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11 setembro 2012

Músicas dos dias que correm

Que interpretação preferem os leitores do Adeus? Eu prefiro, mil vezes mais, a segunda. Confesso que acho a primeira excessivamente sentimental e mesmo deprimente. Ao invés, a segunda é luminosa, forte, cheia de garra, em perfeita sintonia com o espírito doce e positivo do país irmão. 

Enjoy/desfrutem.

pcp



03 setembro 2012

Músicas dos dias que correm




Sou grande fã da Adele. E deste vídeo muito em particular. Porque tudo nele é profundamente bonito. Do look so 60's da intérprete à sua voz modulada e quente, do maravilhoso cenário do Royal Albert Hall aos vários planos no decurso da homenagem à Amy Winehouse (uma das suas músicas preferidas, como diz Adele), da qualidade do vídeo à descontracção da cantora (tão refrescante, tão total e completamente anti-star), da beleza e sentimento das letras (a primeira de Bonnie Raitt, a segunda de Bob Dylan) à emoção provocada na assistência...  deve ter sido um grande, grande concerto. Gostava imenso de lá ter estado. Espero que gostem. 

pcp

09 janeiro 2012

Modas dos dias que correm...

Karl Lagerfeld e a mítica casa Chanel criaram o casamento perfeito nesta colecção absolutamente arrebatadora que juntou Oriente e Ocidente. 

Olho para esta colecção como olho para o mundo. Não vivemos todos no mesmo espaço, não respiramos todos o mesmo ar? Só temos que criar pontes de ligação, de compreensão, de entre-ajuda. E por isso aqui deixo uma espécie de apelo: tentemos, de uma vez por todas, libertar-nos do nosso eurocentrismo, do nosso umbigo cheio de vaidade com a invenção da democracia, do conhecimento científico, dos direitos humanos, da arte extraordinária que prolifera, de facto, por toda a Europa e deixemo-nos imbuir e inspirar pelo que o Oriente e as outras culturas têm para nos ensinar. 

Tal como na religião, em que as divergências sobre a visão de Deus criam conflitos inaceitáveis, aprendamos, através deste festim para os olhos (mulheres bonitas são"vitaminas para os olhos", nas palavras de um grande amigo) a harmonizar Oriente e Ocidente, aprendendo com a diferença e deixando vaidades, preconceitos, intolerâncias, paternalismos e sobrancerias de lado. Todos diferentes, todos iguais. 

pcp


03 janeiro 2012

Rei de Copas


As 11 coisas que mais me irritam em Lisboa:

1) a quantidade inaceitável de carros estacionados selvaticamente por todo o lado;
2) os buracos nas ruas e nos passeios nas zonas consideradas “nobres”;
3) as obras, públicas e privadas, que não terminam;
4) a falta de “verde”;
5) ter-se deixado que a outra margem do rio se industrializasse (deveria ser uma Buda e Peste ou uma Istambul Oriental e Ocidental);
6) a falta de gente chique nas ruas, gente bem vestida, elegante, cuidada;
7) a falta de gente preta, amarela, exótica, mal vestida, bem vestida, num delicioso caos humano e cosmopolita;
8) os cafés sem gosto nem charme (que são às dezenas): azulejos nas paredes, montras de vidro cheias de bolos, pastéis de bacalhau e “sandes” e uma televisão num canto;
9) ser uma cidade quase impossível para se andar de bicicleta;
10) desleixo generalizado;
11) os lisboetas, nascidos ou não na capital, quase unanimemente acharem que Lisboa é a cidade mais bonita do mundo, a cidade mais extraordinária à face da terra.

PCP

30 junho 2011

Deixa-me rir...

Na ausência do nosso saudoso Philip – que a está hora já terá sido operado de urgência ao apêndice! - ficam uns excertos dum livro de caricaturas muito bem apanhado. Não sei se conhecem o Frederico Lourenço. Eu não o conhecia até o ter lido – por sugestão dum amigo – e nunca o tinha visto até ter sido entrevistado, há dois Domingos atrás, no programa Câmara Clara da Paula Moura Pinheiro. É um homem muito agradável, de voz serena e doce, dos seus 40 e tais, professor universitário em Coimbra e especialista na Grécia Antiga. Entre os vários livros que já publicou, aqui ficam alguns excertos de um intitulado “Caracteres” (Livros Cotovia).

Socorro-me do início do prefácio do livro para explicar a razão de ser deste nome: “Não seria exagero afirmar que, a seguir aos diálogos mais literariamente perfeitos de Platão (Protágoras e Banquete), a grande obra-prima da prosa grega é essa jóia que dá pelo nome de Caracteres. Foi composta no séc IV a.C. por Teofrasto, escritor natural da ilha de Lesbos, que se estabeleceria em Atenas para estudar com Platão e Aristóteles; consiste numa sequência de trinta caricaturas miniaturais em prosa, que delineiam, em poucas palavras, toda uma personalidade com traço certeiro, sarcástico e genialmente lacónico”.

Posto isto passo, passo à transcrição de algumas figuras escolhidas aleatoriamente duma obra com retratos “à portuguesa”, ou seja, retratos de figuras que se podem encontrar um pouco por todo o nosso Portugal. Espero que as reconheçam, não se incomodem com a mordacidade aguda e se riam!

O MONÁRQUICO DE ESQUERDA

O monárquico de esquerda não gosta de touradas e tem logo aí um doloroso problema de identidade. É pouco católico e pertence à Liga Anticinegética. É vegetariano e muito ligado ao mundo do teatro alternativo. Ainda não casou mas já tem dois filhos (Sancho e Duarte) de duas mulheres diferentes; uma, aliás, é uma brasa cabo-verdiana. É opositor de poses instituídas e, talvez por isso, nas últimas presidenciais votou em Manuel Alegre. Aos amigos que lhe perguntavam “então tu, um monárquico, vais votar nas presidenciais?”, respondia “é pá, é o dever cívico, estás a ver?”. À namorada que quis saber como é que ele se tornara monárquico, disse (um tanto acanhado) “é pá, era puto, era Natal; havia bolo rei, estás a ver?”

O PADRE SOCIAL

O padre social não se veste “à padre” e granjeia admiração entre a crítica feminina pelo acentuado bom gosto das suas gravatas (coisa típica, ao que se diz, de jesuíta). Sabe a que senhoras deve dar só um beijinho e sabe falar com grupos de jovens nas paróquias chiques com tal adequação à clientela que muitos dos jovens dão por si a tratá-lo por “tio” (e não por “senhor padre”). É esplêndido no aconselhamento a senhoras de uma certa idade e a fidalguinhas (…). Todos se deslumbram quando ele junta na mesma frase Mozart e Rui Veloso ou quando ostenta infindáveis conhecimentos futebolísticos. Defende as touradas dizendo que “é a única maneira digna de matar o animal” e franze o sobrolho se ouve comentários adversos sobre o General Pinochet. Não vê mal nenhum na associação entre dinheiro e religião, embora se mostre crítico relativamente ao BCP, já que, como jesuíta, não simpatiza com a O.D. Como qualquer pessoa tem os seus segredos. Desde que, bruscamente no Verão passado, teve um sonho em que era capelão militar( ….), fica toda a noite deitado na cama, de olhos abertos, com medo de adormecer.

