terça-feira, 16 de junho de 2020

Poemas dos dias que correm *

Obrigada por terem aguardado

Senhores passageiros,
Vamos dar início ao embarque.
Neste momento convidamos somente os passageiros de Primeira Classe.
Obrigada por terem aguardado.

Convidamos agora a embarcar
os passageiros Membros Corporativos Exclusive, Superior, Privilege e Excelsior,
seguidos dos passageiros Membros Corporativos Platina triplo, duplo ou single,
seguidos dos passageiros Membros Corporativos Gold e Silver,
seguidos dos passageiros Membros Corporativos Coral Club.
Podem embarcar igualmente militares que se apresentem devidamente fardados.

Obrigada por terem aguardado. Convidamos agora
a embarcar os passageiros Membros Corporativos Bronze Alliance e os passageiros
que se inscreveram no nosso sistema de pontos Metais Raros e no Esquema de Gratificações, e obrigada por terem aguardado.

Obrigada por terem aguardado. Gente Reconhecida e Comprovadamente Bela
pode agora embarcar, bem como os cavalheiros que tragam consigo uma cópia
da revista Cigar Aficionado, bem como os passageiros que subscreveram
a nossa promoção Diamante Vermelho, Opala Negra, ou Granada Azul.
Podem embarcar agora os passageiros com cartões Safira, Rubi e Esmeralda,
seguidos dos passageiros com cartões Ametista, Onix, Obsidiana, Azeviche,
Topázio e Quartzo. Podem também embarcar agora os clientes cuja tarifa lhes dá direito à Fast Track ou à Faixa de Embarque Prioritário, os passageiros das Elites Eleitas, os clientes com Acesso Preferencial e os Primeiros Entre os Iguais.

Convidamos também a embarcar os passageiros com comprovativo
de elegância e um valor mínimo de dez mil dólares americanos,
vestindo peças de estilistas e/ou fatos de alfaiate;
convidamos também a embarcar os passageiros que tenham peças de joalharia
(incluindo relógios de pulso) com preço de venda a retalho
superior ao salário anual médio
de um professor do ensino secundário a meio da carreira.

Podem também agora embarcar os passageiros que falem alto
aos telemóveis sobre vendas de acções recentemente concluídas,
compra de imóveis e aquisições agressivas,
bem como gestores de fundos de investimento com comprovado registo
no enfraquecimento de pequenas ou médias ambições.

Podem também embarcar agora os passageiros nas classes
Argila, Calcário, Marga e Barro. Os passageiros que adquiriram
os nossos pacotes Dignity ou Orquídea da Manhã
podem recolher os seus fatos de treino desinfectados antes do embarque.

Obrigada por terem aguardado.
Convidamos agora a embarcar os passageiros medíocres,
seguidos dos passageiros a quem falta perspicácia empresarial
ou potencial para genuína liderança, seguidos da gente
com pouca ou nenhuma importância, seguidos de gente
que funciona como gente em perda fiscal.
Os passageiros com bilhetes para as zonas Ferrugem, Serradura, Papelão,
Poça e Areia podem agora começar a reunir os seus
pertences e migalhas e preparar-se para o embarque.

Pedimos aos passageiros dependentes parcial ou totalmente da
assistência social ou da bondade que validem os seus cupões de viagem
junto do Balcão da Quarentena.

Suor, Pó, Reles, Caspa, Fezes, Palha, Restos,
Cinza, Pus, Lama, Tijolo, Farpa e Fuligem;
podem todos embarcar agora.

(tradução de Ana Luísa Amaral)

***

Thank you for waiting

At this moment in time we’d like to invite
First Class passengers only to board the aircraft.

Thank you for waiting. We now extend our invitation
to Exclusive, Superior, Privilege and Excelsior members,
followed by triple, double and single Platinum members,
followed by Gold and Silver Card members,
followed by Pearl and Coral Club members.
Military personnel in uniform may also board at this time.

Thank you for waiting. We now invite
Bronze Alliance Members and passengers enrolled
in our Rare Earth Metals Points and Reward Scheme
to come forward, and thank you for waiting.
Thank you for waiting. Accredited Beautiful People
may now board, plus any gentleman carrying a copy
of this month’s Cigar Aficionado magazine, plus subscribers
to our Red Diamond, Black Opal or Blue Garnet promotion.
We also welcome Sapphire, Ruby and Emerald members
at this time, followed by Amethyst, Onyx, Obsidian, Jet,
Topaz and Quartz members. Priority Lane customers,
Fast Track customers, Chosen Elite customers,
Preferred Access customers and First Among Equals customers
may also now board.

