Não sei se o disse aqui, neste estabelecimento: sempre gostei mais de Tony Bennett do que de Frank Sinatra. Podem dizer que Sinatra era uma das vozes do século e que o Tony Bennett não era. Talvez. Mas revi-me muito em dois parágrafos que encontrei num blogue:
Deixo-vos com a música mais famosa do seu repertório, talvez (I left my heart in San Francisco) e outra de que gosto muito também, de entre tantas outras que fizeram parte da minha vida musical.
Foi por causa de Tony Bennet que conheci K. D. Lang. Musicalmente falando, o grande crooner norte-americano apresentou-me a cantora para uma espécie de one night stand, no decurso da qual a ouvi com gosto mas sem perspectivas de futuro, ao contrário de Tony Bennet, que oiço com gosto, como se o mundo fosse um desejo daquela voz quente, geneticamente italiana, cheia de uma espessura latina que não esmorece.
Não mais ouvi k. d. lang, não mais a procurei, nem sequer através de interposta pessoa. O que ouvi estava ouvido - não me orgulho da falta de vontade para procurar, porque a existência também é feita de preguiças e faltas de curiosidade. Voltei a encontrá-la aqui ontem, não por um acaso do destino, mas porque o espaço é local de visita regular. Já não há Tony Bennet mas, em compensação, há Coimbra, o Mondego, e aquele género de fado que alguém caracterizou, com graça, como nostálgico-impertinente. Cantar o Fado Hilário não é para todos, não sei sequer se deve ser para k. d. lang. Não sei se ela sabe português, se decifra o que canta.
Pode cantar-se o fado não se sabendo o que canta? Tenho dúvidas. E se não pode cantar-se, falamos então de um número circense, como encantar focas ou dar piruetas perigosas.
Há um célebre provérbio (ou frase sábia) que oiço há muito tempo como sendo chinês: quando o bêbedo aponta a lua, o imbecil olha o dedo. Sempre tive os meus momentos de imbecilidade, outras vezes de bêbedo. Talvez só recentemente perceba quando sou um ou outro, porque a idade dá-nos lucidez ou o corpo pede-nos chatice. É por isso que olho para o Brexit (sobre o qual não me pronunciarei por motivos de prudência e desejo de manter amizades) e fixo outras coisas que não os riscos de implosão do Reino Unido ou a irresponsabilidade do primeiro-ministro inglês. Olho para o Brexit e, nos meus momentos de imbecilidade, imagino o indesejável: num dominó improvável todos os países da Europa dos 27 fazem referendos para decidir da permanência na UE. O povo aflui às urnas e todos decidem sair. A UE desfaz-se por via da democracia mais pura, que consiste em dar voz aos cidadãos no que toca a assuntos de superior importância. Queixamo-nos da irresponsabilidade do povo ou dos malefícios da democracia?
Hoje sou um imbecil, olhando para a lua dos bêbedos.
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Era uma vez um cozinheiro que tinha um fetiche por hexágonos: o arroz árabe era servido numa forma com seis lados, a tortilha dos almoços de domingo também, assim como a salada russa que, no estalar do Verão, acompanhava uns filetes de peixe-galo. Tudo o que fosse possível chegava à mesa do comensal na forma hexagonal mais pura. Depois surgiram os problemas: e as trouxas de ovos, essa iguaria que começa com o açúcar em ponto de fio, embora a encharcada (ponto de pérola) não constituísse um problema. E o cheese cake? E o pudim flan (este em ponto de caramelo) arredado da sua forma redonda, tão típica. Mas o cozinheiro era inflexível: hexágono! Para ele, indiferente às estrelas michelin, ao master chef, às classificações do tripadvisor, só o hexágono interessava, tudo se resumia ao hexágono que era uma imagem de marca, uma tradição, uma rotina, uma ideia demolidora cristalizada num hábito arreigado. Eo pudim flan surgia, hexagonal, para tristeza do pasteleiro de serviço, a trouxa de ovos não ia à lista, porque bem se vê...
