17 agosto 2026

Para quem faz hoje 70 anos

Conheci o fq em casa de amigos comuns, não me lembro exactamente em que ano - talvez ainda antes da revolução. Reencontrei-o, faz em setembro 50 anos, em casa também de amigos comuns. A partir daí mantivemos uma amizade praticamente non-stop. Viajámos juntos a Nova Iorque - também com o JdC - ou a Santiago de Compostela, fomos a festas e casamentos, tornámo-nos sócios do Clube Tauromáquico ao mesmo tempo, almoçámos amiúde um com o outro, fomos acompanhando os projectos e vidas profissionais, o crescimento de filhos e netos, trocámos confidências diversas, partilhámos momentos bons e maus.

Durante alguns anos - 2? - jogámos às cartas todas as 6ªs feiras: maratonas de King que começavam pelas 7 da tarde e se estendiam até às 4 ou 5 da manhã, altura em que parávamos para eu apanhar o comboio das 5.30h para Cascais ou, no caso dele, o barco para a outra banda. Éramos 4 amigos, com algum parentesco. O dinheiro que se ganhava ou perdia ia para um caixa, não para o bolso de cada um. Ao fim daqueles meses de jogo fomos os quatro, com vinte e muitos poucos anos, jantar ao Tavares, um dos melhores e mais requintados restaurantes de Lisboa do final dos anos 70 / início dos 80. Custou-nos 750 escudos, pagos pelo produto do jogo. 

Já aqui escrevi, penso eu, que a forma como jogávamos às cartas era um reflexo do que viria a ser a nossa vida pessoal ou profissional do futuro. Eu fui aquele que perdi menos, porque sempre fui o que arriscava menos, sempre à procura de chão seguro, não porque jogava melhor. O fq era, para mim, o jogador mais completo: o risco e a certeza em proporções equilibradas, uma marca de água do que foi a sua carreira com grande sucesso. Conversámos muito sobre os outros jogadores e a relação entre a forma como jogavam e como desenvolveram a sua vida pessoal ou profissional, e tínhamos muitos pontos de concordância. 

O fq completa hoje 70 anos, e só me ocorre a frase que já é um cliché: parabéns, muitos dias destes e que eu cá esteja para ver. 

Agradeço-lhe uma amizade continuada, firme e solidária. Agradeço-lhe ter-me ensinado a frase quando a sorte é maniversa, nada vale ao desinfeliz, que citei tantas vezes. Agradeço-lhe a frase de um livro de que ambos gostamos muito, citada nessa longínqua Nova Iorque de 1981: os cavalos resfolegando na fúria da carreira. Agradeço-lhe os diálogos divertidos a citar Eça de Queiroz, descendentes que somos, ambos, de queirosianos militantes. Agradeço-lhe tudo: aaquilo que nos reconforta e daquilo que nos diverte. 

Tudo isto é da mais elementar justiça.

JdB 

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