On production of a valid receipt travellers of elegance and style
wearing designer and/or hand-tailored clothing
to a minimum value of ten thousand US dollars may now board;
passengers in possession of items of jewellery
(including wristwatches) with a retail purchase price
greater than the average annual salary
of a mid-career high school teacher are also welcome to board.


Also welcome at this time are passengers talking loudly
into cellphone headsets about recently completed share deals
property acquisitions and aggressive takeovers,
plus hedge fund managers with proven track records
in the undermining of small-to-medium-sized ambitions.

Passengers in classes Loam, Chalk, Marl and Clay
may also board. Customers who have purchased
our Dignity or Morning Orchid packages
may now collect their sanitised shell suits prior to boarding.

Thank you for waiting.
Mediocre passengers are now invited to board,
followed by passengers lacking business acumen
or genuine leadership potential, followed by people
of little or no consequence, followed by people
operating at a net fiscal loss as people.
Those holding tickets for zones Rust, Mulch, Cardboard,
Puddle and Sand might now want to begin gathering
their tissues and crumbs prior to embarkation.

Passengers either partially or wholly dependent on welfare
or kindness, please have your travel coupons validated
at the Quarantine Desk.

Sweat, Dust, Shoddy, Scurf, Faeces, Chaff, Remnant,
Ash, Pus, Sludge, Clinker, Splinter and Soot;
all you people are now free to board.

Simon Armitage

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Retirado daqui

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Textos dos dias que correm

A Dor como Padrão para a Intensidade dos Sentidos

Normalmente, a ausência de dor é apenas a condição física necessária para que o indivíduo sinta o mundo; somente quando o corpo não está irritado, e devido à irritação voltado para dentro de si mesmo, podem os sentidos do corpo funcionar normalmente e receber o que lhes é oferecido. A ausência de dor geralmente só é «sentida» no breve intervalo entre a dor e a não-dor; mas a sensação que corresponde ao conceito de felicidade do sensualista é a libertação da dor, e não a sua ausência. A intensidade de tal sensação é indubitável; na verdade, só a sensação da própria dor pode igualá-la.

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'

***

A Dor e o Prazer

A natureza colocou o género humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer. Somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na realidade faremos. Ao trono desses dois senhores está vinculada, por uma parte, a norma que distingue o que é recto do que é errado, e, por outra, a cadeia das causas e dos efeitos.
Os dois senhores de que falamos governam-nos em tudo o que fazemos, em tudo o que dizemos, em tudo o que pensamos, sendo que qualquer tentativa que façamos para sacudir esse senhorio outra coisa não faz senão demonstrá-lo e confirmá-lo. Através das suas palavras, o homem pode pretender abjurar tal domínio, porém na realidade permanecerá sujeito a ele em todos os momentos da sua vida.

Jeremy Bentham, in 'Uma Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação'

domingo, 14 de junho de 2020

11º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO - Mt 9,36-10,8

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão,
porque andavam fatigadas e abatidas,
como ovelhas sem pastor.
Jesus disse então aos seus discípulos:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao Senhor da seara
que mande trabalhadores para a sua seara».
Depois chamou a Si os seus doze discípulos
e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros
e de curar todas as doenças e enfermidades.
São estes os nomes dos doze apóstolos:
primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão;
Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão;
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano;
Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou.
Jesus enviou estes Doze, dando-lhes as seguintes instruções:
«Não sigais o caminho dos gentios,
nem entreis em cidade de samaritanos.
Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel.
Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus.
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos,
sarai os leprosos, expulsai os demónios.
Recebestes de graça, dai de graça».

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Duas Últimas

Swingle Singers: "conheci-os" talvez em 1969 a cantarem Bach, através de um disco do meu Pai que se ouvia muito lá em casa. O mesmo conceito, algumas décadas depois.

JdB


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

EVANGELHO - Jo 6, 51-58

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo descido do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei de dar é a minha Carne
pela vida do mundo».
os judeus discutiam entre si:
«Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?»
Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a Carne do Filho do homem
e não beberdes o seu Sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a mina Carne e bebe o meu Sangue
tem a vida eterna;
e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha Carne é verdadeira comida
e o meu Sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue
permanece em Mim, e Eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai,
também aquele que me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram;
quem comer deste pão viverá eternamente».

