã.

A Acreditar faz 30 anos. Muito nos separa dos Pais que começaram esta empreitada: os tempos são outros, as pessoas são outras, as necessidades são outras. Mas o que é determinante permanece: a nossa incansável dedicação às crianças e jovens com cancro, aos Pais e aos sobreviventes. 

João de Bragança,
Presidente da Acreditar, Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro 

25 setembro 2023

Dos dias bons


Para a Marta.

Um olhar desatento (ou apenas um certo olhar) achará que este é um livro para crianças. Também é, mas não só da forma que muitos pensarão. O livro tem frases simples de entender e bonitas de ler; tem desenhos simples de entender e bonitos de ver. Nesse sentido é um livro para crianças - é simples e é bonito. Tem também uma pedagogia acertada - relembra a importância de olhar para a vida com um coração agradecido, como vem na contracapa. Numa altura em que as crianças crescem arredadas da frustração e da luta pelas coisas, esta pedagogia cai bem. 

Mas o livro, diria eu, detentor de outro certo olhar, é mais do que isso: é um livro para adultos. Talvez seja um livro para os adultos lerem alto às suas crianças ouvindo bem o que estão a dizer: às vezes um dia bom... é uma dor que se transforma em amor. Dizer esta frase em voz alta é importante, porque se não houver quem nos oiça talvez nunca tenhamos a certeza de tê-la dito. E se nunca a dissermos nunca saberemos como a frase ressoaria no nosso coração.

Este livro poderia ter sido escrito no remanso de uma sala criativa com vista para a imaginação. Seria sempre um livro bonito, simples e pedagógico. Acontece que o livro foi escrito no desafio do 7º piso do IPO de Lisboa, como é conhecida a ala das crianças com cancro. Um piso que, pela natureza do que lá se passa, não é convidativo ao agradecimento imediato. Pode-se agradecer, sim, mas requer um trabalho interior forte de descoberta do que de melhor temos dentro de nós. Às vezes um dia bom... é um (re)encontro. Talvez a descoberta luminosa seja o nosso (re)encontro com o agradecimento. 

Conheci a Marta quando fui com um grupo da Acreditar ao encontro do Papa. Sabia do seu caso por causa de uma ligação familiar não directa. A Marta e outras mães de que me vão falando (a Teresa, por exemplo, a quem fui apresentado ontem) são mães muito novas que enfrentam o desafio de um filho pequeno com cancro. Enfrentam-no com esperança e força, com um amor imbatível que alimenta a certeza de tempos melhores, com a convicção firme dos propósitos que se repetem. Às vezes um dia bom... é um sim que se renova.

Em meu nome, pelo gosto que tive de conhecer a Marta, mas também em nome da Acreditar, para a qual reverte uma parte deste livro, muito obrigado. Um agradecimento também à Livros Horizonte e à Sílvia Sacadura, editora. Setembro é o mês por excelência de sensibilização para o cancro pediátrico. Lembrá-lo com este livro é a certeza de um dia bom. Talvez mesmo muito bom. 

Obrigado, Marta (e também Carolina!), por dizer e pintar com palavras agradecidas o que muitos Pais pensam com o coração dorido. 

JdB

08 agosto 2023

A JMJ, o Papa e a Acreditar


Fruto de um golpe de sorte, de uma grande credibilidade de que gozamos e ainda, mas não menos importante, daquilo para que existimos, a Acreditar foi convidada para um encontro com o Papa no Centro Paroquial de S. Vicente de Paulo, uma obra fantástica liderada pelo cónego Francisco Crespo. Comigo, como presidente da instituição, iam 25 pessoas, entre pais / mães, doentes e sobreviventes. Enquanto católico, este encontro foi uma benção para mim e, estou certo, para todos aqueles que fui acompanhar, para quem este encontro foi um motivo de alegria e alento para a jornada que vão fazendo com os seus filhos doentes. Eis o meu breve discurso, cuja "construção" teve uma intervenção decisiva de membros da equipa da Acreditar:

"Santo Padre, 

Somos um grupo de crianças e jovens com cancro, de crianças e jovens que o ultrapassaram, e também de pais. Em conjunto formamos a Acreditar que há trinta anos fomenta a esperança na cura e tenta minorar o sofrimento durante os tratamentos, na sobrevivência e nas famílias cujos filhos não sobrevivem. 

Damos apoio emocional, psicológico, material e escolar, e acolhemos nas nossas Casas quem vive longe do hospital. A nossa missão é estar com todas as crianças e jovens, procurando que o cancro nunca os defina e que a evolução da cura e a melhor qualidade de vida sejam uma realidade. Sabemos que nos fortalecemos nas vidas partilhadas e na defesa dos direitos, por isso criamos elos entre os sobreviventes, doentes e pais para que, com esperança, nunca se sintam sós. 

Gracias, Santo Padre, por tener los niños com cancer y sus famílias en su corazón y en sus oraciones."


“Queridos irmãos e irmãs, bom dia! 

