28 março 2012

Diário de uma astróloga – [22] – 28 de Março 2012


O zodíaco para além das constelações

Entramos na Primavera no passado dia 20. Estamos também no signo de Carneiro, que marca o início do ciclo astrológico.  Cada signo pode ser entendido como uma metáfora do que acontece na Natureza do hemisfério Norte durante esse mês. Carneiro  ->  Primavera -> despontar da natureza -> inicio.  E foi assim que em tempos imemoriais se começou a estabelecer o simbolismo astrológico.   

A interpretação visual e mitológica trouxe mais uns estratos interpretativos. Planeta vermelho -> Marte -> Deus da Guerra -> Lutar.

Carl Jung considerava que a astrologia representava a totalidade do conhecimento psicológico da antiguidade, uma vez que o conceito de psicologia não existia. Com o desenvolvimento da psicologia analítica e humanista, os modelos astrológicos actualizaram-se e passaram a servir para a compreensão de nós próprios e do mundo que nos rodeia, não com o objectivo de adivinhar o futuro, mas para sermos a melhor expressão do que somos. Aliás, um filósofo americano, Richard Tarnas, afirmou: “ os livros de psicologia do futuro vão olhar para os psicólogos modernos a trabalhar sem a ajuda da astrologia como nós actualmente olhamos para os astrónomos medievais a trabalhar sem telescópio.”

A base de um modelo psicológico de astrologia faz corresponder a cada signo uma necessidade arquetipal, isto é, uma necessidade que todos nós sentimos, independentemente da cultura. São cada vez mais complexas, começando pela primeira, sobrevivência, e terminando com a união e entrega a Deus. O planeta correspondente ao signo simboliza a energia necessária para satisfazer essa necessidade.

     Signo             è       Necessidade               è        Planeta            è       Energia           

Carneiro
Sobrevivência, autonomia, independência, satisfação imediata  
Marte
Ser, afirmar-se, lutar, iniciar, vitalizar
Touro
Segurança, estabilidade, sensualidade
Vénus
Comprar, acumular, garantir segurança, prazer dos 5 sentidos
Gémeos
Comunicação, obter informação e conhecimentos
Mercúrio
Aprender, estudar, transmitir, informar, falar
Caranguejo
Ligação emocional, de pertencer, de tomar conta
Lua
Amar incondicionalmente, proteger e alimentar física e emocialmente, ouvir, precisar (emocional)
Leão
Auto estima, aplauso, aprovação, expressão da criatividade
Sol
Querer (vontade), escolher, criar, divertir-se, flirtar, amor adolescente
Virgem
Ser útil, resolver problemas, competência, eficiência
Mercúrio
Pensar analiticamente, prestar serviço, melhorar
Balança
Relações sociais, relações a dois, harmonia, beleza
Vénus
Amor de casal, socializar, cooperar, considerar os outros, negociar, apreciação estética
Escorpião
Transformação, sexualidade, poder, profundidade, integridade
Plutão
Eliminar, purificar, transformar, controlar, destruir, amor paixão
Sagitário
Ir mais longe, ter fé, convicção, justiça, verdade
Júpiter
Expandir, ensinar, acreditar, exagerar, julgar, pregar
Capricórnio
Sucesso, perfeição, ordem, estrutura
Saturno
Conseguir, gerir, limitar-se, realizar, compensar,
Aquário
Mudança, perspectivas amplas, ser diferente, revolução
Úrano
Libertar, mudar, progredir, perturbar, iluminar mentalmente
Peixes
Transcendência, beatitude, unidade com o divino/ natureza
Neptuno
Amor universal, imaginar, inspirar, dissolver, sacrificar-se, vacilar

A manifestação mais óbvia de cada signo é a descrição do comportamento, em linguagem corrente como. Os planetas, que em linguagem corrente representam o quê, podem aparecer na nossa vida como personagens mitológicas ou pessoas reais. Assim Marte pode representar o guerreiro em nós ou a pessoa que nos agride fisicamente. As descrições adaptam-se aos dois sexos, alternei o feminino e o masculino para ser imparcial, uma vez que tenho Marte em Balança.

