14 junho 2026

XI Domingo do Tempo Comum

 EVANGELHO - Mt 9,36-10,8

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão,
porque andavam fatigadas e abatidas,
como ovelhas sem pastor.
Jesus disse então aos seus discípulos:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao Senhor da seara
que mande trabalhadores para a sua seara».
Depois chamou a Si os seus doze discípulos
e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros
e de curar todas as doenças e enfermidades.
São estes os nomes dos doze apóstolos:
primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão;
Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão;
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano;
Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou.
Jesus enviou estes Doze, dando-lhes as seguintes instruções:
«Não sigais o caminho dos gentios,
nem entreis em cidade de samaritanos.
Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel.
Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus.
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos,
sarai os leprosos, expulsai os demónios.
Recebestes de graça, dai de graça».

13 junho 2026

Pensamentos Impensados

A árvore estava tão velha que até a própria sombra era uma sombra do que já tinha sido.

O Estado está preocupado com a evasão fiscal. O contribuinte está preocupado com a invasão fiscal.

Será que o Perfeito da Congregação para as Causas dos Santos é tão pobrezinho que tem de andar às beatas?

Incongruente: aquele que não queria pagar a côngrua.

A propósito de dívidas, dinheiros, ajudas, etc., usa-se a palavra tranche; prefiro a tranche de salmão.

SdB (I) 

12 junho 2026

Poemas dos dias que correm

 Sonhei que vi St.º Agostinho

Sonhei que vi St.º Agostinho
Tão vivo como tu e eu
Irrompendo por esses bairros
Na mais extrema miséria
Com uma manta debaixo do braço
E uma capa de ouro maciço
À procura das próprias almas
Que já foram vendidas

«Erguei-vos, erguei-vos,» gritou alto
Numa voz sem freio
«Saí, ó prendados reis e rainhas
E ouvi o meu triste lamento
Não está agora entre vós nenhum mártir
A quem possais chamar vosso
Segui então o vosso caminho e acordo com isso
Mas sabei que não estais sós»

Sonhei que vi St.º Agostinho
Vivo com fôlego ardente
E sonhei que estava entre aqueles
Que o abandonaram à morte
Oh, acordei enfurecido
Tão só e aterrorizado
Espalmei as mãos contra o vidro
E curvei a cabeça e chorei

bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
john wesley harding
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008

10 junho 2026

10 de Junho

 O INFANTE 

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

s.d.
Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).  - 57.

***


Poema e imagem tirados daqui 

09 junho 2026

Do controlo da imperfeição *

Fiat lux. Depois disto, e ao longo de seis dias, tudo se criou: a separação da terra e das águas, a verdura, a erva com semente, as árvores de frutos; a tarde e a manhã, ao terceiro dia; os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem na água, e todas as aves aladas; depois os animais domésticos, os répteis e os animais ferozes. Por fim, o ser humano, a quem foi dado tudo o que havia sido criado nos dias antes. O Homem agarrou então naquilo que existia em seu redor e na inteligência com que tinha sido bafejado e criou as coisas científicas: a roda, as válvulas, a máquina a vapor, o pressóstato, a electricidade, o bico de bunsen, os computadores, a placa de petri, a gasolina, o óleo lubrificante, o viscosímetro e o jacto de tinta. 

Assim como Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, o homem criou a técnica à sua imagem e semelhança. No entanto, enquanto Um desejou a permanente perfeição, o outro contentou-se com a eterna imperfeição. A consciência da imperfeição é um princípio de sabedoria, talvez o ponto mental mais chegado ao absoluto primor de que o ser humano é capaz. E por isso tudo é inventado, não pelo esmero das coisas, mas por uma espécie de quase oposto. Não se inventa a perfeição, mas o controlo da imperfeição. Porque se inventou o pressóstato? Para manter constantes as pressões dos fluidos. O que motivou Petri a inventar a placa? A dominação do crescimento microbiano. Para que serve o óleo lubrificante? Para reduzir o atrito.

A imperfeição é o apelido pelo qual todos os homens se tornam iguais, membros de uma mesma congregação - que mais não é do que uma família que se entende pelo jargão. É por isto que o homem não consegue dominar uma certa vida própria dos fluidos, a assepsia nos ambientes, a fricção entre materiais que gemem e aquecem de dor. Dar como supérfluo a existência de alguns equipamentos, imaginar-lhes obsolescência face à perfeição que se deseja é ambicionar em cada rosto frágil o olhar de Deus sobre o mundo, é usurpar o trono onde Ele se senta com um amor que não o é senão. Só o inacabado é nosso, cabe nas nossas mãos, circula livremente pela nossa mente. Por isso a placa, o lubrificante, tudo o resto. A perfeição não nos pertence - apenas somos donos do caminho que a tem como destino nunca alcançado.

Só a guerra é nossa, que a paz é coisa do Céu. Talvez por isso o homem tenha inventado os acordos, que mais não são do que o pressóstato das pessoas que respiram.

JdB     

* publicado originalmente em 20 de Fevereiro de 2015 

07 junho 2026

X Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 9,9-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus ia a passar,
quando viu um homem chamado Mateus,
sentado no posto de cobrança dos impostos,
e disse-lhe: «Segue-Me».
Ele levantou-se e seguiu Jesus.
Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus,
muitos publicanos e pecadores
vieram sentar-se com Ele e os seus discípulos.
Vendo isto, os fariseus diziam aos discípulos:
«Por que motivo é que o vosso Mestre
come com os publicanos e os pecadores?».
Jesus ouviu-os e respondeu:
«Não são os que têm saúde que precisam de médico,
mas sim os doentes.
Ide aprender o que significa:
‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’.
Porque Eu não vim chamar os justos,
mas os pecadores».

06 junho 2026

Pensamentos impensados

Leadership é uma peça de metal que se põe por baixo da pele dos cães guia.

Ofídios: as cobras, se falassem, seriam bilingues.

Bifidus activos é um produto que se extrai por destilação das línguas das cobras vivas.

Lojas de conveniência, sabe-se o que são. E lojas de inconveniência? Serão as sex shops?

O desdentado não pode ser sorridente.

Se eu comprar vinho tinto a granel, será que o posso vender como produto branco?

SdB (I)


04 junho 2026

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

 EVANGELHO - Jo 6, 51-58

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo descido do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei de dar é a minha Carne
pela vida do mundo».
os judeus discutiam entre si:
«Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?»
Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a Carne do Filho do homem
e não beberdes o seu Sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a mina Carne e bebe o meu Sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha Carne é verdadeira comida
e o meu Sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue
permanece em Mim, e Eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai,
também aquele que me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram;
quem comer deste pão viverá eternamente».

03 junho 2026

Vai um gin do Peter’s ? 

