25 fevereiro 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 ESCULTOR ESQUECIDO – A. LINO

É bem verdade que, em Portugal, há pouco cuidado em lembrar os nomes, gravar os factos conhecidos, em suma, registar a História. Como se tivéssemos ficado cristalizados na Idade Média, em que a preocupação com o reconhecimento da autoria, da propriedade intelectual não era prática corrente, quase tudo rondando em torno do soberano e de um par de figuras maiores da sua entourage/corte.  Desleixo? Excesso de humildade?  Uma tradição muito centralizadora e algo redutora da história? Falta de investigadores e de gosto pelo arquivismo?... Mais estranho ainda, quando nos antípodas desta lacuna está o povo judeu, que tiveram uma presença marcante em Portugal e é cuidadosíssimo a contar e a fazer ouvir tudo o que lhes aconteceu, naturalmente segundo a sua perspectiva, como toda a narrativa histórica. 

Em pleno século XX, esta tendência pouco cuidadosa com a memória ainda se faz sentir, com nomes de artistas e de intelectuais a deixar-se cair no esquecimento, mais ainda quando há mudanças de regime e os novos governantes gostam de ignorar e evaporar as figuras conotadas (ainda que injustamente) com os depostos. Estranha forma de vida, esta de um povo pouco atento ao seu passado…

Assim perduram, por exemplo, património artístico espalhado pelo país, mas de autoria quase anónima. Um caso paradigmático é o do artista plástico do século passado – António Lino – nascido em Guimarães, em 1914. Depois de estudar Belas Artes no Porto, passou mais de uma década a deambular pela Europa Ocidental, onde estudou tapeçaria (Espanha, França, Bélgica, Alemanha), pintura de vitrais (Chartres e na Alemanha), mosaico (Florença, Ravena e Veneza). Explorou grutas pré-históricas (Espanha e França); coleccionou apontamentos em desenho, aguarela, óleo, gravura, dos países em que viveu; colaborou assiduamente com revistas e jornais estrangeiros; ilustrou livros de arte e de literatura; foi colaborador da Enciplopédia  Verbo na secção de Belas Artes; notabilizou-se por descobertas artísticas importantes (ex: para o estudo do políptico de S.Vicente de Fora; identificou a origem de uma casula guardada em Milão, proveniente da Casa de Aviz); expôs em Portugal e no estrangeiro (Itália à cabeça); fundou o Movimento de Renovação de Arte Religiosa em Portugal, presidido por Nuno Teotónio Pereira; desdobrou-se em conferências sobre arte. Tem painéis e grandes murais expostos em Ministérios, Igrejas, Museus, Palácios de Justiça, Câmaras Municipais, entre outros monumentos públicos, e também casas particulares, privilegiando 4 expressões artísticas: a pintura mural, o fresco vitral, a tapeçaria e o mosaico. 

1914-1996

Talvez o facto de ter feito carreira durante o Estado Novo (decorre de ter nascido em 1914) explique algum esquecimento, mas tratando-se de arte, são sempre impróprias as (eventuais) colagens políticas. Curiosamente, a generalidade dos cineastas foi poupada, mas os músicos, os escultores e os pintores não escaparam a um olhar crítico censório. Amália é um caso flagrante de tentativa de marginalização radical, devendo à dupla Soares (como PR) e Herman José (como figura influente dos anos 80) a sua reabilitação, uma década depois de o PCP ter feito de tudo para a ostracizar da vida pública e obliterar o seu nome da história. A injustiça foi clamorosa, até porque a fadista abrigara, em sua casa, vários comunistas condenados a viver na clandestinidade, arriscando-se a dissabores graves com a horrenda PIDE. 

Voltando ao artista plástico nortenho, aqui vai tanto património nacional com que já teremos esbarrado, sem lembrar o autor, como a própria concepção arquitectónica da Igreja de S.João de Deus e do que é hoje o Espelho d’Agua (originalmente, o Pavilhão dos Desportos na Exposição do Mundo Português, em 1940), tem obras na Igreja da Natividade (Terra Santa), no Vaticano, na Síria e em Portugal:  

Mosaico no Tribunal da Figueira da Foz

Painéis na entrada principal da Reitoria da Universidade de Lisboa, feitos de mosaicos de tipo bizantino

Colunata do Santuário de Fátima, obra de António Lino, constituída por 200 colunas e meias colunas, além de 14 altares. Inclui a Via-sacra com painéis cerâmicos executados na Fábrica "Viúva Lamego", segundo o desenho de Lino António e em colaboração com o ceramista Manuel Cargaleiro.

Painéis de 1966, no átrio do edifício do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social (MTSSSS), na Praça de Londres. Fotografias de Carlos Varela. À esq. «O Comércio, a Indústria e a Agricultura» e à dta. «As Ciências, as Letras e as Artes»  


Painéis do átrio do MTSSS. À esq. «A Família, a Pesca e os Seguros» e à dta. «A Prudência, a Previdência e a Cooperação»

Tapeçaria «Glória de Lisboa» no Museu de Lisboa, encomendada pela Câmara Municipal de Lisboa ao artista. Fabricada pela Manufactura de Portalegre, a partir de cartões de António Lino, datados de 1955.


A inconveniente semelhança com outros nomes – o arquitecto Raúl Lino (1879-1974) e o pintor modernista Lino António (1898-1974) – atrapalharam a memorização capaz da sua identidade.  

Nesse desleixo histórico colectivo, um hiato mais excepcional terá sido a Segunda Dinastia, marcada por sangue inglês, diria… Alguns exemplos ilustrativos do novo paradigma (que se perdeu, a partir da Dinastia Filipina): a instituição ordenada e regular dos cronistas do reino e o hábito da escrita da maioria dos monarcas da Casa de Aviz; o desvelo das autoridades a apontar e a colecionar todos os avanços náuticos, geográficos, astronómicos, matemáticos, até médicos, botânicos, etc. – por junto: tecnológico-científicos –, que criaram a base de dados necessária para as arriscadas navegações em alto mar, durante os Descobrimentos; as celebrações dos grandes feitos, onde se destacam as lindíssimas Tapeçarias de Pastrana (gin de 11 de Agosto de 2010), a exaltar as cruciais conquistas portuguesas no Norte de África.  

Quarta tapeçaria de Pastrana, intitulada «Tomada de Tânger» (1470-71), a homenagear os avanços estratégicos de D.Afonso V no Magrebe, de merecido cognome O Africano. Esta glorificação artística da História, em vida, inscreve-se mais na tradição anglo-saxónica que na ibérica.

Que risco, prescindir de guardar os vestígios do passado, tão importantes para sustentar a memória de um povo. 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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