FLANNERY (II) POR PEDRO MEXIA E POR FILÓSOSA
Em Novembro passado, num encontro cujo mote era uma frase inspiradora de Tchekov – «Diz-me o que desejas, dir-te-ei quem és» – comemorou-se o centenário do nascimento da escritora norte-americana Flannery O’Connor (menção no ‘gin’ de 14.JAN.2026). Por sorte, a conferência com a filósofa Maria João Mayer Branco e o poeta Pedro Mexia está gravada (cf link no final), pelo que pode descobrir-se uma abordagem invulgarmente profunda e original da polémica e q.b. ácida escritora do Sul dos EUA.
Na sessão de Novembro, as primeiras considerações couberam à académica de filosofia, doutorada sobre arte e filosofia no pensamento de Nietzsche – Maria João Mayer Branco – que nos oferece uma chave de leitura extraordinária para se percorrer a obra áspera e indigesta de Flannery. A filósofa alerta para o alcance maior das bizarrias desagradáveis das personagens dos contos da norte-americana, pejadas de maleitas, taras, baixezas e de aparência repugnante, com comportamentos desprezíveis e venais, as mais das vezes, sem plena consciência, nem necessariamente vontade de praticar o mal. Lembram «O Estrangeiro», de Camus. Misteriosamente, essa escumalha humana está também sujeita ao dom, que lhe é completamente estranho, embora capaz de a transfigurar: «Todas as minhas histórias são sobre a acção da graça numa personagem que não é [sequer] muito capaz de a suportar». Mais: a graça actua imprevistamente, desinstalando a personagem, deixando-a sem chão (dir-se-ia, hoje) e, desse modo, proporcionando-lhe um horizonte infinitamente maior, mas não necessariamente confortável ou desejado. O leitor é igualmente desinstalado, num efeito próximo da placagem (no primeiro embate), surpreendendo-se com o adensar de uma narrativa focada no misterioso lusco-fusco, que envolve a existência humana.
A frase de Tchekov ajuda, depois, a explorar a obra de Flannery, apontando-se ao que move o ser humano, ao que está na raiz das suas decisões. Lembra a filósofa: quando está mal orientada a busca de totalidade, inscrita na natureza humana, os desejos surgem como impulsos indomáveis, excessivos e autodestrutivos.
Seguidamente, a filósofa faz uma comparação audaciosa entre as tragédias gregas e a norte-americana, católica à maneira dos Estados sulistas dos EUA: parte-se da premissa de que o sofrimento humano deriva de um erro moral, que pode ser compensado ou mesmo resolvido, se se optar pelo Bem. A vulnerabilidade ao mal marca as personagens de O’Connor e das tragédias gregas. Porém, na norte-americana, essa vulnerabilidade é também a chave da salvação humana. Mas a sua perspectiva não é psicológica, como em Dostoievski, porque as tramas de Flannery focam-se nas convulsões da alma. O seu estilo narrativo é seco até ao osso, os contextos básicos e até vulgares, assentes em factos sem justificações, nem atenuantes para a catadupa de comportamentos escabrosos (maioritariamente) das personagens. Os ambientes são desoladores; as paisagens tristes e brutais; o céu é duro como aço; as gentes feias e venais.
O mundo descrito por O’Connor é o da modernidade: vazio, em múltiplas acepções, pois Deus está morto. Não há alegria, nem confiança. Vive-se em extrema solidão, sem quaisquer laços afectivos. Apenas há interdependências funestas e degradantes. As relações humanas só se aprofundam e harmonizam, quando algo de sagrado acontece, para lá do que as próprias personagens poderiam ou saberiam desejar, pois nem se atreveriam a tanto, demasiado atoladas numa existência mesquinha, que confundem com a medida da realidade.
Em Flannery, assiste-se a uma disputa vital entre as forças do bem e as maléficas, muito activas no ser humano, cuja natureza tende para o caos. Tudo o que acontece de positivo provém de uma brecha imprevista de Bondade, que toca o humano, elevando-o. Fica patente a origem sobrenatural dessa potência transformadora. Inexplicávelmente, esse “ouro raro” tem uma predilecção pelos mais perdidos, mais deficientes, mais criminosos, querendo salvá-los para lá de toda a lógica humana. Se o mal predomina, o Bem é a raridade que irrompe, quando e onde menos se espera, para resgatar um infeliz aprisionado em vícios e num ciclo inexorável antropofágico.