 O PAPA E «2001 ODISSEIA NO ESPAÇO»  

O Papa vindo do Novo Mundo ecoa na recém publicada Encíclica sobre IA o alerta de Stanley Kubrick em «2001 - Odisseia no Espaço». No famosíssimo filme de 1968, o computador HAL preparava-se para controlar os humanos e liderar a missão espacial, entre outras peripécias, de uma humanidade fascinada com a exploração do espaço. Numa explicação deliciosa, Kubrick contou como se inspirara no título de Homero – Odisseia – para a sua obra magna do cinema: «Ocorreu-nos que, para os gregos, as vastas extensões do mar devem ter tido o mesmo tipo de mistério e de afastamento que o espaço tem para a nossa geração.»

O predomínio da máquina, que soava a ficção longínqua, há 50 anos, aproximou-se demasiado depressa da nossa realidade, hoje! Daí o alerta papal, diferenciando muito bem entre a imensidão de benefícios da IA e da tecnologia (ou não fosse um craque a matemática, além de nado & criado no país campeão dos maiores avanços tecnológicos do séc. XX) e o risco de redução do ser humano. ’Apenas’ essa possível e profunda subalternização preocupa Leão XIV. Recorro-me de óptimas súmulas já circuladas sobre o conteúdo da pequena (mas densa) encíclica e sobre a originalíssima cerimónia de lançamento, fora de todos os cânones:   

cafe.com.tradicao: A primeira encíclica de um papa define o tom do pontificado. Leão XIII escreveu sobre o trabalho na Revolução Industrial em 1891. Exatamente 135 anos depois, Leão XIV escreveu sobre a inteligência artificial. O nome não foi escolhido por acaso

No portal do Vaticano, está disponível uma sinopse com as inúmeras ramificações temáticas associadas à IA:  


«UM PAPA, DOIS CARDEAIS, DUAS TEÓLOGAS E UM ENGENHEIRO

Uma encíclica não decreta o que se há-de crer. Tem obrigação mais grave: interpretar o tempo à luz da Revelação e orientar o homem para o que o salva.

Esta manhã, às 11h30 em Roma, 10h30 em Lisboa, Leão XIV entra no Salão Sinodal do Vaticano e apresenta apresenta pessoalmente a sua primeira encíclica. Quem investigar o protocolo vaticano vai ver que isto nunca aconteceu. Nenhum Papa, antes de Leão XIV, se sentou à mesa de apresentação da sua própria encíclica. Não delega no cardeal Fernández, não a entrega ao secretário de Estado Parolin. Senta-se a uma mesa com o cardeal Czerny, com a teóloga Anna Rowlands de Durham, com a professora Léocadie Lushombo da Jesuit School of Theology de Santa Clara, e com Christopher Olah, co-fundador da Anthropic, a empresa que construiu o Claude. Um Papa, dois cardeais, duas teólogas, um engenheiro de inteligência artificial. A composição da mesa é a primeira frase do documento: um Papa que não veio observar a máquina, mas ajudar o seu construtor a indagar o que ela faz ao homem.

O documento chama-se Magnifica humanitas: Sobre a Protecção da Dignidade Humana na Era da Inteligência Artificial. Foi assinado a 15 de Maio, exactamente 135 anos depois de Leão XIII ter assinado a Rerum Novarum. A coincidência não é coincidência: o que a revolução industrial foi para o século XIX, a inteligência artificial é para o nosso tempo. Em 1891, a doutrina social da Igreja Igreja escandalizou socialistas e liberais, porque não pertencia nem a uns nem a outros. Promete fazê-lo outra vez.

Magnifica humanitas não é um dogma de fé, nem pretende fechar a discussão com a autoridade do anátema. É outra coisa, e talvez mais difícil. É o exercício do magistério a pensar em voz alta sobre o seu tempo, a oferecer à Igreja e ao mundo uma leitura do presente à luz de uma verdade que não muda. Uma encíclica não decreta o que se há-de crer. Tem obrigação mais grave: interpretar o tempo à luz da Revelação e à luz da Revelação e orientar o homem para o que o salva. O dever do católico não está na obediência cega, que ninguém pede, mas no esforço de a ler e de a deixar interrogar-nos. Porque só assim se cumpre o que Cristo prometeu: Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8,32).

Para perceber o que Leão XIV está a fazer é preciso voltar à Rerum Novarum, porque é dela que esta encíclica reclama herança. Em 1891, Leão XIII entrou na questão operária num momento em que a Europa se polarizava entre o socialismo revolucionário e o liberalismo manchesteriano, e fê-lo recusando os dois. Defendeu a propriedade privada contra os colectivistas e o direito à associação operária contra os patrões. Afirmou o salário justo contra a redução do trabalho a mercadoria e o dever do Estado de proteger os mais fracos contra os que viam no laissez-faire uma lei natural. Não foi um documento de equilíbrio prudente. Foi uma intervenção que reorganizou o terreno do debate europeu sobre o trabalho, e fê-lo com a autoridade de quem se recusou a escolher entre duas ortodoxias que partilhavam, ambas, uma antropologia mutilada. A Rerum Novarum foi possível porque Leão XIII percebeu que a questão social não era primariamente económica: era antropológica. A pergunta não era como repartir o produto do trabalho. Já no Génesis Deus nos recorda que colocou o homem no jardim do Éden para o cultivar e o guardar, antes da Queda e antes do suor do rosto (Gn 2,15). O trabalho não é a pena que se paga por viver. É a forma como Deus convida o homem a participar na obra que o precede. Quem esquece que o homem foi criado à imagem de Deus não comete um erro disciplinar. Comete um erro sobre tudo o resto. Leão XIV vem corrigir esse erro.

A tradição que Leão XIV herda é longa e tem o hábito de estar certa antes de o mundo estar pronto para ouvir. A Quadragesimo Anno de Pio XI formulou em 1931 a subsidiariedade que a União Europeia viria a inscrever em Maastricht sem confessar a dívida. A Humanae Vitae de Paulo VI foi recebida com escândalo em 1968 e relida, décadas depois, com uma atenção diferente por quem se deu ao trabalho. A Centesimus Annus de João Paulo II, escrita em 1991 enquanto o mundo ainda processava o colapso soviético, continua a ser o texto mais rigoroso sobre o que o capitalismo pode e o que não pode. A Caritas in Veritate de Bento XVI abordou a globalização com uma profundidade filosófica que a maioria dos leitores não quis ter. O padrão é o mesmo. A Igreja, quando intervém a sério, intervém sobre a antropologia do seu tempo, e costuma ter razão antes de ser conveniente reconhecê-lo.