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Deixo-vos, semi-cripticamente, com a sombra do teu sorriso - algo não validado por referendo e que se serve também de forma hexagonal.
Sou fã de Tony Bennett e já aqui o postei, talvez mais do que uma vez. Quanto a Lady Gaga, sou honesto, não lhe conhecia nada, para além de um género que me parecia vagamente apalhaçado. No outro dia, numa ronda pelos meus blogues, li uma crítica francamente elogiosa à interpretação da senhora. De alguma forma o cronista dizia que, musicalmente falando, a cantora era muito mais do que as figuras que fazia em palco ou a forma como se vestia. Ontem, talvez, vi na televisão o video que aqui ofereço.
Nesta democracia que gosto de praticar no estabelecimento, dou aos meus queridos e estimados visitantes a possibilidade de dizerem mal de Lady Gaga. Quanto ao americano, que nasceu Anthony Dominick Benedetto, haja algum respeito porque se trata de um nome maior, muito cá de casa, como se costumava dizer.
Sejam felizes, e percorram o Advento no lado luminoso da vida.
Há músicas que acordam sensações físicas, quase tácteis. Foi o que Isabel sentiu ao sentar-se ao lado de Luís nessa noite fresca de Junho. Cadeiras gémeas, um computador e uma pequena janela a abrir para o casario e para os barcos num Tejo de breu. Um pequeno apartamento cheio de livros, cd’s e tapetes velhos. Tecto baixo e esconso, paredes com salitre e posters de filmes antigos. Cinzeiros cheios de beatas e um saco do lixo à porta. Luís era DJ e tinha sido convidado para pôr música numa mega festa da sociedade lisboeta. Como para além da música era um entendido em engenhocas e electrónica, tinha pensado em projectar imagens ou vídeos que ilustrassem as canções seleccionadas. A festa era dada por um grupo de amigos que celebravam em conjunto os seus 55 anos, pelo que as escolhas tinham sido maioritariamente revivalistas, ritmadas, alegres, com alguns bons slows pelo meio. A festa teria lugar no Museu da Electricidade pelo que as enormes paredes brancas seriam o cenário perfeito para a projecção de slides e filmes sobre os aniversariantes e dos vídeos escolhidos.
Vem, dissera-lhe Luís, puxando-a alegremente por um braço, deixa-me mostrar-te os vídeos que seleccionei. Sentou-se ao lado dele, encostada a ele. Isabel adorava estes momentos em que as palavras partiam para parte incerta e só a música “falava”. Isabel gostava de ouvir o Luís “falar” através da “sua” música.
E assim se passaram trinta minutos de brincadeira, de risos e de uma cumplicidade construída ao longo de muitos meses. E no trigésimo primeiro minuto, algo aconteceu. Passava o vídeo do Tony Bennett entoando “For once in my life”. Isabel sentiu um arrepio percorre-la aos primeiros acordes da música. E toda a sua atenção se prendeu, instantaneamente, ao movimento da câmara avançando lentamente pela grande sala de espectáculos, aos acordes da orquestra e à voz aveludada do TB. De repente, sem mais nem porquê, sentiu que um imenso véu, setim puro, a envolvia numa súbita onda de frescura e bem-estar. Parecia-lhe que um imenso tecido, sem peso nem substância, mas estranhamente táctil, descera sobre si, envolvendo-a a ela e a mais ninguém. E nesses segundos inexplicáveis, sentiu a confluência da Razão e do Espírito. E percebeu que nada mais seria como dantes.
Isabel apertou a mão do Luís, desviou o olhar para as luzes reflectidas no Tejo e deu graças a Deus.
Nota: pessoalmente não sou grande apreciadora do Stevie Wonder – mas o Tony Bennett tem uma presença e uma voz tão marcantes, que suplanta qualquer eventual acompanhante.