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05 fevereiro 2025

O Fado, canção de vencidos

Muito se tem falado da Mouraria - e pelos piores motivos. Mas o bairro popular é mais do que uma questão de segurança ou de imigração desenfreada. É, também, mais do que o destino final de Maria Severa Onofriana. Foi fonte de inspiração para textos ou versos particularmente bonitos, como os que aqui coloco. 

Gabriel de Oliveira assentou praça em 1909 na Marinha de Guerra, tendo concluído o curso de artilheiro. Suzanne Chantal (pseudónimo de Suzanne Yvonne Marie Beaujoin) foi jornalista e romancista, e nasceu em 1909. Não sei se se cruzaram ou não, mas podiam tê-lo feito e ter trocado dois dos mais interessantes textos que se escreveram sobre a Mouraria ou sobre a procissão da Senhora da Saúde. 

Vale a pena ler os versos de Gabriel de Oliveira, a forma como a sextilha a itálico é depois glosada, o primor de algumas expressões, o trocadilho de uma rosa desfolhada que parece que tem virtude. E vale a pena ler o trecho de Suzanne Chantal - 5 linhas sem ponto para que se leia sem parar, porque o ritmo realça a beleza da frase.

JdB

Há festa na Mouraria

Há festa na Mouraria
É dia da procissão
Da Senhora da Saúde
Até a Rosa Maria
Da rua do Capelão
Parece que tem virtude

Naquele bairro fadista
Calaram-se as guitarradas
Não se canta nesse dia
Velha tradição bairrista
Vibram no ar badaladas
    Há festa na Mouraria

Colchas ricas nas janelas
Pétalas soltas no chão
Almas crentes, povo rude
Anda a fé pelas vielas
    É dia da procissão
    Da senhora da saúde

Após um curto rumor
Profundo silêncio pesa
Por sobre o Largo da Guia
Passa a Virgem no andor
Tudo se ajoelha e reza
    Até a Rosa Maria

Como que petrificada
Em fervorosa oração
É tal a sua atitude
Que a rosa já desfolhada
    Da rua do Capelão
    Parece que tem virtude

Versos de Gabriel de Oliveira

***

(...) mesmo as casas fechadas puseram os tapetes nas janelas. Toda a gente se persigna, e a mão do prelado abençoa, no espaço, os bons, os maus, essa multidão de fiéis de Nossa Senhora da Saúde em que se misturam as raparigas, os vadios, os mendigos e o povo da Guia, do Socorro, da Mouraria, que há pouco ainda se reuniam ao crepúsculo para orar em frente duma estátua santa, colocada num nicho, entre uma taberna e um lupanar.

Suzanne Chantal, in A Caravela e os Corvos

19 maio 2022

O Fado, canção de vencidos

Sombra 

Bebi por tuas mãos esta loucura
De não poder viver longe de ti
És a noite, que à noite me procura
És a sombra da casa onde nasci

Deixa ficar comigo a madrugada
Para que a luz do sol me não constranja
Numa taça de sombra estilhaçada
Deita sumo de lua e de laranja

Só os frutos do céu que não existe
Só os frutos da terra que me deste
Hão fazer-te ausência menos triste
Tornar-me a solidão menos agreste

Vou recolher à casa onde nasci
Por teus dedos de sombra edificada
Nunca mais, nunca mais longe de ti
Se comigo ficar a madrugada

David Mourão Ferreira

24 janeiro 2022

O Fado, canção de vencidos

Em cima a versão original, cantada pela Amália. Em baixo uma versão alternativa (talvez se diga 'novas sonoridades') com uns toques muito fortes de Mariachis, que trarei um dia destes.

JdB


15 junho 2021

O Fado, canção de vencidos

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles MEIRELES, C. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.

15 abril 2021

Das rimas pobres

Frank Gelett Burgess (1866 – 1951)  natural de Boston, EUA, foi um artista, crítico de arte, poeta, autor e humorista, conhecido pelos seus versos non-sense, dos quais incluo dois abaixo

The Purple Cow 

I never saw a Purple Cow,
I never hope to see one;
But I can tell you, anyhow,
I'd rather see than be one.