Agradeço ao pároco as suas palavras, e saúdo a todos vós, em particular aos amigos do Centro Paroquial da Serafina, da Casa Família Ajuda de Berço e da Associação Acreditar. E agradeço as vossas palavras, que mostraram o trabalho que se faz. Obrigado. É lindo estarmos aqui juntos, enquanto, no contexto da Jornada Mundial da Juventude, olhamos para a Virgem Maria que Se levanta e vai ajudar Isabel, sua parente idosa. De facto, a caridade é a origem e a meta do caminho cristão, e a vossa presença, realidade concreta de ‘amor em ação’, ajuda-nos a não esquecer a rota, o sentido daquilo que fazemos. Obrigado pelos vossos testemunhos, dos quais quero destacar três aspetos: fazer juntos o bem, agir no concreto — não só com ideias, mas concretamente — e estar próximo dos mais frágeis.

Primeiro, fazer juntos o bem. ‘Juntos’ é a palavra-chave, que ouvi repetir muitas vezes nas vossas intervenções. Viver, ajudar e amar juntos: jovens e adultos, sãos e doentes… juntos. O João disse-nos uma coisa importante: é preciso não se deixar ‘definir’ pela doença, mas fazer dela parte viva do contributo que prestamos ao conjunto, à comunidade. É verdade! Não devemos deixar-nos ‘definir’ pela doença ou pelos problemas, porque não somos uma doença nem um problema. Cada um de nós é um dom, um dom único com os seus limites, um dom precioso e sagrado para Deus, para a comunidade cristã e para a comunidade humana. E, assim como somos, enriquecemos o conjunto e deixamo-nos enriquecer pelo conjunto!

(...)"

Para um católico, estar com o Papa é uma alegria indizível. Acompanhar estes pais, estas mães, algumas crianças doentes que foram connosco é, passe a ligeireza da expressão, a cereja em cima do bolo. É imaginar-lhe o boost de alento, de força, de esperança. Imagino o quanto pode valer um encontro destes; sei a importância de um encontro destes para o reforço da fé em dias melhores. 

Que estes 25 que foram comigo sejam o lugar geométrico de toda a comunidade da oncologia pediátrica e daqueles que não puderam ir porque era impossível levar todos. E que esta Jornada Mundial da Juventude dê alegria e esperança a quem percorre um caminho cheio de espinhos.

JdB 


13 setembro 2021

Do luto parental

Num das suas cartas a Lucíio, diz Séneca:

"Venho enviar-te uma cópia da carta que escrevi a Marulo aquando da morte de um filho de tenra idade - morte que, dizia-se, ele suportou com quase nula coragem. "

Diz a referida carta:

"Estavas à espera de consolo? Pois vais apanhar uma descompostura! Tanta cobardia tu mostras pela morte do teu filho? Que farias se tivesses perdido um amigo? Faleceu-te um filho, de futuro incerto, de pouca idade; perdeu-se apenas um breve espaço de tempo."

Aquando do preparação da petição que a Acreditar lançou sobre o luto parental, contactei várias pessoas convidando-as a serem primeiras signatárias. Era gente de vários quadrantes políticos, de várias áreas de actividade: jornalistas, escritores, gente ligada ao desporto ou às artes, músicos, políticos. Uma destas pessoas - político respeitado, ex-ministro, comentador de televisão, escreveu-me amavelmente dizendo que assinaria a petição se ela contemplasse a morte de filhos até aos 18 anos.

Eu próprio, quando começámos a discutir internamente a petição, interroguei quem me ouvia: para efeitos de dias de licença parental, a morte de um filho com 7 anos deve ser igual à de um filho de 30? A resposta foi.-nos óbvia: um filho é um filho. De uma certa forma, o ex-ministro e Séneca estão nos antípodas. A comparação tem um intuito de curiosidade, não de juízo de valor. São muitos séculos a separar um e outro.

É difícil - se não mesmo impossível - quantificar desgostos pela perda de filhos. Pessoa que conheço, que perdeu um filho muito próximo com 30 anos, talvez, acharia que o desgosto dela seria maior do que alguém que tivesse perdido um filho aos 7. Nunca o verbalizou, mas intuí-lhe sempre este raciocínio, talvez porque este filho tivesse uma importância grande ao nível da disponibilidade para a família. Havia uma dimensão instrumental importante.

O pressuposto de que filho é um filho elimina discussões e interrogações sem fim previsível: e se for um acidente ou uma doença prolongada? E se tiver 19 anos ou for recém-nascido? E se tiver 25 anos mas viver no estrangeiro, ou tiver 28 mas viver em casa?

Como presidente da Acreditar regozijo-me com a adesão à petição que lançámos e com o facto da generalidade dos partidos se ter mostrado disponível para rever a lei; como presidente de uma associação que também acompanha pais que perdem filhos teria gostado (e espero ainda vê-lo) uma discussão sobre estes temas do luto parental, da morte, do que pode fazer-se para ajudar estas pessoas que passam por um enorme drama.

Duas notas finais:

- se ainda não assinou a petição pode fazê-lo aqui.