O LATIFUNDIÁRIO ALENTEJANO

O latifundiário alentejano é simplesmente um português heterossexual que no seu íntimo não vê grande diferença entre uma mulher e uma galinha.

A PINTORA CHIQUE

A pintora chique tem sempre uma alcunha como Cucha, Lucha ou Gucha e vende todos os quadros, logo de uma assentada, na abertura das suas exposições. Nunca andou em Belas Artes, nem teve sequer uma aula de pintura. Um dia, depois de se maçar com o negócio de fazer tartes óptimas (sablées, apetitosíssimas), para vários restaurantes do Estoril, comprou telas, tintas, terebentina, óleo de linhaça … ah pois, também comprou, ao que parece, um jogo de pincéis. Tem um estilo francamente inapto, a que as pessoas finas do meio dela chamam naif. Há umas manchas coloridas nos seus quadros que representam flores; umas coisas rugosas que são conchas; muito, muito azul. “O mar”, exclamam todos. Houve até quem lhe chamasse a “pintora do azul”. Receosa de ficar conotada com temas azuláceos, pinta agora telas com enormes amontoados de coisas castanhas. “É a minha nova fase delabrée”.

Até à vista.

pcp

24 março 2011

Deixa-me rir...

Uma canção que talvez fique para a história da música pop … não porque tenha uma melodia brilhante ou uma letra extraordinária, mas porque é interpretada de uma forma sublime



Espero que gostem tanto dela como eu.

Até à próxima!

PCP

10 março 2011

Deixa-me rir...

Van Morrison. Um dos meus (muitos) artistas preferidos. Adoro a sua voz rouca e expressiva, cheia de blues e decadência. As canções que se seguem são algumas das minhas preferidas. A primeira é particularmente harmoniosa e incrivelmente romântica (“Someone Like you”).



A segunda parece-me um pastiche (no melhor sentido, evidentemente), tanto pelo ritmo como pela nasalidade da voz, de outro dos meus artistas de eleição, que o dono deste estabelecimento abomina (sorry, JdB!): Mick Jagger (“Brown Eyed Girl”).



A terceira descobria-a por acaso e fiquei totalmente fã. Um incrível diálogo de blues, jazz, virtuosismo e improvisação tudo à mistura (“Common One”).



Até dia 24.

PCP

24 fevereiro 2011

Deixa-me rir...



É a propósito do filme My Blueberry Nights (ou o Sabor do Amor), de Wong Kar-Wai, que passou num dos últimos sábados na RTP2, e que eu, por acaso, já tinha visto anteriormente, que apresento a minha artista convidada de hoje: Norah Jones. Filha de Ravi Shankar (indiano, músico e conhecido tocador de sítara) e de uma americana, menina-actriz neste filme e mulher-cantora por mérito próprio há já muitos anos, é uma “baladista” de excepção e uma intérprete premiada com vários Grammys. Presença discreta e serena, voz límpida e expressiva, um repertório de um irrepreensível bom gosto (ainda que talvez vagamente monótono), são dela várias canções que me encantam. Por isso as apresento de seguida. Mas antes disso, aproveito para recomendar que aluguem ou peçam emprestado o filme acima referido. É lindo, melancólico, intimista, triste, lento e poético. Não é um filmaço, mas é um bom filme. Feito de pedaços de vida e de uma banda sonora particularmente bem conseguida. Fica-se “quebrado” depois de se ver este filme. Talvez porque se fique com a sensação que a vida não é como bem a imaginamos, mas como ela É. Graças a Deus que muitas vezes “acaba” bem.



Boa audição. E, já agora, bom filme.



(aproveito para referir que o meu querido amigo e companheiro de quintas-feiras PO faz hoje 50 anos! - e que eu estarei a celebrá-los com ele em Londres) .

PCP

10 fevereiro 2011

Deixa-me rir...



Sempre gostei do meu artista convidado de hoje. O nome talvez não diga muito (digo eu) … mas algumas das suas canções são seguramente conhecidas dos leitores deste blogue. Acho graça à sua voz anasalada, às suas letras satíricas ou, ao revés, muito humanas, à clareza com que as canta, ao seu ar descontraído, à leveza com que toca o piano, ao ritmo e cadência das músicas, às suas influências sulistas claríssimas … sei lá eu porque gosto dele? Gosto. Ponto. E por isso o trago hoje.



Randy Newman nasceu em New Orleans a 28 de Novembro de 1943. A sua grande referência e influência musical foi Ray Charles mas não só (Jerry Butler, pai de Jeff Buckley, já aqui referido, também o foi). Para além de cantor e compositor de música pop de carácter generalista, so to say, tem tido um enorme sucesso enquanto compositor para bandas sonoras de filmes. Uma área muito interessante, pensando bem. Lembro-me, aliás, de ter ouvido o maestro António Vitorino de Almeida, certa noite fria de Agosto, numa espécie de tertúlia/espectáculo no Clube de Moledo, debitar sobre a sua experiência e o seu gosto por compor música para filmes. Que interessante deve ser: olhar para imagens e em vez de nos ocorrerem palavras, lembrarmo-nos de associações de sons…




Randy Newman compõe para filmes (sobretudo) desde os anos 80: Ragtime (pelo qual recebeu um Óscar),Awakenings, The Natural, James and the Giant Peach, Meet the Parents, Meet the Fockers, Seabiscuit, Princess and the Frog e vários filmes da Disney (Toy Story, Toy Story 2, Monsters, Cars) são apenas alguns dos muitos filmes nos quais participou e pelos quais já foi nomeado para o Óscar de melhor banda sonora por 20 vezes! Por junto, ganhou um Óscar, 3 Emmys, 4 Grammys, pertence ao Songwriters Hall of Fame desde 2002 e foi considerado um Disney Legend no ano de 2007. Um curriculum impressionante, revelador duma criatividade, muito aplicada aos filmes, invulgar. Curiosamente, à semelhança de John Barry, artista convidado do PO na semana passada.

Espero que gostem.




pcp

27 janeiro 2011

Deixa-me rir...

