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| Paço Ducal de Vila Viçosa, Agosto de 2026 |
Na telefonia, uma jornalista informa os ouvintes de que o mercúrio vai subir nos termómetros. Refere-se, obviamente, ao aumento de temperatura previsto para os próximos dias. Acontece que a venda ao público de termómetros de mercúrio está proibida na União Europeia há mais de 10 anos, dada a sua perigosidade caso se partissem. Do ponto de vista factual, a informação está errada. Estou convencido, porém, que a associação mercúrio - termómetro demorará a desaparecer. Resta saber se a jornalista foi levada pela criatividade noticiosa ou vencida pela ignorância. Sei para onde me inclino.
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Dirijo-me à loja do chinês para comprar sabão azul. Pergunto à funcionária (chinesa, obviamente) onde está o artigo. Ela pensa dez segundos e responde: primeira linha, em baixo. Dirijo-me ao primeiro corredor e olho para baixo. Nada de sabão azul. Insisto, e nada. A funcionária acaba por me mostrar umas escadas que conduzem à cave. No primeiro corredor lá estava, sorridente, uma barra de sabão azul. Fui derrotado pela sequência das informações: primeira linha, em baixo só aparentemente é igual a em baixo, primeira linha. A ordem dos factores não é arbitrária, como na soma ou na multiplicação. O primeiro hemistíquio da frase determina a coordenada principal; o segundo hemistíquio determina a coordenada secundária.
Podia ter discutido esta questão com a funcionária, mas o meu mandarim (ou seria cantonês?) está enferrujado.
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No Livro dos Reis (1Reis 3:5-13) Deus aparece a Salomão em sonhos e diz-lhe: Pede! Que posso eu dar-te? A versão que ouvi um dia destes na missa diz que Salomão pede um coração inteligente. A expressão suscita dúvidas em quem ouve a leitura, porque inteligente parece ser um conceito moderno. Uma breve investigação explica que a palavra ‘inteligência’ vem do latim intelligentia, derivada do verbo intelligere (composto por inter + legere, que significa 'escolher', 'discernir' ou 'ler entre'). O termo foi introduzido no vocabulário filosófico ocidental por Cícero, no século I a.C. Não é por aí, portanto.
Para mim, porém, inteligência não é uma qualidade, mas uma característica. Nasce-se inteligente (qualquer que seja a forma de inteligência) mas a qualidade deriva da aplicação dessa inteligência. Um aldrabão pode ser superiormente inteligente, um ditador sanguinário também. Como é que Salomão pede um coração inteligente?
A versão inglesa da Bíblia usa a expressão discerning heart. A minha versão da Bíblia refere um coração cheio de entendimento. Ambas as opções são claramente melhores do que coração inteligente. Aguardo que partilhem comigo a expressão usada por Frederico Lourenço na sua tradução da Bíblia.
JdB

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