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14 janeiro 2020

Do filme Dois Papas: o meu olhar

Janto com amigos. Das dez pessoas à volta da sala, nove são aquilo a que se chamaria vulgarmente (e algo disparatadamente) católicos praticantes. São pessoas de missa semanal, com militância passada ou presente em movimentos da igreja, com desejos de pertença completa. São católicos discernidos, com um olhar genericamente discernido (embora por vezes pessoal) sobre a Igreja Católica e sobre o que gira à volta dela. 

Fala-se no filme Dois Papas, que passa no Netflix. De entre o grupo há quem tenha visto e há quem não tenha visto. Há quem tenha gostado e há quem não tenha gostado, ou não tenha gostado de um aspecto mais específico. De entre as críticas negativas talvez realçasse o seguinte:

- o excesso de ligeireza do filme;
- a clara preferência do realizador pelo Papa Francisco, muito à custa de Bento XVI; 
- o engano assente na frase "baseado em factos reais";
- a ilegitimidade de se fazer um filme sobre duas pessoas vivas, sem que lhes tenha sido pedida autorização;
- "a importância do Papa que não se compadece com exercícios de ficção cinematográfica".

Sou dos que viram e gostaram do filme, pese embora subscrever claramente as três primeiras críticas referidas acima: há ligeireza na abordagem à vida de Bento XVI, aos temas tratados; a sustentação de que são factos reais é um exercício impossível, apesar de qualquer um dos papas ter proferido alguns daqueles pensamentos numa dada altura. Porem, apesar disso gostei do filme: não achei insultuoso, não achei que denigra claramente a imagem de Bento XVI; vi-o como uma obra de ficção (muito bem filmada), não como um documentário; fixei uns pormenores, não dei importância a outros.

Numa leitura pelas críticas ao filme feitas por gente da Igreja, ou ligada à Igreja, encontra-se de tudo: gente que gostou e gente que não gostou, o que parece dar a entender que, mesmo nos meios católicos equilibrados, não há unanimidade, a não ser na representação desigual de ambos os Papas. Muitas críticas referem a inverosimilhança de algumas cenas, o que é verdade. Talvez o problema não esteja então só no filme, mas no facto de se ter vendido a ideia de que ele se baseava em factos reais. Se virmos o filme como uma espécie de documentário, ele está pejado de disparates. Mas se o virmos como uma obra de ficção talvez ali vejamos coisas interessantes, como a humanidade de ambos, visível na forma como se entusiasmam com o futebol, na imperfeição da obra tocada ao piano, ou no modo como se relacionam com Deus. Não sei, em bom rigor, se Bento XVI e Francisco se confessaram um ao outro nem isso me interessa muito, reconheço. Prefiro demorar-me nas dúvidas interiores que revelam, um em relação ao problema da pedofilia na igreja, outro na sua interacção com a ditadura de Videla. Interessou-me a dimensão da fragilidade humana, mais do que a evidência de uma atitude correcta. Não vi o filme como um panfleto, mas como uma janela que se abre sobre dois homens de carne e osso; vi o filme, talvez, como uma metáfora sobre a condição humana.

***

Num âmbito ainda relacionado com o filme, amigo que prezo afirmou e escreveu-me: "(...) nem consente esta tendência tão tolerada de a Igreja Católica ser tema de domínio público, sobre que todos opinam e botam sentença."

Tenho a dizer que, acima de tudo me espanta o desejo interminável de pessoas que, nada tendo a ver com a Igreja, estarem sempre de olhar atento e crítico sobre a Igreja; indigna-me que na primeira página dos jornais venha o mal que a igreja faz, mas não o bem que pratica; exaspera-me este escrutínio permanente, desequilibrado e persecutório. O que me separa, talvez, da frase deste meu amigo é que a Igreja não tolera tendência nenhuma, porque não está nas mãos da Igreja agir contra esta tendência. 

A Igreja vive num tempo moderno, de twitter e instagram, de whatsapp e notícias ao minuto. Este é, também, o tempo da Igreja - tempo esse a que não pode fugir. O que lhe resta, para além de tudo o que já faz de forma fantástica? Trabalhar o melhor possível, corrigir as más práticas internas, emendar a mão onde deve emendar. A nós, católicos - e, portanto, igreja - espera-se a militância e a defesa. Na minha opinião, fazer um filme - este filme - sobre o Papa (ou sobre dois papas) não fere a dignidade da Igreja nem dos personagens, porque não há insulto e porque o papel de ambos na História do Mundo está muito acima de um filme. A dignidade da Igreja, para além da sua dignidade inerente enquanto Estado, está na pureza com que segue e põe em prática os ensinamentos de Cristo: a atenção aos pobres e necessitados, a luta incansável pela justiça social, o castigo inequívoco de práticas indignas.