Leão XIV inscreveu-se nessa tradição antes de escrever uma palavra. O nome de um Papa é o seu primeiro acto de governo, escolhido antes da primeira palavra pública, e lê-se como programa. Leão XIV explicou que, nos nossos dias, a Igreja oferece a todos o tesouro da sua doutrina social em resposta a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos no campo da inteligência artificial, que colocam novos desafios à defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho. A Time incluiu-o entre as personalidades mais influentes em inteligência artificial, não como observador piedoso de um fenómeno alheio, mas como interlocutor de quem o constrói. A presença de Christopher Olah na apresentação desta manhã confirma-o. As outras mesas optimizam meios para fins já fixados: eficiência, produtividade, segurança dos sistemas. O Vaticano parte de um fim que não negocia. Por isso tem uma pergunta que as outras mesas não fazem. A Anthropic, que hoje lidera o sector com o Claude, nasceu de uma ruptura: os seus fundadores saíram da OpenAI por acreditarem que uma máquina que não serve o homem não é uma ferramenta imperfeita. É uma ameaça.

A ruptura que fundou a Anthropic aponta para algo que vai além da segurança dos sistemas. Toda a tecnologia que altera o modo como o homem trabalha acaba por alterar o exercício das suas faculdades. Quando delegamos à máquina o pensamento, a escrita e o raciocínio não deixamos de ser quem somos. Mas deixamos de exercer o potencial que temos. E esse potencial não é neutro. O homem foi criado para conhecer, para contemplar, para participar na obra da criação e para se aproximar de Deus através do exercício pleno das suas capacidades. Uma humanidade que progressivamente abdica das suas capacidades mais próprias não evolui. Empobrece. A pergunta que Leão XIV retoma da Rerum Novarum e devolve actualizada é esta: que tipo de pessoa a inteligência artificial pressupõe, e que tipo de pessoa ela produz. Sem essa pergunta, todas as respostas são técnicas. E por isso provisórias.

A resposta cristã a esta pergunta não é a única possível, mas é a mais antiga e a mais testada, e tem um instrumento que nenhuma outra tradição possui: dois mil anos de magistério que é simultaneamente tesouro acumulado e chave viva para ler o presente. A razão serve-se desse tesouro, não para substituir a fé, mas para perceber o que a fé ilumina. O dualismo cartesiano,  ao separar o pensamento do corpo, criou uma antropologia onde o homem se reduz à sua capacidade de raciocinar. A fé cristã sempre recusou essa redução. Não por decreto filosófico. Porque o próprio Deus escolheu encarnar-se: e o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (João 1,14). A diferença não é menor: é a diferença entre uma antropologia que torna o homem indistinguível da máquina que o imita e uma antropologia que sabe que cada homem é irrepetível, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). Nenhuma máquina replica o irrepetível. É este o desafio a que Magnifica humanitas se propõe responder, e é o desafio que toda a humanidade, crente ou não, está a ser convocada a enfrentar.

Dir-se-á que esperar de qualquer país ou instituição que pare para ler um documento pontifício é nostalgia mal disfarçada. A Igreja já não comanda o debate público em lado nenhum, e seria ingenuidade pretender o contrário. Talvez. Mas a nostalgia, neste caso, é a única forma honesta de medir o que se perdeu. Não se trata de exigir consenso teológico onde já não há partilha religiosa. Trata-se de reconhecer que o instrumento mais antigo do Ocidente para pensar a pessoa humana acaba de entregar uma análise séria sobre a transformação mais profunda em curso, e que o modo como esta análise será recebida dirá mais sobre o estado da sociedade e do debate público do que sobre o estado da Igreja.

O critério que Magnifica humanitas oferece não é sobre a técnica. É sobre o homem. A técnica está em constante mutação. A tentação de sermos como deuses, desde o Génesis, é a mesma que nos chega agora pelos sistemas que construímos para nos imitarem. O instrumento é novo. A natureza humana é eterna. Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito (Rm 12,2).»

João A.B. da Silva – 25.MAIO.2026 

O título escolhido por Leão XIV «MAGNIFICA HUMANITAS» resulta no melhor arranque para abordar os desafios gigantescos colocados à humanidade pela IA e pela robotização da vida quotidiana. Reevoca o aviso de Kubrick contra um computador HAL à solta, capaz de acantonar (no filme, matar) os humanos num limbo onde ficam ‘sem chão’, desorientados, com maior dificuldade em descortinar o seu papel no mundo. Um panorama desestruturante! Alguém duvida da superioridade produtiva da máquina, em concreto a processar dados? Alguém ignora a eficiência dos algoritmos criados por humanos talentosíssimos, mas rapidamente a dar mil a zero aos seus criadores, quais Frankensteins com poderes, até certo ponto, sobrehumanos?  A catadupa de perigos no horizonte é tão real e ameaçadora, que é impossível subestimá-la. Por isso impressiona mais que Leão XIV se detenha nas boas razões para acreditarmos na humanidade, incutindo-nos esperança no futuro, se hoje tomarmos as decisões certas… Desta vez, a nossa identidade está em causa… reactualizando e estendendo com ferocidade ao nosso tempo o clamor de Hamlet: to be or not to be!   

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

02 junho 2026

Poemas dos dias que correm

 Poema da Auto-estrada 

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
Vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.

Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão, in 'Máquina de Fogo'

***

Impressão Digital

Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem lutos e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão, in 'Movimento Perpétuo'

01 junho 2026

31 maio 2026

Solenidade da Santíssima Trindade

 EVANGELHO - Jo 3,16-18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus a Nicodemos:
«Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n'Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Quem acredita n'Ele não é condenado,
mas quem não acredita n'Ele já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».

30 maio 2026

Pensamentos impensados

Os sem-abrigo dormem em cima de cartões; não sei se não seria preferível estarem em maus lençóis.

Na Assembleia da República, quando o porta-voz do partido fala, os deputados estão sempre a abanar a cabeça; penso que não é sinal de assentimento, mas sim para se manterem acordados.

Há mulheres que têm chapado na cara aquilo que são: mulheres de vida "facies".

Os médicos de família devem ter conhecimentos de genealogia?

Os porcos alimentados a bolota ficam com as patas negras.

SdB (I) 

29 maio 2026

De mais um desaparecimento

Penso que já aqui contei esta história. Por alturas da pandemia, e no espaço de alguns poucos anos, morreram várias pessoas da minha família paterna, a quase totalidade antes do seu tempo estatístico. Comentando este facto com um amigo, e lamentando a falta que as pessoas me faziam, por motivos diferentes, disse-me ele com um grande sentido de humor: a sua família é gado que morre muito.

Chegamos a esta idade e os nossos amigos - ou as pessoas que nos fazem falta, como aqui escrevi na semana passada - é gado que morre muito. Esta semana foi a G., irmã do JdC. Conhecemos-nos em 1971, já lá vão 55 anos, portanto. Sabia que estava doente e telefonei-lhe; a G. teve a amizade de me atender o telefone quando, parece-me, já não o fazia a toda a gente. Falámos durante 1 minuto, talvez, mas foi o bastante. Embora não convivêssemos muito, éramos grande amigos e fazíamos muita festa um ao outro, sempre que nos víamos. 

