quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Vai um gin do Peter’s?

A RIQUEZA DA MADEIRA EM LISBOA (séc.s XV-XVI)

O ano de 2018 é um marco importante da descoberta de Porto Santo por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira. Há 600 anos, aportaram acidentalmente – reza a história – no areal paradisíaco da ilha, provavelmente desviados por ventos fortes, da missão de patrulhar a costa africana, infestada de piratas. No ano seguinte, descobriram a Madeira. 

Estava lançado o grande movimento da globalização de que Portugal fora precursor, apostando na expansão marítima pela exploração intensa das rotas atlânticas. Os grandes feitos sucederam-se em catadupa, de modo que todos os anos há novas efemérides para comemorar.

Deslumbrados com a beleza tropical de Porto Santo, os navegadores convenceram o Infante D.Henrique a povoar a terra virgem, pelo que houve nova expedição, integrada por Bartolomeu Perestrelo. Levaram nos mantimentos cereais e coelhos, de criação fácil. Só não contavam que estes se tornariam numa praga. De facto, tudo se misturou na aventura dos Descobrimentos: entre a surpresa de novas civilizações e espécies desconhecidas, o esforço hercúleo nos mares e em terra, a missionação de povos distantes, ou os episódios anedóticos como o contratempo da multiplicação dos pequenos mamíferos. 

Para inaugurar os festejos da descoberta do arquipélago, o MNAA tem exposta, até 18 de Março, uma mostra significativa do acervo artístico da Madeira, com 86 peças oriundas das melhores oficinas da Flandres, da metrópole e do Oriente. Intitulada «As Ilhas do Ouro Branco. Encomenda Artística na Madeira (séculos XV - XVI)»(1), contém óleos e retábulos, escultura e baixos relevos, ourivesaria e incunábulos preciosos, arte decorativa, marfins, lacas e porcelanas. 



Quem mal conheça a Madeira, ficará surpreendido pela qualidade da exposição, a fazer jus à alcunha por que o arquipélago é conhecido: «jóia do Atlântico». 

Num país com poucos recursos, estranhar-se-á a riqueza da colecção reunida pelos colonos madeirenses, ao longo de dois séculos, a ponto de se lhes referir como a um Estado dentro do Estado ou a experiência do Reino a partir de uma latitude mais africana que europeia. 

O motivo de tal florescimento, a partir da segunda metade do século XV, deveu-se ao comércio do açúcar cultivado nas ilhas – o «ouro branco» – e trocado pelos madeirenses nos portos de Antuérpia e Bruges. Percebe-se quanto a aquisição de arte flamenga (na fase inicial) tem lugar maior no povoamento de um território desabitado. Quando, em 1425, o Infante incumbiu Zarco da colonização oficial do arquipélago, abrira a possibilidade de ser edificada uma nova sociedade. E logo um intercâmbio entre povos e culturas começou a fluir, acrescentando à biodiversidade natural da Madeira, a componente artística. 

Desde cedo, a acumulação de património converteu-se em troféu económico, sinal de status e de refinamento cultural. A par das peças para uso doméstico, proliferaram as doações às igrejas e conventos recém-construídos. Assim se elevavam a patronos dos templos cristãos. Por junto, eram muitos a rivalizar em devoção e exibição de riqueza, entre nobres, capitães donatários do Funchal e de Machico, famílias estrangeiras abastadas (sobretudo de origem italiana; ex: Acciaioli e Lomelino), a burguesia rural enriquecida pelo canavial açucareiro, além do clero (destacando-se a ordem franciscana). Na corte lisboeta, nobres e soberanos foram pródigos em presentear o novo arquipélago. De D.Manuel I vieram 3 dezenas, só chegadas ao destino após a morte do rei. O generoso presente incluía uma cruz processional dourada, especialmente bonita e de dimensões expressivas, em estilo manuelino:   

A proximidade dos visitantes permite perceber o tamanho invulgar desta cruz manuelina, do Museu de Arte Sacra do Funchal.

Quando foi encerrada a feitoria portuguesa da Flandres, a mando de D.João III (15 de Fevereiro de 1549), as encomendas transferiram-se para os ateliers da metrópole, em especial para Lisboa, onde já trabalhavam artistas de outras nacionalidades. À data, a capital era uma cidade cosmopolita e mega hub do circuito comercial dos bens mais exóticos. Por isso, vários madeirenses fizeram fortuna com as preciosidades indianas que desembarcavam à beira Tejo, levando depois para as ilhas: lacas, marfins e porcelanas. Destacou-se o mercador e capitão da viagem a Macau - Tristão Vaz da Veiga - referido pelo cronista Gaspar Frutuoso em «As Saudades da Terra». Outros escritores, como Gomes Eanes de Zurara, encarregaram-se de narrar para a posteridade esses primeiros tempos, onde não faltou o fascínio pela natureza luxuriante no Porto Santo, majestosa e indomável na Madeira.

Nas obras trazidas para o MNAA sobressaem: a Virgem e o Menino (séc. XV); o Retábulo dos Reis Magos originário de Antuérpia (séc. XVI); ou o Tríptico de Nossa Senhora da Misericórdia (1529) ladeada pelos santos Cristóvão, Paulo, Pedro e Sebastião, da autoria do flamengo Jan Provost, postados abaixo para servir de aperitivo: 

Fotogr. de Pedro Clode.

O segundo e terceiro retábulos constaram do gin anterior, postado a 3 de Janeiro.


As peças de ourivesaria dão especial brilho à exposição, colocadas em vitrinas que permitem desfrutá-las em 360º . 


Como sublinha o Director do MNAA, este espólio é invulgar na natureza e na escala, merecendo lugar de honra no Museu que é vitrina mundial do escol da arte portuguesa. A não perder.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)

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(1)   Horário: Ter-Dom 10.00-18.00.  Entrada gratuita aos clientes da CGD que façam prova mediante apresentação de cartão da Caixa.  http://www.museudearteantiga.pt/.  Ciclo de conferências sobre esta mostra: 11 janeiro 2018 | 25 janeiro 2018 | 8 fevereiro 2018 | 1 março 2018. 


2 comentários:

Laurus nobilis disse...

Bom artigo. Vou reencaminhá-lo para uma amiga cujas origens vêm, segundo consta, de lá... A exposição deve, efectivamente, merecer ser vista.

Anónimo disse...

Maria Zarco,
Com a qualidade a que nos habituou, habituou-nos mal. Seria bom ter vagueado pelos anos de «descoberta».
Quase todos sabemos que de Porto Santo se avista a Madeira. E olha quem se abrigou, da tempestade, em Porto Santo. Dois homens chefes da guerra marítima que se travava com os Mouros.
Nisto de marear, nunca andámos de olhos tapados. Senão nunca teríamos tido o Império Marítimo que usufruímos.
Está perdoada. Sobretudo pelo excelente trabalho destes anos.
Que Deus a guarde.
eao

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