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| Palácio Anjos (exposição de pintura de Graça Morais, Agosto de 2026) |
De um post destes dias no LinkedIn sobre o Relatório de Espanto:
(...) Esta prática convida estudantes e investigadores a documentarem o momento exacto em que uma descoberta, uma leitura ou um dado científico os deixou genuinamente maravilhados. É o registo do “clique”, daquele instante em que a complexidade do mundo nos esmaga e nos fascina ao mesmo tempo. (...)
É verdade que o texto refere especificamente estudantes e investigadores; e não quero cair no lugar-comum, relativamente ao primeiro grupo, de que somos todos estudantes até ao final da vida, caso tenhamos vontade, disponibilidade e capacidade para aprender. Pode o pensamento replicar-se para o dia-a-dia de pessoas a chegar aos 70 anos, ou já para lá deles?
Janto com amigos: ela, professora universitária na Faculdade de Ciências; ele, engenheiro, com um percurso de gestor de sucesso, actualmente com um mindset religioso forte. Há outra pessoa ainda, muito pragmática e racional, dada a leituras “técnicas” (a ficção é praticamente inexistente na sua estante de interesses). O que nos espanta? Simplifico posições e argumentos em benefício da dimensão do texto.
Para a professora universitária, o espanto está na leitura de umas placas que pôs a incubar a diferentes temperaturas. O resultado desejado, talvez não esperado, espanta-a; e espanta-se ainda com a regularidade diária do nascer e do pôr do sol. Para o gestor, o espanto está na contemplação da maravilha da criação de Deus. Para a pragmática, o espanto está no facto de, num renque de três casas com piscina, as andorinhas virem em bando fazer voos rasantes na sua. Porque não na dos outros? Para outro amigo — não presente na discussão —, o espanto advém (também ou principalmente) do que vai lendo na voragem de livros que consome.
Não sei se os tempos actuais são férteis para o espanto (positivo ou negativo, já lá vou): a escola ensina-nos a afirmar e a dar respostas certas, não a fazer perguntas interessantes; o discurso público está contaminado de desejos de afirmação de certeza; o comentariado é assertivo, feito por especialistas que não têm dúvidas ou raramente se enganam; o ponto de exclamação está mais na moda do que o ponto de interrogação.
Acontece que o espanto advém de uma certa ideia de desconhecido. Eu não me espanto com o grau de crueza de um ovo imerso cinco minutos em água a ferver. Também não me espanto com o conforto que suscita uma imperial gelada ao estalar de um dia de Verão. Conheço ambas as realidades. Já o espanto com o voo das andorinhas nasce do desconhecimento de todos os comportamentos das andorinhas. Ora, num mundo feito de grande assertividade, de horror à frase “não sei” dita em voz alta, de desejo de exibição de uma certa aura de “pessoa que sabe”, há ainda lugar para o espanto? Seja a olhar para uma placa onde nadam micróbios, seja a olhar para uma frase que, num livro folheado, nos enche de surpresa?
Numa outra dimensão, qual a diferença entre espanto e maravilha? A criação de Deus espanta-nos ou maravilha-nos? A suave rotina das marés, ou a constância do nascer e do pôr do sol, espanta-nos ou maravilha-nos? O espanto é filho do desconhecimento; a maravilha é filha, talvez, da disponibilidade interior para uma certa emoção. O espanto pode ser negativo — o comportamento odioso de certa pessoa espantou-nos, porque não a víamos capaz disso —, mas o maravilhamento é sempre positivo.
E haverá mesmo espanto negativo? Ou a isso chamaríamos desilusão? Talvez não. Talvez o espanto seja sempre uma espécie de suspensão: o momento em que aquilo que julgávamos saber deixa de ser suficiente. E talvez a diferença esteja no que fazemos depois desse instante: podemos afastar-nos, indignar-nos, procurar compreender ou simplesmente ficar a olhar. A maravilha talvez seja o espanto quando escolhemos ficar a olhar.
JdB

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