A crise está aí. Em Portugal, na Europa, no Mundo (aparentemente não tanto no Médio Oriente, por razões mais ou menos óbvias). É um facto, é uma realidade que toda a gente comenta ad nauseum. Por isso, quando se bate no fundo dos fundos e não há forma de saltarmos para o País das Maravilhas, qual Alice aos trambolhões pelo poço escuro do desânimo, do desalento, da demagogia e do baixar dos braços, há que nos levantarmos por nós próprios, não esperando que ninguém nos venha salvar (nem o Estado, nem a conjuntura, nem Deus, nem o Pai, a Mãe ou o namorado…). Isto tudo a propósito de várias conversas que tenha tido com um amigo meu. Apaixonado por Portugal, pela nossa História, pelos nossos feitos e pela nossa Língua, revolta-se, diariamente, contra a nossa passividade, a nossa ignorância, a nossa falta de auto-estima. É estimulante, muito estimulante, debater ideias com ele. Dentre a catadupa de ideias que jorram, cada 5 segundos, de uma cabeça muito inteligente e altamente criativa, destaco uma que não é demasiado complicada e que pode funcionar como alavanca de vida para jovens à procura de emprego, quarentões desempregados ou, simplesmente, pessoas que procuram ganhar mais algum dinheiro e que se preocupam com o futuro do nosso país. Porque, a componente social, ou melhor, a criação de emprego, e consequentemente de riqueza, está na génese desta ideia…


Portugal não precisa de importar nada. Já temos tudo. Prada’s, Donna Karen’s, Corte Inglés, produtos de todo o género e para todo o tipo de bolsas e gostos. Não precisamos, nem devemos, continuar a trazer para Portugal marcas e produtos que são o último grito, a última moda do que existe lá fora, e que, quer queiramos quer não, acabam sempre por relegar para segundo plano a produção nacional (por causa desta mentalidade bem nossa, bem portuguesa, que o que vem do exterior é que é bom). Neste momento, na minha opinião, e não é só na minha (basta ler alguns jornais estrangeiros), ser austero, viver com pouco, regradamente, é que é cool, é que está a dar. Acabou-se (será?) a era do esbanjamento, do consumismo frenético, do novo-riquismo irracional. Por mim, acho lindamente. A minha experiência prolongada na Índia fez-me entender, e de que maneira, como podemos ser felizes com muito pouco. Lembro-me até de ficar meio zonza quando, pouco depois de regressar, entrava nos nossos supermercados e via marcas e marcas de iogurtes, de bolachas, corredores e corredores de prateleiras cheias de artigos para consumir…. Não sou anti-consumo, atenção. Gosto de comprar roupa, livros e discos, de ir ao teatro, ao cinema e de viajar. Mas tudo tem de ter a sua justa medida. E chegámos a um ponto que deu no que deu. A economia “partiu”, a corda foi esticada demais.


Mas estou a afastar-me do meu pensamento inicial. Criar riqueza tem de ser o nosso futuro. De nós Portugueses, entenda-se, os outros países saberão de si. Temos de pegar em ideias portuguesas, em produtos portugueses e, com a maior confiança em nós próprios e no que criamos, pormos estes produtos no estrangeiro. Dou exemplos. Alguém já pensou em exportar as ameixas de Elvas? Ou as queijadinhas de Sintra? Ou os nossos deliciosos doces regionais? Nunca vi palmiers do género do Careca em nenhum supermercado de Londres, por exemplo.... E o nosso fabuloso azeite? E os bordados nacionais? E as jóias, os móveis ou as roupas que pessoas que conhecemos, particularmente dotadas, fazem? Porque não? Certa vez tentei vender as jóias duma amiga minha ao José António Tenente. E ele ficou interessado em vê-las… e não me conhecia, nem à minha amiga… ou seja, basicamente, the sky is the limit. Cada vez mais acho que as barreiras que nos rodeiam, somos nós que as criamos. E isto aplica-se aos negócios, aos estudos e ao nosso desenvolvimento pessoal. Já pensaram que se podem reunir com presidentes de câmaras municipais e propor-lhes a revitalização de indústrias locais? Já pensaram em pegar nas tapeçarias de Portalegre, uma arte que está, ao que sei, cheia de problemas, e levá-las aos melhores decoradores de Londres ou Nova Iorque? Porque não?


Esta ideia tem uma enorme vantagem: os custos do negócio são mínimos, porque se baseiam na intermediação. Basta ter um bom produto, internet, email e um telefone. Saber inglês, ter boa apresentação e desenvoltura ajudam, evidentemente. Assim como algum dinheiro para se viajar na Easyjet (de 3ª a 4ª feira, de preferência) e visitar as feiras que se realizam em Londres, Paris, Amsterdão ou Florença para vermos o que de melhor se faz no mundo ou, preferencialmente, apresentarmos os nossos produtos, tentando preencher nichos de mercado vazios.


Nada é impossível! E tudo isto se pode fazer devagarinho, claro. Até pode ser conciliável com outros trabalhos. Basta acreditar num produto com o qual nos identifiquemos e conseguir colocá-lo no mercado certo. Como é que isto se faz?? Bom, quem é de marketing e da área comercial, saberá muito melhor do que eu…. mas o bom senso, dois dedos de testa, persistência e o estar preparado para ouvir uma série de nãos ajudam…


E porque de Portugal falamos, aqui deixo dois exemplos da melhor tradição coimbrã, cidade onde nasci e de que guardo maravilhosas recordações.