- é impressionante o número de pessoas letradas, urbanas, instruídas, geralmente informadas, que desconhece - e se indigna com esse facto - que o Estado dá 5 dias a quem perde um filho. O mesmo número de dias que dá por morte de um sogro.

JdB 

02 setembro 2021

O luto de uma vida não cabe em 5 dias

Setembro é, um pouco por todo mundo, o mês de sensibilização para o cancro pediátrico. Em Portugal a Acreditar decidiu lançar uma petição que pretende aumentar o período de licença por luto parental de 5 para 20 dias. Sim, perceberam bem: há anos (sei lá quantos) que o Estado dá 5 dias de nojo a quem perde um filho - o mesmo que para Pais e Sogros. Poderia discorrer aqui sobre o assunto, mas talvez seja preferível deixar um texto escrito na página da Acreditar, um link para um texto da Lusa publicado no Observador (pode ler aqui) e um link para a página onde poderá assinar a petição e obter mais informações e testemunhos. 

Assinem e divulguem, já agora.

JdB

O luto de uma vida não cabe em 5 dias

Dedicamos este Setembro Dourado - mês internacional de sensibilização para o cancro pediátrico, aos cuidadores.

Na Acreditar acompanhamos milhares de pais que se confrontam com a doença oncológica dos seus filhos, um percurso de uma exigência tremenda para a família.

Porque a taxa de sobrevivência ainda é de 80%, é também nossa missão apoiar e defender os direitos dos pais que perdem os seus filhos.

Lançamos agora a petição que propõe o alargamento do período de luto pela perda de um filho para 20 dias, sendo que a legislação prevê actualmente apenas 5 dias consecutivos.

Mesmo quando o retorno à vida laboral é um contributo positivo para o processo de luto, este período não chega. O luto parental é uma das experiências mais traumáticas, um processo intenso, complexo e que pode durar uma vida.

5 dias é um tempo manifestamente insuficiente para se fazer o luto de uma vida.

Uma sociedade mais solidária e justa tem de dar tempo aos seus. 5 dias é pouco.

https://www.peticaolutoparental.com/



29 setembro 2020

Do conhecimento da vida (e do corpo) pelos sinais

Disclaimer: este post pode ter uma certa quantidade de lugares-comuns revestidos de um certo dramatismo.

Nos últimos meses fui confrontado com dois casos de cancro em crianças e um caso num bebé. Com excepção desta última situação (sou amigo da mãe e da sua família) não conheço as crianças nem os Pais, apenas alguns avós. Há uns meses, rapaz da minha idade, de quem não era amigo próximo mas que conhecia há muitos anos, morreu com um tumor cerebral. Um destes dias soube também que um parente, poucos anos mais velho do que eu, sofria do mesmo mal. Só falo do que se passou nestes últimos meses, não há necessidade de encontrar outros exemplos de um passado mais ou menos recente.

Estou, por motivos puramente preventivos, numa altura de exames médicos. Talvez esteja tudo óptimo, talvez um dos exames ou das análises revele um parâmetro ligeiramente deslocado, algo que, não sendo preocupante, indique uma necessidade de atenção. 

Entre o parágrafo dos dramas e o parágrafo de uma certa normalidade há um ponto comum, que não é a senilidade insensível de quem os escreve. Tanto o sufoco de quem vê um filho, ou se vê a si próprio, diagnosticado com uma doença grave como os resultados de análises triviais têm uma importância que não é despicienda e que os une: os sinais. Nada como lembrar Rui Veloso a cantar Carlos Tê: Que adianta saber as marés / Os frutos e as sementeiras / Tratar por tu os ofícios / Entender o suão e os animais / Falar o dialecto da terra / Conhecer-lhe o corpo pelos sinais. 

Em virtude de ser presidente de uma associação que lida com crianças com cancro, e de ser quase presidente de uma confederação mundial de associações semelhantes, o tema cancro pediátrico entra-me pelo computador todos os dias: um artigo que é preciso escrever, uma conferência via zoom, um texto científico para ler, um plano estratégico, sei lá mais o quê. Há uma altura a partir da qual o tema, apesar de todo o seu dramatismo, se torna excessivamente científico, árido, estatístico, racionalmente sofredor. São números, gráficos com tendências, referências a medicamentos ou a formas de cancro; não são rostos familiares, sofrimentos aos quais possa atribuir um rosto ou um nome. Saber que um bebé, que esteve em minha casa há pouco tempo e por cuja mãe tenho ternura e amizade, tem um neuroblastoma, dá forma humana à aridez dos documentos ou das estatísticas. É, de certa forma, o rosto de todos os rostos que não consigo ver.   

A vida dá-nos sinais: é o caminho árduo de um parente a 10 anos de cumprir a esperança de vida estatística, é o diagnóstico de cancro em crianças, é uma análise fora do intervalo recomendado para pessoas saudáveis da minha idade. São sinais de tudo: da fragilidade da vida, da necessidade de uma certa auto-vigilância (vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora, diz a Bíblia) da responsabilidade para com os outros, para que não desapareçamos com a casa (uma metáfora para a nossa existência) por arrumar, a meio de quezílias recorrentes, de zangas antigas, de relações cortadas. Para que não desperdicemos a vida, cuja duração nos é (quase) totalmente imprevisível, em inutilidades.  