Cinq Ans Apres 

Ah, yes! I wrote the "Purple Cow"-- 
I'm Sorry, now, I Wrote it!
But I can Tell you, Anyhow,
I'll Kill you if you Quote it

Imaginemo-nos incultos, sem qualquer conhecimento da língua inglesa, e que, de olhos fechados, atentássemos apenas na rima. O que ressalta destas quadras singelas? A repetição da última palavra dos segundo e terceiros versos: one / one e it / it. Dir-se-ia uma rima pobre. 

Imaginemo-nos agora sem qualquer conhecimento da língua portuguesa e que, de olhos fechados, atentássemos apenas na rima. No poema Fonte, de Pedro Homem de Mello, acontece o mesmo nas quatro quadras seguidas: a última palavra do primeiro e terceiro verso repetem-se. Já não se diria uma rima pobre.

Fonte

Meu amor diz-me o teu nome
— Nome que desaprendi...
Diz-me apenas o teu nome.
Nada mais quero de ti.
Diz-me apenas se em teus olhos
Minhas lágrimas não vi,
Se era noite nos teus olhos,
Só por que passei por ti!
Depois, calaram-se os versos
— Versos que desaprendi...
E nasceram outros versos
Que me afastaram de ti.
Meu amor, diz-me o teu nome.
Alumia o meu ouvido.
Diz-me apenas o teu nome,
Antes que eu rasgue estes versos,
Como quem rasga um vestido!


Atentemos, por último, no poema de Amália Rodrigues: quatro quintilhas, em que o primeiro e o quinto verso se repetem sempre. Não se dirá uma rima pobre.


Estranha Forma de Vida

Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha a saudade
Foi por vontade de Deus

Que estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vives de forma perdida
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida

Coração independente
Coração que não comando
Vives perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente

Eu não te acompanho mais
Para deixa de bater
Se não sabes onde vais
Porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais

Se não sabes onde vais
Para deixa de bater
Eu não te acompanho mais

Do ponto de vista puramente acústico, o que separa as quadras de Burgess, de Pedro Homem de Mello ou as quintilhas de Amália Rodrigues? Talvez uma coisa muito simples: a quantidade de quadras / quintilhas. Se Burgess se alongasse a falar na Purple Cow, repetindo sempre a última palavra dos segundo e quarto versos, talvez criasse um estilo. Assim, limitou-se a uma coisa sem sentido. Se o meu argumento estiver certo, ainda bem que Amália e Pedro Homem de Mello se atiraram a mais. E ainda bem que tudo isto é um disparate.

JdB   

14 setembro 2020

Duas Últimas

Aparentemente estes fados não têm nada de muito assinalável, apesar da interpretação sempre fantástica de Amália. Achei graça, no entanto, a um pormenor: sendo o fado, até uma certa altura, povoada de letras dos chamados poetas populares, é curioso que a cantadeira (quem quer que seja, e que canta algo na primeira pessoa do singular) trate alguém por "você". Mais curioso ainda é perceber que, do ponto de vista do português, os versos "passei por você há pouco" estão bastante errados, o que é um pormenor curioso, já que Frederico de Brito (conhecido por "Britinho") era um excelente poeta. Talvez houvesse uma necessidade de rimas...

Já o segundo fado, igualmente bonito e bem interpretado é (quase) irrepreensível do ponto de vista do português. Achei curioso, mais uma vez, o tratamento por "você". O mistério desapareceu quando percebi que o autor da música e da letra era Lupicínio Rodrigues, um brasileiro...

JdB  

Passei por você há pouco

Ria como ri um louco

Ria sem saber de quê

Não se ria, não se gabe

Pois você ainda não sabe

Se eu gosto ou não de você

Não se ria, não se gabe

Pois você ainda não sabe

Se eu gosto ou não de você

 

Você diz que eu não o quero

Que não tenho amor sincero

Mas nunca me diz por quê

Eu não sei bem se é amor

Mas vá lá p'ra onde for

Vejo a sombra de você

Eu não sei bem se é amor

Mas vá lá p'ra onde for

Vejo a sombra de você

 