Signo   è  Características comportamentais           Planeta            è       Personagem

Carneiro
Directo, impulsivo, agressivo
Marte
Guerreiro, pioneiro, Rambo
Touro
Sensual, materialista, obstinada
Vénus
Agricultora, massagista, Mãe Terra
Gémeos
Curioso, inquieto, versátil
Mercúrio
Aluno, repórter, Peter Pan
Caranguejo
Sensível, vulnerável, afectuosa
Lua
Mãe, cozinheira, patriota
Leão
Criativo, dramático, orgulhoso
Sol
Pai-herói, rei, estrela de cinema
Virgem
Pragmática, meticulosa, honesta
Mercúrio
São Tomás, critica, reparadora
Balança
Sociável, elegante, imparcial
Vénus
Artista, diplomata, cônjuge
Escorpião
Intensa, secreta, erótica
Plutão
Cirurgiã, manipuladora, terrorista
Sagitário
Entusiasta, moralista, optimista
Júpiter
Professor, padre, viajante, guru
Capricórnio
Ambiciosa, formal, pessimista
Saturno
Pai-autoridade,directora, presidente
Aquário
Inovador, original, objectivo
Úrano
Radical, humanitário, excêntrico
Peixes
Delicada, intuitiva, compadecida
Neptuno
Poeta, sonhador vitima, impostor

Assim, uma pessoa com Marte em Touro pode afirmar-se obstinadamente, género cão que não larga o osso, mas com Marte em Gémeos estará mais à vontade a guerrear verbalmente. Uma Mãe com a Lua em Balança estará atenta à elegância da filha, enquanto uma Mãe com a Lua em Caranguejo preocupa-se mais em saber se a filha comeu bem. 

Cada signo/planeta tem um objectivo principal assim como um medo que domina todos os outros. Há também uma gama de emoções, acontecimentos, lugares, objectos que se referem pela sua simbologia a cada combinação signo /planeta. Uma vez compreendida essa dinâmica podemos seleccionar musica, filmes, obras literárias adequadas …. mas ficará para uma próxima vez.
                                          
           
Luiza Azancot

27 março 2012

Duas últimas


Os "Lindisfarne" são um daqueles grupos que surgiram, fizeram um êxito estrondoso e desapareceram com a mesma facilidade. Deixaram três álbuns, produzidos em anos consecutivos, com um número excepcional de "hits". A música que hoje posto é exactamente um desses grandes sucessos e aquele que mais me lembra o grupo. Espero que gostem e que me perdoem a economia de palavras mas os tempos são de mudança e de muitos afazeres.

JdC

26 março 2012

Vai um gin do Peter’s?

A exposição no MNAA(1), com título hispânico para intensificar o sentido denso das imagens vindas de Espanha -- «Cuerpos de Dolor, a imagem do sagrado na escultura espanhola (1500-1750)», esteve em Lisboa até 25 de Março. Apesar de as c. de 30 peças já estarem a ser empacotadas para o regresso a casa, como Valladolid(2) está relativamente perto, vale a pena lembrar a qualidade das obras expostas em Arte Antiga, até porque são uma pequena amostra do acervo  guardado no Museu conhecido pelo Prado da escultura espanhola.
«CUERPOS DE DOLOR» remete para o sofrimento espiritual, com enorme envolvimento e entrega da pessoa, num certo arrebatamento cheio de salero (bem à espanhola), difícil de transpor para a lusofonia. De facto, o termo «dor» carrega uma conotação mais passiva e pode até arrastar alguma tristeza, que se quadra pouco com a galhardia sugerida por «dolor».
Cronologicamente, a exposição começava nos primórdios do Renascimento, ainda com traços goticistas, a incluir peças esculpidas por um discípulo de Michelangelo, e avançava pelo barroco adentro até ao rococó, seguindo-se o classicismo setecentista. Vários dos grandes mestres de Espanha estavam ali representados: Berruguete, Juan de Juni, Pompeo Leoni, Gregorio Fernández, Alonso Cano, Pedro de Mena, Pedro de Sierra ou Salzillo.
A expressividade das esculturas é lapidarmente assinalada por Filipe I, citado na mostra do MNAA. Quando passou a reinar em Portugal, após 1560, fez uma visita ao Jerónimos, onde se deparou com uma série destas imagens. Ficou de tal forma impressionado, que teve o seguinte desabafo, misturando o português e o castelhano (note-se que era filho de mãe portuguesa): «Parece que hablan, só falta falarem». De facto, a veracidade daquelas peças – de um cromatismo pujante – parecem insufladas de vida.  