PCP

13 janeiro 2011

Luís

Luís era o ai-Jesus das meninas na universidade. Já o tinha sido no liceu, no colégio, até na primária… era assim. Habituara-se a isso, a ser um pouco o centro das atenções. Às vezes era cansativo, mas as mais das vezes até que era bom. Fazia bem ao ego … afinal, quem é que não gosta de ser amado e de ser o centro das atenções? pensava com os seus botões. Em parte não tinha “culpa” do sucesso que fazia: era alto, ombros largos, as feições muito correctas, um nariz aquilino, cheio de personalidade, e uns olhos azuis de cair para o lado. Sobretudo a expressão era muito bonita e verdadeira. Era fácil ver-se-lhe a alma reflectida naqueles lagos azul-piscina. Do tímido ao audaz, do profundo ao divertido, do inquieto ao sereno, tudo se lhe via estampado na limpidez dos olhos. E porque era bom de raiz, essa bondade saía-lhe dos olhos, da boca, das mãos, dos poros …. e atraía, irresistivelmente, raparigas e rapazes, velhos e novos, professores e colegas. A educação exímia que recebera também contribuíra para o seu sucesso. Assim como a sua cultura e o à-vontade de falar sobre qualquer assunto. Mas eram os olhos, o jeito muito seu de puxar o cabelo para trás e a sua graça natural, qb arreliadora mas cheia de bondade, que faziam derreter os corações do sexo oposto. Poucas ficavam imunes ao seu charme e por muito poucas ele se sentira verdadeiramente atraído. Aliás, era normalmente por aquelas que lhe “tinham dado com os pés” e que procuravam sobretudo aventura, maluquice, pouca arrumação mental e espiritual que ele se interessava. Mas as pessoas não se inventam, consolava-se ele, quando o desamor lhe batia à porta. Mas custava-lhe. E muito. Custara-lhe sobretudo quando fora recusado pela Lili, aí quando tinha 20 anos. Tinha-a conhecido numa festa de Carnaval e quando a vira pela primeira vez parecera-lhe a rapariga mais gira e cool do mundo: moderna e atrevida, um cabelo preto em turbilhão, mini-saia sobre pernas esculturais, e um sorriso de perder a cabeça. Fora tiro e queda. Até tivera uma tontura, recordava agora. Mas a Lili era rapariga para outros voos, não para um rapaz bom e bem formado, ainda que cheio de charme e predicados. Ainda saíram umas semanas. Ela fora sempre querida, meiga, ouvira as suas histórias com atenção e interesse, fizera perguntas inteligentes… E rira-se frequentemente, mostrando uns dentes e uma boca perfeitos. Ai quando ela se ria … ficava totalmente desorientado! Mas aprendera a controlar esse desgoverno interior e a contorná-lo com mais e mais histórias divertidas. Mas Lili estava noutra: queria correr mundo, achava o ambiente em Portugal sufocante, tinha começado a interessar-se pela cultura dos góticos (sempre vestira muito de preto, gostava de rock pesado e tinha um fraco por ambientes algo marginais) e o Luís, pura e simplesmente, começou a sentir que não a conseguia acompanhar. Não fora programado para tanta paixão, para tanta sofreguidão, para tanta necessidade de liberdade. Por isso um dia arranjou um óptimo emprego num banco, casou uns anos depois com uma apaixonada de sempre, uma rapariga loira e bem-feita, educada para ser mãe e dar jantares. Teve 4 filhos lindos, viajou, comprou uma casa de férias em Arraiolos, jogava golfe aos fins-de-semana e bridge às quintas. Encontrou a estabilidade, gostava muito da mulher e era apaixonado pela luz de Lisboa nos fins de tarde de Verão. Mas a Lili ficou-lhe sempre na alma. Tentava, até, não pensar muito nela, pois ainda lhe era doloroso, passados tantos anos, recordar o seu sorriso e a forma como tantas vezes dançava, alheada do mundo e perdida nos seus pensamentos. Ficara-lhe de consolo a noite em que se tinham despedido definitivamente. Estavam sentados no carro, depois de uma noite de brincadeira e copos, e ela tirou um CD da carteira e entregou-lho. Gravei-o para ti. A pensar nos momentos maravilhosos que passei ao teu lado. Parto amanhã para Londres. Não esperes por mim, não vou voltar. Tirou o CD do invólucro, colocou-o no leitor de CD’s do carro e ligou-o.

Lembrava-se hoje, tão nitidamente como naquela altura, da voz da Carole King e da mão da Lili, suave e forte, agarrada à sua. Nunca mais a vira.




PCP

23 dezembro 2010

Deixa-me rir...

Sempre gostei do Kris Kristofferson. Escritor, actor, cantor e intérprete de vários géneros musicais (folk, rock, country), fui seguindo, ainda que muito esporadicamente, a carreira deste artista relativamente desconhecido do público português. Para além de sempre o ter achado bem giro e de gostar do seu sorriso franco e aberto, lembro-me do seu romance com a Barbara Streisand e de ter sido casado com a Rita Coolidge, uma cantora “do meu tempo” (muito famosa na América, aqui francamente menos). Hoje em dia já não é (nada) novo – nasceu em 36 – mas teve uma vida incrivelmente cheia: desportista nato, 8 filhos, 3 mulheres, uma passagem honrosa pela vida militar, intelectual (tem um degree em Literatura pela Universidade de Oxford), dado às drogas e aos excessos durante largos anos, foi autor de canções de grande sucesso, privou com n artistas do seu tempo, ganhou Emmys e Grammys … enfim, uma vida rica de conteúdos. (e se dúvidas houvesse quanto a isso, reparem na letra da canção abaixo).
Desta vez, procurando músicas alusivas ao Natal, encontrei esta balada country que achei particularmente bonita e comovente. Da sua autoria (1972), foi reinterpretada mais tarde por Johnny Cash, artista de quem o PO já falou há muitos meses atrás.
Ora ouçam:



why me lord?
what have i ever done,
to deserve even one,
of the pleasure i've known,
tell me lord,
what did i ever do,
that was worth lovin' you,
for the kindness you've shown,
lord help me Jesus,
i've wasted it so help me Jesus,
i know what i am,
but now that i know,
that i needed you so help me Jesus,
my souls in your hand,
try me lord,
if you think there's a way,
i can try to repay,
all i've takin' from you,
maybe lord,
i can show someone else,
what i've been through myself,
on my way back to you,
Jesus, my soul's in your hands


À primeira vista, esta canção não tem nada a ver com o Natal. E, no entanto, tem. Tem porque se não fosse o nascimento de Jesus, dessa figura divina e humana que veio ensinar a Paz e dar um sentido mais profundo à existência humana, nem o Kris Kristofferson (nem ninguém) poderia ter escrito uma canção tão doce, tão humilde, tão cheia de gratidão e abandono absoluto (curiosamente, fez-me lembrar os escritos de Santa Teresinha do Menino Jesus!). Não sei, talvez seja meu problema, mas não estou a ver nenhum budista, hindu ou muçulmano a escrever uma canção tão “doce”! E tem a ver com o Natal por uma segunda razão: é que todo o nascimento (e o Natal é O nascimento por excelência) é sinónimo de renovação e de abertura ao futuro. Que, por definição, encerra todas as potencialidades. O futuro é fresco, é puro, é uma tela branca onde podemos pintar o que quisermos. Ainda que as experiências passadas nos tenham tingido e quebrado. O Natal representa a possibilidade de nos renovarmos e de podermos reescrever a nossa vida interior e história pessoal. Talvez não com a alegria espontânea das crianças, com a esperança da juventude, com o entusiasmo dos 20’s, mas com a certeza das conquistas interiores: que o Amor não é uma abstracção e que “my (our) soul's in your hands”.

Um Santo Natal para todos.

pcp

09 dezembro 2010

Deixa-me rir...

Achei este texto tão bonito que não resisto a publicá-lo. Não é da minha autoria - I wish! - mas isso não constitui um problema num blogue aberto e eclético como este. Por isso leiam, se quiserem, e deixem-se embalar pela Sonata de Outono do Padre Tolentino de Mendonça e pela extraordinária Dinah Washington.