Não lhe peço que me queira

Nem que eu queime a alma inteira

Nada quero que me dê

O que eu sinto é só comigo

Mas deixá-lo, não lho digo

Nem que eu morra por você

O que eu sinto é só comigo

Mas deixá-lo, não lho digo

Nem que eu morra por você


Alfredo Marceneiro / Frederico de Brito


***



Vingança


Eu gostei tanto, tanto quando me contaram

Que a encontraram

Bebendo e chorando na mesa dum bar

E que quando os amigos do peito

Por mim perguntaram

Um soluço cortou sua voz, não a deixou falar;

Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram

Que tive mesmo que fazer esforço

Pra ninguém notar

 

O remorso talvez seja a causa

Do seu desespero

Você deve estar bem consciente

Do que praticou

Vem-me fazer passar essa vergonha

Com um companheiro

E a vergonha é a herança maior

Que meu pai me deixou

 

Mas enquanto houver força em meu peito

Eu não quero mais nada

Só vingança, vingança, vingança

Aos santos clamar

Você há-de rolar como as pedras

Que rolam na estrada

Sem ter nunca um cantinho de seu

Pra poder descansar


Lupicínio Rodrigues / Lupicínio Rodrigues

13 julho 2020

De dois álbuns de Amália

Um dia perguntaram-me qual achava ser o melhor disco de Amália: Busto ou Com que voz (gravado em 1970). Não hesitei, nessa ousadia que é prerrogativa dos ignorantes: Busto, respondi. Nesta 6ªfeira, num programa da RTP1 Em Casa da Amália (penso que é assim que se chama), Pedro Abrunhosa terá dito (espero não me enganar) que o álbum Com que Voz rompia com um estilo de fado - até porque cantava poetas consagrados - dando origem a outro estilo (estou a reproduzir de forma simplista). Se interpretei bem o raciocínio dele, tendo a discordar.

Em 1957 Amália Rodrigues grava o seu primeiro longa-duração: Amália no Olympia. Quase todas as letras são de poetas (populares) da chamada “Idade de Ouro”: Amadeu do Vale, Avelino de Sousa, Linhares Barbosa, José Galhardo, Silva Tavares, entre outros. No alinhamento do disco, Perseguição é a quarta faixa:

Se de mim nada consegues 
Não sei porque me persegues 
Constantemente na rua 
Sabes bem que sou casada 
Que sempre fui dedicada
E que não posso ser tua.



O segundo LP de Amália - Busto - será gravado em 1962. É o início da colaboração com Alain Oulman, que compõe quase todas as músicas, bem como da inclusão de poetas nunca cantados até então: Luís de Macedo, David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Mello.

Da primeira faixa:

Asas fechadas são cansaço ou queda, 
Pedra lançada ou voo que repousa. 
Em meu sorriso a minha entrega 
Que o meu olhar não ousa.



O disco marca o início, também, de uma mudança substantiva no fado: acompanhamento ao piano, incursão por músicas novas não tradicionais, poetas eruditos, discos conceptuais (por contraponto a gravações de temas soltos). Amália no Olympia é, de alguma forma, o fado como Portugal o conhecia nos últimos trinta anos. Busto inaugura um novo tempo, patente também numa nova linguagem poética. E é por isso, por causa destas mudanças em letras e músicas, que eu considero Busto o álbum de rompimento. O Com Que Voz (um disco fantástico, que torna a escolha mais desafiante) só surgiria oito anos depois.

JdB


28 novembro 2019

Duas Últimas

Sem qualquer intuito de classificação de quem é melhor, vale a pena ouvir estes dois fados e compará-los naquilo em que são semelhantes: um (ou algum) acompanhamento ao piano. O primeiro, cantado por Amália e retirado do álbum "Busto" é acompanhado por Alain Oulman; o segundo, do disco "Aqui está-se sossegado", é cantado por Camané e acompanhado por Mário Laginha. O exercício, para quem lhe encontrar algum interesse, é ouvir o piano, mesmo que num caso haja um conjunto de guitarras também e no segundo ele seja o único instrumento.

JdB  





28 agosto 2015

Um poeta, dois poemas

Nome de Rua

Deste-me um nome de rua
Duma rua de Lisboa.
Muito mais nome de rua,
Do que nome de pessoa.
Um desse nomes de rua
Que são nomes de canoa.

Nome de rua quieta, 
Onde à noite ninguém passa,
Onde o ciúme é uma seta,
Onde o amor é uma taça.