O desaparecimento da G., antes do seu tempo estatístico, suscita-me saudades muito diversas: dela, da família dela, dos Verões em Borba, dos candeeiros a petróleo, da compota de amora e dos cigarros fumados às escondidas, da Travessa de S. Vicente, do JdC. Quem me conhece também conhece este discurso, esta minha nostalgia. Revisitei todos estes lugares (geográficos e afectivos) sempre que escrevi sobre o desaparecimento de pessoas deste agregado familiar que foi, durante muitos anos, a minha família de afecto, se bem que de um sangue também, mas mais longínquo. Lembrar-me da G., do JdC ou dos Pais de ambos é uma espécie de regresso a casa - um tema que me é caro, quase obsessivo.

Com o desaparecimento da G. não desaparece o passado que foi, de certa forma, de ambos. Mas é menos uma pessoa com quem posso falar de um tempo que não volta; é menos uma pessoa com quem posso rir-me, lembrar histórias, cheiros, ambientes, pessoas, privilégios que tinham os mais velhos de uma família muito numerosa mas que, mesmo assim, teve sempre as portas abertas para quem quisesse aparecer. Chegar a esta idade é perceber que o nosso mundo afectivo é composto por gado que morre muito. Um dia serei eu, certo de que encontrarei a Borba dos meus Setembros (e outras memórias afectivas determinantes de outras geografias) no Céu, se Deus me quiser levar para lá. Até lá é só lembrar as histórias que já foram, porque o passado é certo, o futuro não se sabe se existe, até prova em contrário. 

Fica a última homenagem à G., que ficará no meu coração e no meu ouvido: afinal, foi ela que me apresentou a Maria Dolores Pradera, nesta exacta música, há 50 anos, talvez. Ouvi-a cantá-la, com um timbre que não esquecerei. Se ela me ler está a rir-se da minha memória para estas pequenas coisas.    

JdB

27 maio 2026

Textos dos dias que correm

 

Florença, Maio de 2011
O Solitário

O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

***

O Solitário

As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido.

Thomas Mann, in "Morte em Veneza"

26 maio 2026

Das expectativas goradas

 Ao longo das últimas duas semanas escrevi vários emails para pessoas / grupos de pessoas diferentes, sobre temas diferentes. Não eram emails operacionais; talvez fossem mais pessoais - emocionais num certo sentido - pois revelavam uma dimensão mais intangível da vida. Em nenhum havia tristeza, revolta, ansiedade ou outros sentimentos mais exacerbados. Talvez se pudesse dizer que eram sobretudo, partilhas. De todos, devo confessar, esperava uma resposta - talvez mesmo uma resposta num certo sentido, ou com um certo tom de voz. A minha expectativa assentava (também) num pressuposto: se eu recebesse um mail daqueles, teria respondido de uma certa forma - da forma como contava receber... Nada aconteceu como previsto: ou o tom de voz não era o esperado, ou nem sequer houve tom de voz. 

Não sei o que é viver sem expectativas, mesmo que a minha gestão das ditas seja errada. Viver sem esperar nada do próximo é votar o próximo à indiferença, mais do que exercer uma santidade de quem não se incomoda com o que recebe - mesmo que seja pouco ou nada. Uma expectativa é um desejo - e eu não concebo uma existência sem desejos, mesmo sabendo que daí advirão desilusões. Gerir expectativas é também um exercício de auto-análise. Se não tivermos expectativas com ninguém, é de esperar que os outros não tenham expectativas connosco. Se assim for, quando o nosso próximo cair no chão só nos resta afastarmo-nos para que os sapatos de camurça não fiquem conspurcados do sangue alheio.

Um mail - sobretudo se não for operacional - envia uma mensagem. Não receber resposta - ou receber uma resposta claramente insatisfatória confronta-nos com o seguinte: há pessoas que percebem o que dizemos, há pessoas que não conseguem perceber o que dizemos, e há pessoas que não fazem a mais leve ideia do que estamos a dizer, mesmo que falemos a mesma linguagem e tenhamos códigos linguísticos semelhantes. Por vezes é como fazer um pedido a alguém: o nosso interlocutor pode não querer satisfazer o nosso pedido, pode não saber satisfazer o nosso pedido ou pode não fazer a ideia do que estamos a pedir.

A não resposta - ou resposta insatisfatória - aos meus mails têm uma dupla valência: põem-me num lugar certo de humildade pedagógica; e ensina-me muito sobre a alma humana. Decifrar o motivo por trás destas expectativas goradas é um exercício interessante: o que leva as pessoas a não reagir ou a reagir de forma que me parece insatisfatória? E se a ausência de resposta adequada for da maioria?

Já estive em reuniões onde, no final de uma apresentação, não houve praticamente ninguém a agradecer, a dar os parabéns, a fazer uma pergunta que revele interesse. O que se passa na cabeça das pessoas?

JdB 


24 maio 2026

Solenidade do Pentecostes

 EVANGELHO - Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

23 maio 2026

Pensamentos Impensados

O tecido urbano pode ser feito em tear manual? E em fibra sintética?

Walt Disney fazia desenhos animados e o Manoel de Oliveira filmes desanimados. Na Páscoa, os judeus têm o anho desanimado.

Há em Tomar o Museu do Fósforo que, penso, deve ter 2 administradores: um nomeado pelas cabeças e outro nomeado pelas lixas.

O ouriço do mar não precisa de "parceiro" para se reproduzir; é auto-suficiente e a esse fenómeno chama-se partenogénese. Também se poderia chamar unissexo.

Fazia "striptease" e tinha um "show" erótico que se chamava sonho de uma noite no varão.

SdB (I) 

21 maio 2026

Lembranças (versão 1980) dos dias que correm

 

Das gavetas onde pomos os que partem

A informação já era esperada – o NL tinha morrido na madrugada de sábado, vítima de uma crise súbita de saúde uma ou duas semanas antes, e da qual não recuperou. 

Conhecia o NL há 15 anos talvez. Devido a um rearranjo familiar da minha parte, e que não vem ao caso, encontrávamo-nos uma dúzia de vezes por ano. Sentámo-nos muitas vezes ao lado um do outro para almoçar ou jantar. Mantínhamos uma conversa ligeira e agradável, fruto de um interesse que era mais do que simples cortesia: perguntava-me por um ou outro dos meus projectos, eu indagava das suas actividades golfistas; falávamos disto e daquilo, interagíamos com a família alargada à qual nos ligava um afecto grande, mas naturalmente diferente – ele tinha com aquele grupo uma relação de sangue.

