06 setembro 2015

23º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 7,31-37

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
Jesus deixou de novo a região de Tiro
e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia,
atravessando o território da Decápole.
Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar
e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele.
Jesus, afastando-Se com ele da multidão,
meteu-lhe os dedos nos ouvidos
e com saliva tocou-lhe a língua.
Depois, erguendo os olhos ao Céu,
suspirou e disse-lhe:
«Effathá», que quer dizer «Abre-te».
Imediatamente se abriram os ouvidos do homem,
soltou-se-lhe a prisão da língua
e começou a falar correctamente.
Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém.
Mas, quanto mais lho recomendava,
tanto mais intensamente eles o apregoavam.
Cheios de assombro, diziam:
«Tudo o que faz é admirável:
faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

05 setembro 2015

Pensamentos Impensados

Sufrágeis
Teve um resultado histórico, 10% dos votantes foram unânimes.

Segredos
- Peço sigilo.
- Sigile-o você.

Mais aborto
Adoção - pastilha que adoça demasiado.

Racismo
Quem inventou a fotografia, a preto e branco, era racista.
Ignorou os peles vermelhas e os "amarelos".

Desastres
Dois automóveis chocaram frontalmente; os veículos estão em estado de choque.

Tretas
Os Ministros da Finanças quando criticados respondem à letra, com números.

Buscas
Mobilização à escala mundial: 7 biliões de pessoas procuram Deus.

Gente que enche chouriços
Estas linguiças são boas? Não são linguiças, são paios da Póvoa.

SdB (I)

04 setembro 2015

... para os dias que correm

Marriage of Willem van Loon and Margaretha Bas 1637 JM Molenear.

Casamento

Há mulheres que dizem: 
Meu marido, se quiser pescar, pesque 
mas que limpe os peixes. 
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, 
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. 
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, 
de vez em quando os cotovelos se esbarram, 
ele fala coisas como 'este foi difícil' 
'prateou no ar dando rabanadas' 
e faz o gesto com a mão. 
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez 
atravessa a cozinha como um rio profundo. 
Por fim, os peixes na travessa, 
vamos dormir. 
Coisas prateadas espocam: 
somos noivo e noiva. 

Adélia Prado, in 'Terra de Santa Cruz' 


03 setembro 2015

Sei lá...

Numa das minhas rondas de blogues encontro este início de parágrafo: "O Pátio das Cantigas" de Leonel Vieira é o filme português com o maior sucesso de bilheteira de todos os tempos. Porém, de acordo com os críticos, o seu destino não deveria ser uma sala de cinema mas o cano de esgoto." Nos parágrafos seguintes faz-se a defesa do filme, não enquanto obra cinematográfica, mas como momento de entretenimento. E diz o autor que a ninguém de bom senso lhe passa pela cabeça achar que uma sinfonia de Mahler não é superior a uma música pimba, mas não é por isso que se deve condenar esta última ao forno incinerador.

Não vi esta versão do Pátio das Cantigas mas, pelo que me têm dito, é entretenimento puro - toda a gente dá por bem empregue o dinheiro e o tempo gastos apesar de dizerem que não é um grande filme. É, em parte um bom indicador para o cinema português. Nesta senda dos filmes portugueses este domingo, talvez, vi na RTP 1 o filme "Sei Lá", baseado num livro de Margarida Rebelo Pinto, curiosamente o único que li dela - e de que não gostei. Não sou cinéfilo, pelo que me pronuncio muito com base no gostei / não gostei. Sinceramente, e usando a expressão do primeiro parágrafo, tudo aquilo deveria ter como destino o cano de esgoto, salvo uma ou outra interpretação. 



Consegue fazer-se um bom filme de um mau livro? Não sei. Admito que haja exemplos, eu não os conheço, mas nesta arte sou ignorante. É verdade que não sou da geração dos protagonistas (penso que por volta dos 30 anos) mas, por aquilo que vou ouvindo, não me parece que uma certa sociedade (que dá um beijinho apenas e tem nomes considerados tradicionais, ou que usem "você" ao falarem com o outro sexo) abusem uma liberdade de linguagem que faz corar um carroceiro, façam colecção de homens de uma noite só, vivam uma vida triste de abandono afectivo. A ideia de serviços secretos representada por aqueles dois actores é motivo de vergonha para as nossas secretas. A festa da revista, supostamente frequentada pelo jet set, é um carnaval - há casacas, há smokings, há casacos e gravatas. Não percebi, usando uma ideia do Eça, porque não havia ninguém de urso ou de tirolesa.