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Duas Últimas


Comecei há pouco a ler o livro acima; tal como o nome indica, é o primeiro volume de uma colectânea de textos, sobre arquitectura, do arquitecto americano Frank Lloyd Wright (1867 - 1959). É claro que já me tinha vindo à memória a música de Simon & Garfunkel intitulada So Long, Frank Lloyd Wright. Ontem decidi ir ver a letra e o que estava por detrás da composição. E percebi que a música é de despedida: na cabeça de Paul Simon já estava imaginada a ruptura musical entre ambos. Art Garfunkel, que tinha sido estudante de arquitectura, só anos mais tarde veio a perceber que a música era para ele.

Aos 2'56" alguém grita do fundo: So long already, Artie.

JdB



So Long, Frank Lloyd Wright

So long, Frank Lloyd Wright
I can't believe your song is gone so soon
I barely learned the tune
So soon
So soon

I'll remember
Frank Lloyd Wright
All of the nights we'd harmonize till dawn
I never laughed so long
So long
So long

Architects may come and
Architects may go and
Never change your point of view
When I run dry
I stop awhile and think of you

So long, Frank Lloyd Wright
All of the nights we'd harmonize till dawn
I never laughed so long
So long
So long

terça-feira, 9 de junho de 2020

Da pandemia como carrasco ou gerador de um certo tipo de relacionamento

Segundo João Miguel Tavares, numa conversa do Observador sobre novos espaços de trabalho (penso que na semana passada) se a palavra mais usada nos últimos tempos é pandemia, a segunda será teletrabalho. São essas as duas que interessam para este meu devaneio.

Dois pequenos episódios: 

(i) Estou na Igreja. Passa por mim uma pessoa de quem sou amigo; engraçada como é, diz-me a rir por detrás da máscara que lhe tapa uma faixa de rosto que vai do nariz até ao queixo: sou fulana... 

(ii) Estou num supermercado. Passa por mim um cavalheiro que eu não me parece saber quem é; traz uma máscara que lhe tapa uma faixa de rosto que vai do nariz até ao queixo. Acena e baixa a máscara para se identificar; embora não conheça o cavalheiro (posso estar enganado, contudo) baixo também a minha máscara. De facto, não nos conhecemos, mas só percebemos isso com a cara destapada

Não tenho histórias curiosas de teletrabalho, cujo modelo sigo quase exclusivamente ha 13 anos. O que sei, o que vou ouvindo por aí, é que o futuro da vida profissional das pessoas passará desejavelmente por um sistema misto: as pessoas vão ao emprego uns dias, trabalharão em casa outros. O terrível deste sistema, agravado com uma utilização generalizada da máscara em lugares públicos ou mais confinados, é que matará uma forma de romance que era determinante para um tipo de pessoas. Em bom rigor, o meu raciocínio poderia aplicar-se ao mundo universitário, com o misto de aulas à distância e aulas presenciais com máscara.

Conheci pessoas que casaram com colegas de faculdade; conheci pessoas que casaram com colegas de emprego; conheci pessoas cuja vida social passava quase exclusivamente pelos/as colegas de faculdade ou de emprego. Esse modelo de vida está em risco, e o governo deveria olhar para estas pessoas, não como um foco de dificuldades económicas, mas como um problema de saúde mental - ou como um caso de estudo a ser publicado nas revistas da especialidade. Pode ser tudo, o que dificulta a análise e a respectiva medida correctiva.

Na verdade, com o teletrabalho as pessoas ver-se-ão menos; com a obrigatoriedade da utilização da máscara as pessoas ver-se-ão ainda menos. Ora, não se vendo, resta-lhes apaixonarem-se (ou aproximarem-se socialmente) por aquilo que intuem uma da outra, por aquilo que vão descobrindo, pela beleza interior tão desvalorizada face aos atributos físicos. As pessoas apaixonar-se-ão também pela voz - ou pelo tacto. Mas fá-lo-ão intermitentemente, em função dos dias a que o patrão as manda ir trabalhar à empresa.

O Sr. Santos contínuo e a D. Adélia da Contabilidade, ambos empregados numa metalúrgica de Fernão Ferro? O Alberto (de Fornos de Algodres) e a Sandra (de Bencatel) ambos estudantes de Antropologia? A vida ser-lhes-á mais penosa, o encanto mútuo gerado pela proximidade profissional ou universitária mais difícil. Resta-lhes o zoom e uma máscara mais criativa. O que está por trás fica remetido para o exercício da imaginação e para as 2ªs, 3ªs e 6ªs quando cruzarem os olhos e imaginarem uns dentes.