Talvez o mais espantoso seja o facto dessa Salvação se dispor a descer aos infernos para salvar mais alguém (que não merece), sem se deixar enojar pela acumulação de imundice, que Flannery nos obriga a encarar com um realismo dispensável (diria).
Se o mal é difícil de justificar, a graça é ainda mais incompreensível, qual pai que corre a abraçar um filho pródigo, regressado por motivos de sobrevivência. O lado solar da vida, o amor surgem sem explicação e as nossas abordagens racionalistas de pouco servem para tentar entender o indizível. Naturalmente, também esbarramos com os mistérios do mal e do sofrimento. E revoltamo-nos, porque não lhes encontramos motivo suficiente, nem forma de os controlar e erradicar. Que difícil aceitar esse inexplicável, com boa cara, como Flannery nos lembra em cada conto! Que difícil tolerar a dor considerada injusta, por querermos aplicar à realidade uma harmonia capaz de cancelar as realidades dolorosas, que teimam em ensombrar-nos. Nas palavras da filósofa (citada por aproximação): nós queremos uma explicação para o mal, para a dor. Mas a dor só é ilógica se for olhada de um ponto de vista, em que a vida teria uma ordem. Isso provém de um ponto de vista que me parece preguiçoso. Os livros de O’Connor exigem do leitor o contrário da preguiça: são filosóficos, suscitam espanto e choque e reflexão e pensamento. A perspectiva religiosa presente nestes livros também é muito exigente, porque não consola, não facilita, não há fé na humanidade, per se. ‘Apenas’ se crê num sentido transcendente (na mais pura acepção), que desafia a própria realidade e os limites humanos, por ser ilógico para os nossos padrões, desafiante para a própria religião.
Pedro Mexia (a partir do 36:50’) também faz uma reflexão inspiradora sobre Flannery, representativa da literatura do Sul dos EUA, conhecida por grotesca. Aplicou aos seus contos uma máxima do Pe.António Vieira sobre os pregadores brilhantes: o ideal não é as pessoas saírem do sermão contentes com o pregador, mas descontentes consigo próprias. O mesmo visam os escritos de Flannery para acordar os leitores, maioritariamente entorpecidos.
Comparou-a ao grande génio literário dos EUA, também sulista – Faulkner, e ainda a Kafka pelas estranhas personagens, e a Samuel Beckett pelo humor negro. A agudeza de Flannery sobre o mal é invulgar. Sintetizava O’Connor sobre a diferença entre crentes e não crentes na percepção do mal: ‘a maioria das pessoas acha que através do pecado obtém a liberdade, enquanto um cristão acha que através do pecado perde a liberdade’. Sobretudo, não tinha ilusões de que para falar do humano, com a incontornável (over)dose de fraquezas e de lama, é indispensável sujar os sapatos.
Flannery atinha-se aos factos, porque, segundo ela, «Um facto revela um mistério». Assim professava o que designava de ‘realismo cristão’, puro e duro, desprovido de sentimentalismo e emotividades consoladoras. O seu catolicismo – num contexto geográfico de grande tensão com o protestantismo (dominante, onde vivia) – resultava viril, nos antípodas (quase) do culto latino-americano ou do europeu do Sul, afectivamente enriquecido pela devoção mariana, maternal. Na sua literatura, ressalta essa abordagem austera ao cristianismo, numa busca de autenticidade, apenas orientada para o objetivo (à americana), sem facilitações e muito confrontacional.
No livro «Mistério e costumes», que reúne as suas inúmeras palestras universitárias, Flannery expõe o sentido da sua obra. Partindo da mediocridade humana, evidenciava melhor o efeito extraordinário da graça «em território amplamente dominado pelo diabo», dizia.
Por último, Mexia lembra a actualidade de O’Connor, quando nos intima a viver a fundo, com garra, aceitando expormo-nos ao risco que a vida comporta, na senda do verso de Höderlin – «Onde está o perigo, está aquilo que salva». Num spot publicitário do detergente skip, o slogan vai na mesma linha: ‘as nódoas também fazem parte do jogo’. Todavia, Flannery enjeita ferozmente qualquer forma de vida utilitarista, que privilegia uma certa obsessão (bastante americana) pela produtividade. A existência humana é antes mostrada em todos os cambiantes de mal, com todo o seu mistério, sem vislumbres de explicações plausíveis. Menos ainda acomodatícias:
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