Nome de rua secreta,
Onde à noite ninguém passa,
Onde a sombra do poeta,
De repente, nos abraça!

Com um pouco de amargura,
Com muito da Madragoa.
Com a ruga de quem procura, 
E o riso de quem perdoa.

Deste-me um nome de rua,
Duma rua de Lisboa!

David Mourão-Ferreira


***

Paisagem

Desejei-te pinheiro à beira-mar 
para fixar o teu perfil exacto. 

Desejei-te encerrada num retrato 
para poder-te contemplar. 

Desejei que tu fosses sombra e folhas 
no limite sereno dessa praia. 

E desejei: «Que nada me distraia 
dos horizontes que tu olhas!» 

Mas frágil e humano grão de areia 
não me detive à tua sombra esguia. 

(Insatisfeito, um corpo rodopia 
na solidão que te rodeia.) 

David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

27 agosto 2015

"O Fado, canção de vencidos"

O filme Fado, História de uma cantadeira, é acompanhado, do princípio ao fim, por um fado particularmente bonito - o Fado de Cada Um, com música de Frederico de Freitas e letra de Silva Tavares. Por questões da tese de mestrado, já devo ter visto este filme algumas dez vezes. Vejo, revejo, volto atrás, fixo uma frase, apanho uma ideia. Sempre, mas sempre, a voz deslumbrante de Amália, nessa altura com 28 anos.

A letra do fado não é uma letra de fado: é o fado em si ou, talvez melhor, a vida de cada um de nós que acredita no destino, na má sorte, em Deus que decide tudo sobre nós, mesmo sabendo, cada um destes "nós", que nada é assim, que o destino somos nós que o construimos, que nada do que nos acontece está escrito nas estrelas.


Fado é sorte
E do berço até à morte
Ninguém foge por mais forte
Ao destino que Deus dá

Que bom seria, poder um dia, trocar-se o fado
Por outro fado qualquer
Mas a gente já traz o fado marcado
E nenhum mais inclemente
Do que este de ser mulher

Bem pensado
Todos temos nosso fado
E quem nasce mal fadado
Melhor fado não terá

Fado é sorte
E do berço até à morte
Ninguém foge, por mais sorte
Ao destino que Deus dá

JdB


22 abril 2015

Do (sor)riso

De uma entrevista a Umberto Eco

O excerto de entrevista acima foi-me enviado pelo meu querido amigo ATM em resposta a uma quadra que lhe mandei (autoria de Álvaro Duarte Simões), cantada num fado da Amália - Algemas - de que gosto muito. Reza assim:

Desde sempre que conheço
Porque a vida me ensinou
Que o riso é sempre o começo
Do sorriso que findou

A quadra sempre me intrigou até ao momento em que descortinei, para mim, a diferença entre riso e sorriso. Rimos por tudo o que refere Umberto Eco: a timidez, a vergonha, a loucura, a felicidade. Rimos sozinhos ou acompanhados - em frente a uma televisão, do absurdo de alguém que escorrega e cai, do nervoso de uma situação qualquer, de uma frase cómica encontrada por acaso numa revista.

Mas, ao contrário do riso, o sorriso estabelece o comércio entre os seres humanos. O sorriso é o toque físico entre dois seres onde a mão não é uma condição necessária. Rimos da patetice, mas sorrimos para o próximo. Sorrir é estender o calor humano, é tocar o cotovelo da empregada de balcão, é encostar uma mão às costas sofridas de um operário, é abraçar aquele que nos salva a vida, seja um médico ou um padre ou um amigo, porque somos corpo e alma. Mesmo que não o façamos, e tudo se resuma ao sorriso.

Sorrir, como dançar ou amar, requer a existência de um outro. Quando já só rimos é porque algo se acabou. O sorriso, neste caso. Ou talvez o outro.

JdB

13 março 2015

"O Fado, canção de vencidos" *

* título de uma compilação (1936) de oito palestras, de Luis Moita, emitidas na Emissora Nacional.