JdB 

domingo, 7 de junho de 2020

Duas Últimas (enviado por mão amiga)

Solenidade da Santíssima Trindade

EVANGELHO - Jo 3,16-18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus a Nicodemos:
«Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n'Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Quem acredita n'Ele não é condenado,
mas quem não acredita n'Ele já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Poemas dos dias que correm

Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro

***

Despedida

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

Mia Couto

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Do Rio de Janeiro em 1977

Não estou a contar que a maioria das pessoas que visita este estabelecimento se entretenha a ver um filme de mais de 40 minutos sobre o Rio de Janeiro de 1977. Mas vale a pena - talvez, digo eu - ver meia dúzia de minutos para perceber o que eu já partilhei neste estabelecimento quanto ao fascínio da minha primeira ida à cidade maravilhosa, talvez em 1975.

Não tenho vocabulário interior para explicar o que foi o impacto daquela relativamente curta viagem. Não sei se eram os meus 17 anos, se era a primeira viagem transatlântica de avião, se era o facto de partir no Inverno e, algumas horas depois, aterrar no calor húmido do Verão; não sei se era a praia, uma sensação de leveza que eu não tinha capacidade para apreender, ou o contraste daquilo que eu conhecia do estrangeiro - Badajoz e Londres. Talvez fosse apenas o chá mate ou chá limão na praia, ou a lanchonete Bob's, onde comíamos uma sandes de ovo e bebíamos um choppinho ao fim da tarde. Alguma coisa era. Talvez fosse, simplesmente, a minha primeira viagem sem a autoridade paternal por perto. 

O Rio de Janeiro de 1975 - e ainda muito em 1977 quando lá fui pela segunda vez - era uma cidade segura: andava-se de ônibus a altas horas da noite, não se era assaltado nas ruas, o calçadão era aquilo que se vê no filme: desafogado, limpo, em cima de uma praia de uma beleza imensa onde nada se roubava quando íamos tomar banho. Em 2002 ou 2003, quando lá voltei por uns dias, quase não podia sair-se do hotel após o cair da noite.

Vi meia dúzia de minutos do filme. Do ponto de vista cronológico poderia aparecer no filme, porque estava lá naquele ano; porém, tudo aquilo me pareceu de uma época tão distinta, tão afastada da minha, tão longínqua no tempo, que me achei deslocado. Afinal, só se passaram 43 anos; e eu estou 43 anos mais velho. O primeiro comentário a este filme diz tudo: Meu Deus !!!!!!!!!! Éramos felizes e não sabíamos. Tempos maravilhosos. Quem conheceu o Rio de 1975 e conhece o Rio agora talvez profira o lamento com uma propriedade que não é a minha, que não vivo lá. Mas sim, gostava de recuar 43 anos e revisitar tudo; até mesmo  - ou talvez sobretudo - a emoção.

JdB

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Vai um gin do Peter’s ?

UMA CRIANÇA DESENHOU A SAUDADE E MERGULHOU NO DESENHO

Uma imagem forte está, compreensivelmente há anos, a percorrer as redes sociais. Menos compreensível são as conotações quase opostas a que se tem prestado, tirando partido do seu enorme impacto, pelos vistos muito versátil. 

Se dúvidas houvesse sobre a elasticidade da expressão humana para influenciar a carga de significado de determinada mensagem, a história da divulgação da fotografia que se segue, é a melhor prova desse potencial, por vezes, a poder rasar alguma manipulação. 

Hoje, sublinha-se o problema das «fake news» como se a mentira fosse um fenómeno novo e não acompanhasse a humanidade desde o início, estando logo no epicentro da parábola do jardim do Éden. São, geralmente, lançadas com intencionalidade manipulativa, por governantes e gente do poder (mas não apenas) no afã de pontificarem sobre o rumo dos acontecimentos. Exemplos óbvios: Nero, Calígula, Filipe o Belo, Elizabeth I, Richelieu, Bismark, Rasputine, Lenine, Mussolini, Hitler, George W. Bush no caso da invasão do Iraque, etc. 