A ideia de suspensão da incredulidade tem 200 anos: havendo um interesse humano e uma semelhança com a verdade num conto fantástico, o leitor ignoraria a implausibilidade da narrativa. Nem com esta ideia se vai lá. Nada daquilo tem o menor interesse, a menor verosimilhança - personagens ocos, diálogos fracos, história ainda menos. Eu, confesso, não consegui suspender a minha incredulidade, e por isso me mantive espantado do princípio ao fim quando um perigoso bombista da ETa se mantém inalterado e quieto enquanto a ex-namorada e o agente secreto se escapulem na direcção da noite. O mundo não é um lugar seguro.

Nota: não vi o excerto que aqui posto. Não garanto a educação da linguagem...

JdB 

02 setembro 2015

Poemas dos dias que correm

Praia d'El-Rey, Agosto de 2015, 20.00h de uma 6ªf incerta


EIS-ME

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)

01 setembro 2015

Duas Últimas

Através de uma notícia do Observador fui a um site que revela a música que mais tocou na telefonia (a notícia diz "na rádio", mas eu não gostei...) no dia em que nasci. Fui movido pela curiosidade, que por vezes mais não é do que uma ocupação de tempos livres, ou uma disfarce para faltas de concentração. Do que me tocou em sorte gosto sobretudo da coreografia e da alegria da assistência (que me aprecem estudantes num anfiteatro)... 



Mas a notícia vai mais além, e dá-nos a enorme e feliz possibilidade de sabermos que música tocou mais no dia em que fomos concebidos. Não resisti e fui espreitar. Olhem... nem a coreografia se safa - um desinteresse total.


Divirtam-se, que eu não.

JdB

31 agosto 2015

Das saudades de quando éramos pequenos

Praia d'El Rey vista por um iPhone, 6ªfeira, 28 de Maio, pelas 20.00h

No seu ensaio intitulado Meden Agan, Álvaro T Monteiro fala sobre a iminente partida da mãe, dizendo que na morte dela vê a morte de todos os que lhe são mais próximos. Perante uma óbvia tristeza, remata: "são as saudades de quando éramos pequenos." Não há filosofia elaborada nestes dois pensamentos; não há ideias de além, de reencontros, de eternidade; não há dimensão de fé ou da sua inversa. Há, nestas duas frases que refiro / cito, uma humanidade singela, uma fragilidade terrena que só sente quem vê o mundo expandir-se (passe a contradição) até ficar do tamanho da sua infância. Num repente, são as memórias de "quando éramos pequenos" que ocupam todo o espaço de uma tela, o branco de uma página de livro, as quatorze linhas de um soneto, a infinidade de sinapses. Há um instante onde estas memórias absorvem tudo para, no instante seguinte, serem arrebatadas por uma viagem de onde não se regressa a não ser no formato fotografia, filme, roupa pendurada num armário, recibo da farmácia. Ou talvez não só.

O assunto não vem a despropósito: ontem, ao escrever este texto, cruzei-me com um artigo onde o autor mencionava sons - no caso vertente, um galo a cantar de manhã, um cão a ladrar ao fim da tarde. E falava da arqueologia que evidencia uma armadura ou um ânfora, mas que não consegue evidenciar um som. Todos temos esta incapacidade de transmitirmos aos que nos sucedem na vida e nas gerações, por mais próximos que sejam em afecto e / ou sangue, o que são os sons e os cheiros que colamos à frase são as saudades de quando éramos pequenos. Evidenciamos um casaco, um par de sapatos, uma carta antiga, um livro dedicado. Mas como explicamos o som das gaivotas a perseguirem os barcos que regressam da faina? Como descrevemos o cheiro dos eucaliptos outonais ou das compotas ou do peixe-espada grelhado ao estalar do verão? Como explicamos os sons e os cheiros da praia, dos fins de tarde, das noites quentes, das férias grandes, das famílias todas felizes e inteiras e cá?

Penso que o jogo da apanhada atravessa gerações. Há alguém que foge, há alguém que persegue. Ganha quem chegar ao sítio certo e gritar "coito!", porque ali está em segurança, ali ganhou o jogo, ali não é mais perseguido ou agarrado por um fralda de camisa. Os sons e os cheiros de quando éramos pequenos são o coito das apanhadas dos adultos. É aí que nos refugiamos quando um telefonema quebra a largueza do céu que prolonga o mar e instala uma nota desajustada na afinação do dia. Quando a alma se enregela a partir de fora, é aí que buscamos conforto, porque os cheiros e os sons da nossa infância são o agasalho que nos protege. 

São as saudades de quando éramos pequenos...

