AUSCHWITZ NO TEMPO DE NERO
Lembro-me bem da visita ao aterrador Campo de Concentração em Auschwitz, a 70 km da lindíssima cidade polaca de Cracóvia. Enregelei com o frio cortante de janeiro, apesar de estar bem agasalhada e de haver algum sol, ainda que pálido. Os -15º C pioram com a mais leve brisa, doendo até aos ossos. Nem imagino o que seja aguentar aquelas temperaturas negativas nas longas noites da Europa Central, apenas vestida com as célebres fardas de sarja às riscas azuis e brancas.
No horror que aquele espaço evoca, chocou-me o aspecto organizado e harmonioso do casario imenso de Birkenau, ordenado como um magnífico acampamento romano a espraiar-se por uma planície imensa, coberta do branco lustroso da neve fofa. Do lado de fora do muro, erguiam-se cedros de folhagem verdejante, dando solenidade e força àquela paisagem límpida. Que paradoxo aquela beleza tranquila ter sido o cenário de um genocídio monstruoso, felizmente erradicado há 81 anos!
A crueldade da paisagem de Auschwitz, insensível à barbárie sanguinária ali perpetrada, reverbera de forma ampliada nas festas sumptuosas do imperador romano, que instituiu uma perseguição pérfida e incompreensível a um grupo religioso, que nada lhe fizera. Depois de Nero ter ateado fogo à cidade de Roma (segundo reza a história), resolveu passar as culpas do tremendo flagelo para os cristãos, impondo-lhes o pior anátema: a morte da forma mais escabrosa e indigna, sacrificando as vítimas como joguetes de diversão nos espectáculos insanos do Coliseu romano. Ou, pior ainda, usando-os como tochas vivas para iluminar as alamedas dos jardins imperiais! Não há palavras para tamanho horror, mas felizmente ficou a memória histórica desses crimes indecorosos e do escândalo daqueles festins hediondos, manchados de sangue inocente.
A arte tem sido pródiga na denúncia do mal e na revelação da subtileza complexa daquela iniquidade. Além de fazer jus aos factos, relembrando séculos de mortandade gratuita, tem sido incansável a expor o emaranhado paradoxal de um tipo de perfídia estranhamente compatível com uma certa beleza exterior. Coube, precisamente, a um pintor polaco compor a tela intitulada «As Tochas de Nero», também conhecida por «As Velas da Cristandade», referindo-se aos lampiões de carne-e-osso que iluminaram as repugnantes festas de um dos imperadores mais depravados e ferozes da Roma antiga. Nem de propósito, a obra de Henryk Hektor Siemiradzki (1843-1902) está exposta no Museu de Cracóvia, a uns escassos 70 km de Auschwitz…
| «As Tochas de Nero» - pintado por Henryk Hektor Siemiradzki, em 1876/78. © Museu Nacional de Cracóvia |
Para dificultar esta difícil equação onde o belo e a infâmia desumana se autoalimentam, calhou aqueles lampiões inofensivos terem dado a vida por Quem lhes pedia para amarem os inimigos! Volta-se à tela de Siemiradzki e não parece fácil sequer tolerar, quanto mais amar, um anfitrião e uns convidados impiedosos, que aceitam participar em festejos onde inocentes são queimados vivos, à sua frente! O pintor capta com especial acuidade a opulência inebriante dos jardins romanos e o fausto luxuoso da festa de um dos governantes mais poderosos do seu tempo. Em contraponto, o especialista em arte, depois ordenado sacerdote e encarregue da Catedral londrina de Westminter – Pe. Patrick van der Vorst – faz a ponte entre essa mundanidade bela, mas desumana, e a bondade desmesurada (desproporcionada para os padrões humanos) do Mestre dos archotes vivos. No fundo, coloca o dedo na ferida ao convocar a base do amor cristão, que emerge sempre de um acto luminoso de liberdade autêntica, inalcançável para a IA: «when Jesus calls his disciples to love their enemies, he is not speaking primarily about emotions or feelings. He is speaking about an act of the will. Christian love is not sentimental. It means choosing not to hate, refusing to seek revenge, resisting bitterness, and continuing to recognise the dignity of the other person, even when relationships are wounded. To love an enemy does not mean approving of what they have done; it means refusing to allow darkness to have the final word in our own hearts.»
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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