A tal imagem tão glosada parte de um jogo infantil comum, pelo menos no Médio Oriente pobre, de desenhar a giz, no chão, os desejos e os melhores sonhos. Foi nesse contexto que uma pequena orfã se aconchega, poeticamente, no coração da mãe querida que desenhou e ali adormece. Consta que nem terá chegado a conhecê-la, mas pouco é explicado sobre as circunstâncias daquela morte, se de doença, guerra, acidente (só na repescagem recente se atribui à guerra, que vem insinuada mas não provada nas citações mais antigas e próximas da fonte). Segundo o costume muçulmano, a criança entra descalça em solo sagrado, porque assim concebe o interior dos contornos da figura maternal gravados no chão:


Em 2013, a imagem circulou como crítica à invasão e desmantelamento do Iraque pelas tropas norte-americanas a mando de George W.Bush, embora continue por esclarecer a causa da morte daquela mãe, por hipótese – ainda que menos provável – alheia ao conflito militar. De todos os modos, isto em nada diminui a tragédia da guerra, per se. A legenda clarifica o objectivo do divulgador: «No Compassion. Only ambition». 

Em 2014, a imagem continuou a correr no mesmo registo político e acusatório, mas desta vez com o dedo apontado ao Presidente dos EUA em funções – Barack Obama – que proferira um discurso a referir os êxitos obtidos no Iraque: 

(c) Bahareh Bisheh
«Over the last 12 years or so, we have all seen horrific images of the human cost of this ongoing Global War On Terror.  I have heard (and shared) first-hand stories from our Troops of the local children they meet on their deployments in the hellholes of the world...»

Em 2015, surgiu num blog de espiritualidade oriental, integrado num conjunto de fotografias semelhantes, passando a um contexto de exaltação da capacidade humana de superação. A tal ponto vale a apologia, que termina com um cartoon sobre o valor determinante da perspectiva com que se encara a realidade, mesmo a mais adversa. Desse modo, coloca a tónica no olhar e na atitude com que se escolhe lidar com os factos (última imagem desta sequência), sendo que o cartoon apenas mostra a opção positiva adoptada pelos dois protagonistas, apenas diferentes na localização:

LEGENDA: «This picture broke my heart and made me appreciate my life a lot more»


Ao menos, em sonhos, aproximam-se da casa acolhedora que lhes faltará. 

Apesar do perigo em que estão, ambos preferem fixar-se nos motivos que merecem ser festejados.

Em 2017, reapareceu de forma neutra e sem legendas num artigo sobre apoio a menores abandonados, valendo-se da sua eloquência para evidenciar a dor indizível de uma inocente vulnerável. 

Mais recentemente, emergiu em redes sociais brasileiras, readquirindo conotação positiva e maior carga poética enquanto corporização da saudade: 


Na saudade, o desenho da pequenina iraquiana ganha uma dimensão próxima da perspectiva da autora-criança. Nesse sentido, torna-se especialmente verdadeira. Sem se negar a validade dos alertas sobre o horror da guerra e o flagelo da orfandade, a legenda brasileira devolve autenticidade ao gesto magnífico da minúscula artista plástica, que fez arte talvez sem saber. À simplicidade da sua pintura juntou uma coreografia genuína e plena de significado, que alavancou a força daquela mensagem visual. Da saudade, cantaram poetas-escritores brasileiros, que também navegam na língua de Camões dando-lhe, em geral, um colorido caloroso: «Ela estava triste. Não era uma tristeza difícil. Era mais como uma tristeza de saudade. Ela estava só. Com a eternidade à sua frente e atrás dela.» (Clarice Lispector – I); «Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.» (C. Lispector – II); «Guarda estes versos que escrevi chorando / Como um alívio a minha saudade / Como um dever do meu amor  / E quando houver em ti um eco de saudade / Beija estes versos que escrevi chorando.» (Machado de Assis). 

Com razão clamava Pessoa que o melhor do mundo são as crianças, capazes de atingir um patamar de verdade condensada, que as aproxima das estrelas. Não por acaso, também a obra-prima da menina iraquiana só se deixa ver e perceber a partir de cima… do céu, onde habitará a presença mais invisível da sua representação, retratada com sorriso suave e olhos atentos. Naquele recorte em giz onde adormeceu a criança rodeada de eternidade (segundo Lispector), ficou igualmente desenhada a ligação da terra ao céu com passagem pelo coração gigantesco daquela pequenina, que se ofereceu para pulsar com vida no lugar do coração de uma mãe inalcançável à vista, mas pressentida através do olhar interior. Percebe-se por que quis tirar os sapatos.  