Sonata de Outono
E o Outono vai-se instalando. A princípio nem parece uma estação. É quase um estado de alma, este tempo assim um pouco vago, em declive delicado, com a chuva ainda rala (mesmo se em alguns dias chega por aí aos tropeções) e o vento que parece um miúdo a aprender a assobiar. Olhamos com íntima estranheza para a brevidade destes primeiros dias, dos quais já não nos lembrávamos. Nas árvores, as folhas tremeluzem, indecisas e iluminadas, transmutadas em incríveis tonalidades. Os frutos têm perfume e sabores densos, tão diferentes daqueles que se saboreiam no verão.
Lembro-me de um poema de Miguel Torga, que gosto de pôr a tocar como uma pequena sonata de Outono:

O que é bonito neste mundo e anima / é ver que na vindima / de cada sonho / fica a cepa a sonhar outra aventura... / E que a doçura que se não prova / se transfigura / numa doçura / muito mais pura / e muito mais nova

Neste arranque de Outono, deixo-me demorar nas palavras: "a doçura que se não prova". Tendo o privilégio de acompanhar a vida de muitas pessoas, sei que esta não é uma questão que se possa iludir. Há um momento na nossa vida, ou há momentos nela, em que fazendo um balanço, sentimos que ficámos aquém dos nossos próprios sonhos. Há dias e estações da nossa vida em que nos sentimos mendigos de nós mesmos. Esperávamos isto e aquilo que não aconteceu.

Desejávamos uma plenitude, uma fulgurância, um clarão e o que temos é uma estreita e baça normalidade. Sentimo-nos, sem saber bem como, a viver sob tectos baixos. Há uma espécie de doçura prometida que nos escapa, que fica adiada, que começamos talvez a julgar que já não será para nós, tão inacessível nos assoma. Por vezes, este sentimento vem aos 70 ou aos 40 anos. Mas também surge aos 20 ou aos 30. Recordo aquela frase terrivelmente verdadeira de um romance autobiográfico de Marguerite Duras: «Muito cedo na minha vida foi tarde de mais». Esta difusa melancolia, este sentir que a luz que interiormente nos alumia se tornou fosca e sem alcance são experiências muito alargadas. Por isso se diz que não dependem propriamente da idade os Outonos interiores que atravessamos.

Existem é modos diferentes de encarar essa experiência, que, no fundo, nos é tão intrínseca e comum. Podemos desistir simplesmente de esperar, e largamos a vida no parque de estacionamento do pragmatismo mais raso. Podemos trocar a doçura que não conseguimos, por um tipo de acidez quotidiana, uma desconfiança sistemática a que nada nem ninguém escapam, e que se vai espalhando, entre a ironia e o desalento, contaminando tudo. Ou podemos, e esse é o olhar mais necessário, perceber que «a doçura que se não prova/se transfigura numa doçura/muito mais pura/e muito mais nova».

O Outono não é, portanto, o fim da história. Se o soubermos agarrar, é sim um ponto de partida avançado, que nos permite essa coisa urgente que é a "transfiguração" da vida, através de um paciente e esperançoso trabalho interior.



PCP

25 novembro 2010

Deixa-me rir...

O mundo está a mudar. Talvez mais rapidamente do que imaginamos ou queremos. Há uma nova ordem que está a emergir, sinto-o, pressinto-o. E mesmo que Portugal ainda se mantenha neste status quo intolerável por mais uns anos, o mundo, por junto, está em convulsão. Novos valores, uma nova forma de estar e uma nova consciência colectiva estão a irromper por entre as nossas mentes entorpecidas pelo dinheiro, pela ambição, pelo lucro e luxo desproporcionados, pelo esmagamento dos mais fracos e desprotegidos. Agora, diz-me quem me conhece… Quem és tu para falar sobre política, economia, sociedade ou o que quer que seja? Raramente lês os jornais! E quando o fazes, é sobretudo a secção da Cultura. É bem verdade! Mas quando os leio, ou quando vejo certos programas na televisão, apercebo-me de que há algo de diferente no ar: doações milionárias a serem feitas por bilionários; um número incontável de ONG’s dedicadas aos sectores mais frágeis da sociedade (nem tanto cá, mas às toneladas espalhadas pelo mundo); particulares, alguns meus conhecidos, que se dedicam a fazer o bem de uma forma militante; jovens para quem o sucesso profissional não faz grande sentido e com vontade de ajudar o mundo; artistas que adoptam crianças (mesmo que seja uma moda, vale a pena); vigílias de oração pelas mais variadas causas; a multiplicação dos debates de ideias, muitos transmitidos pela televisão, que, quanto mais não seja, servem para fazer-nos reflectir e sair do nosso umbigo; peditórios em prol de tudo e mais alguma coisa; intelectuais a manifestarem-se contra a situação vigente; gente endurecida e desencantada a converter-se (e outros tantos a afastarem-se, é verdade); programas na televisão a ensinarem a sermos poupados e ecológicos; greves que, em muitos casos, têm justa causa (pessoalmente, não fora a situação tremendamente débil da economia portuguesa, acho que devíamos fazer greve até derrubar este governo – e depois convidar um gentleman, com pulso e espírito de serviço, para nos liderar); organizações para a defesa do meio ambiente e das espécies em vias de extinção ou ameaçadas…
É claro que podem argumentar que as economias emergentes ainda vão provocar muitos danos neste nosso mundo já tão maltratado. Pois vão. E que esta tomada de consciência está sobretudo a acontecer nas economias há muito desafogadas, que se aperceberam dos seus erros e onde a massa crítica é maior. É verdade. Mas cada coisa a seu tempo. Os timings divinos não são os nossos. O mundo, em meu entender, é uma espécie de gigantesco puzzle com apenas algumas partes preenchidas. Há uns bocadinhos de céu, há uns cantos já feitos, umas árvores que encaixam …. mas imensos espaços em aberto. É preciso “elevarmo-nos” enquanto seres humanos para conseguirmos preencher as partes que faltam. No fim dos tempos, o puzzle estará preenchido … digo eu ….
O importante é não se ser passivo, é não se ser indiferente, como bem diz o Papa Bento XVI. Porque o Bem não vem de fora para dentro, antes brota do coração e ilumina a realidade. Se cada um de nós fizer o seu papel individualmente, não tenho uma dúvida que o "efeito dominó" será poderosíssimo. Mas tudo isto na maior simplicidade, sem apostolados irritantes e impositivos. Tudo pelo exemplo, pela serenidade, pela tolerância, pelo diálogo firme e convicto.
Chamem-me lírica ou o que quiserem. Acredito intrinsecamente nisto tudo. Não vale a pena intelectualizar a simplicidade. Isso acaba por ser uma fuga, um não saber, ou não querer, lidar com a realidade. Um acto de vaidade, em última análise. Acredito que é pelo Amor que vamos lá. E o Amor não é uma entidade abstracta, fora de nós, que de vez em quando nos envolve no seu abraço doce e nos faz sentir muito felizes e contentes. O Amor é também uma batalha. Contra os nossos lados “lunares” e contra os aspectos mais sombrios da sociedade.
Cito, uma vez mais, Santo Agostinho: Ama e faz o que quiseres (já o devo ter citado aí umas 3 vezes desde que escrevo para este blogue!).
E agora a música. Talvez A música, A MINHA música.



pcp

11 novembro 2010

Deixa-me rir...