JdB  

30 agosto 2015

22º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 7,1-8.14-15.21-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
reuniu-se à volta de Jesus
um grupo de fariseus e alguns escribas
que tinham vindo de Jerusalém.
Viram que alguns dos discípulos de Jesus
comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.
– Na verdade, os fariseus e os judeus em geral
não comem sem terem lavado cuidadosamente as mãos,
conforme a tradição dos antigos.
Ao voltarem da praça pública,
não comem sem antes se terem lavado.
E seguem muitos outros costumes
a que se prenderam por tradição,
como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre –.
Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus:
«Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos,
e comem sem lavar as mãos?»
Jesus respondeu-lhes:
«Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas,
como está escrito:
‘Este povo honra-Me com os lábios,
mas o seu coração está longe de Mim.
É vão o culto que Me prestam,
e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’.
Vós deixais de lado o mandamento de Deus,
para vos prenderdes à tradição dos homens».
Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão
e começou a dizer-lhe:
«Ouvi-Me e procurai compreender.
Não há nada fora do homem
que ao entrar nele o possa tornar impuro.
O que sai do homem é que o torna impuro;
porque do interior dos homens é que saem os maus pensamentos:
imoralidades, roubos, assassínios,
adultérios, cobiças, injustiças,
fraudes, devassidão, inveja,
difamação, orgulho, insensatez.
Todos estes vícios saem lá de dentro
e tornam o homem impuro».

29 agosto 2015

Pensamentos impensados

Galináceos
Ouvir as cavaleiras tauromáquicas a cacarejar dá-me um galo...

Quedas
Haverá algo de romântico nas Cataratas do Viagara?

Justiças
O julgamento de Luis XVI e Maria Antonieta foi um série de mentiras.
Ele há cada falso!

Dívidas
Vendeu cara a vida mas morreu pobre. Não lhe pagaram.

Portugal país seguro
Uma borboleta bate as asas em Celorico de Basto e não acontece nada em Cebolais de Baixo.

Progressismo
Foi sempre muito precoce; quando nasceu já tinha dois anos e meio.

Coincidências
Os olhos e os satélites artificiais estão em órbita.

Mudos mudem-se
A maioria dos de putados (e os deputados da maioria) faz lembrar os patos mudos.

SdB (I)

28 agosto 2015

Um poeta, dois poemas

Nome de Rua

Deste-me um nome de rua
Duma rua de Lisboa.
Muito mais nome de rua,
Do que nome de pessoa.
Um desse nomes de rua
Que são nomes de canoa.

Nome de rua quieta, 
Onde à noite ninguém passa,
Onde o ciúme é uma seta,
Onde o amor é uma taça.

Nome de rua secreta,
Onde à noite ninguém passa,
Onde a sombra do poeta,
De repente, nos abraça!

Com um pouco de amargura,
Com muito da Madragoa.
Com a ruga de quem procura, 
E o riso de quem perdoa.

Deste-me um nome de rua,
Duma rua de Lisboa!

David Mourão-Ferreira


***

Paisagem

Desejei-te pinheiro à beira-mar 
para fixar o teu perfil exacto. 

Desejei-te encerrada num retrato 
para poder-te contemplar. 

Desejei que tu fosses sombra e folhas 
no limite sereno dessa praia. 

E desejei: «Que nada me distraia 
dos horizontes que tu olhas!» 

Mas frágil e humano grão de areia 
não me detive à tua sombra esguia. 

(Insatisfeito, um corpo rodopia 
na solidão que te rodeia.) 

David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

27 agosto 2015

"O Fado, canção de vencidos"

O filme Fado, História de uma cantadeira, é acompanhado, do princípio ao fim, por um fado particularmente bonito - o Fado de Cada Um, com música de Frederico de Freitas e letra de Silva Tavares. Por questões da tese de mestrado, já devo ter visto este filme algumas dez vezes. Vejo, revejo, volto atrás, fixo uma frase, apanho uma ideia. Sempre, mas sempre, a voz deslumbrante de Amália, nessa altura com 28 anos.

A letra do fado não é uma letra de fado: é o fado em si ou, talvez melhor, a vida de cada um de nós que acredita no destino, na má sorte, em Deus que decide tudo sobre nós, mesmo sabendo, cada um destes "nós", que nada é assim, que o destino somos nós que o construimos, que nada do que nos acontece está escrito nas estrelas.


Fado é sorte
E do berço até à morte
Ninguém foge por mais forte
Ao destino que Deus dá

Que bom seria, poder um dia, trocar-se o fado
Por outro fado qualquer
Mas a gente já traz o fado marcado
E nenhum mais inclemente
Do que este de ser mulher

Bem pensado
Todos temos nosso fado
E quem nasce mal fadado
Melhor fado não terá

Fado é sorte
E do berço até à morte
Ninguém foge, por mais sorte
Ao destino que Deus dá

JdB


26 agosto 2015

Poemas dos dias que correm

Zimbabwe, Agosto de 2008

Entre a sombra...