Uma figura a fazer par com outro soldado igualmente portentoso,
ao estilo de Michelangelo, que integravam um conjunto gigantesco,
de c.15m de altura, onde estas imponentes peças mal seriam visíveis.
Impressionante o rigor escultórico de obras situadas no topo, bem longe da vista. 


Um dos aspectos marcantes da mostra é a complementariedade entre o trabalho de escultura e a minúcia da pintura que cobre cada peça, conferindo-lhes um realismo… que só falta emitirem som. À sua maneira, falam-nos (qual filme mudo) da sua época e de modas antigas mas, sobretudo, das convicções profundas, das crenças e anseios interiores de uma geração remota, cujo frémito espiritual nos chega com uma frescura incrível. Nesse sentido, surpreende-nos a sua aptidão comunicativa, capaz de desvelar os movimentos anímicos de séculos passados. Acabamos por reconhecer ali a humanidade de todos os tempos, apesar das exteriorizações bastante datadas.    
O verdugo pertencente a um conjunto muito vasto de um dos passos da Via Sacra (tinha de ser transportado por 60 homens), mostrado ao povo nas procissões da Semana Santa, evidencia os traços cruéis dos sanguinários (hooligans e afins) de qualquer período da história. As diversidades de guarda-roupa em nada escondem a sua universalidade, enquanto exemplar de uma atitude predadora, infelizmente mais comum do que seria desejável.

A mulher austera que personifica Sant’Ana a segurar o livro por onde Nossa Senhora aprende a ler, denota aquela firmeza conquistada a pulso, típica de personalidades frágeis, angustiadas, medrosas, que tendem a refugiar-se numa certa dureza, por razões defensivas. Alguém observava com humor que esta Sant’Ana seria bem mais a sogra de S.José do que a mãe da Virgem! Para se avaliar melhor este desvio, basta lembrar a Sant’Ana de Leonardo Da Vinci, que é hoje a coqueluche do Louvre após um longo restauro. Essa sim, emana a doçura suave da avó do Bebé de Belém. Na Sant’Ana que visitou Lisboa convém realçar a riqueza invulgar na diferenciação das várias texturas: entre a capa de tecido grosso, a gaze finíssima junto ao rosto da imagem e a pele enrugada de uma senhora de provecta idade:

Sant’Ana da exposição do MNAA


Virgem, o Menino e Sant’Ana com o cordeiro, de Leonardo da Vinci


A imagem do homem de modos serenos e profundos, impressos no rosto de um dos santos do deserto (creio que Sto. Antão, já na parte final do circuito expositivo), é o resultado de uma maturidade forjada no silêncio abnegado e humilde, que deixa marcas indeléveis no ser humano.
A candura heróica e muito nobre do rosto que foi capa da exposição, revela a coragem subtil de quem não se deixou endurecer pelas lágrimas, nem vacilou face às dificuldades que lhe calharam em sorte. Corresponde a uma versão bem interessante da Virgem do Calvário, de uma infinita bondade e grandeza de carácter, sem a mais leve réstia de raiva contra os algozes de Cristo. Vemo-la totalmente imersa na dor do Filho, como que a antever o momento maior que vive na Cruz ao aceitar a épica missão de estender a sua maternidade a todos os homens! De uma generosidade sobre-humana.

