terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Moleskine


Desceu a rua, atravessou a estrada e voltou à esquerda. Esperou que o comboio das vinte e oito passasse antes de se aventurar no túnel. Não havendo memória de acidentes naquele túnel, ele sabia que o receio lhe assentava mal, como uma pústula incomodativa na face imberbe de uma criança. Repetiu rotinas: olhou para o mar, depois para a direita e para a esquerda, fixou as horas no telemóvel. Só depois se atirou a uma espécie de marcha lenta, algo semelhante a um passeio rápido. 

Ao quilómetro 1,250 cruzou-se com a russa, corpo de lançadora de peso, que palmilhava falando demoradamente ao telefone; alguns metros depois encontrou a jovem adolescente que corria ligeira e que sempre o impressionara pela magreza dos pés, pernas, coxas e ancas, transformando a futura maternidade num exercício quase impossível: onde caberia um feto com três quilos ali dentro? Continuou o passeio e cruzou-se com a temente a Deus, pouco antes do quilómetro 2,500, uma caminhante de braços muito abertos, com um terço numa mão e uma garrafa de água na outra, acenando a toda a gente, como se o mundo dela girasse entre avé-Marias e catiões; já ao quilómetro 2,850 encontrou a rapariga bonita e com boa figura, rondando os 30 anos, que se cruzava com ele baixando os olhos, vítima inconsciente, quiçá, de uma cultura injusta de submissão feminina; mais à frente era o bancário absorto na sua música, depois o idoso com os pés metidos para dentro num andar vagaroso, a senhora elegante que ao longe poderia ser uma das próprias filhas, o que a tornaria numa tia dos netos que já tinha, e ainda os atletas que corriam suados e esforçados, ou as colegiais que àquela hora matutina já fumavam junto às gaivotas e beijavam os namorados numa boca que ainda sabia a noite.

No dia seguinte tudo se repetia: o túnel, a russa, o bancário talvez não, o idoso dos pés metidos para dentro, a adolescente com a espessura de um pergaminho, as colegiais de beijos dengosos e cabelos matutinos já a cheirar a fumo, a rapariga dos 30 anos que baixava os olhos e cujo oscilar dos braços era ligeiramente assimétrico, a temente a Deus, os atletas e mais o homem que punha as cadeiras da esplanada num alinhamento de zona exclusiva, os pescadores, os jovens surfistas a olhar para o mar e a cavalgar a onda, o homem com o labrador, a estrangeira a dar instruções alemãs ao rafeiro, as duas amigas entretidas na sua conversa, o antigo ministro, e tantos outros. De todos estes personagens fixaria a rapariga dos 30 anos pela graça física e pelo mistério, inventando-lhe histórias, imaginando-lhe livros preferidos, motivos de riso e de choro, irmãos, namorados, intensidade dos beijos, fetiches, desejos, bolos preferidos, formas do corpo, sensualidades escondidas. 

Tudo se intensificaria quando uma dia, numa distracção qualquer, quase chocara com ela e lhe pedira desculpa, tocando-lhe ao de leve num braço. Sorriram, porque afinal já se conheciam dali, de todos os dias, do quilómetro 2,850, talvez, ou um pouco antes, se ele passasse o túnel antes do comboio das vinte e oito. Ao cruzarem-se na volta inversa voltaram a sorrir um para o outro e ela corou, olhando para o chão, engolindo a resposta a um até amanhã que ansiava por um sinal claro.   

Mudemos de tempo verbal. 6ªfeira desce a rua, atravessa a estrada, e volta à esquerda. Espera que passe o comboio e atravessa o túnel. O mar está alteroso, nuvens negras formam-se no céu a uma velocidade vertiginosa. Olha para a esquerda e para a direita, fixa as horas no telemóvel. Começa a andar mas não encontra ninguém, porque o tempo não está propício nem mesmo para os atletas, e as colegiais beijarão os namorados de calças caídas noutro lugar menos bonito, mas igualmente eficiente para o fim em questão. Dois minutos depois caem bolas de golfe do céu, como se o granizo fosse vómito mecânico de um dispositivo desregulado e violento. Regressa rapidamente ao túnel que se transforma agora no seu nautilus, no seu mundo seguro onde tudo está ao alcance de uma mão, ainda que o universo desabe em água e gelo. Dois minutos depois, ao som de uma trovoada gigante, entra a rapariga dos 30 anos, e os olhares de ambos cruzam-se numa fugacidade quase incómoda. Estão ali os dois, em silêncio e numa prisão, porque abandonar o túnel é largar a nave rumo à ausência da gravidade, à inexistência das coisas

Há o medo do granizo, do ruído, do mar alteroso, da escuridão que tudo envolve, da água onde já se chapinha nas extremas do túnel. Há o desejo latente, a protecção, a certeza de que nada mais mexe a não ser o coração de cada um, o sangue que corre desenfreado nas veias, uns braços que se agitam numa ligeira assimetria, uns olhos que fixam o chão num pudor de faces coradas, a curvatura de umas costas que desaguam em duas dunas, umas mãos que querem soltar-se. Há uma respiração mais ofegante e que projecta fumos intensos, uma aproximação gradual dos corpos e das vontades, o granizo, o vento, duas bocas entreabertas, dois rostos que se vêm embora vislumbrem ambos o mar que cresce ao limite do temor físico. Não há nomes, apenas encontros regulares ao quilómetro 2,850 ou antes, depende do comboio das vinte e oito, das greves, da operacionalidade do material circulante, da resistência da catenária.

O telefone toca insistentemente, metalicamente, inoportuno e desajeitado. Do lado de lá uma voz irritada:

- Estou! Zé Maria? É o Martim. Eh pá, estou cá em baixo há meia-hora! Adormeceste, pá?  

Zé Maria, assim se chama ele, olha em volta do quarto, agitado e confuso. Vê os livros de gestão hoteleira, o retrato do avô quando fez 80 anos, a saga do senhor dos anéis, o diploma de melhor jogador juvenil no seu primeiro torneio de golfe, as fotografias com a Carlota em Aspen e Angra dos Reis, a prancha de surf, uma gravata com o nó ainda feito, umas calças de fazenda atiradas para uma cadeira, a fotografia da mãe com o padrasto em Veneza, do pai com um capacete na Arábia Saudita, da irmã não sabe onde. Olha em volta e não encontra a rapariga dos 30 anos, não vê granizo, não ouve o mar, não sente o vento nem a curvatura de umas costas que desaguam em duas dunas.

- Ouve lá, Martim. Se eu adormecer agora ainda consigo recuperar um sonho?

JdB

1 comentário:

ACC disse...

Texto delicioso e cheio de graça.
Confirma no entanto a minha convicção de que os homens se fascinam por mulheres que exibem um ar desprotegido, submissamente ruborizado, levando os homens a pensar que é pudor...
Só lhes falta bater a pestana!!!!
Boa semana JdB

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