O NL era uma pessoa que eu conhecera tardiamente na vida, com quem convivia pouco, para além de ser 13 anos mais velho do que eu. Seria exagerado dizer que éramos amigos, mas isso não diminui a pena que me provoca o seu desaparecimento. Não só a pena solidária de quem imagina o desgosto da mulher, dos filhos, dos netos e demais família, (pessoas por quem tenho uma grande simpatia, e mesmo amizade, e que me receberam sempre bem nos seus espaços) mas uma pena genuína, de quem se vê privado de uma confraternização – ainda que esparsa – com uma pessoa que deixa saudades.

Em bom rigor não é fácil colocar em gavetas bem identificadas as pessoas com quem nos vamos cruzando ao longo da vida: temos grandes amigos, temos bons amigos, temos amigos

(o JdC diferenciava-os de forma curiosa: fulano é meu amigo; beltrano é um amigo meu.)   

de algumas pessoas dizemos que as conhecemos e de outras que sabemos quem são. 

O NL cabia numa gaveta particular – e restrita: a daquelas pessoas de quem não somos parentes chegados nem amigos próximos, mas cujas características pessoais ou sociais as colocam num patamar muito próprio, muito exclusivo. Não perdi um amigo, um confidente, alguém com quem partilhava um passado comum. Perdi uma pessoa com quem gostava de estar e de conversar e por isso, num certo sentido menos óbvio, o seu desaparecimento deixa o meu património afectivo ou social mais pobre. 

Do NL só posso dizer isto: era uma pessoa com quem eu simpatizava muito e cuja morte me entristeceu bastante. Não sei se é pouco, mas reflecte genuinamente a minha grande pena. 

JdB


20 maio 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 FUNDADOR DO MAIOR BANCO DO MUNDO ACREDITAVA NAS PESSOAS 

Estranho ser pouco conhecido o banqueiro que mais revolucionou o sistema bancário, fundou e geriu o maior banco do mundo, colocando-o ao serviço das pessoas, e não das fortunas! Claramente privilegiava os pobres, apostando sempre em gente desfavorecida, mas empenhada em trabalhar honestamente, e não em magnatas interessados (legitimamente, entenda-se) em ganhar dinheiro através de investimentos financeiros, como faziam os bancos no início do séc. XX. Ainda por cima, teve uma vida algo aventurosa, pontuada por decisões vanguardistas, empolgantes para um argumento cinéfilo. Aliás, teve alguns – «It’s a Wonderful Life» do seu amigo Frank Capra (1946), «The First Dollar» (em rodagem) e os documentários: «A.P. Giannini – Bank of the Future» (2023) e «A Little Fellow: The Legacy of A.P. Giannini» (2025) – mas a personalidade inspiradora de Amadeo Peter Giannini (1870-1949) caiu no esquecimento demasiado depressa.

Descendente de italianos, nasceu em San José, na Califórnia, inserido numa comunidade de imigrantes da Ligúria, no Noroeste de Itália, que se aplicavam arduamente ao trabalho agrícola para singrarem no Novo Mundo. Aos seis anos, viu o pai ser morto por um trabalhador, que tinha vindo recolher a jorna de 1 USD, embora tivesse faltado ao trabalho. Como o pai Giannini se recusara a pagar-lhe um dia não trabalhado… acabou por pagar com a vida. Apesar do horror daquele desfecho macabro, o pequeno órfão de seis anos não se tornou vingativo, nem ressabiado contra aquele e outros empregados (e empregadores) violentos, antes enquadrando o acto brutal no desespero da pobreza generalizada, patrões incluídos. Explicava que na sua família não se falavam de tragédias, apesar de terem vivido várias, mas apenas das grandes oportunidades encontradas no novo país. Em relação ao assassinato do pai, Amadeo limitava-se a repetir, com realismo e noção da importância da vida de cada pessoa: «Não se pode morrer por um dólar». Percebera bem o nível de aflição de quem mata por tão pouco, sentindo-se chamado a ajudar os mais carenciados. Aprendera com os pais uma forma de solidariedade lúcida e construtiva, proporcionada à comunidade local pelo ‘Swiss Hotel’, gerido pelo casal Giannini.  

Valeu à sua mãe, que enviuvou com pouco mais de vinte anos e 3 filhos pequenos (Amadeo era o mais velho), o apoio da comunidade italiana. Passado uns anos, voltou a casar e Amadeo descobriu o gosto pelo negócio e pela relação com os clientes na microempresa do padrasto (comércio alimentar). Entusiasmado pelo sucesso no trabalho, faltava-lhe tempo para estudar. Pressionado pela mãe e pelo padrasto, continuou os estudos, onde também teve êxito, chegando a conseguir abreviar alguns anos de escolaridade. No liceu, apaixonou-se pela matemática, de grande utilidade para a vida. Na faculdade, os professores deram-lhe o diploma ao fim de pouco tempo, reconhecendo que Amadeo sabia mais do que eles, fruto do estudo em casa e da prática na empresa do padrasto, que delegava nele tarefas e decisões estratégicas. Ficou-lhe do curso a máxima «no comércio, quem mais sabe, mais ganha». 

A jovem mais cobiçada entre os italo-americanos de S.Francisco – Clorinda Cuneo – veio a ser a mulher de Amadeo. Este repetia com humor e sinceridade, que fora o «melhor investimento da sua vida». Tratava-se da rica e bonita herdeira do empresário Giuseppe Cuneo. Quando este morreu, a viúva e os outros 9 filhos não hesitaram em pedir a Amadeo para ser o seu representante na gestão da fortuna familiar. Mas Giannini recusou, só se rendendo às insistências da mulher, que lhe implorou esse sacrifício! Percebe-se quanto os talentos de Amadeo eram evidentes e inspiradores de confiança, a ponto de sogra e cunhados apostarem todas as fichas nele.  Coube-lhe, assim, suceder ao sogro no Conselho de Administração do banco local – o Columbus Savings & Loans. Foi nessa função, que se apercebeu da atitude algo agiota dos bancos, apenas disponíveis para os ricos. Ficou escandalizado com os juros homéricos de 4% a 7% cobrados aos pobres imigrantes italianos, nas magras transferências para as suas famílias de origem, em Itália. Conseguiu reduzir esses juros, mas o crescendo de divergências com os seus pares no Conselho, levaram-no a bater com a porta e a prometer criar um banco para o povo – a People’s Bank – muito mais rentável do que o Columbus Savings & Loans. Claro que o acharam um lunático louco…

O casal Clorinda e Amadeo Peter Giannini, conhecido por ‘A.P. Giannini’

Em família, da esq. para a dta: o filho L.M. Giannini, a mulher Clorinda, A.P. Giannini, a filha Clara e o terceiro filho – Virgil.