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

terça-feira, 2 de junho de 2020

Duas Últimas

Muito provavelmente aconteceu comigo o que aconteceu com outros. Talvez mais com outros, dado o meu interesse menos entusiasmado pela chamada música pop do que a generalidade dos meus amigos da mesma idade. Contudo, em festivais, em boîtes, em festas ou, simplesmente, no remanso de um quarto, de um carro ou de um namoro, cantei muitas músicas pop. Hoje percebo que cantava muito sem perceber o que cantava; e percebo que a música, em quase todos os casos, tem mais poder sobre nós do que a letra. 

De facto, e na generalidade dos casos, cantava porque a batida da música - fosse lenta ou agitada - me impelia a isso. Talvez tenha mesmo, no desvario da minha adolescência, sei lá eu, cantado músicas que apelavam ao racismo, à expulsão dos professores, à morte dos padres ou ao incesto. Não sei, imagino eu. Não sei o que cantava, limitava-me a muitas vezes a papaguear palavras ao som de uma música que me agitava o interior.

Na sequência de uma das minhas leitura para efeitos de doutoramento (A Biography of Loneliness) li que Eleanor Rigby, uma música dos Beatles que conheço desde que ela chegou a Portugal, reflecte a preocupação que McCartney, o autor da letra, manifestava, desde criança, pelos idosos. 

[a título de curiosidade, estou a ler outro livro chamado A History of Solitude. Se Loneliness é solidão, solitude é estar sozinho... Dava-me jeito a facilidade dos brasileiros, que traduziram solitude (em inglês)... por solitude (em português)]

Eleanor Rigby seria uma velha solteirona que recolhe o arroz após um casamento que ela nunca gozará. Confesso que não fui investigar; mas fui buscar a letra para perceber que, de facto, cantei isto muitas vezes, talvez numa dada altura soubesse tudo de cor. Mas, na verdade, talvez não fizesse a mais leve ideia do que estava a cantar. Passadas algumas décadas, a pergunta all the lonely people / where do they all come from? já não faz sentido. Sabemos bem de onde vêm. 

JdB

--- 


Eleanor Rigby

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Eleanor Rigby
Picks up the rice in the church where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window
Wearing the face that she keeps in a jar by the door
Who is it for?

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Father McKenzie
Writing the words of a sermon that no one will hear
No one comes near
Look at him working
Darning his socks in the night when there's nobody there
What does he care?

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Eleanor Rigby
Died in the church and was buried along with her name
Nobody came
Father McKenzie
Wiping the dirt from his hands as he walks from the grave
No one was saved

All the lonely people (ah, look at all the lonely people)
Where do they all come from?
All the lonely people (ah, look at all the lonely people)
Where do they all belong?


segunda-feira, 1 de junho de 2020

Textos e imagens dos dias que correm

Praia do Macúti (Beira, Moçambique) Setembro de 2008

A vida é uma casa com duas portas. Há uns que entram e que têm medo de abrir a segunda porta. Ficam girando, dançando com o tempo, demorando-se na casa. Outros se decidem abrir, por vontade de sua mão, a porta traseira. Foi o que eu fiz, naquele momento. A minha mão volteou o fecho do armário, a minha vida rodeou o abismo.

(Mia Couto)

domingo, 31 de maio de 2020

Solenidade do Pentecostes

EVANGELHO - Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Textos dos dias que correm

A sustentabilidade segundo a Bíblia

«Sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde» (papa Francisco, “Laudato si’”, 89).

Mesmos os cientistas, do seu ponto de vista – muitas vezes não escutados pelos políticos e desmentidos por comportamentos quotidianos dos cidadãos – reiteram que estamos no interior de um único e grandioso ecossistema, que o químico britânico James Lovelock denominou com o termo de matriz grega Gaia, a Terra, considerada como um único organismo vivo.

Não é por acaso que o termo “natura” deriva do verbo “nascer”, evocando algo de vivente, e é sugestivo recordar que, sempre na língua do classicismo grego e do Novo Testamento, o vocábulo “physis” (que gerou o nosso “física”) descende do verbo “phyein”, que significa “respirar”.