A propósito da grande novidade introduzida este ano na programação da nova temporada Gulbenkian, resolvi escolher esta aria do L’Elisir d’Amore, do Donizetti. A propósito da novidade e porque adoro ópera, bem entendido.

Excessiva, exagerada, dramática, elitista e, claro, extremamente cara, a ópera é, para mim, o apogeu, tantas vezes sublime, do extraordinário casamento das artes musicais, do teatro e da cenografia, enquadradas por um virtuosismo vocal, às vezes quase surreal, que não deixa indiferente quem as presencia e ouve.

Talvez por isso mesmo, e à semelhança de outros países europeus, a Gulbenkian resolveu incluir algumas óperas na sua programação para o ano 2010/2011. Este ano é possível assistir, no Grande Auditório da Av. de Berna, à transmissão em directo, a partir do Metropolitan de Nova Iorque, de um conjunto de óperas que começam já no próximo sábado com o Dom Pasquale do Donizetti, passando pela Traviata do Verdi em Abril do próximo ano, com algum Wagner, e outros, à mistura.

Os bilhetes são baratíssimos e a ideia excelente. Assistir numa mega tela - ou seja, "quase lá" - à chegada das pessoas, ao frenesim que antecipa os grandes eventos, o presenciar o afinamento dos instrumentos musicais, o movimento da câmara e os grandes planos da sala de espectáculos e de senhoras e senhores impecavelmente vestidos ou, antes pelo contrário, de jovens totalmente baldas mas profundamente apaixonados por uma arte que não é do seu tempo, é, a meu ver, algo de verdadeiramente estimulante.

E é também o sentirmo-nos enquadrados por um ambiente cosmopolita, de verdadeiro luxo intelectual e artístico, numa ilusória sensação de pertença a um mundo ao qual só temos acesso quando viajamos. Lamentavelmente (ou não), estamos longe, muito longe, deste nível de cultura, desta oferta do que há de melhor no mundo a nível artístico. Para mim, que gosto de cultura, isto é mais ou menos heaven. Mas don’t take me wrong! Não quero com isso dizer mal do meu país, tão fustigado pela comunicação social nos últimos tempos, tão maltratado pelos nossos governantes e tantas vezes por nós próprios. Basta ler os jornais, revistas, assistir a determinados programas na RTP2 ou ler a Time Out Lisboa e Porto, para nos apercebermos que o panorama das artes e da cultura em Portugal está cada vez melhor. E que os prémios se vão acumulando. E que a nossa visibilidade lá fora é cada vez maior. E que os nossos criadores se têm desdobrado em obra feita, alimentados por referências nacionais e influências estrangeiras, agora que vivemos num mundo cada vez mais global. Por isso não me interpretem mal! Adoro o meu país – então da nossa arquitectura nem se fala (a minha preferida de todas as que conheço) -, o Rui Veloso, o Rodrigo Leão, os fadistas de outros tempos (talvez à excepção da Kátia Guerreiro), a nossa língua, os nossos Miguel Torga, Eça de Queiroz ou Fernando Pessoa, a nossa poesia (nomeadamente a do gi!), as nossas livrarias antigas, a moda do José António Tenente, o programa Bombordo, a efervescência do Chiado, a beleza da Ribeira, as noites nos Clérigos, as árvores do Porto, o romantismo de Sintra, a luz de Portugal (ouro no Sul, prateado no Centro, verde e fria no Norte), o vento atlântico, a nossa magnanimidade, o facto de termos coroado Nossa Senhora como Rainha de Portugal, enfim… não parava de dizer bem do nosso país. Por isso, termino já, já. Espero que gostem da minha escolha desta semana.



PCP

28 outubro 2010

Deixa-me rir...

Estava tudo feito. Em cima da secretária branca, os papéis, as canetas, os clips, o agrafador, as prateleiras da correspondência registavam uma ordem completa. O relógio marcava 2:30 e já não havia mais nada para fazer. Isabel olhava para o relógio, para o écran mudo e azul do computador, para o telefone cor-de-burro-quando-foge, para a janela com vista para o jardim e amaldiçoava as horas que tinha pela frente. Não é fácil, pensava, estar sentada horas a fio fazendo nada, produzindo nada, dia após dia. O cérebro definha, a criatividade emperra, a energia estagna com esta falta de actividade!, pensava com os seus botões. Não admira o meu estado de cansaço quando daqui saio! Se a minha energia não flui…! Não raras vezes tinha pensado em deitar-se no chão e dormir uma boa soneca. Estava sozinha, porque não? Mas e se aparecia alguém de repente? Era melhor manter as aparências e parecer minimamente ocupada. Mas era duro. Sobretudo porque Isabel, não o parecendo, era dona duma intensa energia: pela calada, quase sem dar nas vistas, virava tudo do avesso, corrigia e resolvia os problemas seus e dos outros, avaliava, deitava fora, arrumava, organizava … e depois pronto! Ficava tudo feito! Acontecia-lhe sempre a mesma coisa. Era contratada pelas suas qualidades organizativas e depois de tudo organizado, o resultado era sempre o mesmo: o bom, velho tédio. Tinha pena que não compreendessem melhor o seu potencial, que não se apercebessem que podia dar muito mais à empresa. Mas como era muito tímida, feiota e algo brusca, era natural que não a quisessem pôr na linha da frente. Em contacto com os clientes, por exemplo. Para além disso, o seu breve e tórrido romance com o director financeiro tinham-na colocado nas bocas do mundo (ou melhor, da empresa) e em consequência disso tinha-se fechado sobre si própria, passando a ser crescentemente cautelosa e desconfiada. Dava-se vagamente com a recepcionista, uma mulher de 40 anos bem redondos e alegres que não primava pela inteligência. Porque Isabel era uma snob, uma snob intelectual. Para além de devoradora de livros (tinha uma preferência nítida pelos escritores russos), era sócia da Cinemateca e não lhe escapava um bom concerto na Gulbenkian. Em casa só ouvia música clássica e jazz. Os seus dois ou três amigos vinham ainda do tempo da faculdade. Tirara filosofia com notas altíssimas. Tinha sido a estrela do curso. Mas a sua aparência e falta de jeito em sociedade não lhe tinham granjeado grandes amigos nem simpatias pela vida fora. Muito menos facilidade em arranjar trabalho. Tivera de se virar para o que lhe aparecera: ser o braço direito de directores e administradores. E descobrira que para além de pensar, tinha muito jeito para simplificar, para tornar fácil o que os outros achavam difícil ou chato. Tornara-se, mais uma vez, uma estrela no que fazia. Uma estrela prática, não uma estrela teórica, intelectual, como gostaria, mas, mesmo assim, uma estrela. Com o passar dos anos e o aborrecimento causado pela repetição de tarefas, estava a ser-lhe crescentemente penoso o trabalho rotineiro, o lidar com a mediocridade e as chefias empertigadas. Sentia-se presa numa vida que não queria viver. Estava presa numa cápsula protegida, dourada, confortável, mas que pouco lhe dizia. Tirando o poder pagar-lhe as contas e a assinatura anual na Gulbenkian. Ultimamente entrara numa fase introspectiva e reavaliava-se continuamente. Mas continuava presa. Dentro e fora de si. Como se sai de dentro de nós, pensava Isabel, pela enésima vez? E desta vez, sem o esperar, olhando para o jardim de castanheiros centenários e vendo uma rapariga abraçar pelos ombros uma velhinha dobrada, depositando-lhe beijos repenicados na bochecha vincada pelos anos, Isabel acordou de um torpor prolongado. Apercebeu-se, numa fracção de segundos, numa espécie de intuição metafísica, de algo que lhe tinha vindo a escapar com os anos. Racional, intelectual, habituada a dar e a receber pouco amor, porque as suas escolhas de vida assim o tinham determinado, Isabel tinha-se alheado do âmago de si própria. Do seu coração. Do centro e fonte de todo o Bem. Como diziam os Gregos, Santo Agostinho e por aí fora, que tinha estudado há já muitos anos. Mas nessa altura tudo era diferente e esses conceitos não passavam disso mesmo, de conceitos para serem escrevinhados num teste qualquer ou em trabalhos de grupo. Mas agora, ao ver aquela ternura a derramar-se tão espontânea e verdadeira, Isabel comoveu-se. Comoveu-se até às lágrimas. E, num reflexo de auto-protecção, dobrou-se sobre si própria, qual caracol protegendo-se duma mão que o toca. Colou a testa aos joelhos e chorou, chorou desconsoladamente. Sentia que a sua alma era um tecido de fibras elásticas que estica, estica, estica, mas resiste, resiste, resiste. Ficou assim, imóvel, cabeça para baixo, durante muito tempo (dando graças a Deus, no meio do seu tumulto interior, por o escritório estar tão sossegado!). Passada a tempestade, Isabel soergueu-se. De olhos ainda piscos, limpou a cara esborratada de lágrimas e rimel castanho. E jurou, jurou para si própria, que os dias, anos que tinha pela frente, iriam ser diferentes.




