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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Para que serve a experiência que temos?

No espaço de algumas semanas, dois grandes amigos, ainda que com situações significativamente diferentes, têm tido preocupações com a saúde de filhos.

Converso com um deles, aquele cujo problema é mais antigo (ainda que com poucos meses). Falamos de palavras de conforto, do que os outros nos dizem ou deixam de dizer, daquilo que, sendo semelhante, se torna diferente consoante é dito por X ou por Y. Falamos - e usamos a expressão pobre consolo - das pessoas que, perante alguém que tem um filho numa situação delicada, não forçosamente ao nível do risco de vida, mas de um futuro condicionado, lhe dizem mas ao menos está viva... Falo com o outro amigo. Interesso-me, e ele sabe que me interesso. A conversa acaba com uma franqueza minha: nada tenho para te dizer que te console. E não tenho, de facto.  

Recuo 19 anos e lembro-me das pessoas que queriam confortar-me sem saber como, das pessoas que nunca me disseram nada, das pessoas que diziam o que eu gostava de ouvir (em termos de forma e de conteúdo). Lembro-me de dizer a um grupo voluntários para quem falava que não há nada mais difícil do que abordar uns Pais quando ou pouco depois de serem confrontados com o diagnóstico de cancro de um filho criança ou jovem. Quem são os pais que estão à nossa frente? Querem eles silêncio, uma palavra, um gesto - ou apenas nada?

Assisto a um seminário sobre oncologia pediátrica. Oiço uma psicóloga que lidou com estes temas e de quem sou amigo. Abordava pais na pediatria do IPO que lhe perguntavam: tem filhos? Ela respondia que não e os pais diziam: então não sabe o que estamos a passar. Os anos passaram e ela teve filhos; e mesmo assim, dizia ela, não sabia o que os pais estavam a passar. 

Podemos ter filhos que tiveram problemas de saúde, mas não é por isso que sabemos o que para os outros pais é ter filhos com problemas de saúde... Podemos ser pais em luto, mas não sabemos o que para outro pai é estar em luto. A experiência permite que imaginemos, mas não nos dá garantia de sabermos. Termos noção disso é importante.

JdB

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Crónica de uma viagem a Paris

Viajo de Lisboa para Paris com um casal algo idoso ao meu lado. Quando vem a refeição (enfim, uma expressão eufemística para um pastel de nata incomível) a senhora informa a assistente de bordo: fazemos hoje 60 anos de casados... Há um vislumbre de alegria que se abre no rosto da funcionária: já volto, diz ela com um ar misterioso, acrescentando para mim: mas não pode dizer nada a ninguém. Imaginei tudo: palhaços, um bolo com um pau a arder, uma garrafa de champanhe que se abre e que derrama espuma para gáudio dos passageiros. Equivoquei-me: o casal foi brindado com dois copos de vinho branco (um gentil oferta, pois já tinham bebido o sumo a que tinham direito) e dois pacotes de amendoins...

Converso com o aniversariante, que está ao meu lado. Foi militar, tenente-coronel da Força Aérea, saneado após o 25 de Abril. Endireito-me na cadeira, imaginando uma conversa monotemática de ataque ao MFA. Afinal foi saneado por ser demasiadamente esquerdista, parece. E passou com alegria - que terminou em desalento - pelo PRP, onde conheceu o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo. A esposa ainda me perguntou, com um ar de quem tem intimidade mas não domina a realidade: a mulher do Major Tomé ainda é viva? 

Amendoins pareceu-me bem. Talvez excessivo, quiçá...

***

Estou numa reunião com colegas e parceiros de projecto. Às tantas, um dos anfitriões pergunta se as pessoas querem uma coca-cola. Voltando-se para mim, indaga: Joao, coke? É um rapaz afável, com quem tenho algum à-vontade. Não me inibo e pergunto alto: Thomas, do you mean a line of coke? e acompanho com o gesto de snifar uma linha. Há gente que ri, que se surpreende. Há quem se choque, porque o sentido de humor lhes é insultuoso ou se assemelha a física quântica. O Thomas manteve o nível e respondeu: after the meeting in my office.

***

Há inúmeras vantagens nestas reuniões internacionais: são gente dos EUA, da Rússia, da China, da Alemanha, de França, das Filipinas, da Nova Zelândia, de Espanha. Há gente que se beija (o Thomas beija-me nas duas faces...) que estende a mão ou, no caso de uma pessoa específica, que nem quer fazer nada, tal o incómodo. Ver latinos a beijarem anglo-saxónicas é curioso. Nalguns casos há um espanto, um incómodo ou mesmo um esgar de quase repulsa. Em alturas de corona vírus, há pessoas para quem serem beijadas se assemelha a uma violação pública num bar demasiado cheio.

***

O projecto que me leva a Paris é uma parceria, para alguns países específicos, entre uma fundação da L'Oreal e a Childhood Cancer International. O projecto tem três vertentes principais: uma página da internet em cada país, a definição de uma escala de emoções para crianças com cancro e a aplicação de um conjunto de massagens estudadas que têm por objectivo (re)construir a ligação entre Pais e criança doente. Contam-me duas histórias: a de uma criança que "proibiu" os pais de lhe darem banho, só os irmãos o podiam fazer. Muito provavelmente associava a presença dos pais a todos os procedimentos médicos que lhe provocavam dor, tendo desenvolvido uma reacção quase pavloviana: quando os meus pais me abraçam é sinal que vem dor...

A outra história é a de um pai (homem) que deixou de tocar no filho bebé quando este foi diagnosticado com cancro. Não havia repulsa, apenas um temor imenso de tocar e, com isso, poder provocar dor. Aprendeu o esquema de massagens que referi acima; a primeira vez que o pôs em prática chorou convulsivamente.

É isto, no fundo.

JdB

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Do abandono e do regresso

Ao fim de dez anos de andanças por estes congressos onde se fala de oncologia pediátrica, é forçoso que se estabeleçam relações de natureza diversa: há o japonês, que conheço há dez anos e com quem nunca troquei mais do que palavras de circunstância; há o israelita com quem converso fluidamente e troco histórias; há a comunidade austríaca, feita de profissionais e sobreviventes, com quem me dou particularmente bem, com quem rio e converso seriamente; hás a luxemburguesas, as suíças, a neozelandesa com quem tenho uma relação bem disposta; há as indianas com quem tenho uma relação cordial, as indonésias ou alemães com quem tenho uma relação educada mas formal. E outras nacionalidades... Não faço alarde das internacionalização destes congressos: é assim que é: somos 171 organizações em quase 90 países; mesmo que não estejam lá todos representados, há muitos...