Embora soubesse pouco de banca, Amadeo foi pedir ajuda ao seu amigo irlandês James Fagan, especialista no mister. Também estudou afincadamente a matéria e resolveu guiar-se pelas primeiras instituições financeiras de cariz público não lucrativas, surgidas no Renascimento para proteger os pobres da usura comum. Essas confrarias, chamadas ‘Monti di Pietà’ (Montepios), concediam microcréditos sem juros, para viabilizar os negócios dos pobres – a maioria da população. Em 1904, nascia o Bank of Italy, rebaptizado de Bank of America, em 1930, dando créditos isentos de garantias financeiras, desde que Amadeo confiasse no empreendedorismo do pequeno empresário. Baseado na confiança pessoal, Giannini acreditava que lucro e ajuda ao próximo eram compatíveis, considerando convergentes o crescimento do banco e o sucesso do cliente! Por isso, caberia ao banco cuidar e assessorar o cliente. Seguia regras exóticas para o mundo financeiro: «um banqueiro digno desse nome não deve negar crédito a ninguém, desde que seja honesto».  Não arriscava na riqueza acumulada, mas na pessoa calejada e afeiçoada à família. Seguia três critérios para investir nos negócios alheios, privilegiando os trabalhadores desfavorecidos e sem acesso ao crédito, como acontecia às comunidades imigrantes de italianos, irlandeses e chinesas, que bem conhecera: 1º empenho e capacidade de trabalho; 2º  estabilidade e enraizamento, como ter uma família para sustentar; 3º o projeto empresarial/pessoal ter viabilidade, depois de avaliado meticulosamente por Giannini, que apreciava vanguardismos.    

Em 1906, houve mais um revés para a maioria, mas não para Amadeo: na madrugada de 18 de Abril, um sismo de magnitude 7,9, seguido de incêndio (como em Lisboa, a 1 de Novembro de 1755), arrasou S.Francisco. De um total de 4000 edifícios, só uns 300 sobreviveram. Foi o caso da modesta sede do Bank of Italy. Por precaução, Amadeo mudou as reservas de ouro ali guardadas para uma zona mais segura, transportando-as em três carroças camufladas por legumes. 

Os efeitos do terramoto de 1906, na Union Square de S.Francisco.

Dois dias depois do sismo, enquanto os demais bancos continuavam fechados, Amadeo montou uma mesa na zona do porto da cidade com a tabuleta: «Empréstimos como dantes, até mais do que antes». Em contra ciclo, ofereceu crédito a quantos lhe apareciam com as mãos calejadas (à época, marca de hábitos de trabalho árduo) e uma aliança no dedo – sinal de estabilidade e de necessidade de sustentar a família.  O resultado foi a reconstrução do bairro dos migrantes, em tempo recorde (menos de um ano), além do crescimento do Bank of Italy! Em 1930, 96% dos microcréditos concedidos sem garantia tinham sido reembolsados! Além do apoio financeiro, o seu Banco também prestava assistência social gratuita aos migrantes italianos, para melhor se integrarem na sociedade norte-americana. Oferecia-lhes, por exemplo, aulas de língua inglesa, importantes para o exame de naturalização.  

A sua aposta nos pequenos empresários e o aguçado entendimento da psicologia humana levou-o a investir em gente que iniciava negócios nas garagens da família, como Hewlett e Packard, que também se notabilizaram como pioneiros de Sillicon Valley. Giannini incentivava os inventos tecnológicos, percebendo o seu impacto na melhoria das condições de vida das pessoas. A proeza de engenharia da ponte suspensa na Golden Gate foi mais um dos seus investimentos, recusado pelos outros bancos. Amadeo tinha a noção da relevância social daquela ponte para o distrito de Golden Gate. Por isso, perguntou ao engenheiro do projecto – Joseph Strauss: «quanto tempo durará?». Strauss respondeu-lhe  «para sempre!» e Giannini, confiante, disse-lhe para avançar: «A Califórnia precisa dela». 

Terminada a Segunda Guerra Mundial, Giannini adiantou verbas do seu património pessoal para financiar parte do Plano Marshall, destinado à reconstrução da Europa. Adiantou também dinheiro, sem juros, ao Governo americano, para o envio de bens essenciais para os países europeus empobrecidos pelo conflito. O esforço de reconstrução do pós-guerra coincidiu e favoreceu a internacionalização do Bank of America, que abriu filiais em cidades asiáticas especialmente carenciadas como: Tóquio e Osaka, Manila, Xangai, Bangkok. 

À medida que o Bank of America prosperava e se destacava da concorrência pelo sucesso e pelo modus operandi atípico na banca da época, Amadeo enriquecia, mas preocupava-se em não acumular em demasia, para não ficar escravo do dinheiro. Estabeleceu o limiar máximo de 500.000 USD e o sobrante (cerca de metade do seu património) encaminhou para uma Fundação recém-constituída, que oferecia bolsas de estudo aos filhos dos funcionários do banco e financiava investigações na área médica, entre outros projectos beneméritos.  

Não só o enriquecimento não o obnubilou, como não lhe estreitou os hobbies, interessando-se pelas artes e pela cultura, em geral, que considerava vitais para o pleno desenvolvimento humano. Foi o primeiro banqueiro a investir fortemente na indústria cinematográfica de Hollywood, privilegiando os filmes com conteúdo, que fossem além do entretenimento imediatista. Tornou-se amigo de Walt Disney e foi o único banco a conceder crédito à «Branca de Neve e os Sete Anões», cujo orçamento gigantesco desincentivara os outros bancos. Na mesma senda, foi mecenas de Charlie Chaplin, quando o realizador e actor britânico era desconhecido e o excesso de originalidade afugentava a banca tradicional. Ajudou Frank Capra, de quem era amigo, e animou tertúlias culturais com artistas e intelectuais do seu tempo, para aprofundarem temas de intervenção social.

Amadeo com Joe Rosenberg e Vivien Leigh durante a filmagem de «E tudo o vento levou».

A invulgar perspetiva de vida de Giannini está bem condensada nos princípios orientadores que deixou ao Bank of America, a soar a um guia para escuteiros, completamente alien na banca: «Nunca nos devemos tornar tão grandes, a ponto de nos esquecermos das pessoas comuns». Especificamente para a fundação, financiada com o seu património pessoal, traçou as seguintes orientações: «Administrem esta instituição com generosidade e nobreza, tendo sempre em mente o sofrimento humano. Não permitam que subtilezas legais (…) anulem os propósitos desta instituição. Como S. Francisco de Assis, façam o bem, não teorizem apenas sobre a bondade.»  



Quando morreu, em 1949, o seu era o maior banco do mundo, pautando-se pelas regras mais generosas e justas que o mundo das finanças conhecera, fiel ao seu propósito magnânimo: «Tenho dinheiro suficiente para a minha família. Só posso comer três refeições por dia. Só posso usar um fato de cada vez. Precisamos apenas de uma casa para viver. Porquê ser ganancioso? Se acumulasse muito mais riqueza, só iria acumular preocupações para mim mesmo... (Q)uero gerir um Banco sério e transparente, tratar bem os nossos clientes e conceder empréstimos que tragam o máximo benefício às comunidades em que operamos. Se fizermos isso, os homens e as mulheres que trabalham para o nosso Banco poderão ter a certeza de uma vida digna para todos.» 

