21 janeiro 2026

Da diferença entre 'queixar-se' e 'manifestar uma preocupação'

Um dia destes, entre uma bicada numas amêijoas à Bulhão Pato e uma bicada numas plumas de porco preto, dei por mim a dialogar sobre a diferença entre alguém 'queixar-se' e alguém 'manifestar uma preocupação'. Afinal, o tema não é despiciendo: tendemos naturalmente para nos impacientarmos com os primeiros, e tendemos de forma igualmente natural para nos solidarizarmos com os segundos. Ouvir uma pessoa e decidir que ela está a queixar-se ou apenas a demonstrar uma preocupação pode suscitar respostas completamente diferentes. 

O dicionário Priberam define 'queixar[-se]' (também) como lamentar-se, mostrar-se ofendido ou indignado. Por outro lado, a expressão 'manifestar preocupação por' pode definir-se (também) como um estado de inquietação, ansiedade ou receio sobre algo que pode dar errado ou que necessita de atenção. É uma demonstração de apreensão por uma situação, pessoa ou problema. 

A diferença entre 'queixar-se' e 'manifestar uma preocupação' poderá estar no tom, na intenção e na forma como ouvimos quem profere o lamento. 'Queixar-se' envolve insatisfação ou descontentamento com algo e costuma ter um tom mais emocional, negativo ou crítico, podendo ser percebido como simples reclamação ou como algo pouco construtivo. Já a 'manifestação de preocupação' envolve cuidado, atenção ou alerta sobre um possível problema. Tem um tom mais neutro, respeitoso e racional, sugerindo intenção construtiva, muitas vezes com um foco na prevenção de consequências ou na melhoria de uma situação.  

O meu interlocutor defendia que a queixa é de alguma forma egoísta, nomeadamente quando a pessoa se lamenta, não tomando nenhuma decisão. Exemplo: tem muito trabalho. Porém, quando o lamento tem impacto noutras pessoas já configura a manifestação de uma preocupação. Exemplo: o trabalho que dá a manutenção de casas porque a sua alienação pode afectar potenciais herdeiros. Eu defendi que a diferença entre a queixa e a manifestação de preocupação está, também, no tom de voz e na repetição; e defendi que apenas em casos claramente óbvios essa diferença é óbvia. Fora isso, há uma enorme zona cinzenta relativamente à qual a diferença entre um estado e o outro é muito ténue, sendo que depende, também, de quem ouve. Na verdade, do que dizemos só metade nos pertence; a outra metade é de quem nos escuta. 

A definição constante acima é bastante clara. No entanto, quem pode dizer que a queixa de muito trabalho não tem uma motivação construtiva por trás? No seu roman à clef intitulado Vidas Concêntricas, escreve Adalberto Cristina Carvalho: Hélder tinha uma generosidade que era filha da preguiça, como que a comprovar que uma virtude poderia ser motivada por um pecado; e tinha uma forma de lamento homeopática que, dizia ele, o ajudavam a combater a misantropia - a queixa como alívio. O incómodo para os outros - uma espécie de pecado social - era motivado pela virtude.

Há diferença entre dizer 'queixo-me dos custos dos materiais' ou dizer 'tenho uma preocupação com os custos dos materiais'? Podemos dizer à primeira que, no fundo, embora use a expressão 'queixa', essa pessoa está a manifestar uma preocupação? E podemos dizer à segunda que, no fundo, apesar de manifestar preocupação, essa pessoa não faz mais do que queixar-se? O que as diferencia?

Neste tema, como em tantos outros, teremos de usar de bom senso:a forma como ouvimos o lamento, se o lamento é transformado numa acção, a motivação, o histórico da pessoa que profere o lamento, a forma como o ouvimos e a nossa opinião sobre a referida pessoa, o universo humano associado ao lamento.

JdB

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