Todo este post se reveste, seguramente, de um grande lugar-comum, de frases já batidas ou de pensamentos que ficam ocos se não forem recheados com acções. É verdade. Porém, se eu escrever sobre este tema é porque pensei sobre este tema, e talvez isso se torne em acção. Se assim não for, Sartre não tinha razão: o inferno não são os outros.

JdB               

10 fevereiro 2020

Para que serve a experiência que temos?

No espaço de algumas semanas, dois grandes amigos, ainda que com situações significativamente diferentes, têm tido preocupações com a saúde de filhos.

Converso com um deles, aquele cujo problema é mais antigo (ainda que com poucos meses). Falamos de palavras de conforto, do que os outros nos dizem ou deixam de dizer, daquilo que, sendo semelhante, se torna diferente consoante é dito por X ou por Y. Falamos - e usamos a expressão pobre consolo - das pessoas que, perante alguém que tem um filho numa situação delicada, não forçosamente ao nível do risco de vida, mas de um futuro condicionado, lhe dizem mas ao menos está viva... Falo com o outro amigo. Interesso-me, e ele sabe que me interesso. A conversa acaba com uma franqueza minha: nada tenho para te dizer que te console. E não tenho, de facto.  

Recuo 19 anos e lembro-me das pessoas que queriam confortar-me sem saber como, das pessoas que nunca me disseram nada, das pessoas que diziam o que eu gostava de ouvir (em termos de forma e de conteúdo). Lembro-me de dizer a um grupo voluntários para quem falava que não há nada mais difícil do que abordar uns Pais quando ou pouco depois de serem confrontados com o diagnóstico de cancro de um filho criança ou jovem. Quem são os pais que estão à nossa frente? Querem eles silêncio, uma palavra, um gesto - ou apenas nada?

Assisto a um seminário sobre oncologia pediátrica. Oiço uma psicóloga que lidou com estes temas e de quem sou amigo. Abordava pais na pediatria do IPO que lhe perguntavam: tem filhos? Ela respondia que não e os pais diziam: então não sabe o que estamos a passar. Os anos passaram e ela teve filhos; e mesmo assim, dizia ela, não sabia o que os pais estavam a passar. 

Podemos ter filhos que tiveram problemas de saúde, mas não é por isso que sabemos o que para os outros pais é ter filhos com problemas de saúde... Podemos ser pais em luto, mas não sabemos o que para outro pai é estar em luto. A experiência permite que imaginemos, mas não nos dá garantia de sabermos. Termos noção disso é importante.

JdB

03 fevereiro 2020

Crónica de uma viagem a Paris

Viajo de Lisboa para Paris com um casal algo idoso ao meu lado. Quando vem a refeição (enfim, uma expressão eufemística para um pastel de nata incomível) a senhora informa a assistente de bordo: fazemos hoje 60 anos de casados... Há um vislumbre de alegria que se abre no rosto da funcionária: já volto, diz ela com um ar misterioso, acrescentando para mim: mas não pode dizer nada a ninguém. Imaginei tudo: palhaços, um bolo com um pau a arder, uma garrafa de champanhe que se abre e que derrama espuma para gáudio dos passageiros. Equivoquei-me: o casal foi brindado com dois copos de vinho branco (um gentil oferta, pois já tinham bebido o sumo a que tinham direito) e dois pacotes de amendoins...

Converso com o aniversariante, que está ao meu lado. Foi militar, tenente-coronel da Força Aérea, saneado após o 25 de Abril. Endireito-me na cadeira, imaginando uma conversa monotemática de ataque ao MFA. Afinal foi saneado por ser demasiadamente esquerdista, parece. E passou com alegria - que terminou em desalento - pelo PRP, onde conheceu o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo. A esposa ainda me perguntou, com um ar de quem tem intimidade mas não domina a realidade: a mulher do Major Tomé ainda é viva? 

Amendoins pareceu-me bem. Talvez excessivo, quiçá...

***

Estou numa reunião com colegas e parceiros de projecto. Às tantas, um dos anfitriões pergunta se as pessoas querem uma coca-cola. Voltando-se para mim, indaga: Joao, coke? É um rapaz afável, com quem tenho algum à-vontade. Não me inibo e pergunto alto: Thomas, do you mean a line of coke? e acompanho com o gesto de snifar uma linha. Há gente que ri, que se surpreende. Há quem se choque, porque o sentido de humor lhes é insultuoso ou se assemelha a física quântica. O Thomas manteve o nível e respondeu: after the meeting in my office.

***

Há inúmeras vantagens nestas reuniões internacionais: são gente dos EUA, da Rússia, da China, da Alemanha, de França, das Filipinas, da Nova Zelândia, de Espanha. Há gente que se beija (o Thomas beija-me nas duas faces...) que estende a mão ou, no caso de uma pessoa específica, que nem quer fazer nada, tal o incómodo. Ver latinos a beijarem anglo-saxónicas é curioso. Nalguns casos há um espanto, um incómodo ou mesmo um esgar de quase repulsa. Em alturas de corona vírus, há pessoas para quem serem beijadas se assemelha a uma violação pública num bar demasiado cheio.