Giannini com a filha Claire (fotogr. de 1928), que lhe sucedeu no Conselho de Administração do Bank of America, numa época em que os cargos de direcção na banca eram um exclusivo masculino.

Tão certo, revolucionário e raro, que quase parece ficção…

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

19 maio 2026

Irene e Alfonso *


Les beaux esprits se rencontrent, disse-lhe Alfonso quando, à porta do Café Tortoni, começaram o acerto do espectáculo das semanas seguintes. Irene sorriu - conhecia a citação de Voltaire, pois antes de se dedicar também à dança dos tangos e milongas tinha feito uma pós-graduação em pensamento europeu. Meditou sobre essa espécie de força gravitacional que, numa urbe pejada de desconhecidos e numa escala de probabilidades que se aproxima do quase impossível, impele duas pessoas determinadas uma para a outra.  

Alfonso era uma homem decididamente bonito - umas pernas altas e esguias, um tronco proporcionado, uma melena negra, muito negra, penteada com esmero e fixador para trás, uns olhos verdes de uma transparência estonteante. Tinha 34 anos e uma vida curta mas intensa dedicada ao estudo de Carlos Gardel, das origens do tango, da influência do clima uruguaio na sensualidade do mestre, da possibilidade de colocar a milonga dançada num trio (dois homens a disputarem a mesma mulher, por exemplo) ao nível de um erotismo marmoreado de infidelidade consentida. Dançar no Tortoni era o sonho de alguém para quem o ambiente vence a quantidade, para quem a pequenez do recinto casa com a grandeza da técnica e com o arrebatamento da alma. Dançar com Irene era o encontro de dois espíritos superiores, como se a brisa porteña só transportasse aquele odor que aproximava os dois amantes da música e da dança.

Irene parava o trânsito, imobilizava uma loja, congelava um assistência. Havia naquele nariz adunco, naqueles olhos negros de azeviche muito abertos, naquele andar de gazela magra e naquela boca quase imperceptível, tal a finura dos lábios, uma mistura milagrosa - ou maldita. Tinha-se formado em literatura sul-americana com uma tese de doutoramento onde defendia que a cegueira de Jorge Luís Borges não era uma fatalidade, mas uma escolha do escritor para se proteger de uma certa barbárie dos costumes e de uma incómoda estética das capas. Aos 31 anos, filha de uma dançarina profissional e de um tocador de bandonéon, optara pela vida nocturna no Tortoni para poder pagar um curso de Verão em Paris sobre o despojamento ao serviço da elevação da alma e da nobreza do carácter.

Les beaux esprits se rencontrent, repetiu-lhe Alfonso, estendendo-lhe uma mão firme, bem tratada e sem as calosidades que ofendem um toque que se quer subtil, ainda que erotizado. Ela sorriu e devolveu-lhe cumprimento, apercebendo-se do impacto que causara o nariz, a boca, a perspectiva do andar de elegância animal. E apercebeu-se ainda, fruto de um sexto sentido que mais não é do que o olhar atento a pormenores específicos, do desejo fortemente sexuado do seu parceiro das próximas semanas. Ele queria-a e ela sabia-o; a certeza foi-se confirmando no decorrer dos ensaios semanais que culminariam na estreia do espectáculo, numa noite amena do final de Abril.

O cantor, de olhos fechados, casaco apertado e gravata desalinhada com o renque de botões da camisa azul celeste com folhos, tremia sem remissão à medida que cantava el dia que me quieras / la rosa que engalana / Se vestirá de fiesta con su mejor color, porque não há, no tango, uma emoção de cantar que se desgarre da emoção das palavras. Alfonso sorriu, estreitou Irene nos braços, sentiu-lhe a perna ágil, a coxa torneada, as nádegas rijas, o desejo à flor da pele, a boca quase imperceptível que se abriria para o beijar. Quiero emborrachar al corazón / Para después poder brindar / Por los fracasos del amor. O artista já mudara de tango mas nada se alterava entre eles: as pernas juntas, os lábios tocados, as mãos apertadas, a tensão erotizante.

Já nos camarins Alfonso, afastando uma melena negra que tapava uns olhos verdes, como se houvesse um prenúncio de luto, pegou-lhe nas mãos e sussurrou-lhe: desejo-te como nunca desejei ninguém. Estou certo de que também me desejas. Fica comigo esta noite. Os olhos de Irene abriram-se, a boca desapareceu numa finura rara e o nariz permaneceu adunco e sensual: Sabes Alfonso, o sexo é uma concessão que as pessoas vulgares fazem ao burguesismo conjugal. Danças muito bem, mas não me verás desnudaPassa bem. Amanhã começamos com a Milonga del Angel? 

10 minutos depois Alfonso observava Irene a sair do estabelecimento de braço dado com um senhor mais velho, que ele vira a servir à mesa no café Tortoni. Imaginou que seria o pai, tocador de bandonéon atirado para o olvido por via da idade, das técnicas modernas e da ausência de artroses. Só percebeu que não era quando a mão do acompanhante se agitou num movimento de vaivém erótico e pecaminoso, detendo-se aberta na nádega rija de Irene, doutorada em cegueira borgeana e adepta do despojamento e das carícias idosas.

JdB   

* publicado originalmente a 29 de Maio de 2017  
                

17 maio 2026

Solenidade da Ascensão

EVANGELHO - Mt 28,16-20

Conclusão do santo Evangelho segundo São Mateus.

Naquele tempo,
os onze discípulos partiram para a Galileia,
em direcção ao monte que Jesus lhes indicara.
Quando O viram, adoraram n'O;
mas alguns ainda duvidaram.
Jesus aproximou Se e disse lhes:
«Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra.
Ide e ensinai todas as nações,
baptizando as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo,
ensinando as a cumprir tudo o que vos mandei.
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

16 maio 2026

Pensamentos Impensados

 Devagar se vai ao longe; a divagar não se vai longe.

Um juiz pode condenar alguém a fazer voluntariado?

Vi, não me lembro onde, um restaurante que publicitava vinhos, petiscos e seus derivados. Derivado de petisco deve ser a indigestão; de vinho só se for a bebedeira.

Há tipos que são bons garfos. Jack o Estripador era uma boa faca.

Os árbitros não vêem razão para penalty, os dirigentes sim. Os árbitros serão do Arco do Cego e os dirigentes de Olhão?

SdB (I) 

15 maio 2026

Textos dos dias que correm


Roma, Maio de 2011

A solidão necessária

«Uma só coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir para dentro de si e não encontrar ninguém durante horas: a isto é preciso chegar.