Estes congressos são momentos, também, de partilha, não pública, em frente a uma audiência, mas em frente a um café, num intervalo, na ponta de uma mesa de jantar, no cansaço de um fim de dia a ouvir e a raciocinar e a falar numa língua que não é a nossa. Vamos conhecendo as vidas, as dificuldades, as opções, as características. Para pessoas como eu, que gostam de dar profundidade e intimidade às relações, são momentos que podem ser de privilégio.

Diz-me alguém com quem converso: tenho horror à partida dos outros; tenho horror ao sentimento de abandono. Converso com outra pessoa que me diz: de onde quer que venha, mesmo que seja das férias mais divertidas, adoro o regresso a casa. Olho para dentro de mim. Não tenho o horror ao abandono, mas tenho um apego muito grande pelo regresso a casa, sendo que o itálico traduz que a expressão pode ser lida de forma metafórica. O horror ao abandono e o desejo de regresso cruzam-se, ainda que não de forma óbvia. Ambos falam da segurança conferida por algo ou por alguém. O regresso a casa pode ser um espaço, pode ser uma receita de compota de laranja, como no caso do marinheiro da equipa de Shackleton no Pólo Sul, a quem foi dito para levar apenas o essencial. Ou uma folha da Bíblia, no caso de outro marinheiro. Há abandono na mudança de uma casa como há regresso a casa mesmo que seja uma que não é nossa?

Olho à volta da sala onde se fala de oncologia pediátrica: vejo mães ou pais que perderam filhos e que teimam em encontrar um sentido para a vida nestas coisas; vejo sobreviventes que podiam ser outra coisa mas que querem ser sobreviventes nas organizações, vejo médicos a quem morrem crianças e que podiam ser dermatologistas a tirar rugas; vejo gente saudável, que ri, que tem um semblante triste mas que acodem a centenas ou milhares de crianças num Irão difícil, pejado de refugiados. Vejo gente que tem medo do abandono ou que deseja o regresso a casa. Vejo tudo, mas sei que só vejo uma parte pequena do que as pessoas são. Ou do que eu sou.

JdB

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Petit riens de um congresso


- Amiga das distantes Filipinas manda-me a imagem acima. 

- Converso com o presidente cessante da SIOP (Société Internationale de Oncologie Pédiatrique) com quem travei conhecimento e amizade no ano de todos os anos, 2001. Cruzamo-nos uma vez por ano, em sítios onde se fala de esperança, de tratamento, de doença, de estatísticas injustas. É oncologista pediátrico há 30 anos. Quando se reformar tentará ir para África fazer voluntariado. Se voltasse atrás? Fazia tudo igual. Todos os dias toca numa fotografia que tem pendurada no sítio onde trabalha. Toca no nariz de uma rapariga que o levou a rapar o cabelo e que morreu. Foi esta e mais outras que não conseguiu salvar. Se voltasse atrás? Fazia tudo igual.

- Assisto à apresentação de um funcionário superior da OMS, médico novo, responsável pela iniciativa global de combate ao cancro pediátrico. É um homem competente, afável, que sabe as estatísticas: 80% de sobrevivência nos países desenvolvidos, 20% de sobrevivência nos países que o não são, onde estão 90% dos casos de cancro infantil. Tirou umas férias, depois de ter tido uma filho há 4 meses. Para onde foi? Fazer voluntariado médico para o Quénia. 

- É nestes médicos que vejo a essência da medicina. Outros haverá que não conheço, muitos haverá que querem negócio. Mas é destes que quero falar agora, para que não me esqueça que sou vice-presidente de uma associação global que lida com estes temas, e com os 20% de sobrevivência. 

- Vejo brasileiros, ugandeses, iraquianos, japoneses, suecos, chilenos, coreanos, austríacos, russos chineses ou franceses. Riem, abraçam-se os que são de abraçar; cumprimentam-se, revêm velhos amigos. Falam a mesma linguagem da esperança e das estatísticas que teimam em aparecer. São a minha grande família internacional, em frente de quem  (não estes, mas outros iguais) chorei pela primeira vez em 2002, por falar destes temas que me acompanham há 18 anos. 

- Vejo um filme sobre irmãos em luto. Um filme duro, desafiante, que nos faz relembrar distracções dolorosas com os nossos filhos sobreviventes, que nos faz pensar no tanto que temos de fazer. Miúdos que só viam as fotografias do irmão morto em casa, ou que achavam que só tinham o amor dos pais se estivessem doentes, ou que teimam em não soltar nem soltar-se.  

- Faço trocadilhos, rio, gozo com amigos, falo alemão (que é uma forma de fazer trocadilhos incompreensíveis), arrisco o francês e as três palavras que sei dizer em russo. Falamos a língua da esperança e das estatísticas, mas cada um também fala a sua original, onde se refugia, onde tem mau feitio e defeitos. Praguejo em português porque estou cansado ou me sinto destratado, choro em francês quando o presidente do SIOP se refere a mim num discurso de despedida, ou fungo em etíope porque sim.

- Passar uma semana nestas andanças é um cansaço mental, uma cansaço físico e, por vezes, um cansaço da alma. Se voltasse atrás? Fazia tudo igual, talvez melhor. Nesse sentido sou um felizardo. 

Desculpem qualquer coisinha.

JdB

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Reuniões dos dias que correm



De hoje até sábado será isto. Durante uma semana a oncologia pediátrica ocupará os meus dias quase todos. Assisti ao (meu) primeiro congresso em 2009, talvez. 

Muita coisa mudou entretanto: eu representava uma associação portuguesa - a Acreditar - e agora, não só continuo a representar a mesma associação, como tenho responsabilidades internacionais. Por outro lado, há 10 anos (e o primeiro congresso foi há 25!) as apresentações das associações de pais ou de doentes ainda eram algo incipientes, reflectiam um nascimento recente ou as dificuldades de crescimento. Éramos uma grande família que se emocionava com os sucessos e dificuldades dos outros membros das famílias. E grande parte (uma muito grande parte) de quem comparecia eram os Pais. 