***

O projecto que me leva a Paris é uma parceria, para alguns países específicos, entre uma fundação da L'Oreal e a Childhood Cancer International. O projecto tem três vertentes principais: uma página da internet em cada país, a definição de uma escala de emoções para crianças com cancro e a aplicação de um conjunto de massagens estudadas que têm por objectivo (re)construir a ligação entre Pais e criança doente. Contam-me duas histórias: a de uma criança que "proibiu" os pais de lhe darem banho, só os irmãos o podiam fazer. Muito provavelmente associava a presença dos pais a todos os procedimentos médicos que lhe provocavam dor, tendo desenvolvido uma reacção quase pavloviana: quando os meus pais me abraçam é sinal que vem dor...

A outra história é a de um pai (homem) que deixou de tocar no filho bebé quando este foi diagnosticado com cancro. Não havia repulsa, apenas um temor imenso de tocar e, com isso, poder provocar dor. Aprendeu o esquema de massagens que referi acima; a primeira vez que o pôs em prática chorou convulsivamente.

É isto, no fundo.

JdB

29 outubro 2019

Do abandono e do regresso

Ao fim de dez anos de andanças por estes congressos onde se fala de oncologia pediátrica, é forçoso que se estabeleçam relações de natureza diversa: há o japonês, que conheço há dez anos e com quem nunca troquei mais do que palavras de circunstância; há o israelita com quem converso fluidamente e troco histórias; há a comunidade austríaca, feita de profissionais e sobreviventes, com quem me dou particularmente bem, com quem rio e converso seriamente; hás a luxemburguesas, as suíças, a neozelandesa com quem tenho uma relação bem disposta; há as indianas com quem tenho uma relação cordial, as indonésias ou alemães com quem tenho uma relação educada mas formal. E outras nacionalidades... Não faço alarde das internacionalização destes congressos: é assim que é: somos 171 organizações em quase 90 países; mesmo que não estejam lá todos representados, há muitos...

Estes congressos são momentos, também, de partilha, não pública, em frente a uma audiência, mas em frente a um café, num intervalo, na ponta de uma mesa de jantar, no cansaço de um fim de dia a ouvir e a raciocinar e a falar numa língua que não é a nossa. Vamos conhecendo as vidas, as dificuldades, as opções, as características. Para pessoas como eu, que gostam de dar profundidade e intimidade às relações, são momentos que podem ser de privilégio.

Diz-me alguém com quem converso: tenho horror à partida dos outros; tenho horror ao sentimento de abandono. Converso com outra pessoa que me diz: de onde quer que venha, mesmo que seja das férias mais divertidas, adoro o regresso a casa. Olho para dentro de mim. Não tenho o horror ao abandono, mas tenho um apego muito grande pelo regresso a casa, sendo que o itálico traduz que a expressão pode ser lida de forma metafórica. O horror ao abandono e o desejo de regresso cruzam-se, ainda que não de forma óbvia. Ambos falam da segurança conferida por algo ou por alguém. O regresso a casa pode ser um espaço, pode ser uma receita de compota de laranja, como no caso do marinheiro da equipa de Shackleton no Pólo Sul, a quem foi dito para levar apenas o essencial. Ou uma folha da Bíblia, no caso de outro marinheiro. Há abandono na mudança de uma casa como há regresso a casa mesmo que seja uma que não é nossa?

Olho à volta da sala onde se fala de oncologia pediátrica: vejo mães ou pais que perderam filhos e que teimam em encontrar um sentido para a vida nestas coisas; vejo sobreviventes que podiam ser outra coisa mas que querem ser sobreviventes nas organizações, vejo médicos a quem morrem crianças e que podiam ser dermatologistas a tirar rugas; vejo gente saudável, que ri, que tem um semblante triste mas que acodem a centenas ou milhares de crianças num Irão difícil, pejado de refugiados. Vejo gente que tem medo do abandono ou que deseja o regresso a casa. Vejo tudo, mas sei que só vejo uma parte pequena do que as pessoas são. Ou do que eu sou.

JdB

25 outubro 2019

Petit riens de um congresso


- Amiga das distantes Filipinas manda-me a imagem acima. 

- Converso com o presidente cessante da SIOP (Société Internationale de Oncologie Pédiatrique) com quem travei conhecimento e amizade no ano de todos os anos, 2001. Cruzamo-nos uma vez por ano, em sítios onde se fala de esperança, de tratamento, de doença, de estatísticas injustas. É oncologista pediátrico há 30 anos. Quando se reformar tentará ir para África fazer voluntariado. Se voltasse atrás? Fazia tudo igual. Todos os dias toca numa fotografia que tem pendurada no sítio onde trabalha. Toca no nariz de uma rapariga que o levou a rapar o cabelo e que morreu. Foi esta e mais outras que não conseguiu salvar. Se voltasse atrás? Fazia tudo igual.

