15 julho 2026

Vai um gin do Peter’s ?

 O QUARTO DE MILÉNIO DOS EUA

A comemoração da grande efeméride dos 250 anos da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, para se emanciparem da vassalagem britânica, tem feito correr muita tinta. Com justiça, tem sobressaído o legado revolucionário sulcado pela ex-colónia britânica, desde o histórico 4 de Julho de 1776, até aos dias de hoje. Na vanguarda dos maiores avanços tecnológicos e económicos do planeta, o país resiste como a primeira superpotência mundial, apesar de a China lhe seguir no encalce…

São imperdíveis: o artigo de António Barreto (Público de 4.JUN.) sobre o maior contributo para a liberdade humana, dado pelos EUA; o texto de Pedro Norton no Público (7.JUN.), a sublinhar a requalificação da democracia, ao fundirem o ideal de representatividade com o liberalismo, sob uma governação balizada e escrutinada por ‘checks and balances’; trechos vários de Jaime Nogueira Pinto (Observador, a 9.JUL.), em contraciclo com o olhar sombrio de muitos ocidentais sobre o badalado ‘ocaso’ da superpotência; ou artigos de economistas estrangeiros, que elogiam o facto de o sucesso norte-americano não provir de «um compromisso dogmático com os mercados nem com o Estado. (É) uma vontade pragmática de utilizar ambos. (…) Desde o início que têm sido um Estado disposto a usar estrategicamente o seu poder face ao que considera ser o fracasso do "laissez faire", mantendo simultaneamente um setor privado competitivo». Já nem se fala do contributo dado pelo famoso conde francês, Alexis de Tocqueville, no segundo quartel de oitocentos, ao observar e registar as especialíssimas idiossincrasias da nova nação, que revolucionou o paradigma político, económico e social herdado da Europa, de onde descendia e em quem se inspirava a maioria da nova elite norte-americana, nascida sob o signo da meritocracia. 

Destino de imigração europeia por excelência, desde o séc. XVII, reza a tradição ter sido algo renhida a decisão de consagrar o inglês como língua oficial da nova nação. O alemão era uma alternativa renhida nalguns Estados (constavam apenas 13 na Declaração de Independência), denunciando quanto a matriz norte-americana era uma convergência de influências complementar, entre o pragmatismo britânico e a eficiente ordem germânica, entre outras. Tal ‘melting pot’ pôde florescer num contexto bem estruturado, que assegurou uma previsibilidade assente em regras universais e igualitárias, a que todos se submetiam e submetem (em geral), desde o líder máximo ao cidadão anónimo. 

A breve história dos EUA, segundo os padrões orientais e europeus, é marcada pela pujança económica e técnica, alimentada pela panóplia de oportunidades, que permitiu aos imigrantes recém-chegados ao outro lado do Atlântico singrarem e desenvolverem o país. Algo diferenciador aconteceu na América do Norte – entre Canadá e EUA – para justificar uma prosperidade recorde, nos antípodas das demais potências do Novo Mundo, igualmente dotadas de matérias-primas e de potencial de desenvolvimento. Porém, grassa na generalidade dessoutros países do continente – os latino-americanos – pobreza e subdesenvolvimento, com gritantes desigualdades sociais, onde coabita a miséria da maioria com pequenas bolsas de magnatas, que detêm a quase totalidade dos recursos nacionais.

Qual o segredo do estrondoso sucesso norte-americano e canadiano? Sem repetir os articulistas já citados (sobre os EUA), apenas acrescentaria uma nota à margem sobre a argúcia e a lucidez política herdadas (maioritariamente) do Reino Unido, ilustrada nos alertas da poderosa Rainha Vitória à sua família para a urgência em adaptarem-se aos novos tempos. Percebera bem os clamores populares a que a Revolução Francesa dera voz, de modo descontrolado e sangrento. Apesar de gozar de popularidade no Império Britânico, foi a soberana mais vocal a recomendar a necessidade de liberalizar e tornar mais representativa a gestão política do país, defendendo o constitucionalismo e a redução dos privilégios régios. Considerava impensável as casas reais continuarem a assentar nos privilégios tradicionais. Sem se deixar obnubilar pelo êxito pessoal, aconselhava os monarcas europeus a aproximarem-se das populações, a prescindir de benesses crescentemente intoleráveis para o cidadão comum, a pugnarem por governos eficientes e capazes de responder aos anseios do povo. São antológicos as suas cartas à meia irmã, a Princesa Feodora of Hohenlohe-Langenburg, e ao tio Leopoldo, rei dos Belgas, discernindo primorosamente os sinais dos tempos e pugnando por soluções actualizadas. Aos Czares da Rússia (seus netos) bombardeou com conselhos para evitarem os erros dos soberanos franceses (guilhotinados), pedindo-lhes maior proximidade com a população russa, até para ouvirem e captarem as reivindicações na ordem do dia. Especificamente, à Czarina Alexandra sua neta implorou menos ingerência no governo da nação e mais atenção ao povo, considerando fundamental a jovem soberana, nascida na Alemanha, conquistar a simpatia e o respeito dos russos. Também encorajou Nicolas II a cultivar uma relação próxima com os seus ministros e a acompanhar o rumo dos acontecimentos. A resposta auto satisfeita, no fundo, semi autista dos jovens czares explica parte da rápida degradação política e económica do país e o enfraquecimento da governação, incapaz de acudir às necessidades mais prementes das pessoas. Aproveitando as brechas do poder, os revolucionários bolcheviques tomaram o Kremlin de assalto, dispostos a reduzir tudo a escombros e a impor a sua liderança por meio de um colossal banho de sangue, que vitimou milhões de russos, incluindo os Romanov. 

Numa versão mais Monty Phyton, segue um diagnóstico delicioso sobre os ideais (menos citados) que o novo Estado da América do Norte quis abraçar com entusiasmo, confiando num futuro promissor… Num momento crucial da batalha pela independência, o mítico general George Washington partilha com os seus soldados o sonho maior que o animava naquela luta fundacional:   


São refrescantes os conselhos de sobriedade e de sentido solidário de quem está numa posição de força, assim como é adorável e desarmante o humor sobre os pontos fracos e as descaradas incongruências dos casos e das gentes de sucesso. Parece paradoxal, mas são meros (embora raros) gestos de lucidez e de bom senso, impregnados de uma certa bonomia generosa, maravilhosa!  

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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