Infelizmente, são muitos os atentados que a civilização contemporânea comete contra esta unidade admirável, na qual «há sempre alguma coisa de maravilhoso», como afirmava já no século IV a.C. Aristóteles, o célebre filósofo grego. Também o sábio bíblico do II século a.C., dito Sirácida, escrevia: «Quanto são amáveis todas as obras do Criador! E delas apenas uma centelha se pode observar… Todas as coisas são duas a duas, uma diante da outra, Ele nada fez de incompleto» (42,22.24).

«O mundo é um belo livro, mas de pouco serve a quem não sabe lê-lo», escreveu o comediógrafo setecentista Carlo Goldoni. E a admiração que se experimenta ao folhear as suas páginas não floresce só ao contemplar o cosmo, mas também o microcosmo (pensemos apenas em quanto a ciência descobriu no interior das partículas mínimas da matéria.

Há uma palavra que enche as bocas, mas deixa indiferente as mãos e, portanto, o empenho das pessoas: sustentabilidade. Obviamente o termo equivalente não existe das Sagradas Escrituras, mas o conceito está presente e foi desenvolvido pela própria tradição cristã. No interior da “Laudato si’” ressoa pelo menos uma dúzia de vezes. A Palavra de Deus condena repetidamente a exploração insensata e egoísta dos bens que Deus destinou universalmente à humanidade.

Esses bens são açambarcados só por alguns poucos ou desperdiçados insensatamente: pense-se na dispersão da água, ou na fome do mundo quando um terço dos alimentos é objeto de descarte, ou no fenómeno do denominado “overshoot”, através do qual se começam a consumir produtos e energias terrerstres destinados ao ano seguinte já nos primeiros meses do ano anterior, com um excesso que ignora o futuro.

Na parábola do rico que se banqueteia até à náusea e do pobre Lázaro que se tem de contentar com os restos lançados fora (cf. Lucas 16,19-31) está a síntese simbólica deste drama.


Card. Gianfranco Ravasi
In Famiglia Cristiana
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado pelo SNPC em 28.05.2020

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Crónica do confinamento

Vejo na televisão uma reportagem sobre os tempos de confinamento. Fala-se de separação, de excesso de proximidade, de teletrabalho com crianças enérgicas e sem espaço. Fala-se do corte com hábitos de contacto físico. Há uma senhora que, entrevistada, confessa: não sou muito de beijos, de grandes demonstrações de afecto; sou mais de fazer coisas... Percebo o que está por trás, até porque conheço gente assim, em cujas vidas só aparentemente têm de escolher entre dar beijos ou executar uma tarefa. Na verdade, entre ambas as actividades não está, normalmente, uma condição "ou" - ou isto ou aquilo. Quem está de fora percebe, simplesmente, que algumas pessoas preferem isto a aquilo, não lhes cabendo optar com angústia ou denodo. Também eu prefiro um belo peixe assado a uma declaração trimestral do IVA.    

***

Diz-se que toda a crise é uma oportunidade. É bem verdade, se bem que a definição de oportunidade varie entre as pessoas. Eu explico, na sequência da entrada acima: conheço pelo menos três pessoas (raparigas nos 30 anos e rapaz pouco acima dos 40) para quem a eliminação do beijo social foi uma alegria ou um alívio. Também conheço gente do mesmo sexo e da mesma idade que não pensa assim. Porém, a pandemia introduziu uma variável nova ao nível dos contactos sociais. A partir de agora teremos de perguntar: queres ser beijada? Posso apertar-te a mão? Talvez ganhemos o hábito do simples olá e nos aproximemos da frieza anglo-saxónicaCuriosamente, a pandemia promoveu o hábito dos mecânicos de cumprimentar com o cotovelo numa prática sanitária - mas detestável. Há gente feliz, para quem este hábito tão latino do beijo (que se estendeu ao mundo profissional) e do abraço deveriam acabar - com ou sem pandemia. Tenho pena.

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Leio nos jornais que os tatuadores vivem uma situação insustentável: estamos com a corda ao pescoço, afirmaram. A expressão é corrente, e eu percebo o drama: preferiam uma agulha junto ao pescoço para cumprir a sua arte; a corda não lhes serve para nada. Tenho respeito por essa classe laboriosa e criativa, mas não sei se o jornal que lhes deu voz decidiu fazer uma ronda pelas actividades profissionais do país, e eu deparei-me com a letra 'T'. Na verdade, serão os tatuadores, as costureiras, os donos de lojas de retrós, os / as pedicuras ou os profissionais diligentes e corajoso que conduzem os cestos de vime com turistas pelas ladeiras abaixo na bela Madeira. A respeito de tatuagens não resisto a uma pequena citação. Alfred Loos, um arquitecto vienense nascido em 1870, escreveu, em 1908, um texto a que chamou Ornamento e Crime. E afirma, a certo momento: o Papua faz tatuagens na sua pele, canoa, remo – enfim, em tudo o que puder alcançar. Ele não é nenhum criminoso. O homem moderno que faça tatuagens, ou é criminoso ou é degenerado. Há prisões em que 80% dos reclusos apresentam tatuagens. Os tatuados que não estão presos ou são potenciais ladrões ou aristocratas degenerados.     