Some say love it is a river
that drowns the tender reed
Some say love it is a razor
that leaves your soul to bleed
Some say love it is a hunger
an endless aching need
I say love it is a flower
and you it's only seed
It's the heart afraid of breaking
that never learns to dance
It's the dream afraid of waking that never takes the chance
It's the one who won't be taken
who cannot seem to give
and the soul afraid of dying that never learns to live
When the night has been too lonely
and the road has been too long
and you think that love is only
for the lucky and the strong
Just remember in the winter far beneath the bitter snows
lies the seed

PCP

14 outubro 2010

Deixa-me rir...

Hoje inspirei-me, sem qualquer vergonha, no excelente Moleskine do dono deste estabelecimento (não se importa, não, JdB?). Só desta vez … Só que em vez de fazer humor ou observações pertinentes (tantas vezes comoventes) sobre a realidade circundante, vou ser light e pairar antes sobre temas mundanos e leves. Ei-los:

a) Conhecem o melhor restaurante do mundo? Não, já não é o El Bulli. Este está, aliás, para obras. É o Noma, votado recentemente o melhor restaurante do mundo no S. Pellegrino World’s 50 Best Restaurants. Se o quiserem conhecer e pagar aproximadamente 150 libras por pessoa, desloquem-se a Copenhague e deliciem-se com o extraordinário talento culinário do chef René Redzepi. A cozinha é assumidamente nórdica e baseia-se na qualidade e variedade de produtos naturais que os países mais setentrionais têm para oferecer: plantas, berries, peixe, trufas, cogumelos, flores selvagens. “A pact with nature”, segundo RR, é a melhor descrição para a gastronomia que faz. O sabor desconheço, mas a apresentação é fabulosa: cada prato parece um quadro vivo feito de amor, cor e equilíbrio. “Noma is now on the itinerary of that breed of traveller whose holidays are determined by the demands of their stomach”. http://www.noma.dk/

b) Se forem a Londres, não se esqueçam de ir à Tate Modern. A retrospectiva Gauguin: Maker of Myth está lá até 16 de Janeiro. Muito boa, muito vasta, repleta de informação escrita e visual. Uma noção de cor e de quietude que me encantam! Uma vida inteira para captar a transcendência animista da Natureza.
Li também, algures, que a National Gallery vai organizar uma mega exposição de quadros do Leonardo da Vinci em 2011. Aproveitem, vai ser um verdadeiro evento! Os Leonardos, para além de poucos (segundo alguns especialistas, não mais de 15, máximo 18), são de tal maneira valiosos que só muito raramente saem das suas respectivas casas: do Hermitage, do Louvre, do Museu de Cracóvia, de Milão, do Vaticano e de Washington. Em mãos privadas, há unicamente dois: um num castelo na Escócia, o outro em parte incerta (que por acaso sei onde é…).

c) Na revista Condé Nast Traveller de Outubro, Portugal é citado como o 18º país que os leitores desta revista mais gostam de visitar. O ranking não é brilhante, já que a lista inclui unicamente 20 destinos! Em nº 1 figura a Turquia (do pouco que conheço deste país, faz totalmente sentido!), e Itália, no 4º lugar, é ultrapassada pelo Egipto e Austrália (este lugar já me parece mais discutível….).

d) Architecture of transformation é umas das novas vertentes da arquitectura contemporânea. From Los Angeles to London, building design is improving the lives of the homeless. From the moment people walk in, we want them to think that life is going to get better (extraído do FT de 11 de Setembro). Este o objectivo de arquitectos e urbanistas ligados à reconversão de bairros degradados na periferia dos grandes centros urbanos mundiais. Que maravilha já não se criarem bairros a metro e haver a consciência, real e genuína, de que também os pobres são afectados pelo que os rodeia. A “minha” teoria de que a Beleza cura é capaz de estar certa! Mais: a Beleza deveria ser considerada um direito universal (e não um privilégio das classes afluentes)!

e) Conhecem o hotel mais cool e original de Portugal? http://www.aquapurahotels.com/

Uma explosão de exotismo em pleno Douro vinhateiro. Há quem não goste (poucos), há quem ache o fim do mundo. Não vá pelo que lhe dizem e tire as suas próprias conclusões: tire uns dias a dois num hotel romântico e assumidamente virado para os sentidos. Luzes suaves, aromas delicados, cambiantes de luz natural a entrarem por janelas rasgadas sobre a paisagem circundante, uma extensa escolha de vinhos e uma gastronomia de autor baseada nos produtos locais e nos sabores mediterrâneos. O spa é considerado dos melhores de Portugal. Experimente a sauna panorâmica ou uma massagem à luz de velas. No dia seguinte, faça uma prova de vinhos numa quinta da região ou descubra as gargantas do Douro a bordo dum barco vintage. O Douro, como reconhecia o Público na sua edição de 19 de Setembro último, está na moda!