***

De Linhares Barbosa já abaixo fiz referências biográficas. Talvez possa acrescentar-se que era chamado o “Príncipe dos Poetas Populares”. Quem o cantasse tinha êxito garantido; o letrista, que vendia este “produto” como fonte de subsistência, beneficiava obviamente deste sucesso.
Encontrei uma explicação para a história do anel de cinco pedras, cuja veracidade não afianço. Seriam elas:
a malaquite, que cura as doenças espirituais e é indicada para a desintoxicação e alegria de viver.
a esmeralda, que nos dá a imortalidade e a fé na vida, sendo um símbolo de excelência de uma vida melhor
o rubi, usado para preservar o corpo físico e a saúde mental, inspirando sabedoria espiritual, saúde, conhecimento, tranquilidade e riqueza.
o diamante, símbolo do amor eterno, que representa o poder.
a ametista, que possui um efeito tranquilizador, sendo a pedra da realização dos desejos pessoais.
Pondo as iniciais das cinco pedras de seguida, encontramos um bonito acrónimo: MERDA
Si non é vero é bene trovato...
Deixo-vos com um “mano-a-mano”, entre Amália, que celebrizou este fado, e Teresa Salgueiro, numa versão mais arrojada.
JdB
*** 

Lá porque tens cinco pedras

Lá porque tens cinco pedras
Num anel de estimação
Agora falas comigo
Com cinco pedras na mão!

Enquanto nesses brilhantes
Tens soberba e tens vaidade,
Eu tenho as pedras da rua
P’ra passear à vontade!

Pobre de mim, não sabia
Que o teu olhar sedutor
Não errava a pontaria
Como a pedra do pastor
Mas não passas sorridente
A’lardear satisfeito
Pois hei-de chamar-te à pedra
Pelo mal que me tens feito!


E hás-de ficar convencido
Da afirmação consagrada:
Quem tem telhados de vidro
Não deve andar à pedrada


08 outubro 2013

Duas Últimas

Ontem, por motivos que não vêm ao caso, tive muito pouco tempo para escrever o meu post de hoje. A jornada foi todo preenchida com aulas de manhã (mais de duas horas a falar sobre metáforas na filosofia), almoço de favas e partilha de vida com o meu querido amigo fq, resolução de minudências nos correios onde nos confrontamos com a maior ineficiência, e outras actividades de urgência imprevista. O tempo de escrita foi, por isso, francamente escasso - diria mesmo quase nulo.

Deixo-vos com um fado de que gosto muito e que tenho ouvido na Rádio Amália. Oiçam a letra (nostálgica, como compete) e a música, que não darão o tempo por perdido.

Jdb


13 junho 2013

O passeio de Santo António*


Saíra Santo António do convento
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.

Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando
E nem notou que a tarde esmorecia
Que vinha a noite plácida baixando...

E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo...

O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.

De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia... o coração no peito.

Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém ouviu e disse:
— Ó frei António, o que foi aquilo?...

O santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
— Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada...

Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
— Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
— Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.

— Tu não estás com a cabeça boa...
Um passarinho a cantar assim!...
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
— Se o Menino Jesus pergunta mais, ...
Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou:
― Jesus, São horas...
 E abalaram pró convento.

* Augusto Gil, in Luar de Janeiro





Sermão de Santo António aos Peixes* 

Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!


Suposto, pois, que ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar; que se há-de fazer a este sal e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga, Cristo o disse logo:Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus. «Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil para que seja pisado de todos.» Quem se atrevera a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.

Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E à terra que se não deixa salgar, que se lhe há-de fazer? Este ponto não resolveu Cristo, Senhor nosso, no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português Santo António, que hoje celebramos, e a mais galharda e gloriosa resolução que nenhum santo tomou.

(...)

Pe. António Vieira

19 fevereiro 2013

Duas últimas

Prontos, é isto. No fundo, no fundo, gosto de música triste. 
Já devo ter contado este episódio aqui no estabelecimento. Nos meus passeios no paredão do estoril costumava encontrar uma amiga por quem tenho uma ternura muito grande. Era uma altura em que meu objectivo consistia em arejar o espírito, mais do que enrijar as coxas. Andava por ali, de auriculares postos, a olhar para o mar e para as minhas nostalgias que, como dizia o Balzac (ou seria o Dumas?) são a felicidade de estar triste

- Olá João!
- Olá L...
- O que estás a ouvir?
- Fado.
- Estás triste?