Virgem das Dores (detalhe) José de Mora (1642-1724) C. 1671
Madeira policromada (Colecção do conde de Güell), 1985 Museo Nac. Escultura, Valhadolid    

Também alguns dos sinais exteriores, como a roupagem ou os símbolos empunhados pelas figuras, ampliam o impacto de toda aquela dramaticidade em 3D. Um exemplo disso é o manto encarniçado do portentoso Ecce Homo, a redundar num epicentro da entrega de Deus em favor dos homens. Aquele manto de cor flamejante é, simultaneamente, a memória do sangue derramado por nós e do nível sublime da realeza de Jesus, sem paralelo com os reis da terra. Vale a pena perceber que o efeito lustroso do tom se obtém por uma camada de ouro aplicada sobre uma base em vermelhão intenso, ao qual a cobertura dourada é depois parcialmente retirada, deixando vestígios metalizados na tonalidade final.  
Como observava o texto do MNAA: é (foi) uma exposição inquietante, a ultrapassar as fronteiras da estética, que nos revela a humanidade plasmada em obras de arte. Talvez os artistas ali tenham deixado as vibrações mais fundas da sua alma, cunhando as peças com o próprio sagrado que habita cada ser humano. Um dom acessível a quantos se aventuram pelo universo infinito do sagrado! Um arrojo psicológico que se enquadra espantosamente no crescimento a que a Quaresma convida…

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_____________
(1)  Museu Nacional de Arte Antiga | www.facebook.com/mnaa.lisboa. Rua das Janelas Verdes, 1249-017 Lisboa
      Tel: +351 21 3912815   
     « “Cuerpos de Dolor” inscreve-se numa nova dinâmica, à qual pertencem a recente exposição “Confrontos. Bosch e o Seu Círculo” – que possibilitou ao Museu Nacional de Arte Antiga acolher duas importantes obras do Museu Groningen (Bruges, Bélgica) –, a transposição para a National Gallery of Art (Washington, EUA) da mostra “A Invenção da Glória. D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana”, ou a circulação, primeiro para o próprio Museo Nacional de Escultura e, em seguida, para o não menos prestigioso Museo de Bellas Artes de Valencia (2 Novembro de 2011 - 8 Janeiro 2012), da exposição “Primitivos. El Siglo Dorado de la Pintura Portuguesa

(2) O Museu de Valladolid congrega a maior colecção de escultura de Espanha, albergada num conjunto de edifícios com enorme valor histórico: o Palácio de Villena, a Casa del Sol e a Igreja de San Benito el Viejo.
      CONTACTOS: www.museoescultura.mcu.es. Morada:  Calle de las Cadenas de San Gregorio, Valladolid; tel. +34
983 25 03 75. 


25 março 2012

5º Domingo do tempo da Quaresma

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de católico.

Anteontem - mais ou menos óbvio para quem segue as caixas de comentários - soube e conversei sobre a morte de alguém próximo de alguém próximo. Não conhecia a pessoa em questão. Cruzara-me com ela duas vezes, uma num jantar social e outra na brevidade de um aeroporto. A minha opinião formou-se por quem me falava dela com tanta admiração e orgulho: a riqueza despojada (de facto rico não é aquele que tudo tem, mas aquele a quem nada falta), a fé transbordante e alegre, a dedicação a duas entidades que são indissociáveis - Deus e os Homens. Deixou obra feita em África. Mesmo que a frase seja já um lugar-comum estafado, vale a pena relembrá-la: não deu peixes, ajudou a pescar, porque a verdadeira caridade é (também) ajudar a crescer. Da pessoa que morreu na 6ª feira pouco mais sei, mas isto chega para invejar uma vida.

