Em 1984 formei-me em Engenharia Mecânica no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). Em 2012, desafiado por uma amiga, inscrevi-me numa pós-graduação intitulada Artes da Escrita (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa). Nesse mesmo ano, impulsionado por um professor, candidatei-me ao Programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo concluído o mestrado em 2015. Em Setembro deste ano, em correndo tudo bem, completarei o doutoramento no mesmo programa, na mesma universidade.
O parágrafo acima tem pouco de vaidade, tem muito - quase tudo de gozo. Em bom rigor, há dois momentos de vaidade: a conclusão de um curso em engenharia que detestei desde o primeiro dia; e a (re)entrada aos 55 anos numa faculdade totalmente desconhecida, para ouvir e discorrer sobre temas que, nalguns casos, me foram particularmente difíceis de seguir. A vaidade está na saída - quase forçada num caso, e totalmente voluntária noutro - da minha zona de conforto. Tudo o resto - e esse resto é muito - é gozo, puro gozo.
Desde 2013 que me sento na mesma aula, quase sempre no mesmo lugar (as obsessões funcionam assim...) a ouvir falar de temas e de autores que, ou conhecia pouco, ou sobre os quais / de quem tinha lido quase nada, ou que desconhecia por completo. As estantes de minha casa encheram-se de livros que nunca leria, de autores que não constavam da minha lista de intenções. A vida é maldosamente irónica: há 40 anos eu tinha uma memória óptima e sabia muito pouco da vida, e talvez fosse incapaz de relacionar estes autores / temas uns com os outros, ou com o meu próprio caminho. Hoje tenho uma experiência de vida diferente e consigo relacionar (quase) tudo; já não tenho é a memória de antes...
Nestes últimos 15 anos fiz bons amigos na Faculdade, todos com idade para serem meus filhos. Conheci muitos outros estudantes com quem tive menos contactos ou proximidade. Todos eles são pessoas muito interessantes, a defenderem teses ou mestrados em temas difíceis, a discorrerem sobre temas que me interessaram. A maioria deles, talvez, terá um futuro interrogado na área que escolheram...
O doutoramento não conclui quase nada, a não ser um capítulo da minha vida que tem 25 anos e que, por isso, merece ser posto no papel. A minha relação com a oncologia pediátrica foi de tal forma humanamente rica que merecia que eu fizesse alguma coisa com isso. O resto não se altera. Em Setembro conto sentar-me na mesma aula, no mesmo lugar, a ouvir professores que já conheço que me apresentarão teorias interessantes sobre livros que não li, de cujos autores li outras coisas ou nada. Vou encher-me de gozo com mais estas descobertas, vou encher-me de frustração com a memória e capacidade de retenção que vão desaparecendo. E vou ver caras conhecidas de pessoas que me tratam com amizade e deferência. Afinal, entre eles e eu há 40 anos de diferença...
JdB
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