Vivemos um tempo de exposição mediática, quer queiramos quer não. Se fizermos o que devemos fazer, e o fizermos bem, não há filme que nos destrua nem diminua - mesmo que diga alguns disparates.

JdB      
    

18 julho 2010

Poder descansar

Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico. Mas vou fazer batota e, no dia em que seria eu a escrever, prefiro postar um texto que mão amiga me enviou e que me parece particularmente adequado para o Evangelho de hoje.


Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso.
Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo para comer, com muitas pessoas à sua volta.

Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco.

Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras. Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar!

Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é.

A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos.

Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana.

Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano.

O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir. Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro.

Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal. Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: "Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...". Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois: "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe".

Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.

(Card. J. Ratzinger, "Esplendor da Glória de Deus" Editorial Franciscana, 2007, pág. 161.)


EVANGELHO – Lc 10,38-42

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus entrou em certa povoação
e uma mulher chamada Marta recebeu-O em sua casa.
Ela tinha uma irmã chamada Maria,
que, sentada aos pés de Jesus,
ouvia a sua palavra.
Entretanto, Marta atarefava-se com muito serviço.
Interveio então e disse:
«Senhor, não Te importas
que minha irmã me deixe sozinha a servir?
Diz-lhe que venha ajudar-me».
O Senhor respondeu-lhe:
«Marta, Marta,
andas inquieta e preocupada com muitas coisas,
quando uma só é necessária.
Maria escolheu a melhor parte,
que não lhe será tirada».

16 junho 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Dando continuidade ao gin de 2 de Junho, que iniciou o aperitivo à mensagem riquíssima que o Papa legou a Portugal(1), é hora de desfiar as 5 temáticas que perfazem o conjunto dos TOP 10 de grandes momentos da sua Visita de Maio

- neste gin:

Fátima na história dos séculos XX e XXI

A alegria de amar – o dom supremo

O ser humano – características e possibilidades

Sofrimento – mensagem aos doentes

Despedida comovida, abraçando as pessoas de boa vontade

- a 2 de Junho:

Perfil de um defensor da liberdade, ao serviço de todos

Portugal visto por um olhar de Pai

Cultura – um Papa fascinado pela Beleza

Esperança – a chave do futuro

O mal radiografado com invulgar coragem

Em Bento XVI, a sabedoria das palavras vem impregnada de um alcance poético impressionante, que lhes confere um colorido e jovialidade invulgaríssimos. Lembro um par de exemplos, nesta viagem: «A ‘Branca Senhora’ na aparição», «com a vela acesa na mão, lembrais um mar de luz», «Quem aprende o Amor… será pessoa para os outros», «servir Cristo na humanidade que vos espera», «num momento em que se falava de Inverno na Igreja, o Espírito Santo criava uma nova Primavera»…

Como os grandes Homens comungam de óbvias afinidades, vem a propósito citar Mahatma Gandhi, com um lema de vida aplicável, na perfeição, a Bento XVI: «Perderei a minha utilidade no dia em que abafar a voz da minha consciência».

Fátima na história dos séculos XX e XXI

- «Fátima, lugar privilegiado da misericórdia de Deus» (19.Maio – Audiência Geral das Quartas, no Vaticano, referindo a Visita a Portugal)

- «Nossa Senhora ajudou (os Pastorinhos) a abrir o coração à universalidade do amor (13.Maio – Missa em Fátima)

- «Que… há 93 anos (em 1917), o Céu se abrisse precisamente sobre Portugal – como uma janela de esperança que Deus abre quando o homem lhe fecha a porta – para reatar, no seio da família humana, os laços da solidariedade fraterna assente no mútuo reconhecimento de um só e mesmo Pai…» (11.Maio – no Aeroporto)

- «Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída. Aqui revive(-se) aquele desígnio de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios… o homem pôde despoletar um ciclo de morte e terror, mas não consegue interrompê-lo. Na Sagrada Escritura é frequente aparecer Deus à procura de justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui, em Fátima…» (13.Maio – Missa em Fátima)