A morte, no seu sentido genérico, tocou, seguramente, o coração de todos os que me vão lendo. A uns de uma forma mais brutal, a outros de uma forma mais mansa. Crente como sou, acredito que quem parte vai para um lugar de uma dimensão superior. É por isso - e porque ouvi muito em casa - que rezo sempre por quem fica. Mas, mesmo para todos os que acreditam na vida eterna, o buraco não deixa de se abrir na nossa alma. Neste caso, porquê ela, porquê agora, porquê uma pessoa que tanta falta fará aqui e ali por onde espalhava sabedoria e amor? Felizmente não nos cabe decidir o desaparecimento das pessoas em função de uma utilidade ou de uma falta, porque isso seria perverter a ideia de que somos todos iguais e todos desempenhamos um papel. 

Deus não está na morte das pessoas que nos fazem falta, mas está no coração de quem sofre. O desafio que Ele nos lança permanece: como transformamos o porquê em para quê? O que faço eu com a morte desta pessoa, notável à sua maneira? O que retenho da sua passagem pela Terra? Como poderei honrar o seu legado a quem com ela privou? Que lições tiro eu da brevidade injusta da vida, deste fio de cabelo que separa uma vida activa de uma morte prematura? O que me sugere Deus que eu faça?

Encontrar coincidências significativas nos acontecimentos pode ser motivo de apaziguamento interno. Talvez esta pessoa, que eu conhecia apenas de ouvir falar, tenha escolhido um momento específico para desaparecer na curva da estrada. Afinal, estamos na Quaresma, e Cristo conta connosco para que a Sua morte tenha sentido. A estas horas talvez haja uma risada generalizada no Céu, promovida por quem chegou recentemente, porque a alegria não é incompatível com o Amor, o riso pode conviver com o sentido da vida, na boa disposição abraça-se também quem precisa.


Bom Domingo para todos. 


JdB 


PS: O Evangelho de hoje é particularmente adequado a esta ideia de morte, de frutos, de despojamento. Mais uma coincidência significativa, sei lá eu...    

 ***   

EVANGELHO – Jo 12,20-33

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
alguns gregos que tinha vindo a Jerusalém
para adorar nos dias da festa,
foram ter com Filipe, de Betsaida da Galileia,
e fizeram-lhe este pedido:
«Senhor, nós queríamos ver Jesus».
Filipe foi dizê-lo a André;
e então André e Filipe foram dizê-lo a Jesus.
Jesus respondeu-lhes:
«Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado.
Em verdade, em verdade vos digo:
Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só;
mas se morrer, dará muito fruto.
Quem ama a sua vida, perdê-la-á,
e quem despreza a sua vida neste mundo
conservá-la-á para a vida eterna.
Se alguém Me quiser servir, que Me siga,
e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo.
E se alguém Me servir, meu Pai o honrará.
Agora a minha alma está perturbada.
E que hei-de dizer? Pai, salva-Me desta hora?
Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora.
Pai, glorifica o teu nome».

24 março 2012

Pensamentos impensados


Frases populares
Se conseguir, não beba.
Quem não bebe não treme.
 
Fitas
Lembro-de, há muitos anos, ter visto um filme brasileiro que relatava a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. Na praia estavam uns índios e, ao longe, no mar, viam-se umas caravelas. A páginas tantas os índios começaram a gritar: fomos descobertos! Fomos descobertos!
 
Grécia
Há tempos citei uma ideia antiga que dizia que os gregos vivem das cabras e as cabras das pedras.
Agora pergunto: de que vivem os gregos actualmente? Possivelmente do dinheiro dos outros.
 
Sem título
O que se segue é de de tal maneira evidente e fácil que, se calhar, já alguém se lembrou. Eu, como nunca vi, publico como meu.
T 4 2 4 me and U
2 4 T 4 U and me
Traduzindo: Tea for two for me and you - Two for tea for you and me.
 
Concurso
Ouvido no concurso O Elo Mais Fraco:
Pergunta; que patente tinha Humberto Delgado quando concorreu a Presidente da República?
Resposta: Ministro das Finanças.
 