JdB

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Duas Últimas

Uma das músicas escolhidas para uma playlist criada por alguém que me é próximo e a que chamou #coronavirus2020. Mercedes Sosa, a Voz dos Sem Voz, para citar quem a escolheu.

JdB

terça-feira, 26 de maio de 2020

Da felicidade e do Céu

Um dia destes falava com alguém sobre terceira pessoa, tendo eu afirmado: Deus queira que seja feliz. Do lado de lá do telefone a resposta veio rápida e assertiva: Deus queira que vá para o Céu; se conseguir ser feliz antes ainda melhor. Hoje, no meu passeio muito matinal no paredão (com muito mais gente do que é costume) dei por mim a pensar na afirmação e na resposta.

Usei muitas vezes o argumento do Céu como objectivo máximo na vida de um cristão. Afinal, ir para o Céu é ir para Céu - e isso é sempre bom; ser-se feliz, pelo contrário, pode ser um objectivo egoísta, porque podemos atingir a felicidade à custa da infelicidade dos outros. Nesse sentido, a resposta que me deram está correcta: Deus queira que vá para o Céu; se conseguir ser feliz antes ainda melhor. 

Ora, antes do mais falamos de momentos diferentes; se eu entendi correctamente a frase que me foi dita, ela contém uma espécie de contradição em termos. Vamos para o Céu quando morrermos, e só quando lá chegarmos é que sabemos que estamos no Céu. Também pode acontecer - como eu acredito que acontece - que para o Céu vão todos, menos aqueles que o rejeitam até ao fim, nunca se arrependendo de nada que possam ter feito de mal. Mesmo assim, se pensarmos que Deus não é senão Amor, não estou certo de que esses não vão também para o Céu. Então, se esta teoria assente na fé for válida, não vale a pena estar a desejar algo que sabemos que de facto nos vai acontecer. Na verdade, até o bom ladrão se arrependeu no último momento, chegando ao Paraíso nesse mesmo dia.

Por outro lado, se bem que o Céu se ganhe na Terra, não é na Terra que vamos para o Céu - e essa é uma decisão que não nos compete tomar, apenas podemos querer ser merecedores dela.  O que podemos então desejar para a caminhada terrena de alguém? Que vá para determinado sítio quando morrer? Devemos então estabelecer um objectivo terreno, que tenhamos a possibilidade de atingir e que nos garanta o Céu? A felicidade pode ser um deles? Ou talvez seja mais correcto pretendermos que alguém deseje o Céu, não que vá para o Céu?

Socorro-me de duas citações:

De Aristóteles (in Ética a Nicómaco):

Parece ainda que todas as características procuradas na felicidade existem de acordo com o sentido estabelecido. Para uns é a excelência, para outros a sensatez, para outros ainda parece ser uma certa sabedoria, para outros, finalmente, todas estas actividades ou algumas delas em conexão com o prazer ou então, pelo menos, não sem o prazer. 

(...) 

O sentido fixado por nós concorda com aqueles que dizem que a felicidade é a excelência ou uma certa excelência.

Agora de Santo Agostinho (in Confissões):

Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que desinteressadamente te servem, cuja alegria és tu mesmo. E a vida feliz consiste em sentir alegria junto de ti, vinda de ti, graças a ti: esta é a vida feliz e não há outra.

Para obviar discussões talvez pudéssemos desejar, então, que esta pessoa de quem estávamos a falar levasse uma vida boa, que é diferente de levar uma boa vida - a ordem dos factores não é, de facto, arbitrária. Porém, lendo Aristóteles e Santo Agostinho - nascidos com um intervalo de 700 anos - acho que posso continuar a desejar que a dita pessoa seja feliz. Em bom rigor, se for esta a felicidade que ele procura, de certeza que vai para o Céu.

JdB

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