Entre a sombra e a noite há um submisso instante
de preparação.
Aberto espaço onde aves não cantam,
imaculado, instantâneo refúgio.
Entre a sombra e a noite, único passo!

— E é serena e frágil a presença
dos nossos vultos passageiros
isolados na própria condição.

Onde nada se move, uma estrela suspensa.

E tão inutilmente despedaço o encanto,
e tão súbita me vem uma tristeza antiga,
que entre a sombra e a noite encontro o meu refúgio
— o intocável, único espaço.


(Maria Alberta Menéres, in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Lacerda Editora, 1999 - RJ, Brasil)

25 agosto 2015

Duas Últimas

Hoje, não sei bem porquê, parece-me bem retomar o tema do jogo. Como já o referi - aqui no estabelecimento ou noutros sítios - ver o que são as pessoas a uma mesa de jogo é um excelente indicador do que elas serão na vida real. Não vou pelo argumento da educação que se vê à mesa da refeição ou à mesa das cartas, mas pela forma como as pessoas jogam, celebram as vitórias, se conformam com as derrotas. 

(entre jogos de cartas de vazas ou de azar, dados, gamão, etc.,  partilhei mesas com muita gente e sempre me enervou mais, mas muito mais, as pessoas que tinham mau ganhar, porque ter mau perder é mais compreensivo, ainda que ligeiramente indesejável... Agora, ganhar e esmagar o adversário de forma arrogante e humilhante parece-me coisa pouco ética.)

Joguei muito King, algumas Copas, alguma Canasta, muito poker de dados vestido de aspirante a oficial miliciano num quartel abrantino. Alguns jogos são feitos para quatro pessoas; se aparecer um quinto, o número de pessoas é gerível; se forem seis é mais complicado, podendo mesmo ser impossível. A bem dizer, teria algum pudor em "infiltrar-me" numa mesa de jogo composta por quatro parceiros muito rotinados. Talvez me suscitasse a preocupação de estar a tornar-me um empecilho, um crava, uma excrescência naquela circularidade perfeita e com rituais próprios. E trazer um sexto? Isso então...

Uma mesa de jogo é uma boa metáfora para a vida. A forma como se joga, o modo como se organiza uma mesa de jogo, a imprudência com que podemos querer invadir uma mesa de jogo já constituída, a resistência necessária para suportar o olhar da mesa já constituída. Mesmo que este texto pareça particularmente críptico - ando falho de inspiração - convém não esquecê-la. A metáfora, digo eu, mesmo que não saiba porque a utilizei...

Deixo-vos com a música de John Williams: uma comovida interpretação do tema d' A Lista de Schindler. A explicação para a comoção parece estar aqui, num dos comentários: This was a real struggle. You celebrate the birthday of your daughter and you know you play one of your last performaces because of your dissease. So unfair. But what a wonderfull way to play your farewell... A música também convida.

JdB


24 agosto 2015

Vai um gin do Peter’s?

No Verão, o país parece desabar para Sul, com a avalanche de gente a caminho das praias e das noites quentes do Algarve. Vá lá não se afundar junto à Via do Infante.

Bem sabemos que há praias lindas por toda a orla atlântica, até ao Minho, mas não o clima cálido, quase africano da costa algarvia. De facto, à parte dos ventos violentos na Ponta de Sagres onde a cor do mar toma o azul forte e solene do Norte, tudo o mais é suave, turquesa e sem nortadas. Por isso, o Norte fica bastante despovoado e disponível para receber os visitantes, que ali têm muito para explorar. 

Primeiro palmarés nortenho: juntando o gozo de percorrer caminhos por entre paisagens de sonho, com sítios simpáticos para comer e dormir, a melhor estrada do mundo soma tudo isso e é portuguesa, segundo o estudo levado a cabo por especialistas estrangeiros para a Avis-rent-a-car. Num universo de milhares de troços candidatos ao prémio, nos quatro cantos do planeta, a Estrada Nacional 222 ganhou confortavelmente, exibindo valores que rasaram a correlação de curvas e retas considerada ideal pelos ditos especialistas. 