Hoje há profissionais, gente nova que não viveu a doença, sobreviventes com carreiras, cursos superiores e empenho na causa. Hoje somos parceiros institucionais da Organização Mundial de Saúde, somos parceiros credíveis da comunidade médica internacional, gerimos localmente orçamentos grandes, temos projectos "continentais" (sobretudo Europa). Porém, a par desses avanços, criámos talvez algum afastamento entre as organizações regionais: não há garantia que a gente nova e profissional que tem desempenhos fantásticos na Europa tenha preocupação pelo drama da oncologia pediátrica em África; tenho dúvidas se a Ásia se interessa muito pela América Latina, e vice-versa. Não é um problema de falta de "compaixão" - talvez seja um problema de focus local excessivo, a perda de uma certa visão global sobre o drama da doença.

É isto, para já.

JdB 

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Desafios, campanhas e mensagens dos dias que correm

Poderão aceder a todas as informações em:
https://www.facebook.com/donate/348549252691017/2321541688063211/ 

Tal como diz no site sobre esta campanha:

25 Anos a Acreditar!

Em 25 anos acompanhámos mais de 10.000 Famílias em 4 regiões, construímos 3 Casas, entregámos 22 Bolsas de Estudo, brincámos em 50 Campos de Férias; contamos com cerca de 650 Voluntários em todo o país e, em cada necessidade sentida, damos voz na defesa dos direitos das crianças com cancro e suas famílias.

Consigo vamos aumentar a capacidade da Casa Acreditar de Lisboa onde, gratuitamente, estão alojadas famílias de crianças em tratamento no IPO Lisboa. De 12 passaremos para 32 quartos. Chegaremos a mais 20 crianças. São mais 20 famílias de longe que precisam de um porto de abrigo que ofereça conforto, segurança e possibilidade de partilha de experiências.

Ofereça-nos um presente e faça assim parte desta construção!

Por cada 1€ investido na Casa de Lisboa:
- 0,45€ destinam-se ao acolhimento e acompanhamento das famílias
- 0,27€ para garantir o seu bem-estar e conforto
- 0,14€ para prestar apoio económico a estas famílias
- 0,14€ são aplicados nas despesas de suporte ao funcionamento da Casa







quinta-feira, 30 de maio de 2019

Crónicas de Praga (III) - ou Duas Últimas

Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar;
tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;
tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

(Livro do Eclesiastes)

***

Uma jovem sobrevivente da Bulgária faz uma apresentação a meias com a mãe. A apresentação é emotiva, ambas choram, talvez haja quem chore também na assistência. Uma das últimas frases da rapariga é esta (e cito de cor): even if your wings are broken, you can always fly with your heart. Comovi-me - e tive companhia de muita gente.

O que tem esta intervenção a ver com o excerto do livro do Eclesiastes? Tem tudo a ver, se o texto for pronunciado na primeira pessoa do singular; se o texto for lido de mim para mim, pensando no meu tempo e no tempo que eu tenho para cada propósito. 

Como disse há uns dias, as minhas primeiras experiências de conferências semelhantes àquela em que participei na semana passada assentavam muito em histórias semelhantes à da jovem búlgara. Sonhos, desejos, fragilidades, dificuldades, vitórias. Como o tempo tornei-me talvez mais duro, menos sensível, e queria ter mais informação sobre o progresso dos tratamentos, sobre os medicamentos disponíveis, sobre a tecnologia. Os momentos mais sensíveis eram os que envolviam a fragilidade humana: podiam ser a de uma mãe que mantinha relações sexuais com o marido uma vez por semana em nome de um certo "espírito de equipa", como podiam ser a de uma médica sueca que não estava preparada para dizer a um adolescente que ele ia morrer. 

Hoje, fruto da posição a que ascendi dentro da confederação, tenho (porque quero e porque devo) uma visão mais global do mundo, das assimetrias, do fosso, da necessidade de não nos fecharmos numa Europa rica e com taxas de sobrevivência boas e esquecer África, onde vinga a inversa. Talvez por isso, e porque sinto que uma das minhas tarefas (missão talvez seja exagerado) será (re)unificar esta organização mundial, percebo que por vezes volto atrás, ao tempo de chorar, ou de edificar, ou de falar. Quando me toca esse tempo, toca-me a frase da jovem búlgara, sobrevivente de um cancro.

Deixo-vos com o Livro do Eclesiastes, cantado pelos Byrds.

JdB

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Crónicas de Praga (II)

Praga, Maio de 2019

5ª feira de manhã: médicos, sobreviventes de cancro pediátrico, Pais, discutem fertilidade: o que deve dizer-se, quando deve dizer-se e a quem. Não é uma informação de passagem, meramente logística. Para alguns doentes - 13, 14, 15 anos - é um projecto de vida que pode estar em risco. Não falamos de sobrevivência apenas, mas da possibilidade de, sobrevivendo-se, ser-se pai, mãe, criar-se uma família, um projecto. Num certo sentido, falar-se com um pai ou com um adolescente sobre isto é, também, dar a cura como (quase) garantida. Não se fala de fertilidade a quem tem uma prognóstico muito reservado, com probabilidade muito reduzida de sobrevivência. 

5ª feira de tarde: o CEO de uma empresa sueca fala de avatares, e põe em cima da mesa um "dispositivo" que, visto de longe, pouco diferente é de uma máquina de moer café. Ligam a máquina e estabelece-se um diálogo com a máquina, que responde a perguntas. O objectivo? Depois de milhões investidos em investigação, criar uma tecnologia que faça companhia a crianças doentes e muito isoladas, ou a crianças que, em casa usam a interface para estarem "presentes" numa sala de aula.


Praga, Maio de 2019

Duas sessões muito técnicas, muito voltadas para o futuro. Fala-se em avatares, em crio-preservação, em custos de tecnologia, em conservação de tecidos. Depois, entre estas duas sessões, o regresso a um certo passado: Rússia, Ucrânia, Geórgia e Roménia falam das suas realidades: as dificuldades, as faltas de dinheiro para o básico - nomeadamente para ter um professor num hospital. Quando dei por mim recuava dez anos, para uma altura em que as apresentações destes congressos eram, sobretudo, as dificuldades de implementação. 

Algo dentro de mim se comoveu: não com este choque entre o futuro quase risonho e um presente muito lutado, mas por perceber que somos várias europas, que o fosso que separa umas e outros é ainda grande, o que torna a nossa missão mais desafiante. Somos, Childhood Cancer International (divisão europeia), uma realidade dupla: estamos na cabeça do pelotão em termos de defesa dos interesses de doentes, de trabalho conjunto entre oncologistas pediátricos e organizações de pais / sobreviventes; mas também nos constituímos como o carro vassoura que, na cauda do pelotão, ampara, incentiva e não deixa que ninguém fique para trás ou desista. 