Estar só como está só a criança. Se nos aproximamos de uma criança absorta num jogo ou na exploração de um objeto, tem-se repentinamente da sua parte uma reação brusca: ele gosta de estar só consigo próprio, com as suas fantasias, os seus arabescos gestuais e mentais.

Depois, quando cresce, perde esta capacidade de estar consigo próprio e começa, sim, a vida em companhia, mas também a lógica do bando e do rumor de fundo, uma espécie de distração permanente do silêncio. Desta maneira perde-se a possibilidade de se encontrar a si próprio, de escutar-se, de penetrar no secreto da consciência.»

É isto que o grande poeta austríaco Rainer Maria Rilke (1875-1926) evoca numa das suas “Cartas a um jovem poeta”. Estar só contém em si o germe da reflexão, da maturação, da fineza espiritual, da própria contemplação de fé.

Infelizmente é um exercício que desapareceu do horizonte educativo e das práticas quotidianas, inclusive dos adultos. É assim que sobe o grau da superficialidade, da irritabilidade, da banalidade e da indiferença.

O silêncio para «ir para dentro de si» é uma espécie de dieta da alma que nos purifica das misérias, nos eleva das coisas, nos liberta do tagarelar, nos despoja das realidades inúteis.

Mas atenção: ainda que sejam parecidos exteriormente, a verdadeira solidão não é isolamento, porque este é uma prisão da alma e um terreno onde pode florescer a erva daninha da infelicidade ou acontecer a morte do amor. 

P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Publicado em 15.02.2018

13 maio 2026

Poemas dos dias que correm

I. maneiras oitocentistas
 
este é o caso flácido da baleia morta
que deu à costa perto da póvoa do varzim:
com o que o bicho sofreu ninguém se importa,
tinha morrido há muito e estava toda torta.
em todo o caso bem dava um folhetim.
 
teria sido baleia forasteira.
é fácil de supô-la todo o verão
a dar às barbatanas, hercúlea, galhofeira,
o seu ledo repuxo tomava sempre a dianteira.
podre gerava agora só focos de infecção.
 
toneladas de banha, imensas, imprevistas,
vinham sabe-se lá de que ignotas águas fundas,
sem jonas na barriga, mas provocando imundas,
repentinas tonturas nos banhistas. 
  
vasco graça moura
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007

12 maio 2026

Da surpreendente inteligência do "somos o que comemos"

 Há um espécie de sabedoria, que não imagino se antiga, que diz: somos o que comemos; ou seja, diz-me o que comes, dir-te-ei quem és. Sempre entendi que a frase era o elogio da alimentação regrada, feita de alimentos saudáveis cozinhados de forma saudável; e sempre entendi que a frase me era dita de uma forma crítica, numa alusão velada à minha dieta (aparentemente, ou de acordo com alguns critérios) pouco saudável. 

O volte-face na minha auto-crítica aconteceu quando conversava com alguém sobre uma fase mais confusa da minha vida, cheia de actividades e compromissos e prazos em assuntos muito díspares: a recta final do doutoramento, uma viagem ao estrangeiro em serviço de voluntariado, a organização de um almoço com mais de 100 pessoas, uma apresentação no Algarve, webinars para preparar, etc. Quando essa pessoa me disse pois percebo, não estás habituado... a minha resposta foi imediata: não estou e não quero estar! Não quero stress, não quero excesso de solicitações, não quero adormecer a pensar no que tenho de fazer e acordar a meio da noite a pensar no que tenho de fazer. Quero ter tempo para almoçar com amigos, quero ler, escrever, andar a pé, viajar, ir a museus ou ao teatro. Quero ter tempo para tudo!

Tinha eu acabado de defender o meu actual modelo de vida quando percebi que a frase somos o que comemos assentava que nem uma luva às minhas convicções. Na verdade, a minha teoria sobre a alimentação (uma teoria pouco original e pouco científica) baseia-se numa ideia simples: comer de tudo - e pouco. Num repente dei por mim a lembrar-me de uma frase que disse a uma colega internacional vegetariana, por quem tinha pouca amizade: tenho sempre a sensação de que os vegetarianos / vegans são pessoas potencialmente infelizes, sempre a dizer que não aos prazeres da vida: um bife do lombo? Não, não, sou vegan... Uma cataplana de marisco? Não, não, sou vegan... Um cozido à portuguesa? Não, não sou vegan... 

Ao contrário do que eu pensava, a frase somos o que comemos é, afinal, um elogio ao meu modo de vida, que eu pretendo diversificado. Basta para isso percebermos que, dentro de limites, um cachaço de porco assado no forno, uma salada rica cheia de vitaminas ou uns carapaus assados com molho à espanhola, são o equivalente gastronómico - ou um complemento - de um teatro, de uma visita a um museu ou de uma viagem ao Chile. São vidas diversificadas nas suas várias vertentes. 

Desconfiem das pessoas que têm uma alimentação pouco variada, e desconfiem das pessoas que têm uma vida pouco variada, embora provavelmente uma coisa vá com a outra. 

Somos o que comemos é, portanto, uma frase muito inteligente; basta que percebamos que entre umas migas gatas e um concerto de Beethoven pode não haver mais do que um fio de cabelo a separá-los.

JdB    

10 maio 2026

VI Domingo da Páscoa

 EVANGELHO - João 14,15-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos.
E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Defensor,
para estar sempre convosco:
o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber,
porque não O vê nem O conhece,
mas que vós conheceis,
porque habita convosco e está em vós.
Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós.
Daqui a pouco o mundo já não Me verá,
mas vós ver Me eis, porque Eu vivo e vós vivereis.
Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai
e que vós estais em Mim e Eu em vós.
Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre,
esse realmente Me ama.
E quem Me ama será amado por meu Pai
e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».

09 maio 2026

Pensamentos Impensados

Culinária. Se puser uma posta de salmão nas brasas fico com salmão grelhado; se puser sardinhas fico com sardinhas assadas. A cozinha portuguesa é muito traiçoeira.

Tive um primo que viveu em Londres no tempo dos célebres nevoeiros (smog) e dizia: não me faz diferença, alugo um cego.

Parece que a Câmara Municipal de Lisboa vai para o Intendente. Quem boa câmara fizer, nela se há-de deitar.

Quer ver cenas picantes? Experimente pôr piripiri nos olhos.

Nem tudo o que vem à rede é peixe; às vezes é o tenista.

SdB (I) 

08 maio 2026

Poemas dos dias que correm

As regras do jogo 

Devias superar algumas provas,
e não era difícil ires ganhando
as batalhas de engenho, habilidade,
reflexos, determinação ou força
que a minha vaidade te ia impondo.
Acompanhavas bem o jogo, parecia
quase um conto de príncipes e fadas.
Mas estragaste tudo. Preferiste
a primeira e sedutora bruxa
que te mostrou um atalho para o tesouro.  
 
amalia bautista
trevo
tradução de inês dias
averno
2021

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