- «…É precisamente de esperança que está profundamente impregnada a mensagem – exigente e ao mesmo tempo consoladora– que Nossa Senhora deixou em Fátima. É uma mensagem centrada na oração, na penitência e na conversão, que se projecta para além das ameaças, dos perigos e dos horrores da história, para convidar o homem a ter confiança na acção de Deus, a cultivar a grande esperança, a fazer a experiência da graça do Senhor para se enamorar dele, fonte de amor e de paz.» (19.Maio – Audiência no Vaticano)

- «… Maria, aparecendo aos três pastorinhos, abriu no mundo um espaço privilegiado para encontrar a misericórdia divina que cura e salva. Em Fátima, a Virgem Santa convida todos a considerarem a terra como lugar da nossa peregrinação rumo à pátria definitiva, que é o céu. Na realidade, todos somos peregrinos, temos necessidade da Mãe que nos guia.» (19.Maio – Audiência no Vaticano)

- «Em Fátima, rezei pelo mundo inteiro pedindo que o futuro traga maior fraternidade e solidariedade, um maior respeito recíproco…» (14.Maio – Cerimónia de Despedida, no Porto)

O cronista do Fígaro, a poucos metros do Papa, na Capelinha imortalizou, nestes termos, o momento da deposição da Rosa de Ouro aos pés da Imagem: «Isto pode parecer ridículo e infantil, mas foi em Fátima que a mais bela espiritualidade da Igreja apareceu, em plena luz do dia. A espiritualidade da criança que sabe que deve tudo a Deus. Escolhi este exemplo porque tive o privilégio de estar a poucos metros do Papa e fiquei impressionado – tocado até – com a simplicidade da sua meditação. Parecia uma criança que trouxe um presente para a sua mãe. Nada existia à sua volta, nem câmaras de televisão, nem a multidão, nem mesmo o estatuto de Papa. Ali, era um grande cristão, humilde, que parecia falar com ‘alguém’ que estava realmente presente. Estas são coisas que normalmente não descrevemos no nosso trabalho como jornalistas, mas, desta vez, o mistério foi ‘palpável’. Nesse sentido, essa imagem resume toda a viagem: o poder da fé, a força de Fátima e a simplicidade humana que fala mais que palavras, porque a fé fala directamente ao coração. É realmente a mensagem chave, fundamental para a fé cristã


A alegria de amar – o dom supremo

- «Recomenda-nos que façamos nosso o estilo do Bom Samaritano … E qual é esse estilo? É ‘um coração que vê.’ Este coração vê onde há necessidade de amor e actua…» (13.Maio – Encontro com a Pastoral Social, em Fátima)

- « (O) Bom Samaritano é Ele, que se faz próximo de todos os homens e… os conduz à estalagem, que é a Igreja, onde os faz tratar… através da justiça e da caridade, para vivermos com um coração de bom samaritano.» (13.Maio – Encontro com a Pastoral Social, em Fátima)

- «Quem aprende de Deus Amor será inevitavelmente pessoa para os outros. Unidos a Cristo… somos tomados pela sua compaixão pelas multidões que pedem justiça e solidariedade e, como o bom samaritano da parábola, esforçamo-nos por dar respostas concretas e generosas.» (13.Maio – Encontro com a Pastoral Social, em Fátima)

- «Aprendei a ouvir e a conhecer a sua palavra e também a reconhecê-Lo nos pobres.» (11.Maio – Missa no Terreiro do Paço, Lisboa)

- «Vivei a vossa vida com alegria e entusiasmo, certos da sua presença e da sua amizade gratuita, generosa… Com o vosso entusiasmo, mostrai que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente ao mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura.» (11.Maio – Missa em Lisboa)


- «Só com este amor de fraternidade e partilha construiremos a civilização do Amor e da Paz.» (13.Maio – Missa em Fátima)

- «… Aqueles que crêem na caridade divina têm a certeza d’Ele que a estrada da caridade está aberta a todos os homens» (13.Maio – Missa em Fátima, citando o Concílio Vaticano II)

O ser humano – características e possibilidades

A grande personagem concebida por Camus, Calígula, verbaliza com especial acuidade a tensão que inquieta o espírito humano: «Quero o impossível. (…) Eis o que me persegue. Este ir para além», à qual Bento XVI, com a sua extrema lucidez, não se esquiva a responder:

- «A razão, como tal, está aberta à transcendência e só no encontro entre a realidade transcendente, a fé e a razão (é) que o homem se encontra» (11.Maio – Encontro com os jornalistas, no avião)

- «… Só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre a morte e a vida do Além.» (11.Maio – Missa em Lisboa)

