terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Dos elogios fúnebres

Índia, Janeiro de 2017


Admito o meu erro e admito que o elogio que agora faço seja extensível a outras nações. Admito ainda  a minha (quase) total ignorância sobre o assunto. Vamos lá, então, passada a introdução curta e inútil. Todo eu sou anglófilo. Não me vou alongar sobre o que aprecio no Império Britânico porque tenho um amigo que se abespinha com o tema. E como ele é visitante do estabelecimento não o quero afugentar. Ser anglófilo não inibe o meu olhar crítico. Gosto de tudo - mesmo das coisas de que gosto menos.

Parece-me que os ingleses têm uma forte tradição no elogio fúnebre. Morre alguém, mesmo gente que não se celebrizou por nada em especial, apenas por cultivar rosas na sua pequena casa no campo e outro alguém, lembrando o seu passamento, lhe redige umas linhas, lembrando quem era e o que fez. É uma tradição bonita, que promove o exercício da memória e que dá aos amigos e familiares sobrevivos um olhar talvez diferente sobre o finado.

Gostaria de ler mais elogios fúnebres. Não porque seja um lado macabro que me assalta, mas porque me interessa ver o que retemos dos outros. O que contamos da senhora idosa que fazia caridade e cultivava rosas na sua pequena aldeia do norte de Inglaterra? Retemos uma história que nos faz rir? Uma fisionomia bonita ou agreste? Um traço de carácter ou uma mania? Um modo de vida em casa? O que fixamos nos outros? O que nos outros é importante para nós? Ler o que dizemos de terceiros diz muito, não só desses terceiros, obviamente, mas também de nós. Porque revela o que valorizamos, o que vemos, o que fixamos: umas mãos, um apetite voraz, uma frase a meio de um jantar, uma intersecção com a nossa vida, um toque com impacto numa existência, uma peculiaridade de feitio. 

JdB

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