Nenhuma criança devia morrer de cancro -  um lema que usamos muito. Será um sonho? Como diria o poeta da Arrábida, pelo sonho é que vamos.

JdB    

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Crónicas de Praga


Emily, francesa, tinha 5 anos quando lhe foi diagnosticada uma leucemia. Foi tratada (talvez transplante, já não sei bem) mas, aos 10 anos, surgiram complicações. Os dois ou três anos seguintes foram dramáticos, tendo sido dada como (quase) perdida. Foi submetida a um tratamento inovador e, poucos meses depois, estava na escola. Poucos anos depois subia a uma montanha com 3.000 metros, empunhando uma bandeira onde se podia ler: "a chacun son Everest". 

Desde 2009, talvez (e a nível internacional, porque a nível nacional já levo mais tempo) que vou assistindo aos "everests" de muita gente: gente que sobe, gente que fraqueja, gente que parte na caminhada. Acho sempre - e repito-o muito, porque me esqueço - que estes "everests" me devem ficar na memória, para relativizar as minhas montanhas aparentemente tão grandes. Grande é o "everest" de Emily e o de muitas outras pessoas como ela; as nossas montanhas, por mais altas que nos pareçam, são sempre coisinhas poucas.


Ver gente a dançar em Praga (oncologistas pediátricos, investigadores, pais, membros de associações, sobreviventes - de todos os cantos da Europa) é o mesmo que ver gente a dançar na Quinta do Lago ou num casamento de gente rica de Lisboa: são as mulheres que mais dançam, que se agitam freneticamente até ao limite. Mas em todos - mulheres, mas também homens - há um denominador muito comum: a dança como manifestação primitiva de expulsão de demónios, de toxinas, de cansaços. Há gente que dança bem, há gente que dança sem ritmo ao som de uma música que não ouviria em casa. Talvez seja a reacção a um dia de trabalhos em que se fala de cancro em crianças, de taxas de sobrevivência, de remédios que tiram as dores e que não são dados universalmente nesta Europa dos direitos dos animais, das não ofensas ao Islão, das ideologias de género. Eu sei que isto é uma grande misturada, mas o estabelecimento é meu. E sim, dancei, com gente da minha idade - uma espanhola e uma holandesa.


Estar em Praga é voltar a um sítio bonito, que continua a encantar-me. Estar em Praga é conviver com tudo: com a gargalhada, com o encontro de amigos, com a gente que se conhece, com a estatística que ofende, com a quantidade de pessoas que, podendo embelezar cirurgicamente o corpo de mulheres já de si bonitas, optam por tratar o cancro em crianças, ou com pessoas que foram afectadas por isto - pais ou sobreviventes - e que fazem disto uma (quase) cruzada.

JdB 

terça-feira, 21 de maio de 2019

Em Praga

Praga 2019, Centro de Congressos

Há locais que repito com um intervalo de muitos anos. Estive pela primeira vez em Praga em 1982, talvez; regressei em 2002 ou 2003, e aqui estou de novo. Fui a primeira vez em lazer, a segunda em serviço profissional, a terceira no âmbito do meu voluntariado internacional. 

Cheguei a Praga pela primeira vez de carro, vindo de Viena. Vigorava o regime comunista e eu passara por Paris, Viena, Munique, Salzburgo e Budapeste. A minha frase foi imediata: Praga é a cidade mais bonita do mundo. Em 2002, com outras paragens acrescidas ao meu cardápio, voltei a dizer a mesma coisa. Praga é menos impressionante do que Paris; talvez seja menos imperial do que Viena e não tem a beleza do Danúbio (pujante como só ali) a separar Buda e Peste. No entanto, a beleza da cidade advém-lhe do equilíbrio. 

Com uma vida muito ocupada com reuniões, não terei possibilidade de andar a pé pela cidade. Resta-me tentar, hoje ainda, ir à ponta Károly (ou Carlos ou Charles), porque é das coisas bonitas para ver nesta capital.

***

Apanho um Uber do aeroporto para o Hotel. O diálogo inicial é este (quase ipsis verbis):

Ele: how are you, man?
Eu: very good, and yourself?
Ele: not good; I broke up with my girlfriend.
Eu (muito estúpido): did you brake with her or did she brake with you?
Ele: she broke with me. 
Ele ainda: you know, man, she's always complaining. I don't know what she wants.
Eu (muito estúpido, ainda): That's what Freud said 100 years ago: you never know what women want. 
Ele: I specifically told her not to do anything in the next 3 weeks, I have to be focussed for my finals. After that she could do anything...

Gosto da Uber. Sei o que vou pagar, é gente simpática e educada. Por vezes (e aconteceu uma vez em Washington com um motorista que ouvia Santana na telefonia) interajo mais proximamente com eles. Desta vez coube-me, não música, mas um romance tristemente acabado entre um georgiano e uma russa que detesta Putin. Pior ainda, não tenho um telefone para lhe perguntar se tudo se compôs... 

JdB

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Duas Últimas

Ontem, por ofício de representação enquanto presidente da Acreditar, fui à Assembleia da República. Não fui discutir aspectos legislativos, nem tentar por juízo na cabeça de alguns / algumas deputados, mas apenas inaugurar, no espaço adequado, uma exposição de fotografias promovida por Pais de crianças com cancro do núcleo norte. 

O Parlamento representou-se pela deputada Teresa Caeiro que foi de inexcedível atenção, cuidado e simpatia, tendo percorrido as 20 fotografias (e respectiva legenda quanto às necessidades de crianças / pais) com interesse. 

(Antes aproveitei para sensibilizar duas deputadas - uma do CDS e outra do PCP - para uma audiência que solicitámos a algumas comissões, nomeadamente da saúde / segurança social).

Cruzei-me com o Sérgio, sobrevivente de cancro que tem um fortísssimo sotaque nortenho e um genuíno ar malandro, que encontro nas festas de Natal. Passeou-se de chapéu de pala posto ao contrário e acompanhou-nos na visita. Tivemos o seguinte diálogo (de que escolho as partes mais relevantes):

- Então Sérgio, em que ano estás?

- Estou no 8º...

- Não podes parar por aqui. Fazes o 9º, o 10º, 0 12º...

- Mas não vou para a faculdade! 

- Então porquê?

- Ou posso ir; mas se puser um fato não levo uma gravata cinzenta. 

- Então?