- «A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro… (O actual) conflito entre a tradição e o presente exprime-se na crise da verdade… De facto, um povo que deixa de saber qual é a sua verdade, fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objectivos grandiosos… A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única garantia de liberdade…» (12.Maio – Encontro com o Mundo da Cultura, no CCB)

- «A relação com Deus é constitutiva do ser humano: foi criado e ordenado para Deus, procura a verdade… tende ao bem na esfera volitiva, é atraído pela beleza na dimensão estética.» (11.Maio – no Aeroporto)

- «Aquilo que fascina é sobretudo o encontro com pessoas crentes que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo dando testemunho d’Ele. (…) é da santidade que nasce toda a autêntica renovação da Igreja… » (13.Maio – Encontro com os Bispos, em Fátima)

Sofrimento – mensagem aos doentes

- «Meu irmão e minha irmã, tens para Deus um valor tão grande que Ele mesmo Se fez homem para poder padecer com o homem, de modo muito real, na carne e no sangue… a partir de então propaga-se em todo o sofrimento a consolação do amor solidário de Deus, surgindo assim a estrela da esperança.» (13.Maio – Saudação aos doentes, em Fátima)

- «…Poderás superar a sensação de inutilidade do sofrimento que desgasta a pessoa… Como é possível? As fontes da força divina jorram precisamente no meio da fragilidade humana. É o paradoxo do Evangelho. Por isso o divino Mestre, mais do que demorar-se a explicar as razões do sofrimento, preferiu chamar cada um a segui-Lo…» (13.Maio – Saudação aos doentes, em Fátima)

Despedida comovida, abraçando as pessoas de boa vontade

- «Desça sobre Portugal e todos os seus filhos e filhas a minha Bênção Apostólica, portadora de esperança, de paz e de coragem… Continuemos a caminhar na esperança! Adeus!» (14.Maio – Cerimónia de Despedida, no Porto)

- «Para todos os portugueses, fiéis católicos ou não, aos homens e mulheres que aqui vivem, mesmo sem aqui terem nascido, vai a minha saudação na hora da despedida. Não cesse entre vós de crescer a concórdia, essencial para uma sólida coesão, caminho necessário para enfrentar com responsabilidade comum os desafios com que vos debateis.» (14.Maio – Cerimónia de Despedida, no Porto)

Haverá melhor prova do sucesso desta viagem, quando o Papa planeia voltar a Portugal e o cronista do Fígaro, Jean-Marie Guénois (já referido), a descreve como um ponto alto do seu pontificado? Citando-o: «O impacto foi mundial, sem dúvida, precisamente por causa do contexto e da capacidade de resposta do povo português… No fundo, o apelo à missão dos cristãos na sociedade… não surge como uma imposição, mas como uma proposta. Não é uma luta sem inteligência contra as forças da razão, mas uma reconciliação com as forças da razão. É assim o pontificado de Bento XVI

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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(1) Para consultar os textos, na íntegra, aceda ao site: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/travels/2010/index_portogallo_po.htm

15 maio 2010

Bento XVI - Encontro com o mundo da Cultura

Centro Cultural de Belém - Lisboa Quarta-feira, 12 de Maio de 2010

Venerados Irmãos no Episcopado, Distintas Autoridades, Ilustres Cultores do Pensamento, da Ciência e da Arte, Queridos amigos,

Sinto grande alegria em ver aqui reunido o conjunto multiforme da cultura portuguesa, que vós tão dignamente representais: Mulheres e homens empenhados na pesquisa e edificação dos vários saberes. A todos testemunho a mais alta amizade e consideração, reconhecendo a importância do que fazem e do que são. Às prioridades nacionais do mundo da cultura, com benemérito incentivo das mesmas, pensa o Governo, aqui representado pela Senhora Ministra da Cultura, para quem vai a minha deferente e grata saudação. Obrigado a quantos tornaram possível este nosso encontro, nomeadamente à Comissão Episcopal da Cultura com o seu Presidente, Dom Manuel Clemente, a quem agradeço as expressões de cordial acolhimento e a apresentação da realidade polifónica da cultura portuguesa, aqui representada por alguns dos seus melhores protagonistas, de cujos sentimentos e expectativas se fez porta-voz o cineasta Manoel de Oliveira, de veneranda idade e carreira, a quem saúdo com admiração e afecto juntamente com vivo reconhecimento pelas palavras que me dirigiu, deixando transparecer ânsias e disposições da alma portuguesa no meio das turbulências da sociedade actual.