- Assisto à apresentação de um funcionário superior da OMS, médico novo, responsável pela iniciativa global de combate ao cancro pediátrico. É um homem competente, afável, que sabe as estatísticas: 80% de sobrevivência nos países desenvolvidos, 20% de sobrevivência nos países que o não são, onde estão 90% dos casos de cancro infantil. Tirou umas férias, depois de ter tido uma filho há 4 meses. Para onde foi? Fazer voluntariado médico para o Quénia. 

- É nestes médicos que vejo a essência da medicina. Outros haverá que não conheço, muitos haverá que querem negócio. Mas é destes que quero falar agora, para que não me esqueça que sou vice-presidente de uma associação global que lida com estes temas, e com os 20% de sobrevivência. 

- Vejo brasileiros, ugandeses, iraquianos, japoneses, suecos, chilenos, coreanos, austríacos, russos chineses ou franceses. Riem, abraçam-se os que são de abraçar; cumprimentam-se, revêm velhos amigos. Falam a mesma linguagem da esperança e das estatísticas que teimam em aparecer. São a minha grande família internacional, em frente de quem  (não estes, mas outros iguais) chorei pela primeira vez em 2002, por falar destes temas que me acompanham há 18 anos. 

- Vejo um filme sobre irmãos em luto. Um filme duro, desafiante, que nos faz relembrar distracções dolorosas com os nossos filhos sobreviventes, que nos faz pensar no tanto que temos de fazer. Miúdos que só viam as fotografias do irmão morto em casa, ou que achavam que só tinham o amor dos pais se estivessem doentes, ou que teimam em não soltar nem soltar-se.  

- Faço trocadilhos, rio, gozo com amigos, falo alemão (que é uma forma de fazer trocadilhos incompreensíveis), arrisco o francês e as três palavras que sei dizer em russo. Falamos a língua da esperança e das estatísticas, mas cada um também fala a sua original, onde se refugia, onde tem mau feitio e defeitos. Praguejo em português porque estou cansado ou me sinto destratado, choro em francês quando o presidente do SIOP se refere a mim num discurso de despedida, ou fungo em etíope porque sim.

- Passar uma semana nestas andanças é um cansaço mental, uma cansaço físico e, por vezes, um cansaço da alma. Se voltasse atrás? Fazia tudo igual, talvez melhor. Nesse sentido sou um felizardo. 

Desculpem qualquer coisinha.

JdB

21 outubro 2019

Reuniões dos dias que correm



De hoje até sábado será isto. Durante uma semana a oncologia pediátrica ocupará os meus dias quase todos. Assisti ao (meu) primeiro congresso em 2009, talvez. 

Muita coisa mudou entretanto: eu representava uma associação portuguesa - a Acreditar - e agora, não só continuo a representar a mesma associação, como tenho responsabilidades internacionais. Por outro lado, há 10 anos (e o primeiro congresso foi há 25!) as apresentações das associações de pais ou de doentes ainda eram algo incipientes, reflectiam um nascimento recente ou as dificuldades de crescimento. Éramos uma grande família que se emocionava com os sucessos e dificuldades dos outros membros das famílias. E grande parte (uma muito grande parte) de quem comparecia eram os Pais. 

Hoje há profissionais, gente nova que não viveu a doença, sobreviventes com carreiras, cursos superiores e empenho na causa. Hoje somos parceiros institucionais da Organização Mundial de Saúde, somos parceiros credíveis da comunidade médica internacional, gerimos localmente orçamentos grandes, temos projectos "continentais" (sobretudo Europa). Porém, a par desses avanços, criámos talvez algum afastamento entre as organizações regionais: não há garantia que a gente nova e profissional que tem desempenhos fantásticos na Europa tenha preocupação pelo drama da oncologia pediátrica em África; tenho dúvidas se a Ásia se interessa muito pela América Latina, e vice-versa. Não é um problema de falta de "compaixão" - talvez seja um problema de focus local excessivo, a perda de uma certa visão global sobre o drama da doença.

É isto, para já.

JdB 

20 setembro 2019

Desafios, campanhas e mensagens dos dias que correm

Poderão aceder a todas as informações em:
https://www.facebook.com/donate/348549252691017/2321541688063211/ 

Tal como diz no site sobre esta campanha:

25 Anos a Acreditar!

Em 25 anos acompanhámos mais de 10.000 Famílias em 4 regiões, construímos 3 Casas, entregámos 22 Bolsas de Estudo, brincámos em 50 Campos de Férias; contamos com cerca de 650 Voluntários em todo o país e, em cada necessidade sentida, damos voz na defesa dos direitos das crianças com cancro e suas famílias.

Consigo vamos aumentar a capacidade da Casa Acreditar de Lisboa onde, gratuitamente, estão alojadas famílias de crianças em tratamento no IPO Lisboa. De 12 passaremos para 32 quartos. Chegaremos a mais 20 crianças. São mais 20 famílias de longe que precisam de um porto de abrigo que ofereça conforto, segurança e possibilidade de partilha de experiências.