-  Talvez encarnada. Tem mais império...

E olhando para a minha gravata, não hesitou:

- A sua, por exemplo, tem maturidade.

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Deixo-vos com Elton John, num grande concerto no longínquo ano de 1986, na também longínqua Austrália.

JdB

    

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Encontros dos dias que correm


9ª Conferência Europeia da Childhood Cancer International

Enquanto entidade organizadora, a Acreditar acolhe em Lisboa, entre os dias 13 e 15 de Abril, 120 representantes de congéneres europeias bem como membros da Sociedade Europeia de Oncologia Pediátrica.

Sob o lema Fit for the Future (Preparar o Futuro), as associações europeias representantes de pais de crianças e jovens com cancro e sobreviventes vão falar do futuro do cancro pediátrico em todas as suas vertentes: o apoio aos doentes e famílias, as novas terapias, passando pelas questões da sobrevivência. 

Sobre a Childhood Cancer Internacional: organização que congrega associações de pais de crianças e jovens com cancro e sobreviventes de todo o mundo. Foi criada em 1994, tendo a Acreditar sido um dos membros fundadores. É actualmente constituída por 183 associações de pais e doentes de cancro infantil que representam, no total, 310 associações, espalhadas pelos cinco continentes.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Disto, mas também de outros devaneios

Celebrou-se, no passado dia 15 de Fevereiro, o dia internacional da criança com cancro. Foi dia de artigos em jornais, de visita do Presidente da República, de uma ou outra notícia. E foi dia - por isso aqui estou - de fixar aspectos soltos da temática e de os trazer à vossa partilha.

***

A 16 de Setembro de 2008, vivia eu uns intensos dois meses no Zimbabwe, foi-me dada a oportunidade de visitar um grande hospital de Harare. Não sei se percorri corredores, se subi escadas ou se atravessei portas. Sei, isso sim, que desci até uma espécie de inferno que se intitulava, mesmo que não se intitulasse assim, ala das crianças com cancro. Uma ala destas é sempre uma visão de uma espécie de inferno, seja no Zimbabwe, onde nada se construía a partir de nada, ou do Canadá, onde há tudo para se fazer muito, desde que ao alcance do génio e da vontade humanas. Talvez no inferno estejam só os pecadores que não quiseram arrepender-se. Ali, naquela como noutras alas de outros países, o inferno advém da injustiça mais cruel - crianças com doenças que eram vistas como de velhos. Em África, tudo isto assume uma proporção que torna as nossas queixas sobre os hospitais portugueses uma obscenidade de burguesismo.

Fica o link (http://adeus-ate-ao-meu-regresso.blogspot.pt/2008/09/sade-que-no-se-deseja.html) para o caso de alguém querer começar o dia com a visão que nos faz desejar ser ceguinhos (olhar ceguinho de choro, dizia o José Régio num das mais bonitas frases da poesia portuguesa) mas também com a visão que nos faz querer fazer algo mais pelo nosso próximo

(é verdade que o nosso próximo é sempre o mais próximo, mas por vezes devia ser alguém próximo mas desconhecido, que nos tire da zona de conforto)

Em querendo começar o dia com um outro nó no estômago, vejam o video abaixo, que me mandaram caprichosamente no dia 15 de Fevereiro, sobre o inferno que eu vi. Mas também sobre a Kidzcan, a Acreditar do Zimbabwe, de cuja responsável recebi um abraço forte enquanto ela me dizia que eu era um anjo, não se lembrando que não sou, mas que tenho, e que por isso é que lhe dava aquele abraço chorado e sentido. 




O assunto não se esgota aqui, e por isso continuo mais ligeiro. Dia 15 de Fevereiro tive o grato prazer de ouvir Ângelo Felgueiras, o homem que foi ao Pólo Sul, que lá pôs uma bandeira da Acreditar e que  nos deu um cheque bom e generoso. Falou aos nossos amigos que venceram a luta contra o cancro, elogiou a tenacidade deles (diminuindo a sua própria) e contou aspectos da viagem. E aqui é que as estradas se bifurcam: enquanto as pessoas normais (sim, isso) lhe perguntam pormenores práticos - como é puxar um trenó, quantos quilos disto ou daquilo, como cumpriam necessidades fisiológicas, eu só quero saber em que pensou ele no deserto gelado, se o deserto - o gelado ou o outro - é, de facto o local de encontro com Deus (não sei se ele é crente), o que significa imensidão, como se faz para estar em casa, ainda que longe de casa...

Nota final: ontem, eu e mais 15 colegas escrevemos a nossa definição de sublime e demos alguns exemplos de coisas sublimes.  Os exemplos dos meus colegas foram todos tangíveis: a música dos Pink Floyd, o começo do livro Lolita, o quadro deste ou daquele pintor, neve no campo ao amanhecer. Eu - sempre eu, com esta mania da originalidade - fui o único que dei um exemplo intangível de sublimidade: duas pessoas que se entendem perfeitamente numa multidão, sem trocar uma palavra. 

Devaneios...

JdB

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Dos dias auspiciosos


Dirijo-me à Câmara Municipal de Lisboa, edifício do Campo Grande, para assinar uma escritura de cedência de direito de superfície de um imóvel  que permitirá à Acreditar ampliar a sua casa de Lisboa e, com isso, evitar as inúmeras e terríveis listas de espera de famílias que precisam de ficar connosco.

A escritura decorre na maior normalidade: uma ou outra dúvida, ligeiro atraso, interlocutores simpáticos e com palavras elogiosas relativamente ao nosso trabalho, às nossas Casas, àquilo que é a nossa missão. Uma fotografia da minha mão (ver um canhoto, como eu, a escrever é sempre ter o confronto com uma bizarria da natureza, parece um acto aleijado...) grava o momento.

Saio satisfeito, multiplamente satisfeito. Espera-me um almoço com o meu querido amigo fq,  o acto notarial foi curto dando-me tempo para resolver alguns assuntos pessoais / profissionais, e cumpri um gosto enquanto presidente da Acreditar. Não tenho mérito, apenas orgulho. No final de 2019 este novo lado da Casa encher-se-á de gente que nos bate à porta, que ali sentirá uma casa longe de casa. Talvez um dia devolvamos os imóveis à Câmara, porque já nada daquilo serve, que a batalha do cancro pediátrico foi vencida. Não acontecerá no meu tempo, mas não é por isso que deixo de imaginar o dia. 