Telemóveis
Há tempos, quando me encontrava na rua, quis falar ao telemóvel, mas a bateria estava descarregada. Embora a culpa fosse minha, olhei para o telemóvel com ódio e gritei-lhe: vai para o Diabo que te carregue. Esperei um pouco, mas a bateria continuou descarregada.

SdB (I)

23 março 2012

like a broken umbrella (in memoriam do nosso rapaz)



embalado pela chuva minuciosa de Borges,
pela lacrimejante poesia do José Miguel Silva,
(viva o cosmopolitismo poético, viva!)
pelas bátegas de saudades que caem copiosamente,
podia desatar a escrever poemas,
reacender o rastilho que ensopado
deixei muito lá atrás,
nesse tempo em que ainda.

em tua memória e dos teus conselhos,
não o farei, contudo.
lembro, ademais, toda a minha lógica quebrada
que gritava contra a usura do tempo
e a ferrugem dos nossos dias, enquanto tu
me lembravas uma lição básica da vidinha:
nenhum desespero substitui a dor,
antes amplifica-a, até à exaustão.

era outro tempo, outro século,
esse em que nos aconchegávamos, mui masculinamente
encafuados no carro que calhava, queimando sonhos e cigarros,
sonhando as índias que nunca chegaram.

hoje, solitário cavaleiro andante, perpetuo a tua memória,
sabendo que esperas por mim, nesse algures inominável,
a última cartografia absoluta que resta.
estas palavras, sim, estas palavras, eu sei,

são um cenotáfio ridículo erguido na tua ausência,
à falta de melhor – que seria sempre um acto de amor concreto,
tornado agora impossível nesta geometria terrena.
(a minha poesia morreu contigo, penso não raro.)

e é enredado nestas vielas cheias de amargura
que me lembro do teu sonho de menino de teres
toda a colecção Dois Mundos, da editora Livros do Brasil.

não tínhamos dinheiro,
como hoje não nos temos um ao outro,
mas éramos felizes, a sonhar com livros e namoradas e futuros.

embora não o soubéssemos, era sempre de amor que falávamos,
um amor fraternal e desmedido como já não se usa.
ficámos no museu das coisas extintas, querido amigo,

acompanhados por tanta gente outrora vivente
como estas palavras que, daqui a segundos,
me morrerão nas pontas dos dedos, enquanto

enxugo este meu coração-filho-da-outra
mas pai de tanta coisa que felizmente sai à mãe
- ou a uma luminosa e improvável ideia de mãe.

saudades, pá. saudades.

e este nosso telemóvel brother to brother
agora calado para sempre,
bem por dentro do meu peito.


gi.

22 março 2012

Deixa-me rir...


Caros Audiophiles, yesterday I went to see Sting in concert for the first time. Fantastic performance. There was something quite intimate and revealing about the evening because he played only a few of his best-known hits and concentrated on less familiar songs which he introduced by talking about his experiences and ideas behind writing them.
I have admired his songwriting since his days in The Police when he wrote such brilliant intelligent pop songs as Message in a Bottle, Roxanne, Every Breath You Take and Every Little Thing She Does Is Magic
Since then I have followed his solo career with interest, exploring different music genres and surrounding himself with great musicians from the worlds of jazz, African rhythms, American country, classical, and English baroque music.
He has continued to write great songs: Fields of Gold, Shape of My Heart, Desert Rose, and I Hung My Head which was definitively covered by Johnny Cash.
Here are a few other highlights to enjoy:





A proxima.