Ofereça-nos um presente e faça assim parte desta construção!

Por cada 1€ investido na Casa de Lisboa:
- 0,45€ destinam-se ao acolhimento e acompanhamento das famílias
- 0,27€ para garantir o seu bem-estar e conforto
- 0,14€ para prestar apoio económico a estas famílias
- 0,14€ são aplicados nas despesas de suporte ao funcionamento da Casa







30 maio 2019

Crónicas de Praga (III) - ou Duas Últimas

Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar;
tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;
tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

(Livro do Eclesiastes)

***

Uma jovem sobrevivente da Bulgária faz uma apresentação a meias com a mãe. A apresentação é emotiva, ambas choram, talvez haja quem chore também na assistência. Uma das últimas frases da rapariga é esta (e cito de cor): even if your wings are broken, you can always fly with your heart. Comovi-me - e tive companhia de muita gente.

O que tem esta intervenção a ver com o excerto do livro do Eclesiastes? Tem tudo a ver, se o texto for pronunciado na primeira pessoa do singular; se o texto for lido de mim para mim, pensando no meu tempo e no tempo que eu tenho para cada propósito. 

Como disse há uns dias, as minhas primeiras experiências de conferências semelhantes àquela em que participei na semana passada assentavam muito em histórias semelhantes à da jovem búlgara. Sonhos, desejos, fragilidades, dificuldades, vitórias. Como o tempo tornei-me talvez mais duro, menos sensível, e queria ter mais informação sobre o progresso dos tratamentos, sobre os medicamentos disponíveis, sobre a tecnologia. Os momentos mais sensíveis eram os que envolviam a fragilidade humana: podiam ser a de uma mãe que mantinha relações sexuais com o marido uma vez por semana em nome de um certo "espírito de equipa", como podiam ser a de uma médica sueca que não estava preparada para dizer a um adolescente que ele ia morrer. 

Hoje, fruto da posição a que ascendi dentro da confederação, tenho (porque quero e porque devo) uma visão mais global do mundo, das assimetrias, do fosso, da necessidade de não nos fecharmos numa Europa rica e com taxas de sobrevivência boas e esquecer África, onde vinga a inversa. Talvez por isso, e porque sinto que uma das minhas tarefas (missão talvez seja exagerado) será (re)unificar esta organização mundial, percebo que por vezes volto atrás, ao tempo de chorar, ou de edificar, ou de falar. Quando me toca esse tempo, toca-me a frase da jovem búlgara, sobrevivente de um cancro.

Deixo-vos com o Livro do Eclesiastes, cantado pelos Byrds.

JdB

27 maio 2019

Crónicas de Praga (II)

Praga, Maio de 2019

5ª feira de manhã: médicos, sobreviventes de cancro pediátrico, Pais, discutem fertilidade: o que deve dizer-se, quando deve dizer-se e a quem. Não é uma informação de passagem, meramente logística. Para alguns doentes - 13, 14, 15 anos - é um projecto de vida que pode estar em risco. Não falamos de sobrevivência apenas, mas da possibilidade de, sobrevivendo-se, ser-se pai, mãe, criar-se uma família, um projecto. Num certo sentido, falar-se com um pai ou com um adolescente sobre isto é, também, dar a cura como (quase) garantida. Não se fala de fertilidade a quem tem uma prognóstico muito reservado, com probabilidade muito reduzida de sobrevivência. 

5ª feira de tarde: o CEO de uma empresa sueca fala de avatares, e põe em cima da mesa um "dispositivo" que, visto de longe, pouco diferente é de uma máquina de moer café. Ligam a máquina e estabelece-se um diálogo com a máquina, que responde a perguntas. O objectivo? Depois de milhões investidos em investigação, criar uma tecnologia que faça companhia a crianças doentes e muito isoladas, ou a crianças que, em casa usam a interface para estarem "presentes" numa sala de aula.


Praga, Maio de 2019

Duas sessões muito técnicas, muito voltadas para o futuro. Fala-se em avatares, em crio-preservação, em custos de tecnologia, em conservação de tecidos. Depois, entre estas duas sessões, o regresso a um certo passado: Rússia, Ucrânia, Geórgia e Roménia falam das suas realidades: as dificuldades, as faltas de dinheiro para o básico - nomeadamente para ter um professor num hospital. Quando dei por mim recuava dez anos, para uma altura em que as apresentações destes congressos eram, sobretudo, as dificuldades de implementação. 

Algo dentro de mim se comoveu: não com este choque entre o futuro quase risonho e um presente muito lutado, mas por perceber que somos várias europas, que o fosso que separa umas e outros é ainda grande, o que torna a nossa missão mais desafiante. Somos, Childhood Cancer International (divisão europeia), uma realidade dupla: estamos na cabeça do pelotão em termos de defesa dos interesses de doentes, de trabalho conjunto entre oncologistas pediátricos e organizações de pais / sobreviventes; mas também nos constituímos como o carro vassoura que, na cauda do pelotão, ampara, incentiva e não deixa que ninguém fique para trás ou desista. 