Dicas dos condutores experimentados para guiar na N222: «Esta zona é mais
segundas, terceiras, terceiras, segundas, mais travão do que segunda…»

A pequena estrada que liga o Peso da Régua ao Pinhão, serpenteando o curso aos ziguezagues pelas margens do Douro, cumpriu os requisitos da fórmula matemática criada por um trio de sábios para definir um critério de selecção objectivo e quantificável. A tal matriz determina o melhor tempo entre retas e curvas, além de incorporar benefícios extra como a envolvente natural. Assim, a estrada que dará mais gozo guiar deverá ter um rácio de 10:1, o que corresponde a dez segundos a direito para cada segundo a curvar, de modo a proporcionar a aceleração ideal para reta de tamanho certo e depois entrar na curva em U acentuado e relevée correcto. Ora, a N222 tem a proporção mais próxima do desejável, atingindo o 11:1. Facilmente, ganhou o galardão de World Best Driving Road, entre as muitas candidatas, com as medalhas de prata e de bronze a boa distância: a Big Sur na Califórnia chegou aos 8,5:1, e a A535 no Reino Unido ficou-se nos 8,4:1.

O próprio trânsito de camiões a circularem na N222 e a aparecer
ao virar de curvas apertadíssimas, aumenta o frisson da viagem. 

O júri reunia gente batida nestas lides. Assim, incluía um ex-piloto de Fórmula 1, que depois enveredou pela engenharia civil e a arquitectura, sendo o responsável pelo traçado das pistas de F1 dos últimos 20 anos – Hermann Tilke. 

O segundo era o designer de troços radicais, autor de montanhas russas famosas, como as britânicas Nemesis e Oblivion, em Alto Towers– John Wardley. Compreensivelmente, colaborou também nos efeitos especiais de 5 dos filmes do 007. Na sua opinião, uma boa estrada deve suscitar múltiplas sensações, da emoção à intimidação, com um ritmo variado de retas e curvas, proporcionando também uma experiência entusiasmante  e memorável, que divirta. Basta as vistas soberbas após cada ziguezague na N222, entre os socalcos de vinhas e o rio, para tirar o fôlego ao mais desatento. 

Segundo Hadley: «Embora este índice tenha uma base científica, depois das minhas experiências com Hermann e John, tornou-se claro que as emoções e as paisagens
foram factores essenciais. (…) É por isso que acreditamos que a melhor estrada
do mundo para conduzir é em Portugal – a Estrada Nacional 222»

O trio era completado por um físico quântico britânico – Mark Hadley, que esteve no arranque do estudo. Sobre a escolha tão renhidas entre tantos candidatos, explicou «O processo foi bastante exaustivo: em primeiro lugar aplicámos alguns conhecimentos físicos a uma ampla variedade de modelos de estrada. Posteriormente consultámos e envolvemos uma série de especialistas notáveis em diferentes áreas, inclusive Hermann Tilke e John Wardley (do júri), que ajudaram a refinar e testar este índice. Por fim, mapeámos meticulosamente estradas por todo o mundo com estes parâmetros rigorosos, de forma a identificar a melhor estrada para conduzir». 

Património Mundial da Unesco, o Douro continua em crescendo, com as suas quintas a oferecerem provas de vinho de grande qualidade, miradouros estratégicos a pontuar a galardoada Estrada Nacional, pontezinhas antigas, algumas do tempo dos romanos, uma estação de comboios em Pinhão revestida a azulejaria portuguesa, e todo o ambiente nostálgico da paisagem nortenha, que justificam a comoção de Jacinto quando aterrou acidentalmente naquelas paragens, acabado de chegar do chiquismo atordoante de Paris, que se pode tornar entorpecedor e entediante. O segredo de «A Cidade e as Serras» desvenda-se por inteiro naquela estrada ou na canja ainda saborosíssima das tascas perdidas nos contrafortes durienses. É que o Eça conhecia o Norte como a palma das suas mãos. 

Para aguçar ainda mais o apetite sobre os méritos da região e fugir ao caos instalado a Sul, a reflexão do Miguel Esteves Cardoso (de há uns bons anos) é eloquente. Guardiã do berço da nação leva a marca da identidade nacional: 


O NORTE

O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela.

As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram. Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas. Mais verdades.

No Norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal. Mas há uma verdade maior.

É que só o Norte existe. O Sul não existe.

As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.

No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista? (…)
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país.

Não haja enganos. (…) Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa.

Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. (…) sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular. (…)

Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.

Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino. O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos. (…)

Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. (…)

Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.

As mulheres do Norte deveriam mandar neste país.

Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. (…) Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos. O Norte é a nossa verdade.

Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, (…)

Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos (…), defendem o 'Norte' em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente. (…)

Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes (…), com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm de dizer 'Portugal' e 'Portugueses' (…) sem complexos e sem patrioteirismos. (…) Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?»

por Miguel Esteves Cardoso 


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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