f) Uma canção de que sempre gostei muito por causa do ritmo. Hoje em dia gosto porque me traz óptimas memórias. Entre outras, a serenidade do verde dos campos ingleses, os caminhos cobertos de folhas outonais, passeios a pé pelas ruas de Chelsea e Notting Hill espreitando os interiores super apetecíveis das casas (não se deve, eu sei), passeios de bicicleta até ao anoitecer, os almoços em pubs barulhentos, os jogos de futebol, Wimbledon, os vídeo-dinners, a opera assistida a partir do “galinheiro” com restricted view do palco, a "visão" do Mick Jagger numa loja exclusiva num 3º andar de Dover Street, o equilíbrio de Russell Square, a categoria de Bloomsbury, os canais do Norte de Londres, pintura mais pintura e mais pintura … tanta coisa…



pcp

30 setembro 2010

Deixa-me rir...

Li, nestas férias, um livro de auto-ajuda. Intitula-se Soul Mates - Honoring the Mysteries of Love & Relationship. O seu autor, Thomas Moore, é americano, ex-monge e actualmente casado. Os seus interesses assumidos são a poesia, a filosofia, a religião, a psicologia… tudo o que se prende com a alma, a imaginação, o tao, o eros, os arquétipos, Jung, Freud, Ficino, Platão, you name it. Não achei o livro brilhante, já que tinha lido um outro dele anteriormente – O Sentido da Alma – que achei francamente melhor. Este é um pouco a repetição do anterior mas mais focado nas relações humanas. Não tendo a profundidade dos tratados – trata-se dum livro para o grande público - dá para perceber que o autor sabe do que fala. Não há uma dúvida que o livro apresenta insights muitíssimo interessantes sobre a linguagem da alma na vida humana. Linguagem que por ser tão encriptada, é trabalho (e que trabalho) para uma vida inteira!

Por junto, Thomas Moore defende que a linguagem da alma deve ser honrada, não-julgada e sempre seguida. O que significa que sempre que seguimos a nossa alma (que em muitos casos se confunde com o coração ou com a intuição), estamos no bom caminho. Independentemente do resultado. Que pode ser, aliás, catastrófico. Por outras palavras, Thomas Moore defende a teoria da fidelidade a si próprio. Até aqui tudo bem. A questão é que TM defende um tipo de fidelidade livre (tanto quanto se pode ser) de convenções sociais, morais ou religiosas. Sistematicamente livre, fazendo da “liberdade” o “verdadeiro” caminho. Mas uma fidelidade vivida, subentende-se, com responsabilidade, maturidade e lucidez. Depreende-se, portanto, que o sujeito da escolha tem plena consciência que acção gera resultado, que o que sentimos, fazemos e dizemos tem consequências no Outro e no mundo.

O outcome do viver na fidelidade a si próprio é o abandono ao mistério, é a construtiva (ou destrutiva?) expansão de nós próprios, é o viver a vida duma forma plena, intensamente criativa, alternando luz e sombra (às vezes profunda sombra, profundo sofrimento), num let it flow permanente. Mas sempre num espírito de aceitação, de entrega e de confiança que a Vida é muito maior e poderosa do que nós próprios.

Impressionaram-me várias partes do livro. Transcrevo uma das mais intensas e polémicas: If we imagine ourselves as being every bit as huge, deep, mysterious and awe-inspiring as the night sky, we might begin to appreciate how complicated we are as individuals, and how much of who we are is unknown not only to others but to ourselves. Our natures will always be largely uninterpretable. If we were only to stop interfering with this vast potentiality of the soul, there would be no telling what we could achieve or how much life would flow through us.

Não acho simples defender esta teoria que parece colocar o Homem no centro da Vida, pleno actor e arquitecto da sua própria existência, removendo Deus para um plano distante, para um papel de mero observador e, sobretudo, de não-Pai. Sim, não, talvez? Cada um sabe de si, cada um tem o seu olhar sobre Deus. Mas também não é fácil viver seguindo consciências excessivamente balizadas que, no limite, podem ser castradoras e não favorecedoras da plena expansão e expressão individuais.

Estou em crer, no entanto, que os Santos e gurus por esse mundo fora e ao longo da História, após anos de reflexão, estudo e sofrimento libertador, chegaram ao ponto que Thomas Moore defende. Naturalmente, e sempre, em total liberdade e consciência, optar pelo Bem, fazer o Bem, gostar do Bem. É chegar a um ponto em que o ego deixa de existir e se funde com o plano divino. Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. Esta mensagem de São Paulo é, evidentemente, cristã. Mas extravasa a Cristandade se entendermos o significado das grandes religiões. Todas falam nessa vivência de profundidade, de comunhão com Algo de maior.

No fundo é como se estes homens tivessem eliminado a cegueira que impede os olhos do coração de verem mais longe (não era disto que tratava a tragédia grega?). É como se estes homens tivessem sintetizado em si a essência de Deus e a essência da Vida. Que, no campo metafísico se fundem, mas que, no plano físico, se tendem a dispersar. Nas palavras de Gandhi, numa felicíssima descrição do que é a Felicidade: Felicidade é quando aquilo que pensamos, sentimos e fazemos se encontram em perfeita harmonia.

Mas quantos de nós estão neste ponto? Quantos de nós chegarão a este ponto ao longo desta vida? Sim, porque não acredito, de todo, na reincarnação e em aprendizagens em vidas subsequentes.

Entretanto, faz-se o que se pode: ouvir, ou não, a voz da consciência. Fazer o que nos apetece ou aquilo para que fomos “programados”. Viver pelo princípio do prazer ou pelo do dever. Viver umas vezes egoisticamente, outras deixando os outros falar mais alto. Ser animal, ou ser espiritual. Resumindo, nas palavras dum amigo muito querido: todos os dias Nossa Senhora me fala, e todos os dias eu escolho não a ouvir.

Verdadeiramente, a liberdade é um mistério, a vida é um mistério, nós somos um mistério (para os outros e até para nós próprios). Por isso, se calhar, é melhor mesmo carpe diem, let it flow, e acreditar que tudo isto da vida é excessivamente grande, bom e felizmente inexplicável para que tentemos dominar ou sequer perceber (nas palavras de outro amigo muito querido).

Meu Deus, cheguei ao início do meu raciocínio! Se calhar Thomas Moore está coberto de razão…ou não estará?

E agora a música, porque é de música que as quintas-feiras tratam. Uma repeater da qual não me canso (tal como do Rui Veloso). Amy Winehouse e a sua forma inconfundível de estar, cantar e sentir a música.



pcp

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