18 junho 2021

Das latrinas

Almoço - ontem - com amigos. Ao fundo da sala do restaurante, vejo - não consigo, nem quero ouvir - a CM TV a esmiuçar o caso do Noah, a criança de dois anos que havia desaparecido de casa dos Pais. Conheço o suficiente do canal para não me interessar ver: um caso, seja dramático seja violento, é esmiuçado durante horas a fio, com intervenções de gente que, aparentemente, sabe do que fala; são jornalistas, ex-inspectores da PJ, advogados, sei lá mais o quê. Gente que será paga para falar, para adaptar os seus conhecimentos da lei ou da espécie humana aos dramas do quotidiano. Não faz o meu estilo, mas é o estilo do grupo CM.

Chego a casa e, a maio da tarde, fico a saber que a criança é neta de um primo ainda próximo, com quem gosto de conversar sobre coisas de família. Felizmente, pela hora de jantar dizem-me que a criança foi encontrada com vida, aparentemente bem de saúde. Comento que as fechaduras das casas foram feitas para impedir gente de entrar, e não de sair. No caso desta família a vizinhança era de confiança - a criança é que não...

Ler as caixas dos comentários de alguns jornais online é um exercício estranho - assemelha-se à toma de um purgante, só que não se purga nada e, nesse sentido, é pior. Apenas nos vem um refluxo gástrico e uma descrença num franja significativa da espécie humana. Eu sei que temos casos de crianças desaparecidas e que se veio a provar terem sido vítimas de grande violência. E eu sei que o facto de ser gente da minha família só é argumento para mim, não para o comum dos mortais que desconfia de tudo e de todos - e há profissionais do azedume sem mais nada para fazer. No entanto, quando uma criança de dois anos desaparece e alguém comenta que tudo cheira a esturro ou que o primeiro parágrafo do aviso nas redes sociais dos pais ter sido escrito em inglês lhe parece um acto de vaidade, quando isso acontece, repito, há algo de estranho que se revolve dentro de nós.

Não digo nada de novo: as caixas de comentários dos jornais online são uma latrina onde demasiadas pessoas bolçam raivas, frustrações, bílis, agressividade; são latrinas onde as pessoas já se conhecem e se insultam sem nunca se terem visto, onde ocupam os seus tempos livres para uma espécie de catarse em que o vómito as atinge primeiro, antes de chegar ao destino. Talvez da próxima vez tome óleo de fígado de bacalhau. Pelo menos talvez limpe os meus interiores...

Actualização (às 08.30h): 

Os dois comentários abaixo retratam o que escrevi acima. Eu sei que a criança é neta de um primo e que da idoneidade da família os outros não poderão falar. Mas o que leva esta gente, ainda não se sabendo nada, a escrever isto?

Esta história está muito mal contada. Esperemos que a PJ investigue porque precisámos de saber exactamente o que é que os supostos progenitores desta infeliz criança andaram a fazer.
O nosso Estado continua a não zelar pela segurança de crianças inocentes que continuam infelizmente a morrer às mãos de pais irresponsáveis.
Esperemos pelo menos que haja um minimo de decência por parte da Comissão de Protecção de Menores e que a guarda desta criança lhes seja de imediato retirada.

A história está muito mal contada.
Aqueles progenitores com ar de toxicodependentes não inspiram o minimo de confiança.
Esperemos que as autoridades investiguem qual é concretamente a actividade que eles desenvolvem e em que circunstâncias a inocente criança andava nua pelo mato fora.

JdB

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