PO

21 março 2012

Ponto de Vírgula

Todos os chefs do mundo vos dirão que não serve de nada dar receitas, que o segredo de uma sobremesa excelente reside no talento do cozinheiro, nisso que chamam «boa mão para a cozinha» e que, quando se fala de uma pitada de gengibre ou de baunilha, isto vem a ser o mesmo que um fiozinho ou uma pontinha. Permiti-me que vos conte a verdade: todos os pasteleiros, tal como todos os chefs de cozinha, se reservam sempre um minúsculo mas significativo segredo que marca toda a diferença no resultado, um pequeno embuste ou infâmia que eu agora me proponho a revelar ao mundo.

in Pequenas Infâmias, Carmen Posadas


Tarte de Amêndoa

Para a base:
200g farinha
150g açúcar
125g margarina de girassol (pode cortar um bocadinho)
1 ovo

Para o creme:
150g de amêndoas palitadas ou laminadas
125g margarina de girassol
125g açúcar
4 colheres de sopa de leite

Junta-se o ovo inteiro com o açúcar e mexe-se até formar uma mistura esbranquiçada, junte a farinha. Derreta a margarina e junte. Barre a forma, coloque a massa e pique com um garfo para não crescer. Leva-se ao forno até ficar loirinha.
Num tacho, ao lume, junta-se as amêndoas, a margarina, o açúcar e o leite até formarem um creme homogeneo. Deita-se este creme por cima da massa e vai ao forno novamente.

 MFM

20 março 2012

Duas últimas


Página de um diário

Vi-te hoje de manhã na praia, a cochichar com amigas, a falarem disto e daquilo, de coisas das férias. Talvez a falarem de nós, rapazes desajeitados uns, mais afoitos outros, a suspirarmos nos toldos e nos cigarros escondidos por um minuto de atenção, por uma mão fugidia no rebentamento de uma onda, por um sorriso rápido, mesmo que envergonhado, que nos desse a certeza de um entusiasmo retribuído. Talvez a rirem de nós, miúdos infantis cujos corações batiam a descompasso por uma cara que rodeava as primeiras barracas e assomava para encher de sol o que já estava cheio de sol.

Voltei a ver-te hoje de tarde, em casa de amigos comuns, onde eu dava os primeiros passos a jogar às cartas, a aprender com os outros que oito ou nulos pode ser uma frase demolidora, que as passagens à dama não são sensualidade, mas risco. Lembras-te que te entreguei o meu maço de cigarros e te pedi para o guardares? Eu tinha bolsos e podia escondê-lo dos olhares adultos, mas queria dar-te qualquer coisa, por mais ridícula que fosse, que constituísse um elo único entre nós. E tu guardaste-o entre os dedos cujas unhas lutavam contra o hábito ou contra os nervos, e aceitaste, dizendo claro, porque era uma coisa minha, e só tu a poderias segurar.  

Tive ainda a sorte de te ver hoje, já antes de jantar, no meio do verdade e consequência com que o sol se punha todos os dias. É verdade que gostas do...?  E o meu pulso a bater desalmadamente, sem saber se era medo do teu arrependimento, se era a satisfação de te ver corar por fora aquilo que eu já corara por dentro. E tu a dizeres que sim e a desviarmos ambos a cara, porque não sabíamos ainda como sustentar um olhar de verão que se ambicionava exclusivo. Tu a dizeres sim e a rires nervosa, com um coração que te saltava pela boca e pela camisa abotoada até cima. 

Vi-te por último de noite, no terraço de um prédio sem graça de uma rua qualquer. Éramos muitos, rapazes e raparigas de férias, semi-libertos de uns Pais para os quais perigo ainda não rimava com droga ou álcool mas com aquilo que parecia bem, ou com a insatisfação da resposta à pergunta o menino é filho de quem? Pedi-te para dançar - uns minutos de quase imobilidade, acompanhados por uma música que existia porque tu existias, porque não a dançaria com outra. A tua cara encostada no meu ombro como que a dizer que sim, que confiavas, que iríamos ao cinema no inverno, nos escreveríamos em papel de fantasia partilhando as aulas do liceu, os namoros dos outros, as patetices dos outros, os professores e mais isto e mais aquilo, que criaríamos um mundo nosso que duraria muito tempo, mesmo que não soubéssemos o que era isso de muito tempo.

JdB

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