De facto, a cultura reflecte hoje uma «tensão», que por vezes toma formas de «conflito», entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro. Mas uma tal valorização do «presente» como fonte inspiradora do sentido da vida, individual e em sociedade, confronta-se com a forte tradição cultural do Povo Português, muito marcada pela milenária influência do cristianismo, com um sentido de responsabilidade global, afirmada na aventura dos Descobrimentos e no entusiasmo missionário, partilhando o dom da fé com outros povos. O ideal cristão da universalidade e da fraternidade inspiravam esta aventura comum, embora a influência do iluminismo e do laicismo se tivesse feito sentir também. A referida tradição originou aquilo a que podemos chamar uma «sabedoria», isto é, um sentido da vida e da história, de que fazia parte um universo ético e um «ideal» a cumprir por Portugal, que sempre procurou relacionar-se com o resto do mundo.

A Igreja aparece como a grande defensora de uma sã e alta tradição, cujo rico contributo coloca ao serviço da sociedade; esta continua a respeitar e a apreciar o seu serviço ao bem comum, mas afasta-se da referida «sabedoria» que faz parte do seu património. Este «conflito» entre a tradição e o presente exprime-se na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo. De facto, um povo, que deixa de saber qual é a sua verdade, fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objectivos grandiosos claramente enunciados. Prezados amigos, há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade. Com efeito, a Igreja «tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do ser humano, da sua dignidade, da sua vocação. […] A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 9). Para uma sociedade composta na sua maioria por católicos e cuja cultura foi profundamente marcada pelo cristianismo, é dramático tentar encontrar a verdade sem ser em Jesus Cristo. Para nós, cristãos, a Verdade é divina; é o «Logos» eterno, que ganhou expressão humana em Jesus Cristo, que pôde afirmar com objectividade: «Eu sou a verdade» (Jo 14, 6). A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao carácter perene da verdade, com o respeito por outras «verdades» ou com a verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer. Nesse respeito dialogante, podem abrir-se novas portas para a comunicação da verdade.

«A Igreja – escrevia o Papa Paulo VI – deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, a Igreja torna-se mensagem, a Igreja faz-se diálogo» (Enc. Ecclesiam suam, 67). De facto, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai. Disso mesmo dá testemunho a presença da Santa Sé em diversos organismos internacionais, nomeadamente no Centro Norte-Sul do Conselho da Europa instituído há 20 anos aqui em Lisboa, tendo como pedra angular o diálogo intercultural a fim de promover a cooperação entre a Europa, o Sul do Mediterrâneo e a África e construir uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos e as responsabilidades dos cidadãos, independentemente da própria origem étnica e adesão política, e respeitadora das crenças religiosas. Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.

Esta é uma hora que reclama o melhor das nossas forças, audácia profética, capacidade renovada de «novos mundos ao mundo ir mostrando», como diria o vosso Poeta nacional (Luís de Camões, Os Lusíadas, II, 45). Vós, obreiros da cultura em todas as suas formas, fazedores do pensamento e da opinião, «tendes, graças ao vosso talento, a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e colectiva, de suscitar sonhos e esperanças, de ampliar os horizontes do conhecimento e do empenho humano. […] E não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita» (Discurso no encontro com os Artistas, 21/XI/2009).

Foi para «pôr o mundo moderno em contacto com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho» (João XXIII, Const. ap. Humanae salutis, 3) que se fez o Concílio Vaticano II, no qual a Igreja, a partir de uma renovada consciência da tradição católica, assume e discerne, transfigura e transcende as críticas que estão na base das forças que caracterizaram a modernidade, ou seja, a Reforma e o Iluminismo. Assim a Igreja acolhia e recriava por si mesma, o melhor das instâncias da modernidade, por um lado, superando-as e, por outro, evitando os seus erros e becos sem saída. O evento conciliar colocou as premissas de uma autêntica renovação católica e de uma nova civilização – a «civilização do amor» - como serviço evangélico ao homem e à sociedade.

Caros amigos, a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura actual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas. Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza. Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza.

03 agosto 2008

Tempo de férias

Tal como há uma semana, começo o texto com a frase: hoje é Domingo, e não esqueço a minha condição de católico. Agosto é o mês das férias por excelência. Não vou correr o risco de maçar os meus potenciais leitores com considerações pessoais sobre esta época. Fica, por isso, um texto de Bento XVI (publicado, penso, em 2007) sobre este mesmo tema. Boas férias, para quem as goza, ou está em preparação para.

Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso. Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo para comer, com muitas pessoas à sua volta. Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco. Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras. Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar! Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é. A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos.Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana. Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano. O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir. Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro. Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal. Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: "Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...". Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois: "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe". Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.

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