***

Em Lisboa já não uso moedas para o estacionamento. Socorro-me de uma aplicação da EMEL que funciona na perfeição, identifica correctamente o local onde estou. Em menos de 1 minuto cumpro o meu dever de cidadão lisboeta e pago o estacionamento. Mas tecnologia é tecnologia, e um dia há-de falhar. Foi o que pensei quando cheguei ao carro e vi um papel no pára-brisas: uma multa! Não era, afinal. Mestre Isa (um cavalheiro, porque dotado) resolve tudo, até o afastamento e aproximação de pessoas amadas. Porque será que alguém quer afastar pessoas amadas?

A publicidade é fantástica, a gama de intervenção infinita, quase. O português irrepreensível, até porque fala em problemas acima mencionados,  o que é uma construção sintática que revela cuidado. A manhã não podia ser mais auspiciosa, confesso. Parto para o almoço com outro ânimo, sossegado com a perspectiva do Mestre Isa me resolver questões de inveja e insucessos. Fora os outros...

JdB

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Daquilo que me comove

Nestes encontros da comunidade que, nas diversas frentes, luta contra o cancro pediátrico, há sempre alguma coisa que me comove. Já foram as histórias de crianças que lutaram e venceram ou lutaram e perderam; já foram as histórias dos Pais que nunca baixaram os braços ou que encontraram um sentido para a sua vida; já foram as histórias das fragilidades das pessoas, como daquela médica que, treinada para curar, não sabia como dizer a um adolescente ou a uma criança que iriam morrer.  

Jardins de Majorelle, Marraqueche, onde era a casa de Yves St. Laurent (Abril 2017) 

Ontem, no fim da cerimónia de abertura do encontro - uma cerimónia demasiado longa e menos animado do que poderia ser - realizou-se um cocktail nos jardins do hotel.

(E tenho de fazer um parêntesis para contar uma história breve: à saída da sala, um senhor idoso e de bengala aproxima-se de mim com um sorriso franco e aberto, dizendo-me em francês: professeur blablabla? Eu digo que não, que deve ter confundido. Ah! Bien sur, je m'excuse...  No decorrer do beberete dirijo-me à presidente do SIOP -África (Societé International d'Oncologie Pédiatrique) para lhe fazer uma pergunta. Abre-me um sorriso franco, estende-me a mão e diz-me. Steve? Enfim, ontem não era ninguém, apenas pessoas que se parecem vagamente comigo...) 


Jardins de Majorelle, Marraqueche, onde era a casa de Yves St. Laurent (Abril 2017) 

Retomo o texto. Já no fim da noite, colega sul-africano apresenta-me a um médico inglês que, após 30 anos como médico de família em Inglaterra, decide ir viver para os Camarões como oncologista pediátrico voluntário, o que já de si parece ser extraordinário. Falamos sobre os Camarões, sobre a religião do país, a influência inglesa ou francesa, a curiosidade dos norte dos países africanos, mesmo os do sul, terem uma influência muçulmana. Não resisto a fazer-lhe uma pergunta particular: o que o motivou a ir? Foi a ciência, o dinheiro, ou houve qualquer coisa de mais transcendente, de cariz religioso, missionário ou outro? E falei-lhe no médico de Lampedusa (cuja entrevista ao Observador vale muito a pena ser lida, pelo que lá está e pelo que se deduz) da angústia dos sacos onde estavam os cadáveres, da vocação pelo mar. E falei-lhe dos sinais e das coincidências e do serendipismo e da minha filha e de se ser oncologista pediátrico com netos ou filhos pequenos... 

O médico sorriu, meio envergonhado, quase, e falou que sim, que era também isso, que a igreja que o apoia nos Camarões, veio ele a saber, tinha a mesma génese que a igreja dele, e que nascera na sua terra natal. E eu dei por mim mais envergonhado que ele, a fugir, quase, da conversa, para não lhe falar no sentido da vida, no Viktor Frankl, no Céu ou nos anjos, nos sinais e nas coincidências significativas, em tudo aquilo que nos vai comovendo durante uma vida inteira e que só nós, ou outros muito raros, conseguem decifrar. Despediu-se de mim simpaticamente, perguntando-me o nome, dizendo que sim que tudo o que eu dizia fazia muito sentido. Mas eu já estava de esguelha, de lenço na mão, feito pateta, perante um homem que nunca vira, e que se calhar não verei jamais.

Há-de haver quem me entenda, mas África tem um je ne sais quoi...

JdB     

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Das pequenas ingenuidades

Depois de ter sido eleito para o Conselho de Curadores ou Conselho de Administração (Board of Trustees) da Childhood Cancer International, encetei algumas conversas com colegas com quem tinha mais confiança, com quem havia uma empatia mais acentuada. O objectivo era simples: ter informações mais ou menos privilegiadas, de quem estava por dentro da organização; saber o que corre bem, o que pode ser melhorado; o que são as sensibilidades das várias pessoas, como se articulam, de volta da mesma mesa, realidades tão distintas como EUA, Chile, Índia, Espanha, África do Sul, Nova Zelândia ou Austrália; por último, mas não menos importante, tentar saber porque me convidaram para o lugar, uma pessoa que intervém pouco nestas conferências internacionais, mas cuja presença se destaca pelo tamanho.

Tenho 20 anos de cultura de multinacional. Sei o que são os jogos de poder, as estratégias pessoais, as pequenas ou grandes traições, as lutas por uma promoção ou por uma notoriedade. Vivi essa realidade, fui vítima ingénua dessa realidade. O meu mindset mudou bastante quando entrei no mundo das IPSS, onde não havia razão para essas trapalhices. Afinal, todos lutávamos pelo mesmo: o bem-estar do nosso semelhante, no meu caso crianças indefesas. Qual não é o meu espanto, portanto, quando no decorrer de uma conversa com um colega com quem / por quem tenho à-vontade, confiança e simpatia e respeito, ele me diz de fulano: tem uma agenda pessoal. E depois me diz de beltrano: tem uma agenda pessoal. E em conversa com outro colega ele me diz de sicrano: tem muito poder nos bastidores.  O que são as agendas pessoais? Simplesmente ambicionar um lugar mais importante na organização, tantas vezes à custa de mais trabalho, nem mais dinheiro nem mais estatuto que lhe valha. 