Nenhuma criança devia morrer de cancro -  um lema que usamos muito. Será um sonho? Como diria o poeta da Arrábida, pelo sonho é que vamos.

JdB    

23 maio 2019

Crónicas de Praga


Emily, francesa, tinha 5 anos quando lhe foi diagnosticada uma leucemia. Foi tratada (talvez transplante, já não sei bem) mas, aos 10 anos, surgiram complicações. Os dois ou três anos seguintes foram dramáticos, tendo sido dada como (quase) perdida. Foi submetida a um tratamento inovador e, poucos meses depois, estava na escola. Poucos anos depois subia a uma montanha com 3.000 metros, empunhando uma bandeira onde se podia ler: "a chacun son Everest". 

Desde 2009, talvez (e a nível internacional, porque a nível nacional já levo mais tempo) que vou assistindo aos "everests" de muita gente: gente que sobe, gente que fraqueja, gente que parte na caminhada. Acho sempre - e repito-o muito, porque me esqueço - que estes "everests" me devem ficar na memória, para relativizar as minhas montanhas aparentemente tão grandes. Grande é o "everest" de Emily e o de muitas outras pessoas como ela; as nossas montanhas, por mais altas que nos pareçam, são sempre coisinhas poucas.


Ver gente a dançar em Praga (oncologistas pediátricos, investigadores, pais, membros de associações, sobreviventes - de todos os cantos da Europa) é o mesmo que ver gente a dançar na Quinta do Lago ou num casamento de gente rica de Lisboa: são as mulheres que mais dançam, que se agitam freneticamente até ao limite. Mas em todos - mulheres, mas também homens - há um denominador muito comum: a dança como manifestação primitiva de expulsão de demónios, de toxinas, de cansaços. Há gente que dança bem, há gente que dança sem ritmo ao som de uma música que não ouviria em casa. Talvez seja a reacção a um dia de trabalhos em que se fala de cancro em crianças, de taxas de sobrevivência, de remédios que tiram as dores e que não são dados universalmente nesta Europa dos direitos dos animais, das não ofensas ao Islão, das ideologias de género. Eu sei que isto é uma grande misturada, mas o estabelecimento é meu. E sim, dancei, com gente da minha idade - uma espanhola e uma holandesa.


Estar em Praga é voltar a um sítio bonito, que continua a encantar-me. Estar em Praga é conviver com tudo: com a gargalhada, com o encontro de amigos, com a gente que se conhece, com a estatística que ofende, com a quantidade de pessoas que, podendo embelezar cirurgicamente o corpo de mulheres já de si bonitas, optam por tratar o cancro em crianças, ou com pessoas que foram afectadas por isto - pais ou sobreviventes - e que fazem disto uma (quase) cruzada.

JdB 

21 maio 2019

Em Praga

Praga 2019, Centro de Congressos

Há locais que repito com um intervalo de muitos anos. Estive pela primeira vez em Praga em 1982, talvez; regressei em 2002 ou 2003, e aqui estou de novo. Fui a primeira vez em lazer, a segunda em serviço profissional, a terceira no âmbito do meu voluntariado internacional. 

Cheguei a Praga pela primeira vez de carro, vindo de Viena. Vigorava o regime comunista e eu passara por Paris, Viena, Munique, Salzburgo e Budapeste. A minha frase foi imediata: Praga é a cidade mais bonita do mundo. Em 2002, com outras paragens acrescidas ao meu cardápio, voltei a dizer a mesma coisa. Praga é menos impressionante do que Paris; talvez seja menos imperial do que Viena e não tem a beleza do Danúbio (pujante como só ali) a separar Buda e Peste. No entanto, a beleza da cidade advém-lhe do equilíbrio. 

Com uma vida muito ocupada com reuniões, não terei possibilidade de andar a pé pela cidade. Resta-me tentar, hoje ainda, ir à ponta Károly (ou Carlos ou Charles), porque é das coisas bonitas para ver nesta capital.

***

Apanho um Uber do aeroporto para o Hotel. O diálogo inicial é este (quase ipsis verbis):

Ele: how are you, man?
Eu: very good, and yourself?
Ele: not good; I broke up with my girlfriend.
Eu (muito estúpido): did you brake with her or did she brake with you?
Ele: she broke with me. 
Ele ainda: you know, man, she's always complaining. I don't know what she wants.
Eu (muito estúpido, ainda): That's what Freud said 100 years ago: you never know what women want. 
Ele: I specifically told her not to do anything in the next 3 weeks, I have to be focussed for my finals. After that she could do anything...

Gosto da Uber. Sei o que vou pagar, é gente simpática e educada. Por vezes (e aconteceu uma vez em Washington com um motorista que ouvia Santana na telefonia) interajo mais proximamente com eles. Desta vez coube-me, não música, mas um romance tristemente acabado entre um georgiano e uma russa que detesta Putin. Pior ainda, não tenho um telefone para lhe perguntar se tudo se compôs... 

JdB

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