Nem sempre estava, confesso. Mas também devo reconhecer que gosto de música triste. Um dia explicaram-me os motivos fisiológicos que justificam este gosto (não só meu, parece-me). E um dia também me explicaram por que motivos musicais os requiems são mais bonitos do que os te deums. Um pouco como se houvesse uma necessidade estética que é mais forte na lembrança dos mortos do que no agradecimento das graças. Esqueci ambas as explicações, pelo que nada de pseudo-científico tenho a abonar em minha defesa, a não ser uma tendência tristonha que se manifesta no gosto por mar alteroso, manhãs de nevoeiro, dias outonais, paisagens silenciosas.
Deixo-vos com três músicas quiçá menos alegres.
Se querem mesmo saber, não, não estou triste.

JdB




04 dezembro 2012

Duas últimas

Mantenho-me no fado.

Por vários motivos nunca fui grande leitor de poesia. Era um estilo de literatura pouco habitual em minha casa de solteiro, onde adquiri o gosto pela leitura, e assim se manteve durante muito tempo. Hoje leio moderadamente, embora goste de poesia, tendo aprendido muito com aquela que o meu querido amigo gi aqui postou durante larguíssimos meses. Infelizmente, não sei ler, isto é, faz-me falta a atenção ao pormenor, à mensagem, à alegoria; faz-me falta uma certa calma - sou demasiado imediatista, demasiado rápido, demasiado ignorante. Precisava que me ensinassem, mas já não sei se não me falta também uma certa sensibilidade... Para isto contribuiu, também, o fado que vou ouvindo há muitos anos. Na generalidade das letras que foram cantadas no fado há rima, há métrica, há um certo ritmo - tudo parece mais óbvio. Estou certo de que a minha mente se habituou, preguiçosamente, a esta facilidade. 

Hoje esta qualidade é evidente, mas desde o tempo da Amália que se canta poesia bonita. Nem todo o fado falava de toiros, de hortas, de milordas e guizalhadas, de gente entrevadinha, de crianças doentes ou de amores desfeitos. Abstenho-me do lugar-comum de evidenciar o que Amália fez pela poesia nacional...

Junto seguem dois fados (de que gosto muito) com as respectivas letras. É do disco Busto, de Amália, seguramente um dos melhores dela. As letras são de Álvaro Duarte Simões (Algemas) e de Luís de Macedo (Asas Fechadas).  O segundo fado tem a particularidade - muito bonita - de ser também acompanhado ao piano por Alain Oulman, autor da música.  

JdB




Algemas

Escravos errantes da vida

E da angustia de viver

Somos a imagem esbatida

Do que nós quisemos ser.

Corta-se embora a corrente

Que nos prende ao que é vulgar

No final tudo é diferente

Do que queremos alcançar.

Sem saber porque vivemos

No mistério de existir

Nem mesmo ao sorrir esquecemos

A mentira que é sorrir.

Desde sempre que conheço

Porque a vida me ensinou

Que o riso é sempre o começo

Do sorriso que findou.

Prendo o mundo nos meus braços

Quando me abraças nos teus

E por momentos escassos

A terra dá-nos os céus.

A vida fica suspensa

Do nada que a fez nascer

E esse nada recompensa

A tortura de viver.


***



Asas Fechadas

Asas fechadas
São cansaço ou queda
Pedra lançada
Ou vôo que repousa
Em meu sorriso a minha entrega
Que meu olhar não ousa...

Asas fechadas
Dizem dois sentidos
Ambos iguais
Inversos verticais
No teu sorriso só pressinto
Um sofrimento mais...

Asas fechadas
Desce quem subiu
Buscar a terra
É ter falhado o céu
Nos sorrisos indecisos
Outro sonho nasceu...

Asas fechadas
Sonho ou desespero
Ponto final
Ou ascensão sem par
Nestes sorrisos espero
Por não saber chorar...

É prudente o silêncio
De quem só sabe sonhar...

28 maio 2009

Letras dos dias que correm

Tal como se fosse o "quando o telefone toca", do saudoso Matos Maia, dedico este fado e, sobretudo, duas palavras específicas da letra, a quem me escrevia esta semana, dizendo: tenho o céu da boca como uma patanisca acabada de fritar e as vagas de dores quase me levam à insanidade.

JdB

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