Sou um ingénuo. Dei por mim esquecido de que onde há Homens há fragilidades ou desejos ou motivações. Achei que o mundo era mais perfeito (e não deixa de ser por causa destas pessoas específicas) e que, quando se trata de solidariedade, todos damos a camisa pelo nosso próximo, nem que para isso tenhamos de ver outro mortal com a sua camisa vestida. A minha ingenuidade talvez advenha do facto de não ter qualquer agenda pessoal - não quero, na realidade, ser mais do que aquilo que sou, porque a minha vida e a minha vontade, diga-se em bom rigor, também não o solicitam. Estou bem em ser presidente de x e membro da direcção de y, mas também estou bem se deixar de ser. A minha vaidade é outra, as minhas aspirações são outras. Levo a mal as ambições dos outros? Não, se isso não implicar falta de ética.


Ontem jantámos - éramos cerca de 50 pessoas - como parte da conferência que juntará, nos próximos dias, associações de pais, sobreviventes, médicos, profissionais de saúde e outros para falar sobre a oncologia pediátrica em África. Olhei para todos, até para aqueles de quem me disseram ter uma agenda pessoal ou muito poder nos bastidores. Não vi nada. Vi apenas, juntamente com os outros companheiros de guerra, uma vontade e uma dedicação à causa. Vi apenas espírito de serviço, vontade de ajudar quem sofre num hospital quando devia brincar numa escola. Talvez a agenda pessoal dessas pessoas seja essa, temperada por uma saudável ambição que nunca matou ninguém.

JdB     

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Viagens dos dias que correm



Cheguei no sábado a Marraqueche onde ficarei até 5ª feira, num misto de lazer e de trabalho. A partir de amanhã é trabalho - reuniões com o board do Childhood Cancer International e, na 4ª feira ainda, se tudo correr bem, uma tentativa de contacto com médico(s) de Cabo Verde, uma vez que a cidade marroquina é anfitriã de uma reunião alargada de oncologistas pediátricos e de associações de pais de crianças com cancro. Tudo numa dimensão regional africana. Porquê Cabo Verde? Porque nestas instâncias internacionais quase nunca está representado nenhum país dos Palop, e nós, enquanto Acreditar, gostaríamos de fazer alguma coisa.

***

Marraqueche impressionou-me muito bem, se exceptuarmos a chegada caótica ao aeroporto: 1,5 horas para passar o controlo dos passaportes, 1 hora para passar com a mala pelo aparelho de raios X - e estou a falar da entrada no país...



Dou por mim quase obcecado com a história do ruído das cidades: se em Istambul o ruído ambiente era o chamamento regular para a oração e na Índia era o som das buzinas, em Marraqueche o ruído ambiente é o do comércio. Em todo o lado se comercializa alguma coisa, e na praça Jamaâ el Fna, aberta 24 horas por dia, essa ideia do comércio é elevada a uma potência enorme. Ontem e hoje, que lá estivemos, a praça fervilhava de gente - mas estamos a falar de muita gente, como se fosse uma manifestação política de sucesso: o trânsito pedonal é difícil, há encontrões, gente que toca e canta, gente que vende roupa, sapatos, especiarias; gente que mostra cobras ou se prontifica para uma fotografia. Tudo é vendável e vendido. Tudo é negociado: das especiarias às mochilas, dos táxis à contrafacção, das tatuagens ao sumo de laranja. Negociar é, para o árabe, uma alegria, uma fonte de contacto, uma forma de aproximação. Não há desrespeito.

JdB


    

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Dos possíveis preconceitos

Nos últimos 15 anos, talvez, e a respeito das mais díspares situações, falei abundantemente de parte significativa da minha vida pessoal - aquela que era claramente percebida por amigos e conhecidos e que se referia a um acontecimento dramático da minha existência: fi-lo no âmbito da minha paróquia, falando a jovens que iriam casar-se num futuro próximo. Fi-lo no âmbito da minha associação a uma IPSS, falando a grupos de voluntários. Fi-lo no âmbito de seminários ou encontros no estrangeiro, falando a médicos ou pais. Fi-lo no âmbito particular, falando a pessoas que passavam por experiências semelhantes à minha. Fi-lo no âmbito de entrevistas de televisão ou de rádio, de intervenções públicas enquanto presidente de uma associação, mas também o fiz de modo avulso, falando ou escrevendo aqui e ali, nomeadamente neste estabelecimento.

Nunca tive incómodos por falar de mim até porque, em muitas e muitas circunstâncias, as pessoas tiveram a amabilidade de ouvir o que eu tinha para dizer a mim próprio. Há quem ache que ensinar é aprender duas vezes. Em muitas circunstâncias, falar tinha essa dimensão dupla: falar de mim era reforçar o que era importante para mim. Eu falava para os outros mas falava, tantas e tantas vezes, para mim próprio. Os outros, vítimas amiúde de um aparente monólogo, eram o espelho que me reflectia o caminho a seguir. 

De que falava ou escrevia eu? De dor, de fé, de silêncio, de morte, de serviço, de um Deus que não era senão amor, de amigos especiais ou que se tornaram especiais, do olhar mais arguto sobre os outros ou, talvez, do olhar que temos de ter mais arguto sobre os outros. Falava de discernimento, de força e de fraqueza, de fragilidade, de crianças com cancro, dos pais das crianças com cancro, de emoções. Falava, acima de tudo, da absoluta necessidade de dar um sentido ao sofrimento e, com isso, encontrar um sentido para a vida. Falava, acima de tudo, desta certeza de que, perante um acontecimento que nos amarfanha emocionalmente, para cuja violência não existe nome pronunciável, há uma possibilidade de vitória sobre o destino que se veste de madrasta.

Na semana passada, a associação de que sou presidente, em nome da qual falo publicamente e que tanto tem feito por mim, pediu-me para ser entrevistado e fotografado para uma destas revistas a que chamamos cor-de-rosa. Falei sobre aquilo de que falo há 15 anos, talvez, reforçando a ideia de que devo à associação muito do que sou e do caminho que percorri. Não disse mais do que costumo dizer, mas a ideia de exposição numa revista deste tipo - e que me merece um respeito óbvio - deixou-me irrequieto, pese embora várias pessoas me dizerem que um rosto visível traz vantagens para estas associações. Será um possível preconceito, já que o único factor eventualmente estranho será o "casamento", no mesmo número de revista, do nosso jet-set com uma associação deste tipo?

JdB  

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Caminho marítimo para a Índia (I)


Chegámos à Índia de 4ª para 5ª feira. Da viagem de avião falarei outro dia, que agora o assunto é mais sério. À chegada à embaixada, onde ficaremos, uma simpatia da filha de uma funcionária, dando-nos as boas vindas ao seu País.

O dia de ontem foi dedicado à visita à Cankids, uma organização que se dedica às crianças com cancro. Tinha falado nisso à Poonam Bagai, directora geral da associação, com quem me cruzara em Outubro. Como se celebrava o dia da República, data muito importante no País, decidiram ter a amabilidade de me "eleger" convidado de honra. O alinhamento era este:

Program Schedule
2:30 PM- Welcome Ceremony
2:40 PM- Flag Hoisting & National Anthem
3:00 PM- Welcome speech By Ms. Pranita Singhal (Sr. Manager, Non-Formal Education)
3:10 PM - About India- By a Akash, 10 Year old who is fighting with Osteo Sarcoma.
3:15 PM - Slogans
3:30 PM - Dance Performance By Child with Cancer
3:40 PM - Nukkad / Flashmob Performance By KidsCan Konnect (Survivor Group Cankids)
3:50 PM - About Cankids By Ms. Poonam Bagai (Chairman-Cankkids...Kidscan)
4:00 PM - Few Words by Guest of Honour.
4:15 PM - All attendees sing a song "We are One"
4:20 PM - Thank you Speech & Thank You card By children to Guest of Honour
4:25 PM - High Tea


Visitar uma associação que se dedica às crianças com cancro não é só ver o drama de crianças e pais. É ver, como já tinha visto de alguma forma no Zimbabwe, uma realidade não europeia e, com isso, pormos algumas coisas em perspectiva: a falta de dinheiro para as crianças fazerem tratamentos, a enorme falta de escolaridade, um trânsito caótico, uma miséria muito generalizada, o apoio psicológico de um técnico para dezenas e dezenas de miúdos. Perante isto, as queixas persistentes quanto à ineficiência do nosso sistema nacional de saúde caiem um pouco pela base. Visitar a realidade de Nova Deli é conhecer um mundo que não é o nosso.  Nos dois andares de cima deste edifício onde tudo se passou (uma casa modesta, para os standards portugueses) uma zona de cuidados paliativos. Não me parece que seja preciso dizer mais nada relativamente a esta "cobertura" que, nalguns casos, tem a virtude de estar mais próxima do Céu.


Fora as especificidades indianas, o mundo da Cankids é igual ao mundo da Acreditar - as crianças com o mesmo olhar ingénuo, os sobreviventes carregados de confiança e vontade de ser a prova viva de que se consegue vencer a doença, os pais tristes, esperançados, lutadores até ao fim, os profissionais e voluntários (a organização tem 45 centros espalhados pela Índia, 400 profissionais) com uma dedicação que provoca admiração e espanto. Depois, na tapeçaria que é a oncologia pediátrica, o preenchimento dos espaços onde há vácuo porque ninguém lá vai: uma ajuda espiritual ou financeira, uma exame que se oferece porque demoraria quatro meses, uma prótese que facilita o andar, uma cadeira de rodas, um tapete onde todos se reunem para fazer frente à agressividade dos hospitais e dos tratamentos e da incerteza quanto ao futuro. 


Volto nos próximos dias, com crónicas mais animadas do que esta. Domingo seguimos para Goa.

JdB

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Ainda do regresso a casa


Mão amiga mandou-me ontem esta fotografia (parece-me que tirada do Expresso) com a seguinte legenda: não é necessário nenhum comentário. Com amor tudo se vence, mesmo o perdido.

A fotografia - ou o seu envio - é um sortilégio. Um destes dias, não pensando ainda que o escreveria para amanhã, o tema saiu-me à mente num repente. Ontem, no decorrer de um almoço de que falarei, ocorreu-me a segunda parte do post por escrever. A fotografia remata e fecha com chave de ouro.

***

Um destes dias tive de escrever um trabalho final para o doutoramento. O tema era essencialmente viagens e eu, pressionado com falta de tempo e de inspiração, encontrei nos quatro livros que abordaria, e de que já falei aqui (A Time of Gifts, O Enigma da Chegada, Tristes Trópicos e South) um menor múltiplo comum - o do regresso a casa. Não o regresso ao edifício de alvenaria ou ao terceiro esquerdo de um prédio de apartamentos, mas o regresso àquilo que é o último refúgio de um Homem. E acredito que a equipa de Shackleton, ao tentar voltar a casa com o essencial (comida, combustível, armas, duas folhas da bíblia e fotografias) quis voltar para casa andando sempre com a casa junto ao coração, como se a transportasse. Uma fotografia pode ser o regresso a casa, como a chegada a Inglaterra pode ser o regresso a casa.

Ontem fui ao almoço de Natal da Acreditar. À mesa, ao meu lado, uma querida amiga; à frente, colaboradoras / voluntárias por quem tenho ternura e respeito. Noutra mesa, gente que me é próxima, que me merece amizade e consideração. Espalhados pela sala de jantar, um ou outro casal de pais com crianças que brincam por ali, ou que podem estar internadas. À minha frente acaba por sentar-se um casal jovem da zona centro. Com eles o filho de 3 anos, que tem uma doença rara que não consegui perceber o que era, e que o obrigou a um transplante. Tal como o casal da ilha Terceira que conheci na cozinha e com quem conversei, passarão o primeiro Natal em Lisboa, na casa da Acreditar. A uns falta-lhes o mar, a outros falta-lhes a neve da Serra da Estrela, mesmo que ao de longe. 

Comovi-me com a criança, com os pais novos, desgarrados da serrania onde se sentem bem, nesta guerra desde que o miúdo tem seis meses. Ninguém merece isto, que remete tudo o que são as nossas queixas para um caixote de lixo onde estão as inutilidades e desimportâncias. Comovi-me muito, não sei se pelo ambiente, pela quadra, pelo erro de dar importância ao que não tem. Talvez ande mais sensível e isso seja sinal de fragilidade, ou de uma atenção excessiva a alguns temas, como o de perceber o que é isso do regresso a casa.

A casa do jovem casal será a casa da Acreditar, onde todos falam a linguagem comum do cancro infantil. Talvez para este casal, tal como o casal da fotografia, a casa não seja uma terra agreste onde a urze não cresce ou uma habitação social comprada com esforço e amor. Talvez a casa não seja sequer o prédio destruído ou a metáfora de uma ruína vivida desde os seis meses com um miúdo atacado por uma raridade. Talvez a casa deles seja - e Deus queira que o seja - duas mãos dadas e um amor com que tudo se vence, mesmo o perdido. 

JdB      

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